sexta-feira, 12 de outubro de 2007

Tranströmer

Tomas TranströmerSe houve algum benefício, para além do eminentemente lúdico, do repto que aqui lancei no início desta semana a propósito da atribuição do Prémio Nobel da Literatura de 2007, ele traduziu-se decerto pela emergência de alguns nomes que, por critérios editoriais e pela eficiência na gestão dos recursos dos editores e livreiros, eram do desconhecimento do público em geral e que, supostamente, se distinguiram pela arte de contar histórias num dado local, num determinado momento.
Não sendo, por enquanto, um apaixonado por poesia – e reforce-se a potencial transitoriedade afectiva – houve um conjunto de poetas, putativos candidatos ao galardão da Academia Sueca, que emergiu da habitual armada de prosadores que sistematicamente surge nos lugares mais destacados dos prémios de carreira literária. Falo de nomes, que até então desconhecia, como o sírio-libanês Adonis, o sul-coreano Ko Un ou o sueco Tomas Tranströmer, entre outros.
Um dos princípios que me levou a entrar na blogosfera há quase um par de anos, para além da forte necessidade sentida de descarregar as minhas emoções através da exteriorização dos meus medos e encantamentos, de alguns do meus pensamentos mais profundos – ou concepções do mundo –, advinda de uma vida que se complicava por factores essencialmente exógenos à minha vontade – os tais reveses da fortuna –, foi precisamente, o de tentar, através das minhas leituras, dessacralizar a Literatura, ou se quisermos, o de contrariar uma certa elitização de um dos instrumentos primordiais à sobrevivência da espécie humana, como define Auster, o de ouvir e contar histórias, a necessidade que Homem tem da fábula, de poder sonhar enquanto prossegue na sua incessante demanda pela verdade.
Se brinco com a Literatura e com os seus caracteres e actores, se a torno profana, ou até mundana, apenas resulta de um esforço – que não se confunda com altruísmo, ou eventualmente, com a propensão para uma megalomania messiânica – para restituir a naturalidade às artes literárias, desafectando-a da horda intelectual e do seu pressuroso escolasticismo.

Regressando ao princípio deste texto, afirmava eu que uma das vantagens do desafio que aqui lancei, ademais de uma discussão sobre os gostos literários, foi o de dar a conhecer alguns autores que eu próprio, o mentor do repto paraliterário – assim talvez não ofende a escolástica –, desconhecia.
Serve a verborreia para destacar a contribuição do Luís Costa que, gentilmente, cedeu (via caixa de comentários) dois poemas de Tranströmer alusivos a Portugal, traduzidos do alemão pelo próprio.
Deixo aqui ficar um, o poema Lisboa:

No bairro de Alfama os eléctricos amarelos cantavam nas
Subidas.
Havia duas prisões. Uma delas era para os gatunos.
Eles acenavam através das grades.
Eles gritavam. Eles queriam ser fotografados!

“Mas aqui”, dizia o revisor e ria baixinho como um afectado
“aqui sentam-se os políticos”. Eu vi a fachada, a fachada, a fachada
e em cima, a uma janela, um homem,
com um binóculo à frente dos olhos, espreitando
para além do mar.

A roupa pendia no azul. Os muros estavam quentes.
As moscas liam cartas microscópicas.
Seis anos depois, perguntei a uma dama de Lisboa:
Isto é real, ou fui eu que sonhei?

Tomas Tranströmer, Lisboa (tradução de Luís Costa)

3 comentários:

Luís Costa disse...

Passei por aqui. Gostei de ler este texto. De novo, os poetas ficaram de fora em Estocolmo.O que é pena. A seguir vai um poema do poeta Adonis traduzido por mim do alemão.

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A FLORESTA MÁGICA

Que assim seja:
Os pássaros chegaram e as pedras
Juntaram-se às pedras
Assim:
Eu acordo as estradas e as noites
E nós seguimos na procissão das árvores

Os ramos são malas verdes e os sonhos
uma almofada
Na viagem de férias
Onde a manhã continua estranha
Onde o seu rosto
Permanece um selo sobre os meus mistérios

Assim:
Um raio indicou-me o caminho, uma voz chamou-me
Do fim mais extremo do muro

*****

ADONIS ( Ali Ahmed Said )


Adonis, poeta e ensaísta, nasceu em 1930 na Síria. O seu verdadeiro nome é Ali Ahmed Said. Estudou filosofia em Damasco e Beirute. De seguida teve várias estadias no estrangeiro por exemplo em Nova York e Paris. Hoje vive em Paris. Adonis tem traduzido muitos autores franceses para o árabe. Entre eles encontram-se Racine e Saint Jonh-Perse.
Em 1957 fundou com Yousuf el-Khal a revista literária mais importante do espaço árabe: «Schiir» (Poesia).
Adonis contribuiu muito para a renovação da língua árabe e influenciou assim uma geração de escritores e poetas árabes. Escrever poesia significa para ele uma luta permanente contra a memória fechada sobre si mesma da cultura, ou seja, contra o passado. O nome Adonis é considerado no mundo árabe, desde os anos 60, um sinónimo de modernidade. Ele afirmou-se aí como um dos principais porta- vozes da corrente critica e pós-moderna. Para ele a lírica representa uma forma de violação da língua; é a tentativa de obrigar a língua a dizer aquilo que a prosa jamais conseguirá exprimir. Este grande poeta vê as raízes da sua lírica no misticismo islâmico, que ele considera como um surrealismo antes do surrealismo europeu.
Entretanto o mundo árabe fala de adonismo , adonismo esse que tem os seus seguidores entusiásticos, mas também um grande número de inimigos ferrenhos, que se encontram, sobretudo, entre os islamitas.

Luís Costa

Turma 12 disse...

Como diz Fernando Pessoa, “a literatura , como toda a arte, é uma confissão de que a vida não basta. Como alunos de Literatura, agradecemos os voos que este blog nos proporciona. Os nossos próprios voos, reflexos do que somos, sentimos e sonhamos, estão em http://12reflexos.blogs.sapo.pt/

AMC disse...

É bem verdade, meu caro Luís. Já nem me lembro qual foi o último poeta a ser galardoado com o Nobel da Literatura. Todavia, não despiciendo a injustiça cometida com um dos melhores poetas universais de sempre, Fernando Pessoa, pelo menos houve a razoabilidade de galardoar um dos meus preferidos, se não mesmo o meu preferido: Yeats. Obrigado por mais esta oferta que aqui será colocada em lugar de destaque.

O meu agradecimento pelas vossas palavras à turma do "12 reflexos", já vos havia enlaçado e podem contar com visitas regulares ao vosso blogue, divulgador da Literatura.