terça-feira, 25 de abril de 2006

O regresso do repelente

Ao propósito deste senhor, subdirector do Diário de Notícias, que se dá pelo nome de João Morgado Fernandes, já aqui havia escrito isto relativamente a um assunto completamente diferente do que me traz aqui hoje.
Através do blogue de
Jorge Ferreira – que o enlaçou – o homem dos linguados escreve esta prosa de uma sobranceria e de uma tacanhez dilacerantes:

«As comemorações de vitória do FCPorto são das coisas mais rascas e abjectas que passam na televisão. A reboque de uma mera vitória desportiva, levamos com um chorrilho de palavrões e gestos de ódio, verbal e físico, como raramente se vê e ouve. Não há pinga de alegria naquela gente, só álcool. Daquelas bocas só saem duas coisas: palavras de ódio para com os adversários, num vernáculo repetitivo, sem graça; incitações ao ódio regionalista, num timbre desmiolado, animalesco. Mas, enfim, como se trata de futebol, ninguém repara, ninguém se importa, ninguém leva a mal.»

A propósito desse texto, no mínimo e para não fazer estalar o verniz, deplorável, deixei-lhe na caixinha de comentários o seguinte linguado… perdão, texto, com algumas alterações de forma:

«Ó senhor subdirector,
Com o cargo que ocupa não deveria documentar-se e verificar que todas as comemorações de todos os clubes, sem excepção, são de um trogloditismo primário?
Ainda não decorreu 1 ano e já se esqueceu dos impropérios avermelhados?
Não se lembra da triste final da Taça entre o Sporting e o Benfica com a morte de um adepto, assassinado pelo lançamento de um very-light?
Esqueceu-se das pedras arremessadas e cânticos de ódio, de uma obscenidade gritante, aquando da entrega da Taça [de Portugal] aos jogadores do Porto – conquistada ao Sporting – pela então Ministra da Educação Manuela Ferreira Leite?
Esqueceu-se do apedrejamento do Dr. Domingos Gomes quando este, em Alvalade, socorria jovens sportinguistas que caíram de um varandim para insultar e apedrejar os jogadores do Porto quando estes chegavam ao estádio de autocarro?
E poderia continuar!
Como jornalista que é, considero incrível essas características de memória selectiva e de completa parcialidade na análise dos factos, agravadas pela condição de ser subdirector de um jornal nacional, o Diário de Notícias.»

Não é necessário acrescentar muito mais.
Ora, se a profissão do dador de linguados fosse a de calceteiro, canalizador ou até palhaço, até poderia compreender a sua chocante ignorância – chamemos-lhe eufemisticamente assim.
Porém, este senhor dirige um jornal nacional com pergaminhos, o
Diário de Notícias, dirigindo, por certo, jovens jornalistas e exercendo, ademais, a profissão de escriba do periódico.
No meu entender, o que define um bom jornalista são as qualidades da imparcialidade, da honestidade e da independência; o bom jornalista é aquele que antes de publicar uma notícia, confirma as fontes, efectua um aturado enquadramento do tema em questão, seguindo um código deontológico que rege a profissão. Em abono da verdade, o autor do Dando Linguados não o mantém em pé na qualidade de jornalista, mas na qualidade de blogger. Logo, a manápula da deontologia profissional decerto não o deverá atingir. Todavia, o autor não pode despir a sua pele e umas vezes ser a “Emília patroa” cheio de mesuras e de cuidados jornalísticos, e noutras a “Emília costureira”, brejeira, boateira, alcoviteira e até ronceira.
No meu caso, há muito que já não dava esmola para o peditório do jornal nacional, de origens lisboetas, agora detido por capital residente no norte do país. Depois desta execrável cabotinagem, nem de borla pela Internet.

Nota: Dou apenas dois exemplos dos salutares cânticos e comemorações de outras claques: esta e esta. Através de uma curtíssima pesquisa e sem esforço cheguei a estes dois excelentes exemplos do caciquismo e da boçalidade que é transversal no futebol português. Investigue, certifique-se e depois publique.

A via-sacra de um boy atemorizado: 3.ª Estação

Caiu em si. À sua volta um duro silêncio de desdém deita-o por terra.
Cansado, exaurido até ao fim das suas forças, enrodilha-se em postura fetal e chama num bramido dilacerante: «Mãe! Dá-me algo para comer!»
A carga aérea esfumou-se, como o emproado puto andrógino em Alcácer-Quibir.
Queria comer…
«Dai-me algo!», pedia a um deus no qual não acreditava.
«Ah, esta vil quietude ao qual fui votado… Foi obra tua, seu açambarcador de almas intoxicadas em hóstia!»
Sentiu um estremecimento, 5,6 na escala de Richter assinalava o seu sismógrafo de pulso. Uma luz branca, de uma intensidade intolerável, fecha-lhe as pálpebras; sente a pele a queimar como um courato na frigideira. Sente fome…
Ouve uma voz forte em tom monocórdico que lhe diz:
«Boy, penso eu de que, chamaste-me e aqui te trago uma pequena prenda que te calará essa miséria fisiológica».
Boy, acalmou-se, ajoelhou-se em penitência e vislumbrou no fundo de um pedestal o santo anel e uma lúbrica taça…

Paul Cézanne - Fruta

Paul Cézanne, Fruta, 1879/82

FIM!
(as restantes 11 estações careceram de ser percorridas)

A via-sacra de um boy atemorizado: 2.ª Estação

Atado e bem atado, generalíssimo! O boy, que já não se movia pelo terror infligido, agarra na sua constituição e recorda pueris pulhices da exaltada infância. «Ai as criadas…» e geme num frémito matizado de lascívia e pânico!

Elie Levy, Visões da Infância

Elie Levy, Visões da Infância, 1998

segunda-feira, 24 de abril de 2006

A via-sacra de um boy atemorizado: 1.ª Estação

A fatwa é suspeitamente lançada, à laia de um Gardel anglicizado.
O boy aterrorizado, estaca e lança o grito da ignominiosa perseguição.



Edvard Munch, O Grito, 1893

O meu encontro com a leitora

– Estou, Luís?
– Lamento, aqui não há nenhum Luís… Hum, reconheço-lhe a voz... essa rouquidão entaramelada…
– Com quem estou a falar?
– Com o André, leitora! É isso, não é? Há
manchas no seu passado que a induziram ao engano na marcação do número!
– Ah! O insurgente André!
– Engana-se, maculada leitora! Errou por muito... sou menos lido! É o André do
Porque!
– …
– Não sabe quem sou?
Boémia!?
– Isso! Viu o número naquele rótulo húmido de cerveja tépida… nas bifanas do Victor!
– Desculpe-me! Mas vou desligar! Não me apetece…
– Calma! Sempre pode dizer alguma coisa, eu não…
– Cale-se, seu porco! Ainda me lembro da sua ousadia!
– Mas… Mas, só me limitei a retirar-lhe o molho da sua blusa Moschino! A existir culpa, foi da bifana que se engastou nesse vale…
– Eu não estava capaz de me controlar… o Porto… a cerveja quente a entranhar-se-me no sangue…
– Sabe, hoje em dia, a culpa não é só da testosterona! Vocês têm vontade e normalmente satisfazem-na. Somos meros joguetes nas vossas mãos! O Cabo do Mundo, lembra-se? Nova Iorque fora de horas! Usou-me, ou não?
– Ah, essa é boa! Seu... a desresponsabilização masculina perante a emancipação da mulher! Vocês só pensam… bem, hum, com aquilo…
– Porquê? Não gosta? Não me diga que agora é uma feminista misândrica!
– Vou desligar, não estou para…
– Vá lá, já desliga. Agora, satisfaça-me só uma curiosidade. O
Luís – ao contrário de si, na roulotte nos Aliados – nem sequer se referiu à vitória de sábado, o que sabe disso?
– Olhe, ao Luís pouco lhe importa o futebol e essa tribo repulsiva a que vocês, homens, pertencem!
– Vindo de si, quem diria!?
– Vá pró car…
– Não se excite! Já bastou sábado!
– Está a chantagear-me?
– Não, não estou! Só queria que me fizesse um favor…
– Pois… vindo de si...!
– Eu sei que ao
Luís não lhe interessa o futebol! Mas mesmo assim dê-lhe os parabéns por mim! Não a incomodo mais prometo-lhe!
– Hum… OK, dir-lhe-ei!
– Obrig… Olha desligou!

domingo, 23 de abril de 2006

Sobressalto

Hoje, ao ler esta pequena elucubração imagética do Afonso, sobressaltei-me!
No entanto vi que era arte, porventura retirada daqui – da nobre Torcida.
Isso, do Povo e das suas tribos dispersas numa diáspora garrida de RGB's, escatologicamente falando, evacuam todos, numa culminância do peristaltismo delirante, para o mesmo monturo.
A parte pelo todo, o todo pela parte!

