terça-feira, 27 de julho de 2010

Booker Prize 2010 – semifinalistas

Foi anunciada há poucos minutos a lista de romances semifinalistas que concorrem ao Booker Prize de 2010, patrocinado pelo grupo financeiro Man desde 2002. Para o vencedor, a anunciar no próximo dia 12 de Outubro*, está reservado um prémio monetário de 50.000 libras esterlinas, que corresponde, aproximadamente, a 60.000 euros.
Eis o habitualmente designado por “Booker’s dozen”** seleccionado pelo júri, que este ano é presidido por Andrew Motion, e que inclui 13 títulos de outros tantos autores (por ordem alfabética do apelido do autor – por enquanto, apenas uma obra está editada no mercado nacional, surgindo na listagem com o título em português):

  • Peter Carey, Parrot e Olivier na América (ed. port. Gradiva; Parrot and Olivier in America)
  • Emma Donoghue, Room
  • Helen Dunmore, The Betrayal
  • Damon Galgut, In a Strange Room
  • Howard Jacobson, The Finkler Question
  • Andrea Levy, The Long Song
  • Tom McCarthy, C
  • David Mitchell, The Thousand Autumns of Jacob de Zoet
  • Lisa Moore, February
  • Paul Murray, Skippy Dies
  • Rose Tremain, Trespass
  • Christos Tsiolkas, The Slap
  • Alan Warner, The Stars in the Bright Sky

Notas: *Os seis finalistas serão anunciados no próximo dia 7 de Setembro.
**designação adoptada nos anos mais recentes pelos organizadores para a longlist, que tem a sua origem na expressão inglesa do século XIII “baker’s dozen” ou “dúzia dos padeiros” (tradução literal), que em Portugal se designa por “dúzia de frade”, que significa treze (uma dúzia de treze).
***(act.) Mais informação em português, aqui.

sexta-feira, 23 de julho de 2010

Em colapso

Hoje (ontem) ficou a saber-se que Pedro Mexia, subdirector da Cinemateca Portuguesa, abandonou as coisas muito lá da casa pelos expiatórios motivos pessoais. E não se atrevam a esquadrinhar os fundamentos que conduziram à demissão de Mexia de um cargo público – assuntos pessoais, assunto encerrado. E por favor, que não se aproveite este momento para engendrar a lusa questiúncula da escassez de verbas ou de uma incompatibilidade de carácter, ou até política de dirigente(+)/dirigente(-): um argumento rendilhado, novelesco e com toque melodramático, de conflitos ou de desinteligências com a nova directora (ver o que aqui proferi sobre esta eminência parda) empossada há meio ano – a tal que, por ser amiga pessoal do vulto Bénard, ganhou num ápice o estatuto de cinéfila e de erudita da coisa fílmica, e que o magnânimo aparelho socialista colocou sob o foco ardente do cinematógrafo.
Os motivos foram pessoais e há que aceitá-los porque, desta feita, a sua invocação até pode ser manifestamente verdadeira, e ninguém está disposto a, e com coragem para, contrariar a potencial pátina de verdade.
Como indicou a TSF, a notícia encontrava-se postada, sob a forma de uma singela e lacónica mensagem,  no blogue pessoal do demissionário.
Contudo, não posso negar as evidências e esconder a agitação que abalroou as minhas defesas da emoção desamarrada. A notícia do foro lisboeto-empolado teve uma virtude, a de me poder voltar a inebriar com o Lei Seca – motivos pessoais confessáveis e não financiados pelos impostos da Nação estiveram na sua origem, id est, afastamento da blogosfera, um invencível cansaço intelectual pelas expostas melancolias saturninas e pelos epigramas de índole ciorânica (permita-se-me a colagem ao eminente, e maior polímato vivo, George Steiner, para fazer dele a minha opinião sobre a arengada aforística do romeno da guarda de ferro – cf. “Da Concisão”, George Steiner em The New Yorker, Gradiva, 1.ª edição). Abalançado pela prosa curta, esquadrinhei alguns textos e detive-me nestas duas frases de uma mesma talhada cinéfila, a derrotista e a sentenciosa, respectivamente: «Chegámos a finais de Julho e confirma-se: este ano cinematográfico é fraco» e «Scorsese e von Trier entraram em colapso». Quanto ao dinamarquês, e fazendo uma pequeno esforço de memória sobre a sua filmografia, ele próprio é a personificação do colapso – aquele último onde uma auto-excisão é absurdamente dedicada a Tarkovski... ah, então aquela fantochada de antanho com a gritante (é literal) islandesinha cega é de pôr os cabelos em pé. No que respeita ao italo-americano, faço votos para que continue a colapsar desta forma por muitos e bons anos. E, a talho de foice, deixo aqui ficar o texto de um dos raríssimos críticos cinematográficos cujas críticas me servem de guia – embora, nesta matéria, preserve até ao ridículo do absoluto a minha independência estética. Eis Roger Ebert sobre Shutter Island, apreciação publicada no Chicago Sun-Times a 17 de Fevereiro deste ano:
«“Shutter Island” starts working on us with the first musical notes under the Paramount logo’s mountain, even before the film starts. They’re ominous and doomy. So is the film. This is Martin Scorsese’s evocation of the delicious shuddering fear we feel when horror movies are about something and don’t release all the tension with action scenes. In its own way it’s a haunted house movie, or make that a haunted castle or fortress. Shutter Island, we’re told, is a remote and craggy island off Boston, where a Civil War-era fort has been adapted as a prison for the criminally insane. We approach it by boat through lowering skies, and the feeling is something like the approach to King Kong’s island: Looming in gloom from the sea, it fills the visitor with dread. To this island travel U.S. marshal Teddy Daniels (Leonardo DiCaprio) and his partner Chuck Aule (Mark Ruffalo).
It’s 1954, and they are assigned to investigate the disappearance of a child murderer (Emily Mortimer). There seems to be no way to leave the island alive. The disappearance of one prisoner might not require the presence of two marshals unfamiliar with the situation, but we never ask that question. Not after the ominous walls of the prison arise. Not after the visitors are shown into the office of the prison medical director, Dr. Cawley, played by Ben Kingsley with that forbidding charm he has mastered.
It’s clear that Teddy has no idea what he’s getting himself into. Teddy – such an innocuous name in such a gothic setting. Scorsese, working from a novel by Dennis Lehane, seems to be telling a simple enough story here; the woman is missing, and Teddy and Chuck will look for her. But the cold, gray walls clamp in on them, and the offices of Cawley and his colleagues, furnished for the Civil War commanding officers, seem borrowed from a tale by Edgar Allan Poe.
Scorsese the craftsman chips away at reality piece by piece. Flashbacks suggest Teddy’s traumas in the decade since World War II. That war, its prologue and aftermath, supplied the dark undercurrent of classic film noir. The term “post-traumatic shock syndrome” was not then in use, but its symptoms could be seen in men attempting to look confident in their facades of unstyled suits, subdued ties, heavy smoking and fedoras pulled low against the rain. DiCaprio and Ruffalo both affect this look, but DiCaprio makes it seem more like a hopeful disguise.
The film’s primary effect is on the senses. Everything is brought together into a disturbing foreshadow of dreadful secrets. How did this woman escape from a locked cell in a locked ward in the old fort, its walls thick enough to withstand cannon fire? Why do Cawley and his sinister colleague Dr. Naehring (Max von Sydow, ready to play chess with Death) seem to be concealing something? Why is even such a pleasant person as the deputy warden not quite convincingly friendly? (He’s played by John Carroll Lynch, Marge’s husband in “Fargo,” so you can sense how nice he should be.) Why do the methods in the prison trigger flashbacks to Teddy’s memories of helping to liberate a Nazi death camp?
These kinds of questions are at the heart of film noir. The hero is always flawed. Scorsese showed his actors the great 1947 noir “Out of the Past,” whose very title is a noir theme: Characters never arrive at a story without baggage. They have unsettled issues, buried traumas. So, yes, perhaps Teddy isn’t simply a clean-cut G-man. But why are the others so strange? Kingsley in particular exudes menace every time he smiles.
There are thrilling visuals in “Shutter Island.” Another film Scorsese showed his cast was Hitchcock’s “Vertigo,” and we sense echoes of its hero’s fear of heights. There’s the possibility that the escaped woman might be lurking in a cave on a cliff, or hiding in a lighthouse. Both involve hazardous terrain to negotiate, above vertiginous falls to waves pounding on the rocks below. A possible hurricane is approaching. Light leaks out of the sky. The wind sounds mournful. It is, as they say, a dark and stormy night. And that’s what the movie is about: atmosphere, ominous portents, the erosion of Teddy’s confidence and even his identity. It’s all done with flawless directorial command. Scorsese has fear to evoke, and he does it with many notes.
You may read reviews of “Shutter Island” complaining that the ending blindsides you. The uncertainty it causes prevents the film from feeling perfect on first viewing. I have a feeling it might improve on second. Some may believe it doesn’t make sense. Or that, if it does, then the movie leading up to it doesn’t. I asked myself: OK, then, how should it end? What would be more satisfactory? Why can’t I be one of those critics who informs the director what he should have done instead?
Oh, I’ve had moments like that. Every moviegoer does. But not with “Shutter Island.” This movie is all of a piece, even the parts that don’t appear to fit. There is a human tendency to note carefully what goes before, and draw logical conclusions. But – what if you can’t nail down exactly what went before? What if there were things about Cawley and his peculiar staff that were hidden? What if the movie lacks a reliable narrator? What if its point of view isn’t omniscient but fragmented? Where can it all lead? What does it mean? We ask, and Teddy asks, too.»

