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quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Bolas


É a designação inglesa. Ovos, a espanhola. Por cá ficámo-nos pela referência hortícola, embora a sinonímia seja bastante rica e imaginativa.
Não sei a razão por que ainda me exponho, mas acabei de levar uma valente biqueirada testicular – imagine-se! – pelo conteúdo de seis páginas de um livro – aconselho a leitura simultânea de dois ou mais livros para atenuar a dor (acreditem, é como o recomendado gelo para as tumefacções).
Seis páginas onde, na versão portuguesa, se fala de tintins (sic) e de pontapés nos mesmos, e debate-se sobre a dor lancinante que as mulheres desconhecem, fazendo-se a analogia com o fim do mundo e o filme de 1959, realizado por Stanley Kramer, A Hora Final (On the Beach), curiosamente baseado numa obra catastrofista de Shute – parece um imperativo.

Os guizos do fim da paciência já se fazem ouvir… 1Q84.

sábado, 7 de janeiro de 2012

Acossado por Murakami

Nos idos de Julho de 2007, após a leitura em primeira mão de Em Busca do Carneiro Selvagem do escritor japonês Haruki Murakami, decretei um período de pousio murakamiano para o meu nervo óptico. O pousio mantinha-se, persistente, inabalável e sem saudosismos, até que ao aproveitar para fazer a alusão à estreia iminente do último filme de um realizador muito cá da casa, o vietnamita Tran Anh Hung, que adaptara parte da, por mim considerada, melhor obra de ficção de Murakami (Norwegian Wood), confessei que o compromisso fora quebrado (subsistiu, ainda assim, três anos), e o arrependimento que sobreveio foi de certa forma angustiante (como nessa altura comentei).
Quinze meses decorridos, verifico que o filme de Anh Hung passou ao lado das salas de cinema portuguesas, apesar de ter sido adquirido pela maior distribuidora e detentora de espaços de projecção em Portugal, a ZON Lusomundo, e surgiu apenas no circuito comercial de DVD em parceria com a FNAC. A propósito de uma salutar discussão sobre esta inevitabilidade nacional, a pequenez do nosso mercado associada à recalcitrante iliteracia do português médio, foi-me recomendada a leitura do último romance editado em Portugal pelo escritor nipónico, convertido em orwelliano de olhos em bico, escreveu 1Q84 – lido em japonês soa a 1984, já que “9” e “Q” são palavras homófonas. Fiquei a saber que o volume que me habituara a ver em destaque nos escaparates das livrarias neste Natal (e sempre nos espaços reservados aos tops de vendas), trata-se apenas do primeiro livro (ou calhamaço) de três (com tantas ou mais páginas) da obra proto-orwelliana, cujos restantes livros irão sair a conta gotas durante este ano (fazer render o peixe, e que bem serve ao quase ictiólogo Murakami dada a profusão de cardumes nos seus livros).
Informo, para que conste onde convier, que adquiri o Livro 1 de 1Q84 de Haruki Murakami (ed. port. Casa das Letras; obra original: 1Q84 – Book 1, 2009), e, mal o abri, as razões determinantes para o início do pousio acima referido surgiram em forma de náusea – apesar da minha inata teimosia, insistindo e esforçando-me para que a sua leitura apenas termine na página 487 e quiçá, percorra os restantes volumes ainda no prelo –, vívidas rememorações de um subgénero literário nipónico do realismo mágico sul-americano: o(a) protagonista desgraçado(a) íntegro(a) e idealista, os personagens esfíngicos – normalmente velhos e cruéis , a presciência zoológica – habitualmente peixes e gatos –, o lesbianismo pubertário com descrições tácteis de pétalas de rosa, os edifícios e quartos misteriosos com alçapões para o inconsciente, os poços e as perturbações espácio-temporais, com desmaios inexplicáveis.

E a ervilha-verde demorou mais de seis páginas para descer as escadas de segurança metálicas de uma auto-estrada, com intensas recordações sáficas da sua adolescência à medida que ia pisando descalça os frios e rugosos degraus de metal.

