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quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Um DeLillo por Bolaño

Ele é por e-mail, por banners publicitários em flash, por blogues arregimentados à causa comercial sob a capa do prazer estético-literário, por t-shirts, pins, marcadores ou posters com a cara cadavérica do sujeito, pela conversa de circunstância leitor-livreiro de pseudo-douto-aconselhamento, que só falta mesmo o papel higiénico Renova negro de folha dupla com o fácies do malogrado escritor chileno chupando sofregamente um pitillo, enquanto profere “por favor, ler antes de borrar” (e aqui deixo ficar bem vincado um apelo à semântica pela inquietação que me provoca a queda na boçalidade), que, por vezes, dou por mim a odiar o que não se pode, ou melhor, o que não se consegue execrar pela destreza literária, a genialidade rara de uma prosa assombrosa. E, acrescente-se a tudo atrás relatado, com um nome inconcebível, um trava-língua principalmente para a mais pachorrenta ou adormecida no piedoso mutismo: Roberto Bolhanho… perdão, Bolhano… hum, hã… Bolano, Bolaño? ¡Eso es! Não se pode desdenhar do que, efectivamente, se gostou com um frémito de puro deleite e que, além de mais, até se traduziu de forma selvagem neste espaço irascível: “A Praia”, ou “A Cozinha Literária de Bolaño”.
Vem aí o Terceiro Reich, mas para ser sincero, o momento pede que me embrenhe no Submundo do também aliterante Don DeLillo, com ou sem bunker bafiento e uma Walther PPK para apressar a coisa, prometido há meses pela Sextante, mas até agora sem quaisquer resultados práticos.
Será que, após a compra da casa liderada por João Rodrigues pela Porto Editora, o dito cujo ficou esquecido no prelo, pronto a ser devorado por ratazanas e crocodilos (com a devida vénia a Pynchon) letrados e recenseadores que pululam nas correntes subterrâneas do meio editorial português?
[feedback] Pede-se a comparência à secção de “ménage” de Benny Profane [som de fundo: uma canção dos Keane à escolha do leitor].
Nota: na imagem, ao centro, figura um Araripesuchus rattoides que habitou a terra no período Cretáceo (sucedeu o Jurássico) da era geológica do Mesozóico, mais conhecido por “ratcroc”.

sábado, 26 de setembro de 2009

Follas Novas

Pormenor do interior da livraria Follas Novas, Santiago de Compostela, EspanhaQuando visitava Santiago (há, pelo menos, nove ou dez anos que não ponho lá os pés), um dos pontos imprescindíveis do roteiro turístico era a livraria “Follas Novas” – a Díaz de Santos ficava sempre para segundo plano.
Independentemente da denominação impudica em castelhano – o nome da loja está em galego, em espanhol seria qualquer coisa como “Hojas Nuevas” –, e dos trocadilhos mais ou menos infelizes a que isso dava origem, havia sempre uma visita à bem apetrechada livraria de Montero Ríos, com os livreiros mais bem preparados e qualificados que encontrei de todas as livrarias que visitei até aos dias de hoje – naquela livraria existiam verdadeiras bases de dados antropomórficas.

Para quem irá ler o romance enciclopédico de Roberto Bolaño, 2666, recentemente publicado em Portugal – já o li na sua língua original e talvez leia a versão portuguesa – irá reparar, no segundo livro “La parte de Amalfitano”, na breve referência que é feita à livraria, quando Amalfitano abre a caixa que continha os seus livros e surge misteriosamente um livro de um tal Rafael Dieste, cujo título era Testamento geométrico – parte importante da narrativa:

«Buscó en la primera página y en la última y en la contraportada alguna señal y encontró, en la primera página, la etiqueta cortada de la Librería Follas Novas, S.L., Montero Ríos 37, teléfonos 981-59-44-06 y 981-59-44-18, Santiago. Evidentemente no Santiago de Chile, único lugar del mundo en donde Amalfitano era capaz de verse a sí mismo en un estado de catatonia total, capaz de entrar en una librería, coger un libro cualquiera sin siquiera mirar la portada, pagarlo y marcharse.
»Se trataba, era obvio, de Santiago de Compostela, en Galicia.»
Roberto Bolaño, 2666 (Barcelona: Anagrama, 2004, 1126 pp.)

Lembro-me bem de uma das últimas visitas – talvez até a última –, muito próxima da quadra natalícia, quando encontrei na “Follas Novas” uma magnífica fotobiografia de James Osterberg, mais conhecido por Iggy Pop, com texto traduzido em castelhano.
Serviria de presente. O destinatário estava escolhido. E, naquela noite de 24 de Dezembro, houve um par de olhos que brilhou com maior intensidade pela sua veneração musical à “Iguana”. Esse par cuja fulgência se apagou, em definitivo, há quase 7 anos… Razão de ser tudo isto que para aqui despejo.

