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quinta-feira, 16 de outubro de 2008

Trapalhada Intolerável


Quando em 1984 surge a dupla Joel e Ethan Coen com o seu primeiro trabalho, um filme negro série B, Sangue por Sangue (Blood Simple), as portas da selectiva – particularidade que se rege por critérios que não interessa aqui e agora explorar – indústria de Hollywood foram-lhe franqueadas, por via da aclamação unânime gerada no circuito cinematográfico independente. Os Óscares, antecedidos, decerto, pela brisa marítima que perambula pela passadeira vermelha da emproada Cannes seria apenas uma questão de tempo.
E assim foi, de lá para cá, a chancela “Irmãos Coen” juntou-se ao exclusivíssimo conjunto de fazedores de cinema americano cuja crítica, e produtos derivados, trata com alguma complacência, nalgumas vezes merecida.
Na realidade, houve fortes razões para isso, na minha discutibilíssima opinião, Fargo (1996) e O Grande Lebowski (The Big Lebowski, 1998) por si só mereceriam o Olimpo e a chama eterna da memória cinematográfica. Para trás tinham ficado os aceitáveis Arizona Júnior (Raising Arizona, 1987), História de Gangsters (Miller's Crossing, 1990) e Barton Fink (1991), para além do anódino O Grande Salto (The Hudsucker Proxy, 1994).
Mas, 2000 foi a marca indelével para o início do desencanto, o ano em que surgiu o paupérrimo Irmão, Onde Estás? (O Brother, Where Art Thou?) com início do abuso da utilização da compassiva e celebrada estrela ascensional George Clooney e o recrutamento da irritante e histriónica Holly Hunter – aqueles que me conhecem, já sabem da minha qualificação apriorística de sofrível a qualquer película em que figure, mesmo que de forma fugaz, a enervante meia-leca georgiana; está acima da minha vontade, fazendo tinir as campainhas de alarme pela entrada na zona restrita da minha psique denominada por “ódios de estimação”.
Seguiu-se-lhe um trio indesculpável – onde O Barbeiro (The Man Who Wasn't There, 2001) se distingue dos demais por vestígios de alguma qualidade – que precedeu o euromilhões cinematográfico, em grande parte proporcionado pelo brilhante enredo de um dos melhores escritores norte-americanos da actualidade, Cormac McCarthy.
O livro de McCarthy, como por aqui fui referindo amiúde, é uma pequena obra-prima, e exigiria cautelas na sua adaptação cinematográfica. Todavia, os manos Coen conseguiram-no, apesar de, pelo caminho, se haver perdido alguma de massa encefálica (que até pode ser literal) do cérebro literário do romance, aparando-lhe alguma da frondosidade moral elucubrada por McCarthy, sem contudo danificar a raiz – mas esses são os tais graus de liberdade que deverá gozar a adaptação de uma obra literária consagrada ao cinema, sob pena da textualidade arruinar as necessárias ductilidade e comunicabilidade entre artes.
Este País Não É para Velhos (No Country for Old Men, 2007) vence 4 Óscares (incluindo o de Melhor Filme), 3 BAFTA e 2 Globos de Ouro, para além de mais umas oito dezenas de prémios e galardões cinematográficos – apenas falhou, entre os grandes, a Palma de Ouro de Cannes, para a qual estava também nomeado.
Os Coen rejubilam, recolhem os louros e prosseguem na tarefa de inscrição de títulos nas suas ainda não muito extensas filmografias.