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Pritzker 2012?


«por […] construir uma ponte entre o Oriente e o Ocidente.»

Agraciem-no antes com o Pritzker do próximo ano (o deste está tomado pelo nosso ESM), e ele próprio ainda não entende como ajudou a construir a ponte se nasceu e cresceu no Japão, fala japonês (o que é, desde logo, um feito notável), come comida japonesa (e que lhe faça bom proveito, por aqui é sinal pequeno-burguês de bom gosto: peixe cru por 200 euros) e faz todas as coisas que fazem os japoneses, mas (importante adversativa) gosta de Jazz e da literatura ocidental de Dostoievski a Stephen King (valha-me um qualquer Kami xintoísta, de Pessoa a Rebelo Pinto à escala lusa).
Sim, venceu em Março passado o Prémio Internacional da Catalunha, que conseguiu a proeza de meter no mesmo saco Harold Bloom e Stephen King por via referencial de Haruki Murakami. 

sábado, 16 de outubro de 2010

Tran Anh Hung – Parte II (com Murakami)

«Passaram-se já dezoito anos e, mesmo assim, consigo relembrar ainda cada um dos pormenores desse dia no prado. As montanhas, lavadas da poeira do Verão durante dias de uma chuva suave, ostentavam um verde carregado e brilhante. A brisa do Outono fazia baloiçar as frondes brancas das ervas altas. A comprida faixa de uma nuvem pairava ao longo de uma cúpula de intenso azul. Uma lufada de vento varreu o prado e agitou o cabelo dela até se esgueirar para o bosque, fazendo as ramagens movimentarem-se e trazendo os ecos de latidos ao longe: um som vago que parecia provir do limiar de outro mundo. Não ouvimos nenhum outro som. Não nos deparámos com mais ninguém. Vimos apenas dois cintilantes cardeais esvoaçarem sobressaltados do centro do prado e precipitarem-se para dentro do bosque. Enquanto deambulávamos, a Naoko falava-me de nascentes.»
Haruki Murakami, Norwegian Wood, pág. 10. [Porto: Civilização, 3.ª edição, Junho de 2005, 350 pp; tradução de Alberto Gomes; obra original: Noruwei no mori, 1987.]
Rememoração do protagonista Toru Watanabe, com 37 anos, quando aterrou num dia frio e chuvoso de Novembro no aeroporto de Hamburgo. No meio da tensão e do bulício pré-anunciado de um aeroporto europeu, os altifalantes soltam uma versão instrumental da famosa música dos Beatles “Norwegian Wood” e Watanabe sentia «o cheiro da erva, sentia o vento no rosto, ouvia os gritos das aves. Outono de 1969, e em breve teria vinte anos.» E a história retrocede ao tempo em que fervilhou o idealismo de uma geração.
Dou por mim no vislumbre de luta titânica que se desenrola no meu interior: e desisto, como é difícil vencer o actual preconceito que, embora, por definição, não necessite de causas ou origens, foi o resultado de uma experiência de leitura que se foi tornando penosa.
Há uns anos quando a Civilização e logo de seguida a Casa das Letras apresentaram ao público português um ou dois exemplares da obra, na altura já extensa na sua língua original, do escritor nipónico Haruki Murakami (n. 1949), ouviu-se um coro quase unânime de panegíricos sobre uma espécie de renascimento do realismo mágico, embora com um vívido traço oriental, marcadamente mais místico e apaziguador. Murakami era novidade, uma descoberta no mundo ocidental das letras e na altura, pouca gente, mesmo quase ninguém, conhecia o ostracismo a que Murakami já havia sido votado no seu país de origem pelos seus intelectuais e prodígios culturais mais respeitados – rotulado como um escritor de massas, ligeiro, despojado de fontes literárias nipónicas, e talvez tenha sido essa a mola impulsionadora que o levou a abandonar o Japão e a fixar-se na Universidade de Princeton nos Estados Unidos, embora tenha regressado em definitivo ao Japão após o choque provocado pelo devastador terramoto de Kobe e pelos ataques com gás sarin no metro de Tóquio; corria o ano de 1995.