Actualizações em liberdade

Aqui está uma boa ocasião para actualizar a minha lista de blogues. Depois da alegria de ontem – dispensa de mais comentários – e na véspera da celebração da conquista da liberdade – esse conceito ambíguo e de um relativismo gritante –, nada melhor que fazer alguma justiça perante aqueles que neste meu espaço ainda não dispunham de um quase obrigatório enlace.
Assim, na lista de blogues da coluna da direita foram adicionados os que se seguem:
Anjos e Demónios (Patrick Blese); Câmara Corporativa (Miguel Abrantes); Cocanha (Zazie); Esquina do Porto (blogue colectivo, Fernando Rogério et al.); Galo Verde (Carlos Sousa); Geração Rasca (blogue colectivo, André Carvalho et al.); Insustentavel Leveza (Sabine); O Jumento; Letras com Garfos (Orlando Braga); Papagaio Morto (do ex-Acidental Leonardo Ralha, e um dos meus lagartos preferidos) e Postais de BXL (Sinapse).
A todos saúdo e desejo a continuação da produção de bons textos nesta blogosfera que anda longe de estar morta e enterrada.

CAMPEÕES!

21 Campeonatos da 1.ª divisão nacional

12 Taças de Portugal

13 Super-taças Cândido de Oliveira

4 Campeonatos de Portugal

2 Taças dos Campeões Europeus

2 Taças Intercontinental

1 Taça UEFA


1 Super-taça europeia

sábado, 22 de abril de 2006

Lágrimas escarninhas #12

Este texto de Vasco M. Barreto no seu blogue A Memória Inventada é, francamente, digno de destaque, não só pela dolorosa verdade que anuncia, mas também pela potencial cientificidade – que facilmente poderá extravasar para o domínio da metafísica – do conceito da coisa ubíqua.
Trata-se, sobretudo, do dealbar de uma discussão inovadora sobre a omniausência, que VMB definiu como «dom da ubiquidade invertido».
Matematicamente, se temos DUI para designar o dom da ubiquidade invertido e U para ubiquidade, vem DUI = U-1 = 1/U.
Assim, resta definir e delimitar no espaço a variável U para que se consiga fazer exprimir o DUI, já que é o seu inverso. Porém, entrego de bandeja essa discussão aos matemáticos.
Deixo apenas a última frase de VMB que me fez recordar – com alguma nostalgia, confesso – os exasperantes e torturantes, contudo cativantes livros da série «Onde está o Wally?» – dignos de um Leopold von Sacher-Masoch:

«Teria votado nele para a presidência da câmara, mas concluo que este homem se transformou no Wally da nossa República.»

sexta-feira, 21 de abril de 2006

Mudo e quedo: a promessa

Com uma força de vontade e um empenhamento inauditos, tenho vindo a conseguir não quebrar a promessa feita aqui.
Agora, aqui no topo figurará um singelo relógio que poderá indicar o fim deste calvário de mutismo auto-imposto – de notar o emprego do verbo atrás destacado, não vá o resultado final adiar o termo da pena!

Anda Pacheco! [actualização encerrada às 16:15 - 22/04]

A blogosfera não possui um código deontológico para os seus utilizadores. «Ainda bem!», digo eu.
E,
O que é um blogue?
Não sei! Só sei que reveste a forma de uma página em linguagem HTML disponível ao público, na qual o(s) autor(es) expõe(m) os seus textos para serem lidos, muitas vezes narcísicos e sobranceiros – leia-se pequena dissertação de cunho fortemente idiossincrático –, normalmente numa base diária, derivando da palavra anglo-sáxonica weblog, ou seja, diário de bordo na rede.

Cada autor é como é!
Uns disponibilizam caixa de comentários, outros não!
Uns escrevem com o tipo de letra Georgia, tamanho 10, com avanço de parágrafo de 5 mm e espaçamento simples, outros não!
Uns põem florezinhas e cãezinhos, o Bart Simpson e a Miss Piggy, outros não!
Uns escrevem sobre futebol, outros não – e ridicularizam-nos (por favor, voltar a ler à 5.ª e 6.ª linhas deste texto)!
Uns acordam de manhã muito cedinho e, ainda com a próstata envasada que incita o desabrochar de uma pequena intumescência peniana, postam um poemazinho, outros dormem ou trabalham sem vergonha!

E poderia continuar a enumerar uma série de diferenças entre práticas e estilos. Ora, é precisamente nessa diferença que reside a beleza deste pequeno mundo que, para muitos, sem os meios necessários para atingir as luzes da ribalta, assume o carácter de transcendência!

Um blogue com caixa de comentários é, por definição, um espaço livre e democrático pela imanente característica da interactividade. Não quero com isto dizer que os outros não o sejam. São critérios!
Por exemplo, os meus mui visitados blogues
Babugem, Bombyx Mori e Da Literatura não dispõem de caixas de comentários, porém os seus autores não se sentem melindrados com esse facto. Quem quiser interagir que envie uma mensagem de correio electrónico para o endereço postado no respectivo blogue.
Já no caso do
Abrupto, o seu autor, José Pacheco Pereira, faz a chamada triagem no escurinho do cinema. É um blogue sem comentários, mas com comentadores eleitos pelo autor num critério obscuro. Nessa matéria, é um blogue do não é carne, nem é peixe; é nim, já que se veda a hipótese do comentário em linha, mas publicam-se os comentários privativos que mediante um critério meramente pessoal, passam a públicos.
Já nem discuto a questão – essa sim, ética – da necessária autorização prévia dos seus autores para a sua publicação. Porém, posso discutir – porque sou um homem livre, que vive num regime democrático – ou apreciar o critério, e até com ele efectuar um pequeno exercício especulativo: Será que apenas se publicam os que são laudatórios? Ou aqueles que são redigidos pela nata de uma determinada horda com preestabelecidos pedigree, graus de intelectualidade ou de abstracção? Ou aqueles que não usam advérbios de modo, nem travessões em vez de parêntesis? Ou aqueles que não utilizam a merda de um palavrão?

Parece-me que
JPP tenta justificar-se, atacando tudo e todos – como é seu apanágio quando discorda –, perante a não inclusão no seu blogue de uma caixa de comentários.

Quem está mal muda-se!
Falando apenas em meu nome, suponho que já não tenho idade e pachorra suficientes para ter de ler, ver ou ouvir as directrizes de uma putativa autoridade moral da blogosfera que, ademais dos mandamentos – que depois deixaram de o ser –, recorrentemente dá uns puxões de orelhas a quem mija fora do seu exíguo penico de pendor normativo.
Mais grave, o arauto e paladino do movimento anti-anónimos lança o libelo num jornal de tiragem nacional, coisa que 99,9% da população portuguesa jamais pensou, ou melhor, poderá fazer.

