sábado, 31 de março de 2007

Influenza

Exorcizo te, omnis spiritus immunde!


A minha veia de Vilar de Perdizes...

sexta-feira, 30 de março de 2007

Encontro Literário

Um título com um pequeno sofisma, porém ele (o tal encontro) realizou-se no dia de São Valentim (o acaso tem disto!), na Cidade do México, em 1976.
O encontro (literário) entre Gabriel García Márquez e Mario Vargas Llosa deu nisto:

Gabriel García Márquez

Pobre Gabo!

Ao que parece, este recontro literário internacional deu-se devido ao excesso de paixão do colombiano, havendo atingido um ponto tal que se estendeu à mulher do peruano.

Vem tudo aqui no insuspeito The New York Times, incluindo um entrevista ao fotógrafo mexicano Rodrigo Moya. Segundo diz Moya, Gabo pediu-lhe que o fotografassem naquele estado dada a eventual escassez de oportunidades de, no futuro, se poder vir a apresentar com um olho negro (crente ou mentiroso?)

Nota: o autor do artigo, Noam Cohen, para além do título, com um coloquialismo ímpar «Olho à belenenses termina os seus 31 anos de omissão.» (tradução livre: por minha culpa, minha tão grande culpa [bato com a mão no peito], talvez "quietação" não ficasse mal, mas para o efeito pretendido fica melhor "omissão"), brilha quando recorda outros grandes encontros na História da literatura, à laia de Rocky Balboa:

  • Lillian Hellman vs. Mary McCarthy;
  • Vladimir Nabokov vs. Edmund Wilson;
  • Norman Mailer vs. Gore Vidal.

Sobre este último fica a presença de espírito de Vidal quando derrubado. Ainda no chão diz: «Uma vez mais, faltaram-te as palavras, Norman Mailer.» [Tradução livre: AMC]

quinta-feira, 29 de março de 2007

ZODIAC

Estreado no início de Março nos Estados, aí está o último trabalho de David Fincher baseado nos assassinatos que aterrorizaram a cidade de São Francisco no final da década de 60, cujo homicida permanece ainda hoje por descobrir, tendo ficado conhecido como o Assassino do Zodíaco pelas mensagens criptográficas que enviava a cada crime.



Entretanto, Fincher já se encontra a rodar The Curious Case of Benjamin Button, baseado no conto homónimo de F. Scott Fitzgerald.

Portugalidade assimilada

Diz que é uma espécie de seleccionador!

Para quem é estrangeiro, cedo se travestiu da mediocridade lusa e, como todo o autóctone médio, vive a vida a jogar para o empate, despreza os melhores e, a juntar a tudo isso, é rancoroso.
Mas afinal não veio esta luminária do Brasil?
Em 1500, Pedro Álvares Cabral…

quarta-feira, 28 de março de 2007

Memória

Fosse porventura um crítico literário – que com alguma (des)ventura não sou, nem anseio ser, talvez pelo perigo que representa transformar o objecto do meu prazer num melancólico instrumento de trabalho – cuja recensão decidisse o destino da obra analisada, João Tordo (n. 1975) ter-me-ia apanhado à 5.ª página, pela epígrafe de Hotel Memória:
«Afinal, a memória não é um acto de vontade. É uma coisa que acontece à revelia de nós próprios.»
Por um díspar acaso quis a púbere vontade aliada às contingências da vida que não o fosse. E se o tivesse sido, percorrendo os atalhos que tentadoramente os outros nos vão colocando na inevitável interacção social, possivelmente a marca Auster não pudesse ser ostentada com tanta veemência para seguir os firmes cânones da isenção e quiçá da erudição, da estranha convenção de pós-modernista aposta ao poeta do acaso.
Recenseia, mas não te deixes apanhar nas malhas do minimalismo literário e pelos labirintos desassossegados da memória, onde a sombra de um beco parece espreitar a cada esquina dobrada sem que se vislumbre o fim.
A metadiegese é um dos recursos literários de eleição do escritor norte-americano. Aliás, embora não possa ser considerado o pioneiro na área – lembremo-nos de Edgar Allan Poe ou de Jorge Luis Borges –, Auster é hoje considerado como ficcionista ímpar no emprego desse recurso tantas vezes repudiado pela crítica e mais vezes repreendido pelo público que se perde nos tais labirintos narrativos.

