«Glenn Gould said, "Isolation is the indispensable component of human happiness."» [Contraponto] «How close to the self can we get without losing everything?»
Don DeLillo, “Counterpoint”, Brick, 2004.
…(como se sói dizer) em que Spielberg ficava de fora dos inúmeros tapetes vermelhos que amparam os pezinhos galácticos no magote de prémios cinematográficos a entregar no princípio de cada ano civil.
Atente-se nas nomeações para os Globos de Ouro de 2013 e apesar de Tarantino ir a quase todas e de Bigelow andar perto, a mascarada será a mesma, deixando o viperino (também canastrão) enfant terriblePT de fora da parte que lhe interessava e o Wes ao lado daquela coisa do Marigold, da marmelada salmónica no Iémen e da 57.ª versão tele/cinematográfica de Os Miseráveis (na realidade, não devo andar longe) de Victor Hugo que, por um lado, tem o condão de trazer de volta aquele britânico triste, atadinho (ou formalmente agrilhoado) e cinzento do Tom Hooper e que, por outro, irá contribuir para ofuscar ainda mais, na memória de peixe-dourado do pipoqueiro nato, a muito razoável versão do dinamarquês Bille August de há quase 15 anos (é só comparar os trios: Jackman, Crowe e Hathaway (cor apropriada) vs. Neeson, G. Rush e Thurman).
E será que vamos ver de novo a Streep com aquele braço bamboleante em cima dos apensos proto-gelationosos e que saltam intensamente devido, não só, à sua proeminência, mas também ao resfolegar sexagenário, por aquela zurrapa fílmica chamada Terapia a Dois (Hope Springs, 2012)?
A 13 de Janeiro de 2013 teremos a confirmação. Entretanto fiquemo-nos, apenas, com a introdução tartamudeada das nomeações deste ano pela curiosa figura da presidente da HFPA, a "Dra. Aida" (foi pena não ter sido o habitual cómico-sério do bigodinho seboso e sotaque pior-que-Moltalban do Jorge Camara), mas temos a doce Megan (depois podem desligar, o tipo não interessa e a Alba que vá aprender a ler):
Pensei escrever qualquer coisa. Alinhavei umas quantas palavras. A obsessão pelo pormenor. A meticulosidade de um relojoeiro na evocação imagética. A mão perfeita de um artesão que usa a tecnologia sem que a pressintamos – para ele é mesmo um meio, e nunca um artifício estético. As mulheres, sempre as mulheres, não tão ostensivas como em Lars von Trier, maquinais e diabólicas como em Tarantino, austeras, frias e impiedosas como em Almodóvar, objecto de desejo que se emancipa perante o indício da corte pelo pavão como em Rohmer, ou eloquentes, por vezes doces receptoras da neurastenia projectada pelo criador, como em Woody Allen. São uma bruma perene, omnipresente, extática e hermética, portadoras – eis o ventre primordial – do código inacessível a um encadeamento lógico da razão.
