Mostrar mensagens com a etiqueta Robert De Niro. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Robert De Niro. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Estarão mesmo todos bem? (apropriações fílmicas – parte II)


Foi em finais da década de 90 do século passado que, aproveitando uma sexta-feira de indolência pós-laboral, liguei o antigo canal de filmes TeleCine 2 da TV Cabo – na altura uma oferta, em período experimental, que não viria a ter continuidade pela exaustiva repetição dos filmes exibidos acrescida da prática de um preço abusivo – e reparei, de forma fortuita, que se anunciava um filme italiano para os minutos que se seguiam. Tratava-se de um filme do meu muito apreciado Pepuccino, protagonizado pelo monstro sagrado da cinematografia mundial Marcello Mastroianni – o homem de 8 ½ e de La Dolce Vita do inigualável Fellini, do maravilhoso La Notte do mestre Antonioni e do assombroso Um Dia Inesquecível (Una giornata particolare, 1977) de Ettore Scola, ao lado de Sophia Loren.
Perguntei-me como é que um filme de Tornatore havia escapado à minha análise indefectível de um faccioso do realizador siciliano e de um fã incondicional da escola de cinema que lhe serviu de sustentáculo: Visconti, Fellini, Scola, Antonioni, e tantos outros que construíram no pós-guerra a fábrica de sonhos alternativa à máquina devoradora de Hollywood. Sentimento de ignorância que se agravou pelo facto de o argumento ter sido escrito pelo realizador siciliano em co-autoria com o lendário Tonino Guerra.
E assim se iniciou o filme. Chamava-se Estão Todos Bem (Stanno tutti bene, 1990), terceira longa-metragem de Giuseppe Tornatore, produzida logo após o sucesso universal de Cinema Paraíso (Nuovo cinema Paradiso, 1988) que catapultou Pepuccino até ao Olimpo dos deuses do cinema. O filme abriu com as notas de um allegro que saindo da batuta de Ennio Morricone se tornaram de imediato etéreas. Mastroianni parte… ou melhor, Matteo Scuro sai da sua Sicília, partindo pela primeira vez rumo ao encontro dos seus filhos que há muito migraram, numa espécie de diáspora siciliana, para a imponente Itália em busca de melhores condições de vida.
Este é o filme de Matteo, um amante da ópera lírica, que, viúvo e após se reformar da função pública, caminha até aos lugares que o conduzem à sua prole espalhada por Itália entre Nápoles e Turim, passando por Roma, Florença e Milão. Todos lhe haviam assegurado nas espaçadas visitas à Sicília, estar bem na vida, disputando altos cargos nas mais variadas profissões. Eis o encantador Matteo que, tendo dado asas à sua paixão lírica, dispôs que todos os seus filhos tivessem nomes de personagens famosos criados por alguns dos mais que consagrados compositores italianos: Guglielmo (personagem da ópera Guillaume Tell de Rossini), Tosca (personagem da ópera epónima de Puccini), Norma (personagem da ópera epónima de Bellini), Alvaro (personagem da ópera La forza del destino de Verdi) e Canio (personagem da ópera Pagliacci de Ruggero Leoncavallo).
Mastroianni (1924-1996), apesar de alquebrado por um estado de saúde periclitante – embora quando protagonizou o filme tivesse apenas 65 anos – enche o ecrã com a sua magistral interpretação, desde as situações burlescas passando por aquelas carregadas de um pathos bem tornatoriano (vide, por exemplo, Cinema Paraíso, e o grave e simultaneamente enternecedor A Lenda de 1900).
Com este filme, Tornatore venceu, entre outros, o Prémio do Júri Ecuménico no decurso do Festival de Cannes de 1990 – ano em que David Lynch arrecadou a Palma de Ouro do festival com o inolvidável Um Coração Selvagem (Wild at Heart), sendo o júri presidido por Bernardo Bertolucci.
Mas agora, é chegado o tempo para descrever o horror que me assaltou há poucos dias numa suposta improfícua navegação pela Internet.
Tudo o que atrás foi referido, e que me inebriou até âmago do meu ser, foi, porventura, artisticamente extorquido aos seus autores e arrasado pela repetição, porquanto há pouco mais de uma semana, estreou nos Estados Unidos um filme chamado Everybody’s Fine, baseado no argumento original de Tornatore, Guerra e De Rita, com adaptação do também realizador, um tal de um inglês – que, confessando a minha muito provável cine-ignorância, até hoje desconhecia – chamado Kirk Jones.
Onde havia MorriconeMarianelli – sim, o mesmo das marteladas dactilografadas de Expiação (Atonement, 2007), cujo nome me faz lembrar uma qualquer marca de componentes para automóvel –, e onde brilhava Mastroianni há agora De Niro.
Curiosamente, Robert De Niro tem exactamente a mesma idade de Mastroianni quando este protagonizou o filme de Tornatore. Porém, apesar da inegável qualidade do actor norte-americano – um dos meus preferidos, diga-se –, não consigo vislumbrá-lo a interpretar o papel de um velho reformado, picaresco, terno, crédulo ou aparentemente iludido pelos seus filhos num périplo cheio de incidentes por Itália... perdão, pelos Estados Unidos. O resto do elenco é composto por nomes como Kate Beckinsale, Drew Barrymore e o normalmente apatetado Sam Rockwell.
Para ser sincero, espero o pior. Não consigo, por exemplo, encaixar os tiques dramáticos de De Niro – “are you talking to me?” ou “If I talk to you, and you turn me into a fag, I’m gonna kill you, you understand?” – no papel de Matteo que passou a Frank Goode. E, então, se atentarmos nos seus últimos filmes, o actor italo-americano está a necessitar de uma urgente e profunda intervenção, de que tipo for, para a regeneração do seus, outrora, infindáveis dotes interpretativos.
Como referi na parte I desta série, a ver vamos. Até à sua exibição em frente dos meus olhos (abertos, de preferência), vou deixar morrer lentamente alguns dos apriorismos que me toldaram a mente no momento da inesperada notícia do heteróclito remake hollywoodiano. Até lá resta-me assobiar como Mastroianni (Matteo) fazia para marcar a presença e chamar os seus filhos, e com isso desanuviar a tensão de um cinéfilo irascível.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Saudosismo

