terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Amour e Indiferença

Não encontrei. O último fotograma de Amor de Haneke. Huppert, pouco depois, sentada na mesma cadeira, a do pai, siderada por um estranho brilho emoldurado pelo inquietante sossego da casa agora a seus pés. Remorso. Culpa, talvez. Mas é aquela apatia o oposto do Amor. A cruel indiferença que enche, em silêncio, o último fotograma antes do fade-out para a escuridão futura.

Música: Os Melhores Álbuns de 2012 – Byrne & St. Vincent



"Who"
David Byrne & St. Vincent – Love This Giant 
(4AD)

Nota: Todos os dias úteis às 10 da manhã em ponto, revelação, por ordem aleatória, de um dos dez melhores álbuns musicais do ano (a lista definitiva do Top 10, organizada por ordem de preferência, será publicada num dos dias que se seguem à exibição do último dos dez álbuns).

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Música: Os Melhores Álbuns de 2012 – Clinic



"Miss You"
Clinic – Free Reign 
(Domino)

Nota: Todos os dias úteis às 10 da manhã em ponto, revelação, por ordem aleatória, de um dos dez melhores álbuns musicais do ano (a lista definitiva do Top 10, organizada por ordem de preferência, será publicada num dos dias que se seguem à exibição do último dos dez álbuns).

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Resvalamento do Planalto



Ando por estes dias a observar, incrédulo e impotente (já não se trata de simples acédia), a subida, ainda por cima escabrosa, dos meus índices de PMD*. Com o efeito de retroacção sónica das Bombas V pynchonianas e o seu pavlovianismo, que por cá não se manifesta pela intumescência pré-libidinosa, nas convulsões anti-osmóticas com a espantosa turgidez narrativa de DFW**, os agonizantes odores de cansaço dos pupilos da ATE*** e que nos atingem fatalmente através de espúrias cadeiras de rodas canuck's, rejeitando com incompreensível intensidade a experialista Grande Concavidade: Quo vadis PMD!
Mais de duas mil duzentas páginas… Já nem há tempo para brevidade antologiada da ex-Auster, nem para a, pela cronologia, segunda pérola nabokoviana.
Terapêutica urgente: Reeducação Prescritiva, já!

A que vis andanças podemos tornar…****    

Notas:
*Propensão Marginal para a Demência.
**David Foster Wallace.
***Academia de Ténis de Enfield (“ETA” no original).

**** To what base uses we may return…

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Brennen, bevor es kann beobachtet werden

Volta Bradbury, os 451 ºF não garantem a pulverização completa desta coisa:



Que saloiada! Perante isto, o Para a Finlândia com Amor, de Cascais merecia, no mínimo, o Prémio da mise en scène, na secção Un Certain Regard em Cannes.

Ich bin ein baixa-da-banheiren.

domingo, 11 de novembro de 2012

Dedicado à 4.ª Internacional


E logo hoje que o bafio revolucionário se ergueu bicéfalo, como a águia da burocracia K&K dos Habsburgo, em palmas ritmadas que, num paradoxo não tão estranho, faz lembrar os arrebatados e pantomineiros congressos do PCUS.

E dizia Robert Harris no Sunday Times a propósito da publicação de uma celebrada e polémica biografia sobre aquele que burlescamente ficou para a História como o homem do piolet na cabeça:
«Se imaginar o aluno mais detestável, um radical amargo, sarcástico, arrogante, egoísta, insensível e imaturo e se congelar essa imagem no princípio do século, o resultado é: Trotsky… [Robert] Service torna absolutamente claro que o Trotskismo nada mais é que o Estalinismo embrionário… Raramente a patologia do tipo revolucionário, e suas consequências fatais, foi tão impiedosamente exposta como nesta biografia exemplar.»

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Rapsódia em Azul – Manhattan



Em degustação e por mais quatro anos…


Punch line: He’s done a great job on you. Your self-esteem is like a notch below Kafka’s.

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

39 anos, 7 meses e 3 dias

Não se trata de um filme romeno, nem tão-pouco da minha idade (sou infelizmente mais velho, embora cerca de 8 meses, para que conste), mas do tempo que decorreu entre a publicação original e a edição em Portugal de uma transgressão literária que, mesmo na actualidade, continua a fazer torcer várias mentes e a vergar à humilíssima condição de falível humano os reaccionários semideuses defensores do realismo flaubertiano (e há um muito na moda) – como se isto fosse uma competição interescolar ou de mensuração perimetral e da extensibilidade máxima do órgão da soberba na eterna refrega pela masculinidade.