Menos de um ano depois da estreia comercial do filme de todos os sucessos, os manos voltam a atacar, regressando aos domínios da comédia, com o filme Destruir Depois de Ler (Burn After Reading, 2008) e com um elenco de luxo – expediente muito em voga, que o diga Soderbergh, talvez para disfarçar algum sentido desconforto artístico perante a obra forjada: John Malkovich, Frances McDormand, Clooney, Brad Pitt e Tilda Swinton – esta última acabadinha de ganhar, desmerecidamente, o Óscar para Melhor Actriz Secundária pelo seu banalíssimo papel em Michael Clayton (2007) de Tony Gilroy.
Destruir Depois de Ler é tipicamente um filme produto de dois fenómenos que costumam ocorrer quase em simultâneo em Hollywood após um grande sucesso: uma clamorosa ressaca vitoriosa e uma desmesurada insuflação do ego. Regra que se confirma não só com a realização mas com este desastroso regresso dos irmãos Coen ao argumento original: uma completa nulidade, confuso e desgarrado. Este País Não É para Velhos foi o livre-trânsito para este desastre, para esta imbecilidade fílmica, e estou certo de que a dupla se deve ter apercebido da manifestação de alguns sintomas eminentemente suicidários por negligência e de puro menosprezo por aqueles que se interessam pela manifestações artísticas da 7.ª arte. Nem se trata sequer de um exercício para invocar algum experimentalismo cénico, e com isso obter alguma condescendência. Já foi feito, e este é um acto falhado.
Nas interpretações, Brad Pitt está magnifico na personificação do típico bronco dos ginásios que inunda as nossas sociedades cultoras do físico a qualquer preço – consegue enroupar-se de todos os tiques do típico troll urbano que enxameia aqueles espaços bafientos com o seu adocicado perfume sudorífero. McDormand não sabe interpretar mal. Malkovich é prejudicado por um personagem oco num enredo sem nexo, fazendo com que o simples acto de assistir à sua performance se torne, de certa forma, num exercício confrangedor e masoquista, principalmente quando se é um admirador confesso do actor. Swinton está bem, e não mais do que isso, num papel que condiz com a sua cara de falsa pudica. Clooney está igual a si próprio, um pateta consumado.
O filme é uma sucessão de gags, quase todos sem o mínimo vestígio de graça e que jamais se unem num todo harmonioso e consistente. É um delírio fílmico arrevesado que nada tem de artístico no sentido lynchiano do termo, ou neste caso, pela índole que se lhe quis atribuir, no sentido gilliamiano de cinema.
Destruir Depois de Ler é um descarado assalto à mão armada para os admiradores do dueto fraterno e um roubo por esticão para todos aqueles que o meteram nos seus frágeis corações depois do seu último sucesso. E até me dou ao luxo de prescindir das metáforas anteriores, verbalizando alguma da minha pretendida violência classificativa: é um filme intelectual e literalmente desonesto.

Atrevo-me a finalizar com uma das frases do argumento, proferida por Chad Feldheimer (Pitt), que, pela pertinência, poderá ter servido de mote na concepção deste subproduto cinematográfico:

«As soon as you give us the money, dickwad!»

sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

Pequenas notas sobre quase nada

  1. O Código Nabokov: Rosenbaum strikes back (Slate)
  2. Cinema: (a) esplendorosa adaptação de Este País Não É para Velhos pelos irmãos Coen. (b) Não se compreende a não-nomeação de Tommy Lee Jones para Óscar de Melhor Actor pela imaculada interpretação do Xerife Ed Tom Bell (a alma do romance tão bem transposta para o filme). (c) Bardem, na pele de Anton Chigurh, é soberbo. (d) Iniciei o texto sobre a minha apreciação do filme, arquivei-o, por enquanto, e para quem estiver interessado, remeto-vos para o texto que escrevi no passado dia 1 de Dezembro sobre o romance de Cormac McCarthy, editado pela Relógio D'Água. Não há muito a acrescentar... Joel e Ethan captaram quase tudo; Cormac pode sentir-se mais que recompensado.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

Óscares III – Os Vencedores de 2008


Vitória em três apelidos: Bardem, Coen e McCarthy

Acabaram de ser atribuídos os galardões mais importantes no mundo do cinema – quer se goste ou não, repudiando ou simplesmente tentando ignorar, ninguém consegue ficar indiferente à noite mágica de Hollywood; é assim desde 1929, ano em que uma estatueta misteriosamente apelidada de Óscar vai enchendo de sonhos o imaginário de todos aqueles que do Cinema fazem a sua arte.
Eis os vencedores da 80.ª Cerimónia de entrega dos Óscares da Academia das Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood:

4 Óscares (1 filme)
Este País Não É para Velhos (No Country for Old Men) de Joel e Ethan Coen
- Actor Secundário – Javier Bardem
- Argumento Adaptado – Joel e Ethan Coen
- Filme
- Realização – Joel e Ethan Coen

3 Óscares (1 filme)
Ultimato (Bourne Ultimatum) de Paul Greengrass
- Efeitos de Som
- Montagem
- Som