domingo, 1 de fevereiro de 2009

Praia

«Larguei a heroína e voltei à minha terra e comecei com o tratamento de metadona que me administravam no ambulatório e poucas coisas mais tinha de fazer excepto levantar-me a cada manhã e ver televisão e conseguir dormir à noite, mas não podia, alguma coisa me impedia de fechar os olhos e descansar, e essa era a minha rotina, até que um dia não aguentei mais e comprei um fato de banho preto numa loja do centro da povoação e fui à praia, com o fato de banho vestido e uma toalha e uma revista, e coloquei a minha toalha não muito perto da água e de seguida estirei-me e estive um pouco de tempo a pensar se haveria de ir ou não tomar banho, vislumbrava muitos motivos para o fazer, mas também vislumbrava alguns motivos para o não fazer (as crianças que tomavam banho na beira-mar, por exemplo), assim o tempo passou e voltei a casa, e na manhã seguinte comprei creme de protecção solar e fui de novo à praia, e por volta do meio-dia dirigi-me ao ambulatório e tomei a minha dose de metadona e saudei algumas caras conhecidas, nenhum amigo ou amiga, só caras conhecidas da fila para a metadona que acharam estranho ver-me de fato de banho, e eu como se nada fosse, e logo voltei a caminhar para a praia e desta vez dei o primeiro mergulho e tentei nadar, porém não consegui, mas isso para mim foi o suficiente, e no dia seguinte voltei à praia e de seguida voltei a untar o corpo com o protector solar e depois fiquei a dormir na areia, e quando acordei sentia-me bastante descansado, e não tinha queimado as costas nem nada de nada, e assim passou uma semana ou talvez duas, não me lembro, onde não restava qualquer dúvida era que a cada dia que passava estava mais moreno e embora não falasse com ninguém a cada dia sentia-me melhor, ou diferente, que não é a mesma coisa mas no meu caso parecia, e um dia apareceu na praia um casal de velhos, disso recordo-me com nitidez, via-se que já andavam há muito tempo juntos, ela era gorda, ou cheiinha, e devia andar aproximadamente pelos 70 anos, e ele era magro, ou mais que magro, um esqueleto que caminhava, creio que foi isso que me chamou a atenção, porque regra geral nunca reparava na gente que ia à praia, mas nestes reparei devido à magreza do tipo, o que vi assustou-me, merda, é a morte que vem buscar-me, pensei, mas não vinha, era só um casal idoso, ele com uns 75 e ela com uns 70, ou ao contrário, e ela parecia gozar de boa saúde, e ele tinha cara de quem iria bater a bota a qualquer momento ou que este seria o seu último Verão, em princípio, ultrapassado o primeiro susto, tive dificuldades em desviar o olhar da cara do velho, da sua caveira apenas coberta por uma fina camada de pele, mas logo me habituei a olhá-los de forma dissimulada, deitado na areia, de bruços, com a cara tapada pelos braços, ou a partir do passeio, sentado num banco em frente à praia, enquanto fingia que tirava a areia do corpo, e lembro-me que a velha chegava sempre à praia com um guarda-sol em cuja sombra se introduzia de forma pressurosa, sem fato de banho, apesar de por vezes a ter visto de fato de banho, mas mais usualmente com um vestido de verão, bastante largo, que lhe fazia parecer menos gorda do que era, e debaixo do guarda-sol a velha passava o tempo a ler, levava um livro bastante grosso, enquanto o esqueleto que era seu marido se estendia na areia, vestido unicamente com um fato de banho diminuto, quase uma tanga, e absorvia o sol com uma voracidade que a mim me trazia recordações longínquas, de junkies desfrutando estáticos, de junkies concentrados no que faziam, na única coisa que podiam fazer, e naquele momento ficava a doer-me a cabeça e ia-me embora da praia, comia no Paseo Marítimo, uma tapa de anchovas e uma cerveja, e depois punha-me a fumar e a observar a praia através dos janelões do bar, e depois voltava e aí seguia o velho e a velha, ela debaixo do guarda-sol, ele exposto aos raios do sol, e então, de forma involuntária, dava-me vontade de chorar e mergulhava na água e nadava, e quando já me havia afastado bastante da beira-mar observava o sol e parecia-me estranho que estivesse ali, essa coisa grande e tão diferente de nós, e de imediato punha-me a nadar até à chegar à orla (por duas vezes estive a ponto de me afogar) e quando chegava deixava-me cair na minha toalha e ficava um bom bocado a respirar com dificuldade, mas sempre espreitando até onde se encontravam os velhos, e depois talvez tivesse dormido deitado na areia, e quando acordava a praia