Nota: Já agora, eis as minhas breves impressões deixadas neste blogue sobre o mesmo filme.

sexta-feira, 16 de julho de 2010

A Imaginação Moral

«Ao contrário de muitos críticos contemporâneos que durante os últimos anos adquiriram uma reputação súbita nos Estados Unidos, Steiner não se dispõe a ler para ficar desapontado, e nunca encarou a actividade crítica como uma oportunidade para adoptar posturas profundamente desdenhosas.»
Robert Boyers, “Introdução”, p. 14. In George Steiner, George Steiner em The New Yorker [Lisboa: Gradiva, 1.ª edição, Junho de 2010, 417 pp; tradução de Joana Pedroso Correia e Miguel Serras Pereira; obra original: George Steiner at The New Yorker, 2008.]
Muito haveria para dizer partindo do curto período atrás citado, retirado do prefácio de autoria do coordenador (não, não se trata do eufemista Louçã) da antologia de ensaios escritos para a revista norte-americana The New Yorker por George Steiner e que, com louvor e consideração – não sem uma pequena reprimenda pela contumaz preguiça editorial de marca lusa* –, a Gradiva traduziu e publicou há cerca de um par de semanas em Portugal, sobre a ortodoxia e o reaccionarismo que se apoderou da crítica literária praticada em solo americano e que se estendeu, de forma pandémica, à crítica literária ocidental, inclusivamente nos cantinhos geográficos propensos à expansão da mediocridade dos visionários de um só olho. Discute-se e muito a técnica, ignora-se a estética e exalta-se a ética literárias – por outras palavras, fazendo uso do conhecimento quase científico da primeira, subordina-se a segunda a um conjunto de interesses de índole diversa que se subsumem nos princípios prevalecentes da terceira num dado momento. Descarta-se a imaginação em detrimento de um manual de bons costumes, de uma cartilha que implicitamente homenageia a obtusidade filistina, pois a arte – imaginação, criatividade, integridade estilística – é menorizada em favor de apriorismos políticos pseudoculturais, ou melhor, segue-se uma agenda económica, garroteada pelos subsídio-saqueadores, e, sobretudo, política, travestida de uma verdade oracular pela untuosa eminência auto-alardeada, apoiada pelo inebriante caleidoscópio contemporâneo dos novos canais promocionais – uma espécie de proliferação acelerada de Rui “brilhantina” Santos, ainda de menor calibre, com acesso privilegiado e exclusivo, porém irrestrito, a uma Delfos, que bem pode ser a Amadora ou Gondomar.
Os que confundem este movimento com a democratização da opinião, são os mesmos que, no seu afã libertário (contrário às convicções íntimas), acabam por criar mitos autocráticos, os monstros da opinião postados em torres de marfim, emprenhando um conjunto de seguidores cegos pelo falso brilho do logro bem vendido, e ainda mais medíocres que o justo progenitor, o que é bem mais atentatório para a evangelizada liberdade de expressão – causa arrebatada pela percebida autoridade moral publicitada, que mais não é que um narcisismo degenerado, porque a distorção mental é de tal ordem que não lhes permite sequer divisar a sua própria imagem numa hesitante superfície reflectora.
É assim a arte na mão dos políticos, burocratas e plutocratas (que proliferam pela actividade dos dois primeiros grupos), roubada aos artistas pelos sequazes da domação da criatividade. Passo a passo vai-se construindo o decálogo de onde emanará a feroz liturgia: e venha a nós a vossa crítica, ó sumo-sacerdote do realismo novecentista, engrandece os livros escritos pelos teus correligionários, publicados pelo grupo editorial da tua mulher e amigos, reprova a abstracção como liberdade criativa. Não denegarás o discurso indirecto livre…
*Nota: a edição lusa deste livro, para além de alguns pecadilhos de tradução detectados logo no primeiro e gigantesco ensaio (por exemplo, troca-se “MI5” por “M15”), enferma do habitual nacional-forretismo, um dos principais derivados do nacional-porreirismo. De facto, os responsáveis da Gradiva não só eliminaram o essencialíssimo “índice remissivo” – peça fundamental em obras com esta configuração –, como também suprimiram um importante “anexo” que continha, na edição original, a listagem completa de todos os artigos publicados por Steiner na icónica revista norte-americana. Assim como, em nenhuma parte do texto em português se faz referência à, jamais negligenciável, data de publicação – percorri o livro de lés a lés e… nada de datas, que permitiriam descortinar a envolvente e o enquadramento histórico no momento em que os escritos foram produzidos e publicados.
Assim sendo, deixo aqui ficar um auxiliar de minha lavra [tudo o que figurar entre parêntesis rectos], para aqueles que fazem tenções de se aventurar na 1.ª edição desta obra (esperando, porventura em vão, uma correcção para a 2.ª):
–––O Sacerdote da traição [sobre Anthony Blunt; “The Cleric of Treason”; 08/12/1980]
–––Wien, Wien, Nur du Allein [sobre Anton Webern & Viena; 25/06/1979]
–––De Profundis [sobre o Volume III do Arquipélago de Gulag de Aleksandr Solzhenitsyn; 04/09/1978]
–––Espiões de Deus [sobre O Factor Humano de Graham Greene; “God’s Spies”; 08/05/1978]
–––Da Casa dos Mortos [sobre Albert Speer; “From the House of the Dead”; 19/04/1976]
–––De Mortuis [sobre Philippe Ariès & O Homem Perante a Morte; 22/06/1981]
–––Mil Anos de Solidão [sobre Salvatore Satta; “One Thousand Years of Solitude”; 19/10/1987]
–––Matar o Tempo [sobre Mil Novecentos e Oitenta e Quatro de George Orwell; “Killing Time”; 12/12/1983]
–––Danúbio Negro [sobre Karl Kraus & Thomas Bernhard; “Black Danube”; ”21/07/1986]
–––B. B. [sobre Bertolt Brecht; 10/09/1990]
–––Uneasy Rider [sobre Zen e a Arte de Manutenção de Motocicletas de Robert M. Pirsig; 15/04/1974]
–––Uma Ave Rara [sobre Guy Davenport; “Rare Bird”; 30/11/1981]
–––Cartas Perdidas [sobre John Barth; “Dead Letters”; 31/12/1979]
–––Tigres no Espelho [sobre Jorge Luis Borges; “Tigers in the Mirror”; 20/06/1970]
–––Do Cambiante e do Escrúpulo [sobre Samuel Beckett; “Of Nuance and Scruple”; 27/04/1968]
–––Aos Olhos do Oriente [sobre Aleksandr Solzhenitsyn & outros russos; “Under Eastern Eyes”; 11/10/1976]
–––Homem-Gato [sobre Louis-Ferdinand Céline; “Cat Man”; 24/08/1992]
–––O Amigo de um Amigo [sobre Walter Benjamin & Gershom Scholem; “The Friend of a Friend”; 22/01/1990]
–––Uma Sexta-Feira Má [sobre Simone Weil; “Bad Friday”; 02/03/1992]
–––O Jardim Perdido [sobre Claude Lévi-Strauss; “The Lost Garden”; 03/06/1974]
–––Da Concisão [sobre E.M. Cioran; “Short Shrift”; 16/04/1984]
–––Velhos Olhos Cintilantes [sobre Bertrand Russell; “Ancient Glittering Eyes”; 19/08/1967]
–––Uma História de Três Cidades [sobre as Memórias de Elias Canetti; “A Tale of Three Cities”; 22/11/1982]
–––Le [sic] Morte d’Arthur [sobre Arthur Koestler; “La Morte D’Arthur”; 11/06/1984]
–––As Línguas do Homem [sobre Noam Chomsky; “The Tongues of Man”; 15/11/1969]
–––Uma Morte de Reis [sobre Xadrez; “A Death of Kings”; 07/09/1968]
–––Dar a Palavra [sobre James Murray & o Oxford English Dictionary; “Give the Word”; 21/11/77]
–––Uma Vida Examinada [sobre Robert Hutchins & a Universidade de Chicago; “An Examined Life”; 23/10/1989]

Imagem: (cf. Metamorfoses de Ovídio) reprodução de Eco e Narciso, de Nicolas Poussin (1594-1665), circa 1630, óleo sobre tela (Museu do Louvre, Paris).

