quinta-feira, 2 de agosto de 2012

É, de facto, o Melhor Filme de Sempre

(Scottie [James Stewart] entre a ficção obsidiante de Madeleine [Kim Novak] e a vertigem da realidade carnal de Judy [idem].)


«[No auge da obsessão, o catalisador para o desenlace | notas de minha autoria]

Judy: Não podias gostar de mim? Apenas de mim, tal como sou?
[…]
Judy: Se eu permitir que me modifiques, será o suficiente? Se fizer o que me pedes, passarás a amar-me?
Scottie: [veemente] Sim... [toldado pela obsessão] Sim!
Judy: Então eu faço-o. Eu já não me importo comigo.»


Nota: A exaltação da obra-prima do mestre Hitchcock por 846 especialistas em cinema na Sight & Sound, que pela primeira vez destrona o colossal O Mundo a Seus Pés (Citizen Kane, 1941) de Orson Welles, deixando para trás obras de realizadores (por ordem classificativa) como Ozu (2 filmes), Renoir, Murnau, Kubrick, John Ford, Vertov, Dreyer (3 filmes), Fellini (2 filmes), Eisenstein, Vigo, Godard (4 filmes, um deles o não-kermodesco À bout de souffle, 1960, ou O Acossado), Coppola (3 filmes), Bresson, Kurosawa (2 filmes), Bergman, Tarkovsky (3 filmes), Stanley Donen e Gene Kelly, Antonioni, Wong Kar-Wai, Lynch, Claude Lanzmann, Scorsese, De Sica, Buster Keaton e Clyde Bruckman, Fritz Lang, Hitchcock (de novo), Chantal Akerman, Béla Tarr, Truffaut, Rossellini, Satyajit Ray, Billy Wilder, Tati, Kiarostami, Pontecorvo, Chaplin, Mizoguchi, e Chris Marker (falecido há 3 dias, no dia em que completava 91 anos).

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Por fim, fecharam-se os lábios

«Às vezes, pareço-me com Montaigne quando ele observa: “Adoptei a prática de ter sempre a morte não apenas na minha mente, mas também nos lábios”.»


(West Point, NY, 3/Outubro/1925 – Hollywood Hills, CA, 31/Julho/2012)

Parte do que eu poderia dizer, já o disse.
O que dizem eles, pobre e atabalhoadamente.
E o que diz o João, porventura o maior admirador e conhecedor da vida e da obra deste americano, feroz e mordaz, neste Portugal (dos pequeninos) que quase o ignora.

sexta-feira, 20 de julho de 2012

Kasdan


Um tipo aprende a gostar de um filme – you can’t always get what you want, com o London Bach Choir… Karen, JoBeth Williams, dá o mote para a celestial ironia que acompanha o caixão à sua cova –, incutido por um tio solteirão que, por haver nascido depois do tempo, completou os seus dezoito anos em pleno PREC, tarde para esfrangalhar os nervos no Ultramar, bem a tempo da fraternidade herbácea, do espírito comunitário e da promoção da propriedade pública conjugal, e do livro vermelho do camarada Mao, e depois espera, desespera e jamais alcança por outra coisa igual do idealista Lawrence, o Kasdan de um filme só*.
Eis que há algumas semanas regressou, e o meu espírito rememorativo trouxe uma esperança – será que é desta? Foi logo desfeita pelos medíocres fogachos entrevistos na tela através do anúncio da sua estreia iminente por cá, bem como na sua (má… destruidora) crítica, em que destaco esta de Nick Schager (Mick Jagger!?), com a lapidar e porventura enluvável frase que abre a sua recensão na Slant:
«A lost-dog drama so insufferable it makes one wish its human characters would also run off and never return […]»
E que desperdício: Dianne Wiest e Diane Keaton, pelas raparigas; Kevin Kline e Sam Shepard, pelos rapazes.
Olha a gravata e… passa, enquanto o polivalente David Frost, entre o furo do exsudativo e gravador (não, não esculpia lápides) Richard Nixon e o flower power, apresenta os Stones em estúdio… e depois fala com o Príncipe Carlos:




Nota: *Exagero para fins dramáticos, ainda que bem longe da hipérbole. Kasdan antes do Big JointChill, realizou o bastante aceitável e polémico Noites Escaldantes (Body Heat, 1981) – emparelhamento e harmonia perfeitos Turner/Hurt –, e escreveu para o ecrã o melhor Star Wars (O Império…) e o mais sério Indiana Jones (o da Arca), mas também rivalizou com o Gallo – não o Vincent, o azeite – no gorduroso O Guarda Costas (The Bodyguard, 1992), protagonizado por aquela dupla inolvidável: o Tony Carreira dos ecrãs made in Hollywood (que para além de não se limitar a guardar, também não ficou só pelas costas), e a personificação mais perfeita do Hoover – é tempo livre! – de Beverly Hills e arredores; dizem que não houve pó que lhe resistisse e, como há pouco tempo se provou, pulverizou-se no éter.

