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terça-feira, 24 de abril de 2012

Emersão da escuridão


São só cinco minutos. Volto já (erigi a placa infernal) ao conforto identitário das trevas na época de triunfo dos esbirros das nobres causas e dos actos majestáticos – os que confortavelmente se consideram semideuses, pais da pátria, canalhas impunes no alto da sua torre de marfim.
E porquê? Apenas para aplaudir o magnífico trabalho da Asa na limpeza de esteticista dos vetustos frontispícios das obras de Paul Auster. São deslumbrantes e o Miguel Seara mostra-as aqui em pormenor.
Aproveito a oportunidade para a publicação da minha volúvel austerlista, que talvez se manifeste numa estranha, porque disciplinada, recapitulação bienal, pela recordação de um instante, o punctum que sobrevém pela câmara clara da minha memória:
  1. Leviathan (1992)
  2. A Música do Acaso (The Music of Chance, 1990)
  3. A Trilogia de Nova Iorque (The New York Trilogy, 1987)
  4. Invisível (Invisible, 2009)
  5. O Livro das Ilusões (The Book of Illusions, 2002)
  6. Palácio da Lua (Moon Palace, 1989)
  7. No País das Últimas Coisas (In the Country of Last Things, 1987)
  8. Sunset Park (2010)
  9. Timbuktu (1999)
  10. Mr. Vertigo (1994)
  11. As Loucuras de Brooklyn (The Brooklyn Follies, 2005)
  12. A Noite do Oráculo (Oracle Night, 2003)
  13. Homem na Escuridão (Man in the Dark, 2008)
  14. Viagens no Scriptorium (Travels in the Scriptorium, 2006)

Imerjo, com o capacete de bombeiro… Por vezes a identificação estética é abalada por uma certa obscenidade de discernimento que estilhaça a convicção do mais devoto, embora neste caso, conceda, é sempre auto-reparável.
«1952. Aos cinco anos, despido na banheira, só, suficientemente crescido para te lavares sem ajuda, e enquanto estás estendido de costas na água quente, o teu pénis fica de repente erecto, emergindo acima da linha de água. Até esse momento, apenas havias visto o teu pénis de cima, de pé e a olhar para baixo, mas a partir desta nova posição estratégica, mais ou menos à altura da linha de visão, discorres que a ponta do teu órgão masculino circuncidado exibe uma semelhança notável com um capacete. Um género antiquado de capacete, como o que os bombeiros usavam nos finais do século XIX. Esta revelação é-te agradável, porque nesta altura da tua vida a tua maior ambição é seres bombeiro quando cresceres, considera-lo como o trabalho mais heróico à superfície da terra (sem dúvida que o é), e quão conveniente é que tenhas um capacete de bombeiro esculpido em ti próprio, precisamente na parte do corpo que, para além disso, se parece e funciona como uma mangueira.»
Paul Auster, Diario de invierno (Winter Journal), pág. 22.
[Tradução: AMC; edição espanhola da Anagrama, Fevereiro de 2012 – a edição original americana é publicada em Agosto.]

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Bolas


É a designação inglesa. Ovos, a espanhola. Por cá ficámo-nos pela referência hortícola, embora a sinonímia seja bastante rica e imaginativa.
Não sei a razão por que ainda me exponho, mas acabei de levar uma valente biqueirada testicular – imagine-se! – pelo conteúdo de seis páginas de um livro – aconselho a leitura simultânea de dois ou mais livros para atenuar a dor (acreditem, é como o recomendado gelo para as tumefacções).
Seis páginas onde, na versão portuguesa, se fala de tintins (sic) e de pontapés nos mesmos, e debate-se sobre a dor lancinante que as mulheres desconhecem, fazendo-se a analogia com o fim do mundo e o filme de 1959, realizado por Stanley Kramer, A Hora Final (On the Beach), curiosamente baseado numa obra catastrofista de Shute – parece um imperativo.

Os guizos do fim da paciência já se fazem ouvir… 1Q84.

sábado, 7 de janeiro de 2012

Acossado por Murakami

Nos idos de Julho de 2007, após a leitura em primeira mão de Em Busca do Carneiro Selvagem do escritor japonês Haruki Murakami, decretei um período de pousio murakamiano para o meu nervo óptico. O pousio mantinha-se, persistente, inabalável e sem saudosismos, até que ao aproveitar para fazer a alusão à estreia iminente do último filme de um realizador muito cá da casa, o vietnamita Tran Anh Hung, que adaptara parte da, por mim considerada, melhor obra de ficção de Murakami (Norwegian Wood), confessei que o compromisso fora quebrado (subsistiu, ainda assim, três anos), e o arrependimento que sobreveio foi de certa forma angustiante (como nessa altura comentei).
Quinze meses decorridos, verifico que o filme de Anh Hung passou ao lado das salas de cinema portuguesas, apesar de ter sido adquirido pela maior distribuidora e detentora de espaços de projecção em Portugal, a ZON Lusomundo, e surgiu apenas no circuito comercial de DVD em parceria com a FNAC. A propósito de uma salutar discussão sobre esta inevitabilidade nacional, a pequenez do nosso mercado associada à recalcitrante iliteracia do português médio, foi-me recomendada a leitura do último romance editado em Portugal pelo escritor nipónico, convertido em orwelliano de olhos em bico, escreveu 1Q84 – lido em japonês soa a 1984, já que “9” e “Q” são palavras homófonas. Fiquei a saber que o volume que me habituara a ver em destaque nos escaparates das livrarias neste Natal (e sempre nos espaços reservados aos tops de vendas), trata-se apenas do primeiro livro (ou calhamaço) de três (com tantas ou mais páginas) da obra proto-orwelliana, cujos restantes livros irão sair a conta gotas durante este ano (fazer render o peixe, e que bem serve ao quase ictiólogo Murakami dada a profusão de cardumes nos seus livros).
Informo, para que conste onde convier, que adquiri o Livro 1 de 1Q84 de Haruki Murakami (ed. port. Casa das Letras; obra original: 1Q84 – Book 1, 2009), e, mal o abri, as razões determinantes para o início do pousio acima referido surgiram em forma de náusea – apesar da minha inata teimosia, insistindo e esforçando-me para que a sua leitura apenas termine na página 487 e quiçá, percorra os restantes volumes ainda no prelo –, vívidas rememorações de um subgénero literário nipónico do realismo mágico sul-americano: o(a) protagonista desgraçado(a) íntegro(a) e idealista, os personagens esfíngicos – normalmente velhos e cruéis , a presciência zoológica – habitualmente peixes e gatos –, o lesbianismo pubertário com descrições tácteis de pétalas de rosa, os edifícios e quartos misteriosos com alçapões para o inconsciente, os poços e as perturbações espácio-temporais, com desmaios inexplicáveis.

