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quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Já foi ano…

…(como se sói dizer) em que Spielberg ficava de fora dos inúmeros tapetes vermelhos que amparam os pezinhos galácticos no magote de prémios cinematográficos a entregar no princípio de cada ano civil.
Atente-se nas nomeações para os Globos de Ouro de 2013 e apesar de Tarantino ir a quase todas e de Bigelow andar perto, a mascarada será a mesma, deixando o viperino (também canastrão) enfant terrible PT de fora da parte que lhe interessava e o Wes ao lado daquela coisa do Marigold, da marmelada salmónica no Iémen e da 57.ª versão tele/cinematográfica de Os Miseráveis (na realidade, não devo andar longe) de Victor Hugo que, por um lado, tem o condão de trazer de volta aquele britânico triste, atadinho (ou formalmente agrilhoado) e cinzento do Tom Hooper e que, por outro, irá contribuir para ofuscar ainda mais, na memória de peixe-dourado do pipoqueiro nato, a muito razoável versão do dinamarquês Bille August de há quase 15 anos (é só comparar os trios: Jackman, Crowe e Hathaway (cor apropriada) vs. Neeson, G. Rush e Thurman).
E será que vamos ver de novo a Streep com aquele braço bamboleante em cima dos apensos proto-gelationosos e que saltam intensamente devido, não só, à sua proeminência, mas também ao resfolegar sexagenário, por aquela zurrapa fílmica chamada Terapia a Dois (Hope Springs, 2012)?

A 13 de Janeiro de 2013 teremos a confirmação. Entretanto fiquemo-nos, apenas, com a introdução tartamudeada das nomeações deste ano pela curiosa figura da presidente da HFPA, a "Dra. Aida" (foi pena não ter sido o habitual cómico-sério do bigodinho seboso e sotaque pior-que-Moltalban do Jorge Camara), mas temos a doce Megan (depois podem desligar, o tipo não interessa e a Alba que vá aprender a ler):


domingo, 22 de janeiro de 2012

Obsessão (act.)

Pensei escrever qualquer coisa. Alinhavei umas quantas palavras. A obsessão pelo pormenor. A meticulosidade de um relojoeiro na evocação imagética. A mão perfeita de um artesão que usa a tecnologia sem que a pressintamos – para ele é mesmo um meio, e nunca um artifício estético. As mulheres, sempre as mulheres, não tão ostensivas como em Lars von Trier, maquinais e diabólicas como em Tarantino, austeras, frias e impiedosas como em Almodóvar, objecto de desejo que se emancipa perante o indício da corte pelo pavão como em Rohmer, ou eloquentes, por vezes doces receptoras da neurastenia projectada pelo criador, como em Woody Allen. São uma bruma perene, omnipresente, extática e hermética, portadoras – eis o ventre primordial – do código inacessível a um encadeamento lógico da razão. 
Fiz um historial da abordagem subliminar do lado feminino que joga um papel crucial em Fincher desde Se7en (1995) – excluí Sigourney “Ripley” Weaver, não tivesse sido ela de Ridley Scott, em primeiro lugar, e de James Cameron, em segundo – Paltrow (1995), Kara Unger (1997), Bonham Carter (1999), Foster (2002), Sevigny (2007), Blanchett (2008), e Mara por duas vezes (2010 e 2011), mas guardei o ficheiro na imensa pasta dos textos “não publicados”, talvez para maturação, muito provavelmente para as impenetráveis trevas do olvido. Decidi “me & myself” atirar Karen Ocujo grito seco ressoa no negro líquido viscoso (amniótico) para a fogueira daqueles que Odeiam as Mulheres:


«Salander não consegue mexer-se. Espera que a dor abrande – o que eventualmente acontece – mas apenas para ser substituída por um sentimento de abandono. Então aquele abranda, substituído por um semblante de indiferença.»
Steven Zaillian, The Girl with the Dragon Tattoo [screenplay], p. 165 (© 2011 Sony Pictures). Tradução livre: AMC.
Em jeito de nota final, o fim: é impossível ficar indiferente ao pathos que emana daquele olhar, que tudo apaga, de Rooney Mara.