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Defender o indefensável

Uma pequena amostra para o título deste texto pode ser testada no argumentário do crítico retro-palavroso da BBC Mark Kermode. Kermode na construção do seu novíssimo Film Club* escolheu Breathless (filme de 1983, realizado por Jim McBride, que em Portugal levou com o título de O Último Fôlego, talvez mais ajustado ao seu magnífico antepassado gaulês, que agora já ganhou raízes inextirpáveis como O Acossado) para a sua primeira fita – o que tu queres sei eu (daí a “fita”): gerar discussão.
Quem não se lembra deste filme? Era a sensação mediática do momento, em que eu, puto ladino, me introduzi à sorrelfa num das inúmeras salas de cinema que a minha cidade outrora possuía. Na altura Godard soava-me bem, mas deveria pertencer a uma qualquer corrente esotérica de alto coturno, apesar de reconhecer Truffaut (via Spielberg), embora desconhecesse que fora o autor  usurpado – do guião. Saí do cinema com uma irritação profunda pela semanada despendida com aquela banhada. É que na altura – e ainda despontava em mim o maniqueísmo tão adolescente – já não suportava aquele cabotino muito na moda apelidado de Gere, o que se agravou pela misérrima interpretação de uma francesa, para mim desconhecida e ainda hoje entre as brumas da cinefilia, de sobrenome Kaprisky. E todo aquele filme, a sua deplorável mise-en-scène
Mais tarde, muito mais tarde, no processo de refinamento do gosto pessoal, soube-o, porque vi o original produzido no alvor da Nova Vaga para comparação com o seu sucessor americano. Confrontei-o com o meu ainda existente caderno de apontamentos da era pré-púbere e notei que, apesar do momento de enjoo de antanho, houvera pecado mesmo assim por uma certa condescendência infantil. Belmondo/Seberg (Jean [ea=i], esta última, esse milagre tão bem construído pelos franceses) versus Gere/Kaprisky. Ou Godard versus McBride (literal: o filho da noiva). Nada importa para Kermode. São obras diferentes sobre o mesmo argumento. Concordo. Mas há limites, e o filme de 1983 é soberanamente mau. Mas o pecado da gula pela confrontação foi irresistível, e surgiu um segundo vídeo a comprovar isso mesmo. Kermode espalha-se ao comprido pelo inusitado exercício.
O indefensável arrazoado (as calças ao xadrez, a «majestade resplandecente» de Gere em relação a Belmondo, sexo no chuveiro com Elvis e as Mentes Suspeitas, e pasme-se a arquitectura, numa comparação subentendida Los Angeles versus Paris, o que só confirma a estética de McBride em detrimento de Godard):



Entretanto, os primeiros críticos americanos a recensear o último bat-onanismo do Nolan, vêem-se de novo perseguidos pelos fãs do morcego Bale com os seus estrepitosos efeitos sonoros e flamejantes efeitos especiais que se fundem numa caldeirada pseudo-metafísica, antes sequer de o filme ter estreado. É a crítica ao crítico por antecipação**.
Prepara-te, Luís Miguel, se a tua recensão for similar às duas anteriores, vais levar com a geração “Produções Fictícias” em cima e com argumentos do quarto fechado

Notas: *O segundo filme escolhido por Kermode foi o pior e o mais escabroso de Lynch, um slapstick chamado Twin Peaks: Os Últimos Sete Dias de Laura Palmer (Twin Peaks: Fire Walk with Me, 1992).
**Para ficar a saber mais, ler na Slate um versão resumida dos últimos acontecimentos em «Batman Fans Go After Critics (Again)».

quinta-feira, 28 de junho de 2012

Um Trio

Poucas palavras e longe da semântica concupiscente do linguajar da contemporânea concepção metro que o título poderia encerrar, eis a minha escolha ternária (expressa na imagem, tendo presente que, as anteriores e as poucas que se lhe seguem, foram mesmo as únicas palavras escritas neste blogue sobre o evento findo):

Nota: A Estrela não foi incluída, não por pressão de um apriorismo (que o há), mas sobretudo pela espantosa versatilidade fonética que lhe permite enunciar, urbi et orbi, a palavra “olusedade”.

terça-feira, 26 de junho de 2012

O Scozzy com Metafísica

By Martin Amis*
«Hoje em dia é tudo papelada. Foi essa a nossa evolução. Das picaretas… para a papelada.»**

Notas:
*Martin Amis, A Informação, pág. 199. Lisboa: Quetzal, Junho de 2012, 514 pp. (Tradução de Jorge Pereirinha Pires; obra original: The information, 1995.)
**E prossegue, mais adiante: «Um caos aparelhado […] a literatura [está] cada vez mais pesada e mais peluda, até tudo ter acabado e se chegar à papelada.»

quarta-feira, 20 de junho de 2012

E O Mestre regressa com...

