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terça-feira, 6 de janeiro de 2009

2009: O Regresso de Mann

Johnny Depp é John Dillinger, Michael Mann's Public EnemiesTrês anos depois do mediano Miami Vice, Mann volta ao grande ecrã sentado na cadeira que mais lhe diz, a do realizador, dirigindo desta vez a dupla Depp & Bale, adaptando para o cinema a verídica e aclamada história de gangsters, publicada em 2004, pelo escritor e jornalista Bryan Burrough, Public Enemies: The True Story of America’s Greatest Crime Wave.
Reduzindo ao mínimo (por preguiça) o argumento do filme: trata da ascensão de J. Edgar Hoover (Billy Crudup) na chefia impiedosa do BOI – que comandava desde 1924 –, mais tarde FBI (1936) e do seu agente especial – objecto das suas tão típicas invejas pessoais – Melvin Purvis (Christian Bale) no restabelecimento da ordem pública, quando em 1933 os Estados Unidos enfrentavam o crescimento exponencial da criminalidade no pós-1929 e a pior vaga de crimes da sua história. À época sobressaíam criminosos, ainda hoje famosos, como John Dillinger (Johnny Depp, na imagem), Baby Face Nelson (Stephen Graham), Pretty Boy Floyd (Channing Tatum), entre outros não referenciados no filme como Bonnie e Clyde, Machine Gun Kelly ou o gang de Ma-Barker e do seu impiedoso e assustador associado “Creepy” Alvin Karpis.

Estreia em Julho nos Estados Unidos e, provavelmente, no fim do ano em Portugal.

Com este filme e o que ontem referi, ambos a estrear em ano de forte crise económica mundial – 80 anos após a Grande Depressão –, nada melhor que recordar os feitos das mentes criminosas que se serviram da instabilidade e da debilidade política, económica e social para atingir os seus fins perversos. Hoje, todavia, até os criminosos de puro sangue perderam o seu olhar vítreo e celerado, as cicatrizes lapidares, a rudeza e a ostentação impudica dos seus troféus de caça. Nos dias que correm, os grandes criminosos são conduzidos em jaguares, envergam Zegna e Armani, estudam o tempo em Rolex ou Patek Philippe, assinam os crimes com Mont Blanc ou Conway Stewart, carregam os seus papéis em Louis Vuitton prontos para uma lavagem em Gibraltar, nas Ilhas Virgens ou nas Caimão, regressando a solo firme nos seus Cessna, Gulfstream ou Learjet, mal sentando o rabo temerário nos cadeirões esterilizados das salas dos conselhos de administração de, pelo menos, 200 m2, equipadas de mobiliário de design, à espera que o Estado, de cócoras perante tal magnificência e opulência, lhes ponha a mão por baixo com o dinheiro que nos vai retirando sempre que ousamos pedir um café que possa despertar-nos para a dureza do quotidiano – talvez seja esse o delito, mantermo-nos acordados.

sábado, 26 de julho de 2008

Acima de Ledger

Aaron Eckhart em O Cavaleiro das Trevas (The Dark Knight, 2008)
Ou melhor, o próprio actor excedeu-se, ultrapassou a barreira da sua mediocridade interpretativa, estabelecida, ironicamente, em todos os filmes, sem excepção (gay sheepboys, incluído), em que participou até ao penúltimo. Em The Dark Knight, os irmãos Nolan deram-lhe seguramente a hipótese para brilhar – é um papel num milhão. Não pretendo significar com isto, no entanto, que qualquer actor inserto na pele do personagem delineado pudesse atingir tal grau de resplandecência. Não, é aí mesmo onde se aloja a questão, toda a interpretação de Ledger é superação, esforço e dedicação, que até pode ser entendida pelo perfil histórico-fílmico do próprio actor, anódino e sem chama, como fazendo uma curta análise aos seis filmes Batman da nova geração: por exemplo, estou perfeitamente convencido de que Jack Nicholson, ligeiramente mais novo e menos indolentemente canastrão, jamais lograria alcançar o nível do australiano sem recorrer ao histrionismos que lhe conhecemos para tentar ultrapassar a fase da decadência – não falo, é claro, do Nicholson de Voado sobre um ninho de cucos (One Flew Over the Cuckoo’s Nest, 1975) de Milos Forman, de Chinatown (1974) de Polanski, de Profissão: Repórter (Professione: repórter, 1975) de Antonioni, de Shining (1980) de Kubrick ou até de Uma Questão de Honra (A Few Good Men, 1992) [You can’t handle the truth!] de Rob Reiner, um pouco mais velho que Ledger quando interpretou Joker e a anos-luz de distância (isto é, bem acima) no capítulo da eminência cinematográfica.