Murakami já publicou doze romances, três colectâneas de contos, um livro de memórias, e um conjunto razoável de ensaios, crónicas, artigos sobre literatura, música e desporto. Porém, fartei-me da sua escrita e do seu misticismo. Não sei se por um processo de acumulação de repetições com protagonistas diferentes, com toques mais ou menos crípticos de sexualidade juvenil, música pop, androginia, gatos, fenómenos espúrios de uma violência inusitada entre a imagética, transversal e quase bíblica, de verdes prados e águas refrescantes. Li os primeiros cinco livros à medida que estes iam sendo publicados em Portugal; parei, exaurido pela sensação, arquetípica de um pesadelo, de ter lido sempre o mesmo livro; mais tarde, não resisti, tentei travar essa espécie de desdém que se apoderou da minha cabeça sentenciosa, li After Dark – Os Passageiros da Noite (Afuta Daku, 2004) e, num ápice, arrependi-me com a quebra do pousio para desenjoo – tenho pena, deslumbrei-me e diverti-me bastante com os primeiros escritos do autor nipónico.
Todavia, a despeito do meu comportamento errático, há certezas que ficaram. Continuo teimosamente a eleger Norwegian Wood como a sua obra mais brilhante. E foi precisamente essa obra que o franco-vietnamita Tran Anh Hung elegeu para realizar a sua 5.ª longa-metragem e com esse acto abrir o seu leque poliglota ao idioma do país do sol nascente.
Exibido em Veneza e Toronto nos respectivos festivais de cinema há cerca de um mês, o filme teve críticas favoráveis, embora não efusivas, e entretanto desapareceu no lado ocidental do planeta.
Tran Anh Hung dirigiu o filme com base no seu argumento adaptado do romance de Murakami, despojando-o de algumas adiposidades, recentrando a narrativa no triângulo amoroso impulsionado pelo torturante suicídio de Kizuki (o melhor amigo de Watanabe). Houve quem lhe apontasse o processo de poda a que o romance foi sujeito como o ponto crucial para um filme menos conseguido – até consigo divisar este tipo de críticos, os literalistas, aqueles que não distinguem um livro de uma bobine de celulóide, e nem preciso de trazer à colação a famosa tirada pastoril de Hitchcock. Contudo, para quem tem acompanhado a carreira do vietnamita poderia esperar tudo, menos um argumento denso e rebuscado, que prejudicasse a sua distintiva imagética, como aqui referi.
Gostaria de o ver, até porque lendo a crítica de Valentina D’Amico para o Movieplayer.it identifico tudo aquilo que me leva a admirar Tran Anh Hung – a imagem, os sons, a música (neste caso não a cargo dos Radiohead, mas de um dos seus membros, o fantástico Jonny Greenwood), que alguns menosprezam colando-o ao videoclipe –, mas suponho que o minúsculo e oligárquico circuito comercial português não correrá esse risco, tal como aconteceu com os três últimos filmes de Tran.
Termino como Valentina no seu artigo, o despertar doloroso de Toru Watanabe e o seis últimos versos da canção dos meus nada estimados Beatles:
«And when I awoke / I was alone; / this bird had flown. / So I lit a fire, / isn’t it good / Norwegian wood.»
Lamechas? Melancólico? E depois de uma explosão visual que decerto inunda a sala de cinema com a beleza da lente de Tran Anh Hung? Posso bem com isso.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