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Rotten Apple

O homem de cabelo branco e o Sr. Francisco Costa – como hoje nos foi apresentado – acabaram de vender uma maçã podre por onze milhões de euros, a que acresce uma promissora maçã, porém ainda verde, humanizada em Coelho.
Mas até no podre se descobrem novas virtudes, para além do rico húmus que mata de imediato a fome da terra estéril, é de cautela guardar-se uma boa talhada da rejeitada maçã (25%), por muito deplorável que seja o seu pútrido estado; não vá o tempo e a humidade nortenha transformar em pomar o que se rejeitou por bichado.
Assim se vão calando as vozes da possível sedição, ficando Francisco Costa a enxertar o jovem bacelo com homens de boa casta, para que a podridão não se alastre (é esta a futura Blimunda leonina, de cenho franzido, jejuando pela manhã, apanhando o bicho antes que roa a maçã, assim lhe tragam o pão ao fim da matina) e o do cabelo branco, que no vai e vem do imaculado e compassivo mundo da banca, vai carregando o alforge repleto de virtudes para afastar a corrupção das almas, repetindo sempre que necessário uma nova histrionia: Johnny Rotten, never (after all, he is an antichrist), tal como outro, nome de santo e de Papa, era forever.

domingo, 4 de julho de 2010

O regresso do fedelho

Tem sido lento o processo criativo do autor norte-americano, nascido em Los Angeles em 1964, Bret Easton Ellis. De facto, Ellis acabou de publicar o seu sétimo romance, depois de se haver estreado auspiciosamente com o seu minimalista e desbastado de eloquência lírica, epítome da, na altura, recém-criada geração MTV, Menos que Zero (Less Than Zero, 1985) quando tinha apenas vinte anos. Seguiram-se o fraquinho As Regras da Atracção (The Rules of Attraction, 1987), o tenebrosamente estranho e prodigioso Psicopata Americano (American Psycho, 1991), o modesto e sem qualquer valor acrescentado literário (um novo conceito, porventura mensurável) Os Confidentes (The Informers, 1994) – muito menos o filme que nele se baseou, o paupérrimo Os Informadores, do australiano Gregor Jordan –, o magnífico, cru e tão houellebecquiano Glamorama (1998) e, finalmente, o thriller existencialista, de certa forma desequilibrado pela estranha mescla de sentimentos contraditórios que me assomaram durante a sua leitura, e carregado de um pathos inédito em Ellis, Lunar Park (2005) – afinal, o homem não é de pedra, frio, hedonista e sem adiposidades sentimentais, e talvez por aquele ter sido escrito durante os seis anos de quase idílio amantético com o escultor Michael Wade Kaplan (1974-2004), que terminou de forma abrupta, Kaplan morre com apenas trinta anos, vítima de um fulminante ataque cardíaco; na realidade, este triste episódio acaba por fazer despertar o autor do torpor passional e pôr um fim à longa travessia do deserto em assuntos literários.
Em 2010, Ellis reaparece no mercado editorial com Imperial Bedrooms (uma vez mais tendo Elvis Costello como inspiração para o título), que o autor confirma, para depois parecer contestar a evidência – dado porventura o anátema normalmente associado ao vocábulo –, tratar-se de uma sequela da sua obra de estreia, incluindo os jovens personagens frívolos, mimados, degradantes e celerados, agora na idade adulta na Los Angeles da actualidade, um Menos Que Zero (na sua mais recente reedição) com upgrade: um par de cornos. Eles são adultos diplomados, com mais posses e poder, e por isso com maior capacidade de abrir o leque de horrores psicopatológicos. Senão atente-se no parágrafo de abertura da obra:

«Eles fizeram um filme sobre nós. O filme baseou-se num livro escrito por alguém que conhecíamos. O livro baseava-se numa história simples sobre quatro semanas passadas na cidade em que crescemos e na sua grande parte reproduzia um retrato fiel. Foi catalogado como ficção mas apenas alguns detalhes foram alterados, os nossos nomes não o foram e não havia nada nele que não houvesse ocorrido. Por exemplo, houve de facto a projecção de um filme snuff naquele quarto em Malibu numa tarde de Janeiro, e sim, eu abandonei o quarto e dirigi-me ao terraço mirando distraidamente o Pacífico onde o autor tentou consolar-me, assegurando-me que os gritos produzidos pelas crianças ao serem torturadas eram falsos, mas ele sorria enquanto proferia tudo isto e eu tive de me retirar. Outros exemplos: a minha namorada na realidade atropelou um coiote nos desfiladeiros sob Mulholland e foi fielmente relatado um jantar de natal com a minha família no Chasen’s que deplorei e, por casualidade, contei ao autor. E uma rapariga de doze anos foi mesmo violada em grupo – eu estava com o autor naquele quarto de West Hollywood, que no livro apenas descreve uma vaga relutância de minha parte e falhou em descrever com exactidão aquilo que eu realmente sentira nessa noite – o desejo, o choque, o medo que eu tinha do autor, um rapaz louro e solitário por quem a rapariga com que eu andava estava meio apaixonada. Mas o escritor jamais corresponderia ao seu amor porque estava demasiado perdido na sua própria passividade para estabelecer a ligação de que ela necessitava, e assim ela regressou a mim, mas na altura já era tarde de mais, e como o escritor ficou ressentido quando ela voltara a dar-me atenção, eu tornei-me no belo e nebuloso narrador, inabilitado no amor e na bondade. Foi desta forma que me tornei no perturbado rapaz das festas que vagueia pelos despojos, com sangue a correr do nariz, fazendo perguntas que não carecem de resposta. Foi desta forma que me tornei no rapaz que nunca compreendeu o funcionamento das coisas. Foi desta forma que me tornei no rapaz que jamais conseguiria manter uma amizade. Foi desta forma que me tornei no rapaz que não pôde amar a rapariga.» [tradução impudicamente livre: AMC, 2010]
Bret Easton Ellis, Imperial Bedrooms, pp. 3-4 [New York: Knopf, first edition, June 2010, 192 pp.]