Por muito que se tente repudiar, ou até negar, numa recalcitrante escassez de abertura à liberdade criativa, austeriano será em breve um adjectivo que o crescente uso consagrará no vocabulário dos vários idiomas, como se pode constatar, por exemplo, através de uma simples busca do termo nos motores de pesquisa à disposição do utilizador na internet.
Hotel Memória é um romance austeriano por excelência, não só pelo uso da distintiva metadiegese, mas também pelo papel primordial desempenhado pelo acaso nas intrincadas linhas com que se vai cosendo a narrativa. Porém, o romance também transpira Melville não só através das directas alusões às obras de que o protagonista se servirá nas mais diversas ocasiões, como Moby Dick e Bartleby – este último será o apelido que irá adoptar nas suas labirínticas deambulações nova-iorquinas – como na perceptível estrutura existencialista da própria obra, quer na demanda obsessiva por respostas, quer na angustiante busca pela redenção.
Depois, para além de um Bartleby obsessivo, há Samuel, Daniel e Russell: Tratem-me por Ismael (a famosa frase de abertura de Moby Dick, e presumivelmente a voz do próprio Melville, uma alegoria bíblica, o símbolo dos desgarrados deste mundo).
Com a epígrafe e as referências literárias que vão sendo feitas ao longo do romance, Tordo não nega a inspiração e as influências na construção da história. Trata-se de uma brilhante associação Auster/Melville, sabendo-se que o primeiro nunca negou as grandes influências do segundo no seu trabalho (aliás, o contrário seria verdadeiramente impossível).
De linguagem firme, decidida, sem arabescos e com diálogos curtos e incisivos, Hotel Memória prende o leitor pela surpreendente cadência dos acontecimentos. Tal como o inspirador, o inspirado – João Tordo – conseguiu levar-me a momentos de puro choque, sem dramas gratuitos e sensacionalistas, mas pela verosimilhança, pela dura realidade que poderá surgir a qualquer momento e na imperceptível, porém curta, distância do limite de uma existência feliz ao abismo do sofrimento, da solidão, do desespero e da indigência humana.
A luta. Esta constante luta.

Classificação: **** (Bom)

Referência bibliográfica:
João Tordo, Hotel Memória. Lisboa: QuidNovi, 1.ª edição, Fevereiro de 2007, 221 pp.

terça-feira, 27 de março de 2007

Um personagem nada acidental

Iris Murdoch - Um Homem AcidentalAustin Gibson Grey é Um Homem Acidental. Personagem principal do romance de 1971 da escritora britânica (de adopção) Iris Murdoch, nasceu em Dublin em 1919 e morreu em Oxford em 1999 vítima da Doença de Alzheimer.
Casada desde 1956 com o escritor e crítico literário John Bailey, Iris Murdoch é ademais conhecida pelas fortes raízes filosóficas da sua formação académica na Universidade de Oxford, baseada sobretudo no existencialismo de Jean-Paul Sartre, cuja marca se faz notar nas suas obras de ficção. Poetisa, dramaturga e ensaísta, foi contudo na literatura de ficção em prosa que se notabilizou. Obras como O Sino (1958), The Black Prince (1973, vencedor do prestigiado James Tait Black Memorial Prize), A Máquina do Amor: Sagrado e Profano (1974, vencedor do Whitbread Book Award), O Mar, O Mar (1978, vencedor do Booker Prize) e O Bom Aprendiz (1985) foram internacionalmente aclamadas como obras-primas da Literatura do século XX.

Este ano (em Janeiro) a excepcional editora lusa Relógio D’Água – cujo trabalho editorial tem permitido a publicação de obras de literatura de outros tempos que jamais haviam sido editadas no mercado português, ou daquelas cuja edição na língua de Camões se encontrava esgotada há décadas – publicou pela primeira vez no nosso país o romance de Iris An Accidental Man (1971) sob o título Um Homem Acidental.
Este romance de Iris Murdoch é, como tantos outros romances da autora, marcado pela matriz filosófica existencialista de Sartre. Fortemente imbuído do intrincado das relações sociais e das influências nefastas que as nossas acções exercem na vida dos outros de forma involuntária, apenas porque somos livres de as praticar, onde imperam a angústia perante a decisão e o absurdo da própria existência.

A obra literária de ficção cria personagens mais ou menos ilustres, mais ou menos encantadores sob o ponto de vista do leitor/receptor, e na maioria das vezes avaliamo-la na sua globalidade, pelo todo que o mestre quis construir ao introduzir determinadas idiossincrasias. Trata-se de um simples jogo de estereótipos que conseguimos identificar nas relações que, como Homo Socialis, estabelecemos no dia-a-dia. Muitas vezes os personagens criados não perduram além da obra, noutras, porém, eles afirmam-se, ultrapassam a circunscrição dos caracteres impressos em papel e parecem ter vida própria fora dele, na nossa cabeça, nas nossas fantasias de leitores que veneram a literatura como forma de entretenimento e de íntimo preenchimento das imposições estéticas.
Para apenas dar um exemplo do que acabei de professar – e suponho que o mesmo deverá ter ocorrido com a maioria das pessoas que leu a obra –, eis o cônsul britânico no México Geoffrey Firmin na obra-prima de Malcolm Lowry, Debaixo do Vulcão. Por muitos anos que distem da última vez em que lemos esse tratado involuntário do existencialismo literário, as atribulações do Cônsul no dia de finados de 1938 permanecem-nos na memória, mais pela amargurada existência que se foi construindo numa série de equívocos que o conduzem à sua aniquilação através do prazer inebriante do álcool que tudo faz esquecer, do que por qualquer predestinação advinda de uma vontade exterior inaudita e que resulta de um colectivo relacional, que ao invés parece girar em torno do seu supremo individualismo, materializado no seu desprendimento pelo mundo, pelo dever, pelo amor da sua Yvonne e pela afeição do seu irmão Hugh – o Mescal e a Tequila são o refúgio, a essência...

