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sábado, 15 de novembro de 2008

Sair para roubar cavalos [actualizado]

Quando em Junho de 2007 o júri do International IMPAC Dublin Literary Award – na altura o prémio literário pecuniariamente mais valioso do mundo a galardoar uma só obra de ficção – anunciou o vencedor, muitos foram os que ficaram de boca aberta pela escolha: um romance, com cavalos no título, de um escritor norueguês quase desconhecido chamado Per Petterson, soava, em primeira mão, a folclore nórdico.
A perplexidade foi ainda maior conhecendo-se a priori a
lista dos oito semifinalistas seleccionados pelo referido júri – constituído por seis elementos, que em 2007 incluía o escritor português Almeida Faria – dos quais destaco cinco, para além do vencedor, todos já com edição portuguesa: Arthur & George de Julian Barnes (Asa); O Homem Lento de J.M. Coetzee (Dom Quixote), Nobel da Literatura em 2003; Extremamente Alto, Incrivelmente Perto de Jonathan Safran Foer (Quetzal); Este País Não É para Velhos de Cormac McCarthy (Relógio D’Água); e Shalimar, o Palhaço de Salman Rushdie (Dom Quixote).
Porém, havia um facto anterior que não poderia ser desprezado, o mesmo romance já havia vencido em 2006 o prémio do jornal britânico
The Independent para a melhor obra de ficção estrangeira, derrotando autores como David Grossman, Claudel, Murakami, Kertész (Nobel da Literatura em 2002) e o autor marroquino Tahar Ben Jelloun.

Tal como referi
aqui, a versão portuguesa chegou (tarde) pelas mãos da Casa das Letras, adiantando-me, desde já, à nota de apreciação, para referir a tradução irrepreensível de Maria João Freire de Andrade* – menção que tem alguma razão de ser, dada a debilidade de algumas das traduções de obras lançadas pela mesma editora, cujo livro de memórias de Gore Vidal, Navegação Ponto por Ponto, é o epítome.

«Toda a minha vida ansiei estar sozinho num lugar como este. Mesmo quando tudo corria bem, como era frequente acontecer.» (pág. 11)

Cavalos Roubados – título concludente escolhido pelo editor português, enquadrável na polissemia do jogo de palavras do título original norueguês (dá o título a este texto) – foi publicado pela primeira vez na Noruega em 2003 e traduzido para inglês em 2005, e daí a sua elegibilidade para o IMPAC de 2007. Trata-se de uma história narrada na primeira pessoa pelo protagonista Trond Sander, que aos sessenta e sete anos se decidiu pela reforma e pela fuga de Oslo, desfazendo-se de todos os seus bens e compromissos que o agarravam à capital, procurando o isolamento numa cabana imersa na paisagem bucólica, verdejante, gélida e despovoada do interior da Noruega: «O meu plano para este lugar é bastante simples. Esta vai ser a minha última casa. Quanto tempo isso poderá demorar é algo acerca do qual ainda não pensei.» (pág. 74)

Aí instalado, na companhia da sua cadela Lyra, previamente adquirida para atenuar o isolamento previsto, Trond é o protagonista de uma estranha coincidência que irá despoletar uma série de rememorações dolorosas: «isso liga-me a um passado que pensei estar muito atrás de mim e afasta para o lado os cinquenta anos com uma ligeireza quase obscena.» (pág. 115). Rememorações que vão tão longe como o ano de 1940, quando o narrador tinha sete anos; passando pela ocupação nazi na Noruega e a sua retirada com a vitória dos Aliados em 1945; o Verão do afloramento de toda a verdade em 1948, desfrutado na companhia do pai, na última vez que estiveram juntos, deixando a mãe e a irmã em Oslo, num local muito parecido com o que actualmente escolheu para morrer; e as duas mortes trágicas ocorridas, no intervalo de um mês, três anos antes do momento presente. O agora é Novembro de 1999, um mês antes da passagem do milénio, segundo o autor e uns tantos milhões de pessoas em todo mundo na altura, que, com a sua ignorância, contribuíram para mais umas vergastadas na tão maltratada Matemática – e já agora, a talho de foice, o mesmo erro é cometido por Frederico Lourenço por haver escolhido, no inquérito levado a cabo pelo blogue
Os Livros Ardem Mal, como o melhor livro de ficção portuguesa do século XX A Ilustre Casa de Ramires de Eça de Queirós publicado em 1900, logo, ainda, no último ano do século XIX, embora aqui interesse a influência que a obra exerceu na literatura portuguesa subsequente e nas gerações vindouras, e assim durante o século XX.