E a ervilha-verde demorou mais de seis páginas para descer as escadas de segurança metálicas de uma auto-estrada, com intensas recordações sáficas da sua adolescência à medida que ia pisando descalça os frios e rugosos degraus de metal.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Cocky & Tacky (como prometido)


Depois do 6.º aniversário desta coisa e, não vindo a talho de foice – a questão é mesmo uma ceifa apocalíptica sanjoanina evangelista, com direito a trombetas e a juízo (o muito que escasseia, não só por aqui…) Onde ia? Ah! E por haver falado nesse dia festivo num greasy cocky, ligando-o ao momento presente em que me debato por rememorar os poucos filmes que passaram pelos meus olhos (por comparação com anos anteriores) estreados em Portugal durante o ano em causa, emergiu a cockiest moda fílmica do ano que se apelida (enrolando línguas) Apichatpong Weerasethakul e o seu tacky-picture O Tio Boonmee que se Lembra das Suas Vidas Anteriores, escolhido por aquela coisa chamada Tim Burton que encabeçava um grupo que premiou Javier Bardem pela sua interpretação no horrendo Biutiful (look at the pun, there) e que incluía, inter alia, o canastrão Benicio, a presumivelmente douta Beckinsale, o requisitado Desplat (qualquer dia musica até a Casa dos Segredos), a menina “Meio-Dia” (que, conceda-se, tem uma interpretação soberba no fabuloso Vincere de Bellocchio), ou o recalcitrante indiano isabelino.
E uns tempos depois, vendo-o no grande ecrã, reflecti sobre a origem da náusea e concordei com os poucos que ousaram profanar a transmigração das almas de escolha burtoniana, como já mencionei aqui naquele dia fatídico, e reproduzo um par de frases que me fez rir de satisfação:
«Uncle Boonmee believes his encroaching kidney failure is karmic retribution for having killed “too many commies,” as well as “lots of bugs.” The viewer is free to calculate how many domestic-terrorist insects he may have palled around with.» (TheBoston Phoenix)
Hã? Fustigação ou zurzidela? Não me preocupa, até porque hoje, à hora de publicação deste texto, passeio-me certamente, findos os afazeres, pela Galleria Vittorio Emanuele II, percorrendo lentamente o trilho urbano entre o Teatro alla Scala e il Duomo.


In bocca al lupo a tutti giovani e spavaldi cinefili, e dai giudizi affrettati degli altri!

sábado, 20 de novembro de 2010

O Armário e o Paquiderme*

Por vezes sou paquidérmico em relação a determinadas opiniões, que mais não são que pré-conceitos em estado latente prontos a serem arremessados para a arena de “olha que contra a corrente que eu sou”.
Não gosto mesmo nada de me citar, nem de fazer das minhas opiniões sentenças, até por razão de manter algum contacto com a realidade: ninguém lê este blogue – ou melhor, pedindo desculpa aos que me lêem, cerca de meia dúzia, tenho a consciência de que qualquer opinião que aqui emita jamais será considerada em qualquer microtertúlia em que se discuta cinema, literatura, ou qualquer outro tema que aqui desenvolvi. Não é falsa modéstia, é apenas a constatação da realidade: não distribuo empregos, nem abraço políticos, não sou dono de uma editora, não escrevo em jornais ou revistas, vivo (e espero continuar a viver) no Porto, sou apartidário, embora a minha condição de blogger dispensável se agrave por uma certa dextralidade política (o que é isso?), sou agnóstico, sempre dubitativo (e não dúbio), estou-me perfeitamente nas tintas para líderes e pseudo-líderes, para os tipos que se dizem éticos (esta é das melhores lidas ultimamente), chefes, autoridades (sobre qualquer matéria); nisso sou um anarca (não estender muito o conceito, por favor), libertário, anticonservador, cultor do meu pensamento livre (jamais constrangido), sem o fim último de insultar a diferença, embora por vezes uma boa provocação à laia de insulto sirva para aliviar um pouco desta minha idiossincrática carga emocional fortemente compressora.
Não preciso de sair do armário (pronto, já arrumei com o título), nem sinto a necessidade de me revelar, muito menos de encetar qualquer manobra de diversão que permita deixar-me mais confortável perante alguém.
A 2 de Outubro passado disse aqui:

«A primeira e, pelos vistos, frutuosa união Fincher & Sorkin chega cá no próximo dia 4 de Novembro, e tenho uma forte suspeita de que, por terras do primeiro-ministro filósofo (…), onde predominam as mentes preclaras, levará no mínimo com uma bola preta… Há quem culpe o realizador de Denver por haver realizado alguns telediscos, uma mácula jamais expurgável na carreira de um cineasta.»
E a bola preta veio de onde mais esperava: o algoz do realizador de videoclipes para Madonna, Paula Abdul, George Michael, Sting, entre outros, dificilmente reconhecerá qualquer mérito ao realizador de Denver, só se, por uma análise da crítica intracomparada, conseguir vencer um reaccionarismo, que o próprio julgará tratar-se de criatividade e de ambição cinematográfica, tal como proferia o polémico Ben Marcus nas artes literárias. Adaptando o texto à sétima arte, vem: aqueles que procuram assegurar que a cultura se afaste do progresso cinematográfico, aqueles que insistem que os sucessos fílmicos do passado devem ser solidificados, polidos e praticados pelas gerações mais jovens. Qualquer adaptação à realidade vigente é um sacrilégio. Logo, mais vale filmar de câmara ao ombro um bairro degradado de Manila e contratar uma dúzia de actores não profissionais e com uma fotografia deslavada, sem artifícios, contar uma história banal, para não se cair na malfeitoria do truque fácil de câmara, jogos de luz, filtros e montagem, e demais maquinaria associada – a profanação do cinema.
A concretização da profecia (mesmo antes de ter visto o filme, que, suponho, vi no dia a seguir à estreia – 5 de Novembro), levou-me, como já aqui disse, a suspender e arremessar para o arquivo de ficheiros “ponto doc” mortos a minha opinião mais elaborada sobre a última obra de Fincher**. Mas estarei sempre disponível para exteriorizar uma boa irritação, como se não bastasse, para não danificar ainda mais as paredes desta panela de pressão, já de si bastante combalida e com cicatrizes de repressões de antanho. O outing é a minha forma de vida. E já agora a de exibir algumas opiniões de quem muito respeito nesta matéria, apesar de discordâncias viscerais noutras ocasiões, o fio condutor no exercício da crítica jamais se cristalizou num conservadorismo bafiento:
«O filme de David Fincher possui não só a rara qualidade de ser tão inteligente como o seu brilhante herói, mas é-o da mesma forma. É arrogante, impaciente, frio, excitante e instintivamente arguto.
(…)
“A Rede Social” é um grande filme, não só devido ao seu estilo deslumbrante ou ao seu engenho visual, mas porque é admiravelmente bem-feito. Apesar das desconcertantes complicações da programação informática, da estratégia da Internet e da grande finança, o argumento de Aaron Sorkin torna tudo compreensível, e não seguimos com tanta força a história como somos puxados para detrás dela. Eu assisti ao filme rodeado por uma audiência que parecia absorta de uma forma invulgar: encontrava-se amplamente fascinada.»
Roger Ebert, “The Social Network”, Chicago Sun-Times, 29/09/2010.
Para terminar, e para um bom momento de descompressão, como seria A Rede Social se filmada por Wes Anderson, Michael Bay, Christopher Guest, Quentin Tarantino, Guillermo del Toro ou Frank Capra?