De Niro e Pacino em A Dupla Face da Lei, de Jon Avnet
Contra todas as recomendações externas, ultrapassando todos os obstáculos interiores típicos de um ego mais que prudente neste matéria, vi A Dupla Face da Lei (Righteous Kill, 2008) do realizador nova-iorquino Jon Avnet (n. 1949), cujo currículo fílmico é bastante pobre, permanecendo ainda na minha mente cinéfila uma bambochata apelidada de 88 minutos (88 Minutes, 2007), estreada na Primavera deste ano em Portugal.
O argumento pertence a Russell Gewirtz, o mesmo que escreveu o guião para um dos melhores filmes de 2006 Infiltrado (Inside Man) realizado por Spike Lee.
No topo dois actores: Robert De Niro e Al Pacino.
Abstenho-me de enumerar o conjunto de filmes em que ambos os actores proporcionaram momentos de puro deleite cinematográfico a uma geração que cresceu nos anos 70 e aprendeu a endeusá-los nas duas décadas seguintes. Há muitos e bons exemplos de inexcedíveis interpretações, dirigidas por entronizados mestres da 7.ª arte.
Pode-se admirar apenas um deles, ou gostar mais de um – eu, intimamente, coloco num patamar superior, o meu De Niro – apesar de se elevar à condição de ídolo o outro, são gostos, discutíveis e incensuráveis; concedo que, por mais que se tente negar, existe sempre uma plêiade de motivos e argumentos que poderão ser evocados para colocar um à frente do outro, reconheço e dá uma interessante tertúlia rememorativa, de tabaco e álcool à volta de uma mesa de entendidos e admiradores. Mas o século XXI conduziu-os ao abismo do dinheiro fácil, da interpretação quase abúlica, mas lucrativa, que não pede sacrifícios (ou não lhes souberam/quiseram pedir), estudo aturado dos personagens, análise do enquadramento do seu papel num todo complexo que forma a obra de arte.
Pacino e De Niro limitam-se, com mais ou menos peso, com mais ou menos rugas e cabelos brancos, a ser o Alfredo e o Roberto da vida quotidiana, talvez por idolatria dos responsáveis que jamais se atreverão a tocar nas vacas sagradas italo-americanos feitas a pulso, ou quiçá por restrições contratuais pré-convencionadas que legitimam o esforço mínimo, ou, porventura, por uma inevitável perda de agilidade e de sabedoria performativas – motivo, cujo fatalismo, agride de forma profunda um admirador incondicional, levando-o ao desconfortável estado de negação.
Porém, para ser rigoroso, não fui ver A Dupla Face da Lei, quis apenas assistir à interpretação da dupla que povoa a secção dourada do meu imaginário de cinéfilo. E se deixarmos de lado a segunda parte de O Padrinho de Coppola, em que ambos, por mais que encantem com as suas interpretações – como assevero que encantaram –, não contracenam, dada a impossibilidade cronológica da trama – De Niro representa o jovem D. Vito Corleone acabado de chegar à América, e Pacino é Michael, o filho mais novo do primeiro que apenas surge de fraldas nas analepses, dando os seus primeiros passos por Little Italy –, apenas sobra o portentoso Cidade Sob Pressão (Heat, 1995), soberbamente dirigido por um dos meus realizadores favoritos, Michael Mann (e com argumento do próprio).
Mann é um exímio gestor de actores e das suas representações. Não me recordo – e não fora a preguiça, poderia rapidamente verificar a inviolabilidade da inabalável asserção – da direcção de uma parelha masculina de célebres actores mal conseguida ou desajustada no grande ecrã – recordo-me, por exemplo e para não recuar mais no tempo, de Farrell e Foxx em Miami Vice (2006), ou do mesmo Foxx e Cruise no filme, bem demonstrativo do paradigma manniano, Colateral (2004).