Assim é Austin Gibson Grey. Um anti-herói. Um homem que se define a si próprio como acidental. Aquele que pela sua acção aparentemente anódina traz a infelicidade ao mundo e destrói tudo aquilo que o rodeia. Um homem que vive com a culpa dessa destruição e que resignadamente sobrevive com essa consciência. Vive na angústia da separação física da mulher que ama e cuja existência em comum é entendida como um cataclismo por razões aparentemente injustificáveis e não encontradas à luz da razão. A dado passo, num curioso diálogo sobre a Irlanda – terra natal da autora, remota e fortuita na sua consciência, já que viveu em Inglaterra desde os primeiros anos da sua infância –, estabelece-se a analogia entre a terra de São Patrício e o acidental protagonista: «A Irlanda é como o Austin. Bonita para se ver e tem-se pena dela, mas é, de certo modo… horrível.» (pág. 246)
Austin desiste da possibilidade de uma existência feliz, abdica da luta, porém a luta vem ter com ele a cada gesto que, por mais inocência que possa encerrar, arrasa e implica tudo e todos que o rodeiam, mas que, de forma paradoxal e inexplicável, o próprio, o pólo de atracção da tormenta, acaba por sair incólume:
«Austin faz com que qualquer um fique com um ar pálido e assombrado.» (pág. 363)
É em roda deste personagem que se desenrola a trama com mais de uma dúzia de personagens que gravitam em torno dessa contingência existencial que é Austin Gibson Grey, a que não falta um espaventoso carro desportivo, que passa de mão em mão, apelidado de Kierkegaard...
Um Homem Acidental é um puro exercício da mestria das capacidades de narrativa de Iris Murdoch.
A escrita flui num manancial de diálogos que são acompanhados de algumas introspecções, mas sobretudo de cartas e bilhetes que dão uma sequência lógica ao enredo, através da revelação das inquietações mais profundas dos personagens. E depois temos os eventos sociais, onde Murdoch através de frases curtas e aparentemente retiradas do contexto nos transmite de forma magistral a frivolidade da classe média inglesa, numa sociedade que ainda mal acabara de lamber as feridas de uma guerra atroz e que parecia subsistir num auto-estimulado autismo num mundo onde dois pólos opostos se digladiavam no extremo oriente afastando, em definitivo, a barbárie das batalhas fratricidas do martirizado solo europeu.
Um Homem Acidental é um livro de leitura compulsiva, pleno de ironia, com momentos de boa disposição – alguns elevados ao paroxismo do burlesco que nos induzem à manifestação de uma sonora e saudável gargalhada –, e outros que exigem uma reflexão, não à laia de uma enfatuada lição sobre a condição humana, mas sobre os efeitos perversos que as tais contingências resultantes do exercício da nossa inderrogável liberdade individual têm sobre os outros, o inferno.

Classificação: ***** (Muito Bom)

Referência bibliográfica
Iris Murdoch, Um Homem Acidental. Lisboa: Relógio D’Água, Janeiro de 2007, 365 pp. (tradução de Maria de Lourdes Guimarães; obra original: An Accidental Man, 1971).

segunda-feira, 26 de março de 2007

Sinais preocupantes?

O seu nome é Paul, Paul Auster. Nova-iorquino de coração, nascido há 60 anos em Nova Jérsia na terra Natal do Mestre P. Roth, que no último dia de S. José completou 74 anos.
Em entrevista dada ao director do Instituto Cervantes de Nova Iorque, Eduardo Lago (EL), e publicada no jornal El País no início deste mês, Paul Auster (PA) termina-a dando claros sinais de alguma sintomatologia do Síndrome de Bartleby – o escrivão de Melville.
Auster confessa que depois de haver escrito Travels in the Scriptorium e de ter terminado a rodagem do filme The Inner Life of Martin Frost (produzido por Paulo Branco e filmado em Sintra) tem apenas uma pálida ideia sobre o conteúdo da sua próxima obra. Sente-se esgotado e revela uma tremenda angústia pelo fantasma do padecimento do famoso bloqueio de escritor, conjecturando mesmo sobre o seu fim no mundo das letras.
Quase ignorado na sua terra pelos seus reputados colegas de profissão e pela crítica, Auster é um dos escritores norte-americanos da actualidade mais admirados na Europa, principalmente em França, na Alemanha, em Itália e em Espanha, onde, a cada visita, as salas de leitura ou as sessões de apresentação de livros e de autógrafos se enchem sempre que o seu nome aparece em cartaz; onde a cada livro publicado os fãs se organizam em troca de opiniões e grupos de leitura, analisando as entrelinhas do acaso, marca registada do autor.
Uma detestável crítica literária inglesa* – que se amanha com afinco na sua ainda púbere arte de criticar – atribui a sua popularidade em solo europeu ao facto de os tradutores europeus de língua francesa, alemã, polaca, checa, espanhola, portuguesa, italiana ou romena, no seu afã de traduzir, de alindarem, porque só se pode melhorar, a sua prosa pobre e sem qualquer tipo de brilho. Aliás, há até um blogger/jornalista da
New York Magazine que encaixa em Auster uma famosa frase de Gore Vidal sobre Kurt Vonnegut – este último, tal como com Auster, mais amado fora do seu país – “lose something in the original.”
A rapariguinha que, de quando em vez, recenseia no
The Times Literary Supplement e execra Auster, chega a afirmar que os próprios personagens de Auster são potencialmente perigosos para os seus leitores dado o seu grau de solidão e de sofrimento – depois de António Oliveira com o seu famoso assassinato por meios audiovisuais no “Caso Paula” em reportagem na SIC, haveria de ler uma recensão de uma estridente moçoila que quase faz a apologia de marca Oliveirista de homicídio pela literatura. Curiosamente, motivou uma veemente reacção por parte dos seus leitores que, com sarcasmo, se diziam verdadeiramente ameaçados pelo simples abrir das folhas de um livro do escritor de Brooklyn – outros interrogavam-na pela necessidade, quase masoquista, de ler Auster quando na realidade o detestava, demonstrando-o à saciedade, ou seja, para quem à partida o odeia, qual a razão de ter lido na íntegra os cerca de 11 romances e 5 ensaios, para além da poesia reunida? Não podem ser invocados motivos de exercício da profissão, uma vez que o preconceito anti-Auster decerto a toldará em futuras análises das suas qualidades literárias, tendo como produto final uma recensão inquinada e intelectualmente desonesta.