The Master, P.T. Anderson


“Hopelessly Inquisitive”
P. Seymor Hoffman / J. Phoenix / Amy Adams & Laura Dern

Uma vez mais com BSO a cargo do assombroso radioheader Jonny Greenwood, por muito que custe ao irreconhecível, quase-afónico (perdeu o falsete de cana rachada), inchado e ressentido, como uma abóbora já mesmo esborrachada, Billy Corgan, um dos melhores guitarristas dos últimos tempos, simultaneamente responsável por inquietantes e geniais bandas sonoras.
Dou três exemplos:
  1. Haverá Sangue, de Paul Thomas Anderson (There Will Be Blood, 2007);
  2. Norwegian Wood, de Tran Anh Hung (Noruwei no mori, 2010);
  3. Temos de Falar sobre Kevin, de Lynne Ramsay (We Need to Talk About Kevin, 2011).

segunda-feira, 18 de junho de 2012

When it grows dark we always need someone*


Beach House, “Myth”, Bloom (2012; Bella Union)


Help me to name it! (Não te acomodes na indiferença perante o teatro do sofrimento. Aquilo que fomos.)
«“Nunca sabemos quem somos. São os outros que nos dizem quem e o que somos. Explicam-nos tantas vezes quem somos, e de formas tão diferentes, que, no final, acabamos por não saber em absoluto quem somos. Todos dizem de nós algo diferente. Até nós mesmos estamos sempre a mudar de opinião. Se a isso acrescentarmos que nos esforçamos por surpreender os outros sendo várias pessoas ao mesmo tempo, o que na verdade acaba por acontecer é que acabamos por não ter a menor noção de quem somos ou poderíamos ter sido” (Juan Lancastre, A Interrupção).»
Enrique Vila-Matas, Ar de Dylan, pág. 124.
[Lisboa: Teodolito, 1.ª edição, Março de 2012, 259 pp; tradução de Miranda das Neves; obra original: Aire de Dylan, 2012.]
*Nota: «Yes. It's odd — when it turns dark you need someone.» (Patricia Hollmann”, por Margaret Sullavan (1909-1960) em Três Camaradas (Three Comrades, 1938), de Frank Borzage (1893-1962).

sábado, 16 de junho de 2012

Fiat Tenebras


Incómodo. Perplexidade. Desconforto. Irritação. Sufoco. Prostração. Rendição. Êxtase.


Nestas quatro décadas a deambular por quilómetros de fotogramas em movimento, não me recordo de, no processo recapitulativo de apreciação de um filme, conseguir relacionar, num todo harmonioso, aquelas oito palavras que, com uma inquietante precisão, descrevem a minha experiência no seu visionamento.

Béla Tarr (n. 1955), o artífice, de quem apenas vi O Homem de Londres (A Londoni férfi, 2007).

Fiat Lux: o início dos 146 minutos com a narração do lendário delíquio de consequências irreversíveis de Nietzsche em Turim. O cavalo e a sua corrida fustigada pelo vento. Um velho. A filha. O anti-Génesis. Da Luz às Trevas; do descanso ao flagelo, em seis dias… o que fará Ele no 7.º?

quarta-feira, 6 de junho de 2012

¡Qué viva España!

Philip Roth
(n. 1933, Newark, NJ, EUA)


Notas:
1) Aos vetustos membros da Academia Sueca esta notícia jamais chegará (Ah, impenetrável couraça snob esquerdóide!) Roth está entre aqueles que não participam no diálogo da cultura mundial (Engdahl dixit);
2) Para mais informações em português, consultar a notícia em actualização do Público

domingo, 20 de maio de 2012

Roth dobra o cabo das tormentas em Portugal


Espero que não seja apenas um fogacho, um daqueles lampejos que sói iluminar algumas cabeças de responsáveis editoriais em Portugal, e que se agarre o touro pelos cornos publicando paulatinamente toda a obra do maravilhoso Philip Roth que, vergonhosamente, ainda não se viu enformada pela língua de Camões neste lado do Atlântico.
Foi em 1959 que Roth lançou a sua primeira obra, constituída por uma novela e cinco contos e que desde logo colocou em rebuliço o mundo das letras norte-americanas.
Em pouco mais de meio século, com 27 obras de ficção originalmente publicadas – não entrando em consideração com as dezenas de contos e ensaios, e as obras de não-ficção –, e com a publicação garantida da sua opera omnia pela Library of America, o injustiçado não-Nobel, à maneira luso-heteróclita e descontando o republicadíssimo O Complexo de Portnoy de 1969 (Portnoy’s Complaint), só tem obra publicada a partir da sua novela dialógica de 1990 Traições (Deception), editada pela Bertrand, embora ainda não exista a publicação que se lhe seguiu: Operation Shylock (1993).
Em suma, Roth tem apenas 48% da sua obra de ficção publicada em Portugal, em que 44% se refere, apenas, aos últimos 22 anos da sua actividade literária de 53.
Amanhã, está prometido, dobrar-se-á o tormentoso cabo da metade. Uma boa esperança, espero que não vã:        

«A primeira vez que vi a Brenda, pediu-me que lhe tomasse conta dos óculos. Deu uns passos até à extremidade da prancha de saltos e fitou a piscina com olhos enevoados; até podia estar vazia, que a Brenda, míope como era, não teria dado por nada. Fez uma belíssima entrada na água e, passado um momento, estava a nadar de regresso à margem da piscina, a cabeça, de cabelos curtos e acobreados, erguida no prolongamento do corpo como uma rosa na ponta de um caule comprido. Içou-se para a margem fazendo deslizar o corpo e veio ter comigo. – Obrigada – disse, de olhos aquosos mas não por causa da água. Estendeu a mão e pegou nos óculos, mas só os pôs depois de virar costas e começar a andar. Fiquei a vê-la afastar-se. De repente apareceram-lhe as mãos atrás das costas. Agarrou os fundilhos do fato de banho com o polegar e o indicador de cada mão e com um gesto rápido repôs no lugar a carne que tinha ficado à vista. Ferveu-me o sangue nas veias.
Nessa noite, antes de jantar, telefonei-lhe.
»
Philip Roth, “Goodbye, Columbus”, Goodbye, Columbus e cinco contos, pág. 15.
[Alfragide: Dom Quixote, 1.ª edição, 2012, 304 pp.; tradução de Francisco Agarez; obra original: Goodbye, Columbus; 1959.]

