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sábado, 24 de dezembro de 2011

Natal


Deixo-vos, em jeito de presente, com uma das melhores canções de Natal de sempre.
Escrita por Shane MacGowan e Jem Finer, composta pelos saudosos e dilectíssimos The Pogues e cantada num dueto perfeito e sublime por MacGowan e a desafortunada Kirsty MacColl – morta aos 41 anos, uma semana antes do Natal do ano 2000, num estranhíssimo acidente com uma lancha rápida conduzida por um daqueles todo-poderosos magnatas mexicanos («They’ve got cars big as bars / They’ve got rivers of gold») ao largo da lindíssima Ilha de Cozumel enquanto Kirsty com a sua família fazia mergulho (escusado será dizer que o multimilionário saiu praticamente impune, um homicídio por amendoins em pesos).
É com uma estranha melancolia que ouço esta canção, num época que por definição deveria exaltar ou fazer emergir tudo o que de positivo existe em nós; este negrume não me abandona e o nó na garganta adensa-se a cada ano que passa, e vou alvitrando justificações para uma mente inquieta: talvez porque no deste ano se celebra o 10.º aniversário do último que passei, no coração da bela e sinuosa Montmartre, junto de uma das pessoas mais importantes da minha vida.
Perdoem-me o pathos.
Desejo-vos um Feliz Natal, independentemente do credo professado, mas apenas com o simbolismo e o espírito da quadra.
Eis the bum Shane, que entre the old slut Kirsty:


It was Christmas Eve babe
In the drunk tank
An old man said to me, won’t see another one
And then he sang a song
The Rare Old Mountain Dew
I turned my face away
And dreamed about you

Got on a lucky one
Came in eighteen to one
I’ve got a feeling
This year’s for me and you
So happy Christmas
I love you baby
I can see a better time
When all our dreams come true

They’ve got cars big as bars
They’ve got rivers of gold
But the wind goes right through you
It’s no place for the old
When you first took my hand
On a cold Christmas Eve
You promised me
Broadway was waiting for me

You were handsome
You were pretty
Queen of New York City
When the band finished playing
They howled out for more
Sinatra was swinging,
All the drunks they were singing
We kissed on a corner
Then danced through the night

The boys of the NYPD choir
Were singing “Galway Bay
And the bells were ringing out
For Christmas day

You’re a bum
You’re a punk
You’re an old slut on junk
Lying there almost dead on a drip in that bed
You scumbag, you maggot
You cheap lousy faggot
Happy Christmas your arse
I pray God it’s our last

I could have been someone
Well so could anyone
You took my dreams from me
When I first found you
I kept them with me babe
I put them with my own
Can’t make it all alone
I’ve built my dreams around you

Fairytale of New York
(MacGowan & Finer; The Pogues)
The Pogues, If I Should Fall from Grace with God (1988, WEA)

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Pena


«A pena é uma emoção tão horrível e tão inútil – temos de reprimi-la e guardá-la para nós mesmos. Quando tentamos exprimi-la, só pioramos as coisas.»
Paul Auster, Invisível, p. 97.
[Alfragide: Asa, 1.ª edição, Outubro de 2009, 236 pp; tradução de José Vieira de Lima; obra original: Invisible, 2009.]

Aproxima-se o dia que cobriu de dor aqueles que mais quero, e quis a sorte que se colasse à data em que os católicos no seu masoquismo perene correm em bando, de cabeça baixa, pela alvenaria dos trilhos cortados entre campas, para recordar aqueles que, por maiores que sejam a recordações de felicidade e de profundo afecto, deixaram a dor de uma perda irreparável e os terríveis “ses” que se entalam na garganta e sufocam um grito, porventura, se exteriorizado, pouco abonatório da urbanidade das nossas vidas civilizadas.
Amanhã será o dia de tréguas. A suspensão de uma provável recidiva da discussão teológica familiar entre o que acredita que o fim é um valor absoluto, de saudade e dor – o já descrente que deixou, em definitivo, de acreditar –, e aquele cuja fé se reforçou porque não acredita num Deus cruel e injusto, num Decisor impiedoso que arrebatou para si alguém na flor da idade, que só o fez para acomodar a sua alma desamparada numa vida melhor.
Amanhã, serão sete os anos de ausência que ainda não consigo conceber como caridosa.
Não é pena, nem tão-pouco uma súplica por piedade. É uma revolta pela incompreensão de tão bárbaro destino para os que cá ficaram.