Eis as palavras de Auster no El País (1 de Março de 2007):
«(…)
EL: [No seu romance Travels in the Scriptorium] você reserva a aparição de Daniel Quinn, personagem de A Trilogia de Nova Iorque, para o fim. Isso significa que Travels in the Scriptorium é uma tentativa de regresso às origens, uma espécie de recapitulação de toda a sua obra?

PA: É possível… Reconheço que é uma decisão um pouco estranha. A verdade é que quando terminei As Loucuras de Brooklyn não estava no máximo das minhas forças. Tinha dúvidas sobre a minha capacidade para escrever outro romance.

EL: Porquê? Quer dizer que sua imaginação não se encontra em boa forma?

PA: Em boa verdade, não sei. Neste momento demonstro alguns sinais de esgotamento. Trabalhei muito nos últimos tempos. Escrevi o argumento de um filme que estreará em Março. Depois de Travels in the Scriptorium não comecei nada de novo. Oxalá possa continuar a escrever. Tenho algumas ideias, porém são muito vagas. Quem sabe se não terei chegado ao fim. Porventura não haverá mais romances de Paul Auster. Não sei. Oxalá não seja assim, mas neste momento nada posso assegurar.»

Um sinal preocupante para humanidade, um pequeno sinal de criação para os artistas das letras (digo eu).

Notas: *Deborah Friedell

Pulhas!

Cerca de 60% dos votantes do programa Os Melhores Portugueses votou em dois pulhas, antidemocratas e apologistas da opressão como sustentáculo e base orientadora da vida dos cidadãos, por via da coarctação dos direitos, liberdades e garantias que hoje em dia, pelo menos como pessoas com alguma saúde mental, reputamos como inalienáveis.

2.ª Conclusão
Também não excluo, apesar da gritante falta de base científica à votação, o exercício do tal voto de protesto, como disse e bem Rosado Fernandes, perante uma classe política de corruptos e pela podridão que grassa na Justiça, percorrendo de forma transversal juízes, procuradores, advogados e demais funcionários, que contagia a sociedade, de forma irremediável, pela via da impunidade.

3.ª Conclusão
E ainda decorrente do debate, admiro os bêbados e os homossexuais, como admiro qualquer forma de transgressão à imunda e repugnante mediocridade desta sociedade portuguesa, pequeno-burguesa, pejada de filisteus, de gente ignara, arrivista, onde se exalta o chicoespertismo como qualidade perante a sordícia deste nojo de país.

PIM!

PS – Escrito a quente, sem qualquer tipo de revisão, e de forma incandescente, em brasa – fujam do cheiro a enxofre! –, e assim ficará; nem que amanhã me possa vir a arrepender daquilo que neste momento escrevo neste blogue!

sexta-feira, 23 de março de 2007

Top Ten

Até ao momento em que escrevo este texto, suponho que fui o único leitor português que postou as suas preferências literárias no sítio do livro editado por J. Peder Zane, The Top Ten: Writers Pick Their Favorite Books – para o efeito, utilizei, no passado dia 2 de Fevereiro, a lista automática, de inspiração bretoniana, que publiquei aqui no dia 22 de Dezembro de 2006; todos os dias faria outra diferente…
Para participar na votação, carregar aqui.

O editor pediu a 125 escritores que elegessem, por ordem de preferência, os 10 melhores livros de ficção de todos os tempos, de acordo com o seu gosto pessoal.
Entre os eminentes escritores eleitores estão nomes como: Paul Auster, John Banville, Julian Barnes, Peter Carey, Michael Cunningham, John Irving, Ha Jin, David Lodge, Norman Mailer, Scott Turow, Barry Unsworth, David Foster Wallace ou Tom Wolfe.