terça-feira, 24 de abril de 2012

Emersão da escuridão


São só cinco minutos. Volto já (erigi a placa infernal) ao conforto identitário das trevas na época de triunfo dos esbirros das nobres causas e dos actos majestáticos – os que confortavelmente se consideram semideuses, pais da pátria, canalhas impunes no alto da sua torre de marfim.
E porquê? Apenas para aplaudir o magnífico trabalho da Asa na limpeza de esteticista dos vetustos frontispícios das obras de Paul Auster. São deslumbrantes e o Miguel Seara mostra-as aqui em pormenor.
Aproveito a oportunidade para a publicação da minha volúvel austerlista, que talvez se manifeste numa estranha, porque disciplinada, recapitulação bienal, pela recordação de um instante, o punctum que sobrevém pela câmara clara da minha memória:
  1. Leviathan (1992)
  2. A Música do Acaso (The Music of Chance, 1990)
  3. A Trilogia de Nova Iorque (The New York Trilogy, 1987)
  4. Invisível (Invisible, 2009)
  5. O Livro das Ilusões (The Book of Illusions, 2002)
  6. Palácio da Lua (Moon Palace, 1989)
  7. No País das Últimas Coisas (In the Country of Last Things, 1987)
  8. Sunset Park (2010)
  9. Timbuktu (1999)
  10. Mr. Vertigo (1994)
  11. As Loucuras de Brooklyn (The Brooklyn Follies, 2005)
  12. A Noite do Oráculo (Oracle Night, 2003)
  13. Homem na Escuridão (Man in the Dark, 2008)
  14. Viagens no Scriptorium (Travels in the Scriptorium, 2006)

Imerjo, com o capacete de bombeiro… Por vezes a identificação estética é abalada por uma certa obscenidade de discernimento que estilhaça a convicção do mais devoto, embora neste caso, conceda, é sempre auto-reparável.
«1952. Aos cinco anos, despido na banheira, só, suficientemente crescido para te lavares sem ajuda, e enquanto estás estendido de costas na água quente, o teu pénis fica de repente erecto, emergindo acima da linha de água. Até esse momento, apenas havias visto o teu pénis de cima, de pé e a olhar para baixo, mas a partir desta nova posição estratégica, mais ou menos à altura da linha de visão, discorres que a ponta do teu órgão masculino circuncidado exibe uma semelhança notável com um capacete. Um género antiquado de capacete, como o que os bombeiros usavam nos finais do século XIX. Esta revelação é-te agradável, porque nesta altura da tua vida a tua maior ambição é seres bombeiro quando cresceres, considera-lo como o trabalho mais heróico à superfície da terra (sem dúvida que o é), e quão conveniente é que tenhas um capacete de bombeiro esculpido em ti próprio, precisamente na parte do corpo que, para além disso, se parece e funciona como uma mangueira.»
Paul Auster, Diario de invierno (Winter Journal), pág. 22.
[Tradução: AMC; edição espanhola da Anagrama, Fevereiro de 2012 – a edição original americana é publicada em Agosto.]

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Uma cadeira de rodas…


…mental, por favor, ou a história de um comunista armado em Redentor milagreiro.