A pilha Murakami

Curiosas as metamorfoses diárias da minha biblioteca pessoal.
Não compro somente livros de um conjunto restrito de autores que me inebriam perante a minha sede de leitura – apesar de o “restrito” ser bastante amplo, há que dar novos mundos à minha biblioteca –, embora haja alguns que figuram na utópica listagem da “obra completa”; existem outros, porém, que, por variadíssimas razões, deixei de comprar e de ler, mesmo até à socapa numa livraria ou biblioteca pública sem despender o vil metal; há outros, ainda, recomendados por tudo e por nada, por todos e por ninguém – basta neste caso um vislumbre da capa, a leitura de uma sedutora frase de abertura –, que têm o poder de influenciar a minha alta propensão para o gasto livreiro.
A biblioteca vai mudando à causa, bibliófila e oneomaníaca, de comprar consideravelmente mais livros que o tempo disponível para os ler. Agiganta-se no espaço. Não é ela eterna e infinita?
No princípio, com Murakami, era o verbo no particípio “livro comprado, livro lido”; um passado que à sétima obra do autor publicada em Portugal mudou de forma silenciosa (Dança, Dança, Dança; ed. port. Casa das Letras): já não o li e sucedeu-se um empilhar de lombadas alvas com letras arrevesadas de vermelho e negro que desprestigia a carteira – que é um mimo de a ver farta –, e entulha a biblioteca, que se pretende qualitativamente irrepreensível, como objecto de ostentação puramente onanista – não tem de ser pública, nem figurar em local em que cada visitante solte um suspiro de admiração estonteado pela grandeza da coisa. É, por definição e teimosia, um prazer privado, não partilhável e jamais fungível como um subproduto do ócio.
Agora, anuncia-se uma autobiografia. Corridas de fundo e literatura. Esforço físico e musculação mental. Suor transformado em caracteres ideográficos, com jacto marcado para o mercado norte-americano que se encarrega de espalhar a epidemia dos universos oníricos murakamianos pelo mundo ocidental – realismo mágico da pubescência fechada em poços e quartos escuros, esperando por cataclismos de proporções bíblicas como recurso final a um Deus ex machina singular e absurdamente xintoísta.
Murakami corre. O nosso engenheiro-filósofo contemporâneo corre para aclarar as ideias que irão ser transubstanciadas em estratégias sobre o xadrez do casaco da Ministra do Trabalho, de apelido André. Cedo o passo, alivia-se o orçamento. A biblioteca continuará a transformar-se, seguindo por outros caminhos não trilhados pelas solas pneumáticas do andarilho jactancioso – a maiêutica em movimento (geração Magalhães). Talvez, num futuro próximo, os nossos trilhos se cruzem num ponto longínquo ideal que por agora não vislumbro.
Haja fé e saúde. A pilha, por enquanto, manterá a medida do seu peso. Nem mais um grama! (e mais um ponto de exclamação, admirem-se.)

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Murakami, fim do pousio?

Num artigo publicado no jornal londrino The Times em Julho deste ano – a propósito da publicação no Reino Unido do primeiro livro de memórias de Haruki Murakami (n. 1949), De que falo quando falo de correr (tradução aproximada), publicado no Japão em 2007 –, o jornalista, crítico e ensaísta Stephen Armstrong discorre sobre as dez coisas que precisamos de saber sobre o escritor nipónico. A primeira asserção é a mais lógica: “Murakami divide as pessoas”. Há os que o idolatram e os que renegam os seus livros e seu tipo de literatura, acusando-a de ser «pop, sem qualidade e excessivamente ocidentalizada», bem longe, como nota o autor do artigo, do aspecto formalmente tradicional das obras de autores japoneses consagrados, como Yukio Mishima, Junichiro Tanizaki ou o nobelizado Yasunari Kawabata.
Murakami é um confirmado caso de sucesso, mas é simultaneamente objecto de uma guerra sem quartel no mundo das letras. As suas recensões são normalmente favoráveis e por vezes a roçar os limites da razoabilidade encomiástica, com comparações inusitadas, dando origem, por vezes, a frases de caracterização e descrição da obra e/ou do autor destemperadamente insólitas, de pura risibilidade, como a do “produto do cruzamento de Kafka com Woody Allen”; foi doutorado “honoris causa” por Princeton e pela Universidade de Liège; todos os anos surge na lista dos principais favoritos a conquistar o Nobel da Literatura, facto que, por si só, tem suscitado acesos debates literários.