Divirtam-se!

É hoje!

O Henrique Fialho apresenta o seu mais recente livro, Estórias Domésticas, em Leiria:


(carregar na imagem para a ampliar)

Este caro prazer – IV

[intróito]
Para manter alguma coerência com alguns princípios que formulei quando iniciei a actividade na blogosfera, amplamente dissipadora de maus espíritos, abster-me-ei de mais considerandos da teoria económica, até em razão da própria formação académica que versou sobre questões felizmente mais pragmáticas e menos dadas à efabulação.

[exorcismo]
Há uns dias falava do famoso binómio trabalho e ócio e da eterna busca de uma estável harmonia dessa misteriosa dicotomia que, paradoxalmente, se consubstancia nessa palavra inaudita: “felicidade”.
O mais frustrante, para quem se interroga sobre os meios para alcançar esse fim, promissoramente feérico, é entender que essa perenidade assenta num círculo vicioso: a incomensurabilidade, a diversidade gradativa e a forte carga pessoal e intransmissível no alcance desse objectivo supremo é o que simultaneamente nos embota o espírito e que, na tremenda ânsia de o divisar, se constitui no nosso pathos.
Recorrendo à judiciosa sabedoria popular, esta atreveu-se a transformar aquele binómio num trinómio cujo equilíbrio é perfeitamente inalcançável – a típica vitimização do ser humano pela cruel provação divina, um sentimento colectivo de invencibilidade do desígnio. Trata-se da famosa tríade “saúde, tempo, dinheiro”, cuja busca da tal combinação óptima determina a divisão do nosso longo processo ontogenético em três fases, sendo que, para tristeza geral – assim augura o fatalismo popular –, um desses factores assume o valor “zero” ou dele se aproxima de forma vertiginosa numa dessas fases – normalmente anteposto da expressão “falta de”. E esse é o nosso Óptimo de Pareto em cada uma das etapas – o exorcismo parece não resultar.

[incerteza]
É, pois, com alguma estranheza, espanto e um sonoro suspiro de “isto só a mim!” que verifico que neste momento, seguindo esse presságio de almanaque com um forte cariz dogmático, atravesso o 2.º estágio do tal desenvolvimento existencial – período compreendido entre o 1.º emprego e o momento da reforma laboral – e porventura o mais curioso, ao arrepio do doutamente preceituado, “tempo” é o que neste momento parece não me faltar – pura ilusão? Será um megalómano sentimento de omnipotência, típico dos frequentadores da terceira década da vida?
Mas se, ao arrepio do credo popular, estabeleci com convicção a possibilidade da optimização do tempo para o alcance do meu bem-estar – ou felicidade –, a situação agrava-se pelas sérias dúvidas quanto à minha “saúde” – possivelmente mental, seguindo o ditame pessoano da incerteza pela própria lucidez – e, por fim, com as muitas certezas no que respeita ao “dinheiro” – escassíssimo –, apenas não lhe conhecendo o destino no momento da separação: Quo vadis?
Esperei tempos infindos e não houve resposta, assim sendo resta-me um desleninizado: Que fazer?
Lá vem Rilke uma vês mais. «precisas de mudar de vida» (du mußt dein leben ändern).

[dúvida sobre a incerteza]
Mas, e se seguir Walser? Não necessariamente o Mestre que acabou naquela precariedade existencial, mas Vladimiro, esse ser tão certinho e realizado, desembaraçado na descoberta do caminho (ou atalho) para a felicidade: «Tenho vivido até agora de acordo com o que considero bom e justo e não temo a possibilidade de que alguém possa vir provar-me que errei, pelo que me acho com todo o direito de afirmar que errar é humano. Compreendo, no entanto, que seria bom agirmos segundo nobres critérios, reduzirmos um pouco as alegrias da vida para cumprirmos outras tarefas, entendermos a felicidade também de outras formas que não apenas a de preservarmos a boa disposição, não nos tornarmos dependentes desta última, receosos a toda a hora de a perder, sempre preocupados em a manter viva; não, antes ousar, de peito aberto, sacrificar a nossa felicidade e talvez, como consequência disso, ganhá-la de novo.» in Robert Walser, A Rosa, pp. 16-17, (Relógio D’Água, 2004; tradução de Leopoldina Almeida; obra original: Die Rose, 1925)
Será essa presunção do espírito de realização – como posteriormente afirma Walser –, não enxergar o que nos incomoda, não enfrentar a injustiça, em suma, fugir da vida, o trilho certo para a tal felicidade?
Porventura é a isso que estamos condenados, a ignorância como via aberta para a santidade, o que não pressentimos não nos arruína; o eterno miasma judaico-cristão do oferecimento da outra face e da felicidade suprema para os pobres de espírito.

