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terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Polichinelo e o seu segredo em Hollywood


Bocejo de previsibilidade.
Prática abandonada em 2009, quando iniciei o programa de desintoxicação dos Óscares da Academia – técnica dos 12 passos , retomo, à guisa de serviço público, ao exercício de publicação da habitual lista dos filmes com maior número de nomeações (este ano integram a referida lista 8 filmes com 4 ou mais nomeações) seguindo o critério usado na fase oscarómano:
[Critério: Em destaque (a bold) as nomeações pertencentes ao denominado Top 5, ou seja, aquelas que se inserem nas cinco categorias artísticas consideradas como as mais importantes na atribuição do galardão: melhores filme, realização, argumento (original e adaptado), actor principal e actriz principal. Ao lado do número de nomeações para cada filme, figurará o número de nomeações para o Top 5, seguida da notação “+”.]

– A Invenção de Hugo / Hugo (11 nomeações, 3+)
Argumento Adaptado – John Logan
Banda Sonora Original – Howard Shore
Direcção Artística
Efeitos Especiais
Efeitos Sonoros
Filme
Fotografia
Guarda-Roupa
Montagem
Realização – Martin Scorsese
Som

– O Artista / The Artist (10 nomeações, 4+)
Actor – Jean Dujardin
Actriz Secundária – Bérénice Bejo
Argumento Original – Michel Hazanavicius  
Banda Sonora Original – Ludovic Bource
Direcção Artística
Filme
Fotografia
Guarda-Roupa
Montagem
Realização – Michel Hazanavicius

– Cavalo de Guerra / War Horse (6 nomeações, 1+)
Banda Sonora Original – John Williams
Direcção Artística
Efeitos Sonoros
Filme
Fotografia
Som

– Moneyball – Jogada de Risco / Moneyball (6 nomeações, 3+)
Actor – Brad Pitt
Actor Secundário – Jonah Hill
Argumento Adaptado – Steven Zaillian, Aaron Sorkin e Stan Chervin
Efeitos Sonoros
Filme
Montagem

– Os Descendentes / The Descendants (5 nomeações, 4+)
Actor – George Clooney
Argumento Adaptado – Alexander Payne, Nat Faxon e Jim Rash
Filme
Montagem
Realização – Alexander Payne

– Millennium 1: Os Homens que Odeiam as Mulheres / The Girl with the Dragon Tattoo (5 nomeações, 1+)
Actriz – Rooney Mara
Efeitos Sonoros
Fotografia
Montagem
Som

– Meia-Noite em Paris / Midnight in Paris (4 nomeações, 3+)
Argumento Original – Woody Allen
Direcção Artística
Filme
Realização – Woody Allen

– As Serviçais / The Help (4 nomeações, 2+)
Actriz – Viola Davis
Actriz Secundária – Jessica Chastain
Actriz Secundária – Octavia Specter
Filme

Para mais pormenores consultar a notícia aqui.
Apesar de apenas ter visto três dos oito filmes aqui apresentados (Meia-Noite em Paris, Millennium 1 e Moneyball), os restantes não me são em nada apelativos para uma sessão paga em frente da grande tela cinzenta: um cavalo-herói inteligente, talvez de origem judaica, supostamente perlado de lágrimas spielberguianas; um eventual chico-espertismo francês de Hazanavicius que tirou o mudo da cartola com auxílio de um dotado cão Jack Russell (figas para que este alce a pata traseira e abarque a estatueta num fluido amplexo dourado em pleno palco do Kodak); e Hugo do quase septuagenário Scorsese que apenas agora, qual criança apurando os sentidos, descobriu o poder das novas tecnologias, embora as suas cinefilia e erudição cinematográfica poderão fazer admitir o esboço de uma tentativa para uma ida ao cinema.
Depois, o pior: não se faz!, não se compensa Malick com aquelas nomeações apenas para americano ver e aplaudir – de pé, de preferência – o incomensurável sentido de justiça e o enorme bom senso dos membros da Academia, onde se encaixa, do mesmo modo, o Tinker Tailor... de Tomas Alfredson, e a atribuição de categorias técnicas a Fincher; as inexplicáveis zero nomeações para Melancolia e para Clint Eastwood (embora do seu filme a concurso, J.Edgar, disponha apenas da apreciação escrita de alguns cinéfilos que me vão merecendo todo o crédito); o já conhecido desprezo pelos documentários de Herzog, e tudo para consagrar, como é mais que previsto, o petulante alemão com aquele cabelo indescritivelmente amaricado e a sua Pina; e os indies?, nada, como sempre no anquilosado reino da indústria de Hollywood; e por fim 2 nomeações 2 para aquele objecto pegajoso, que se qualificou por fílmico porque dispõe de imagens em movimento (peristáltico, decerto), chamado A Melhor Despedida de Solteira (Bridesmaids).

