sexta-feira, 19 de outubro de 2007

Sou literariamente sionista

É necessário estabelecer um ponto prévio, à guisa de pequena autobiografia. Nasci em 1972, na burguesa cidade do Porto, no seio de uma família conservadora, católica praticante e, acrescente-se, plenamente às direitas – por conseguinte, não-sinistra.
Hoje, seguindo-se a minha regular e natural evolução ontogénica, pese embora a minha visceral rotulofobia, considero-me um liberal apartidário, tendencialmente laico – para grande desgosto do meu pai –, não-keynesiano, antimarxista, adepto confesso do capitalismo popular como veículo primordial para a completa erradicação da iniquidade social na distribuição da riqueza criada.
Serei de direita?
Há, todavia, algo que se me afigura como quase natural, com a esquerda opinativa que, hoje em dia, domina os meios tradicionais de comunicação social, a classe jornalística em geral e os denominados ou autoproclamados centros da intelectualidade lusa, de esquerda não serei certamente… e a direita não bate assim.

«A Direita está cheia de preconceitos que se instalam, dominam e oprimem. Um filho de uma família de Direita tem muito menos abertura de espírito do que um filho de uma família de esquerda. E faz-me impressão uma sociedade em que se premeie apenas o mérito, independentemente das condições à partida. Isso é a Direita e isso faz-me muita impressão.» Margarida Pinto Correia, in Sol, 11 de Agosto de 2007, pág. 3.

«Penso que este Nobel [da Literatura, a Doris Lessing em 2007] corresponde a um certo desejo de nos últimos anos premiar obras com marcas sociais e humanas de dádiva, autores com uma marca de empenhamento e intervenção humana e social. […] [julgo] muito difícil que grandes escritores cínicos, desencantados, como Philip
Roth ou Mário Vargas Llosa, sejam premiados.
» Urbano Tavares Rodrigues, in Público, 12 de Outubro de 2007, pág. 18.

«A característica primeira da Doris Lessing, quanto a mim, é realmente ser uma mulher de ideais, uma mulher de causas, uma mulher da liberdade: uma mulher de esquerda.» Maria Teresa Horta, in Câmara Clara, RTP2, 14 de Outubro de 2007.

O mais preocupante nestas três citações, entre muitas outras que poderia encontrar – sabendo que a blogosfera seria o local privilegiado para descobrir, de forma quase instantânea, um bom punhado de referências da mesma índole –, é o primitivismo maniqueísta no espírito destes esquerdistas de afirmação e a apropriação ilegítima dos chavões de defesa da liberdade, dos valores sociais, do direito à diferença, dos desprotegidos. Hoje, temos uma esquerda sectária, intolerante, tendencialmente reaccionária, profundamente convencida de que é proprietária, em rigoroso exclusivo, do graal da verdade suprema. E foi essa esquerda, irascível, dona putativa do bem, do pensamento cultural e da intelectualidade, que se insurgiu contra o Pedro Mexia quando este, fazendo uma alusão ao normalizador estalinista Andrei Jdanov – e poderia ter ido mais longe, se falasse dos candidatos a Savonarola da revolução cultural maoísta – constatou que existe, de facto, uma agenda política da Academia Sueca na atribuição de um prémio literário e defendeu, na sua inalienável opinião pessoal, como estranho o recalcitrante esquecimento de Philip Roth... um judeu norte-americano.
Ora, esta esquerda, que numa só década conseguiu apoderar-se dos tiques da direita tradicional e reaccionária, apodou o Pedro Mexia de sionista. Este, defendeu um judeu para o Nobel da Literatura e, imagine-se, para cúmulo da insensatez, é norte-americano.
Mas Roth é de esquerda, ou estarei enganado!?
Não conheço o Pedro Mexia, nunca li um livro seu, e como podem constatar nem sequer existe uma reciprocidade lincacional, embora acompanhe os seus escritos na imprensa e na blogosfera. Considero-o, todavia, uma das referências culturais nacionais, tanto nas artes literárias – a sua área de criação artística –, como nas cinematográficas. Mas Mexia tem um óbice, confessa-se como conservador de direita, e a doxa intelectual, no seu fervoroso exclusivismo, não lhe perdoa.