[constatação]
Para concluir esta chatice verborreica que já se estende por quatro longos episódios, tenho de constatar que o “tempo” nunca será um problema; ele é um estado de espírito que deriva da própria “saúde”, no seu sentido lato, que poderá ser agravada com a escassez do vil metal.
Por muito que nos esforcemos, empregando o nosso tempo, em obter o dinheiro indispensável para a manutenção da nossa sanidade física e psíquica, chegaremos desde logo à conclusão que esse tempo despendido em trabalho jamais nos trará a felicidade, porque não existe o indispensável ócio e assim, o actualmente acelerado ritmo editorial português só será um problema de saúde pública se acharmos que podemos deter o melhor dos dois mundos: tempo para o lazer e muito dinheiro.

[profecia]
Hoje mesmo receberei o primeiro prémio do Euromilhões…

[fundamento]
Inútil.

quinta-feira, 22 de março de 2007

Contando os dias para o 1 de Abril (I)

Bem ao estilo do Inimigo Público:


Manuel Pinho, ainda Ministro da Economia, prepara-se para anunciar a marca “PORTUGIRL’S”.
O objectivo imediato da campanha é o de aproveitar o decréscimo de turistas no Sudeste Asiático dadas as catástrofes naturais e a instabilidade política na Tailândia.
Os meios de promoção ainda estão no segredo dos deuses, mas, segundo fontes bem informadas, já terá sido contactado o Prof. Doutor Barbas que, segundo se diz, garantirá a contratação de uma reputada escritora com experiência na matéria, cuja feliz coincidência do apelido permitirá a utilização na campanha dos dois primeiros versos do poema de Fernando Pessoa, Mar Portuguez:
Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!

The hunter has become the hunted!

Aí está Michael Moore e o reverso da medalha.
O documentário Manufacturing Dissent, entretanto estreado nos Estados Unidos, realizado pela dupla canadiana Rick Caine e Debbie Melnyk, assumidos militantes de esquerda no espectro político, está a deixar a mascote da Velha Europa num confrangedor mutismo.

O trailer:



Será que este documentário irá merecer a Palma de Ouro no próximo Festival de Cannes?

Saul Bass

Excelente série de posters e de sequências de créditos iniciais de obras-primas cinematográficas criados pelo Mestre Saul Bass, postada pelo Francisco Valente no seu blogue godardiano O Acossado.

Deixo aqui ficar outro genérico inicial, criado por Bass e a sua mulher Elaine para Martin Scorsese. Trata-se da abertura do inolvidável Cabo do Medo, um remake do filme de 1962 Barreira do Medo (também Cape Fear no título original em inglês), com música original do inevitável Bernard Herrmann, com arranjo orquestral de Elmer Bernstein para a versão de 1991 de Scorsese.

Eis mais um exemplo da perfeição e da harmonia emanadas pela dupla Bass & Herrmann:


quarta-feira, 21 de março de 2007

Poesia II

E porque o dia é de(a) poesia, e confundindo-se esta com a historiografia da nossa melancólica e contemplativa História, eis um poema de um dos seus mais insignes poetas vivos:

Que mais pode este dia?
Em cada ligação a morte fala baixo
e arrefece as pernas das telefonias.
Em cada pulsação
escondemos o rosto embriagado
pelo tédio ou pelo terror
de mãos desfeitas.
Por vezes o silêncio ainda nos salva
e com que gratidão
banhamos a pele clara dos sentidos
na luz dos seus relâmpagos
mortais.

Porque a cabeça escuta,
escuta e nunca mais.

Armando Silva Carvalho, “A cabeça escuta”.


In Armando Silva Carvalho, O que foi passado a limpo (obra poética, 1965-2005). Lisboa: Assírio & Alvim, Março de 2007, pág. 279 (590 pp.) (poema originalmente publicado em Sentimento de um Acidental, 1981).

Poesia I

Neste dia, que é o seu, presto homenagem à forma de expressão literária que menos me foi dizendo, mas que fui (e vou) descobrindo à medida que vou envelhecendo.
Começa-se por um poema que um dia recitado nos desperta e descreve, com uma precisão de filigrana, o insulamento a que nos votámos, essa inquietude da alma pela inadaptação perante a injustiça reiterada.
Foi assim com o Porque de Sophia, e foi assim que a descobri, a sintonia poética, como mero receptor, que decisivamente me transmitiu a mensagem da profunda dor por outrem sentida, a cada verso tragado, a cada novo poema lido e relido.

Em jeito de homenagem à arte poética, deixo aqui ficar um dos meus autores favoritos:

toda a ignorância escorrega para o saber
e de novo se arrasta para a ignorância:
mas o inverno não é para sempre,mesmo a neve
derrete;e se a primavera estragar o jogo,que fazer?

toda a história é um desporto de inverno ou três:
que fossem cinco,eu seguiria insistindo que toda
a história é demasiado pequena até mesmo para mim;
para mim e para ti,excessivamente demasiado pequena.