Notas: *este título não se inspirou em qualquer obra do realizador, tão cauterizado pela crítica em Portugal, Julian Schnabel.
**A minha indefectibilidade fincheriana será posta à prova no passo que o realizador do Colorado está prestes a dar. Trata-se de um remake de um filme sueco estreado no ano passado sobre o primeiro livro da trilogia-dos-títulos-em-comboio do escritor já desaparecido Stieg Larsson. Entretanto, continuo em aulas de mentalização para considerar uma obra-prima o terceiro filme da série Alien. Depois do 8.º Passageiro de Scott (o Ridley, o menos apimbalhado dos manos) e do Recontro Final de Cameron, e antes da Ressurreição do Jeunet, suponho que não necessitarei de uma sala fechada com grampos nas pálpebras para a Desforra de Fincher.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Biopic

«-noun
(informal) a film based on the life of a famous person, especially one giving a popular treatment
[from bio (graphical) + pic (ture)]»
Collins English Dictionary – Complete and Unabridged, 10th Edition.
Seguido de:
«You’re not an asshole, Mark. You just want to be.»
[Do argumento de Aaron Sorkin, The Social network, pág. 160 – última fala do filme, proferida pela assistente do advogado ("Sy") de Zuckerberg, "Marylin".]
q.e.d.
Sugestão de temas a desenvolver:

  • Facebook e o mundo.
  • A privacidade e o Facebook.
  • Facebook e a dependência afectiva.
  • O Facebook e a alienação da identidade.
  • Manuel Alegre: "Cavaco Silva serve-se do Facebook enquanto PR" – A instrumentalização capitalista de Cavaco patrão / Cavaco costureiro.
  • Beijei a fotografia do perfil do Facebook de Rui Santos (o tal do cabelo encaracolado), será que estou grávida?
  • O Facebook e a modernidade: a impossibilidade de dissociar estes conceitos, ou o emparelhamento inextinguível – estudo de críticas cinematográficas.
  • Fincher começa por F… acebook, o que faltou incluir no F… ilme para o transformar numa obra rivettiana, F… oda-se.

sábado, 13 de novembro de 2010

Desisto

Após esta leitura:

«Depois de “Se7en”, David Fincher nunca mais atingiu as mesmas alturas, talvez porque se tenha deixado deslumbrar pelo seu virtuosismo, mais interessado em explorar jogos de imagem e surpresas de peripécias em reviravoltas constantes.»
Breve crítica de Mário Jorge Torres, Público, CineCartaz e Ípsilon.
Desisto de postar aqui o texto que há uma semana vinha a congeminar nos intervalos da minha esgotante e, ultimamente, tumultuosa e angustiante actividade. Não sou crítico de nada, sou apenas, nestes domínios, um cinéfilo. Agarro nesta arte da projecção de ideias na grande tela com a paixão de um amante persistente não só da estética, mas também da técnica que a apurou. Preocupo-me menos com o corolário ético do «interrogar as manobras de poder e tocar nas contradições da modernidade», porque esse nunca foi o objectivo – faz-se a luz sobre um homem só, que aos dezanove anos começou do nada a erigir um império.
Não pretendo fazer a crítica da crítica ou dos críticos, embora esteja convicto de que todos nós, os que laboram nas mais diversas actividades cujo objectivo final é a exposição das nossas formas de pensar, sentir e/ou agir perante o mundo, jamais seremos possuidores do direito divino de proibir o seu escrutínio – negar esse exercício equivale a escrever entradas pueris num diário que se aferrolha ao fim de um dia de exaltações, tristezas, êxitos e frustrações, para mais tarde deitar fora a chave –, what lies beneath
Desisto, mas deixo ficar uma sugestão: o excelente texto escrito pelo Sérgio Lavos a propósito do último trabalho de Fincher, A Rede Social (The Social Network, 2010). O tal que agora terminava, iniciava-se com uma rememoração (regressão), porventura fetal, e partia da técnica para estética: a fabulosa cena inicial num bar de Harvard e a viagem ao som do mestre Reznor, “Hand Covers Bruise”, até à consumação do pecado original na construção do personagem (que é real), e que acompanha os créditos iniciais até à sua entrada na Kirkland House: «Universidade de Harvard Outono 2003» (Fincher pretendia filmá-la num só take com a, segundo dizem, intrincada RED One®, que pediu de empréstimo ao seu amigo Steve [Soderbergh]).
Desisto, mas não resisto em deixar aqui, para memória futura, o começo do que estava escrito (excerto de um texto bastante mais longo – até poupei tempo ao leitor e meio que teimosamente me visita):


Um silêncio invadiu a sala durante os primeiros dez minutos após o último anúncio. A memória, por vezes traiçoeira, porém associativa num movimento perpétuo de sinapses, conduziu-me à infância. A estância – a última antes da reprise – concebida por uma trupe londrina de quatro (por justaposição à de Liverpool que sublima o final), quando ainda o calor líquido do ventre materno me afagava e abafava os sons psicadélicos que se lhe uniram numa perfeição eloquente, de vibração, tremor, oscilação – Respira:

Corre, coelho corre
Cava esse buraco e esquece-te do sol
E quando enfim o trabalho terminar
Não descanses é tempo de voltares a cavar
Por muito que vivas e por mais alto que voes
A menos que sigas com a maré
E te equilibres na maior das ondas
Lanças-te rumo a uma morte prematura.
Pink Floyd, Breathe” (The Dark Side of the Moon, 1973; tradução livre: AMC, 2010)
Retomo ao silêncio embasbacado. Palavras proferidas em torno de uma mesa. Um diálogo frenético em tons pardacentos à mesa de um bar de Harvard. O fim, como revelação para a teia apocalíptica que se seguiria, envolvendo tudo e todos sem dó ou recuos perante a constatação do que se foi estilhaçando pelo caminho. Nove páginas do argumento de Sorkin equilibradas por um jogo de palavras que se entrecruzam sem se tangerem, que se esgotam com o murro no estômago:

«Ouve-me. Tu vais ser rico e ter imenso sucesso. Mas irás passar toda a tua vida a pensar que as raparigas não gostam de ti porque tu és um maníaco dos computadores. E eu só quero que saibas, do fundo do meu coração, que não irá ser esse o verdadeiro motivo. Será porque tu és uma besta.» [Do argumento de Aaron Sorkin, pág. 8; tradução livre: AMC]
[Textus interruptus]
Fincher 8 (obras-primas destacadas):
  • Alien 3 – A Desforra (Alien3, 1992)
  • Se7en – Sete Pecados Mortais (Se7en, 1995)
  • O Jogo (The Game, 1997)
  • Clube de Combate (Fight Club, 1999)
  • Sala de Pânico (Panic Room, 2002)
  • Zodiac (2007)
  • O Estranho Caso de Benjamin Button (The Curious Case of Benjamin Button, 2008)
  • A Rede Social (The Social Network, 2010)

