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quinta-feira, 8 de novembro de 2007

Reedição

No início do mês de Outubro deste ano, abria uma interessante discussão de teor psicossociológico, entre mim e o “Julinho da Adelaide” Yesterday Man, sobre o pensamento de Durkheim desenvolvido no seu estudo pioneiro sobre o suicídio, publicado no final do século XIX.
O mote era Werther de Goethe e a famigerada teoria dos suicídios em série, cuja génese esteve na angústia passional despertada pelo personagem da célebre novela.
Trouxe Werther e Durkheim à colação para falar sobre o argumento heteróclito, proposto por alguns críticos literários por esse mundo fora, da Literatura como arma de destruição em massa, potencialmente genocida (extensão semântica), insistentemente concretizado durante os anos de 2006 e 2007 em algumas recensões sobre o último romance metaficcional de Paul Auster, Viagens no Scriptorium – Auster, esse celerado, de caneta em punho…
A
Editorial Presença acaba de anunciar a reedição – ou como referem os seus colaboradores, o relançamento – da obra O Suicídio: Estudo Sociológico do proclamado pai da Sociologia moderna Émile Durkheim (1858-1917).
Ora, imbuído de uma auto-ilusão megalómana – daqui fala o meu, dele?, alter-ego –, não será de desprezar a forte oportunidade de vir a exigir da editora em causa uma percentagem dos proventos auferidos com a reedição da referida obra científica, aconselhando, desde o cimo da torre de marfim em que me encontro confortavelmente instalado, o
“Julinho” a proceder da mesma forma. A repercussão no mundo da lusofonia do nosso modesto debate assim o reivindica.
Agora, reeditem as ralaçõezinhas do jovem, langoroso e enfastiante, Werther…
Já dizia a outra, a potencial Nobel da Literatura das estações de serviço e afins, não há coincidências.

terça-feira, 9 de outubro de 2007

Bicho e espoleta

Bandeira Branca e a sua simbologiaO carácter íntimo e pessoal na interpretação do tom – não o Jobim, dilecção da casa, e grafado com maiúscula, “à partida” – dos textos dos outros neste pequeno mundo, buliçoso e tendencialmente hiperbólico na vitimização, designado por blogosfera, tem sido um dos principais impulsores do azedume e de troca de alguns mimos, por vezes a roçar o nível de arrieirada, entre bloggers, que, com alguma regularidade, tem como corolário o fim desses espaços de divagação, em jeito de protesto – birra ou amuo, se se preferir – para abrir outro mesmo ali ao lado sob pseudónimo, ou então, revitalizar o morto, dando a entender que se tratou de uma mera suspensão enquanto pacatamente se iniciava uma longa peregrinação pelo mundo para alargar os horizontes e, assim, poder partilhar as experiências com os que ficaram por cá numa guerrilha sem fim.
Quando escrevi
isto, pretendia apenas apelar ao uso do recurso estilístico da ironia, e se isso não foi entendido como tal, sou o primeiro a dar cara apontando uma eventual debilidade de estilo literário, deixando para segundo plano uma possível precariedade hermenêutica do receptor.
A propósito desse texto, em que fiz alusão a Durkheim e ao seu inovador estudo sobre o suicídio publicado nos finais do século XIX, aplicando-o ao romance de 1774 Werther do escritor J. W. Goethe e àquilo a que muitos posteriormente, já no século XX, vieram chamar de “efeito Werther”, já houve
réplica e tréplica. Todavia, como já referi, a intenção “à partida” era a de preambular um texto que iria surgir com algum desfasamento temporal, daí a numeração romana a atribuir-lhe um carácter folhetinesco estrito, apodando de falaciosos e apriorísticos os argumentos invocados por alguns críticos literários nas suas recensões sobre uma determinada obra.
Falei de Durkheim precisamente para realçar a risibilidade argumentativa de dois jovens e ambiciosos críticos literários – um deles até é crítico musical – que deixavam nas entrelinhas dos seus textos a potencial periculosidade dos personagens criados pelo autor, perigo que advinha da sua capacidade de contágio, por mimese, ao leitor, com rápida disseminação pela sociedade. Assim, por outras palavras e recorrendo à auxese como figura de estilo, o autor seria visto como um genocida, ou um Karadzic ou até um Pol Pot – a proximidade geofráfica do foco mediático teve a (des)virtude de o relembrar – que usa, “à partida”, os meios literários para atingir os seus fins perversos.
O assunto resvalou para Durkheim como fulcro da questão e a possível (mea culpa) falta de entendimento da sua doutrina.
No
primeiro texto disse:

«Durkheim professava que o suicídio primitivo era, apenas, o detonador do acto do imitador, o catalisador da reacção, uma vez que a tendência de atentar contra a própria vida resultava de uma patologia preexistente, de uma predisposição, como o acordar de um gigante adormecido na nossa psique.»

Errei. Não chamei, de forma séria e científica, anomia a essa predisposição, ou, de forma menos concisa, o conflito entre (ou mesmo ausência de) regras ou princípios normativos sociais num dado momento, numa dada comunidade, que se repercute, na esfera íntima do indivíduo por uma sentida desconformidade ou inadaptação deste perante a sociedade, ou seja, um choque da esfera social com a esfera individual, íntima, psicológica.
Durkheim nega a amplitude da sugestão, ou do elevado potencial mimético de um suicídio real ou ficcional – que levaram, por exemplo, as autoridades a proibir a venda de Werther em alguns locais da Europa –, porém, não nega o efeito da sugestão como catalisador, ou precipitante, de uma acção (suicida) que ocorreria certamente num momento mais tardio, como espoleta de uma patologia, se quisermos, psicossocial preexistente.
De resto, o austero reverencia e agradece a troca de palavras, revelando que, de forma alguma, deste lado, chegou a existir o prenúncio da tal goetha que faz transbordar o copo (a pun for a pun, embora seja fraca, logo, segundo Poe, suportável ou pouco intolerável).

sexta-feira, 5 de outubro de 2007

Elucidação – (VnS III)

Ópera: representação de Werther de Jules Massenet; Turim, Itália
Chama-me à razão este texto do Jorge no seu Yesterday Man – e eu que pensava que ao meu não iria voltar… ironizava, pois.
O desmiolado Werther – no início apenas um defeito mental, ainda nem sequer sonhara que a língua poderia ter destas literalidades semânticas –, perdido de amores por Carlota, comprometidíssima com o estóico Alberto na imaginária Walheim, deu um tiro na cabeça porque não teve a real consciência de que se tratava de um lírico, ou melhor, um tipo maçador, peganhento, enfim, um carrapato vampírico sugador da felicidade alheia.
Porém, mais desmiolados foram os seus seguidores que, catapultados por um doidivanas, resolveram fazer do tiro aos miolos o desporto nacional. O próprio jovem – o avôJohann Wolfgang nunca previra tais resultados, levando-o mesmo, mais tarde, a ridicularizar e a depreciar o seu próprio livro, escrito quando ainda tinha 25 anos de idade e numa fase em que atravessava a desolação de uma paixão avassaladora, por uma tal de Carlota, tão típica dos arrebatados espíritos românticos de jovens adultos.
O tio Émile negou a relação causa e efeito imediato, embora, confrontado com o caso das mortes miméticas, tenha referido que tal sofrimento induzido por via literária poderia, eventualmente, precipitar, ou conduzir a uma triste conclusão, quem, à partida, possuísse o bicho wertheriano – leia-se suicida – lá bem dentro da pobre e dúctil mioleira.
Nem o tio foi tolo, nem tão-pouco o avô engendrou uma arma artesanal de destruição em massa – para isso, embora mais tarde e com efeitos menos devastadores, dispunha de Fausto e do seu contrato com Mefistófeles, cuja relação deu origem a um livro bem mais pesado e por isso mais contundente e letal.