Mergulha(estridente mito colectivo)na tua tumba
tão-só para trabalhar a escala até à hiperestridência
por cada magda e marta diogo e david
–amanhã é o nosso endereço permanente

e aí mal nos hão-de achar(se acharem,
mudaremos ainda mais para diante:para agora


e.e. cummings, “toda a ignorância escorrega para o saber”.

in e.e. cummings, xix poemas. Lisboa: Assírio & Alvim, 2.ª edição (edição bilingue), 1998, [xiv], pág. 57 (77 pp.) (tradução Jorge Fazenda Lourenço; poema original: "all ignorance toboggans into know", inserido no livro de poemas 1 x 1, 1944)

Achado

Há dias assim, de sorte, Dias Felizes onde o acaso, nas suas impenetráveis digressões, resolve bafejar-nos com algo de importante, não apenas na dimensão da coisa, mas também nos pequenos nadas que para nós tudo parece significar.
Estou numa semana da sorte, nuns casos apenas resultado da recompensa do duro trabalho que implica a luta pela vida, noutros é a mera providência, entendida aqui como a aleatoriedade da espuma dos dias, daquilo que fica depois da tenebrosa agitação da simples pretensão pela sobrevivência.

Ontem, a sorte estabeleceu um pacto comigo – o tal que vinha pedindo e ia perdendo no momento da firma –, apenas exigindo como recompensa o fruto do meu esforço que se ia fundindo no desespero dos longos dias em branco, paradoxalmente manchados no mais negro dos matizes: a sombra do desassossego.
Hoje, o tal pequeno nada que tudo significa: Samuel Beckett, o meu sumo-sacerdote na liturgia das palavras, o fiel reprodutor em letras e gestos do negrume da natureza humana; os últimos trabalhos condensados numa pequena encadernação, em edição bilingue, com tradução de Miguel Esteves Cardoso.
Repousava na estante, encafuado numa vulgar embalagem de plástico, entre Watt e Molloy, ou seria Murphy? Talvez Malone…

Wortstward Ho, 1983 (Pioravante marche)
Stirrings Still, 1988 (Sobressaltos)
What is the Word, 1988 (Que palavra será)

Excerto:
«Uma noite estava ele sentado à mesa dele com a cabeça entre as mãos quando se viu a si mesmo a levantar-se e a ir-se. Uma noite ou um dia. Pois quando se apagou a luz dele não ficou na escuridão.»
Abertura de “Sobressaltos” de Samuel Beckett (trad. MEC)

Referência bibliográfica:
Samuel Beckett, Últimos trabalhos de. Lisboa: Assírio & Alvim / Independente / Miguel Esteves Cardoso, 1996 (edição bilingue), 63 pp.

terça-feira, 20 de março de 2007

As memórias de um filisteu

Para o Rogério, por isto.

A santíssima trindade – assim grafada, dadas as susceptibilidades religiosas – que supostamente me livrarão da sevícia do alcatrão incandescente sobre a (minha) pele... sensível. Será?
Dois momentos e um pequeno excerto da posta-restante:

(1980) O fabuloso e comovente Double H (Hopkins/Hurt):


Uma História Simples




(1999) Derrogação de aforismo: Simple is beautiful! (adenda: para quê complicar, quando o simples é executado como uma obra-prima?)


O Homem Elefante




(1990) Esmagador (bons tempos do sobrinho de Francis Ford e primo de Sofia)



Ao ritmo de um por década.

segunda-feira, 19 de março de 2007

Philip Roth vence PEN/Faulkner de 2007

Philip RothComeço o texto com a pergunta que faço sempre quando penso em, leio ou escrevo sobre Philip Roth: Srs. Membros da Academia Sueca, para quando o Nobel?
Roth, escritor judeu norte-americano, nascido em Newark, Nova Jérsia a 19 de Março 1933, cumpre hoje 74 anos. No passado dia 26 de Fevereiro venceu pela terceira vez um dos mais prestigiados prémios literários em língua inglesa: o PEN/Faulkner Award for Fiction, desta feita com Everyman (ainda não editado em Portugal).
Desde 1981, ano em que o prémio começou a ser distribuído, Roth foi o único a vencê-lo por três vezes. Em conjunto com John Edgar Wideman, (vencedor em 1984 e 1991) só em 2005 o escritor chinês Ha Jin, tal como em 2006 E. L. Doctorow o igualaram com duas atribuições; este ano Roth descolou do grupo, devendo as restantes atribuições aos romances Operation Shylock (em 1994) e The Human Stain (em 2001)
Todos os adjectivos elevados a qualquer forma de superlativo são poucos para qualificar a obra de um dos meus escritores favoritos. Quem não se encantou com a destreza narrativa contrafactual de Conspiração Contra a América, com o magistral, atormentado e edipiano Complexo de Portnoy e a soberba narração da beleza e da crueldade da condição humana no assombroso – para mim o melhor romance de Roth e um dos melhores de todos os tempos – Pastoral Americana.

Parabéns, Philip!