2 Óscares (2 filmes)
Haverá Sangue (There Will Be Blood) de Paul Thomas Anderson
- Actor – Daniel Day-Lewis
- Fotografia

La Vie en Rose (La Môme) de Olivier Dahan
- Actriz – Marion Cotillard
- Caracterização

1 Óscar (9 filmes)
A Bússola Dourada (The Golden Compass) de Chris Weitz
- Efeitos Especiais

Elizabeth – A Idade do Ouro (Elizabeth: The Golden Age) de Shekhar Kapur
- Guarda-Roupa

Expiação (Atonement) de Joe Wright
- Música (BSO) – Dario Marianelli

Os Falsificadores (Die Fälscher) de Stefan Ruzowitzky
- Filme Estrangeiro – País de Origem: Áustria; Título EUA: The Counterfeiters

Juno (Juno) de Jason Reitman
- Argumento Original – Diablo Cody

Michael Clayton – Uma Questão de Consciência (Michael Clayton) de Tony Gilroy
- Actriz Secundária – Tilda Swinton

Once de John Carney
- Canção – “Falling Slowly”, por Glen Hansard e Markéta Irglová

Ratatui (Ratatouille) de Brad Bird
- Filme de Animação

Sweeney Todd: O Terrível Barbeiro de Fleet Street (Sweeney Todd: The Demon Barber of Fleet Street) de Tim Burton
- Direcção Artística



Despeço-me com a pose de Tio Alfred H, sabendo que me esperam apenas 3 marcelistas horas de sono (talvez haja mais considerações para quando o sono estiver em dia):

Ladies and Gentlemen, good night!

domingo, 23 de dezembro de 2007

Peste Bubónica

Anton Chigurh por Javier Bardem
– How well do you know Chigurh?
– Well enough.
– That's not an answer.
– What do you want to know?
– I'd just like to know your opinion of him. In general. Just how dangerous is he?
– Compared to what? The bubonic plague? He's bad enough that you called me. He's a psychopathic killer but so what? There's plenty of them around.
– He killed three men in a motel in Del Rio yesterday. And two others at that colossal goatfuck out in the desert.
– Okay. We can stop that.
– You seem pretty sure of yourself. You've led something of a charmed life haven't you Mr. Wells?
– In all honesty I can't say that charm has had a whole lot to do with it.

2007 Best Film of the Year – The National Board of Review (em 5/Dez/2007).


E, a talho de foice*, o Top 10 da NBR (os 10 que se seguem, por ordem alfabética do título em português, caso exista):
  • O Assassínio de Jesse James pelo Cobarde Robert Ford (The Assassination of Jesse James by the Coward Robert Ford, realizado por Andrew Dominik);
  • The Bucket List (realizado por Rob Reiner);
  • Expiação (Atonement, realizado por Joe Wright);
  • Juno (Juno, realizado por Jason Reitman);
  • The Kite Runner (realizado por Marc Forster);
  • O Lado Selvagem (Into The Wild, realizado por Sean Penn);
  • Lars and the Real Girl (realizado por Craig Gillespie);
  • Michael Clayton - Uma Questão de Consciência (Michael Clayton, realizado por Tony Gilroy);
  • Sweeney Todd: O Terrível Barbeiro de Fleet Street (Sweeney Todd, realizado por Tim Burton);
  • Ultimato (The Bourne Ultimatum, realizado por Paul Greengrass).

*expressão postada a título terapêutico e profiláctico.

sábado, 1 de dezembro de 2007

What's the most you've ever lost in a coin toss?

Brutalidades – I

Um livro e um filme (este último, para o capítulo II).