É somente isto:
«Uma berraria vem através do céu. Já aconteceu antes, mas nada há que a compare com agora.»
Com chancela da Bertrand e tradução de Jorge Pereirinha Pires, eis a tão magistral, como polémica, obra de Thomas Pynchon, que motivou mesmo uma suspensão de atribuição do prémio Pulitzer em 1974, embora a obra tivesse sido unanimemente eleita pelo júri nomeado para a categoria de “Ficção” – a talho de foice, constituído pelos escritores e críticos literários Elizabeth Hardwick (1916-2007) e Alfred Kazin (1915-1998), e pelo escritor, ensaísta, eminente académico e crítico cultural Benjamin DeMott (1924-2005) , porém enfaticamente rejeitado pelos visionários membros do Conselho de Administração dos referidos galardões.

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Oportuno, no dia que hoje corre…


Adapte-se o contexto.
[Shhhh... no more words / Hear only the voice within. (Jalal ad-Din Rumi, 1207-1273).]

«É uma contradição […] Que cada dia e cada noite e o mundo se dividam naqueles que fazem escutas e torturam e aqueles que se calam e continuam calados.»
Herta Müller, Já então a raposa era o caçador, pág. 128
[Alfragide: Dom Quixote, 1.ª edição, Setembro de 2012, 239 pp; tradução de Aires Graça; obra original: Der Fuchs war damals schon der Jäger, 1992.]

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Quem?

(n. 1955)

Exemplar único em Portugal: Peito Grande, Ancas Largas (Lisboa: Ulisseia, 2007).

Diziam que era o Kafka à Beira-Mar, mas enganaram-se (por pouco) nas coordenadas geográficas, saiu o suposto Kafka das letras chinesas.

O seio rosado de Virgem Maria e a terminação lombar desnuda do rechonchudo Menino Jesus vistos pelo auto-reprimido de Shandong na abertura do seu único romance editado em Portugal:   
«From where he lay on the brick-and-tamped-earth sleeping platform, his Kang, Pastor Malory saw a bright red beam of light shining down on Virgin Mary’s pink breast and on the pudgy face of the bare-bottomed Blessed Infant in her arms.»
Mo Yan, Big Breasts, Wide Hips (New York: Arcade, 2004; trad. Howard Goldblatt.)
Sinais dos tempos: A Academia Sueca dobra-se ao poderio chinês e ao seu heteróclito Socialismo de Mercado. É histórico: o autor, com a sua profissão de fé mutista, instado a comentar o Prémio Nobel da Paz atribuído ao seu colega dissidente Liu Xiaobo disse que "nada tinha a dizer", da mesma forma que uns anos antes, transcreveu mudamente, com uma fé dilacerante, um dos muitos discursos do Educador do Povo para um livro comemorativo. Mao rejubilaria. Por cá, o MRPP renovou, decerto, a sua esperança no levantamento das vítimas da fome, como se sabe, completamente extinta na dita República Popular desde a derrota, em 1949, de Chiang Kai-shek. 

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Gula

Há quem lamente um certo adormecimento do vigor da ficção ultimamente produzida pelo escritor inglês Ian McEwan. Servem-se do seu natural processo de envelhecimento como caixa-de-ressonância dessa inexorabilidade, contribuindo, assim, para a perda de algum do tão característico negrume nas suas obras mais recentes. Porém, até hoje e que se note, esse negrume tão idiossincrático pairou sempre sobre a sua arte de contar histórias, e neste conceito conseguimos facilmente encaixar a sua prosa concisa, furiosa, brutal, de um sadismo muitas vezes concretizado num humor negro subtil (embora pareça um contra-senso, a subtileza desse humor esconde-se nos pormenores da vulgar vastidão das suas paisagens narrativas) ou numa ironia tão fina e penetrante que, sem darmos por isso, nos atira para um labirinto cuja única saída é o assombro e a inquietação que esse espanto provoca.
Expiação (Atonement, 2001) e Solar (2010) são, à primeira vista, os seus romances mais atípicos, porquanto no primeiro se nota a presença de um certo lirismo e de um pathos não existentes nas obras anteriores e logo abandonados nas obras que se lhe seguiram: Sábado (Saturday, 2005) e a novela Na Praia de Chesil (On Chesil Beach, 2007); no segundo a deliberada hiperbolização do grotesco e as passagens de uma hilaridade de levar o leitor às lágrimas parecem fugir ao cânone mcewaniano. Nada de mais enganador, são artifícios que um McEwan mais refinado, e talvez, na aparência, um pouco menos fragoso, foi desenvolvendo com o maturar da sua escrita: as sombras, a perversidade e a perfídia irreparável encontram-se no subtexto, por muito que alguém se queira enganar com as atribulações do romance "Robbie/Cecilia" ou com as peripécias pessoais e profissionais do físico, burlesco e peripatético, "Michael Beard".
Com Mel (Sweet Tooth, 2012; ed. port. Gradiva), McEwan acrescenta à sua ficção, por um lado, a auto-referencialidade e, por outro, a sucessão vertiginosa de factos, pseudo-rupturas, acidentes e peripécias na narrativa, que se consubstanciam numa representação simbólica das famosas caixas chinesas.  
Se, por exemplo, a auto-referencialidade se evidencia sobretudo com a colectânea de contos negros Entre os Lençóis (In Between the Sheets, 1978) – porventura o mais perverso livro de McEwan, cujas histórias servirão como base para a fulgurante estreia literária de "Thomas Haley" –, afigura-se-me como tortuoso, e até de difícil justificação, deixar cair o epíteto de áspero ou negro para caracterizar Mel. A gula tão humana no crisol da sua existência.