domingo, 10 de outubro de 2010

O Homem a Abater

Prometi a mim mesmo que dificilmente falaria aqui neste “novo” espaço – novo de Abril de 2008, pós Porque e In Absentia (textos integrados neste) – de futebol, por tudo o que isso implica: a irracionalidade de uma paixão desenfreada que embota os sentidos e hostiliza os amigos; que induz o homem mais pacífico a assumir, por palavras e actos, posições e comportamentos ignóbeis, mesquinhos, perversos e até criminosos; em suma, uma mescla de Mary Shelley e Anne Rice a criar monstros trogloditas, vampíricos, todos os dias. E não exagero. Atentem nos meios de comunicação social e nos blogues ditos de referência. É o vale tudo na arena sanguinária da opinião na imprensa engajada com as centrais de comunicação e com a inexpugnável clubite de jornalistas que, num país sério, há muito deveriam ter perdido a sua carteira profissional; é a selvajaria nos blogues, mesmo naqueles que se afirmaram pelo debate de ideias e sobre outros assuntos, nunca se dedicando em exclusivo ao fenómeno desportivo, cujos textos clubistas transformam, do dia para a noite, os outrora admiráveis livres-pensadores em facínoras de palavra acutilante em riste, pronta a decepar os mais incautos e de pensamento livre.
Nas vésperas do centenário da Implantação da República em Portugal, André Villas-Boas – a 13 dias de completar 33 anos – passou a ser mais um dos alvos em movimento. Os jornalistas arregimentados, os opinadores pagos à peça, os bloggers facciosos, os paineleiros da insídia e da inveja, não tardaram a sair do armário com todo a sua fúria, contida ao longo de seis longas jornadas futebolísticas e de onze jogos de invencibilidade. O veneno, esse, ia-se-lhes acumulando lenta e perigosamente nas glândulas pestilentas e a oportunidade surgiu com o justo desvario do rapaz na noite de 4 de Outubro – desatinos, sem consequências, que os treinadores e os directores desportivos das agremiações protegidas neste mundo desigual descerram, terminadas as inúmeras partidas, no centro do relvado acompanhando os árbitros, decerto com elogios e panegíricos entusiastas, até à boca do túnel. E a destilação do ódio não acalmou mesmo tendo o jovem treinador vindo a terreiro desculpar-se pela injustiça das suas críticas relativamente ao lance que o atirou de antecipação para os balneários pela primeira vez na sua curtíssima carreira – apesar do golo irregular do oponente, dos fora-de-jogo mal assinalados, da violência quase criminosa dos jogadores oponentes (ah, e aquele imberbe facínora, ao arrepio da prática comum aos seus companheiros de profissão em equipas adversárias noutros jogos, não falou da eventual grande penalidade cometida na grande área portista).
Porém, o xistrema já estava montado, com toda a sua carga, folclore e ressentimento provinciano, balofo, saloio (ou como o quiserem qualificar), e a retirada perante o mea culpa do jovem inimigo seria mais dispendiosa que continuar a alimentar a fogueira do rancor, da caricatura soez e do incitamento à violência. A pesada máquina estava em estado de prontidão e iniciou-se a rentabilização do investimento inicial que só alcançará, pelo menos, um valor actual líquido (npv para os anglófilos das finanças empresariais) de zero em Maio de 2011, se o verde-lagarto ou o vermelho-lampião-ofuscado circular de bandeiras desfraldadas, com uma turba a cuspinhar impropérios perante as sedentas câmaras de televisão da capital do império.
Mas há coisas que os supra-referidos não conseguem controlar, como o fazem nos Ministérios da Justiça e da Administração Interna, com o PGR e os procuradores-adjuntos, com a imprensa, com as marionetas adestradas dos horrorosos e estupidificantes programas de debate futebolístico nas televisões e numa estação de rádio pública, no Elefante Branco e casas congéneres, com os órgãos da Liga e da FPF (então com o futuro presidente Seara…):
Parabéns, homónimo.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Óscares – Melhor Filme Estrangeiro (Parte II)



Em cima do acontecimento, revelei aqui os nove filmes de língua estrangeira pré-seleccionados para integrarem a listagem final de cinco candidatos aos Óscares, a ser divulgada no próximo dia 2 de Fevereiro em Hollywood. Prometi mais considerações, mas antes disso relembro a lista, de certa forma mais arrumada em relação ao texto anterior.

Eis, então, os 9 Semifinalistas (por ordem alfabética do país de origem):
  • Alemanha, O Laço Branco, de Michael Haneke (Das weisse Band // The White Ribbon);
  • Argentina, El Secreto de Sus Ojos, de Juan José Campanella (The Secret in Their Eyes);
  • Austrália, Samson & Delilah, de Warwick Thornton;
  • Bulgária, Svetat e golyam i spasenie debne otvsyakade, de Stephan Komandarev (The World Is Big and Salvation Lurks around the Corner);
  • Cazaquistão, Kelin, de Ermek Tursunov;
  • França, Um Profeta, de Jacques Audiard (Un Prophète // A Prophet);
  • Holanda, Oorlogswinter, de Martin Koolhoven (Winter in Wartime);
  • Israel, Ajami, de Scandar Copti e Yaron Shani;
  • Peru, La teta asustada, de Claudia Llosa (The Milk of Sorrow). 
Algumas observações:
  1. A família Kennedy & afins aglutinados da lusa intelligentsia (Soares & Barroso), viu, não sei com que estado de espírito, o filme realizado por um dos seus rebentos ser preterido pela Academia. Para a 82.ª edição dos Óscares de Hollywood, o nosso venerado e certeiro ICA escolheu o pseudo-pós-modernista (que linda palavra composta) Um Amor de Perdição, realizado por Mário Barroso (nome que foi buscar o melhor aos dois mundos atávicos). Por lá chamaram-lhe Doomed Love, representante, entre outros 64, deste Doomed Country pelo espectro da mediania. Com ou sem assombração paralisante, o nosso país ficou de fora. Já é um clássico que convém alimentar anualmente – sinceramente, não sei se, por alguma vez – e se foi, quantas –, um filme do Mestre Oliveira foi nomeado para enfrentar a concorrência mundial.
  2. Destaco também alguma burrice espanhola nesta edição. Com efeito, quando todos esperavam a nomeação do extraordinário filme de Almodóvar – que deixou a crítica cinematográfica americana uma vez mais rendida à excelência do realizador manchego –, o filme designado para o concurso foi o último realizado pelo madrileno Fernando Trueba, El baile de la Victoria, que nos leva à eterna discussão – embora salutar porque ocupa tempo com inanidades poucos gastadoras de energia cerebral – entre Cinema e Literatura (e as cabras continuam a comer metros de celulóide…) O aclamado realizador de Bela Época (Belle Epoque, 1992; vencedor do Óscar para melhor filme estrangeiro em 1994) resolveu adaptar para o grande ecrã o miserável romance de 2003 do escritor chileno Antonio Skármeta, A Dança da Victoria (El baile de la Victoria), que deve ter deixado a sua marca no autor, porque desde então não publicou obra alguma – entre nós, o livro foi editado pela Dom Quixote no início de 2007, com tradução de João Colaço Barreiros. Com tão fraca matéria-prima não há milagres, e Trueba não é Hitchcock (o autor da imagem das “cabras num manjar de celulóide”) que da mediocridade literária ou dramatúrgica fazia obras de arte inultrapassáveis.
  3. Uma vez mais, a Itália – o país recordista no número de estatuetas arrecadas nesta categoria, definitivamente instituída em 1956 – apostou num filme de Giuseppe Tornatore, que nunca, por incrível que possa parecer, foi sequer nomeado para qualquer categoria destes prémios da Academia de Hollywood – e basta recordar apenas três filmes: Cinema Paraíso, Estão todos bem ou A Lenda de 1900. Este ano, o filme candidato (já eliminado da competição) seria a grande produção autobiográfica Baaria.
  4. A 2.ª fase de selecção, que irá eleger os cinco filmes finalistas para a noite de 7 de Março, irá decorrer no fim-de-semana de 29 a 31 deste mês, com a projecção diária de três dos nove semifinalistas perante os não identificados olhos de elementos pertencentes a duas comissões de peritos cinematográficos: uma originária da terrinha, Los Angeles; e a outra constituída por mentes preclaras de Nova Iorque.
  5. Em antevisão, julgo que a competição irá resumir-se a Haneke e Audiard, fazendo fé nos críticos, e julgando pelos meus olhos, nada parciais, já que não vi os restantes sete. Se bem que haja uma Teta que pode revelar-se indiscreta e enfrentar a parelha…
  6. Finalmente, gostaria de me rui-santificar (neologismo que significa “autopromover”, “armar-se em bom ou convencer-se de que se é muito bom”, mas com a particularidade de existir uma falácia na sua origem que resulta da exposição mediática ad nauseam: consiste em transformar, por insistência, a podridão na mais fresca e angelical das inocências), referindo-me ao fabuloso título do filme em representação da Bulgária, por mim traduzido para o inglês (rui-santifiquei-me mas usei a versão sinónima de “espetar uma mentira com ar grave e sério”, desculpa ), retraduzindo-o para português “O mundo é grande e a Salvação espreita ao virar da esquina”, principalmente se houver uma Maria José Morgado em cada uma delas, ou até duas, a vender “O Menino da Lágrima”, a plastificar documentos e a fechar os olhos ao comércio de escutas-lacradas-on-demand para reprodução público-privada ou em pay-TV.
  7. Como depois de um advérbio de modo conclusivo, surge sempre uma vontade inusitada de dizer mais qualquer coisinha, resolvi prosseguir com mais um par de pontos. E para dizer neste de que gosto, especialmente, da Mama Assustada (título meu, lubricamente traduzido, apesar da tragédia que ela, a teta, simboliza no filme), 2.ª longa-metragem da jovem realizadora peruana Claudia Llosa (sobrinha de Mario Vargas Llosa). Surge como um sério candidato ao Óscar, depois de haver conquistado no Berlinale de 2009 o Urso de Ouro e o prémio do júri da FIPRESCI, capaz de esbotetear a primazia do duo referido no ponto 5.
  8. Toda a informação detalhada nos pontos anteriores foi retirada dos vídeos legendados inseridos na conta do nigeriano Hollypulha no YouTube (irmão do famoso jovem ugandês correspondente do Correio da Manhã), apesar de a sua transcrição estar disponível há muito. Mas como um bom néscio, iletrado, e sobretudo estúpido (coitado de mim) precisei, como acontece com as crianças que, ontogeneticamente, ainda se encontram nos dois primeiros estádios de desenvolvimento – o sensório-motor e o pré-operatório – definidos por Piaget, de umas imagens com bonecos e uma certa animação (do género canal Baby First) para entender o que outrora estava reduzido a caracteres e me inteirar do que já era conhecido há bastante tempo sob a forma de transcrição – podia enveredar pela segunda e única faceta disto tudo, ser um pulha e fingir que não conhecia as transcrições ilegais publicadas em todos os jornais há anos, para com uma admiração abichanada soltar um “aaah!” enquanto levava a mão histrionicamente à boca, que escandaleira… Vou já escrever um artigo no meu cantinho bem pago e dizer, de forma vaga, que estou ofendidíssimo com a justiça, alguns jornalistas e com crime em geral, avisando que a prática de determinados e seleccionados crimes faz mal às pessoas, e nós, como dizia o Nuno Gomes, somos humanos como as pessoas.