começava a esvaziar-se, mas os velhos continuavam lá, ela com o seu romance debaixo do guarda-sol e ele deitado de costas, numa zona sem sombra, com os olhos fechados e uma expressão estranha na sua caveira, como se sentisse cada minuto que passava e o desfrutasse, mesmo que os raios de sol fossem já débeis, mesmo que o sol já se encontrasse do outro lado dos edifícios da primeira linha da costa, do outro lado das colinas, mas isso parecia não lhe importar, e então, no momento de acordar eu observava-o e observava o sol, e por vezes sentia nas costas uma dor ligeira, como se naquela tarde me houvesse bronzeado mais do que o normal, e de imediato observava-os e logo me levantava, jungia a toalha ao corpo como uma capa e ia-me sentar num dos bancos do Paseo Marítimo, onde fingia que sacudia a areia que não tinha nas pernas, e a partir daí, desde essa altura, a visão do casal era diferente, dizia a mim mesmo que talvez ele não estivesse a ponto de morrer, dizia a mim mesmo que o tempo talvez não existisse tal como eu acreditava que existia, reflectia sobre o tempo enquanto a distância do sol alongava as sombras dos edifícios, e de seguida ia para casa e tomava um duche e olhava para as minhas costas vermelhas, umas costas que não pareciam minhas mas de outro tipo, um tipo a quem ainda faltariam muitos anos para eu conhecer, e depois ligava a televisão e via programas que não entendia em absoluto, até que ficava a dormir no sofá, e no dia seguinte voltava ao mesmo, a praia, o ambulatório, outra vez a praia, os velhos, uma rotina que por vezes evitava o aparecimento de outros seres que apareciam na praia, uma mulher, por exemplo, que estava sempre de pé, que jamais se recostava na areia, que ia vestida com a parte de baixo de um biquíni e com uma camisa azul, e quando entrava no mar só se molhava até aos joelhos, e que lia um livro, como a velha, mas esta mulher lia-o de pé, e por vezes agachava-se, embora de uma forma esquisita, e agarrava numa garrafa de Pepsi de litro e meio e bebia, de pé, claro, e a seguir deixava a garrafa sobre a toalha, que eu não fazia a mínima ideia porque é que a havia trazido se nunca se estendia nela e tão-pouco tomava banho, e por vezes esta mulher metia-me medo, parecia-me excessivamente esquisita, mas a maioria das vezes só me metia pena, e também vi outras coisas estranhas, na praia passam-se sempre coisas assim, talvez porque é o único sítio onde todos estamos meio despidos, mas que não tinham importância alguma, uma vez pareceu-me ver um ex-junky como eu, enquanto caminhava pela beira-mar, sentado num montículo de areia com um bebé de meses sobre as suas pernas, e de outra vez vi umas raparigas russas, três raparigas russas, que provavelmente eram putas e que falavam, as três, ao telemóvel e riam-se, mas na verdade o que mais me interessava era o casal de velhos, em parte porque tinha a impressão de que o velho ia morrer a qualquer instante, e quando pensava nisto, ou quando dava conta de que estava a pensar nisto, ocorriam-me sempre ideias disparatadas, como a que depois da morte do velho surgiria um maremoto, a povoação era destruída por uma onda gigantesca, ou punha-se a tremer, um terramoto de grande magnitude faria desaparecer a povoação inteira no meio de uma onda de pó, e quando pensava no que acabo de dizer escondia a cabeça entre as mãos e desatava a chorar, e enquanto chorava sonhava (ou imaginava) que era de noite, pelas três da manhã, e que eu saía da minha casa e ia à praia, e na praia encontrava o velho estendido na areia, e no céu, próximo das outras estrelas, mas mais próximo da Terra que das outras estrelas, brilhava um sol negro, um enorme sol negro e silencioso, e eu descia até à praia e também me estendia na areia, as duas únicas pessoas na praia eram o velho e eu, e quando voltava a abrir o olhos apercebia-me de que as putas russas e a rapariga que estava sempre de pé e o ex-junky com o bebé nos braços me contemplavam com curiosidade, perguntando-se quem, por acaso, poderia ser aquele tipo estranho, o tipo que tinha as costas e os ombros queimados, e até a velha me observava a partir da frescura do seu guarda-sol, interrompia a leitura do seu livro interminável por um segundos, perguntando-se talvez quem era aquele jovem que chorava em silêncio, um jovem de 35 anos que nada tinha, mas que estava a reconquistar a vontade e o valor e que sabia que ainda ia viver por mais uns tempos.»
Roberto Bolaño, “Playa”, in El Mundo*, 17/Agosto/2000 [tradução: AMC, 2009]