Respostas a este artigo na caixa de comentários, que, e adianto-me já, só pode ser usada por quem estiver registado no
Blogger. Este critério foi utilizado para evitar os famosos comentários com publicidade – verdade seja dita, ainda assim vão aparecendo. Todavia, o registo é simples, curto e gratuito.

A ler [actualização encerrada com chave de ouro, termina com 2 textos* das visadas pelo panfleto, Zazie e Sabine]:

Nota: *Via este texto do Afonso, publicado no Bombyx Mori.

quinta-feira, 20 de abril de 2006

Páginas Proibidas

Aviso: o conteúdo deste texto é susceptível de chocar os mais sensíveis!

Há dias assim, sem tempo e pachorra para postar!
Que me desculpe a pequena audiência que insiste, e ainda bem – pela insistência, claro! – em visitar os meus discorrimentos diários.

Mas existe uma página na internet que exacerba a minha condição de beatice!
Se não, vejam, por favor, a página de internet desta equídea associação americana, a
Carriage Operators of North América.

+++ Nota Importante: Para os menos destros na língua inglesa e não só, ver aqui a informação contida na referida página, convenientemente traduzida para a língua portuguesa. Ler por favor, a parte mais abaixo sobre como localizar os serviços e sobre aquilo que a associação pode fazer por si.

À atenção de Jaime Gama

Na edição de hoje do jornal O Jogo noticia-se que:

«Clube romeno submete jogadores a detector de mentiras».

Tudo o que sirva para auxiliar o Presidente da Assembleia da República, no desempenho da tarefa hercúlea que se lhe depara, será bem-vindo!

quarta-feira, 19 de abril de 2006

A trissecção do ângulo

Há pouco tive a feliz oportunidade de ver o que nos espera no próximo Quadratura do Círculo na SIC-Notícias, com emissão garantida para as 23 horas de hoje.
Parafraseando o Simão Sabrosa – aquando da entrega do troféu “A Bola de Bronze”, há uns anos atrás –, ambos os três foram unânimes ao considerarem aqueles que se indignaram com a debandada parlamentar na véspera da quinta-feira Santa como demagogos e populistas.
Chegou-se ao cúmulo de se afirmar que o nosso parlamento funciona numa lógica partidária – o que é a mais pura das verdades, significando que se esqueça de uma vez por todas a representatividade dos círculos eleitorais – logo a verificação do quórum nem seria assim tão necessária!
É de bradar aos céus!!!
Nesse sentido, proponho que se reduza o número de deputados a 1 por cada grupo parlamentar, onde cada qual deteria o correspondente à fracção do número de deputados eleitos sobre o número total de deputados da câmara.

Um exemplo bem elucidativo:

  • Alberto Martins, líder do grupo parlamentar do PS, vale 121 deputados num total de 230, logo tem uma percentagem de voto na Assembleia de 52,6%;
  • Marques Guedes, PSD, 75/230, 32,6%;
  • Bernardino Soares, PCP, 12/230, 5,2%;
  • Nuno Melo, CDS-PP, 12/230, 5,2%;
  • Luís Fazenda, BE, 8/230, 3,5%;
  • Heloísa Apolónia, PEV, 2/230, 0,9%.

Assim, poupar-se-ia o montante correspondente a 224 ordenados na actual legislatura.
A actual quadratura vê-se grega para explicar determinadas evidências e, depois, à laia de Arquimedes de paróquia, encontram a solução através da trissecção do ângulo: o consenso!
Mais um mistério resolvido!

Deo Gratias!

500 Anos

19 de Abril de 1506 – 19 de Abril de 2006


Depois do que foi dito, nada melhor do que lembrar estas palavras para traduzir alguns silêncios que se tornam ensurdecedores:

«What the world expects of Christians is that Christians should speak out loud and clear, and that they should voice their condemnation in such a way that never a doubt, never the slightest doubt, could rise in the heart of the simplest man. That they should get away from abstraction and confront the blood-stained face history has taken on today. The grouping we need is a grouping of men resolved to speak out clearly and to pay up personally. When a Spanish bishop blesses political executions, he ceases to be a Christian or even a man; he is a dog just like the one who, backed by an ideology, orders that execution without doing the dirty work himself. We are still waiting, and I am waiting, for a grouping of all those who refuse to be dogs and are resolved to pay the price that must be paid so that men can be something more than a dog.»
Albert Camus, discurso proferido num mosteiro dominicano, 1948

Destaco alguns judeus, deuses literários:
Isaac Asimov, Max Aub, Paul Auster, Saul Bellow, Edgar L. Doctorow, Nadine Gordimer, Franz Kafka, Norman Mailer, David Mamet, Arthur Miller, Michel de Montaigne, Boris Pasternak, Harold Pinter, Marcel Proust, Philip Roth, J. D. Salinger, Susan Sontag, Leon Uris, Ludwig Wittgenstein.

Marcelo dixit – versão 2.0

Por pura coincidência, ou talvez não, a versão em texto do programa televisivo de domingo passado de «As Escolhas de Marcelo» na RTP1 surge com a menção de «Texto indisponível». No entanto, existe a versão em linha do vídeo com som no formato RealPlayer e há ainda a possibilidade de transferir ou de ouvir em linha o ficheiro de som em formato mp3.
Relativamente ao que referi
neste texto, a propósito das palavras proferidas por Marcelo Rebelo de Sousa sobre os deputados eleitos pelo Círculo Eleitoral de Braga – no qual Marcelo está recenseado pelo concelho de Celorico de Basto – cabia em primeiro lugar verificar a lista de deputados eleitos pelo Partido Social Democrata. Como referi no texto mencionado, foram ao todo 7 deputados eleitos pelo PSD num total de 18 – 9 pelo PS, 1 pelo CDS/PP e 1 pelo PCP.
Hoje os serviços da Assembleia da República publicaram, no Diário da Assembleia da República, referente à X Legislatura – 1.ª Sessão Legislativa, na I série –
n.º 112, de 13 de Abril de 2006, a lista de deputados faltosos, que se poderá subdividir em 2 situações:

  • Deputados que faltaram à sessão;
  • Deputados que faltaram à verificação do quórum de deliberação.

Assim, dos 7 deputados eleitos por Braga do PSD, verificaram-se 3 tipos de comportamento:

  • Estiveram presentes na sessão os deputados Fernando Santos Pereira e Patinha Antão;
  • Faltou à sessão o deputado Virgílio Almeida Costa;
  • Faltaram à verificação do quórum os restantes 4 deputados: Emídio Guerreiro, Jorge Pereira, Jorge Varanda e Miguel Macedo.

Excertos das conversas de Marcelo – extraídos do ficheiro áudio:

  • «Um escândalo!» (12’25’’);
  • «Sobre a falta de quórum é um escândalo!» (12’52’’);
  • «(…) temos aqueles senhores lá devidamente eleitos e pagos para nos representarem na votação (…) Agora, 1.º faltaram, 2.º alguns assinaram e pisgaram-se, 3.º dão uma explicação que eu acho espantosa (…) que trabalho político haverá mais importante do que votar uma lei? Deve ser outro trabalho transcendente (…)» (13’26’’);
  • «Eu vou saber quem foram os deputados da lista do PSD [eleitos por Braga] que faltaram (…)» (16’37’’);
  • «Vou pensar duas vezes se volto a votar neles» (16’51’’);
  • «Eu retiro as ilações e no que depender de mim farei tudo para que não seja candidato a deputado (…) Se são senhores que são recordistas em faltas, como é que podem encabeçar ou integrar listas!?» (17’16’’).