Soberbo.

sexta-feira, 18 de julho de 2008

Add It Up

Não, não é Cronenberg, Tarantino, nem tão-pouco o já artrítico e jubilado Arthur Penn. É LynchJennifer? Realizou Vigilância (Surveillance, 2008), filme que estreou ontem em Portugal, numa quase antestreia mundial. Os outros vê-lo-ão passar pelos cartazes do circuito comercial lá mais para o final do Verão, incluindo um dos dois países de origem da sua produção, os Estados Unidos – no outro, a Alemanha, tal como cá, a estreia deu-se ontem.
O apelido não surgiu por acaso, nem por qualquer combinação cósmica que tivesse ousado conjugar a trama, o excepcional trabalho de actores e a beleza cénica com o realizador de Um Coração Selvagem (Wild at Heart, 1990).
Jennifer (Chambers) Lynch (n. 1968), é filha do realizador norte-americano David Lynch (n. 1946), concebida na sua primeira co-produção matrimonial com a artista plástica Peggy Reavey (Lynch).
Tendo o papá por produtor executivo, Jennifer construiu com inteligência um thriller que certamente irá assombrar as almas mais sensíveis por muitos e bons anos; e não se pense que existe gratuitidade na violência, que com o correr dos metros de celulóide vai ganhando corpo e consistência, não me aventurando, na qualidade de cinéfilo atento ao fenómeno da violência pornográfica nos filmes mais recentes, a sugerir um qualquer retoque, corte ou aditamento. O puzzle compõe-se e tudo permanece encaixado nos seus respectivos lugares. Não há pontas soltas. Bill Pullman: soberbo. Julia Ormond: surpreendente.

Antes deste, Jennifer foi a responsável pelo filme de 1993, tão polémico como grotesco, Paixão Selvagem (Boxing Helena), com Julian Sands e a bimba (um dos meus ódios de estimação do género feminino na 7.ª arte, que no filme em questão ficou tão bem apenas com o torso inviolado, sem que brotasse qualquer vontade rilkiana de especulação metafísica) chamada Sherilyn Fenn.

Mas neste pedaço de obra maior, decorridos que foram quinze anos, o grotesco ganha tons de mestria plástica; a coreografia clássica do horror quase gótico transforma-se num derivado pós-moderno com um toque de génio; e o produto final funciona, por uma perfeita simbiose entre as partes (movimento, luz e linguagem), indispensáveis à fabricação de uma obra cinematográfica digna de apreço – e mesmo que se apure tratar-se de uma obra meramente acessível a um conjunto restrito de espíritos, aos verdadeiros apreciadores de um género de difícil catalogação, que muitos irão incluir no Road Movie com laivos de “série B”, produziu-se arte; e não é essa uma das suas particularidades?

Já não me divertia tanto desde os tempos do miraculoso Cães Danados (Reservoir Dogs) – filme de Quentin Tarantino de 1992; confessando, no entanto, que não me empenhei em demasia para encontrar produtos similares, o que pode fazer perigar a análise por generalização abusiva.

Calo, por agora, a minha escrita para mais não desvendar. Mas, o meu tipicamente entusiasmo púbere jamais me permitiria fechar este texto se não me referisse ao momento em que brindei a grande tela com uma ovação em pé, por vergonha e respeito pelos demais que me acompanhavam na observação do filme, apenas devaneada, embora muito sentida. Um bem engendrado clímax fílmico:

Day after day
I will walk and I will play
but the day after today
I will stop
and I will start my way

Why can't I get just one kiss?
Why can't I get just one kiss?
Believe me,
Somethings I wouldn't miss
But I look at you pants and I need a kiss.
Why can't I get just one screw?
Why can't I get just one screw?
Believe me,
I'd know what to do.
But something won't let me make love to you.
Why can't I get just one fuck?
Why can't I get just one fuck?
I guess it's got something to do with luck
But I've waited my whole life for just one
(...)

Do trio de Milwaukee (Gano, Ritchie & DeLorenzo, que ficarão na coluna do lado direito deste blogue), para o trailer:



«I know who you are.»

Nota: no último Festival de Cannes, a crítica massacrou o filme, apodando-o de um "série B" mal amanhado e de que a sua presença na Selecção Oficial - Competição Principal se deveu, única e exclusivamente, ao nome maior do pai David.

Ah, como eu adoro contrariar estes tipos. E eu que até nem morro de amores pelo pai...