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Para que conste (uma terapia)

Uma das formas que tenho vindo a aplicar para enfrentar a minha mente sobrepujada com assuntos de ordem vária que me perturbam, por outras palavras, um método para tentar reduzir ao mínimo os reveses, sentidos como tal, qualquer que seja a sua origem, consiste na sua exteriorização – inter alia, um desabafo em tom de grito de revolta audível em praça pública, uns murros num saco de boxe, umas buzinadelas auxiliadas por gestos fálicos e impropérios enquanto embarrilado no trânsito infernal desta cidade – através, não de uma escrita rebarbativa no blogue, mas de textos que se reduzam a uma simbologia aglutinadora das falsidades e iniquidades que pululam à frente dos meus olhos e que, cada vez que digito o seu endereço, consiga apaziguar a minha sentida frustração de, pela minha insignificância, não poder desencadear uma guerra de paus e pedras contra esses viciosos do poder (político, jurídico e mediático).
Por tudo o que atrás expus, e para não falar com toda a carga da violência que em mim se vem armazenando sobre um dos assuntos que me apoquenta de momento, figurará na coluna do lado direito deste blogue um singelo contador, devidamente emoldurado, como válvula de escape. Sem adjectivos para certificar a qualidade de: A Bola, o Record, o Correio da Manhã, o Rui Santos, os moderadores e comentadores desportivos da SIC, e muito menos a turba de opinadores escolhida a dedo, cujo ódio visceral ao meu clube é o principal propulsor para os seus panfletos viscosos (pronto, adjectivei), onde pontificam o Daniel Oliveira e os bobos do regime (2.ª adjectivação, paro por aqui, prometo) Quintela e Góis (que há muito deveriam ter levado com processos-crime por injúrias, calúnias e difamação ao meu clube), e até por insultos (não gratuitos, pagos e bem pagos com o dinheiro do Bava e da Golden Share) às inteligência e paciência de todos nós portugueses, por nos entrarem pela casa dentro, sem pedir licença, a proferir barbaridades como “o pinheiro manso de Natal” (é bravo, porra!) e o Rei Mago “Belchior” (é Melchior, ó ignaros!).
Bom, e agora, somando às irritações janeireiras a candidatura de Manuel Alegre a Presidente da República (nunca o espectro da emigração sem retorno andou tão perto por estas bandas), terei de encontrar outro lenitivo em Java. Mais tarde, se por cá andar, explicarei as minhas razões para tamanha repugnância pelo personagem, que, à laia de um Gil Vicente, encarna bem num estereótipo que uma vez tive de enfrentar com todas as forças pelo grau de ambiguidade posicional – chamar-lhe-ia, pela imagética e não só, “Colosso de Rodes”.
Fim.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Estarão mesmo todos bem? (apropriações fílmicas – parte II)


