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quarta-feira, 6 de junho de 2012

¡Qué viva España!

Philip Roth
(n. 1933, Newark, NJ, EUA)


Notas:
1) Aos vetustos membros da Academia Sueca esta notícia jamais chegará (Ah, impenetrável couraça snob esquerdóide!) Roth está entre aqueles que não participam no diálogo da cultura mundial (Engdahl dixit);
2) Para mais informações em português, consultar a notícia em actualização do Público

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

6 Goyas para a Obra

Realizou-se anteontem à noite a 23.ª sessão de entrega dos prémios Goya da Academia das Artes e das Ciências Cinematográficas de Espanha.
Se dúvidas restassem quanto à expansão da impressionante máquina de produção cinematográfica em Espanha, um número, 163 longas-metragens a concurso, serviria para desfazer qualquer equívoco, para além das 110 curtas-metragens candidatas – não esquecendo que a Academia Espanhola procura envolver toda a comunidade de língua castelhana espalhada pelo mundo, como também os idiomas regionais de Espanha.
Questões para reflectir, enquanto por cá se produz e discute o cine-lixo, ainda por cima de contrafacção da Meca do cinema mundial, renegando os valores próprios da nossa cultura, que os espanhóis tão sabiamente sabem proteger, apesar da inevitável tendência mimética facilmente vislumbrável em muitos dos seus filmes.

Depois das nomeações, anunciadas no passado mês de Dezembro, o grande vencedor da noite foi o filme Camino do realizador madrileno Javier Fesser (n. 1964), nomeado para 7 categorias, arrecadou 6 prémios Goya: melhores “Filme”, “Realizador”, “Argumento Original”, “Actor Secundário – Jordi Dauder”, “Actriz – Carmen Elías” e “Actriz Revelação – Nerea Camacho”.

Camino, baseia-se em factos reais e narra a luta eterna entre a fé e a razão, entre o espiritual e o humano, numa triste história da morte de uma menina inserida com a sua família no meio da sinistra organização religiosa Opus Dei fundada por Josemaría Escrivá de Balaguer – agora santo, protagonista da canonização mais rápida de toda a história da Igreja Católica, ainda no papado de João Paulo II. Camino é também o título do livro escrito pelo fundador da Obra em 1939 que serve de guia a todos os sectários da prelatura pessoal do Papa.
Ai a dor como redenção… pobre Severin*.

(Carregar aqui ou aqui para obter mais informações sobre o filme vencedor.)

Entretanto, fiquemo-nos pelo trailer, para a conversa não divergir para os meandros de tão obscura organização tentacular, tanto em Espanha, como em Portugal, assim como o arrojado enraizamento na América Latina:

Uma sociedade de damas e cavalheiros vem jantar às seis da tarde. Eu sirvo à mesa e, desta vez, não entorno o vinho. Uma bofetada vale mais que dez repreensões: por seu intermédio compreendemos depressa, particularmente se for aplicada por uma pequenina e gordinha mão de mulher.»
Leopold von Sacher-Masoch, A Vénus de Kazabaïka, p. 127
(Lisboa: Relógio D’Água, 1994, 174 pp.; tradução de Ana Hatherly; obra original: Venus im Pelz, 1870.)

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

Pedagogia democrática

Em cada “rincón”, daqueles que apelam à detenção do passo apressado na azáfama do dia-a-dia, deparo-me com cartazes gigantescos de cara inteira de dois dos homens que ferozmente se digladiam para alcançar a presidência do Governo espanhol no próximo dia 9 de Março. Por exemplo, na estação de metro Sol (na Puerta del Sol) apanhei o primeiro de muitos sustos. Quando, na minha irrepreensível delicadeza urbana, cedia o passo a um grupo de transeuntes apressados, perdi o equilíbrio e, desorientado, agarrei-me, de imediato, à parede do túnel, quase lambuzando uma das bochechas barbudas de Mariano Rajoy, que se apresentava, de sorriso amarelo sobre fundo azul ferozmente marcado pelo chavão “PP con cabeza e corazón” – o susto foi ainda maior quando me lembrei das frases de campanha do nosso coveiro Guterres. No PSOE a coisa também não é famosa, os cartazes mostram um Zapatero aparentemente absorto, com um olhar seráfico, apenas estorvado por umas olheiras vincadas – traduza-se, vêem como me esfalfei por Espanha nos últimos quatro anos – sobre um fundo antracite, contrastando com um desafiante vermelho vivo – por onde anda o rosa? – da sigla e do símbolo do partido, e um slogan “Vota con todas tus fuerzas” – a minha mente fértil, tendencialmente burlesca e nos limites do decoro, construiu a imagem de um necessário esforço peristáltico no momento de aposição da cruz no boletim de voto.
Adiante...
Durante esta semana, para além do Óscar atribuído a Javier Bardem, e do assunto das quatro mulheres assassinadas no mesmo dia pelos respectivos companheiros em pontos distintos do país, o debate televisivo entre Zapatero e Rajoy, realizado na segunda-feira, era o motivo de todas as conversas e das mais variadas conjecturas sobre o vencedor e a magnitude da vitória. O debate, preparado ao milímetro pelas máquinas partidárias – contou, por exemplo, com mais de duas centenas de exigências de ambos os lados –, saldou-se num chorrilho de inanidades e de troca de acusações, roçando o insulto pessoal. Quando ambos abandonaram o estúdio, foram proferidas pelos dois lados declarações de vitória. O povo espanhol enfada-se, e com razão – depois da expulsão de Aznar – e não se revê nestes dois políticos medíocres. Ah, se eu lhes falasse da escolha que nós, portugueses, teremos de enfrentar em 2009: Sócrates ou Menezes… Prefiro a mediocridade dos contendores espanhóis.
(Apesar de tudo, salva-se em Espanha a iniciativa partidária de Rosa Diez, Mikel Buesa e Fernando Savater a que se juntou Mario Vargas LLosa.)