Deixando a crítica aos recenseadores ajuramentados da nação lusa, termino com a minha sintética opinião: Mel é mais uma pérola literária do escritor inglês do Hampshire, uma obra-prima. Surpreendente, escrito numa cadência sufocante – à medida que as caixas se vão abrindo –, é mais uma proeza de um virtuoso que parece dispor de recursos infinitos para nos assombrar de uma forma irresistível e, no entanto e por agora, Serena.

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Fincheriana


13 episódios

David Fincher (co-produtor da série e realiza os dois primeiros episódios), seguem-se:
Joel Schumacher
Charles McDougall
Carl Franklin
Alan Coulter

Com o notável duo de actores bem conhecidos do Mestre de Denver:
Kevin Spacey // Robin Wright

terça-feira, 2 de outubro de 2012

Nostalgia por esses anos sombrios

Hoje de manhã, ao ligar-me à Fnac espanhola, reencontrei um dos fantasmas do meu passado, Kristin Hersh. Em 1994, entre os meus 21/22 anos de (in)experiência empilhada por uma vida burguesa, de diletante – em busca de sombras para tornar expressiva uma vida anódina – a Rat Girl, que, uma década antes, noutra dimensão e suportando um fardo de um peso inaudito, vivenciou esse mesma deriva crepuscular, edita o seu primeiro e sublime álbum a solo, Hips and Makers.
Encontrávamo-nos naquele quarto atulhado com as superfluidades das nossas vidas – quando a dor, de que nos arrogávamos ser os sumos-sacerdotes curtisianos, ainda nos assombrava como uma nuvem pulviscular (vale-me o Mestre Calvino, o Italo) que só se dissipou na Primavera desse mesmo ano pela crueldade da tirania divina que fez de mim o agnóstico que vinte anos não mudaram – ligávamo-nos à eterna XFM, para desgosto dos ouvidos incuravelmente musicófobos da nossa mãe, e escutávamos, sem parar, as músicas que saltavam do disco, repetido pela novidade, da melhor estação de rádio de sempre: “Teeth” e “A Loon”, mas também “The Cuckoo”, e principalmente “Your Ghost” – nem de propósito, no início deste mês cujo fim marca uma década da Tua Ausência:

I think last night
you were driving circles around me.


quinta-feira, 27 de setembro de 2012

O Homem com Antenas de Visionário

Mais uma boa notícia (abaixo).
Nove contos escritos entre 1979 e 2011 por mais um dos autores do meu Olimpo e que empresta as suas palavras à epígrafe deste blogue à beira do colapso (nem de propósito!), editados em português pela Sextante.



Dilema Gaspar/Vladimir Ilyich: Que fazer? Dois Bukowski (Alfaguara); McEwan (Gradiva); as memórias de Rushdie, aka Franz Anton, a meticulosidade histórica da cruel Némesis sobre a hubris hitleriana de Kershaw (ambos editados na Dom Quixote); o último romance de Mrs. Auster, Siri Hustvedt (Asa); a reedição dos dois calhamaços do pós-guerra de Popper (Edições 70); e agora este.

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Para os Gulosos, estirpe McEwaniana

Eu, pecador, pela gula bibliómana com a marca do mestre de Aldershot, me confesso.