Foi em finais da década de 90 do século passado que, aproveitando uma sexta-feira de indolência pós-laboral, liguei o antigo canal de filmes TeleCine 2 da TV Cabo – na altura uma oferta, em período experimental, que não viria a ter continuidade pela exaustiva repetição dos filmes exibidos acrescida da prática de um preço abusivo – e reparei, de forma fortuita, que se anunciava um filme italiano para os minutos que se seguiam. Tratava-se de um filme do meu muito apreciado Pepuccino, protagonizado pelo monstro sagrado da cinematografia mundial Marcello Mastroianni – o homem de 8 ½ e de La Dolce Vita do inigualável Fellini, do maravilhoso La Notte do mestre Antonioni e do assombroso Um Dia Inesquecível (Una giornata particolare, 1977) de Ettore Scola, ao lado de Sophia Loren.
Perguntei-me como é que um filme de Tornatore havia escapado à minha análise indefectível de um faccioso do realizador siciliano e de um fã incondicional da escola de cinema que lhe serviu de sustentáculo: Visconti, Fellini, Scola, Antonioni, e tantos outros que construíram no pós-guerra a fábrica de sonhos alternativa à máquina devoradora de Hollywood. Sentimento de ignorância que se agravou pelo facto de o argumento ter sido escrito pelo realizador siciliano em co-autoria com o lendário Tonino Guerra.
E assim se iniciou o filme. Chamava-se Estão Todos Bem (Stanno tutti bene, 1990), terceira longa-metragem de Giuseppe Tornatore, produzida logo após o sucesso universal de Cinema Paraíso (Nuovo cinema Paradiso, 1988) que catapultou Pepuccino até ao Olimpo dos deuses do cinema. O filme abriu com as notas de um allegro que saindo da batuta de Ennio Morricone se tornaram de imediato etéreas. Mastroianni parte… ou melhor, Matteo Scuro sai da sua Sicília, partindo pela primeira vez rumo ao encontro dos seus filhos que há muito migraram, numa espécie de diáspora siciliana, para a imponente Itália em busca de melhores condições de vida.
Este é o filme de Matteo, um amante da ópera lírica, que, viúvo e após se reformar da função pública, caminha até aos lugares que o conduzem à sua prole espalhada por Itália entre Nápoles e Turim, passando por Roma, Florença e Milão. Todos lhe haviam assegurado nas espaçadas visitas à Sicília, estar bem na vida, disputando altos cargos nas mais variadas profissões. Eis o encantador Matteo que, tendo dado asas à sua paixão lírica, dispôs que todos os seus filhos tivessem nomes de personagens famosos criados por alguns dos mais que consagrados compositores italianos: Guglielmo (personagem da ópera Guillaume Tell de Rossini), Tosca (personagem da ópera epónima de Puccini), Norma (personagem da ópera epónima de Bellini), Alvaro (personagem da ópera La forza del destino de Verdi) e Canio (personagem da ópera Pagliacci de Ruggero Leoncavallo).
Mastroianni (1924-1996), apesar de alquebrado por um estado de saúde periclitante – embora quando protagonizou o filme tivesse apenas 65 anos – enche o ecrã com a sua magistral interpretação, desde as situações burlescas passando por aquelas carregadas de um pathos bem tornatoriano (vide, por exemplo, Cinema Paraíso, e o grave e simultaneamente enternecedor A Lenda de 1900).
Com este filme, Tornatore venceu, entre outros, o Prémio do Júri Ecuménico no decurso do Festival de Cannes de 1990 – ano em que David Lynch arrecadou a Palma de Ouro do festival com o inolvidável Um Coração Selvagem (Wild at Heart), sendo o júri presidido por Bernardo Bertolucci.
Mas agora, é chegado o tempo para descrever o horror que me assaltou há poucos dias numa suposta improfícua navegação pela Internet.
Tudo o que atrás foi referido, e que me inebriou até âmago do meu ser, foi, porventura, artisticamente extorquido aos seus autores e arrasado pela repetição, porquanto há pouco mais de uma semana, estreou nos Estados Unidos um filme chamado Everybody’s Fine, baseado no argumento original de Tornatore, Guerra e De Rita, com adaptação do também realizador, um tal de um inglês – que, confessando a minha muito provável cine-ignorância, até hoje desconhecia – chamado Kirk Jones.
Onde havia MorriconeMarianelli – sim, o mesmo das marteladas dactilografadas de Expiação (Atonement, 2007), cujo nome me faz lembrar uma qualquer marca de componentes para automóvel –, e onde brilhava Mastroianni há agora De Niro.
Curiosamente, Robert De Niro tem exactamente a mesma idade de Mastroianni quando este protagonizou o filme de Tornatore. Porém, apesar da inegável qualidade do actor norte-americano – um dos meus preferidos, diga-se –, não consigo vislumbrá-lo a interpretar o papel de um velho reformado, picaresco, terno, crédulo ou aparentemente iludido pelos seus filhos num périplo cheio de incidentes por Itália... perdão, pelos Estados Unidos. O resto do elenco é composto por nomes como Kate Beckinsale, Drew Barrymore e o normalmente apatetado Sam Rockwell.
Para ser sincero, espero o pior. Não consigo, por exemplo, encaixar os tiques dramáticos de De Niro – “are you talking to me?” ou “If I talk to you, and you turn me into a fag, I’m gonna kill you, you understand?” – no papel de Matteo que passou a Frank Goode. E, então, se atentarmos nos seus últimos filmes, o actor italo-americano está a necessitar de uma urgente e profunda intervenção, de que tipo for, para a regeneração do seus, outrora, infindáveis dotes interpretativos.
Como referi na parte I desta série, a ver vamos. Até à sua exibição em frente dos meus olhos (abertos, de preferência), vou deixar morrer lentamente alguns dos apriorismos que me toldaram a mente no momento da inesperada notícia do heteróclito remake hollywoodiano. Até lá resta-me assobiar como Mastroianni (Matteo) fazia para marcar a presença e chamar os seus filhos, e com isso desanuviar a tensão de um cinéfilo irascível.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

O Regresso seguido de “O Opróbrio” (act.)