quarta-feira, 30 de junho de 2010

O Capitão Metro

Uma fábula do n.º 7, o não-whitmaniano Capitão, Meu Capitão (a jornada assustadora prossegue): «Perguntem ao Carlos Queiroz.»
«Vivo no 11.º andar do edifício American Gardens na West 81st Street. Chamo-me Patrick Bateman e tenho 27 anos. Eu creio no cuidar de nós próprios com uma dieta equilibrada e um rigoroso programa de exercícios. De manhã, se a minha cara está um pouco inchada, aponho-lhe um saco de gelo enquanto faço abdominais – agora, já chego aos mil. Depois de retirar o saco de gelo, uso uma loção forte de limpeza dos poros. No duche, uso um gel refrescante de limpeza. De seguida utilizo uma escova com creme de mel e amêndoas e na cara esfrego um gel esfoliante. Depois aplico uma máscara de ervas e menta, que deixo na cara durante dez minutos enquanto preparo o resto da minha rotina. Uso sempre uma loção aftershave com o mínimo ou mesmo sem álcool, porque este seca-nos a pele do rosto e faz-nos parecer mais velhos. Depois vem o hidratante e de seguida aplico o bálsamo anti-rugas para os olhos, a que se segue a loção protectora hidratante final. Existe uma ideia de um Patrick Bateman, um género de abstracção, mas na realidade não existe um eu; é apenas uma entidade, algo de ilusório. E embora consiga esconder o meu olhar frio e até me consigam dar um aperto de mão e sentir a minha carne a envolver firmemente a sua carne, e até sentir que os nossos estilos de vida são provavelmente comparáveis; eu, simplesmente, não estou lá.»
Do argumento do filme Psicopata Americano (American Psycho, 2000), adaptado ao cinema por Mary Harron e baseado no romance homónimo, publicado em 1991, de autoria do escritor californiano Bret Easton Ellis.
Trabalhar? Com toda esta beleza e preparos, com ecrãs gigantes que me procuram e fixam, em que atesto as formas etéreas do meu rosto, senão do corpo inteiro, a cada cinco segundos!? Gritos histéricos de mulherio (e não só, valha-nos a sorte da lucrativa ambiguidade!) esfaimado… Trabalhar, unir esforços, respeitar hierarquias, lutar por um ideal. Assumir as funções de Capitão, que não passam apenas por ostentar aquela liga que nos aperta o braço, o mais fino adorno futebolístico que nos permitem usar em campo – deveria ser cravado de diamantes, tal como os círculos que enfeitam as minhas frágeis orelhas no pós-desafio. Porém, uma marca não faz isso, quando muito é multinacional, global na sua abstracção. Eu não existo. 
¡Hala Madrid!... y, pues que, con “El Especial” y los euros.

sábado, 26 de junho de 2010

O Mural (nova versão)