Eis quatro protagonistas, vivos, judeus e norte-americanos de esquerda, escritores de profissão, pertencentes ao olimpo das minhas preferências literárias, que fazem de mim um sionista:

Philip RothJ. D. SalingerNorman MailerPaul Auster

8 comentários:

manuel a. domingos disse...

também eu sou sionista, principalmente em relação ao segundo e terceiro (vénia). o primeiro ainda não tive li (ainda bem que não ganhou o nobel, pois assim já o posso ler mais à vontade). e o quarto, bem... já sabes o que penso do senhor.
abraço e bom fds

Luís Costa disse...

Caro André Moura e Cunha,

gostei de ler o seu texto. No entanto no que diz respeito a ser sionista ou não sionista,
ou a ser-se da esquerda ou da direita, penso, pela minha parte, que a arte e, portanto, também a literatura, deveria ser, sobretudo – “ sobre- humanista “.

A meu ver na literatura o que interessa não são os problemas políticos religiosos e sociais etc., embora também sejam importantes, mas o que interessa aí é a capacidade que essa literatura tem de fascinar o leitor e de o elevar a uma espécie de cartasis. Porque se a literatura não fosse mais do que um mero contar de problemas sociais, políticos e religiosos, então chegava-nos o jornalismo, bem como as teses de Sociólogos, Filósofos e Teólogos.

A potência de um bom romance, ou de uma peça de teatro ou de um quadro e por aí à frente reside não nos problemas políticos e sociais que aí nos possam ser apresentados, mas antes, isso sim, na maneira como eles nos são apresentados e trabalhados e também, sobretudo, na sua potência poética e mágica, naquele momento em que um livro é capaz de arrancar da boca do leitor um portentoso: Oh!


No que diz respeito ao júri do Prémio Nobel, penso que este se encontra obcecado pela marca de empenhamento e intervenção humana e social que a obra de cada escritor possa trazer em si, ou seja, com o seu lado político, e que se esquece do que é ou deve ser realmente a literatura. E talvez seja exactamente por isso que os poetas raramente sejam galardoados com este prémio.

Por fim envio-lhe um poema, traduzido por mim, do alemão para o português, de Paul Celan,
pseudónimo de Paul Antschel.
Os pais de Celan eram judeus de origem alemã. Em 1942 foram ambos deportados para um campo de concentração. O seu pai morre aí de tifo e a sua mãe é fuzilada. O próprio Celan também se encontrou preso em vários campos de concentração.
O poema “ a fuga da morte “ espelha o sofrimento da raça judaica durante o regime NAZI:


FUGA DA MORTE *


Leite negro da madrugada nós bebemo-lo ao anoitecer
Nós bebemo-lo ao meio-dia e de manhã nós bebemo-lo à noite
Bebemos e bebemos
Nós cavamos uma sepultura nos ares aí tem-se mais espaço
Um homem mora na casa ele brinca com as serpentes ele escreve
Ele escreve quando escurece na Alemanha o teu cabelo dourado Margarida
Ele escreve e sai de casa e as estrelas relampejam ele assobia aos seus mastins
[para que se aproximem
Ele assobia aos seus judeus para que se mostrem cavai uma sepultura na terra
Ele comanda-nos tocai agora para a dança

Leite negro da madrugada nós bebemos-te à noite
Nós bebemos-te de manhã e ao meio-dia nós bebemos-te ao anoitecer
Nós bebemos e bebemos
Um homem vive na casa ele brinca com as serpentes ele escreve
Ele escreve quando escurece na Alemanha o teu cabelo dourado Margarida
O teu cabelo em cinza Sulamita nós cavamos uma sepultura nos ares aí tem-se mais espaço