*série de contos escritos por vários autores subordinados ao tema “O pior Verão da minha vida” e publicados no Verão de 2000 no jornal espanhol El Mundo. Para além de Bolaño participarem neste desafio escritores como Zoé Valdés, Francisco Umbral, Eduardo Mendicutti, Manuel Hidalgo, Juan Marsé, Ignacio Padilla, Lucía Etxebarria, Guillermo Cabrera Infante, José Ovejero, entre outros.

A habitual citação dominical foi substituída pela “citação completa” de um conto de Bolaño, publicado em 2000 no mencionado jornal espanhol. A sua pertinência deve-se à habitual especulação necrófaga sobre a vida de um determinado autor que se destacou em vida pela excelência da sua literatura. Foi assim com Hemingway, tentaram fazê-lo com Henry James, e iniciou-se agora a campanha de esquadrinhamento da vida privada de Bolaño. Com este conto, alguns biógrafos de pacotilha vêem nele um ex-heroinómano, que lutou anos contra o seu vício quinciano. Outros investigam ainda possibilidade de Bolaño não ter estado no Chile a 11 de Setembro de 1973 – como o autor insistentemente afirmava nos seus escritos –, quando se deu o Golpe de Estado de Augusto Pinochet contra o Presidente socialista Salvador Allende. Logo a sua famosa prisão por uma semana acusado de ser terrorista foi uma farsa. E hão-de continuar. Mais episódios surgirão independentemente da vontade da família, dos seus amigos e editores.

domingo, 25 de janeiro de 2009

A Cozinha Literária de Bolaño

«A minha cozinha literária é, frequentemente, uma peça vazia onde nem sequer há janelas. Gostaria, claro, que houvesse algo, uma lâmpada, alguns livros, um leve aroma de valentia, mas a verdade é que não existe nada.
Às vezes, no entanto, quando sou vítima de irrefreáveis ataques de optimismo (que acabam, por outro lado, em alergias medonhas) a minha cozinha literária transforma-se num castelo medieval (com cozinha) ou num local em Nova Iorque (com cozinha e vistas privilegiadas), ou numa baiuca no sopé da cordilheira (sem cozinha, mas com uma fogueira). Mergulhado neste transe geralmente faço o que toda a gente faz: perco o equilíbrio e penso que sou imortal. Não quero dizer imortal literariamente falando, porque nisso só pode pensar um imbecil e eu não chego a tanto, senão literalmente imortal, como os cães e as crianças e os bons cidadãos que ainda não estiveram doentes. Por sorte, ou por desgraça, todo o ataque de optimismo tem um princípio e um fim. Se não tivesse fim, o ataque de optimismo converter-se-ia em vocação política. Ou em mensagem religiosa. E daí até sepultar livros (prefiro não dizer “queimá-los” porque estaria a exagerar) vai apenas um passo. O mais certo, pelo menos no meu caso, é que os ataques de optimismo acabem, e com eles a cozinha literária, desvanece-se no ar a cozinha literária, e apenas fico eu, convalescente, e um ligeiríssimo aroma de panelas sujas, pratos mal limpos, molhos apodrecidos.
A Cozinha literária, digo por vezes, é uma questão de gosto, ou seja, é um campo onde a memória e a ética (ou a moral, se me é permitido usar esta palavra) jogam um jogo cujas regras desconheço. O talento e a excelência contemplam, absortos, o jogo, mas não participam. A audácia e o valor participam, mas só em momentos pontuais, o que equivale a dizer que não participam em excesso. O sofrimento participa, a dor participa, a morte participa, mas com a condição de que só jogam a rir-se. Digamos, como um pormenor indispensável de cortesia.
Muito mais importante que a cozinha literária é a biblioteca literária (passe a redundância). Uma biblioteca é muito mais cómoda que uma cozinha. Uma biblioteca assemelha-se a uma igreja, enquanto uma cozinha de dia para dia se assemelha mais a uma morgue. Ler, disse Gil de Biedma, é mais natural que escrever. Eu acrescentaria, apesar da redundância, que também é muito mais saudável, digam o que disserem os oftalmologistas. De facto, a literatura é uma imensa luta de redundância em redundância, até à redundância final.
Se tivesse de escolher uma cozinha literária para aí me instalar durante uma semana, escolheria a de uma escritora, com a ressalva de que essa escritora não fosse chilena. Viveria com muito gosto na cozinha de Silvina Ocampo, ou na de Alejandra Pizarnik, na da romancista e poeta mexicana Carmen Boullosa, na de Simone de Beauvoir. Entre outros motivos, porque são cozinhas que estão mais limpas.
Em algumas noites sonho com a minha cozinha literária. É enorme, como três estádios de futebol, com tectos abobadados e mesas intermináveis onde se amontoavam todos os seres vivos da terra, os extintos e aqueles que muito em breve irão extinguir-se, iluminada de forma heterodoxa, nalgumas zonas com focos antiaéreos e noutras com archotes, e claro não faltariam zonas escuras onde somente se vislumbram sombras arquejantes ou ameaçadoras, e grandes ecrãs em que se observam, do canto do olho, filmes mudos ou exposições de fotografia, e no sonho, ou no pesadelo, passeio-me pela minha cozinha literária e por vezes acendo um fogão e preparo um ovo estrelado, incluindo por vezes uma torrada. E depois acordo com uma enorme sensação de cansaço.
Não sei o que se deve fazer numa cozinha literária, mas sei, todavia, o que não se deve fazer. Não se deve plagiar. O plagiador merece que o enforquem em praça pública. Quem disse isto foi Swift, e Swift, como todos sabemos, tinha mais razão que um santo.
Assim, que este ponto fique claro: não se deve plagiar, a não ser que desejes que te enforquem em praça pública. Ainda que aos plagiadores, hoje em dia, não os enforquem. Ao contrário, recebem bolsas, prémios, cargos públicos, e, na melhor das situações, convertem-se em bestsellers e líderes de opinião. Que termo mais estranho e feio: líder de opinião. Suponho que significa o mesmo que pastor de um rebanho, ou guia espiritual dos escravos, o poeta nacional, o pai da pátria, ou mãe da pátria, ou tio político da pátria.
Na minha cozinha literária ideal vive um guerreiro, a quem algumas vozes (vozes sem corpo nem sombra) chamam escritor. Esse guerreiro está sempre a lutar. Sabe que no fim, faça o que fizer, será derrotado. No entanto, recorre à cozinha literária, que é de cimento, e enfrenta o seu opositor sem dar nem pedir tréguas.»
Roberto Bolaño, “Un narrador en la intimidad”, in Revista ñ (Clarín), 25/03/2001.

