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quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Rapsódia em Azul – Manhattan



Em degustação e por mais quatro anos…


Punch line: He’s done a great job on you. Your self-esteem is like a notch below Kafka’s.

domingo, 22 de janeiro de 2012

Obsessão (act.)

Pensei escrever qualquer coisa. Alinhavei umas quantas palavras. A obsessão pelo pormenor. A meticulosidade de um relojoeiro na evocação imagética. A mão perfeita de um artesão que usa a tecnologia sem que a pressintamos – para ele é mesmo um meio, e nunca um artifício estético. As mulheres, sempre as mulheres, não tão ostensivas como em Lars von Trier, maquinais e diabólicas como em Tarantino, austeras, frias e impiedosas como em Almodóvar, objecto de desejo que se emancipa perante o indício da corte pelo pavão como em Rohmer, ou eloquentes, por vezes doces receptoras da neurastenia projectada pelo criador, como em Woody Allen. São uma bruma perene, omnipresente, extática e hermética, portadoras – eis o ventre primordial – do código inacessível a um encadeamento lógico da razão. 
Fiz um historial da abordagem subliminar do lado feminino que joga um papel crucial em Fincher desde Se7en (1995) – excluí Sigourney “Ripley” Weaver, não tivesse sido ela de Ridley Scott, em primeiro lugar, e de James Cameron, em segundo – Paltrow (1995), Kara Unger (1997), Bonham Carter (1999), Foster (2002), Sevigny (2007), Blanchett (2008), e Mara por duas vezes (2010 e 2011), mas guardei o ficheiro na imensa pasta dos textos “não publicados”, talvez para maturação, muito provavelmente para as impenetráveis trevas do olvido. Decidi “me & myself” atirar Karen Ocujo grito seco ressoa no negro líquido viscoso (amniótico) para a fogueira daqueles que Odeiam as Mulheres:


«Salander não consegue mexer-se. Espera que a dor abrande – o que eventualmente acontece – mas apenas para ser substituída por um sentimento de abandono. Então aquele abranda, substituído por um semblante de indiferença.»
Steven Zaillian, The Girl with the Dragon Tattoo [screenplay], p. 165 (© 2011 Sony Pictures). Tradução livre: AMC.
Em jeito de nota final, o fim: é impossível ficar indiferente ao pathos que emana daquele olhar, que tudo apaga, de Rooney Mara.

Soberbo.

quinta-feira, 28 de dezembro de 2006

Bola de Torneio

Match Point - Woody Allen

«O homem que uma vez disse “prefiro ter sorte a ser bom”, entendeu muito do significado da vida. As pessoas temem descobrir que grande parte das suas vidas depende da sorte. É assustador pensar que boa parte dela foge ao nosso controlo. Há momentos num jogo em que a bola bate no topo da rede... e, por um segundo, ela pode cair tanto para a frente como para trás. Com sorte, ela cai para a frente e tu ganhas. Ou talvez não… e, então, tu perdes.» [tradução livre, AMC]



Esta é a narração de Jonathan Rhys Meyers na abertura do filme do ano – na minha modesta opinião. Trata-se de Match Point (2005), realizado pelo profeta nova-iorquino da Sétima Arte Woody Allen.
Allan Stewart Konigsberg nasceu há 71 anos em Brooklyn – ó terra tão fértil para os que nela nascem ou para os que nela vivem! Cortou o primeiro filme em 1965, What's Up, Tiger Lily?, um filme de espiões japonês redobrado por Allen. O génio criativo deste último, que transformou a busca de um microfilme ultra-secreto numa demanda por uma receita de salada de ovo, rendeu-lhe o contrato com a AIP – American International Pictures.
Desde então a sua extensa obra conta com filmes como (os meus preferidos): ABC do Amor (1972), Annie Hall (1977), Manhattan (1979), Ana e as suas Irmãs (1986), Dias da Rádio e Setembro (ambos de 1987), Toda a gente diz que te amo (1996), As faces de Harry (1997).
Após 40 anos a filmar quase em exclusivo na sua muito amada Nova Iorque, decide-se por Londres e diz a propósito:
«Nos Estados Unidos as coisas mudaram imenso e, actualmente, tornou-se bastante difícil fazer pequenos e bons filmes. Houve uma altura na década de 1950 em que eu pretendi ser argumentista, porque os filmes feitos até então, cuja maioria provinha de Hollywood, eram estúpidos e nada interessantes. Depois, começaram a surgir grandes filmes europeus, os filmes americanos cresceram um pouco e tornou-se mais divertido trabalhar na indústria do cinema do que no teatro. Eu adorava. Porém, hoje em dia, as coisas tomaram um novo rumo e os estúdios regressaram ao comando das operações, não estando interessados em filmes cujo encaixe financeiro seja pequeno. Quando eu era mais novo, todas as semanas conseguíamos ver um Fellini, ou um Bergman, ou um Godard, ou um Truffaut, mas agora quase não se consegue obter nada de semelhante. Os realizadores como eu enfrentam tempos difíceis. Os estúdios, avarentos, não se poderiam preocupar menos com os bons filmes – se conseguem produzir um bom filme, ficam duplamente felizes, porém o seu objectivo centra-se nos que fazem dinheiro. Só se interessam por filmes que custaram 100 milhões de dólares a produzir e que geram receitas de 500 milhões. É por isso que me sinto feliz por trabalhar em Londres, voltei a trabalhar com aquele tipo de atitude criativa e liberal a que estava habituado.» [tradução livre, AMC; fonte: IMDB]

Em boa hora o fez, porque engendrou o argumento e realizou Match Point, um filme em que o (in)feliz acaso sobressai como a grande certeza da vida humana.
Lá está o acaso… É caso para perguntar: onde é que já vi este filme?

O seráfico Chris Wilton, Jonathan Rhys Meyers, é um simples e letrado tenista, com ganas de ser grande, cujo destino lhe permitiu (des)afortunadamente encontrar a aristocracia inglesa enquanto se sustentava como mero treinador de ténis num clube londrino. Lê Crime e Castigo de Dostoievski, qual Rodion Romanovich Raskolnikov, e encontra a fabulosa – e libidinosa – Nola Rice, a maravilhosa Scarlett Johansson – caramba, melhor que nunca! –, noiva do seu pupilo aristocrata Tom Hewett, interpretado pelo jovem actor inglês Matthew Goode.
A partir daí desenrola-se o novelo que fabricará a sinuosa trama, pondo à evidência o inebriamento advindo da ilusória sensação de (auto)controlo. A soberba que cega, e que provém de uma autoconfiança exacerbada, conduz-nos, fatalmente, a um falso sentimento de imunidade no momento em que ponderamos as acções a empreender. Depois… depois é tarde! Muito tarde para voltar atrás.

E fico-me por aqui, com a firme certeza de ter aplicado bem as cerca de duas horas que dura o filme. No entanto… não sei, como dizia o outro se “perdi para sempre a segura certeza da lucidez da minha lucidez”… é arte, pois, não há valores absolutos e no entanto, afianço: Match Point é o (meu) filme do ano!