Bem, a ver vamos se uma vez mais há justificações de falta que serão reputadas de aceitáveis, e se não o forem se a culpa não morrerá, como sempre, solteira!
É uma vergonha!

Lágrimas escarninhas #11

Desta vez as lágrimas de pouco siso vão para este texto, pequeno e gracioso, de Pedro Mexia no seu blogue Estado Civil, com o título «Ameaças»:

«Os adolescentes ameaçam que se suicidam. Os «adultos» ameaçam que fecham o blogue.»

Eu confesso que já tive uns ameaços de suicídio blogosférico. No entanto, decorridos dois dias retirei-me da linha – atenção, nada de confusões estupidificantes! –, nenhum comboio havia passado…

Anteriores galardoados:

#1 Insónia; #2 O Sniper; #3 O Insurgente; #4 Da Literatura; #5 Mau Tempo no Canil; #6 Bombyx Mori; #7 A Origem das Espécies; #8 O Acidental; #9 Tatarana; #10 Blasfémias.

terça-feira, 18 de abril de 2006

Homo ignarus

A fazer fé nas fontes de Eduardo Pitta, as palavras reproduzidas por Raul Solnado ontem na RTP não são homofóbicas, nem sequer conseguem ser um boçal exercício de comicidade e muito menos se devem a um potencial efeito de senilidade.
É ignorância pura e dura! É um perigoso desconhecimento da terrível realidade deste flagelo e um péssimo exemplo para a sociedade em geral, e para os jovens em particular.
Não, não me estou a armar em educador do povo, ou em censor, ou em nobre puritano, ou em defensor dos homossexuais! Porém, há coisas que, mesmo a brincar, não devem ser ditas, muito menos perante milhões e no canal do Estado.
Se se disser ao Sr. Solnado que a esmagadora maioria dos contaminados pelo VIH em África se deve à prática de relações heterossexuais sem protecção, será que acredita? Ou irá dizer que em África os bordeis não são asseados?

Estou como os Monty Python, na realidade há palavras que matam! Então se ordenadas em frase…

Livro na forja

Depois de me rir a bom rir com este amor imperfeito n.º 71 do Pedro Vieira, senti-me na obrigação de anunciar à blogosfera o nome do meu futuro 1.º romance:
«Rimbaud nos Socalcos do Tanha».
A acção decorrerá em Vilarinho dos Freires, concelho da Régua – ou Peso da – tendo como protagonista o errante Sandro dos Santos que, após uma fuga das torturantes e decadentes ruas do Porto, deambula sem destino, acabando por se refugiar na deslumbrante região demarcada do Douro.
Sandro, rapaz musculado e campeão de bairro de Muay Thai – Boxe Tailandês –, fã da trilogia – futuramente tetralogia – Rambo, adopta o nome de Rambo dos Santos como método de disfarce.
Enquanto Sandro se isola no vale do Tanha, conhece David Walden, um velho americano erudito, asceta e um pouco truculento que, por equívoco lhe associa o nome de Rimbaud dos Santos, devido à sua parca cultura cinematográfica no que diz respeito às obras-primas dos filmes de rambóia com um imenso cheiro a pólvora.
David acabado de o perscrutar, julgando-se entendedor do nome e do desassossego que ensombram o rapaz, declama:
«
Tandis que les crachats rouges de la mitraille / Sifflent tout le jour par l'infini du ciel bleu; / Qu'écarlates ouverts, près du Roi qui les raille, / Croulent les bataillons en masse dans le feu;
Tandis qu'une folie
…»

No entanto, David é bruscamente interrompido na sua recitação de Le Mal, por um Rimbaud – Rambo, ou melhor Sandro – abespinhado pela afronta declamatória:
«Oh, foda-se lá para o caralho do velho!!! Vê se te calas! Não percebi um corno do que dizes…»

E, assim, continua este promissor relacionamento que dá vida ao romance!

Lágrimas escarninhas #10

Eis a dezena!
O feliz contemplado com a lágrima galhofeira n.º 10 é o JCD do
Blasfémias a propósito da Páscoa:
«A Blogosfera Ressuscitou.»
Referindo-se à faculdade auto-regeneradora de quem havia anunciado o seu fim no extinto
O Acidental. Curiosa a coincidência do reinício de actividade com a celebração das festividades pascais, é a vida!

À laia dos fisiologistas alemães, e suponho que cito o patologista Rudolf Virchow, como ainda não encontrei a alma na ponta do meu bisturi, não há qualquer possibilidade física ou material de se efectuar a ligação (link) para o bloguista ressuscitado.

segunda-feira, 17 de abril de 2006

Inconfidências conjugais #1

Sem mais delongas:
«Achas que alguém tem paciência para ler o teu blogue? Já me viste o tamanho…»

Encolhi os ombros, esbocei uma tentativa de réplica, porém saiu-me um sorriso*. Peguei no livro e… apesar das 400 páginas, que lhe conferem o volume suficiente para arma branca, recolhi-me na varanda e acendi um cigarro.
Já não os fazem como dantes… os livros, pois!

*Pensamento de pasmo: apesar de não blogar e de tão-pouco ler blogues, já conhece o truque para a popularidade: curto e com despertares pré-aurora demonstrando que se trabalha!

Europa...

Another great week for Europe…essa manta de retalhos – artificial por definição – puída, à espera que algo ou alguém a rasgue para todo o sempre.
As minhas idas à caixa de correio a cada segunda-feira poder-se-ão considerar sempre como bastante proveitosas e surpreendentes: chega a
The Economist.
A edição europeia da revista inglesa traz
esta semana uma capa que é um verdadeiro deleite, esse Inferno chamado Europa:
Título: «Outra grande semana para a Europa»;
Subtítulo: «Paralisia em Itália, rendição em França».

Separados à nascença?


Frank SinatraRui AraújoSempre que me ligo à página da internet do jornal Público julgo ver um Sinatra – o meu deus Católico – em todo o lado, ao virar da esquina. Porém, de todas as vezes, decorrido aquele lapso de segundo de caprichoso devaneio, verifico que, na realidade, se trata tão-somente – sem desprimor – de Rui Araújo, o provedor dos leitores do referido jornal.

Será que o Rui consegue cantar In the Wee Small Hours of the Morning, com a mesma melancolia do Ol' Blue Eyes, quando lhe dirigem cartas de protesto pelo pagamento obrigatório para se ter acesso em linha ao conteúdo do jornal
?

Do esquecimento

Não há pior forma de esquecimento do que a omissão, porque esta não é descuido ou desleixo, reveste-se de um acto deliberado que, eventualmente, inflige dano na parte omitida.
É assim que funciona esta pequena blogosfera que, todavia, não esmorece o presumido adversário, antes lhe dá a força necessária para continuar e servir um público desconhecido, mesmo que ínfimo, através da verdade e nada mais que a verdade.
Quem escreve gosta de ser lido, até citado, nunca esquecido.
Há aqueles que permanecem neste mundo sem serem reconhecidos porque não o querem e para tal não trabalham e há os outros que dele dependem – do reconhecimento –, como uma palavra amiga que nos sai da alma num momento oportuno quaisquer que sejam as circunstâncias e a envolvente.
Escrevo por prazer e sem ataviamentos, apenas como forma de expelir os meus sentimentos mais íntimos, confessáveis, sem rodeios, que de outra maneira ficariam fechados nesta carapaça a provocar-me um lento e cruel definhamento intelectual e espiritual.
Pronto, já está. É o meu processo de catarse.
Quanto ao avivar da memória colectiva nacional pelos horrendos acontecimentos de há 500 anos atrás, no próximo dia 19, estou solidário com os fins, mas não me revejo nos meios.