Na Fnac do Callao acabei de adquirir dois “libros de bolsillo” – que aqui em Espanha há-os para todos os gostos – e foi-me oferecido o primeiro volume de um conjunto de contos e ensaios sobre os assuntos que preocupam os espanhóis à porta das eleições (livro na imagem).
Um grupo de editores compilou um conjunto de temas em que os espanhóis manifestaram, numa grande sondagem nacional, a sua grande preocupação. Ei-los: fraude e corrupção, toxicodependência, economia, educação, qualidade do emprego, guerra, infra-estruturas, imigração, insegurança, administração da justiça, juventude, meio ambiente, desemprego, segurança social, classe política, racismo, saúde, violência doméstica e habitação. A estes temas, os editores acrescentaram mais dois: o consumo e, por razões óbvias, os livros.
Para cada preocupação há um capítulo. Cada capítulo subdivide-se em três partes: uma entrada do Dicionário do Diabo de Ambrose Bierce; um texto de reflexão; e uma história ou um relato de um autor consagrado.

Um exemplo retirado do primeiro volume [tradução AMC, excepto entrada referente ao Dicionário do Diabo, de responsabilidade de Rui Lopes]:

  • Capítulo: A Economia
  • Entrada*: Economia, n, Adquirir o barril de uísque que não é necessário pelo preço da vaca que não se tem dinheiro para comprar.
  • Reflexão sobre “La Nueva Economía” pelo economista Joaquín Estefanía (ex-director do El País) e actual director da Escola de Jornalismo da Universidade Autónoma de Madrid.
  • Conto: John Cheever, “O Natal é triste para os pobres” (originalmente publicado na revista The New Yorker no dia 24 de Dezembro de 1949):

«O Natal é uma época triste. A frase sobreveio à mente de Charlie no instante seguinte ao despertador haver tocado, e trouxe-lhe de novo a depressão amorfa que o havia perseguido na noite de véspera. No outro lado da janela, o céu estava negro. Sentou-se na cama e puxou a corrente de luz que se enganchava defronte do seu nariz. O dia de Natal é o mais triste do ano, pensou. De todos os milhões de pessoas que vivem em Nova Iorque, eu sou praticamente o único que tem de se levantar na fria escuridão das seis da manhã de um dia de Natal; praticamente o único.» (pág. 197)


*Ambrose Bierce, Dicionário do Diabo. Lisboa: Tinta da China, 1.ª edição, Janeiro de 2006, pág. 53; tradução de Rui Lopes; obra original: The Devil’s Dictionary, 1911.

Neste volume há ainda textos de Freud, Hemingway, Juan José Millás, David Sedaris, Dorothy Parker, entre outros.

Um verdadeiro deleite para enfrentar, pela arte, o enjoo reiterado do discurso político.

Referência bibliográfica:
VV. AA., Entender todo esto: Cuentos y reflexiones para las Elecciones Generales de marzo de 2008. Barcelona: Fnac, 2008, n. 1, 405 pp.

quinta-feira, 21 de dezembro de 2006

La Fiesta del Padre Hemingway


O que diria o Pai Hemingway – como lhe chamou Henry Chinaski, alter-ego do truculento Charles Bukowski – perante os primeiros indícios de uma mudança de atitude dos espanhóis face à bárbara chacina de touros na denominada Fiesta Nacional espanhola?

Resposta mais do que provável: «Você é bom, Pai Hemingway. Não se pode vencer sempre (…) Não estoure com os miolos.»
(retirado do conto “Classe” incluído na obra A Sul de Nenhum Norte, de Charles Bukowski)

Nota: Ministra espanhola do Meio Ambiente, Cristina Narbona, propõe uma reflexão nacional sobre o fim dos “touros de morte”, dando com exemplo a festa brava portuguesa.
Segundo o Gallup (España), em 2006 apenas 7,4% dos espanhóis se considera aficionado da Fiesta, enquanto cerca de 72,1% reprova convictamente este tipo de barbárie. O Gallup faz notar que em 1971 a distribuição das respostas era diferente, apesar de já se haver verificado a superioridade do número de detractores das touradas, 22 e 42%, respectivamente.
[Ler a notícia sobre a sondagem no jornal La Vanguardia e sobre a proposta da Ministra no El Mundo.


Imagem: cartoon de autoria de Ralph Barton, “Hemingway”, (© Diana Barton Franz) publicado na revista Vanity Fair, onde Hemingway vestido de toureiro espanhol confraterniza com o próprio touro.