«Havia algo acerca do homem e do rosto que eu vira sob a luz trémula das nossas lanternas. Agora de repente tenho a certeza. […] e se aquilo fosse algo de um romance, limitar-se-ia apenas a ser irritante. De facto, tenho lido muito, em especial durante os últimos anos, mas antes também o fazia, e tenho pensado sobre aquilo que li, e esse tipo de coincidência parece demasiado rebuscado na ficção, pelo menos nos romances contemporâneos, e acho que é difícil de aceitar. Pode parecer muito bem em Dickens, mas quando se lê Dickens estamos a ler uma longa balada de um mundo desaparecido, em que tudo tem de se juntar no fim como uma equação, em que o equilíbrio daquilo que foi anteriormente perturbado deve ser restaurado de modo a que os deuses possam sorrir. Talvez uma consolação ou um protesto contra um mundo que saiu dos eixos, mas agora já não é assim, o meu mundo não é assim, e nunca me dei bem com aqueles que acreditam que as nossas vidas são governadas pelo destino. Eles queixam-se, lavam as mãos e infundem piedade. Eu acredito que somos nós que modelamos as nossas vidas, de qualquer maneira, eu modelei a minha, valha o que valer, e assumo toda a responsabilidade. Mas de todos os lugares para onde me poderia ter mudado, tinha de aterrar exactamente aqui.»
Per Petterson, Cavalos Roubados, pp. 73-74.
[Cruz Quebrada: Casa das Letras, 1.ª edição, Outubro de 2008, 275 pp.; tradução de Maria João Freire de Andrade; obra original: Ut og stjæle hester, 2003.]
«Glenn Gould said, "Isolation is the indispensable component of human happiness."» [Contraponto] «How close to the self can we get without losing everything?»
Don DeLillo, “Counterpoint”, Brick, 2004.
Pelo apreço que tenho por este blogue, tenho um Prémio para ele, que espero que aceite.
ResponderEliminarUm abraço,