Apesar da minha ausência desta página electrónica por motivos de força maior – motivos cuja presença se prolongará por um tempo ainda não definido – não resisti em postar um dos muitos exemplos da ridicularia do comentário e da crítica fáceis que se instalaram na (in)comunicação social portuguesa e nos políticos paineleiros que pululam divertidamente pelos estúdios das estações de televisão para uma pequena subvenção que compense os seus magros salários como políticos profissionais – jogo preferido: tiro ao Passos e/ou aos seus súbditos. Que alegre algazarra.
Estava eu sentado a jantar, tarde e a más horas, na sexta-feira passada em frente ao televisor sintonizado na SIC-Notícias e aquele seu peculiar jornal do “muito obrigado pela sua presença” e da “excelência de conteúdos”, quando o inefável Ruben de Carvalho – cada vez mais volumetricamente próspero –, depois de a estação de Carnaxide ter passado as inacreditáveis (qualifico a deontologia profissional) imagens recolhidas pela concorrente TVI sobre a famosa conversa informal entre os Ministros das Finanças de Portugal e da Alemanha.
Ruben de Carvalho disse, perdigotando uma área aceitável em seu redor:
«Faz-me vergonha e deprime-me profundamente. Acho inqualificável aquela imagem… enfim… de servilismo, é uma palavra, talvez, extremamente violenta […] não hesitaria em usar a palavra arrogância em relação ao seu outro interlocutor que fala com o seu par, em termos de hierarquia governamental em termos de União, sentado na cadeira, sem ter a gentile… e que inclusivamente se volta de cost… bom, uma coisa verdadeiramente lamentável, o que, digamos, ainda torna mais chocante o agradecimento do Sr. Ministro das Finanças… aliás, um comentário que eu li num jornal – que eu acho que é de uma grande crueldade, mas inteiramente adequado –, é um comentário do coiso que dizem… verificaram se ele estava assente num joelho ou em dois? [risos de escárnio javalinos] Porque de facto a imagem que aparece…»
Fiquei completamente atónito, mas ao mesmo tempo com pena pela constatação da ignorância que é transversal à classe política portuguesa (atrevo-me mesmo a asseverar: é mesmo endémica), nessa noite subsumida no comunista comentador, e sem rectificações, que urgiam, pelo reverencial Mário Crespo e pelo desconsolado (ou desconsolante) líder da bancada parlamentar do CDS.
Ora, o tal Ministro das Finanças alemão, é uma figura mundialmente conhecida pelos seus anos de militância política na Alemanha e pelos cargos que já ocupou na outrora 3.ª maior economia em termos mundiais, e que se chama Wolfgang Schäuble.
Herr Schäuble é paraplégico, caro edil.
Num dia de Outubro de 1990 (portanto, se a matemática não me trai, há quase 21 anos e meio), foi vítima de uma tentativa de assassínio numa acção de campanha eleitoral no Estado Federal de Baden-Württemberg, perpetrada por um louco que o brindou com uma salva de três tiros, tendo um deles atingido a espinal-medula, deixando-o paralisado da cintura para baixo para todo o sempre. Desde a alta hospitalar, Schäuble desloca-se em cadeira de rodas.
Enfim, ou Gaspar aluga uma e passa a falar com o seu homólogo alemão de igual para igual – nunca perdendo de vista a autoparaplegia por uma questão solidariedade de cargos. Ou Rúben de Carvalho necessita urgentemente de um dispositivo qualquer que induza, em termos intelectuais, os mesmos efeitos que a cadeira de rodas produz em Schäuble.

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Polichinelo e o seu segredo em Hollywood


Bocejo de previsibilidade.
Prática abandonada em 2009, quando iniciei o programa de desintoxicação dos Óscares da Academia – técnica dos 12 passos , retomo, à guisa de serviço público, ao exercício de publicação da habitual lista dos filmes com maior número de nomeações (este ano integram a referida lista 8 filmes com 4 ou mais nomeações) seguindo o critério usado na fase oscarómano:
[Critério: Em destaque (a bold) as nomeações pertencentes ao denominado Top 5, ou seja, aquelas que se inserem nas cinco categorias artísticas consideradas como as mais importantes na atribuição do galardão: melhores filme, realização, argumento (original e adaptado), actor principal e actriz principal. Ao lado do número de nomeações para cada filme, figurará o número de nomeações para o Top 5, seguida da notação “+”.]

– A Invenção de Hugo / Hugo (11 nomeações, 3+)
Argumento Adaptado – John Logan
Banda Sonora Original – Howard Shore
Direcção Artística
Efeitos Especiais
Efeitos Sonoros
Filme
Fotografia
Guarda-Roupa
Montagem
Realização – Martin Scorsese
Som

– O Artista / The Artist (10 nomeações, 4+)
Actor – Jean Dujardin
Actriz Secundária – Bérénice Bejo
Argumento Original – Michel Hazanavicius  
Banda Sonora Original – Ludovic Bource
Direcção Artística
Filme
Fotografia
Guarda-Roupa
Montagem
Realização – Michel Hazanavicius

– Cavalo de Guerra / War Horse (6 nomeações, 1+)
Banda Sonora Original – John Williams
Direcção Artística
Efeitos Sonoros
Filme
Fotografia
Som

– Moneyball – Jogada de Risco / Moneyball (6 nomeações, 3+)
Actor – Brad Pitt
Actor Secundário – Jonah Hill
Argumento Adaptado – Steven Zaillian, Aaron Sorkin e Stan Chervin
Efeitos Sonoros
Filme
Montagem

– Os Descendentes / The Descendants (5 nomeações, 4+)
Actor – George Clooney
Argumento Adaptado – Alexander Payne, Nat Faxon e Jim Rash
Filme
Montagem
Realização – Alexander Payne

– Millennium 1: Os Homens que Odeiam as Mulheres / The Girl with the Dragon Tattoo (5 nomeações, 1+)
Actriz – Rooney Mara
Efeitos Sonoros
Fotografia
Montagem
Som

– Meia-Noite em Paris / Midnight in Paris (4 nomeações, 3+)
Argumento Original – Woody Allen
Direcção Artística
Filme
Realização – Woody Allen

– As Serviçais / The Help (4 nomeações, 2+)
Actriz – Viola Davis
Actriz Secundária – Jessica Chastain
Actriz Secundária – Octavia Specter
Filme