שָׁלוֹם

domingo, 16 de abril de 2006

Marcelo dixit [Actualizado]

Marcelo Rebelo de Sousa, cidadão eleitor do círculo eleitoral de Braga, prometeu, hoje em directo no seu programa de televisão «As Escolhas de Marcelo» na RTP1, que se iria certificar se os deputados do PSD que ajudou a eleger por Braga teriam faltado à sessão parlamentar de quarta-feira passada na Assembleia da República.
Marcelo disse mais, fez depender o seu voto no PSD nas próximas eleições legislativas no comportamento assumido pelos deputados em causa – caso não tivessem comparecido sem justificação de força maior – e que tudo iria fazer, desde que ao seu alcance, para que os prevaricadores não se candidatassem uma vez mais pelo seu partido.
Assim, atendendo ao eminente sentido de Estado e de serviço público deste blogue, publicam-se os nomes dos deputados em exercício na actual legislatura, eleitos pelo círculo eleitoral de Braga pelo Partido Social Democrata:

  • Emídio Guerreiro
  • Fernando Santos Pereira
  • Jorge Pereira
  • Jorge Varanda
  • Miguel Macedo
  • Patinha Antão
  • Virgílio Almeida Costa

(Nota: esta é apenas a lista dos deputados por Braga eleitos pelo PSD, não é a lista dos faltosos)

Olhando bem e estando atento à realidade política nacional, há, pelo menos, 3 nomes da lista de 7 que, a terem prevaricado de acordo com a directriz marcelista, irão fazer mossa no partido em causa e motivar muitos editoriais, muitos artigos e entrevistas, e uma salutar, e cada vez mais importante no contexto global, discussão na blogosfera.
Eu, humilde eleitor e agreste contribuinte, espero que a medida apalavrada se imponha e que, desta feita, se acabe com a impunidade destes esbanjadores – é um eufemismo – dos dinheiros públicos.
Muitas vezes os grandes exemplos e as medidas profilácticas provêm destes micro-episódios que, aparentemente, costumam resultar num impune nada para o perpetrador.
A ver vamos!

Nota: O texto completo da emissão de hoje será publicado na íntegra no sítio do programa, assim como o habitual ficheiro de som em formato mp3 ou em vídeo através da aplicação RealPlayer.

Adenda: Ler este artigo do Paulo Gorjão, no Bloguítica, onde já se prognosticava o que iria ser dito hoje.

A moda dos Fibs

Na edição do The new York Times de sexta-feira passada, um artigo intitulado por «Fibonacci Poems Multiply on the Web After Blog's Invitation» chamou-me à atenção pela referência à famosa Sequência de Fibonacci.
Fibonacci – de nome Leonardo Pisano – foi um dos mais importantes matemáticos da história, sendo o seu principal mérito a introdução no mundo ocidental da, menos complexa e moldável em termos matemáticos, numeração árabe no início do século XIII, com a publicação em 1202 do seu livro «Liber Abaci».
Outro facto bem conhecido do público em geral – através da leitura do livro de Dan Brown, «O Código Da Vinci» – foi a invenção da referida sequência, que consiste no seguinte:
Uma sucessão de números, iniciando-se em “0” e “1”, onde o número seguinte resulta sempre da soma dos dois números imediatamente anteriores. Então, a famosa sequência inicia-se desta forma: 0, 1, (0+1) 1, (1+1) 2, (1+2) 3, (2+3) 5, (3+5) 8, (5+8) 13, (8+13) 21 e por aí em diante.
Gregory K. Pincus, argumentista norte-americano de cinema e de televisão, amante de poesia e de livros ilustrados para crianças, autor do blogue
GottaBook, lançou um desafio à blogosfera que consiste no desenho de um poema composto por seis versos, cujas sílabas seguem em crescendo de acordo com a Sequência de Fibonacci: 1, 1, 2, 3, 5, 8, isto é, 1.º verso 1 sílaba, 2.º verso 1 sílaba, 3.º verso 2 sílabas, 4.º verso 3 sílabas, 5.º verso 5 sílabas e 6.º verso 8 sílabas.
O desafio foi designado por Fib – acrónimo de Fibonacci – e teve uma repercussão estrondosa na blogosfera e nos mais diversos meios, por exemplo, nas academias de matemática, de literatura e de poesia, nos meios de comunicação social e até em poetas e em sociedades de poetas.
Eu, na minha modesta condição de blogger, contribuirei aqui, neste meu espaço de pura diversão, com o meu primeiro Fib:

Sim,
tu!
No vão
desse céu
azul esparso.
Sentes-te só, sem sol, nem mar!

AMC, Abril de 2006

Lanço o mesmo desafio aos meus visitantes que, por via da Divina Providência de apelido
Gross, aumentaram em número significativo nos últimos dias – porém, quer-me parecer que irá ser sol de pouca dura e lá voltarei aos 28 vpd.

Nota: Para saber mais sobre este desafio lançado por Gregory K. Pincus, consultar o blogue do autor, onde inclusivamente estipula algumas regras, como por exemplo, não é permitido o uso de artigos definidos ou indefinidos nos primeiros versos.

A ternura dos quase 60

Ainda vou nos 33! Anos percorridos com sobressaltos, alegrias, perdas intoleráveis, tristezas profundas, júbilos, desencantos e momentos de exultante euforia.
(Segundo os cânones, ainda desfrutarei, pelo menos, da outra metade do percurso e, talvez por isso o desígnio da morte só se sublima em mim através das perdas que irremediavelmente ainda virei a sofrer. É esse o mal de amar! Um sentimento que requer reciprocidade, mas que, na maioria das circunstâncias, é de um egoísmo exacerbado, quase parasitário das emoções da contraparte, cerceador da liberdade alheia e circunscritivo da sua conduta. Como uma imagem reverberada por um espelho, vemos os outros em função de nós próprios.)
Os parêntesis que delimitam o parágrafo anterior foram colocados à posteriori quando, num estado de lucidez – ler texto desassossegado em epígrafe neste blogue –, reparei que divagava a bom divagar.
Voltando ao assunto sobre o qual me apetece discorrer.
Dizem que com a idade, principalmente quando se dobra o difícil cabo dos 50, as pessoas ficam mais piegas, mais susceptíveis a estados de comoção, até mais compreensivas e dóceis, com uma certa dose de loucura reminiscente (percebida) e remanescente da juventude (inconsciente).
Ao 10.º romance, damos por nós a lembrar que Auster já não é uma criança, o jovem escritor da Trilogia ou do Palácio da Lua. Falta menos de um ano para Paul completar os seus sessenta anos, precisamente a idade do seu protagonista-narrador, Nathan Glass, incluído no seu último romance «As Loucuras de Brooklyn».
Auster não está melhor, nem pior, está diferente!
Não está diferente na forma de abordar o acaso – eternamente presente na sua obra – e as consequências implacáveis dos pequenos grandes episódios que preenchem a nossa vida. Não está diferente na inclusão do aparentemente insignificante que tudo significa na narrativa. Contudo, está menos sério na substância – e entenda-se aqui por “menos sério” como qualificativo do grau de comicidade –, mais solto e mais arejado, não tão carregado, embora “a miséria humana” permaneça o seu tema central.
Provavelmente, este é o menos austeriano dos seus romances. Não exige o mesmo grau de introspecção que romances como «Palácio da Lua», «Timbuktu», «Leviathan» ou até «O Livro das Ilusões» exigem. Não é tão hermético e negro como «A Trilogia de Nova Iorque»; nem tão violento, exasperante e trucidante como «A Música do Acaso».
«As Loucuras de Brooklyn» é o seu primeiro romance a mencionar acontecimentos que afectaram de forma marcante os Estados Unidos e que deixaram feridas ainda muito longe de cicatrizar na sociedade americana: as eleições presidenciais de Novembro de 2000 e o famoso imbróglio judicial no Estado da Florida, e os atentados de 11 de Setembro 2001.
Avaliação final: omitida por falta de imparcialidade!
Em jeito de nota final – para mais não roubar ao prazer da sua descoberta –, deixo aqui ficar uma classificação muito pessoal, por ordem de preferência e de entusiasmo literário, de 8 dos 10 romances já publicados por Auster até à data:

  1. A Trilogia de Nova Iorque – (The New York Trilogy, 1985);
  2. A Música do Acaso – (The Music of Chance, 1990);
  3. Palácio da Lua – (Moon Palace, 1989);
  4. Leviathan – (Leviathan, 1992);
  5. Timbuktu – (Timbuktu, 1999);
  6. O Livro das Ilusões – (The Book of Illusions, 2002);
  7. As Loucuras de Brooklyn – (Brooklyn Follies, 2006);
  8. A Noite do Oráculo – (Oracle Night, 2003).