domingo, 18 de janeiro de 2009

Chiste bolañiano

Os americanos descobriram-no há muito pouco tempo. Talvez através de Susan Sontag (1933-2004) com o sem ajuda de miss I., a sua amiga do peito. E pelos jornais, revistas da especialidade, pelas comunidades de leitores, críticos, autores sancionadores da qualidade profissional de seus pares e hermeneutas da palavra alheia – estes últimos, normalmente, em busca de mensagens subliminares e encriptadas de teor político, reconhecendo no autor as capacidades divinatórias de guia de luz contra o despotismo de índole capitalista – só se lê, ouve, ou vê – o gesticular afectado dos iniciados ou eleitos pelo esplendor da intelectualidade literária – falar de Roberto Bolaño (1953-2003). Traduzem-se as suas obras. Esmiúça-se ao mínimo detalhe a sua personalidade, vida familiar, teia de relacionamentos, entrevistas em publicações mais ou menos obscuras.
No ano passado, saiu Bolaño selvagem (Bolanõ selvaje, livro e DVD sob a chancela da Editorial Candaya, editado pelo boliviano Edmundo Paz Soldán e pelo peruano Gustavo Faverón Patriau, inclui textos de Enrique Vila-Matas, Rodrigo Fresán, Jorge Volpi, entre outros. Chega-se a hiperbolizar afirmando que com a morte de Bolaño morreu a literatura latino-americana (e eu, sozinho em casa a escrever este texto, pergunto-me por Fuentes e Vargas Llosa, até por García Márquez ou Piglia).

Prosseguindo. A vida e o brilhantismo de Bolaño reflectem-se na sua obra. Decerto que há muito para dizer sobre a curta vida deste ilustríssimo escritor chileno, mas primeiro leiam-no e deliciem-se com a sua ironia, por vezes subtil outras vezes carregada, sarcástica, pontuado de um espirituoso humor negro.

Eis uma passagem de Nocturno Chileno (que demorei uma infinidade de tempo a encontrar, dada a minha mania de não profanar os meus livros com inscrições, sublinhados e anotações à margem), do Padre Ibacache recenseador literário (cujo ao ortónimo Sebastián era adicionada a estranha combinação de apelidos basco-francesa Urrutia Lacroix).
Pobre padre. Jovem, perdido na Europa numa demanda insana engendrada por dois numerários da Opus Dei, Oido e Odeim – ódio e medo (miedo), respectivamente, de trás para a frente –, sobre a preservação das fachadas das igrejas europeias frente aos bárbaros ataques de bandos de pombas (o símbolo do Espírito Santo) e a sua copiosa defecação. Solução wescottiana: criação de falcões. No momento de desespero absoluto, em que Sebastián pensa no regresso ao Chile, um bom padre alemão conta-lhe uma anedota:

«Está o Papa com um teólogo alemão, a falar tranquilamente numa das salas do Vaticano. De repente, aparecem dois teólogos franceses, muito excitados e nervosos, e dizem ao Santo Padre que acabam de chegar de Israel e que trazem duas notícias, uma muito boa e outra considerada má. O Papa suplica-lhes que falem de uma vez por todas, que não o mantenham na expectativa. Os franceses, atropelando-se, dizem que a boa notícia é que encontraram o Santo Sepulcro. O Santo Sepulcro?, diz o Papa. O Santo Sepulcro. Sem a mais pequena dúvida. O Papa chora de emoção. Qual é a má notícia?, pergunta, secando as lágrimas. Dentro do Santo Sepulcro encontrámos o cadáver de Jesus Cristo. O Papa desmaia. Os franceses tentam dar-lhe ar. O teólogo alemão, que é o único que está calmo, diz: ah, mas então Jesus Cristo existiu mesmo?»
Roberto Bolaño, Nocturno Chileno, p. 95
[Lisboa: Gótica, Julho de 2003, 150 pp.; tradução de Rui Lagartinho e Sofia Castro Rodrigues; obra original: Nocturno de Chile, 2000.]

Para a semana, nas habituais citações dominicais, um brilhante auto-retrato e análise do ilustre autor chileno (devidamente traduzido).