Uma coisa parece certa, Murakami vende em Portugal, tal como vendem Paulo Coelho, MRP®, Nora Roberts ou Allende, porém o tipo de comprador/leitor é diferente, bastante heterogéneo em género e habilitações literárias, um pouco mais homogéneo na faixa etária, são sobretudo os mais jovens que lêem Murakami – informação baseada em estudo estatístico sem amostra representativa, rigorosamente acientífico, sem ficha técnica, porque resulta de um empirismo primário com um diminuto tratamento racional.

Segundo as minhas notas de leitura, li o meu último Murakami em Julho de 2007 e achei-o fraquinho, rudimentar e pueril.
Ora, até meados de Novembro de 2008, ou seja, um ano e quatro meses depois, saíram para o mercado mais três livros do escritor japonês, todos editados pela Casa das Letras e com tradução de Maria João Lourenço: Dança, Dança, Dança (Novembro de 2007); o livro de contos A rapariga que inventou um sonho (Março de 2008) e After Dark – Os passageiros da Noite (Novembro de 2008). Disponho de todos em 1.ª edição, num estado de quase pudica virgindade.
Depois de ler Em Busca do Carneiro Selvagem, cansei-me de Murakami, não significando porém que não faça uma segunda tentativa, gozando da excelente oportunidade dada pela publicação entre nós do incensado After Dark (o último romance do autor, publicado originalmente no Japão em 2004).
Talvez seja por uma frívola sugestão infundida pelo design das capas dos seus livros em Portugal – o mesmo ocorre com Lobo Antunes –, mas convenci-me de que estou a ler sempre o mesmo livro com títulos diferentes. Com o tal livro de Julho de 2007, a minha babilónica cabeça emitiu um fortíssimo sinal de déjà-vu, de uma releitura de um aborrecido universo onírico agrilhoado a uma perda de capacidade criativa do quase sexagenário autor nipónico; dando por mim – ah, a prodigiosa mente humana – a pôr em causa o que já tinha dado por adquirido: a identificação de talento e génio literários em algumas das suas obras anteriores.
De um total de onze romances, para além dos ensaios, livros de contos, autobiografia e livro de memórias, Murakami tem sete publicados em Portugal (um publicado pela Civilização e os restantes pela Casa das Letras), dos quais li cinco.

Classifico-os da seguinte forma (entre parêntesis figura o ano de publicação em japonês sem o respectivo título transliterado dada irrelevância da informação, de pôr os olhos em bico):

  • De leitura obrigatória: Norwegian Wood (1987, ed. port. Civilização) e Crónica do Pássaro de Corda (1992-1995);
  • A Ler: Sputnik, meu amor (1999);
  • Prescindíveis: Em Busca do Carneiro Selvagem (1982) e Kafka à Beira-Mar (2002);
  • Não lidos: Dança, Dança, Dança (1988) e After Dark – Os Passageiros da Noite (2004).

Será o fim do retemperador pousio?
(Se ainda lido este ano, descubra na secção de apreciação literária na barra da direita, ou mesmo sendo-o, talvez não, aumentando a diferença entre os lidos e classificados. Confuso?)

quinta-feira, 5 de julho de 2007

Dan Brown dos intelectuais...