Notas:
(1) Infelizmente, ainda não li, e já conhecem os meus critérios – linguísticos – os romances «In the Country of Last Things» (1987) e «Mr. Vertigo» (1994).
(2) Obviamente, foram excluídos da lista os seus ensaios, poesia e argumentos para filmes – igualmente deleitáveis.

sexta-feira, 14 de abril de 2006

Lágrimas escarninhas #9

Nada como o início da Sexta-feira Santa para quase quebrar uma promessa – e disse "quase", porque me limito a reproduzir algo que foi escrito por outrem.
Esta é a 9.ª edição deste espaço, votado ao riso deliberadamente inclemente, com o 9.º autor diferente – este facto traz à colação o logro perpetrado pelos arautos do fim desta imensa comunidade pecadora, demonstrando uma vez mais a riqueza e a saúde actuais da nossa blogosfera.
O galardão vai, merecidamente, para o Manuel Jorge Marmelo – cujo blogue e texto aqui representados acabei de descobrir, via o impagável
Cantinho do Hooligan de FJV.
Então, MJM escreve
esta pequena indignação perante a pasmosa amnésia colectiva dos habitualmente pertinazes defensores dos direitos dos animais:

«Não percebo essas associações que alegadamente se dedicam à defesa dos animais. Protestam por tudo e por nada, mas não se lhes escuta uma palavra que possa ajudar a salvar aquela pobre águia, Vitória se chama (?!), aviltantemente forçada, um domingo após outro, à tortura de ver jogar tão mau futebol.»

Ler texto e comentários – onde ademais se vai discutindo o tema “Dragão: mito ou realidade? Uma reflexão sobre Komodo” – no blogue Tatarana, que aliás salta, desde já e sem passar pela casa de partida, para a coluna à direita… deste texto, claro!

quinta-feira, 13 de abril de 2006

Eu, pecador me confesso!

Não, não fujo aos impostos, os outros fogem – e de que maneira! – por mim!
Se conduzo em excesso de velocidade? Não... digo!
No entanto, sou um pecador. Um bastardo de um neo-pecador.
Ora bolas, já não me bastava o pesado fardo do pecado original com o qual os meus luxuriosos pais me resolveram carregar à nascença – obscenos! – e houve um espírito de luz que me soprou que de facto sou um pecador porque escrevo estas palavras!
Não porque elas sejam injuriosas ou sacrílegas, mas porque o acto de composição deste texto me incrimina pelo tempo despendido inutilmente.
Neste momento sinto essa duplicidade que me atulha o cérebro de sinapses contraditórias. Por cada letra que acrescento a este texto, menos uma letra leio dos cinco livros do Pentateuco, dos Actos dos Apóstolos, da Epístola de S. Paulo aos Coríntios.
Assim sendo, vou publicá-lo antes que o cúmulo da penitência, transitado em confidência, me enclausure no coração das trevas a ler o Apocalipse – não de Conrad – de S. João Evangelista.
O Horror!

Nota: Ler a notícia aqui, mesmo sabendo que ireis pecar, irmãos!

Haja Fé!

Samuel Beckett

Samuel Beckett 100 Anos
(1906-1989)


Desamor

Rodrigo Guedes de Carvalho - Mulher em BrancoEscrevi este título sem invectivas e recuos. Sem que um febril estado de arrependimento me compelisse a apagar de imediato essa palavra que pressupõe um sentimento que já existiu e que, porventura, de forma abrupta desapareceu deixando o sabor amargo do ressentimento que, com o tempo, se transformará no simples olvido – esse é o lado negro do amor; neste mundo binário, de contrários que se atraem e se repelem com as mesmas energia e destreza.
Decorreram apenas quatro ou cinco minutos, mas pareceram-me cem. O cursor cintila sobre a folha em branco. Não sei como começar… e assim começo, porque não é um início é um meio que me conduz ao fim de descrever os sentimentos que me envolveram num manto de silêncio, um nó na garganta, quando fechei, em definitivo, as páginas de «Mulher em Branco», de Rodrigo Guedes de Carvalho.
O livro relata esse lado obscuro do amor, que é finito, felizmente invisível quando embarcamos de forma desabrida nas teias da emoção pura. Porém, mais cedo ou mais tarde, essa sombra emergirá e, como tudo na vida, ele também finda e esse fim é dor e mais dor… só ela parece ficar, aniquilando todo um espectro iridescente de sentimentos.
O estado de desamor implica uma ruptura prévia e irreparável que se fez de um pequeno nada. De um bocejo, de um hiato de tempo correspondente a um abanão de asas de um colibri. Depois… só as trevas, uma negridão inquietante interrompida por imagens, por manchas de rememorações obstinadas e doentias: em que parte da história falhei? Não, espera, não fui só eu? Sim, não fui eu? Tu é que falhaste…
Neste livro, Rodrigo Guedes de Carvalho captou o arcano do desamor usando um leque aparentemente complexo de relacionamentos que, na realidade, não é nada mais do que a imitação da própria vida, da espécie humana no seu quotidiano mais fútil, frugal e mesquinho.
Ler este «Mulher em Branco» é um exercício de leitura inesquecível, pela dureza da constatação dessa realidade nua e crua, escrita com uma leveza de mágico!
Ao contrário de «A Casa Quieta», tenho a firme convicção de que este livro, mesmo com o inexorável passar do tempo, me ficará eternamente gravado na memória.

quarta-feira, 12 de abril de 2006

Um esclarecimento

A propósito deste texto de JPT no Ma-Schamba, escrevi esta breve nota na sua caixa de comentários e dela fiz eco neste blogue.
O tema centra-se na passagem dos 500 anos do início do pogrom de Lisboa, em 19 de Abril de 1506, e de uma vigília agendada para o mesmo dia deste ano – próxima quarta-feira – no Rossio em Lisboa, onde foram chacinados milhares de judeus ao mando de um celerado D. Manuel I, o venturoso – para muitos o pai do declínio de Portugal com os seus devaneios de prepotência e de magnificência.
Não me manifestei contra a vigília, só referi que nela não iria participar. Em primeiro lugar, por uma simples questão logística ou de distância meramente física – mas esta perde a importância toda perante a que se segue. Depois, porque não me revejo – e está-me no sangue – nesse tipo de exteriorizações, seja de que índole for: religiosa ou política, de agravo ou de desagravo. Todavia, reconheço aos outros – sem presunção de espécie alguma, aliás digo isto na mais genuína das humildades – o direito inalienável de expressão do mais íntimo das suas indignações, dos seus sentimentos de injustiça, das suas revoltas perante impunidade dos actos dos poderosos mais cruéis, tanto no passado como no presente.
Não acenderei uma vela no Rossio no próximo dia 19, todavia, tal como referi aqui nos comentários a
este texto do Francisco José Viegas, a minha vela acender-se-á transfigurada num sentimento de culpa no mais profundo da minha alma porque sou português e porque um dia me orgulhei, numa ignara sapiência, de alguns feitos logrados à custa do sangue dos inocentes – e não me venham com a historieta dos mouros e das guerras travadas na península, denominadas sob o título de reconquista cristã; tratava-se de uma guerra, e quem lá vai dá e leva, como diz o ditado.
Nuno, Lutz e Francisco rogo-vos que não interpretem mal as minhas palavras – e daí a necessidade deste esclarecimento, neste habitual ambiente exaltado e hiperbólico da nossa blogosfera.
Como já mencionei, sou um católico de número. Fui baptizado aos 3 ou 4 meses, consto dos registos paroquiais e posso receber os restantes sacramentos da liturgia católica.
No entanto, essa é a minha parte insubstancial que se transmuta num número, que se usa para ser extrapolado nas discussões teológicas ou ecuménicas.
Eu sou daqueles que partilham a máxima do “crer para ver” – ok, já estou a citar o último romance de Auster, ainda mal o comecei a ler. Transformei-me num inconsequente de um céptico, não niilista, porém ateu, para a grande mágoa do meu querido pai, um católico dedicado e ritualista.
Os meus deuses são os meus ídolos, a minha família, os meus amigos e aqueles que, embora não conhecendo, reputo de infinitamente bons, justos, íntegros e rectos.
Não me levem a mal, é a minha natureza!