Para mais pormenores consultar a notícia aqui.
Apesar de apenas ter visto três dos oito filmes aqui apresentados (Meia-Noite em Paris, Millennium 1 e Moneyball), os restantes não me são em nada apelativos para uma sessão paga em frente da grande tela cinzenta: um cavalo-herói inteligente, talvez de origem judaica, supostamente perlado de lágrimas spielberguianas; um eventual chico-espertismo francês de Hazanavicius que tirou o mudo da cartola com auxílio de um dotado cão Jack Russell (figas para que este alce a pata traseira e abarque a estatueta num fluido amplexo dourado em pleno palco do Kodak); e Hugo do quase septuagenário Scorsese que apenas agora, qual criança apurando os sentidos, descobriu o poder das novas tecnologias, embora as suas cinefilia e erudição cinematográfica poderão fazer admitir o esboço de uma tentativa para uma ida ao cinema.
Depois, o pior: não se faz!, não se compensa Malick com aquelas nomeações apenas para americano ver e aplaudir – de pé, de preferência – o incomensurável sentido de justiça e o enorme bom senso dos membros da Academia, onde se encaixa, do mesmo modo, o Tinker Tailor... de Tomas Alfredson, e a atribuição de categorias técnicas a Fincher; as inexplicáveis zero nomeações para Melancolia e para Clint Eastwood (embora do seu filme a concurso, J.Edgar, disponha apenas da apreciação escrita de alguns cinéfilos que me vão merecendo todo o crédito); o já conhecido desprezo pelos documentários de Herzog, e tudo para consagrar, como é mais que previsto, o petulante alemão com aquele cabelo indescritivelmente amaricado e a sua Pina; e os indies?, nada, como sempre no anquilosado reino da indústria de Hollywood; e por fim 2 nomeações 2 para aquele objecto pegajoso, que se qualificou por fílmico porque dispõe de imagens em movimento (peristáltico, decerto), chamado A Melhor Despedida de Solteira (Bridesmaids).

Será que, pela primeira vez em duas décadas, ficarei na caminha – como o lançador do peso na China – a aproveitar o calor do meu processo endotérmico, enquanto, no próximo dia 26 de Fevereiro, no Kodak (em fecho de portas) Theatre se pratica o arremesso da estatueta dourada?
A ver vamos.

domingo, 22 de janeiro de 2012

Obsessão (act.)

Pensei escrever qualquer coisa. Alinhavei umas quantas palavras. A obsessão pelo pormenor. A meticulosidade de um relojoeiro na evocação imagética. A mão perfeita de um artesão que usa a tecnologia sem que a pressintamos – para ele é mesmo um meio, e nunca um artifício estético. As mulheres, sempre as mulheres, não tão ostensivas como em Lars von Trier, maquinais e diabólicas como em Tarantino, austeras, frias e impiedosas como em Almodóvar, objecto de desejo que se emancipa perante o indício da corte pelo pavão como em Rohmer, ou eloquentes, por vezes doces receptoras da neurastenia projectada pelo criador, como em Woody Allen. São uma bruma perene, omnipresente, extática e hermética, portadoras – eis o ventre primordial – do código inacessível a um encadeamento lógico da razão. 
Fiz um historial da abordagem subliminar do lado feminino que joga um papel crucial em Fincher desde Se7en (1995) – excluí Sigourney “Ripley” Weaver, não tivesse sido ela de Ridley Scott, em primeiro lugar, e de James Cameron, em segundo – Paltrow (1995), Kara Unger (1997), Bonham Carter (1999), Foster (2002), Sevigny (2007), Blanchett (2008), e Mara por duas vezes (2010 e 2011), mas guardei o ficheiro na imensa pasta dos textos “não publicados”, talvez para maturação, muito provavelmente para as impenetráveis trevas do olvido. Decidi “me & myself” atirar Karen Ocujo grito seco ressoa no negro líquido viscoso (amniótico) para a fogueira daqueles que Odeiam as Mulheres:


«Salander não consegue mexer-se. Espera que a dor abrande – o que eventualmente acontece – mas apenas para ser substituída por um sentimento de abandono. Então aquele abranda, substituído por um semblante de indiferença.»
Steven Zaillian, The Girl with the Dragon Tattoo [screenplay], p. 165 (© 2011 Sony Pictures). Tradução livre: AMC.
Em jeito de nota final, o fim: é impossível ficar indiferente ao pathos que emana daquele olhar, que tudo apaga, de Rooney Mara.

Soberbo.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Fincherianismo


Ah, como gosto de ler João Lopes quando escreve sobre Cinema (a arte, assim grafada). Não vou fazer a apologia de todo o seu saber acumulado e da natural consequência de, com propriedade, usar e abusar do cinema comparado. É um fincheriano convicto e não adianta negá-lo (em boa verdade nunca o negou, embora nunca o tenha confirmado). E mesmo estando numa torturante contagem decrescente para ver Millennium 1: Os Homens que Odeiam as Mulheres (The Girl with the Dragon Tattoo, 2011), não posso deixar de concordar com a parte que remete para o todo (de outra forma não poderia ser, por via da razão avocada: ainda não o vi), o universo inebriante de Fincher, incluída neste extracto de um texto do eminente crítico nacional sobre Fincher no DN de quarta-feira, 18:
«Daí a estranha beleza de Millennium 1: por um lado, há nele uma urgência face ao concreto do nosso mundo que lhe confere a dimensão de parábola sobre a persistência do Mal e o fim de todos os romantismos; por outro lado, vivemos uma aventura tocada pela abstra[c]ção formal. É tempo de acreditarmos que Howard Hawks tem, finalmente, um herdeiro moderno.»
Mas esta é a velha questão do subtexto fincheriano, que muitos ou não vislumbram (limitação, é uma pena), ou vislumbrando não pretendem dar a conhecer por um velho apriorismo de que não se conseguem libertar (má-fé). Como entender, por exemplo, Clube de Combate (Fight Club, 1999) sem nos embrenharmos (apreender) na sua beleza subliminar, latente em cada fotograma, incrustada pelo realizador de Denver?