Per Petterson, com uma escrita limpa, escorreita, sem o recurso a artifícios de linguagem ou a uma bateria de figuras de estilo, consegue agarrar o leitor do princípio ao fim, alternando com mestria os diversos períodos históricos atrás referidos. E talvez seja nessa limpidez de linguagem onde reside o principal brilho da obra: inocente, jamais estéril, que consegue captar a ingenuidade imanente de um ser intrinsecamente bom, profundamente emocional e sem a mácula da violência dos tempos que corriam.
Não há ressentimento, nem qualquer vestígio de vingança ou sequer de autoflagelação por um passado inamovível, em que se desconhece por completo a importância e o valor do papel desempenhado, nem isso parece importar ao narrador: «Se me irei transformar no herói da minha própria vida, ou se esse papel será representado por outra pessoa, é isso que estas páginas irão mostrar.» (pág. 228) Trata-se da abertura do romance de Charles Dickens, David Copperfield, o escritor preferido de Trond que a sua filha Ellen (fruto do seu primeiro casamento), após o haver encontrado na sua cabana e isto depois de o ter procurado pela Noruega rural, já que aquele partira de Oslo sem avisar, lhe recomenda a releitura – este é, sem dúvida, na minha opinião, um dos episódios mais pungentes e comovedores de todo o livro.
De seguida Trond reflecte sobre as admiravelmente tocantes palavras da filha, depois de lhe haver citado a introdução de Dickens: «Não me é fácil responder àquilo. Não sabia que ela pensava daquele modo. Nunca mo disse. É óbvio que pelo simples motivo de que eu não estava lá quando ela precisara de falar, mas ela não pode saber com que frequência pensei o mesmo e li aquelas primeiras linhas de David Copperfield e depois tive de continuar, página após página, quase petrificado de terror porque tinha de ver se no fim tudo encaixava no seu devido lugar, e como é natural encaixava, mas demorava sempre muito tempo até me sentir seguro. No livro. A vida real era de certo modo diferente.» (pág. 229).

É esta a magia de Cavalos Roubados, o paradoxo da inquietação tranquila, de um raro lirismo na literatura contemporânea. E que melhor resumo nos pode dar a percebida epígrafe dissimulada, porque há uma pequena chamada na ficha técnica que nos alerta, sem mais assunto, para umas frases no interior do texto, cujo sentido é repetido umas páginas mais adiante. As palavras pertencem ao romance de 1934 Viagem no escuro (Voyage in the Dark) da escritora dominicana Jean Rhys (1890-1979):

«Foi como um cortinado se tivesse fechado e escondido tudo aquilo que eu sempre conhecera. Era quase como renascer. As cores eram diferentes, os cheiros diferentes, a sensação que tocar nas coisas nos dava interiormente era diferente. Não apenas a diferença entre calor, frio; claridade, escuridão; roxo, cinzento. Mas a diferença estava no modo como me sentia assustado e no modo como me sentia feliz.» (pág. 255).

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Uma nota final para as estrelas que encerram esta nota de apreciação. Das 40 obras publicadas este ano que tive a oportunidade de ler, três figuram na categoria de excepção – se se tratassem de hotéis, eram de super luxo –, às restantes 35 que figuram em posições inferiores a esta – das 5 estrelas (Muito Bom) a 1 estrela (Mau) –, uma vez que 2 não foram reveladas para esta contagem, Cavalos Roubados é aquela que se aproxima mais do limiar da genialidade, e só não figura na categoria mais acima dados o fôlego, a profundidade e a intemporalidade das obras de Musil, Cortázar e Donoso que aí são referenciadas; em suma, ainda não dispõe da pátina de genialidade, ainda não obtida pela curta distância temporal entre os dias que correm e o momento em que foi publicada.

Classificação final: ***** (Muito Bom)

Referência bibliográfica:
Per Petterson
, Cavalos Roubados. Cruz Quebrada: Casa das Letras, 1.ª edição, Outubro de 2008, 275 pp. (tradução de Maria João Freire de Andrade; obra original: Ut og stjæle hester, 2003).

Nota: esta obra será vítima da habitual citação dominical, amanhã, portanto.