Numa operação inédita com Auster, que gerou o contentamento geral nos fãs lusos do autor, a antiga editora portuense Asa – hoje propriedade do grupo LeYa –, anunciou no início do ano a publicação em Portugal do 13.º romance do autor de Nova Jérsia – nos dias que correm, um filho dilecto do distrito de Brooklyn em Nova Iorque com direito a um dia no calendário a ele dedicado –, em simultâneo com a sua saída para o mercado literário nos Estados Unidos.
Paul Benjamin Auster (n. 1947), para muitos a voz contemporânea mais autorizada para carregar o epíteto de “o poeta do acaso”, considerado por outros tantos como o mais europeu dos escritores norte-americanos vivos, seguido por um alargado grupo de fãs espalhados por todo o mundo, (coeso embora heterogéneo nos elementos que o estabelecem, genuíno pelo ostentado deleite por todo o imaginário das suas histórias, que se constitui como uma espécie de milícia de defesa acérrima do seu processo criativo, mesmo quando o defendido se confessa cansado e vulnerável, na iminência de um ataque da terrível síndrome de que padecem alguns dos eminentes profissionais da palavra escrita, conhecida como “bloqueio do escritor”), parece ter feito a vontade àqueles que há anos vêm denunciando o desvio do rumo da sua prosa, para um intricado de convulsões metaficcionais – Invisível, cedo se provou como o regresso do ícone Auster .
Paul Auster é idolatrado em França e em Espanha – neste último pude constatar in loco a efervescente austeromania –, elevado ao estatuto de chanceler do pós-modernismo na Alemanha, autor de culto dos nórdicos e, paradoxalmente, quase censurado no seu país natal, recebendo sempre críticas que abrangem todo o espectro de qualificativos do soberbo ao hórrido, e glosado como ligeiro no Reino Unido – jamais separando o homem da sua obra na adjectivação empregada –, apesar de já se pressentir que, bem ao longe e de forma tímida, a brisa que hoje se anuncia já é parte integrante do silvo dos ventos de mudança opinativa da crítica profissional anglófona. Com efeito, Auster era (e ainda é) criticado por ser ele mesmo, independentemente da obra analisada. A cada novo romance seu, a escrita automática dos recenseadores anglófonos, especialmente os britânicos, onde o insulto travestido em frases mais ou menos buriladas porventura pelo medo imanente de uma assertividade que se transformaria em alvo de censura pública, saltava para as páginas dos jornais e revistas mais reputados em assuntos literários – com excepção do Independent, a crítica dos jornais londrinos está aí para corroborar a tal mudança.
A sua última obra de ficção, Invisível, confirma o retorno de Auster a Leviathan, à Música do Acaso, à Trilogia, ou a Palácio da Lua – obras que consolidaram, há muito, o seu estilo literário, quer se goste ou não, quer se ridicularize ou idolatre. Apesar de não abandonar por completo os seus dilectíssimos jogos metaficcionais – bem presentes nos seus dois últimos romances, eminentemente auto-referenciais, labirínticos, de uma impudica ostentação da omnisciência autoral e de mero exercício de forma literário –, porquanto nesta obra ainda se consegue pressentir o pulsar de Auster na fina camada primordial do quadro narrativo, em Invisível os três narradores que integram os quatro segmentos narrativos interdependentes, com estilos e vozes diferentes, ampliando a um nível de exigência extrema a gama diegética, são o sal mas não o fulcro de uma história com uma ímpar densidade psicológica dos seus personagens; o que outrora (especialmente em Viagens no Scriptorium e Homem na Escuridão) era a matéria-prima fundamental, assume nesta obra o papel de mero elemento adjuvante, embora necessário, não é de todo a sua alma, a essência, o espírito que paira por sobre as nossas cabeças mal lemos «Para o resto da minha vida, onde quer que me encontre, faça eu o que fizer, aquele som estará sempre comigo.» (p. 236) – que entendi como um apelo, através da alegoria, ao horror concentracionário das diversas formas de agrilhoamento do Homem que subsistem no mundo em que vivemos – e que nos assombra pelo manancial de interpretações que daí poderão ocorrer – as pontas soltas que o romancista não quis atar; o seu cunho literário mais marcante de um anti-Deus ex machina, e que induzem a um inebriamento que obriga a uma releitura.
Negro como A Trilogia de Nova Iorque. Obstinado como A Música do Acaso. Cativante, glamoroso e comovedor como Leviathan. Desesperado e descoroçoante como Palácio da Lua. Sufocante e devastador como No País das Últimas Coisas. Terno e fracturante como Mr. Vertigo. Invisível é a súmula de uma obra ímpar no panorama literário mundial. Muitos descrevem-na como a sua melhor obra de ficção. Eu como fã quase incondicional do homem de ascendência judaica nascido há 62 anos entre os despojos materiais e humanos da II Guerra Mundial, acrescento mais um traço às suas obras de ficção de minha eleição.
Por fim, reveste-se como obrigatório salientar que há muito que Auster não gozava de uma crítica tão favorável no mundo da anglofonia, e a crítica lusa é quase unânime na aclamação ou louvor da obra – e ainda faltam as recensões alemãs, francesas, espanholas, italianas e escandinavas, já que em muitos desses países o romance ainda não foi publicado. Como consequência, face a uma quase unanimidade da crítica anglófona sobre a arte desta última obra, era mais do que esperado o surgimento de…
O que James Wood (n. 1965) fez no alargadíssimo espaço de crítica que lhe é reservado na revista The New Yorker no passado mês de Novembro, só pode ser entendido no estreitíssimo campo semântico do opróbrio que atrás falei de forma meramente alusiva. O texto de Wood é um manifesto ataque ad hominem, com todos os seus ingredientes de confusão mental entre produção literária e carácter do criador – e qual a necessidade de gastar mais palavras e quatro páginas, mais espaço precioso no n.º 39 do volume 85 da afamada revista americana, crime que se agrava por haver sido perpetrado na vizinhança da Cimeira de Copenhaga, quando ao 7.º parágrafo (num total de 20) Wood afirma: «Embora existam coisas de apreciar na ficção de Auster, a prosa nunca está entre elas»? [tradução livre de minha responsabilidade] E o mais confrangedor é que o opróbrio vem primorosamente adornado com uma excelente caricatura de Paul Auster pelas mãos do nosso André Carrilho.
De facto, depois de haver lido dezenas de críticas e um ou outro livro do grande paladino das letras contemporâneas em defesa do realismo e das vicissitudes monomaníacas do “discurso indirecto livre” na Literatura (ou na ficção?) – esse nobre recurso estilístico, magno promotor da invisibilidade autoral na obra, uma espécie de Frankenstein narrativo –, um David em Elah contra os malefícios das aviltantes correntes do modernismo e do pós-modernismo, profanos enquanto fautores do festim orgiástico entre criador e personagens, qualquer pessoa moderadamente identificada com Auster e a sua obra não pode deixar de apresentar sintomas de algum desconforto perante este exercício de uma frivolidade inusitada, a roçar o maniqueísmo pueril, em conflito com o reconhecimento académico, e não só, do recenseador em questão.
Não vale a pena desbaratar mais palavras com o chorrilho de asserções sem substância, com um exercício formal de puro enxovalho. O tempo encarregar-se-á de separar as águas. O crítico britânico exportado como pré-vintage para a Ivy League, já nos habituou a estes meros panfletos que denunciam a heresia contra a teologia da sua literatura – vista, pela sua igreja, como uma entidade isolada, asséptica, do ambiente cultural que a rodeia. É certo que sem o grau ominoso e de amarga verborreia de fusão da criatura com o criador como neste caso, contra tudo que não derive do realismo novecentista de Flaubert ou de Henry James – que até são autores muito cá da casa –, erigindo, entre outros, DeLillo, Rushdie ou Pynchon como alvos, perdoando, em simultâneo, os passos em falso de alguns dos seus contemporâneos e conterrâneos, nos casos mais notáveis de Christopher Hitchens e Martin Amis.
Mas o erro crasso, o pecado primordial, adveio de quem teve a ousadia de o comparar com Edmund Wilson. A partir de um acontecimento com essa natureza contrafactual, emerge uma soberba declaradamente adiposa que costuma obnubilar a mente preclara, outrora livre da placa bloqueante do fausto louvaminheiro. É que um louvaminheiro astuto tem de ser selectivo, sob pena de não ver sancionados os seus ataques no pós-desferimento e cair, sem apelo, na mais sombria das indigências.  
Indo um pouco mais longe, não nos podemos esquecer que Wood – emprego, sem pedir meças, a sua técnica da asserção gratuita – é, aos 44 anos, um romancista frustrado. Para afiançar a validade de tal certeza, basta ler as críticas a The Book Against God, publicado em 2003, que curiosamente se socorre de um tique pós-modernista, que o próprio censura nos outros, mas que não se coibiu de usar no seu título e na sua abertura distintamente kitsch, usando o cliché sem ironia, isto é, de forma séria, sem itálicos…
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[actualizado às 23:39, 08/12/2009]: Auster, entrevistado no jornal espanhol La Vanguardia, é confrontado com a crítica de Wood, dissonante da publicada no New York Times Book Review, que considera Invisível como o seu melhor romance [dias mais tarde, o respeitado periódico nova-iorquino considerou-o como uma das 50 melhores obras de ficção publicadas em 2009]:
«JORNALISTA: […] nesta semana James Wood investe contra si na The New Yorker.
AUSTER: Não li a crítica. Não leio nenhuma crítica há quatro ou cinco anos, embora a conheça. Sei que me ataca. Não tenho nada de pessoal contra ele, mas é sempre assim. Muitos amigos perguntam-me qual é o problema. É um reaccionário. Não quero preocupar-me. Siri, a minha mulher, que está em viagem, telefonou para mo comentar. Disse que era como se fosses na rua e um desconhecido te desferisse um murro na cara.»
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Nota: E já agora, intervindo aqui apenas como um leitor interessado e noviço da liturgia woodiana – afirmações circunstanciadas na sua obra minimal –, será que Wood já releu a Parte II de Dom Quixote? Deixo essa tarefa indagadora a Deresiewicz.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Apropriações fílmicas – parte I


Não sei se os seus fautores estão ou não numa corrida desesperada ao restrito tapete vermelho que se estenderá à porta do Kodak Theatre no dia 7 de Março de 2010, mas há duas estreias cheias de pólvora festiva que me causaram alguma apreensão enquanto cinéfilo inflexível perante determinados desarranjos cinematográficos.

Começo com o muito incensado realizador alemão de 67 anos, radicado nos Estados Unidos, Werner Herzog – que viu recentemente parte da sua filmografia condensada em dois volumes em edição da Fnac – que surge com um tal The Bad Lieutenant: Port of Call – New Orleans, trazendo na bagagem uma menção especial da 66.ª edição do Festival de Cinema de Veneza, talvez condicionada pela água da Laguna Veneta que teimosamente vai inundando as outrora zonas secas da cidade italiana.
Herzog roubou o título ao filme de 1992 de Abel Ferrara, Bad Lieutenant (Polícia Sem Lei) superiormente interpretado por Harvey Keitel – que lhe valeu os prémios para Melhor Actor no nosso Fantasporto e no Independent Spirit Awards em 1993 –, para além de haver alistado o insuportavelmente decadente Nicolas Cage, a apoteótica bomba sexual Eva Mendes, o cabotino Val Kilmer – porventura ainda sob o efeito dos psicotrópicos do “Rei Lagarto”, nada de mais marcante tem feito, para além de Heat – Cidade Sob Pressão, filme de 1995 de Michael Mann, nem mesmo no sobrevalorizado Spartan – O Rapto, filme de 2004 de David Mamet. Porém, bem medidas as coisas neste particular, Herzog talvez se salve no meio desta horda artística que se prefigura como elenco catastrófico-milionário, pelo recrutamento de Michael Shannon, incapaz de não encher o ecrã com a sua reconhecida e incontornável aura (lynchiana) de actor de culto, enigmático e sombrio. Se exceptuarmos o título e os pecadilhos do Tenente, parece que nada aproxima o filme de Herzog ao original de Ferrara. O título deve-se à subjugação da arte à feroz política de marketing de Hollywood. Porém, os nomes de Ferrara, Victor Argo, Paul Calderon e Zoë Lund, argumentistas do filme de 92 surgem nos créditos da nova película de Herzog, entretanto estreada nos Estados Unidos, ao lado de um argumentista de séries televisivas conceituadas chamado William Finkelstein, que porventura retirou as vísceras ao argumento original, deixando decerto o produto final pronto a digerir pela avidez de um público cada vez menos exigente. Um outro bom sinal: Herzog confessa que não viu o filme de Ferrara – talvez, nunca lhe tenha sido apresentado e não o conheça de lado nenhum.
A ver vamos. Para ser honesto, não posso fazer aqui algum juízo apriorístico sobre os méritos do referido filme, porquanto apenas conheço os seus contornos e a manifestação de desagrado de Ferrara, de mãos e pés atados perante a derivação, talvez espúria, de um produto de sua autoria. No entanto, e a essa parte não me posso escusar, o processo é criticável, mesmo que o filme mereça que se esgotem os adjectivos encomiásticos após a sua projecção à frente dos meus olhos num grande ecrã desta cidade e arredores.