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Blackout cerebral


Enquanto a Wikipedia na sua versão inglesa promoveu um blackout de 24 horas no acesso aos seus conteúdos em protesto pela discussão e eventual aprovação das sugestivas leis PIPA e SOPA pelo Congresso Americano (seguir a ligação para mais informação) – de certa forma, e por todas as razões, faz-me lembrar o Portugal de antanho, de tempos da outra senhora como se sói dizer: a pipa (ou o seu enchimento etilizado) que punha a sopa na mesa de um milhão de portugueses; hoje, nem isso nos põe o pão na mesa, dadas as políticas agrícolas que arruinaram o sector vitivinícola e conduziram à miséria milhares de lavradores, especialmente os durienses, descurando-se até (negligência desmedida) o forte poder anestésico do líquido que, decerto, viria em auxílio a nós luso-dependentes da tríade nebulosa que atribui mais notas que o Prof. Marcelo e em que um dos seus elementos, numa demonstração de um sarcasmo repugnante, se dá ao luxo de ter Poor na sua denominação, para esquecer as agruras a que quotidianamente nos submetem –, o véu negro e opaco que cobria a minha percepção para as coisas que se vão passando e têm interesse no mundo real não-murakamiano (esse é uma estranha amálgama também anestésica, ou melhor, de privação cerebral) foi desvelado:

A melhor série televisiva de comédia de todos os tempos – para não me apontarem a puerilidade do exagero, coloco-a a par do Flying Circus dos eternos Monty Python, ou da curta e fugaz série (doze episódios), também da BBC, Big Train, e sim, concedo, o próprio Seinfeld co-criado por aquele que levou o psicoterapeuta ao suicídio (ver imagem) –, mas, prosseguindo, dizia que a melhor série cómica de todos tempos, Calma, Larry (Curb Your Enthusiasm), está a ser transmitida pelo canal FX da ZON (e suponho que nos outros fornecedores do serviço de televisão paga; aliás quem me informou é assinante do serviço fedorento Meo). Estão em exibição, com várias repetições na grelha diária, as duas últimas temporadas, a 7.ª e a 8.ª da série. Infelizmente, pelo caminho, perdi a 6.ª, mas guardo religiosamente os DVD das anteriores e a eles volto com alguma regularidade, sem que se perca o gosto e o prazer de ver a histórias daquele ser com uma lógica torcida e retorcida, e me preocupe com a suspensão de juízo que, neurologicamente, uma boa gargalhada poderá implicar.
Bendita seja a alma de quem me alertou. Já está tudo programado para gravação dadas as restrições horárias para poder ver aquele judeu inimputável nos poucos momentos de paz e tranquilidade que ainda existem no meu buliçoso lar.
Centenas de canais, dezenas de euros mensais, para o Panda, o Nickelodeon, Disney e pouco mais – expropriação por acção filial, seria a razão mais cómoda para apontar, mas em boa verdade, cansei-me de ver televisão e, por vezes (nem sempre), uma pessoa farta-se de engolir tanto lixo – e só ontem fiquei a saber que aquela coisa inenarrável está num canal não descortinável para um telespectador impaciente e irascível como eu.
Será de mim? Como o outro do adágio, fui o último a saber? A espera e a deliciosa contradição dos aforismos portugueses: desespera ou sempre alcança?
Cito Vila-Matas que cita Bertrand Russell que cita uma absurda anciã russa:
«Sim, meus senhores. Faz mau tempo e estamos à espera que mude. Mas é melhor fazer mau tempo do que não fazer nenhum, e é melhor estarmos à espera do que não esperarmos nada.»

Enrique Vila-Matas, Perder Teorias, pág. 26 [Porto: Afrontamento (Teodolito), 1.ª edição, Setembro de 2011, 88 pp.; tradução de Jorge Fallorca; obra original: Perder teorías, 2010.]