Um mês após o lançamento em Inglaterra, a Gradiva (obrigado!) publica no nosso país Sweet Tooth:



terça-feira, 4 de setembro de 2012

Este eterno desassossego…

«É uma das mais estranhas descobertas que um homem pode fazer: a de que a vida, seja como for que a levemos, contém momentos de contentamento. Há sempre comparações que se podem fazer com tempos piores, e o pêndulo não deixa de oscilar mesmo no perigo e na miséria.»
Graham Greene, O Poder e a Glória, pág. 77.
[Alfragide: Casa das Letras, 1.ª edição, Março de 2010, 248 pp.; tradução de Manuel Cordeiro; obra original: The Power and the Glory, 1940.]
…muralha, possivelmente intransponível, que nos mantém dentro desta fossa cavernosa.

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

É, de facto, o Melhor Filme de Sempre

(Scottie [James Stewart] entre a ficção obsidiante de Madeleine [Kim Novak] e a vertigem da realidade carnal de Judy [idem].)


«[No auge da obsessão, o catalisador para o desenlace | notas de minha autoria]

Judy: Não podias gostar de mim? Apenas de mim, tal como sou?
[…]
Judy: Se eu permitir que me modifiques, será o suficiente? Se fizer o que me pedes, passarás a amar-me?
Scottie: [veemente] Sim... [toldado pela obsessão] Sim!
Judy: Então eu faço-o. Eu já não me importo comigo.»


Nota: A exaltação da obra-prima do mestre Hitchcock por 846 especialistas em cinema na Sight & Sound, que pela primeira vez destrona o colossal O Mundo a Seus Pés (Citizen Kane, 1941) de Orson Welles, deixando para trás obras de realizadores (por ordem classificativa) como Ozu (2 filmes), Renoir, Murnau, Kubrick, John Ford, Vertov, Dreyer (3 filmes), Fellini (2 filmes), Eisenstein, Vigo, Godard (4 filmes, um deles o não-kermodesco À bout de souffle, 1960, ou O Acossado), Coppola (3 filmes), Bresson, Kurosawa (2 filmes), Bergman, Tarkovsky (3 filmes), Stanley Donen e Gene Kelly, Antonioni, Wong Kar-Wai, Lynch, Claude Lanzmann, Scorsese, De Sica, Buster Keaton e Clyde Bruckman, Fritz Lang, Hitchcock (de novo), Chantal Akerman, Béla Tarr, Truffaut, Rossellini, Satyajit Ray, Billy Wilder, Tati, Kiarostami, Pontecorvo, Chaplin, Mizoguchi, e Chris Marker (falecido há 3 dias, no dia em que completava 91 anos).

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Por fim, fecharam-se os lábios

«Às vezes, pareço-me com Montaigne quando ele observa: “Adoptei a prática de ter sempre a morte não apenas na minha mente, mas também nos lábios”.»


(West Point, NY, 3/Outubro/1925 – Hollywood Hills, CA, 31/Julho/2012)

Parte do que eu poderia dizer, já o disse.
O que dizem eles, pobre e atabalhoadamente.
E o que diz o João, porventura o maior admirador e conhecedor da vida e da obra deste americano, feroz e mordaz, neste Portugal (dos pequeninos) que quase o ignora.

sexta-feira, 20 de julho de 2012

Kasdan


Um tipo aprende a gostar de um filme – you can’t always get what you want, com o London Bach Choir… Karen, JoBeth Williams, dá o mote para a celestial ironia que acompanha o caixão à sua cova –, incutido por um tio solteirão que, por haver nascido depois do tempo, completou os seus dezoito anos em pleno PREC, tarde para esfrangalhar os nervos no Ultramar, bem a tempo da fraternidade herbácea, do espírito comunitário e da promoção da propriedade pública conjugal, e do livro vermelho do camarada Mao, e depois espera, desespera e jamais alcança por outra coisa igual do idealista Lawrence, o Kasdan de um filme só*.
Eis que há algumas semanas regressou, e o meu espírito rememorativo trouxe uma esperança – será que é desta? Foi logo desfeita pelos medíocres fogachos entrevistos na tela através do anúncio da sua estreia iminente por cá, bem como na sua (má… destruidora) crítica, em que destaco esta de Nick Schager (Mick Jagger!?), com a lapidar e porventura enluvável frase que abre a sua recensão na Slant:
«A lost-dog drama so insufferable it makes one wish its human characters would also run off and never return […]»
E que desperdício: Dianne Wiest e Diane Keaton, pelas raparigas; Kevin Kline e Sam Shepard, pelos rapazes.
Olha a gravata e… passa, enquanto o polivalente David Frost, entre o furo do exsudativo e gravador (não, não esculpia lápides) Richard Nixon e o flower power, apresenta os Stones em estúdio… e depois fala com o Príncipe Carlos:




Nota: *Exagero para fins dramáticos, ainda que bem longe da hipérbole. Kasdan antes do Big JointChill, realizou o bastante aceitável e polémico Noites Escaldantes (Body Heat, 1981) – emparelhamento e harmonia perfeitos Turner/Hurt –, e escreveu para o ecrã o melhor Star Wars (O Império…) e o mais sério Indiana Jones (o da Arca), mas também rivalizou com o Gallo – não o Vincent, o azeite – no gorduroso O Guarda Costas (The Bodyguard, 1992), protagonizado por aquela dupla inolvidável: o Tony Carreira dos ecrãs made in Hollywood (que para além de não se limitar a guardar, também não ficou só pelas costas), e a personificação mais perfeita do Hoover – é tempo livre! – de Beverly Hills e arredores; dizem que não houve pó que lhe resistisse e, como há pouco tempo se provou, pulverizou-se no éter.

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Defender o indefensável

Uma pequena amostra para o título deste texto pode ser testada no argumentário do crítico retro-palavroso da BBC Mark Kermode. Kermode na construção do seu novíssimo Film Club* escolheu Breathless (filme de 1983, realizado por Jim McBride, que em Portugal levou com o título de O Último Fôlego, talvez mais ajustado ao seu magnífico antepassado gaulês, que agora já ganhou raízes inextirpáveis como O Acossado) para a sua primeira fita – o que tu queres sei eu (daí a “fita”): gerar discussão.
Quem não se lembra deste filme? Era a sensação mediática do momento, em que eu, puto ladino, me introduzi à sorrelfa num das inúmeras salas de cinema que a minha cidade outrora possuía. Na altura Godard soava-me bem, mas deveria pertencer a uma qualquer corrente esotérica de alto coturno, apesar de reconhecer Truffaut (via Spielberg), embora desconhecesse que fora o autor  usurpado – do guião. Saí do cinema com uma irritação profunda pela semanada despendida com aquela banhada. É que na altura – e ainda despontava em mim o maniqueísmo tão adolescente – já não suportava aquele cabotino muito na moda apelidado de Gere, o que se agravou pela misérrima interpretação de uma francesa, para mim desconhecida e ainda hoje entre as brumas da cinefilia, de sobrenome Kaprisky. E todo aquele filme, a sua deplorável mise-en-scène
Mais tarde, muito mais tarde, no processo de refinamento do gosto pessoal, soube-o, porque vi o original produzido no alvor da Nova Vaga para comparação com o seu sucessor americano. Confrontei-o com o meu ainda existente caderno de apontamentos da era pré-púbere e notei que, apesar do momento de enjoo de antanho, houvera pecado mesmo assim por uma certa condescendência infantil. Belmondo/Seberg (Jean [ea=i], esta última, esse milagre tão bem construído pelos franceses) versus Gere/Kaprisky. Ou Godard versus McBride (literal: o filho da noiva). Nada importa para Kermode. São obras diferentes sobre o mesmo argumento. Concordo. Mas há limites, e o filme de 1983 é soberanamente mau. Mas o pecado da gula pela confrontação foi irresistível, e surgiu um segundo vídeo a comprovar isso mesmo. Kermode espalha-se ao comprido pelo inusitado exercício.
O indefensável arrazoado (as calças ao xadrez, a «majestade resplandecente» de Gere em relação a Belmondo, sexo no chuveiro com Elvis e as Mentes Suspeitas, e pasme-se a arquitectura, numa comparação subentendida Los Angeles versus Paris, o que só confirma a estética de McBride em detrimento de Godard):



Entretanto, os primeiros críticos americanos a recensear o último bat-onanismo do Nolan, vêem-se de novo perseguidos pelos fãs do morcego Bale com os seus estrepitosos efeitos sonoros e flamejantes efeitos especiais que se fundem numa caldeirada pseudo-metafísica, antes sequer de o filme ter estreado. É a crítica ao crítico por antecipação**.
Prepara-te, Luís Miguel, se a tua recensão for similar às duas anteriores, vais levar com a geração “Produções Fictícias” em cima e com argumentos do quarto fechado

Notas: *O segundo filme escolhido por Kermode foi o pior e o mais escabroso de Lynch, um slapstick chamado Twin Peaks: Os Últimos Sete Dias de Laura Palmer (Twin Peaks: Fire Walk with Me, 1992).
**Para ficar a saber mais, ler na Slate um versão resumida dos últimos acontecimentos em «Batman Fans Go After Critics (Again)».