Ele grita escavai cada vez mais fundo no solo vós esses vós outros e tocai
Ele tira o ferro do cinto e brande-o os seus olhos são azuis
Espetai cada vez mais fundo as enchadas vós esses vós outros continuai a tocar para a dança

Leite negro da madrugada nós bebemos-te à noite
Nós bebemos-te ao meio-dia e de manhã nós bebemos-te ao anoitecer
Nós bebemos e bebemos
Um homem vive na casa o teu cabelo dourado Margarida
O teu cabelo em cinza Sulamita ele brinca com as serpentes
Ele grita tocai docemente a morte a morte é um mestre da Alemanha
Ele grita tocai os violinos sombriamente então subireis como fumo aos ares
Então tereis uma sepultura nas nuvens aí tem-se mais espaço

Leite negro da madrugada nós bebemos-te à noite
Nós bebemos-te ao meio-dia a morte é um mestre da Alemanha
Nós bebemos-te ao anoitecer e de manhã nós bebemos e bebemos
A morte é um mestre da Alemanha o seu olho é azul
Ela acerta-te com balas de chumbo ela não falha
Um homem vive na casa o teu cabelo dourado Margarida
Ele açula os seus mastins contra nós ele oferece-nos uma cova no ar
Ele brinca com as serpentes e sonha a morte é um mestre da Alemanha

O Teu cabelo dourado Margarida
O teu cabelo em cinza Sulamita


•“ Fuga “ aqui em sentido musical

Luís Costa disse...

Onde escrevi " catársis ",
deve-se ler catársis.

Luís

make a smile disse...

A designação de esquerda e de direita parece-me às vezes uma disputa entre pessoas sedentas de protagonismo... Como se defender os direitos do homem (é disso que se trata no fundo, não?) fosse etiquetável em termos políticos e não apenas humanitários.
Que interessa ao expoliado, ao explorado, a todas as vítimas se cada um é de direita ou de esquerda se continua a sua situação de abaixo de humano?
Porque afinal, tanto a esquerda como a direita têm no seu cartório grandes crimes contra a humanidade, ou não?
Contudo, acho que há uma certa esquerda que vê o ser humano com dignidade. Talvez o mesmo aconteça com certa direita...hum, não sei

inominável disse...

eu tb gosto de Philip Roth... Adorei "ANimal moribundo", "Orgia de Praga", "Complot contra a América" (o melhor de todos) e "Pastoral americana"... Mas também gosto do Paulo Auster... Tenho que escolher entre ti e o Mexia??? Não me faças isso... sobretudo agora que tenho os dois linkados :)

Nuno Castro disse...

Caro André.

Percebo a sua revolta. A um texto idiota de Pedro Mexia seguiu-se, quase em eco, um outro a emulá-lo.
A caça às bruxas já acabou, espero. Mas que as hay lá isso não haja dúvidas nenhumas.

queira o caríssimo dar um salto aqui http://obloguequalquer.blogspot.com/2007/10/tergiversao-sobre-os-malefcios.html

e aqui http://obloguequalquer.blogspot.com/2007/10/plotting-against-roth.html

se tiver paciência e tempo, e depois se quiser discutimos.

A direita e as suas conspiraçõezinhas de trazer por casa é de facto um grego (leia-se vómito).

AMC disse...