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Frouxo, como a gente gosta


Com o passar dos anos, talvez por uma contínua depuração dos meus gostos cinematográficos, vai diminuindo o meu interesse por aquelas sessões folclóricas de atribuição de prémios e todo o circo que as rodeiam – com GlamCams, o espadaúdo Seacrest e os Polícias da Moda – que a indústria das artes cinematográficas insiste em não mudar de formato, sacrificando a arte em prol do puro entretenimento, facilmente consumível, vazio de conteúdo e expurgatório das memórias mais resistentes, em suma, o actual entretenimento proto-lixo de não ocupação de espaços (patrocínio: Luís Freitas Lobo) ou de acelerada degradação depois de consumido (patrocínio: Dulcolax).
Ontem não foi excepção. A tibieza, a impostura, a vaidade e a cupidez pelas notas verdes com efígie de Benjamin Franklin premiou com Globos de Ouro 11 filmes 11 nas diferentes categorias, como que a distribuir o mal pelas aldeias, não vá alguém chatear-se e boicotar (ou allenizar) as próximas sessões. E sim, eles pensam que conseguiram reavivar o amor pela França (e não pela língua francesa, um "jamé" linista), o melodrama sirkiano em fast forward, a maturidade de uma América tolerante pelas suas minorias, Scorsese & Spielberg e o interesse por Allen demonstrado nas bilheteiras, Madonna com uma injecção de adrenalina. O Frankenstein da Indústria vive. No fundo, em tempos em que por aqui se fala do clientelismo, todas as clientelas da pastilha elástica saíram satisfeitas. Está tudo lá, note-se:
   
3 Globos de Ouro
  • O Artista (The Artist) – Melhor Filme – Comédia ou Musical; Melhor Actor – Comédia ou Musical, Jean Dujardin; Melhor Banda Sonora, Ludovic Bource.
2 Globos de Ouro
  • Os Descendentes (The Descendants) – Melhor Filme – Drama; Melhor Actor – Drama, George Clooney.

1 Globo de Ouro
  • Assim É o Amor (Beginners) – Melhor Actor Secundário, Christopher Plummer.
  • As Aventuras de Tintim – O Segredo do Licorne (The Adventures of Tintin) – Melhor Filme de Animação.
  • A Dama de Ferro (Iron Lady) – Melhor Actriz – Drama, Meryl Streep.
  • A Invenção de Hugo (Hugo) – Melhor Realizador, Martin Scorsese.
  • Meia-Noite em Paris (Midnight in Paris) – Melhor Argumento, Woody Allen.
  • A Minha Semana com Marilyn (My Week with Marilyn) – Melhor Actriz – Comédia ou Musical, Michelle Williams.
  • Uma Separação (Jodaeiye Nader az Simin) – Melhor Filme Estrangeiro.
  • As Serviçais (The Help) – Melhor Actriz Secundária, Octavia Spencer.
  • W.E. – Melhor Canção Original, Madonna “Masterpiece”.

Com Gervais numa camisa-de-forças, apesar do momento Eddie Murphy, da referência à decadência da NBC (a cadeia responsável espectáculo) e do comparativo entre cerimónias congéneres da HFPA e da AMPAS, com os discursos atropelados e estafados de agradecimento, salvou-se Morgan Freeman e o seu merecidíssimo prémio de carreira Cecil B. DeMille, com Poitier e Mirren a abrilhantar a ocasião.
Não são sequer admissíveis, perante o panorama de uma pobreza confrangedora, as ausências de A Árvore da Vida, Melancolia, A Toupeira ou a brevíssima referência ao último Cronenberg pela nomeação de Mortensen, ou a McQueen por Fassbender, já para nem falar, entre outros, dos independentes Durkin, Reichardt ou Jeff Nichols.

domingo, 15 de janeiro de 2012

Dos aventais


Nada contra. Não sou um gourmet, mas gosto de comer em bons restaurantes de cujas cozinhas emanam pratos com assinatura, e gosto sempre que o autor cortesmente ausculte a minha opinião, de avental alvo, sobre o nível de prazer na degustação do prato. Ao mesmo tempo, é uma peça de tecido com história, que me faz lembrar aquele Portugal rural que se foi perdendo – o do pequeno comércio porta a porta, os marçanos ou o do bulício serviçal. Por exemplo, a criadagem com os miúdos no jardim; a leiteira azeda a esborrachar os pacotes de leite pré-“Tetra Pak” nos alpendres das moradias; da peixeira com as notas de conto no regaço, fazendo trocos nas casas das senhoras, trocando cavalas por mil reis que se juntavam a mais outros tantos amarfanhados, envoltos em escamas e vísceras que escaparam ao produto vendido. Hoje, tudo isso foi substituído pela desprezível bata florida.
Agora dessa coisa dos pedreiros e dos chãos em xadrez – embora, neste caso, ignore o facto de algum lá ter ido parar (sim, isso mesmo, ao xadrez), os irmãos ajudam sempre –, os poucos que conheci – e que me garantiram tratar-se de aventaleiros da estirpe críptica, filhos de Ísis e Osíris –, ou eram uns filhos da puta e/ou criminosos e/ou políticos, juízes, procuradores e professores catedráticos. Apesar de ser um fã do James (em especial no drama pedo-nabokoviano-kubrickiano e no magistral North by Northwest, com a música retumbante do Bernardo SenhorHomem), das batidas do Nick, e de na minha juventude não perder as histórias a preto e branco do Perry, por manifesto azar, pessoalmente nunca me cruzei com um Mason-livre de avental imaculado e que disputasse as qualidades de humanista e/ou benemérito e/ou íntegro, as mesmas que ultimamente, numa operação de desespero ou de marketing do desespero, têm vindo a apregoar.
Contudo não gosto de generalizações. E não pretendo aplicar à minha, decerto curta, experiência o método indutivo. Até porque dispõem de um olho que tudo vê, e em terra de cegos… Ele há-de haver os que são bons.