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

As Novidades

Vladimir NabokovSegundo Isabel Coutinho, regressada da Feira do Livro de Frankfurt, a Editorial Teorema comprou os direitos para publicação para Portugal do romance inédito de Vladimir Nabokov (1899-1977), The Original of Laura, que havia despoletado um aceso debate no mundo das letras, dadas as instruções específicas do autor russo em leito de morte na Suíça para que Véra (1902-1991), a sua mulher, destruísse o manuscrito. Véra morreu em 1991 e deixou a “batata quente” nas mãos do insuportavelmente agreste e evasivo filho de ambos, Dmitri (n. 1934), que andou a brincar durante os últimos anos ao “queimo/não queimo” com os pacientes editores, críticos e jornalistas literários, gerando um chorrilho de especulações quanto ao conteúdo do misterioso manuscrito, composto por 125 ficheiros de indexação – para quem leu Na Outra Margem da Memória (Speak, Memory; 1951, rev. 1967) e Opiniões Fortes (Strong Opinions, 1973), sabe que este era o método de composição utilizado por Nabokov nas suas obras. A conspiração dos letrados envolveu Petrarca, Ticiano, Giorgione, putativas traições passionais reveladas, e por aí fora. Se a especulação tem durado, certamente que o pobre Vladimir Vladimirovich não teria escapado aos ovnilogistas, à Cientologia e a Tom Cruise, e até às conversas privadas com o Altíssimo da emissária Alexandra Solnado.


Roberto BolañoTambém de forma misteriosa, surgiu mais um manuscrito do autor chileno Roberto Bolaño (1953-2003), intitulado de El Tercer Reich, eventualmente escrito antes de Os Detectives Selvagens (Los Detectives Salvajes, 1998), e que entra pelo mundo dos fanáticos alienados dos jogos de estratégia, em que o protagonista, inventor de um jogo de realidade virtual (jogado em tabuleiro) denominado por “O Terceiro Reich” e participante alemão num torneio mundial, se desloca à Costa Brava espanhola para umas férias com a sua namorada, cujo jogo assume o papel de encruzilhada no entretecer de uma teia onírica de proporções cataclísmicas para o jovem autor. Não consegui descortinar pelo texto de Isabel Coutinho se os direitos desta publicação haviam ou não sido adquiridos pelo editor Carlos Veiga Ferreira da Teorema – editora que já havia publicado de Bolaño Os Detectives Selvagens e Estrela Distante (Estrella distante, 1996). No entanto, num país que ainda tem por publicar o magistral 2666 (2004) – obra póstuma, composta por cinco livros, que Bolaño pretendia ver publicados separadamente, com uma periodicidade anual, para garantir uma fonte de sustento à sua família –, e que ainda não publicou a esmagadora maioria da sua obra, acho, no mínimo, extravagante (a tal singularidade lusa que não me canso de repisar) que se opte pela publicação do manuscrito emergido das trevas, e isto apesar da datação posterior de 2666. A ver vamos.


Paul AusterPhilip Roth
Para 2009, no mundos dos vivos e sem manuscritos secretos para combustão ou qualquer outro uso que se queira dar ao papel, regressam ao, ou melhor, não saem dele (do), mercado os incansáveis autores de origem judaica, nascidos em Newark, Paul Auster (n. 1947) e Philip Roth (n. 1933) – têm, nos últimos anos publicado uma obra de ficção por ano. Auster regressa com Invisible, obra garantida para Portugal pela Asa. Roth com The Humbling, romance garantido pela Dom Quixote.

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

Selvajarias

Foram quinhentas e seis páginas tragadas numa semana cheia de intermitências e de deslocações de última hora. Páginas que me trouxeram um prazer obnubilado por uma forte irritação – talvez potenciada pela azáfama extraordinária e consequentes interrupções de leitura – que resultou da sofrível tradução portuguesa do romance de 1998 Os Detectives Selvagens do escritor chileno Roberto Bolaño (1953-2003).
Nas capa e contracapa da edição da Teorema estão inscritas sete frases bombásticas retiradas de críticas e de artigos de opinião de gente culta, e uma extra como súmula das anteriores de autoria do editor, a ver pelos qualificativos que as enxameiam, seja pela obra, pelo autor e o seu estilo: «deslumbrante»; «influente e admirado»; «original, divertido e comovedor»; «Um dos cinco melhores»; «visão brutal e lírica»; «raro e fértil»; «Poderoso e desconcertante…»; «raro e sofisticado»; «o […] mais brilhante»; «lenda literária»; e, por fim, «O primeiro grande romance latino-americano do século XXI», embora tenha sido publicado originalmente no século XX e escrito até 1998 – nem mesmo os maus matemáticos que festejaram a passagem do milénio no fim da noite de 31 de Dezembro de 1999 cairiam nesse erro, embora se perceba que, nas entrelinhas, se pretenda falar dos efeitos do romance a posteriori, na geração coetânea e nas subsequentes.
Quinhentas e seis páginas, divididas por três partes, sendo as primeira e terceira ligadas pelo curto fio temporal entre Novembro de 1975 e Fevereiro de 1976, sob a forma narrativa de um diário mantido pelo jovem personagem Juan García Madero; e a segunda uma sucessão de testemunhos de um conjunto substancial de pessoas espalhadas pelo mundo que de certa forma se relacionaram durante os vintes anos que se seguem, de 1976 a 1996, com os personagens Arturo Belano – chileno, tal como o autor e com nome e apelido que se assemelham – e Ulisses Lima – mexicano, inspirado no seu companheiro infra-realista Mario Santiago –, poetas revivificadores do movimento literário apelidado de realismo visceral, ficcionalmente criado nos anos 20 do século passado pela poetisa Cesárea Tinajero, cujo desaparecimento sem obra publicada durante a década de 30 serve de leitmotiv a toda a acção do par instável de detectives selvagens.