O livro
Cormac McCarthy, esse grandessíssimo autor da sublime escola literária norte-americana contemporânea, novelista que vou aprendendo a admirar, residente no Novo México, nascido em Providence, Rhode Island, em 1933, escreveu um dos melhores romances mascarados de thriller que li nos últimos tempos: Este País Não É para Velhos (No Country for Old Men, 2005).
Com uma economia e uma precisão narrativas, McCarthy constrói uma fábula sobre a perversidade e o apodrecimento humanos provindos de uma decadência, aparentemente irreversível, do outrora admirável Novo Mundo: terra dos bravos e dos homens livres, agora terreno fértil para as elucubrações literárias – alguém disse, e não me lembro quem, que o grau de excelência da Literatura (entendida como profusão de livros e do número de autores coetâneos de altíssima qualidade) representativa de um lugar, de uma região, de um país num dado momento é directamente proporcional ao seu grau de anomia, de desintegração e de desenraizamento sociais.
McCarthy e DeLillo são, neste momento, as vozes literárias que, de forma precisa, testemunham e alertam para essa desolação travestida de um, tão inútil como afanoso, fervor vivencial que invadiu a sociedade americana, cujo destino real – lê-se nas entrelinhas –, quiçá num futuro mais próximo que o conjecturado, poderá ir muito além da ficção, da visão distópica modelada pela obra de arte.
Este País Não É para Velhos é, na sua aparência, uma obra de ficção policial: um frio e calculista assassino, Anton Chigurh, a soldo dos grandes traficantes de droga que operam na fronteira territorial entre os Estados Unidos e o México, e um banal mecânico de província, soldador de peças de automóveis, veterano da guerra do Vietname, Llewelyn Moss, que descobre, enquanto caçava na paisagem desértica da fronteira, uma mala recheada com mais de 2 milhões de dólares, um carregamento de heroína mexicana e um estranho morticínio que apenas deixou um homem moribundo e uns tantos cadáveres espalhados pelo terreno.
Contado assim, o enredo do penúltimo romance de McCarthy não passaria de mais um thriller paraliterário, potencialmente hollywoodiano, pejado de cenas de uma violência gratuita, abordando, com uma reflexão exasperantemente débil e minimalista, a eterna disputa entre o bem e o mal, neste caso transformado no visto e revisto jogo do gato e do rato entre o criminoso e o inocente; em suma, uma história sobre a presciência, a frieza e a sabedoria de um assassino que se empenha numa busca desenfreada para recuperar o dinheiro sujo que foi roubado por um inexperiente e anódino homem da província, com uma vida banal e de escassa inteligência prática.
No entanto, é precisamente aí, nesse jogo de ilusão e de aparência, que reside o desafio que McCarthy lança ao leitor. A lhaneza dos diálogos, o emagrecimento descritivo e a frenética sequência dos factos exigem ao leitor atento, amante das artes literárias, um esforço de desconstrução: ler um subtexto supostamente inexistente, mas que o autor, de forma engenhosa, deixou visível, como o novelo de fio de Teseu que desenrolado o pôde conduzir à saída do labirinto de encontro à sua amada Ariadne.
McCarthy mostra-nos o fio da narrativa através das intervaladas reflexões do velho xerife Ed Tom Bell, ex-combatente da II Guerra Mundial, sobre o envelhecimento e a memória de um passado obscuro que nos persegue – «Ele disse que eu estava a ser demasiado severo comigo mesmo. Disse que era sinal da velhice. Tentar emendar os erros que se cometeram. Se calhar há nisto alguma verdade. Mas não é a verdade toda. Concordei com ele quando disse que não havia muita coisa boa para dizer sobre a velhice e ele disse que tinha descoberto uma e eu perguntei o que era. E ele disse: É que não dura muito.» (pág. 203) –, sobre a inadaptação por um país em que a violência parece tomar conta de vida dos seus filhos, embora, com um mínimo esforço de memória, se possa concluir que toda a sua história foi construída sob o domínio da violência, desde as primeiras investidas territoriais dos primeiros colonos, passando pela Guerra da Secessão, acabando no Vietname (o romance decorre no final da década de 70 do século XX) – «Pensei na minha família e pensei nele, sozinho naquela velha casa, na cadeira de rodas, e dei comigo a pensar que este país tem uma estranha história e bem sanguinolenta, diga-se, chiça.» (pág. 205); «As pessoas dizem que foi o Vietname que pôs este país de rastos. Mas eu nunca acreditei nisso. O país já estava em muito mau estado. O Vietname foi só a cereja em cima do bolo.» (pág. 214).
É nestas reflexões de Ed Tom, verbalizadas num estilo de linguagem coloquial, em que se funda e materializa a mensagem, transformando a aparente acção principal num teatro de sombras do inexorável caminho para o apocalipse de uma sociedade corrupta, perversa e materialista que deprecia o valor absoluto da vida humana, estabelecendo-se um paralelismo bíblico com as profecias de São João Evangelista determinadas no último dos Livros do Novo Testamento.
«Dizem que os olhos são as janelas da alma. Eu cá por mim não sei de que é que os olhos são as janelas e se calhar até prefiro não saber. Mas há uma outra maneira de ver o mundo e outros olhos para o ver e é por esse caminho que nós vamos. Eu próprio o trilhei e conduziu-me a um lugar na minha vida que nunca imaginei chegar a conhecer. Algures por aí anda um profeta da destruição, um profeta genuíno, de carne e osso, e eu não o quero enfrentar.» (pp. 15-16).
Com este romance, Cormac McCarthy traz-nos de novo uma atroadora e descoroçoante alegoria. Uma narrativa com vida própria, autónoma, para além da vontade do próprio escritor, viril, brutal, desoladora e inóspita, sem mesuras e lamentos, expurgada de derivações metafísicas ou de pretensas respostas sobre o declínio da América e da nossa civilização, e a percebida inexorabilidade – o espírito deste tempo – na aproximação das trevas.