Só para terminar, queria aqui deixar uma pequena história verídica. Ocorreu no dia 1 de Março de 1994, no Radio City Music Hall, em Nova Iorque, na sessão de entrega dos prémios Grammy. Frank Sinatra foi previamente indigitado e nesse dia galardoado com o Grammy Legend Award (Lifetime Achievement). O discurso de apresentação do prémio coube a Bono Vox, e recordo-me agora da comoção que se me assaltou e do arrepio que senti durante o discurso enfático do vocalista dos U2. Bono terminou o discurso com estas palavras:

«Ladies and gentlemen, are you ready to welcome a man heavier than the Empire State, more connected than the Twin Towers, as recognizable as the Statue of Liberty, and living proof that God is a Catholic!
Will you welcome the King of New York City, Francis Albert Sinatra!
»

[destaque meu]

11 de Setembro à parte, eu digo que Deus foi católico até ao dia em que o coração o traiu, Francis Albert – 14 de Maio de 1998.
Todavia, para mim, Deus continua a ser judeu, pelo menos desde
3 de Fevereiro de 1947, como poderá ser de outro sentido qualquer. Essa a minha maneira de sentir a presença d’Ele. Perdoem-me!

É sorrir e acenar, rapazes!


In O Jogo, 12/04/2006

Nota: Obviamente, sem quaisquer comentários! Mudo e quedo!

Insubmisso enriquecido...

Mahmoud Ahmadinejad ...pelos pacifistas!
Que me venha mais algum pseudo pacifista pôr paninhos quentes neste pulha!
Um dos maiores palhaços de toda a História usou e abusou da arma dos consensos fúteis e/ou impossíveis, e acabou por assistir pacificamente – morreu! – aos blitzkrieg a devastar o seu país que ele queria de consensos:
«É a paz no nosso tempo», disse ele, Neville Chamberlain!
Com criminosos jamais se negoceia!
As angelicais, imaculadas, beneméritas, voluntariosas e prodigiosas negociações são o pretexto para que o imperceptível passar do tempo fortaleça os assassinos.

1939-1945? Não basta este episódio!

Chamberlain com Hitler

terça-feira, 11 de abril de 2006

“O senhor Murakami”®

Haruki MurakiAntes de chegar ao tutano do texto, embora corra o risco de exibir o meu carácter tergiversador, cabe-me fazer aqui um brevíssimo proémio para que se espalhe uma luz sobre a figura do escritor nipónico Haruki Murakami.
José Mário Silva, no seu blogue
A Invenção de Morel, apõe uma pequena asserção que, assim dita, é susceptível de gerar um manancial de interpretações:

«Haruki Murakami é o Dan Brown dos intelectuais.»

Ora, uma coisa parece certa, ambos escrevem livros e que estes estão traduzidos para a nossa língua. Dan é um cidadão americano com quase 42 anos de idade, Haruki é japonês de com 57 anos já feitos – logo, já está, literariamente, um homenzinho. O primeiro publicou 4 romances 4, o segundo 16. Ambos são considerados como escritores “pop” – de limão não estraga as unhas nem, tão-pouco, as mãozinhas! –, embora o primeiro seja um pop internacional, o segundo, por enquanto, é um pop apenas no Japão, ao contrário da sua imagem na Europa ou nos Estados Unidos.
Posto isto, há uma pequena grande diferença – o chamado pormaior:
DB escreve romances policiais – históricos ou não – que resultam de uma aturada pesquisa bibliográfica, uma vez que procura neles abordar matérias polémicas, fracturantes e conspirativas. A sua prosa é de leitura e de interpretação fáceis, leve e enleante, constituída, na sua essência, por diálogos e por breves abordagens explicativas dos seus personagens. Tudo isto espargido por um número infindável de capítulos, curtos, com final em suspenso que, em regra, só é continuado 1 ou 2 capítulos mais à frente. DB não se detém em rodriguinhos literários ou em efabulações, é curto e grosso, e chega!
HM é mais complexo sem o parecer. Em muitas circunstâncias a mensagem que pretende transmitir lê-se nas entrelinhas, porém, na maioria das vezes, damo-nos a procurá-la como tontos desconfiados, mas de facto nesse local ela não existe; o texto é taxativo, mas há qualquer coisa que, por vezes, nos põe a pensar em voz alta e nos leva à teimosa e cansativa releitura do parágrafo que mal acabámos de passar os olhos. Sobre Murakami fico-me por aqui – apenas neste texto –, até porque – e o insone
Henrique Fialho é disso o suspeito número 1 – «O Senhor Murakami» é muitíssimo bem – já pareço a ® com os seus incontáveis superlativos – retratado num pequeno texto homónimo – aliás, por falar no diabo, o título deste texto foi daí plagiado – de Rui Tavares incluído no seu livro «Pobre e Mal Agradecido», Tinta-da-china, Fevereiro de 2006 (pp. 53-63).
Em Portugal, HM tem 3 títulos editados – como estou com uma preguiça colossal, ver
aqui o que já escrevi sobre isto – e já há um 4.º a caminho, o seu mais louvado e premiado «The Wind-Up Bird Chronicle», que também será editado pela Casa das Letras.

Para finalizar, regresso ao proémio e tento fazer um exercício lógico-dedutivo:
Li Dan Brown. Todos. Os 3 editados em português e lerei o que há-de vir. Gosto – serei supliciado, é certo, mas foda-se, é a vida! Diverte-me e desopila-me. Gosto de Murakami. Muito até. Li o de Sputnik que era beat, que era beatnik, Kerouac. Não gosto, desprezo até, Beatles. Mas gostei do Eleanor – não, isso era Coupland, seu sacrílego! – Norwegian Wood. O pássaro voou…
Logo:
Sou um banal, hetero, coçador-de-tomates, bebedor-de-cerveja, leitor-de-jornais-desportivos de um pop, arremetido de frivolidades, mas, ao mesmo tempo, sou um pop culto, um panasca de um intelectual de um presunçoso que só se besunta com caviar e com champanhe – champagne, s’il vous plait! – e nada de lambonas da Planta de passantes de chopingue dominical de fatos-de-treino roxos flamejados de verde-alface e bigodes farfalhudos risca-ao-meio na bissectriz do cabelo gorduroso, manteiga… conhece a manteiga como Brando no seu Últimoem Paris!
Rótulos, compartimentações, guetos, prisões… Prometeu ladrão da chama agrilhoado, de fígado pútrido por uma águia debicado.
Que nó!