Não me irei alongar muito sobre a valia literária deste romance de Bolaño, sob o risco de repetir alguns dos (merecidos) encómios hiperbólicos que fui lendo em recensões lusas recentes, e tão-pouco sobre as suas vida e obra que, por ora, pouco conheço para além da novela Estrela Distante (Estrella distante, 1996), também por cá editada pela Teorema, e das suas deambulações políticas trotskistas, e o colossal 2666 (obra póstuma) que li em castelhano na sua versão original.
Os Detectives Selvagens é uma obra de um impressionante fôlego literário. É séria e comovente como um todo, porém desafectada e flexível nos seus recursos, airosa e hilariante nos inúmeros episódios meticulosamente perfilados para servirem de válvula de escape. É, no seu fundo, uma obra melancólica, com laivos de um isolamento e de uma perambulação no espaço eminentemente saturninos, cujos naturais abalos emocionais são magistralmente geridos por Bolaño através do riso, da paródia a uma classe que se serve da literatura, concretamente da poesia, como meio de luta pela sobrevivência no caótico mosaico político, económico e social da América Latina da segunda metade do século XX, ou então, no caso de outros, à laia de contraponto, usando-a como meio de exteriorização de um narcisismo latente – recordo-me, por exemplo, do fabuloso episódio relatado pelo ufano advogado galego, residente em Barcelona, que escreve a partir do leito de morte em Roma em Outubro de 1992 (parte II, capítulo 20 – Xosé Lendoiro) rememorando os diversos encontros infelizes com o chileno Arturo Belano por terras de Espanha; ou da triste sina do escritor homossexual integrado no ubíquo movimento do realismo visceral, que devido a um aneurisma é sujeito a uma intervenção cirúrgica ao cérebro que lhe retira grande parte das capacidades físicas e intelectuais, onde os pais, passando por cima de tudo, exultam o resultado final (de quase vegetal) uma vez que lhe curaram o desvio sexual; as lúcidas divagações do inimputável Joaquim Font, (as mais lúcidas), internado, por ordem da mulher, num manicómio situado nos arredores da Cidade do México; o duelo preventivo (ao sabre) entre Arturo e o crítico literário de Barcelona; o prodigioso capítulo 23 (desde a Feira do Livro de Madrid) e as diversas perspectivas sobre a literatura, ou a vida. E poderia continuar…

Mas, como se sói dizer por cá – acabando agora mesmo de emprestar ao texto um tom eminentemente castelhano, através do emprego do usadíssimo verbo soer (em Cast. soler, do Lat. solere) em espanhol corrente –, não há bela sem senão. Se, através das minhas palavras, não existem dúvidas sobre o brilhantismo deste texto literário de Bolaño, a tradução para português acaba por danificar a obra original e irritar o leitor mais atento e familiarizado com a língua de Cervantes – que é precisamente o meu caso. Não falo das inúmeras gralhas que se multiplicam ao longo das quinhentas páginas e que resultam, decerto, de erros tipográficos e de uma pós-revisão deficiente. Falo, isso sim, do tom usado ao longo de toda a narrativa que parece haver sido traduzida por Luís Figo nos períodos áureos entre treinos e jogos de futebol quando tinha de soltar a língua. A utilização excessiva do “pois”, em particular do “pois que”, ao longo do texto, em toda e qualquer frase, é uma tradução literal do texto original que usa o estribilho a partir do vernáculo castelhano, que não se costuma usar na língua portuguesa: (apenas dois exemplos entre dezenas) «Se havia outras editoriais interessadas, pois que a publicassem eles, eu não» (pág. 174) «Porque eu sou real visceralista, disse eu, e, se esse cabrão não mete Ulisses, pois que também não conte comigo.» (pág. 230) No primeiro exemplo, para além do uso do referido estribilho castelhano, há que acrescentar o uso da expressão “editoriais” como tradução de “editoriales”, que neste caso pretende significar a empresa que edita, comummente designadas por “editora”, embora “editoriais” se refira ao mesmo, não é, porém, de uso corrente em português europeu.
Depois há a repetidíssima utilização da expressão “chino” para designar “chinês” – «Depois saímos todos para jantar num café chino.» (pág. 25), «Pancho e eu encontrámo-nos no café chino El Loto» (pág. 32) –, embora “chino” seja sinónimo de “chinês”, não se usa em português com excepção de “rato-chino”, uma vez mais resulta da tradução literal do espanhol “chino” que significa “chinês” na nossa língua. Este caso não é único, existem outras traduções literais como por exemplo «Quando cheguei levantou a cabeça, era o único usuário da biblioteca» (pág. 489)
Por fim, o critério de tradução de nomes próprios. Começando pelos protagonistas “Ulisses Lima” e “Arturo Belano”, o primeiro sofreu um aportuguesamento de “Ulises” no original (ficou com mais um “s”), e o segundo manteve o “Arturo” que em português é “Artur”. Assim, como “María Font” perdeu o acento agudo no “i”, uma vez que (pues que) a divisão silábica de “Maria” é diferente nas duas línguas: em português, “Maria” é uma palavra grave (Ma-ri-a); em castelhano, é uma palavra aguda devido à divisão silábica em castelhano (Ma-ria); opção que não é consistente com “Luis Rosado” onde se manteve a versão castelhana do nome em detrimento da portuguesa “Luís Rosado” ou com “García Madero” (o terceiro protagonista) em vez de “Garcia Madero”. Já “Joaquim Font” tanto é assim grafado (por exemplo, na página 151), como surge com o nome próprio em castelhano “Joaquín Font” (pág. 252).
Como é certo e sabido, uma má tradução poderá arruinar uma obra. No caso em questão não creio que tenha havido um dano insanável, ou seja, mesmo perante os erros consegue-se vislumbrar a genialidade da obra. Isso não invalida que refira que, através da minha experiência de leitura, houve uma irritação que se adensou à medida que me ia embrenhando no livro, prejudicando, de forma irremediável a avaliação final. À editora pede-se que proceda a uma urgente e aturada revisão do texto traduzido para a 2.ª edição, se a houver, caso contrário acredito que obra permanecerá na sua versão portuguesa, até nova tradução, ferida no seu brilho artístico.