Houve já quem lhe tivesse chamado “o Dan Brown dos intelectuais”. Outros ainda deixaram de o ler quando verificaram que Kafka à Beira-Mar – o terceiro livro do autor a ser publicado em Portugal – se manteve, durante um tempo considerável, em posição cimeira nos tops de vendas de livros no nosso país, como se popularidade fosse sinónimo de mau gosto, de iliteracia e implicasse, desde logo, a menor qualidade do produto vendido.
Falo, é claro, do autor japonês, nascido em 1949 na cidade de Quioto, Haruki Murakami, a propósito da leitura recente do seu romance Em Busca do Carneiro Selvagem, originalmente publicado em 1982 no Japão – título em inglês: A Wild Sheep Chase.
O que há em Murakami? (utilizando para o efeito esta oração interrogativa própria, e tão típica, do coloquialismo de habla castellana).
Imaginação fértil, fantasia, e um conjunto personagens vulgares cujas vidas se conglomeram no quotidiano anódino e cinzento de uma sociedade tipicamente edificada na inexorabilidade dos padrões e ritmo de vida ocidentais.
Toda a prosa ficcional de Murakami parte da premissa da possibilidade de uma catarse, libertadora das trevas que agrilhoam o indivíduo a uma rotina dilacerante, posta em prática pela imaginação criadora da raça humana, ou melhor, possibilitada pelo seu dom único e exclusivo de sonhar. E o resultado é uma alegoria onde o transcendental, o divino, e o material e o mundano se entrecruzam num estranho jogo de símbolos levado aos limites do absurdo. Neste aspecto Murakami parece saber explorar todas a potencialidades do ilógico ou paradoxal, transversal ao enredo puramente hitchcockiano, ou melhor criado pelo Mestre dos mestres da sétima arte, onde nem sequer estranhamos, ou façamos disso a pedra basilar da nossa íntima avaliação do produto final, que para se perpetrar um homicídio se recorra, por exemplo, como em Intriga Internacional (North by Northwest, 1959), a uma avioneta agrícola de pulverização de colheitas para aniquilar o pobre Cary Grant numa estrada deserta, onde um simples tiro causaria menos espalhafato.
O absurdo é a matéria-prima do processo de construção plástica de Haruki Murakami, trazendo ao quadro final uma miscelânea de tons garridos que forma um todo harmonioso. Minimizar estas capacidades – entenda-se depreciar o autor sem que se alcance ou entenda o desenvolvimento do seu processo criativo – é pura desonestidade intelectual. O que é bem diferente da simples avaliação positiva ou negativa – ou até neutra – de acordo com o gosto eminentemente pessoal de cada leitor.

Com personagens poucos trabalhados e que por vezes parecem surgir do nada, com metáforas em certas ocasiões pueris e com um ritmo narrativo a dois tempos, umas vezes acelerado, outras vezes fastidiosamente lento, o terceiro romance da carreira literária de Haruki Murkami, Em Busca do Carneiro Selvagem – último da trilogia de O Rato –, revela-se como um produto final atabalhoado e pouco consistente; esteve longe de se aproximar das minhas exigências estético-literárias, perfeitamente alcançadas com romances como Norwegian Wood (1987, ed. port. 2004) ou Crónica do Pássaro de Corda (The Wind-Up Bird Chronicle, 1995; ed. port. 2006). Situá-lo-ia ao nível do desapontante Kafka à Beira-Mar (Kafka on the Shore, 2002; ed. port. 2006) e um pouco abaixo de Sputnik Meu Amor (Sputnik Sweetheart, 1999; ed. port. 2005).

Classificação: *** (A Ler)

Referência bibliográfica:
Haruki Murakami, Em Busca do Carneiro Selvagem
. Cruz Quebrada: Casa das Letras, 1.ª edição, Abril de 2007, 369 pp. (tradução de Maria João Lourenço; obra original: Hitsuji o meguru bōken, 1982).

sábado, 17 de fevereiro de 2007

O Senhor Pássaro de Corda*

Um pássaro pousado num ramo de uma árvore dá corda ao mundo?
O seu trinado monocórdico e repetitivo acompanha as manhãs e imita a vida banal de Toru Okada, de 30 anos, voluntariamente desempregado, vive numa moradia em Setagaya – um bairro calmo na buliçosa Tóquio –, casado há seis anos com uma mulher esbelta (Kumiko), de fino trato, que exerce a sua profissão com assinalável sucesso numa editora responsável pela publicação de uma revista sobre nutricionismo. Ambos levam uma vida calma e feliz de jovem casal:
«Vindo do arvoredo ali próximo chegava até nós o canto constante, estridente, de um pássaro que parecia estar a dar corda a algum mecanismo. Chamávamos-lhe o pássaro de corda. Foi Kumiko que se lembrou de lhe chamar assim. (…) Todos os dias vinha até ao arvoredo perto de casa e punha-se a dar corda ao nosso pequeno e pacato mundo.» (pág. 13)

