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terça-feira, 27 de fevereiro de 2007

O Engenho Revisitado

Javier Bardem no papel de Reinaldo Arenas em «Antes que anoiteça»Como aqui referi, li O Engenho de Reinaldo Arenas no início deste ano.
Desconhecia a obra do autor cubano, apenas lhe conhecia a vida atribulada encarnada por Javier Bardem em Antes que anoiteça. Agora conheço-lhe as entranhas – salvo seja! – pela eloquência da sua prosa poética, pelo sofrimento e pela revolta interior sublimadas em arte literária. Lendo-o percebe-se a dor, o terror do poder discricionário exercido em nome de uma causa apelidada de justa, como se pelo sangue de milhões de inocentes se conseguisse fazer justiça… até à vitória, sempre, pisando os cadáveres daqueles que um dia ousaram ser diferentes.

Vale a pena ler as
palavras transcritas pelo Tomás no seu Hoje há conquilhas..., curiosamente postadas no dia em que a RTP exibia um filme – bem ao estilo muito em voga da película-Omo – sobre as viagens, em cima de uma Norton, do inocente braço direito do ideador do Paredón.

terça-feira, 6 de fevereiro de 2007

Venham mais quatro… (II)

Reinaldo Arenas - O EngenhoTal como aqui havia prometido, publico a segunda parte da minha apreciação retirada de algumas das minhas leituras de Janeiro deste ano, relativamente a livros editados em Portugal ainda em 2006.

A segunda leitura – bem longe das famosas epístolas moralistas e de certa forma responsáveis por algum cerceamento de perspectivas da civilização ocidental – versou sobre o livro O Engenho do poeta e escritor cubano Reinaldo Arenas (1943-1990), acérrimo opositor do regime cubano instaurado em 1959 por Fidel Castro – após uma curta militância inicial como contestatário do regime de Batista –, expulso da pátria amada em 1980, havendo morrido dez anos depois no exílio em Nova Iorque.
A obra e a personalidade do escritor mantiveram-se de certa forma esquecidas no nosso país – refiro-me à opinião pública – até ao ano 2000, ano em que o realizador norte-americano Julian Schnabel – que se havia notabilizado anteriormente pela realização do filme biográfico de Jean-Michel Basquiat – imortaliza Arenas com o filme Before Night Falls (Antes que Anoiteça), incarnado pelo actor espanhol Javier Bardem (tendo-lhe valido vários prémios internacionais e a nomeação para os Oscar de Melhor Actor, prémio que nesse ano foi arrecadado pelo tumultuoso Russell Crowe com o filme Gladiador de Ridley Scott).

O ano de 2006 foi pródigo nas edições para a língua lusa dos trabalhos de Arenas. O Engenho, editado pela Antígona, de pendor autobiográfico, foi edificado sobre experiência pessoal de Arenas como trabalhador forçado nas unidades de refinação de açúcar, descrevendo a brutalidade do regime cubano e o seu desrespeito pela diferença.

O engenho – todo o complexo no qual se produz o açúcar – aproxima-se de um sistema de produção taylorista em que objectivamente o homem é visto como uma extensão da máquina, porém divergindo radicalmente deste pela utilização indiscriminada da força de trabalho sem a contrapartida remuneratória: um modelo de aniquilação fundado na escravatura pela dissidência, pela diferença de orientação sexual – Arenas era homossexual assumido – e/ou pela cor da pele.
Numa obra de catalogação indefinida, uma vez que se torna difícil destrinçar a realidade (componente autobiográfica) da ficção para efeitos dramáticos, a que se junta a prosa e a poesia, Arenas descreve magistralmente a exploração desapiedada do homem por um regime que, pelo menos em tese, defende uma sociedade sem classes e a luta do proletariado, mas que condena ao cativeiro bárbaro os dissidentes, os negros, os homossexuais e negoceia com traficantes de escravos, ao mesmo tempo que beneficia da anuição de uma burguesia conformada pelo peso da revolução, estabelecendo-se um paralelismo com a exploração e a aniquilação dos índios perpetrada há séculos pelos conquistadores espanhóis e com o tráfico de escravos africanos pela Coroa espanhola.

No fim, a resignação; a impotência contra o degredo e o massacre:
«
Oh, mas que bicha mais pessimista, dirá o burguês modernizado (assolapado num cadeirão de vime prestes a desabar), ele próprio arregimentado graças às optimistas palavras de ordem ocasionais do marxista que sabe muito bem que, sem a santa fé do imbecil, não conseguirá devorar a tempo a terra, antes de esta por fim explodir.
Mas
eu
Eu vejo um continente de índios escravizados e famintos fossando e estiolando nas minas ou no fundo do mar.
(Lá fora, no meio do aguaceiro ribombante, os invasores atravessam o rio agarrados a cordas oscilantes.)
Mas
eu
Eu vejo três milhões de negros escravizados e famintos fazendo sucumbir as plantações de cana-de-açúcar aos pés do senhor.
(Lá fora, no meio da chuva, um grande navio pirata deita ferro no porto.)
Mas
eu
Eu vejo um exército de adolescentes escravizados e famintos esgaravatando a terra.
(Chuvas. A frota soviética chega para uma «visita amigável».)
Que gostarias tu que eu te dissesse? Que queres tu ouvir da minha boca?
De que posso eu falar-te,
diz-me
que mais poderei eu
dizer-te
sem que me cortem a língua
por traição?
Diz-me
»
Excerto de “«grandioso» finale”, de Reinaldo Arenas, O Engenho. Lisboa: Antígona, 1.ª edição, Outubro de 2006, pp. 99-100 (tradução de Carla da Silva Pereira; obra original: El Central, 1981).

Um livro admirável e inquietante, não só pela revelação das atrocidades cometidas em nome de um ideal putativamente pacífico e humanizante, mas também pelo paralelismo que cada um à sua maneira poderá transportar para a sua vivência quotidiana, onde debaixo da aparente liberdade se esconde um leviatã pronto a emergir: “um constante temor e perigo de morte violenta. E a vida do homem é solitária, pobre, sórdida, selvagem e curta” (Thomas Hobbes, Leviatã. Lisboa: INCM, pág. 111).

segunda-feira, 11 de dezembro de 2006

Anotações e Transcrições – 2

Do Miguel Castelo-Branco no 31 da Armada sobre a morte de Pinochet [com sublinhados meus]:

«Concordo que Pinochet não deixa saudades, como não deixam todas as ditaduras da América Latina, de Fidel em Cuba, Videla na Argentina, Ortega na Nicarágua ou Stroessner no Paraguai.

Espero que, quando dentro de algumas semanas, quando Fidel Castro finalmente vier a morrer, haja para com ele a mesma justiça negativa, que agora e bem, é feita a Pinochet.
»


Subscrevo, mas não partilho da esperança do Miguel. Quem não se lembra do vergonhoso comício/festa/tertúlia realizado no dia 16 de Outubro de 1998 no Centro de Desportos e Congressos de Matosinhos a propósito da presença desse torcionário em terras da Invicta para participar na Cimeira Ibero-Americana?

Estavam lá Saramago, Carvalhas, Vasco Gonçalves e… Narciso Miranda. Para além de Sérgio Godinho, Jorge Palma, Manuel Freire e Luís Represas.

Para mais informação consultar o Pravda português [
a mentira é o ópio do povo].