Será que, pela primeira vez em duas décadas, ficarei na caminha – como o lançador do peso na China – a aproveitar o calor do meu processo endotérmico, enquanto, no próximo dia 26 de Fevereiro, no Kodak (em fecho de portas) Theatre se pratica o arremesso da estatueta dourada?
A ver vamos.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Frouxo, como a gente gosta


Com o passar dos anos, talvez por uma contínua depuração dos meus gostos cinematográficos, vai diminuindo o meu interesse por aquelas sessões folclóricas de atribuição de prémios e todo o circo que as rodeiam – com GlamCams, o espadaúdo Seacrest e os Polícias da Moda – que a indústria das artes cinematográficas insiste em não mudar de formato, sacrificando a arte em prol do puro entretenimento, facilmente consumível, vazio de conteúdo e expurgatório das memórias mais resistentes, em suma, o actual entretenimento proto-lixo de não ocupação de espaços (patrocínio: Luís Freitas Lobo) ou de acelerada degradação depois de consumido (patrocínio: Dulcolax).
Ontem não foi excepção. A tibieza, a impostura, a vaidade e a cupidez pelas notas verdes com efígie de Benjamin Franklin premiou com Globos de Ouro 11 filmes 11 nas diferentes categorias, como que a distribuir o mal pelas aldeias, não vá alguém chatear-se e boicotar (ou allenizar) as próximas sessões. E sim, eles pensam que conseguiram reavivar o amor pela França (e não pela língua francesa, um "jamé" linista), o melodrama sirkiano em fast forward, a maturidade de uma América tolerante pelas suas minorias, Scorsese & Spielberg e o interesse por Allen demonstrado nas bilheteiras, Madonna com uma injecção de adrenalina. O Frankenstein da Indústria vive. No fundo, em tempos em que por aqui se fala do clientelismo, todas as clientelas da pastilha elástica saíram satisfeitas. Está tudo lá, note-se:
   
3 Globos de Ouro
  • O Artista (The Artist) – Melhor Filme – Comédia ou Musical; Melhor Actor – Comédia ou Musical, Jean Dujardin; Melhor Banda Sonora, Ludovic Bource.
2 Globos de Ouro
  • Os Descendentes (The Descendants) – Melhor Filme – Drama; Melhor Actor – Drama, George Clooney.

1 Globo de Ouro
  • Assim É o Amor (Beginners) – Melhor Actor Secundário, Christopher Plummer.
  • As Aventuras de Tintim – O Segredo do Licorne (The Adventures of Tintin) – Melhor Filme de Animação.
  • A Dama de Ferro (Iron Lady) – Melhor Actriz – Drama, Meryl Streep.
  • A Invenção de Hugo (Hugo) – Melhor Realizador, Martin Scorsese.
  • Meia-Noite em Paris (Midnight in Paris) – Melhor Argumento, Woody Allen.
  • A Minha Semana com Marilyn (My Week with Marilyn) – Melhor Actriz – Comédia ou Musical, Michelle Williams.
  • Uma Separação (Jodaeiye Nader az Simin) – Melhor Filme Estrangeiro.
  • As Serviçais (The Help) – Melhor Actriz Secundária, Octavia Spencer.
  • W.E. – Melhor Canção Original, Madonna “Masterpiece”.

Com Gervais numa camisa-de-forças, apesar do momento Eddie Murphy, da referência à decadência da NBC (a cadeia responsável espectáculo) e do comparativo entre cerimónias congéneres da HFPA e da AMPAS, com os discursos atropelados e estafados de agradecimento, salvou-se Morgan Freeman e o seu merecidíssimo prémio de carreira Cecil B. DeMille, com Poitier e Mirren a abrilhantar a ocasião.
Não são sequer admissíveis, perante o panorama de uma pobreza confrangedora, as ausências de A Árvore da Vida, Melancolia, A Toupeira ou a brevíssima referência ao último Cronenberg pela nomeação de Mortensen, ou a McQueen por Fassbender, já para nem falar, entre outros, dos independentes Durkin, Reichardt ou Jeff Nichols.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Let the games begin (act.)

Depois do espectáculo deprimente do ano passado, oferecido pelo canastrão Franco e pela histriónica Hathaway (que até é uma actriz que admiro – fabulosa, por exemplo, em O Casamento de Rachel, de Demme), a que só faltou mesmo o aussie-dançarino presunçoso Jackman para que se alcançasse o nível de arraial na atribuição das famosas estatuetas douradas, eis o primeiro vídeo lançado com fins de aquecimento para a 84.ª cerimónia de entrega dos Óscares da Academia de Hollywood que se realizará no próximo dia 26 de Fevereiro – pela qualidade evidenciada do clip, esta sessão não promete destoar muito da anterior, onde venceu aquela coisa britânica telefílmica e ciciada, num ano em que se expôs de forma impudente a forte dissensão entre a Indústria e a Crítica cinematográficas; a que se junta o bom augúrio da anunciada pré-falência da proprietária do salão de festas, a revolucionária multinacional, com quase 125 anos de história, Kodak.
Eis a coisa (não a de Carpenter, porque essa está no meu Olimpo da cinefilia):