Como se justifica, então, o preenchimento de 634 páginas para descrever a vida corriqueira de um japonês comum, com uma vida sem sobressaltos?
«Estava na cozinha a vigiar o esparguete ao lume, quando tocou o telefone. Ao mesmo tempo ia assobiando a abertura da ópera La Gazza Ladra de Rossini, que estava a tocar numa estação de rádio em FM. O fundo musical perfeito para cozinhar massa.» (abertura do romance, pág. 9)
Trivial.
Porém, do outro lado da linha, estava uma voz tão doce como enigmática, sensual, de uma mulher desconhecida que não se quis identificar:
«– Esparguete? Quem é que se lembra de cozinhar esparguete às dez e meia da manhã?» (pág. 10)
Apenas pedia 10 minutos do tempo do indolente Toru:
«– Dez minutos podem significar mais tempo do que julgas» (pág. 15)
«– Dez minutos – disse ela. – Não é por causa de dez minutos que a tua vida vai começar a andar para trás. Responde à pergunta que te fiz, só isso. Preferes que eu esteja nua ou que vista qualquer coisa? Tenho todo o tipo de coisas, sabes? Cuecas de renda preta...» (pág. 16)

Estava quebrada a rotina. Inicia-se, com um telefonema curto e aparentemente anódino, um período vertiginoso de 18 meses na vida do jovem Okada. Início atribulado que se consuma com o estranho desaparecimento do gato, chamado, com nome de gente, Noboru Wataya: «(…) é o nome do irmão mais velho da minha mulher. O gato faz-nos lembrar ele (…) Na maneira de andar. E têm o mesmo olhar vazio.» (pág. 21)

Em 1995, Haruki Murakami dá por terminada a escrita do terceiro e último livro que a ocidente se materializou na terceira parte do seu romance mais aclamado: Crónica do Pássaro de Corda. O romance conduziu à sua consagração definitiva em solo americano. Antes da pré-publicação em 1997 do 1.º capítulo “O pássaro de corda das terças-feiras / Seis dedos e quatro mamas” na revista norte-americana The New Yorker, Murakami já havia publicado na mesma revista duas histórias – respectivamente, em 1995 e 1997 – que iriam corresponder a mais dois capítulos do livro: a primeira – capítulo 9 do Livro III, pp. 416-435 na edição portuguesa, “O ataque ao jardim zoológico (ou um massacre injustificável)” – conta a história da chacina dos animais selvagens no jardim zoológico da cidade de Hsin-Ching em Agosto de 1945, durante a retirada dos japoneses do território da Manchúria – território chinês onde o exército imperial do sol nascente havia criado pela força o império fantoche de Manchukuo em Fevereiro de 1932 –, perante a iminente chegada do exército soviético; a segunda – capítulo 26 do Livro III, pp. 527-543 na edição portuguesa, “Crónica do Pássaro de Corda N.º 8 (ou O segundo massacre injustificável)” – narra os acontecimentos do dia seguinte ao massacre perpetrado pelos soldados japoneses no jardim zoológico e uma estranha forma de morrer (matar) presenciada pelo veterinário do zoo.

Como Murakami já nos habituou, designadamente através dos três romances que já se encontravam editados na nossa língua – se bem que, originalmente, um tenha sido publicado antes deste, Norwegian Wood (1987), ao contrário dos restantes, Sputnik Meu Amor (1999) e Kafka à Beira-Mar (2002) – a realidade – aqui entendida como verosimilhança – é apenas o pano de fundo que serve de suporte à narrativa do imaginário, conferindo-lhe uma textura cada vez mais rara na literatura contemporânea.