Aqui fica um pequeno excerto de um das suas mais extraordinárias obras de ficção. O homem que sabe que a morte, pela lei da natureza, está próxima e, sem rendições, no enleia nessa teia de desesperos, cumplicidades, júbilos, ostentações e alegrias que matiza a vida, essa puta:
«Há que fazer uma distinção entre morrer e a morte. Nem tudo é morrer ininterruptamente. Se somos saudáveis e nos sentimos bem, vamos morrendo invisivelmente. O fim, que é uma certeza, não tem de ser arrojadamente anunciado. Não, não podemos compreender. A única coisa que compreendemos acerca dos velhos quando não somos velhos é que foram marcados pelo seu tempo. Mas compreender apenas isso imobiliza-os no seu tempo, o que equivale a não compreender nada. Para aqueles que ainda não são velhos ser velho significa que já fomos. Mas ser velho também significa que apesar de, além de e para lá do nosso estado de ser, ainda somos. O nosso estado de ser está muito vivo. Ainda somos e sentimo-nos tão atormentados pelo ainda-ser e pela sua plenitude como pelo já-ter-sido e pela sua qualidade de passado. Pensem na velhice do seguinte modo: o facto de a nossa vida estar em risco é apenas um facto quotidiano. Não podemos esquivar-nos ao conhecimento daquilo que em breve nos espera. O silêncio que nos envolverá para sempre. Tirando isso, é tudo a mesma coisa. Tirando isso, somos imortais enquanto vivermos.»
Philip Roth, O Animal Moribundo. Lisboa: Dom Quixote, 1.ª edição, Setembro de 2006, pág. 38 (131 pp.), (tradução de Fernanda Pinto Rodrigues; obra original: The Dying Animal, 2001)

Lista completa dos vencedores do PEN/Faulkner Award for Fiction (títulos em português e respectiva editora se for o caso):
1981 – Walter Abish, How German Is It?
1982 – David Bradley, The Chaneysville Incident
1983 – Toby Olson, Seaview
1984 – John Edgar Wideman, Sent for You Yesterday
1985 – Tobias Wolff, The Barracks Thief
1986 – Peter Taylor, The Old Forest
1987 – Richard Wiley, Soldiers in Hiding
1988 – T. Coraghessan Boyle, World’s End
1989 – James Salter, Dusk
1990 – E. L. Doctorow, Billy Bathgate (Temas da Actualidade)
1991 – John Edgar Wideman, Philadelphia Fire
1992 – Don DeLillo, Mao II (Relógio D’Água)
1993 – E. Annie Proulx, Postcards
1994 – Philip Roth, Operation Shylock
1995 – David Guterson, A neve caindo sobre os cedros (Relógio D’Água)
1996 – Richard Ford, Dia da Independência (Presença)
1997 – Gina Berriault, Women in their Beds
1998 – Rafi Zabor, The Bear Comes Home
1999 – Michael Cunningham, As Horas (Gradiva)
2000 – Ha Jin, À Espera (Gradiva)
2001 – Philip Roth, A Mancha Humana (Dom Quixote)
2002 – Ann Patchett, Bel Canto (Gradiva)
2003 – Sabina Murray, The Caprices
2004 – John Updike, The Early Stories 1953-1975
2005 – Ha Jin, War Trash
2006 – E. L. Doctorow, March
2007 – Philip Roth, Everyman

Literatura e o Mundo

Três pequenos apontamentos das relações, vulgarmente apontadas como perigosas, entre a arte literária e a política, ou a cultura como meio privilegiado para se reconquistar uma hegemonia que se perdeu.

Não é difícil de adivinhar com quem Gabriel García Márquez, o escritor colombiano semper fidelis,
resolveu comemorar o seu 80.º cumple años, fugindo dos que lhe deram a prerrogativa, através da merecida deificação da sua escrita, para cometer de forma livre estes desvarios, com um ligeiro aroma (não da goiaba, mas) da democracia professada mas não praticada. Democracia, esse conceito tão difuso e conformável às necessidades. Mas, não houve Ezra Pound, por um lado, e George Bernard Shaw, por outro? E tantos outros...

Formou-se um grupo de 44 escritores francófonos para a elaboração de um manifesto que exige uma mudança do centro geodésico da língua francesa, até hoje concentrada na Metrópole, para outros cantos do mundo onde se fala francês, como África e Caraíbas. No entanto, a chamada de atenção para os escritores francófonos fora do pentágono gaulês redunda, de forma cómica, em exemplos dessa descentralização na literatura de língua… inglesa! São apontados como exemplo a seguir nomes como Rushdie (nascido na Índia e naturalizado inglês), Ishiguro (nascido no Japão e naturalizado inglês) ou Ondaatje (nascido no Sri Lanka e naturalizado canadiano) e esquecem-se de referir quais os francófonos que poderiam ser a voz dessa mudança. Talvez eu, um lusófono não pertencente ao mundo das letras, proponha Houellebecq que nasceu na ilha de Reunião, escreve em francês e vive em Espanha; ou então a jovem esperança Jonathan Littell que, apesar de americano, vive em Espanha, casou com uma belga e publica em francês.

Finalmente, o escritor peruano Mario Vargas Llosa (meu colega de doutoramento… em matérias e épocas diferentes, porém no mesmo local) emite a sua opinião sobre a libertação de Ignacio de Juana e para o perigo de desmoronamento daquilo que o país conquistou com a denominada Transição Pacífica – que, acrescento, foi o factor que esteve na génese do contínuo afastamento do nosso país do vigor económico, social, tecnológico e cultural espanhol.