«A raiz da palavra hipócrita em grego antigo encontra-se no verbo hypokrino, que possuía um conjunto de sentidos, podendo ir do simples discurso, à oratória, à representação cénica, à dissimulação ou à falsidade.»* [tradução AMC]
Robert Scholes, The Rise and Fall of English [em tradução livre A Ascensão e Queda da Língua Inglesa], p. 81 [Yale University Press, February 1998, 220 pp.]
Houve de tudo, viu-se de tudo, falou-se de tudo, mas com uma deformação sectária apriorística capaz de fazer retinir as campainhas da pura náusea ao ser mais resistente das intoxicações de pendor unanimista. A intelligentsia estava presente. O camarada Jerónimo discursou, o coordenador Louçã (o eufemismo mais bem esgalhado da política portuguesa, que o diga Joana Amaral Dias que foi bem co-ordenada rumo à empoeirada prateleira trotskista, onde porventura jazem uma famosa picareta e a expressão, com o mesmo prefixo, “colaborador”) vituperou, usando todo o seu fel – cujas reservas parecem não se esgotar –, levantando o seu queixo anguloso e bradando com toda a sua acrimónia facciosa, o mais alto magistrado da nação.
António Costa, numa atitude nobre, sem nunca deixar os seus laivos de populismo – está-lhe na massa do sangue e acautela-se já o problema sucessório –, ao franquear as portas da Câmara Municipal de Lisboa, previu um velório, seguido de funeral em homenagem ao notável escritor recentemente desaparecido. Porém, e basta seguir a voragem da apropriação com que se digladiam as esquerdas nacionais, o velório passou num ápice a comício, cujos senhores disseminadores da moral, proprietários do pacifismo e edificadores da ética (republicana, tão em moda) organizaram sob o pretexto da morte de mais um sectário, cujas tragédias monstruosas do século XX não desfizeram a irredutibilidade das suas posições de apoio incondicional à tirania comunista, um verdadeiro espectáculo de multimédia (só faltou a pirotecnia, não se esquecendo, porém, da useira piromania ad hominem) com comentários de circunstância, intervenções da laia de flash interviews, conferências de imprensa, comunicados, uma espécie de feijoada da Caras da Bibá, um “quem é quem” à moda portuguesa, a que só faltou a destreza criativa com as t-shirts estandardizadas previamente distribuídas.
Falou-se de um tal de Lara – o mesmo que fez parte da turba Moderna e foi um dos condenados no processo da famosa Universidade, sentenciado em 2003 a dois anos de prisão com pena suspensa pelo crime de “administração danosa” –, que nos idos de 1992, então Subsecretário de Estado da Cultura de Santana Lopes num Governo de Cavaco Silva, vetou o acesso de O Evangelho Segundo Jesus Cristo à lista de candidatos do Prémio Literário Europeu. E este incidente lamentável com dezoito anos, serviu para, na hora do luto, apoucar, depreciar, enxovalhar o Presidente da República Portuguesa apelidando-o de iletrado, mesquinho, revanchista, ressentido, tacanho e provinciano, chegando mesmo em diversos foros à desfaçatez do insulto brejeiro, boçal e ordinário que me eximo de expor neste texto. De banal e medíocre o defunto já o houvera insultado. Deixou, no entanto, os sequazes colectivistas para terminar a obra, de cujas agitação, histeria, insensatez e imundície provêm do acto eleitoral onde o candidato-Alegre-trovador-combatente-intelectual-humanista – um homem sisudo, poeta de primeira água, todavia, um prosador mais que mediano, político resvaladiço e volúvel, plantado num campo de paradoxos movido por um tropismo meramente eleitoralista – disputará com aquele demónio de Boliqueime – o tal sobre quem caíram os pecados do mundo da dialéctica em espiral.
Cavaco (tal como Gama, a 2.ª figura na hierarquia do Estado) pode ter errado ao não comparecer no funeral-comício aos Paços do Concelho de Lisboa (onde da mesma forma e com o mesmo matiz rubro se celebrou, uns meses antes, a vitória rara do clube do regime); mas com toda a certeza não se enganou nos valores democráticos e de liberdade, de uma imutabilidade recalcitrante, preconizados pelo camarada-defunto (demonstrados à saciedade em pleno PREC), baseados na filosofia, na doutrina e na práxis dos quatro acima representados no mural – é essa moral deles. Não foi a estética, muito menos a técnica, mas porventura a moral, assim grafada, das diversas diatribes e anátemas do camarada-defunto que estiveram na origem da omissão presencial, que no entanto se fez representar pelo segundo elemento da hierarquia do círculo presidencial. E se acima disse que Cavaco pode ter errado, restrinjo o campo de acção do verbo apenas à falta de iniciativa de elevar as exéquias fúnebres à condição de “nacional”, num país em que é constitucionalmente garantida a plena liberdade de expressão e consagrado o livre pensamento, independentemente da maior ou menor identificação com os conceitos do homenageado.
E facilmente se percebe o que a ambos, em vida, os distinguia, através de uma simples análise dos presentes. Se para uns a Coreia do Norte é quase uma democracia, para outros o Terror Vermelho trotskista era um mal necessário. E no século XXI continuamos a discutir Maiakovsky contra Mandelstam. Purgas contra a luta pela sobrevivência das diferenças num espaço comum de liberdades. Os Gulags, o colectivismo intelectual, o pensamento único contra a energia criadora em cada um de nós.
