«Nesse dia, um cavalo foi sacrificado a fim de que a barbárie recebesse o seu tributo. E a barbárie foi duplamente lisonjeada: após a interminável agonia do cavalo arrastado por uma carroça pela areia da vergonha, ela teve direito à execução do touro criminoso cujo sangue não borbulhou menos em longas golfadas generosas. Um relinchava e debatia-se, os seus olhos aterrorizados revolviam-se de não compreender, as patas apontadas ao céu imploravam uma razão; o outro, o negro criminoso, tinha entre as omoplatas uma espada tão comprida que o atravessava de lado a lado e o fez flectir sobre as patas dianteiras e render-se (se é que houve batalha) e quando o viu assim curvado e entregando as armas a Multidão das bancadas ergueu-se para gritar a sua Felicidade, os Coveiros abriram as braguilhas, as Mulheres arrancaram as mantilhas e todas se precipitaram sobre os Rabos malcheirosos que no Dia do Senhor é permitido comungar, e enquanto elas engoliam o Corpo de Cristo e a Semente do Pai, os Meninos aterrorizados procuravam onde debicar, onde e como inventar um novo Matadouro, um novo Fornicadouro, e tudo aquilo chupava, tagarelava, examinava, enquanto em cima da padiola o malvado touro mal acabado chorava ainda como um vitelo desmamado. E ninguém lhe prestava já atenção, o emissário moribundo, outrora tão perigoso, outrora chamado o Diabo.»
Gilles Leroy, Alabama Song, p. 76
[Lisboa: Esfera do Caos, 1.ª edição, Novembro de 2008, 172 pp.; tradução de José Júdice e José Alberto Quaresma; obra original: Alabama Song, 2007]
«Glenn Gould said, "Isolation is the indispensable component of human happiness."» [Contraponto] «How close to the self can we get without losing everything?»
Don DeLillo, “Counterpoint”, Brick, 2004.
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domingo, 7 de dezembro de 2008
La sangre
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quinta-feira, 21 de dezembro de 2006
La Fiesta del Padre Hemingway

O que diria o Pai Hemingway – como lhe chamou Henry Chinaski, alter-ego do truculento Charles Bukowski – perante os primeiros indícios de uma mudança de atitude dos espanhóis face à bárbara chacina de touros na denominada Fiesta Nacional espanhola?
Resposta mais do que provável: «Você é bom, Pai Hemingway. Não se pode vencer sempre (…) Não estoure com os miolos.»
(retirado do conto “Classe” incluído na obra A Sul de Nenhum Norte, de Charles Bukowski)
Nota: Ministra espanhola do Meio Ambiente, Cristina Narbona, propõe uma reflexão nacional sobre o fim dos “touros de morte”, dando com exemplo a festa brava portuguesa.
Segundo o Gallup (España), em 2006 apenas 7,4% dos espanhóis se considera aficionado da Fiesta, enquanto cerca de 72,1% reprova convictamente este tipo de barbárie. O Gallup faz notar que em 1971 a distribuição das respostas era diferente, apesar de já se haver verificado a superioridade do número de detractores das touradas, 22 e 42%, respectivamente.
[Ler a notícia sobre a sondagem no jornal La Vanguardia e sobre a proposta da Ministra no El Mundo.
Imagem: cartoon de autoria de Ralph Barton, “Hemingway”, (© Diana Barton Franz) publicado na revista Vanity Fair, onde Hemingway vestido de toureiro espanhol confraterniza com o próprio touro.
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