Nota: A parte II das “Apropriações fílmicas”, trará um filme cujo heteróclito e descabido remake me revolveu ainda mais as entranhas, essencialmente pela convicção de que jamais poderá resultar numa melhoria do produto original. Qual Gus Van Sant com Psico (Psycho, 1998).

(continua)

terça-feira, 14 de outubro de 2008

Os 20 que são 19…

Foi ontem. A segunda segunda-feira do mês (a 2.ª 2.ª-Feira), neste caso de Outubro, que não quer significar qualquer alinhamento astral com implicações impiedosas sobre o destino humano, porque as há doze vezes ao ano, se exceptuarmos o calendário Maya e quejandos, mas trata-se, isso sim, de mais uma oportunidade para beneficiar da excelente promoção concedida aos utentes do cartão de leitor pela rede de lojas Bertrand no país.
Para um bibliómano é difícil resistir-lhe. Ainda não inventaram a metadona de substituição, que apenas poderia passar por limites de cartão de crédito mais do que excedidos e os impertinentes telefonemas diários dos sisudos gestores de conta (quando é para pagar ou repor, é o momento de descanso dos seus repuxados músculos maxilofaciais de tanto lambebotismo para atingir os objectivos mensais).
Mas como referia, à 2.ª 2.ª-feira anuncia-se um pseudodesconto (adianto-me com o prefixo que lhe dá falsidade) de 20% sobre o preço de capa do livro, repartido da seguinte forma:

  • 10% de desconto imediato no momento da compra;


  • 10% na acumulação de pontos na conta do cartão “Leitor Bertrand” (onde cada euro despendido corresponde a 15 pontos, e a cada 1500 pontos acumulados é emitido um vale de desconto de 10 euros a utilizar na próxima compra em qualquer loja Bertrand do país).

Mais uma pilha de livros e, desta feita, um pouco mais de atenção. A vida não está fácil. De hora a hora somos bombardeados com notícias da derrocada do sistema financeiro mundial. Visões apocalípticas de fazer corar João, o Evangelista. Sérias predições, para uns, uma convicção firmada, para outros, sobre o fim de uma civilização a pedir meças a um universo ficcional huxliano, com laivos de uma veia pirómana de feição bradburiana, e de uma luta desesperada pela sobrevivência, de proporções cataclísmicas, tipicamente wellesiana.
(Prioridade nacional: há que garantir os depósitos da imensa… minoria que conseguiu aforrar – curioso que, por estas bandas, o verbo se transmute numa antonímia insuperável: torrar, derreter, desfazer-se. Há que injectar dinheiro no sistema bancário de forma discricionária e, assim, garantir a manutenção do sistema de compensação aos executivos que, por uma engenharia financeira, estatutária e de aquisição de almas auditoras, aliada a uma pequena desatenção dos reguladores dos mercados, conseguem, anual ou trimestralmente, escapar ao controlo dos accionistas.)

Dada a evidente excitação que o assunto suscitou na minha aquecida alma, o parágrafo anterior surge delimitado por parêntesis, ou seja, é de todo dispensável – prática que poderia ser, perfeitamente, extensível ao parágrafo anterior… ou quiçá ao próprio blogue dada a irrelevância de conteúdo, que se agiganta de dia para dia.

Ponto de ordem: dizia eu, “a vida está cara”. E se me prometem 20% de desconto sobre a aquisição de qualquer bem ou serviço, eu quero, com toda a força que a lei e a ética comercial me concedem, aproveitar e beneficiar desse quinto de generosidade provindo do fornecedor do bem ou do prestador do serviço. Mas há quintos e quintos, até o dos infernos, eis a história do João, (que não tem que ver com o de cima, o tal das trombetas), este é garagista:
O João, munido do seu cartão de leitor e aproveitando a hora de intervalo para o almoço, deslocou-se, de desperdício no bolso, a uma loja Bertrand no dia 13 de Outubro de 2008, pelas 13 horas e 5 minutos. Decorridos 22 minutos e 37 segundos apresentou-se à caixa registadora – e, acrescente-se, após haver constatado que a última edição da revista Ler, que por coincidência pertence ao mesmo grupo proprietário da livraria, ainda não estava disponível, apesar de o tal número ter saído para as bancas na passada sexta-feira – com uma pilha de livros que perfazia o total de 50 euros (três mulheres de fibra – All-Bran –, um xaroposo criativo e uma ave rara: Modignani, MRP®, Allende, Sparks e o consultório, estilo Bruxo de Viena, condensado em livro, sem calva e bigode, do Dr. Phil; ainda pensou no Arquipélago da Insónia mas já havia lido, pelo menos, um dos livros do autor pós Exortação aos Crocodilos, fac-símiles do que se lhe seguiu, e fez lembrar-lhe o recentemente desaparecido Aleksandr e a tortura e essas coisas sem sentido – cabeça em ebulição esta, a do nosso rapaz).

No documento de liquidação/pagamento estavam inscritas as seguintes parcelas:

  • V. Total – 50,00 € (valor bruto)


  • Desconto – 5,00 €


  • A Pagar – 45,00 € (valor líquido)


  • Pontos obtidos com a venda: 675 (ou seja, 45 € x 15 pts./€)

Ora, como 1500 pontos correspondem a 10 euros, então 675 pontos correspondem a 4,50 euros.
Em resumo, o desconto total saldou-se por 9,50 euros (5 € + 4,50 €) que corresponde a 19% do valor bruto da compra, 50 euros.

Na prática a Bertrand aplica uma fórmula de desconto de “10% + 10%” na campanha mensal das “segundas segundas-feiras” e nunca os publicitados “20%”. Em boa verdade vos digo, nem sempre “10+10” é igual a “20”, e bastaria apenas um pouco de boa vontade: retiraria da lama essa ciência exacta proscrita que se chama Matemática e limpava, ai se não limpava!, a honra esmaecida da casa germanico-hispano-lusa.

Pobre João. Enervado com a argumentação… meramente interior – uma vez que é rapaz tímido e jamais levantaria a voz para exigir os seus direitos sem um austero e reivindicativo agente sindical por perto –, ainda tropeça nas placas de sensores de alarme à porta da livraria e estraçalha, por um qualquer gesto amaneirado, exagerado e insólito, o último romance do prolífico Sparks, Um Homem com Sorte… Ah, tudo se resolveria não fosse a seguradora ter falido… Maldito mercado!