Classificação: ***** (Muito Bom)

Referência bibliográfica:
Cormac McCarthy, Este País Não É para Velhos. Lisboa: Relógio D’Água, 1.ª edição, Outubro de 2007, 231 pp. (tradução de Paulo Faria; obra original: No Country for Old Men, 2005).


Nota: Os fabulosos irmãos Coen (Joel e Ethan) – responsáveis por alguns dos filmes do meu Olimpo íntimo e intransmissível: Fargo (1996) ou O Grande Lebowski (The Great Lebowski, 1998) – produziram, realizaram, montaram e escreveram o argumento do filme homónimo – estreou na semana passada nas salas de cinema norte-americanas –, com interpretações de Tommy Lee Jones, Javier Bardem, Woody Harrelson, entre outros. Tanto a crítica, como a esmagadora maioria dos espectadores, têm demonstrado, empregando algumas hipérboles encomiásticas, a sua admiração irrestrita pelo último filme desta dupla.

Por aqui vou esperando, dando por mim a desejar que a história, na versão fílmica dos irmãos Coen, haja logrado captar a verdadeira essência do romance de McCarthy. Todavia, enfatizando a ressalva, a um filme dessincronizado com a obra literária que lhe deu origem não pode, nem deve, seguir-se uma imediata sentença de repúdio ou de rotulagem de inabilidade na adaptação do romance de base. São artes diferentes que merecem um tratamento diferenciado. Normalmente, a natureza descritiva de um livro é incompatível com o imediatismo imagético de uma obra cinematográfica. De outro modo, correríamos o risco de cair na célebre imagem satírica de Hitchcock das duas cabras que pastavam bobines de celulóide talvez nas colinas de Hollywood, em que a primeira pergunta à segunda se esta está a gostar da refeição; ao que a segunda responde: “Nada mal!... Mas, gostei mais de comer o livro…»

sexta-feira, 30 de novembro de 2007

Um poema, um livro, um filme

THAT is no country for old men. The young
In one another's arms, birds in the trees
– Those dying generations – at their song,
The salmon-falls, the mackerel-crowded seas,
Fish, flesh, or fowl, commend all summer long
Whatever is begotten, born, and dies.
Caught in that sensual music all neglect
Monuments of unageing intellect.

An aged man is but a paltry thing,
A tattered coat upon a stick, unless
Soul clap its hands and sing, and louder sing
For every tatter in its mortal dress,
Nor is there singing school but studying
Monuments of its own magnificence;
And therefore I have sailed the seas and come
To the holy city of Byzantium.

O sages standing in God's holy fire
As in the gold mosaic of a wall,
Come from the holy fire, perne in a gyre,
And be the singing-masters of my soul.
Consume my heart away; sick with desire
And fastened to a dying animal
It knows not what it is; and gather me
Into the artifice of eternity.

Once out of nature I shall never take
My bodily form from any natural thing,
But such a form as Grecian goldsmiths make
Of hammered gold and gold enamelling
To keep a drowsy Emperor awake;
Or set upon a golden bough to sing
To lords and ladies of Byzantium
Of what is past, or passing, or to come.


William Butler Yeats, Sailing to Byzantium (1928)
Nota: seguir tags.