Notas:
(1) Para mais informações sobre o autor consultar esta página da
Wikipedia, onde se poderão encontrar outras referências espalhadas pela Internet.
(2) Sobre «Kafka à Beira-mar» – editado este ano em Portugal, ver
aqui a referência – confesso que fiquei um pouco decepcionado com o excesso de delírios fantasiosos. Falarei disso quando houver tempo, e se me apetecer, claro!
(3) Por uma questão de justiça – aliás já o queria ter feito há muito – o
blogue do Rui Tavares salta já para a minha lista de ligações.

Ei-lo!

Paul Auster - As Loucuras de BrooklynAnunciado nos finais de Março pela editora Asa, «As Loucuras de Brooklyn» de Paul Auster (Brooklyn Follies, 2006) chega finalmente às livrarias!
Resta o imaginável prazer, parcimonioso, na sua leitura, o que para um fanático austeriano, com determinados ritos ou obsessões literárias, exigirá, em primeiro lugar, a conclusão da leitura da mulherzinha frágil e amnésica – diria em branco – e as vicissitudes das personagens que a rodeiam, e, sem querer parecer pobre e mal agradecido, ler nos intermezzos e de forma descontínua – porque a estrutura da obra assim o permite – o manual de educação patológica, com laivos
sísmicos.

Despeço-me à EPC, bons livros!

Promoções na Páscoa

Aproveitando o início da Semana Santa – uma semana maniqueísta, por excelência antagónica, perdoem-me a heresia – de jejuns e abstinências – não comer carne na sexta, ou seja coboiadas no Wyoming são permitidas! –, de aleluias e repastos folgazões no Domingo de Páscoa, actualizo a minha apaixonada lista de blogues.
Uma vez mais, a heterogeneidade geográfica, política, cultural, religiosa e futeb… – prometi mudez e remanso – pinta de democraticidade a lista que se segue – postados por ordem alfabética:
Agridoce, de Pedro Vieira; Destaques a Amarelo, de Sérgio Aires; Diário, de Tiago Galvão; Ilhas, dos açorianos Alexandre Pascoal, Carlos Guilherme Riley, João Nuno Almeida e Sousa, Pedro de Mendoza e Vítor Marques; A Invenção de Morel, de José Mário Silva; A Praia, de Ivan Nunes; Quase em Português, de Lutz Brückelmann; Welcome to Elsinore, de Carla Carvalho.

A todos expresso as minhas sinceras felicitações pelos excelentes espaços blogosféricos, deixando a promessa de visitas mais assíduas.

segunda-feira, 10 de abril de 2006

A idade de Cristo

Para além de haver constatado pelo número excessivo de bloggers de nome André – o nome do santo da cruz invertida (cuidado, não é literal!) – na blogosfera nacional, agora deparo-me com uma pequena multidão com a idade de Cristo crucificado: 33 anos!
Apenas alguns exemplos (6), para além deste vosso autor:

Para a semana, a sexta-feira é Santa, o que significa que se pretende simbolizar o dia da Paixão, isto é, pelas 15 horas de sexta-feira da semana da Páscoa Cristo foi crucificado…

«E eis que o véu do templo se rasgou em dois, de alto a baixo; e tremeu a terra, e fenderam-se as pedras; E abriram-se os sepulcros, e muitos corpos de santos que dormiam foram ressuscitados».
S. Mateus (27:51-52)

Basta!


Parafraseando o título da capa da revista The Economist desta semana, referindo-se a outro assunto.

Proliferam como cogumelos ou como reverberações de nauseabunda submissão: o todo pela parte e parte pelo todo!
Faz-me lembrar as tardes de Verão no Douro, onde assistia ao corrupio das pudicas e cândidas damas nativas, que recorriam, numa desenfreada histeria, ao ouvido paciente da minha mãe, soltando as repulsivas línguas de maledicência viperina e boçal.
E como batiam... Batiam, com auto elogios à nobreza de carácter e à devoção cristã do amor pelo outro!
Batiam e batiam com a mão no peito e eu só lhes desejava que aqueles esternos lhes rebentassem naqueles negros e repelentes buços por aparar.

Futebol, só quando houver realizações – matemáticas, claro!

Até lá, mudo e quedo!

Canal-Caveira

«Mijo no restaurante do Canal-Caveira, decidiu ele, numa retrete nauseabunda atulhada de merda imemorial dos comensais, que deixa na loiça dedadas arrastadas e sujas de Arquivo de Identificação, que nenhuma água limpará. Mijo no restaurante do Canal-Caveira, onde me sentarei diante do bife do ano passado com fastio do ano passado nas tripas, recusando as batatas fritas da travessa num enjoo imenso.»*

Retribuo o abraço, ressalvando, todavia, que essa chusma mencionada no texto me arrepia até os pelitos mais grossos – pronto, os púbicos, porra!
Porém, esses quadrilheiros não são os únicos! Mesmo as tais cigarritas já são embriões de formiguitas que labutam, num esforço hercúleo e incessante, pelo mimetismo dessa desenfreada marabunta.
Não, não vou nomear!
Só vou deixar aqui um fio para desatar meada – e que não fala de “unhas”, nem de “máquinas fotográficas”, deixo a clorofila em paz:
W essa semivogal labiovelar, muitas vezes designada em Portugal por “Duplo V”, logo V e V dá VV, W.

* In «Conhecimento do Inferno», de António Lobo Antunes. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 14.ª edição (1.ª edição ne varietur), Novembro de 2004, pág. 141

Justas referências cum laude – III

Pronto! Os capítulos sucedem-se!
Desta feita, chamo a devida atenção para
este texto de José Pimentel Teixeira sobre a celebração ou não da tragédia com cinco séculos e meio de história, 19 de Abril de 1506, o tristemente célebre pogrom, onde milhares de judeus foram barbaramente assassinados no Rossio, sobre os auspícios do reinado de el-Rei D. Manuel I, o venturoso.
Por manifesta preguiça, irei apenas fazer copy & paste do meu comentário inserido no
texto do Ma-schamba.

«Excelente texto JPT!
Subscrevo-o na íntegra!
Este tipo de iniciativas, levadas a cabo volvidos séculos após o acontecimento, faz-me uma certa confusão!
Que o D. Manuel I, como chefe supremo da nação, fosse um celerado e que se o demonstre à saciedade para que a História dos pogrom não seja branqueada, concordo – já que ela figura sempre na óptica do vencedor.
Agora, vigílias, velinhas, cânticos e concentrações por acontecimentos históricos seculares – não falo, por exemplo, deste tipo de iniciativas nos casos de injustiças que ocorrem na actualidade por esse mundo fora – provocam normalmente mais ruído do que esclarecimento; são simples desvarios estrídulos sem que se consiga alcançar o objectivo pretendido, uma vez que há a conotação com radicalismos que acaba por afastar os moderados.
Agora, que se publiquem livros, que se promovam debates, que sejam alertados os meios de comunicação social para que se refiram a este tipo de acontecimentos, é outro tipo de manifestação completamente diferente, com o qual concordo – aliás como fez o
Nuno Guerreiro através do seu alerta na blogosfera!
A este propósito deixo aqui uma sugestão, ao estilo MRS: «
O Último Cabalista de Lisboa», Richard Zimler. Lisboa: Quetzal Editores (eu disponho da 9.ª edição, que é de Maio de 2004, mas não existe a referência à data de publicação da 1.ª).»

Postado no Ma-Schamba, hoje, 10 de Abril de 2006, às 17 horas e 31 minutos, hora de Lisboa.

Nota: os procedimentos de montagem do comentário – ligações, destaques, itálicos – e eventuais correcções, foram realizados apenas neste blogue.