E se muitos, fornidos do magnésio para a memória – fumos, injecções e aspirações – não se esquecem da negra data de 1992, eu, como muita boa gente, não me esqueço de uma outra, mais negra e inquietante: 17 de Outubro de 1998 (e por curiosidade, os números têm destas coisas, a data combina-se para formar a cosmogonia do terror; ah, aquele Outubro juliano!...) Foi um sábado, no Centro de Desportos e Congressos de Matosinhos (cf. Pravda Lusitano, de 22/10/1998), a noite da infâmia: enquanto milhares são martirizados e assassinados por delito de opinião nas prisões cubanas, enquanto nesse sítio os “laras” estão armados de Kalashnikov, investidos com a mão de ferro da tortura, munidos do livro vermelho que suspende os direitos do Homem em prol de uma ideologia totalitária, Saramago entra em palco de braço dado a Fidel Castro, discursa em primeiro lugar e ouve de seguida, embevecido, hipnotizado, o comandante durante horas a fio a ditar o discurso estafado de quase quarenta anos (na altura, hoje já são mais de cinquenta). E como dizia Isaiah Berlin em The First and the Last (1999; NYRB, p. 57): «Causar dor, matar e torturar são actos geralmente condenados; mas se não forem cometidos para meu benefício pessoal e sim em prol de um ismo – socialismo, nacionalismo, fascismo, comunismo, de crenças religiosas fanáticas, do progresso, ou do cumprimento das leis da História –, então, esses actos são aceitáveis.»**
Mas esses (e regressemos à citação inicial do eminente filólogo Robert Scholes, aludindo aos descendentes da voz grega hypokrino), os que agora criticam, vituperam e desancam o mais elevado magistrado da nação – com espaços bem remunerados nos jornais, rádios e televisões, dominados historicamente pela esquerda mais radical e sectária – foram os mesmos que boicotaram a prestação do devido e merecido tributo na Assembleia da República ao poeta, ensaísta, dramaturgo António Manuel Couto Viana (1923-2010) que, curiosamente, tinha a mesma idade de Saramago e morreu apenas dez dias antes, sob o pretexto de supostas ligações fascistas de outrora, aventando-se a possibilidade de se haver alistado ao lado de Franco na Guerra Civil Espanhola (1936-1939) – seria um rapaz precoce que entre os 13, no mínimo, e os 16 anos, no máximo, já combatia por terras espanholas em nome de um ideal. Pobre país em que 20% da população votante se faz representar por gente deste calibre, onde a verdade, a honestidade intelectual e a transparência de procedimentos são aniquilados em nome de um colectivismo cuja História mostrou a índole e a prática torcionária e aniquiladora das liberdades individuais. Foram alguns desses que nos idos de 1980 festejaram a morte trágica do Primeiro-Ministro e do Ministro da Defesa nacionais, quando voavam sobre Camarate com destino ao Porto, e um rapaz incrédulo, com apenas 8 anos, e com alguma memória, questionava a autoridade familiar mais provecta a razão de ser das garrafas de champanhe, dos foguetes e dos urros de alegria perante as vidas despedaçadas naquele 4 de Dezembro.
Porém, a verdade, que todos querem arrebatar, subsiste e remanescerá pelos tempos nos escritos feéricos do autor da Azinhaga do Ribatejo. A verdade está nas narrativas inovadoras na, já de si, tão maltratada língua portuguesa e pungentes no seu lirismo, cuja ficção foi estonteando o mundo pela sua arte de contar histórias. A verdade está na sua ficção: no Memorial do Convento (1982), em O Ano da Morte de Ricardo Reis (1986) e em As Intermitências da Morte (2005; e, após um período de dura resistência, o meu primeiro de muitos contactos com a ficção saramaguiana) – a minha trilogia pessoal.
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Para terminar, uma curiosa passagem de um interessantíssimo artigo, publicado em 2007:
«Há cinco anos, [Saramago] conseguiu provocar um escândalo à escala global quando, numa visita à Faixa de Gaza, comparou a situação nos territórios palestinianos a “Auschwitz”.
»Para o crítico literário Harold Bloom, a comparação com Auschwitz foi “de uma falta de imaginação e de humanidade imperdoável” por parte de um romancista que ele considera “o segundo melhor, apenas atrás de Philip Roth” entre os escritores vivos. “Os romances de Saramago são ilimitadamente inventivos, ilimitadamente bondosos, ilimitadamente engenhosos”, disse-me Bloom, “mas deixa-me perplexo como é que o homem não consegue crescer politicamente. Em 2007, ser um português estalinista significa simplesmente não estar a viver no mundo real.”»
Fernanda Eberstadt, “José Saramago, the Unexpected Fantasist”, The New York Times, August 26, 2007.
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Notas: *Citação reproduzida da fonte primária, por sugestão da obra autobiográfica O Regresso do Hooligan, de Norman Manea (ed. port. Asa; p. 300).
**Citação retirada de Paul Hollander, O Fim do Compromisso (ed. port. Pedra da Lua, Fev/2009, p. 32, trad. de Virgílio Viseu).