Meus Caros,
Em primeiro lugar, obrigado pelos comentários.
O que aqui tentei exprimir foi a tendência (não sei se exclusivamente lusa) de sectarismo artístico. Julga-se a arte, ou a obra de arte, para ser mais preciso, pela colocação do artista no espectro político. Para além de achar que a dicotomia esquerda/direita está perfeitamente anquilosada, serve apenas os objectivos das guerras de alecrim e manjerona da blogosfera lusa, não se conhecem fronteiras entre uma verdadeira política de esquerda e de direita. A queda do muro de Berlim e consequente unipolarização do poderio político, económico e, porque não, militar à escala do globo, contribuíram para esse esbatimento.
Aquilo que quis referir, que resulta de uma mera constatação, e trata-se de um acusação que normalmente é apontada à suposta direita e aos seus militantes, é a tentativa de alguns ditos fervorosos esquerdistas na apropriação de determinados assuntos como sendo da sua exclusividade, designadamente da arte e a opinião sobre ela. Ou seja, a esquerda ganhou, numa rapidez inusitada, os tiques da direita caceiteira e a intolerância pela opinião alheia (e quando aqui me refiro à esquerda, falo, como é óbvio, da esquerda democrática).
O que o Pedro Mexia referiu, com a acutilância que se lhe reconhece, não é novidade para ninguém, mas também não implica que dela não se fale: o Comité Nobel segue uma agenda política. Ora, para um amante da Literatura como é o meu caso e o do Pedro, não há nada que me irrite mais. A arte é universal, transversal e deve ficar longe das querelas partidárias. Tanto gosto de obras de Máximo Gorki como de obras de Céline. Considero Vargas Llosa acima de García Márquez, mas nada tem que ver com questões políticas, a distinção emana das minhas preferências estético-literárias.
Em suma, quando o Pedro Mexia falou de Jdanov, disse-o com alguma razão. A arte não se enquadra no espectro partidário, e muito menos em questões de raça. Houve alguém que apelidou Mexia de sionista porque ele, no seu entender, na sua opinião livre e incensurável, manifestou a sua predilecção por P. Roth. Ora, se eu gosto de um autor judeu, isso faz de mim um partidário do sionismo? Um fundamentalista judaico?
Beijos e abraços conforme aprouver,
André

Nuno Castro disse...

Mais uma vez, há um engano que importa desfazer. Primeiro, nada foi dito especificamente contra o Mexia - apenas o seu ego maior do que o membro do John Holmes justifica que se tivesse sentido particularmente lesado.
Segundo, a pergunta é tão legítima como outra qualquer, e claro, não cai -ou tenta evitar- nas armadilhas da terceira via que parece têm vindo a ser apropriadas por bons conservadores. Como disse num post, só quem não vê a animosidade de alguns postantes em relação a Saramago é que pode achar que isto é tudo nacional porreirismo na república das letras. Não é. E sim, existem clivagens ideológicas. Elas podem até não ser consoante a velha divisão esquerda direita. Mas estão lá e sobrevivem. Por exemplo, o novo ódio contra o pc (leia.se political correctness)
Terceiro, não se trata de gostar sem olhar a quem, como diz o refrão. Trata-se de perceber por que razão o Nobel de Lessing concitou tanta apreensão, e desprezo, nos blogs conservadores. Questão que me parece sobejamente pertinente, dado que o padrão de unanimidade foi em certa medida inusitado.
Quarto, a par disso há um amor por Roth - que eu estou longe de repudiar, e acho que Roth é um escritor excepcional - que parece deslocado numa direita conservadora. Será que as micções das personagens do Roth para as bocas de ninfetas já não impressionam a direita conservadora, como faziam, digamos as mesmas brincadeiras de um Bataille?? É de facto extraordinário como o Roth pode passar por este crivo e sair ileso - se o leram, muitos deles, é outra coisa.
Dir-se-ia que a direita papa missas - espero que não se ofendam, porque afinal, como diz aqui o André isto é tudo malta viajada -, mas dizia, parece que a direita papa missas está fascinada pelo Roth por razões heteróclitas. Vá lá a gente perceber.
Nada disto tem a ver com antisemitismo. E nada disto foi ainda suficientemente respondido. Pelo menos para quem se interessa por estas minudências.
A minha demanda continua, mas deve ser considerada puramente diletante.