[adenda: 22:50]: *Alertado por e-mail, dei conta que ficou por referir, no que à tradução diz respeito, que a versão editada pela Casa das Letras foi elaborada a partir da versão inglesa, Out Stealing Horses, da poetisa e tradutora Anne Born (tradutora de norueguês e dinamarquês, traduziu, entre outras, obras de Isak Dinesen/Karen Blixen), cuja tradução do 2.º romance de Petterson (Cavalos Roubados) foi objecto de enorme aclamação no meio literário anglófono, realçada pelo próprio júri do IMPAC Award. Quanto às minhas referências neste campo apenas se circunscrevem (constava do espírito) à comparação entre a tradução inglesa (que já havia lido em deambulações livreiras) e a tradução de Maria João Freire de Andrade – infelizmente, não sei norueguês, e como diz Chico Buarque «devia ser proibido debochar de quem se aventura em língua estrangeira.»
Noutro aspecto, seria, como parece óbvio, preferível que se procedesse à tradução directa da língua original, mesmo que, como é o caso presente, a primeira tradução (do norueguês para o inglês) seja a todos os títulos irrepreensível, há sempre algo que se perde. Na tradução de uma tradução essas perdas serão, decerto, maiores.

sexta-feira, 23 de novembro de 2007

Memórias de um cínico

Conta-se, no extenso anedotário da Literatura universal, que uma vez Saul Bellow terá dito a Gore Vidal que, um dia, gostaria de o apresentar ao seu filho para este poder ver in persona a verdadeira personificação do cinismo. Este dito, ou chiste literário, viu a luz do dia pela pena de Fred Kaplan, biógrafo de Gore Vidal – escreveu e publicou em 1999 o enciclopédico Gore Vidal: a Biography e editou, no mesmo ano, o inusitado livro de excertos de romances e de ensaios pertencentes à extensa bibliografia do autor americano, The essential Gore Vidal. Jornalista, colunista da Slate, Kaplan escreveu obras biográficas sobre eminências literárias como Charles Dickens ou Henry James, entre outros.
«Só li umas passagens da biografia – as suficientes para me dar conta da exactidão do título da crítica ao seu livro [a biografia escrita por Kaplan] publicada no The Times Literary Supplement: “Mal Interpretando Gore Vidal.”» (pág. 118). Vidal havia contratado Fred Kaplan para completar a sua biografia, previamente iniciada por Walter Clemons, que morreu subitamente em 1994, com 64 anos, de complicações provocadas pela diabetes. A pequena nota de censura atrás referida ficou a dever-se a uma referência da biógrafa de Paul Bowles sobre os supostos encontros gay, encenados por Jane Bowles e coreografados por um grupo de notáveis (Vidal e Capote incluídos), na afamada casa do casal em Tânger, mencionando como fonte o próprio Fred Kaplan. Vidal desmentiu. Ora, este pequeno episódio resume parte daquilo que Gore Vidal representa para opinião pública e publicada, por si só uma fonte inesgotável de ditos e mexericos no agitado universo cultural norte-americano.
Eis Navegação Ponto por Ponto, a segunda obra autobiográfica de Gore Vidal que inclui as suas memórias de 1964 a 2006, ano em que a obra foi originalmente publicada.
Em 1995, Vidal publica Palimpsest: A Memoir, o seu primeiro livro de memórias, que retrata os primeiros trinta e nove anos da sua vida (1925-1964) – infelizmente, à boa maneira portuguesa, esta obra ainda não foi editada no nosso país; teimosamente, e apesar das dolorosíssimas lições, constrói-se sempre a casa a partir do telhado... Que fazer? (já dizia o outro, bem caro a este que se auto-retrata.)
Eugene Luther Gore Vidal, ficcionista, ensaísta, dramaturgo, argumentista para cinema e televisão, político intermitente e analista político, em suma, figura pública, nasceu na academia de West Point, a 3 de Outubro de 1925, onde o pai exercia as funções de instrutor de voo. Neto, pelo lado materno, de Thomas P. Gore, o ilustre senador do Oklahoma – Estado que o próprio ajudou a fundar – pelo partido democrata norte-americano; filho de um conhecido empresário da aviação comercial, Eugene Vidal – fundou a companhia precursora da gigantesca TWA – e foi membro da equipa governamental de Franklin D. Roosevelt; parente por uma curiosa afinidade com Jackie Kennedy (co-enteada, no seu segundo casamento, a mãe de Vidal desposou Hugh Auchincloss, que, após a separação, viria a casar com a mãe de Jackie); aparentado com Jimmy Carter e primo afastado do incansável Al Gore. Conhecido pela sua frontalidade e pela crítica acerba daquilo a que chama de Império Americano e dos seus tiques imperialistas, que, segundo o próprio, progressivamente se vai afastando do republicanismo preconizado pelos Pais Fundadores, designadamente da visão política de Thomas Jefferson, Vidal é assumidamente um homem de esquerda, um reformista-progressista, pacifista – militou contra a guerra do Vietname e, de forma mais apaixonada, contra a guerra do Iraque, atitude reforçada pelo epíteto de “preemptive war” – guerra de preempção – e não “preventiva”, como alguns lhe chamaram, os seus ideólogos, os neocons, assim como os perpetradores subsumidos à tríade Bush-Cheney-Rumsfeld.