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Amizade Volúvel

Uma sucessão de repetições, de signos, de argumentos estafados que permitam sustentar uma justificação para algo que nem eu próprio consigo compreender: a manutenção deste blogue. Começou como um vício entendido como uma amálgama de paixão pela arte de escrever e uma imperiosa necessidade de catarse, e que agora se arrasta pela rede como um tormento, em que um título de um radicalismo inusitado emerge como um combatente obstinado frente a uma vontade persistente de encerramento definitivo. Voltar ao anonimato da vidinha enfadonha – talvez seja esse o obstáculo, mesmo conhecendo o pequeníssimo alcance dos escritos aqui produzidos. Não é um lamento, nem uma falsa modéstia, é uma constatação empírica, que tarda em ser racionalizada, derrotando as emoções, essas vadias que me vão deixando nu perante o mundo.
Volto a repetir-me. Nunca mais. É o terceiro título que aponho a este blogue desde que, em 17 de Dezembro de 2005, iniciei a minha viagem quase solitária pela blogosfera – sem compromissos, vínculos, reservas e obediências, senão à minha consciência, manifestação da minha liberdade individual jamais coarctada ou circunscrita a qualquer directório.
Volto a pisar os passos históricos destes quase cinco anos. Todos os títulos tiveram a sua origem em Sophia, sempre fundamentados em estados de espírito, de cuja incansável e persistente indagação sobre a obra poética da minha autora de eleição possibilitou que pressentisse a emergência de uma harmonia perfeita entre aqueles e os poemas escolhidos que foram figurando neste espaço.
Nunca mais, bem poderia ser um título interjectivo como reacção à sentida necessidade de isolamento – uma demanda pela integridade da minha consciência, pela minha liberdade intelectual. Por vezes invejando a coragem de um eremita, outras lastimando um destino que me impuseram como forma de luta perante o fingimento, a desconsideração episódica, o desprezo intermitente, o sórdido jogo de interesses a que nenhuma amizade deveria resistir, sob pena de se transformar numa relação parasitária, aviltante e potencialmente destrutiva: a insistência na sua manutenção – por indolência, apatia ou até pelas grilhetas da mais sórdida subjugação –, vai contribuindo de forma subliminar para a alienação total do eu.
A conclusão pela interjeição, agora realizada, serve-me de argumento quase perfeito para defender que o processo corrosivo de uma convivência insana se transforme num facto irreparável – som estrídulo que me mantém alerta –, permanente, sem remissão, de pura e simples abdicação, de aprovação sem resistência de um método de tortura auto-infligida. Mas, já não são eles, somos nós o nosso inferno, em que a misantropia abusando da sua simplicidade – como é fácil desprezar os outros – se vai hospedando nos interstícios dessa fragilidade, o “nunca mais” absolutiza-se e daí a interrogação de DeLillo que decora, como epígrafe, a parte cimeira deste blogue: até onde? Qual é a chave para encontrar o equilíbrio entre a cedência desmedida inculcadora de infelicidade e o isolamento como busca da felicidade? Perante a ubiquidade do inferno, em nós, nos outros, que caminho escolher? Haverá neste caso um jogo iterativo de escolha do “mal menor” que se renova a cada segundo que passa? Para que fogueira deveremos arremessar os toros de madeira lúbrica à espera de ser lambida? Sustentar o fogo de uma amizade volúvel ou avivar lume cujas labaredas são meras manifestações de uma angústia que advém da terrível agnição dos nossos medos e distorções do espírito, outrora em estado latente, hoje alimentadas pelo rugido do silêncio do isolamento?
Abro livros com uma avidez estonteante para neles encontrar as chaves que permitam descodificar e validar o meu estado de alma, como se um todo emaranhado de caracteres se combinasse no momento exacto em que os meus olhos indagadores cruzam vorazmente esse conjunto estruturado de palavras. Recorro, pois, a Orwell e ao seu extraordinário ensaio “A Prevenção da Literatura” (1946), que parte da discussão da Areopagitica (1644) de Milton, como denúncia de todas as formas de totalitarismo que cerceiam a liberdade de expressão, intelectual e criativa. Volvidas as primeiras páginas, Orwell cita o refrão de um velho hino religioso da América puritana composto em 1873 por Philip P. Bliss (1838-1876), para demonstrar mais adiante o processo em curso da colectivização do eu, que aniquila, acima das outras artes, a literatura enquanto exercício puro dessas liberdades. O hino oitocentista baseou-se na personagem bíblica de Daniel, condenado à cova dos leões por desafiar as ordens iníquas do seu rei, Dario: «Ousa ser um Daniel, / Ousa erguer-te só; / Ousa o teu fito vincar, / Ousa dar-lhe voz.» Orwell acusa: «Para tornar este hino actual, teríamos de iniciar cada verso com a expressão “Não ouses”, já que a nossa época possui como traço peculiar o facto de os rebeldes contra a ordem vigente […] se oporem também à ideia de integridade individual.» (in George Orwell, “A Prevenção da Literatura”, Livros & Cigarros. Lisboa: Antígona, 2010, trad. Paulo Faria, p. 44).
E prossigo com Enrique Vila-Matas quando este regista no seu volúvel caderno do “deve e haver” o regresso insólito de alguém que julgara haver perdido para sempre:

«O amigo que regressou depois de um ano de ausência. Liga cá para casa só para cumprimentar e quase sem ocultar que o faz por puro compromisso. Está mais calculista do que nunca. E eu, seja como for, não faço parte do seu campo de interesses. Creio perceber que não gosta nada de mim. […] Trata-se apenas que me tem um certo afecto, mas não está interessado em mim e é muito possível que, na realidade, eu nunca tenha tido qualquer interesse para ele. Talvez se sinta melhor com gente que o admira, ou talvez melhor com outros, apenas. Não tem importância, digo para comigo. Não vejo por que razão as amizades haveriam de durar mais do que as paixões.»
Enrique Vila-Matas, Diário Volúvel, p. 250 [Lisboa: Teorema, Fevereiro de 2010, 287 pp; tradução de Jorge Fallorca; obra original: Dietario Voluble, 2008].