Em suma, o título do meu texto,
A Explicação de Durkheim, era sucedido de um código entre parênteses: VnS. Ora, a abreviatura corresponde a Viagens no Scriptorium, o título do último romance de Paul Auster, publicado em Portugal há 15 dias pelas Edições Asa. Como sou um austeriano dos sete costados, fui (e vou) protelando a publicação da minha opinião pessoal sobre a sua última obra. Continuo à espera que o tempo me traga algum discernimento opinativo, não embotado pelo putativo fundamentalismo literário.
Assim, fui publicando uma série de textos casuais – este é apenas o terceiro –, cuja única relação é o próprio romance, recorrendo a artigos sobre ele publicados por esse mundo fora.
A Explicação de Durkheim pretendia ser um texto irónico, ridicularizando alguns dos críticos – principalmente alguns ingleses e norte-americanos – que tentaram destruir a obra recorrendo a argumentos estapafúrdios e, por vezes, a roçar o mais baixo insulto pessoal.
Quando escrevi o dito texto, tinha em mente duas recensões que, há um ano, após a publicação do romance no Reino Unido (Outubro de 2006), me deixaram à beira de um estado de fúria irreprimível. Refiro-me ao texto de Alfred Hickling no jornal The Guardian, e mais especificamente ao da tem-tudo-para-ser-uma-boa-de-uma-arrivista
Deborah Friedell no Times Literary Supplement, onde surgiu um curto e esplêndido comentário de réplica, escrito por um leitor nova-iorquino, sobre o qual me inspirei para chamar Durkheim à colação. Eis o texto do feliz comentário:

«I stopped reading Paul Auster years ago for reasons eloquently laid out above. I don't mind him, he can't hurt you if you don't read him, but good Lord his admirers. I can only be grateful to newspaper reviewers who stick with overrated, self-satisfied writers and read their every new book, just so they can alert us in case they reform themselves. Hats off, Deborah. You are the mirror image of the canary in the coal mine. I'll risk a trip back in if you perk up.»

A literatura não mata, mas por vezes mói. Mas… por outras, mói tanto que, como Pável Vassílievitch, há sempre um benfazejo pisa-papéis à mão… mas, os jurados absolveram-no [“Drama”, conto de Anton Tchékhov]. Foi uma boa causa...

terça-feira, 25 de setembro de 2007

A explicação de Durkheim (VnS – I)

«Como me sinto feliz por ter partido!»
J. W. Goethe, Werther


Cento e vinte e três anos depois, Émile (para os amigos) dissertava sobre o suicídio e o surpreendente efeito de contágio da acção do seu perpetrador à sociedade – a terrível constatação da prevalência de um fenómeno que, mesmo visto de forma isolada ou individualizada já se declarava como obscuro, agora excede o limite do individual mediante a exposição da sua forte carga mimética, adquirindo, em definitivo um carácter sociológico, ou seja, assumindo-o como uma enfermidade social.

Resta-nos perceber, recorrendo a Durkheim, o que terá levado o jovem Johann Wolfgang, com apenas 25 anos (1774), a proferir, prologando num percebido tom irónico apenas consentido pela liberdade literária, o seguinte aviso:

«E tu, ó alma sensível que sofres dos mesmos pesares: que o teu coração dolorido encontre alívio na descrição das mágoas que ele [Werther] sofreu e que este livro seja para ti um amigo, se, por impiedade da sorte, ou por tua própria culpa, te não for dado encontrar afeição mais real.»


Durkheim professava que o suicídio primitivo era, apenas, o detonador do acto do imitador, o catalisador da reacção, uma vez que a tendência de atentar contra a própria vida resultava de uma patologia preexistente, de uma predisposição, como o acordar de um gigante adormecido na nossa psique.

Antecipando em muito, e de forma mais rebuscada, o homicídio por meios audiovisuais invocado por António Oliveira em meados dos anos 90 do século XX, por ocasião da revelação do famoso “Caso Paula”, que envolveu a selecção nacional de futebol e uma empresa de serviços de aluguer de corpos femininos vivos, Goethe, ao publicar a obra referenciada, cometeu um acto quase-genocida, eventualmente doloso.

Tal é o poder da Literatura e dos seus celerados personagens, criados pela pena de um irresponsável, ou até, de um criminoso em larga escala.
Valha-nos o papel do crítico, profissional ou amador, para nos alertar para este flagelo oculto, dissimulado por essa coisa chamada arte.