sábado, 26 de setembro de 2009

Follas Novas

Pormenor do interior da livraria Follas Novas, Santiago de Compostela, EspanhaQuando visitava Santiago (há, pelo menos, nove ou dez anos que não ponho lá os pés), um dos pontos imprescindíveis do roteiro turístico era a livraria “Follas Novas” – a Díaz de Santos ficava sempre para segundo plano.
Independentemente da denominação impudica em castelhano – o nome da loja está em galego, em espanhol seria qualquer coisa como “Hojas Nuevas” –, e dos trocadilhos mais ou menos infelizes a que isso dava origem, havia sempre uma visita à bem apetrechada livraria de Montero Ríos, com os livreiros mais bem preparados e qualificados que encontrei de todas as livrarias que visitei até aos dias de hoje – naquela livraria existiam verdadeiras bases de dados antropomórficas.

Para quem irá ler o romance enciclopédico de Roberto Bolaño, 2666, recentemente publicado em Portugal – já o li na sua língua original e talvez leia a versão portuguesa – irá reparar, no segundo livro “La parte de Amalfitano”, na breve referência que é feita à livraria, quando Amalfitano abre a caixa que continha os seus livros e surge misteriosamente um livro de um tal Rafael Dieste, cujo título era Testamento geométrico – parte importante da narrativa:

«Buscó en la primera página y en la última y en la contraportada alguna señal y encontró, en la primera página, la etiqueta cortada de la Librería Follas Novas, S.L., Montero Ríos 37, teléfonos 981-59-44-06 y 981-59-44-18, Santiago. Evidentemente no Santiago de Chile, único lugar del mundo en donde Amalfitano era capaz de verse a sí mismo en un estado de catatonia total, capaz de entrar en una librería, coger un libro cualquiera sin siquiera mirar la portada, pagarlo y marcharse.
»Se trataba, era obvio, de Santiago de Compostela, en Galicia.»
Roberto Bolaño, 2666 (Barcelona: Anagrama, 2004, 1126 pp.)

Lembro-me bem de uma das últimas visitas – talvez até a última –, muito próxima da quadra natalícia, quando encontrei na “Follas Novas” uma magnífica fotobiografia de James Osterberg, mais conhecido por Iggy Pop, com texto traduzido em castelhano.
Serviria de presente. O destinatário estava escolhido. E, naquela noite de 24 de Dezembro, houve um par de olhos que brilhou com maior intensidade pela sua veneração musical à “Iguana”. Esse par cuja fulgência se apagou, em definitivo, há quase 7 anos… Razão de ser tudo isto que para aqui despejo.

sexta-feira, 10 de julho de 2009

Bellow, a indiferença e o meu pathos




A propósito de um episódio que se sucedeu comigo hoje através de e-mail, que me magoou profundamente pela "Indiferença" (grafada propositadamente com maiúscula) de uma amizade que julgava existir apesar da distância física (encurtada por estas diabólicas redes sociais), recordei-me de um dos personagens mais marcantes de Saul Bellow, Asa Leventhal, e da salutar reprimenda que um dos seus melhores amigos, Dan Harkavy, lhe deu, como se o quisesse acordar para um mundo que não se condói com as nossas pequenas emoções… sou assim, é o meu pathos, que me desculpem aqueles que o conseguirem.



(Levou algum tempo a encontrá-la… já é por demais conhecida a minha mania ou fórmula enquanto leitor: "sublinhar=profanação")



«Se não te importas, Asa, há uma coisa que quero sublinhar e ainda não percebeste. Não somos crianças. Somos homens vividos. É quase pecado ser tão inocente como tu és. Pensa. Está bem? Queres que o mundo inteiro goste de ti. Mas existem fatalmente pessoas que não gostam. Como eu gosto, por exemplo. Não te chega que algumas pessoas gostem de ti? Não aceitas o facto de que algumas pessoas nunca hão-de gostar de ti? (…) É uma questão de vida ou de morte?»
Saul Bellow, A Vítima, p. 75 
[Lisboa: Texto, 1.ª edição., Março de 2006, p. 75; tradução de Sofia Gomes; obra original: The Victim, 1947]