Fiz um historial da abordagem subliminar do lado feminino
que joga um papel crucial em Fincher desde Se7en (1995) – excluí Sigourney
“Ripley” Weaver, não tivesse sido ela de Ridley Scott, em primeiro lugar, e de
James Cameron, em segundo – Paltrow (1995), Kara Unger (1997), Bonham Carter
(1999), Foster (2002), Sevigny (2007), Blanchett (2008), e Mara por duas vezes
(2010 e 2011), mas guardei o ficheiro na imensa pasta dos textos “não
publicados”, talvez para maturação, muito provavelmente para as impenetráveis
trevas do olvido. Decidi “me & myself” atirar Karen O, cujo grito seco ressoa no negro líquido viscoso (amniótico) para a fogueira daqueles que Odeiam as Mulheres:
Não, não é Cronenberg, Tarantino, nem tão-pouco o já artrítico e jubilado Arthur Penn. É Lynch… Jennifer? Realizou Vigilância (Surveillance, 2008), filme que estreou ontem em Portugal, numa quase antestreia mundial. Os outros vê-lo-ão passar pelos cartazes do circuito comercial lá mais para o final do Verão, incluindo um dos dois países de origem da sua produção, os Estados Unidos – no outro, a Alemanha, tal como cá, a estreia deu-se ontem. O apelido não surgiu por acaso, nem por qualquer combinação cósmica que tivesse ousado conjugar a trama, o excepcional trabalho de actores e a beleza cénica com o realizador de Um Coração Selvagem (Wild at Heart, 1990). Jennifer (Chambers) Lynch (n. 1968), é filha do realizador norte-americano David Lynch (n. 1946), concebida na sua primeira co-produção matrimonial com a artista plástica Peggy Reavey (Lynch). Tendo o papá por produtor executivo, Jennifer construiu com inteligência um thriller que certamente irá assombrar as almas mais sensíveis por muitos e bons anos; e não se pense que existe gratuitidade na violência, que com o correr dos metros de celulóide vai ganhando corpo e consistência, não me aventurando, na qualidade de cinéfilo atento ao fenómeno da violência pornográfica nos filmes mais recentes, a sugerir um qualquer retoque, corte ou aditamento. O puzzle compõe-se e tudo permanece encaixado nos seus respectivos lugares. Não há pontas soltas. Bill Pullman: soberbo. Julia Ormond: surpreendente.
Antes deste, Jennifer foi a responsável pelo filme de 1993, tão polémico como grotesco, Paixão Selvagem (Boxing Helena), com Julian Sands e a bimba (um dos meus ódios de estimação do género feminino na 7.ª arte, que no filme em questão ficou tão bem apenas com o torso inviolado, sem que brotasse qualquer vontade rilkiana de especulação metafísica) chamada Sherilyn Fenn.
Mas neste pedaço de obra maior, decorridos que foram quinze anos, o grotesco ganha tons de mestria plástica; a coreografia clássica do horror quase gótico transforma-se num derivado pós-moderno com um toque de génio; e o produto final funciona, por uma perfeita simbiose entre as partes (movimento, luz e linguagem), indispensáveis à fabricação de uma obra cinematográfica digna de apreço – e mesmo que se apure tratar-se de uma obra meramente acessível a um conjunto restrito de espíritos, aos verdadeiros apreciadores de um género de difícil catalogação, que muitos irão incluir no Road Movie com laivos de “série B”, produziu-se arte; e não é essa uma das suas particularidades?
Já não me divertia tanto desde os tempos do miraculoso Cães Danados (Reservoir Dogs) – filme de Quentin Tarantino de 1992; confessando, no entanto, que não me empenhei em demasia para encontrar produtos similares, o que pode fazer perigar a análise por generalização abusiva.
Calo, por agora, a minha escrita para mais não desvendar. Mas, o meu tipicamente entusiasmo púbere jamais me permitiria fechar este texto se não me referisse ao momento em que brindei a grande tela com uma ovação em pé, por vergonha e respeito pelos demais que me acompanhavam na observação do filme, apenas devaneada, embora muito sentida. Um bem engendrado clímax fílmico:
Day after day I will walk and I will play but the day after today I will stop and I will start my way
Why can't I get just one kiss? Why can't I get just one kiss? Believe me, Somethings I wouldn't miss But I look at you pants and I need a kiss. Why can't I get just one screw? Why can't I get just one screw? Believe me, I'd know what to do. But something won't let me make love to you. Why can't I get just one fuck? Why can't I get just one fuck? I guess it's got something to do with luck But I've waited my whole life for just one
(...)
Do trio de Milwaukee (Gano, Ritchie & DeLorenzo, que ficarão na coluna do lado direito deste blogue), para o trailer:
«I know who you are.»
Nota: no último Festival de Cannes, a crítica massacrou o filme, apodando-o de um "série B" mal amanhado e de que a sua presença na Selecção Oficial - Competição Principal se deveu, única e exclusivamente, ao nome maior do pai David.
Ah, como eu adoro contrariar estes tipos. E eu que até nem morro de amores pelo pai...