Deixando de parte a transfiguração de Heath Ledger, o filme de Nolan é tão banal como o seu predecessor Batman – O Início (Batman Begins, 2005), também com Christian Bale na pele do herói imaginado por Bob Kane, e banaliza-se com a sucessão de falhanços (opinião pessoal) desde o seu verdadeiro começo na era contemporânea, quando Tim Burton o resolveu ressuscitar para o grande ecrã em 1989, com Michael Keaton a fazer de homem-morcego.
Aliás, considero que o principal problema dos filmes Batman (como já referi, seis até hoje) com diversos realizadores (por esta ordem, Burton, Burton, Schumacher, Schumacher, Nolan e Nolan) reside na estranhíssima falta de apelo ou, se quisermos, de uma clara falta de identificação actor/personagem-herói/público; é uma relação clara e impudicamente falhada com Michael Keaton nos filmes de Burton (Keaton tentou, de forma perceptível para olho medianamente treinado em cinema, dar uma passo maior que a sua perna e estatelou-se ao comprido), e depois com performances sofríveis de Val Kilmer e George Clooney nos seguintes dois – actores cujos tiques pessoais já se tornaram inultrapassáveis –, e finalmente com Christian Bale nos dois últimos, cuja participação só poderá ser entendida pelo cachet e pela (por ele) constatada decadência capitalista de colegas actores da sua geração rendidos ao verde dos dólares e até dos personagens, como é o caso do meu mui estimado Ed Norton (que facada no coração).
Pelo vistos a saga irá continuar com os manos Nolan, com Bale e Eckhart confirmados. Agora, só resta esperar que este último não ensandeça no esforço de interpretar o papel de Two-Face (Harvey Dent), anteriormente interpretado em Batman Para Sempre (Batman Forever, 1995) por outro dos colossos de Hollywood, Tommy Lee Jones.

Very punctual, even to his own funeral! Boys, kill the Bat!

sexta-feira, 28 de março de 2008

Tô nem aí

I’m Not There e a sua tradução portuguesa lembraram-me o mega-ultra-hit das pistas de dança algarvias, resvaladiças, triplamente perigosas até: não só pelo deslizamento garantido a puxar à espargata de verdadeiro perigo escrótico-traumático, como de levar uma cotovelada devido aos braços que se agitam frenéticos no ar, voluteando, aspergindo energia (e não só, como iremos já verificar), cuja intensidade ganhou outro fulgor com a descida do IVA para os ginásios – Sócrates e o tratamento do físico dos portugueses, fomentador dos verdadeiros centros de cultura, no seu sentido mais amplo, porque garante uma boa criação de fungos, sem qualquer tipo de ameaça de ruptura de stock, a fazer vender em barda o utilíssimo Canesten em pulverizador –, e depois aquele inultrapassável aroma sudorífero, verdadeiros substitutos do iodo reparador estival do nosso aparelho respiratório nas nossas saudáveis e ventosas praias nortenhas.

De modo que, I’m Not There poderia ser “Tô Nem Aí, mi deixa, cara”, em vez do anódino Não Estou Aí, porque disso já todos nós sabemos – ou deveríamos ter sabido, antes de despender os cerca de 5 euros para mais de duas horas de Olcadil (deixei-me do Xanax) –, e isto se exceptuarmos Dylan, ele mesmo numa filmagem pirata, de harmónica nos beiços entoando uma quase inédita “I’m Not There”, mesmo antes do aparecimento dos piedosos e libertadores créditos finais.


Os do meio são meros personagens de ficção. Os restantes quatro existiram e de alguma forma contribuíram, segundo Haynes, para a imagem e para o desenvolvimento dos quase cinquenta anos de carreira de Bob Dylan.
Billy the Kid (Richard Gere) e Rimbaud (Ben Whishaw, o do nariz prodigioso), e uns desconhecidos impulsionadores da folk music americana Woody Guthrie (Marcus Carl Franklin) e Jack Rollins (Christian Bale, que não sabe desempenhar mal um papel, apesar de alguma histrionia no último Herzog). Finalmente, temos a andrógina Jude Quinn (Cate Blanchett, o pronto-socorro para a conquista de galardões) e o actor ficcionado, machão dos sete costados, Robbie Clark que ganha fama quando interpreta Dylan (interpretado pelo malogrado Heath Ledger). Segundo o realizador, são todos episódios e facetas da vida atribulada de Mr. Zimmerman... mas, na cabeça de Mr. Haynes.

E como já havia prometido que sobre cinema, só falaria para o final de 2008, fico-me por aqui. Porém, amanhã assistiremos à materialização em texto da veia encomiástica da elite cinéfilo-intelectual lusitana sobre o experimentalismo de Todd Haynes, os planos, os vários tipos de película que usou para filmar, Rimbaud num tribunal warholiano, Ginsberg e Orlosvky recitando de chopper poemas para o asfalto, representando o seu grupinho sanfranciscano
de bêbados letrados da década de 50 (e o Castro só surgiu nos 70).
Não há fio condutor. As partes não encaixam. É expressionismo abstracto sem qualquer tipo de alucinação criativa.

E Dylan sabe? Gostou, Mr. Zimmerman?

Tô nem aí, Tô nem aí...
Pode ficar com seu mundinho, eu não tô nem aí


(carregar aqui, só para recordar este hino tão socrático à cultura do físico).