Apesar de a obra dispor de um subtítulo que apela às “Memórias 1964-2006”, Vidal parte dos anos da depressão, passando por FDR, antes e durante a II Guerra Mundial, de Truman, Eisenhower a JFK e Bobby Kennedy, estabelecendo um evidente contraponto com os primeiros anos do terceiro milénio da Era Cristã caracterizados, segundo ele, pela violenta estocada final na República, assim como, na sua esfera íntima, pela morte de pessoas que lhe são (ou em tempos foram) próximas: começando em 2003 com a morte de Howard Austen – o seu companheiro de 53 anos –, de Susan Sontag em Dezembro de 2004 – correligionária política –, de Johnny Carson em Janeiro e Saul Bellow em Abril de 2005, culminando com a morte de Barbara Zimmerman Epstein, em Junho de 2006, a sua editora de toda a vida.
Com as obras de James Purdy em cima da sua secretária e um volume de ensaios de Montaigne «está por perto, o derradeiro critério para quem está a tentar lembrar-se de si mesmo e dos outros» (pág. 45), Vidal parte para escrita e inicia uma curta digressão sobre a sua vida que, treze anos após haver escrito Palimpsest (1992, pub. 1995), período em que se veria confrontado com as tais perdas irreparáveis no seu círculo afectivo mais restrito e conviveu com a economia de guerra americana “bushista” pós-11 de Setembro, revelou, uma vez mais, um estoicismo que os outros lhe reconhecem:
«Às vezes, pareço-me com Montaigne quando ele observa: “Adoptei a prática de ter sempre a morte não apenas na minha mente, mas também nos lábios”.»

Seguindo o método da navegação ponto por ponto – que o autor explica numa nota introdutória haver aprendido enquanto primeiro imediato numa embarcação de guerra nas Ilhas Aleutas, isto é, seguir curso com pontos de referência marcados no mapa em viagens anteriores, sem qualquer hipótese de usar a bússola e sem dispor de radar –, Vidal conta-nos as suas relações com a política e os políticos, com os seus notáveis e instáveis companheiros Tennessee Williams e Paul Bowles – que lhe viriam a provocar alguns amargos de boca, pela revelação, através das suas cartas a outros e biografias, de algumas deslealdades –, com os realizadores Federico Fellini e o neófito (ainda argumentista) Francis Ford Coppola, com o casal Paul Newman e Joanne Woodward, com Greta Garbo, como espectador de uma curiosa altercação entre Graham Greene e Anthony Burgess, não deixando de expressar as suas peculiares convicções políticas, como atesta o que se segue:
  • Rudolf Nureyev: «Odiava quando a imprensa o descrevia como um refugiado do comunismo. […] Nunca o ouvi denunciar o sistema soviético.», e citando o próprio bailarino, «Vim-me embora apenas para poder dançar mais. As grandes companhias de dança lá estão congeladas. Foi por isso que parti.» (pág. 224).
  • Aldo Moro, o PC italiano e as Brigadas Vermelhas: «O partido comunista italiano, tão frequentemente vilipendiado pela nossa imprensa [a americana], nunca constituiu certamente um grande perigo para ninguém e os grupos dissidentes radicais como as Brigadas Vermelhas dificilmente poderiam ser considerados comunistas» (pp. 225-226), antes refere o rapto e o assassinato do ex-primeiro-ministro Aldo Moro pelo grupo terrorista, e o conselho de todos para «sair de Itália que estava a cair no caos» (pág. 225), mas Vidal não sentiu medo, já que conhecia os políticos de Washington e a sua teoria do propalado «recrudescimento do comunismo em todo o mundo», afirmando que os europeus estão «fartos dos nossos gritos a prevenir a vinda dos lobos quando, na realidade, somos nós, os americanos, que cada vez mais somos identificados com o lobo que ataca a casa dos três porquinhos.»
  • Cuba e Fidel Castro: «[…] em 1959, sob a direcção geral do então vice-presidente Richard M. Nixon, que tinha muitas ligações interessantes com criminosos cubanos (sim, o seu misterioso amigo Bebe Rebozo estava ligado não apenas a gangsters, mas também ao ditador cubano Fulgencio Baptista, que foi derrubado por Fidel Castro para descontentamento dos criminosos, contrariedade essa que se transformou em raiva quando Fidel fechou, embora por pouco tempo, os casinos de Havana dirigidos pela máfia.» (pág. 264)
  • Charles Lindbergh: Gore desmente as supostas ligações de Lindbergh ao regime Nazi – acusação atribuída a Roosevelt como meio para aniquilação política do insigne aviador. Conta que este foi enviado à Alemanha por FDR para se certificar do poderio aéreo da Luftwaffe, havendo, na ocasião, recebido a famosa Cruz de Guerra de Hermann Göring, atribuída apenas como herói universal da aviação. Vidal acrescenta: «Apesar da aversão que tinha por ele [Lindbergh], FDR dava ouvidos aos bons conselhos e, assim, graças aos relatórios de Lindbergh, foi o nosso poderio aéreo que, no fim, nos fez ganhar a guerra.» (pág. 173).
Numa escrita escorreita, sem artifícios, atenta e mordaz, é na descrição dos seus anos na companhia Howard Austen – embora, Vidal nunca houvesse escondido a sua orientação sexual, que, por exemplo, lhe valeu um guerra surda que ainda hoje se mantém com o The New York Times, aquando da publicação do seu segundo romance A Cidade e o Pilar (1946), cuja forte carga homoerótica levou a um boicote tácito e ostensivo do exercício da crítica nas páginas do referido periódico nova-iorquino às obras que posteriormente viria a publicar –, vivendo durante os 53 anos numa literal união fraterna em diferentes localidades do globo: Edgewater – situada nas margens do rio Hudson no Estado de Nova Iorque –, em Roma, em Banguecoque, salientando as inúmeras festas no famoso Oriental, e em Hollywood Hills , assim como dos anos que decorreram a partir do momento em que Howard soube padecer de cancro pulmonar e da rápida evolução da doença, até à sua morte em 2003, que Vidal desfaz a figura de crítico atento, austero e impiedoso, para exibir o seu lado sentimental:
«Tenho saudades quando leio onde estava, em 1992, a minha sala de trabalho em Ravello [passa a citar Palimpsest]: “Um cubo branco de tecto arqueado e uma janela à minha esquerda com vista para o golfo de Salerno em direcção a Paestum; neste momento, um mar cinzento metálico criou uma neblina branca que obscurece o sol eternamente hostil.” Ao citar estas linhas, volto ao tempo em que Howard ainda está vivo e o nosso mundo intacto.» (pp. 45-46)