Como falar sobre o subproduto cinematográfico que acabei de assistir, seria como teorizar sobre um conjunto de inanidades e de lugares-comuns travestidos de arte, deixo aqui ficar, para a posteridade, uma das mais deliciosas contracenas da história do cinema americano. Em Cidade sob Pressão (Heat), o tenente da polícia Vincent Hanna (Al Pacino) janta com a sua Nemésis o assaltante e homicida Neil McCauley (Robert De Niro). Eis uma passagem do longo diálogo (dura cerca de seis minutos) à mesa de um restaurante em Beverly Hills:

«Vincent Hanna: A minha vida? Não, a minha vida... A minha vida é uma catástrofe. Tenho uma enteada completamente desvairada porque o pai dela é uma besta em larga escala. Tenho uma mulher, atravessamos ambos a curva descendente do casamento – o meu terceiro –, porque passo o tempo todo a perseguir tipos como tu. É esta a minha vida.
Neil McCauley: Uma vez um tipo disse-me que não me agarrasse a nada que não pudesse largar em trinta segundos se pressentisse a tensão* ao virar da esquina. Agora, se você quer prender-me e não me pode largar, como espera conseguir manter um casamento?» [tradução: AMC]

A postura, a expressão facial, o fraseado, os tom e voz, os olhares cruzados. Caçador e presa confundem-se. Que saudades...

*N.T. – a expressão usada é “feel the heat”; “heat” tanto pode ser genericamente designado por tensão (no contexto em causa, de permanente fuga), como, em termos restritos, no jargão usado entre criminosos, pode simplesmente designar a “polícia” na sua azáfama persecutória.