quinta-feira, 31 de maio de 2007

O escritor, um crítico e o seu trabalho

Edmund WilsonEdmund Wilson (1895-1972), escritor norte-americano, sobretudo reconhecido pelo seu brilhante currículo como crítico literário, considerado como um dos críticos mais proeminentes e respeitados nos Estados Unidos do século XX.
O apogeu da sua carreira e da sua influência no mundo das letras norte-americanas deu-se enquanto editor da The New Republic e crítico da The New Yorker. A ele se deve, por exemplo, a perpetuação nos anais da literatura mundial do nome e da obra de um dos mais geniais escritores de sempre, F. Scott Fitzgerald – de quem foi colega em Princeton –, cuja morte prematura aos 44 anos, a conturbada época em que este escreveu, entre o fim da I Guerra Mundial, passando pela Grande Depressão e acabando às portas da II Guerra Mundial, o alcoolismo e as extravagâncias mundanas, e isto apesar da incrível quantidade (e qualidade) de contos que escreveu e publicou – cerca de 170, uma das formas de sustentar a sua vida luxuosa e as singulares exigências da sua caprichosa mulher Zelda – e dos seus arquetípicos romances, facilmente poderia cair no esquecimento.
Wilson é ademais conhecido pelo seu longo e inconstante relacionamento com Vladimir Nabokov, numa primeira instância por ter dado a conhecer ao mundo ocidental, sobretudo aos americanos, o génio literário do exilado russo, de quem se tornaria grande amigo e com quem mais tarde protagonizaria uma das mais famosas e acesas altercações literárias – consta que chegou à violência física –, a propósito da tradução de Eugénio Onegin (por transliteração do cirílico para o alfabeto latino de Yevgeniy Onegin, deve-se ler “Oneguine” em português) do autor russo Aleksandr Pushkin (1799-1837).
Numa recensão publicada na The New York Review of Books em Julho de 1965, intitulada “The Strange Case of Pushkin and Nabokov”, Wilson começa por dizer:

«Este trabalho, embora válido, é de certa forma desapontante; e o crítico, embora amigo pessoal do Sr. Nabokov – por quem ele mantém uma calorosa estima muitas vezes arrefecida pela exasperação – e um admirador de grande parte do seu trabalho, não se furta a demonstrar o seu desapontamento.
«Uma vez que o Sr. Nabokov tem o hábito de apresentar qualquer trabalho seu desta envergadura através de um anúncio de que ele é único e incomparável, e que toda a gente que o tenha tentado é um tonto e um iletrado, incompetente como académico e linguista, normalmente com a implicação de que se trata de uma pessoa sem classe e com uma personalidade ridícula, Nabokov não deverá queixar-se se o seu crítico, embora não tentando imitar a sua má conduta literária, não hesitar em sublinhar as suas debilidades.» [tradução livre AMC]

A partir deste momento a História da literatura registará uma das mais truculentas trocas de correspondência entre os dois velhos (ex) amigos.

Este episódio serve para realçar a integridade moral e de conduta que Wilson apunha ao seu melindroso trabalho de crítico literário, e que lhe valeu a enorme consideração nos meios académicos e literários mais importantes nos Estados Unidos e no mundo.
Apesar dos incontáveis episódios menos abonatórios de que foi protagonista, principalmente se nos ativermos à sua impetuosa vida pessoal e sentimental, Wilson é um exemplo a ter em conta quando, por cá, surge uma nova vaga opinativa sobre os denominados amiguismos no mundo da crítica literária lusa.
Para a História, fica também um delicioso episódio, que há muito entrou no anedotário da Literatura universal, sobre um súbito cansaço das relações perigosas entre críticos, escritores, editores e revistas da especialidade, e das suas sucessivas solicitações. Reza a história que Wilson, a partir de determinada altura, quando instado a intervir, enquanto crítico afamado, em diversos eventos públicos directamente relacionados com a selvajaria do mercado editorial, passou a enviar um postal standard que, qual faca de dois gumes, lhe trouxe algumas dores de cabeça, uma vez que aquele passou a ser objecto de memorabilia literária.
Do postal constava o seguinte:

«Edmund Wilson lamenta afirmar que é impossível para ele: ler manuscritos, escrever artigos ou livros para classificar, escrever prefácios ou introduções, fazer declarações com fins publicitários, fazer qualquer trabalho editorial, integrar júris de concursos literários, dar entrevistas, participar em conferências de escritores, responder a questionários, contribuir para ou intervir em qualquer tipo de simpósios ou “painéis”, contribuir com manuscritos para venda, doar cópias dos seus livros para bibliotecas, autografar trabalhos para desconhecidos, autorizar a utilização do seu nome para constar de frontispícios, fornecer qualquer informação pessoal sobre o próprio, ou dar opiniões sobre assuntos literários ou demais assuntos.» [tradução livre AMC]

Percebe-se agora o choque com Nabokov… alguma empáfia, própria dos grandes, quando o são na realidade.

1 comentário:

Matias Ayres (doaborrecimento@hotmail.com) disse...

Jorge de Sena (no início da carreira literária) disse a Adolfo Casais Monteiro (seu amigo, e um crítico respeitável): se os amigos não fizerem recensões uns dos outros ninguém as fará -- as palavras não foram estas, mas não tenho o livro à mão (cf. Diários de Jorge de Sena).

*

Um exemplo curioso de amizade na crítica: conversando com um queirosiano -- tentando eu demonstrar a evidente superioridade de Camilo -- diz-me ele aborrecido: "O Camilo até pode ser melhor escritor do que o Eça, mas eu nunca poderia ser amigo dele."

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Esse distanciamento, tão defendido por jornalistas, nem é possível a pascalianos como eu: na universidade tenho aulas com um dos meus ensaístas dilectos, e quem estuda literatura em Lisboa pode contactar com quase todos os bons escritores.
Cumprimentos,
M.C.