«O que há atrás da Janela?
[figura 1]
Uma estrela.
[…]
O que há atrás da Janela?
[figura 2]
Um lençol estendido. (…)» (pág. 506)

Pues que eclipsou-se uma estrela:

Classificação: **** (Bom)

Tudo o que começa como comédia acaba como ode ao ansiolítico.
[A despeito, neste caso, das outras proposições prismáticas, (…) como tragédia (pág. 403); como tragicomédia (pág. 404); como comédia (pág. 404); como exercício criptográfico (pág. 405); como filme de terror (pág. 408); como marcha triunfal (pág. 409); como mistério (pág. 411); como responso no vazio (pág. 413); como monólogo cómico, mas já não nos rimos (pág. 416).]


Referência bibliográfica:
Roberto Bolaño
, Os Detectives Selvagens. Lisboa: Teorema, Junho de 2008, 512 pp. (tradução de Miranda das Neves; obra original: Los detectives salvajes, 1998).

terça-feira, 16 de setembro de 2008

Literatura desesperada

(Contando, amargamente, os curtos dias para o fim da serenidade e tranquilidade do exílio estival.)

Pobre Joaquim (Quim) Font, durante a sua estadia forçada na Clínica de Saúde Mental El Reposo, em Janeiro de 1977, (talvez seguro da sua lucidez) escreveu:

«Agora tomemos o leitor desesperado, aquele a quem presumivelmente é dirigida a literatura dos desesperados. O que é que vêem? Primeiro: trata-se de um leitor adolescente ou de um adulto imaturo, acobardado, com os nervos à flor da pele. É o típico parvajola (perdoem-me a expressão) que se suicidava depois de ler Werther. Segundo: é um leitor limitado. Porquê limitado? Elementar, porque não consegue ler senão literatura desesperada ou para desesperados, tanto importa, um tipo ou um estafermo incapaz de ler duma assentada Em Busca do Tempo Perdido ou A Montanha Mágica (em minha modesta opinião um paradigma da literatura tranquila, serena, total), ou, se quisermos, Os Miseráveis ou Guerra e Paz. Acho que falei claro, não? Bem, falei claro. [...] E também: os leitores desesperados são como as minas de ouro da Califórnia. Mais cedo ou mais tarde, esgotam-se! Porquê? É bem evidente! Não se pode viver desesperado toda uma vida, o corpo acaba por dar de si, a dor acaba por se tornar insuportável, a lucidez escapa-se em grandes jorros frios. O leitor desesperado (ainda mais o leitor de poesia desesperado, esse é insuportável, acreditem-me) acaba por se antagonizar com os livros, acaba inelutavelmente por se transformar num desesperado sem apelo nem agravo. Ou cura-se! E então, como parte do seu processo de regeneração, volta lentamente, como que entre algodões, como que sob uma chuva de comprimidos tranquilizantes fundidos, volta, como ia dizendo, a uma literatura escrita para leitores serenos, repousados, com a mente bem centrada. A isto se chama (e, se ninguém lhe chama assim, eu chamo-lhe assim) a passagem da adolescência à idade adulta. E com isto não quero dizer que quando nos convertemos num leitor tranquilo se deixe de ler livros para desesperados. Claro que se lê! [sic] Sobretudo se são bons, ou passáveis, ou se um amigo os recomendou. Mas, no fundo, chateiam-no! No fundo, essa literatura amarga, cheia de armas brancas e de Messias enforcados, não consegue penetrá-lo até ao coração como, por outro lado, o consegue uma página serena, uma página meditada, uma página tecnicamente perfeita!»
Roberto Bolaño, Os Detectives Selvagens, pp. 169-170.
(Lisboa: Teorema, Junho de 2008, 512 pp; tradução de Miranda das Neves; obra original: Los detectives salvajes, 1998).