Um jovem assistente de advogado no desemprego vê-se enredado numa trama de contornos pouco claros que, à medida que a narrativa avança, se vai atando cada vez mais, chegando a um ponto em que o próprio não consegue distinguir o real do ilusório.
Desde as atrocidades praticadas por ambos os lados da contenda no conflito da Manchúria – um dos vários episódios negros da 2.ª Guerra Mundial – até à condenação pela União Soviética ao recolhimento dos prisioneiros de guerra nos campos de trabalhos forçados na Sibéria debaixo do jugo de Josef Estaline, Murakami desmonta com mestria a perpetuação das atrocidades cometidas no fragor da guerra nas gerações futuras, quer seja através de dolorosos processos de expiação vividos por aqueles que nela participaram, quer na consciência colectiva de um povo que dificilmente, nos tempos mais próximos, sarará as feridas abertas pelo conflito.
Esta é a história de um homem inocente que, fatidicamente, a partir do Verão de 1984, passará a carregar o pesado fardo da culpa dos outros, as manchas que persistem na memória colectiva de um povo que, em nome dos supostos grandes valores civilizacionais, participou na barbárie de uma guerra fraticida.

Crónica do Pássaro de Corda é, a par de Norwegian Wood, o melhor romance que li do sublime escritor nipónico.

Referência bibliográfica:
Haruki Murakami, Crónica do Pássaro de Corda. Cruz Quebrada: Casa das Letras, 1.ª edição, Novembro de 2006, 632 pp. (tradução de Maria João Lourenço; obra original: Nejimaki-dori kuronikuru, 1995; obra em língua inglesa – EUA: The Wind-Up Bird Chronicle, 1997)


*O título foi inspirado na excelente crónica “O Senhor Murakami” escrita por Rui Tavares e publicada no seu livro Pobre e Mal Agradecido (Tinta da China, 2006, pp. 51-63), e não só…

segunda-feira, 8 de janeiro de 2007

Cruzamentos

No sábado adquiri finalmente o último calhamaço de Haruki Murakami editado em Portugal pela Casa das Letras. São 632 páginas de letra miudinha que compõem o mais internacionalmente aclamado romance do autor japonês. Falo, é claro, de Crónica do Pássaro de Corda (1994).
O livro, com firme potencial para de súbito se transformar em arma branca, traz a inevitável cinta de propaganda na qual se lê uma única asserção curta e contundente atribuída ao periódico
The Observer:
«Um fantástico cruzamento entre Woody Allen e Franz Kafka».
Bem, só de pensar até arrepia. Já para nem falar na latente imagética necrófila que sobreveio à minha mente tortuosa.
O que significa cruzar Woody Allen com Kafka? Sairá uma vietnamita entomórfica – mais da estirpe de escaravelho e não de barata, profere assertivamente um lepidóptero reputado de apelido Nabokov –, gaga e psicótica que sofre de tísica?
Um dia trago o meu pai ao blogue – correndo, embora, o risco de lhe poder causar uma síncope cardíaca pela constatação das barbaridades que o filho escreve – e peço-lhe para explicar a cepa que eventualmente poderia sair numa boa enxertia de casta nova-iorquina com casta checa germanófila e qual o néctar daí resultante.
Cruzamento!? Ele há cada um...!

Quanto ao momento de início de leitura, prevejo que ocorra lá para o final do mês. Ainda não me recompus da decepção de Kafka à Beira-Mar (2002; ed. port. Casa das Letras, 2006) – apesar de recomendar a sua leitura – a anos-luz do excepcional Norwegian Wood (1987; ed. port. Civilização, 2004) e uns furos atrás do excelente Sputnik Meu Amor (1999; ed. port. Casa das Letras, 2005).

Até lá, à laia de passatempo, dedicar-me-ei a fazer mais uns cruzamentos, como por exemplo: o que daria William S. Burroughs com John Milton? Ou Virginia Woolf com Michel Houellebecq?