Irónico, divertido, com os habituais laivos de sarcasmo e de verrina, pontuado por passagens ternas e suaves, Navegação Ponto por Ponto lê-se com dedicação e entusiasmo, apesar de, por vezes, o autor cair num excessivo name dropping – embora, seja uma situação típica e frequente neste género de obra literária – confundido essencialmente o leitor não-americano, para quem, com elevado grau de probabilidade, alguns nomes nada dizem. Ademais, como o próprio título da obra parece indicar, verifica-se alguma sinuosidade discursiva, que pelo menos é consistente ao longo de toda a narrativa, prejudicando, contudo, uma razoável noção de linearidade temporal da história, perdendo-se, por vezes, o fio condutor, obrigando a uma releitura de alguns parágrafos.

Um comentário final para a edição portuguesa, sob chancela da editora Casa das Letras. Em primeiro lugar, não se entende o critério editorial que presidiu à supressão do índice remissivo, que consta da obra original e que neste tipo de obras funciona como um mapa essencial para uma simples releitura. Depois, a tradução é paupérrima, para além de alguns e recorrentes lapsos gramaticais que tornam penosa a sua leitura, contém erros factuais graves, que são imperdoáveis para qualquer pessoa que se interessa por esta coisa chamada literatura, como por exemplo a gritante troca de género da escritora – bartlebiana – de Por Favor Não matem a Cotovia, Harper Lee: «Numa biografia recente, observei, divertido, que uma das numerosas mentiras que Truman Capote tinha contado ao seu amigo de infância, Harper Lee, foi que, aos dez anos, tinha pilotado um avião.» (pág. 22). Finalmente, algumas referências a obras de outros autores aparecem com a tradução literal do título, situação que seria obviada através de um nada custoso e elementar trabalho de pesquisa. Como exemplo, na página 123, a obra-prima de Paul Bowles, The Sheltering Sky, surge como «O Céu Protector», quando está editada em Portugal sob o nome «O Céu que nos protege» – título que, em abono da verdade, foi corrigido pelo tradutor (ou pela revisora) mais à frente na obra.

Classificação: **** (Bom)
Referência bibliográfica:
Gore Vidal, Navegação Ponto por Ponto. Cruz Quebrada: Casa das Letras, 1.ª edição, Novembro de 2007, 271 pp. (tradução de José Luís Luna; obra original: Point to Point Navigation, 2006).