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segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Brennen, bevor es kann beobachtet werden

Volta Bradbury, os 451 ºF não garantem a pulverização completa desta coisa:



Que saloiada! Perante isto, o Para a Finlândia com Amor, de Cascais merecia, no mínimo, o Prémio da mise en scène, na secção Un Certain Regard em Cannes.

Ich bin ein baixa-da-banheiren.

sábado, 16 de janeiro de 2010

Deixai vir a mim as criancinhas


Pode parecer que, em tempos recentes, este blogue se acomodou na crista de uma vaga, aparentemente libertadora, de pedoterapia regressiva – um imergir curativo na massa obscura e decerto informe da minha mente, onde se preservam as cicatrizes da pressão de forças contrárias que moldaram o meu ego. Porém, a frase que ilumina o título não é nova – ó luz do mundo (recomenda-se o lenitivo óleo sobre tela de Holman Hunt). Uma só (e breve) ablução involuntária no rio sagrado da doutrina cristã na tenra idade, ministrada por um afanoso proselitista, confere ao púbere prosélito uma certeza da sua prolação há, pelo menos, 1977 anos. Assim nos transformam em objectos de fé que almejam alcançar o estatuto de pobres santos das agruras do mundo, todavia alegres na nossa vivência. Mas como dizia Michaux, num dos seus opúsculos místicos dedicados à repressão do eu, mesmo os santos alegres por vezes não conseguem escapar às violências.
Retornemos à frase. Um título. Ela acha-se lá no primeiro de Gutenberg, na repartição dos sinópticos – exceptua-se, por isso, o apocalíptico. E dá-me imenso jeito para esboçar uma tentativa de gracejo pela ambiguidade semântica e apertar O Laço Branco. A pureza que advém da Palavra. Só que Haneke subverteu a palavra, embora filmando como Dreyer, inóspito, austero e perfeccionista, optou pela desesperança e a indelével crueldade da Reforma, ao sobrelevar a mácula sem redenção, nem por força de uma directa intervenção divina – o deus ex machina dreyeriano de Ordet.
Uma parábola negra? Era uma vez um austríaco, nascido numa aldeia dos arrabaldes de Linz que se tornou alemão…
Es war einmal um alemão de Munique de nascimento (onde tudo começou, porventura nascido bem perto da Bürgerbräukeller ou da Löwenbräukeller) que se tornou austríaco e assim cresceu na aldeia de Wiener Neustadt…
Uma aldeia-tipo, situada no norte da Alemanha, incubadora da malignidade: Eichwald. A acção decorre em pleno advento das atrocidades do século alemão (1913-1914). Elíptico, tal como as secura e indiferença daquela assembleia imperturbável ante a sordícia de um passado recente bárbaro e criminoso (ver imagem), contrastando com a perturbadora surdez, sob o negro que se dissemina aos olhos atónitos do espectador, no fade out final – o habitual apelo exegético de Haneke.
Em suma, permite-se até ao mais pueril dos exegetas uma interpretação reducionista em apenas uma frase: «A liberalização do onanismo teria evitado o holocausto.»
Notas:
  1. Não tendo visto dois dos cinco filmes candidatos ao Globo de Ouro de “Melhor Filme em Língua Estrangeira” – acho inacreditável que o (segundo dizem) monumental Baaria de Tornatore não tenha ainda data marcada para a sua estreia em cinema no nosso país –, prevejo, ainda assim, pelo que pude ver dos três que restam, uma votação cerrada que ditará o seu vencedor no próximo domingo. Embora conceda uma preferência milimétrica a Um Profeta (Un Prophète) de Audiard, não posso afastar o maravilhoso e inesquecível drama enredado de Almodóvar e este Haneke (Palma de Ouro em Cannes em 2009) – todos tão diferentes entre si, nos planos técnico, ético e estético, o que dificulta a tarefa do prognóstico.
  2. É de recordar o subtítulo original de O Laço Branco: «Eine Deutsche Kindergeschichte» escrito, numa lentidão estudada, a vermelho sangue no genérico inicial num cursivo indecifrável («Uma história alemã para crianças».)

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

20 Anos

Tinha apenas 17 anos. Assistia pela televisão, dominado por um fascínio, quase hipnótico, difícil de explicar, ao júbilo de milhões de alemães e de tantas outras pessoas vindas de todas as partes do mundo perante o derrube de um dos muros mais simbólicos da História mundial. Revi-me nas famosas palavras de JFK, proferidas apenas cinco meses e quatro dias antes de ser assassinado em Dallas, numa cidade cercada por um dos regimes políticos mais ignóbeis que o Homem conheceu.
Naquele frio dia de Novembro chorei pelo grito de liberdade de um povo oprimido e tiranizado que se exprimia em lágrimas de felicidade por cada batida que abria uma fenda no muro da vergonha. Tal como eles, também «Ich bin ein Berliner».

Aquele beijo apaixonado entre dois tiranos do mundo moderno, representantes directos da ortodoxia estalinista, os filhos do monstro, é ainda admirado com uma nostalgia que não se consegue compreender, nem à luz da liberdade de expressão – esbarra com qualquer conceito de justiça, igualdade, humanismo, liberdade, integridade, dignidade da condição humana. E se agora me envergonho, não é pela falácia da comparação sobre a derrogação daqueles valores entre dois sistemas que em tempos se digladiaram, como meio de justificar o regresso do status quo pré-“9 de Novembro”. Se a minha cara se cobre de vergonha é em razão dos 446.994 portugueses, representados por 15 deputados (em 230) na Assembleia da República, que no passado dia 27 de Setembro ao exercer livremente o seu direito de voto – coisa impensável se a sua doutrina tivesse vingado no nosso país – se revêem nas palavras espúrias dos seus dirigentes sobres este acontecimento histórico.
Não me interessa o relativismo, as comparações e o revisionismo. Não interessa a história e o passo em frente. Mas o momento presente, vivido por milhões de pessoas como um valor absoluto de libertação.

«Há muita gente no mundo que realmente não compreende, ou dizem não compreender, qual é a grande divergência entre o mundo livre e o mundo comunista.
Deixem-nos vir a Berlim.
Há alguns que dizem que o comunismo é a vaga do futuro.
Deixem-nos vir a Berlim.
E há outros que dizem, na Europa ou noutro sítio qualquer, que nós podemos trabalhar com os comunistas.
Deixem-nos vir a Berlim.
E há ainda uns poucos que dizem que é verdade que o comunismo é um sistema perverso, mas permite-nos alcançar progresso económico.
Lasst sie nach Berlin kommen.
Deixem-nos vir a Berlim.»
Parte do discurso proferido por John Fitzgerald Kennedy, a 26 de Junho de 1963, em Berlim Ocidental [tradução livre: AMC, 2009]