A descoberta das marcas já profundas de uma amizade falhada que se foi alimentando de bons momentos – que, todavia, serviram para toldar equívocos, faltas de respeito e ataques implacáveis à nossa auto-estima –, tal como o fim abrupto de uma paixão, é susceptível de infundir no nosso espírito a inevitabilidade (como um pesadelo que se repete ab aeterno) de uma longa travessia por campos de destruição surrados e sombrios, que só o será – a dura constatação desse malogro – se não assumirmos uma ruptura definitiva, sem meias medidas e dando por esgotado o crédito de sucessivos pedidos de clemência, como o fogo passional que se extinguiu, cujos agravos o tempo se encarregará de dissolver pelos difusos refúgios da memória. Para isso, para evitar esse sofrimento que não se cala com um mero pedido de explicações, oriento a minha vida para um rotundo, definitivo, interjectivo e irreversível: partir, sempre; regressar, na sua significação de retroceder, calcar os caminhos já trilhados, “nunca mais!
Ah, como era sábio Antonio Machado.
Nota: na imagem acima, reprodução de Daniel na Cova dos Leões, de Peter Paul Rubens (1577-1640), circa 1615, óleo sobre tela.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Saramago

José Saramago
(1922 - 2010)

IMPAC 2010 - Vencedor

Foi anunciado ontem, ao fim da tarde, o romance vencedor da edição de 2010 do milionário International IMPAC Dublin Literary Award. Uma vez mais (tal como ocorreu com Rawi Hage em 2008), foi premiado um primeiro romance, desta feita do escritor holandês Gerbrand Bakker (n. 1962) – que já antes se estreara na literatura infanto-juvenil – trata-se do elucidativo, para a esmagadora maioria da blogosfera lusa que não entende uma palavra sequer de neerlandês, Boven is het stil (2006), obra que foi nomeada na fase inicial por quatro bibliotecas, todas holandesas. Ainda sem edição marcada para Portugal, o romance foi traduzido para inglês em 2008 sob o título The Twin. De notar, que Bakker, para além de haver sido o primeiro holandês a vencer este galardão desde a sua fundação em 1996, derrotou, entre outros, nomes já consagrados como Christoph Hein, Joseph O’Neill, Marilynne Robinson ou Zoe Heller.

Nota: para mais informações consultar o sítio oficial do prémio.




Vencedores anteriores:
2009 – Michael Thomas – Man Gone Down
2008 – Rawi Hage – Como a Raiva ao Vento (Civilização, 2008)
2007 – Per Petterson – Cavalos Roubados (Casa das Letras, 2008)
2006 – Colm Tóibín – O Mestre (Dom Quixote, 2007)
2005 – Edward P. Jones – The Known World
2004 – Tahar Ben Jelloun – Uma Ofuscante Ausência de Luz (Asa, 2003)
2003 – Orhan Pamuk – O Meu Nome é Vermelho (Presença, 2007)
2002 – Michel Houellebecq – Partículas Elementares (Temas e Debates, 1999)
2001 – Alistair MacLeod – No Great Mischief
2000 – Nicola Barker – À Flor da Pele (Gradiva, 2000)
1999 – Andrew Miller – A Dor Industriosa (Teorema, 1999)
1998 – Herta Müller – A Terra das Ameixas Verdes (Difel, 1999)
1997 – Javier Marías – Coração Tão Branco (Relógio D’Água, 1994)
1996 – David Malouf – Recordando a Babilónia (Assírio & Alvim, 2009)

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Tratado sobre o isolamento

Querido Diário,
Ainda não encontrei a minha Alicudi, (in)felizmente. Porventura impotente para me interrogar sobre quão próximo poderei estar de mim próprio (o inferno?), eu e a natureza… sem tudo perder. (cf. epígrafe, DeLillo)
Nada Pessoal. Vi a desolação interior de Urszula Antoniak e lembrei-me do inefável “Gerardo” (Renato Carpentieri), correndo como um louco, fugindo da isola, gritando, enconsta abaixo, enquanto o ferry soltava amarras:
«Televisione! Ascensore! Telefono! Acqua calda!»
Caro Diário,
Distancio-me. Vou abandonando o mundo dos afectos… álgido. Explicar-te-ei em nova entrada… uma teoria do equilíbrio?
Por enquanto vejo-me ao espelho, esquadrinho o meu rosto em busca de uma realidade alternativa, paralela e intermutável, de que possa escapar assim que os meus braços caírem puxando o fio – marioneta que grita ao criador – que fará soar o alarme:

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Beat to its socks

Pode ler-se, num círculo autocolante aposto à capa da edição portuguesa de mais uma entre dezenas de biografias e livros de memórias sobre o pai beatnik Jack Kerouac, a seguinte frase: «Primeira biografia em português» a rodear o nome do autor biografado, que surge estampado a vermelho e encimando o recorte vazio dos emblemáticos sinais de trânsito que demarcam as estradas norte-americanas.
Apesar de a edição brasileira do mesmo livro datar de 2007, não belisca de forma alguma a veracidade da frase promocional. Na realidade, e nos dias que correm, também no Brasil é a única biografia de Kerouac disponível na língua de Camões.
Para quem conhece outros livros versados sobre a vida do autor de Pela Estrada Fora, para além de alguns factos que, à custa da reiteração, fazem parte do folclore que rodeou aquele bando de desordeiros, toxicómanos, bêbados, pederastas, criminosos (também escreviam livros e pintavam), e que são do conhecimento de alguém com o mínimo interesse na coisa literária, especialmente na literatura americana da segunda metade do século XX, o livro de Yves Buin é uma síntese de biografias de maior fôlego – cito as do lynchiano Barry Gifford e a de Gerald Nicosia, que aliás são profusamente referenciadas por Buin ao longo do texto; como os testemunhos oculares escritos pelos companheiros de viagem do próprio biografado, também eles parte integrante do ruidoso movimento Beat: destaco, neste caso, as obras de John Clellon Holmes ou as de Joyce Johnson (Glassman), assim como as referências cruzadas da omnipresente Carolyn Cassady (mulher de Neal Cassady durante quinze anos e mãe dos seus três filhos – o inspirador do magnum opus de Kerouac, na pele de “Dean Moriarty” – e vértice de um sórdido triângulo luxurioso completado por aqueles).
A obra apresentada por Buin é um apanhado, como uma súmula académica pronta a servir de única base de estudo ao estudante mais indolente, da tortuosa biografia de Kerouac. O livro do pedopsiquiatra francês – e é curioso o prefixo profissional, já que, no auge do movimento cultural retratado, o biógrafo poderia ter sido de uma utilidade ímpar pelos diversos traumas decerto infundidos por aquele bando a inúmeros potenciais clientes – em nada acrescenta ao já publicado, para além de, por um lado e porventura num esforço de síntese, funcionar como um repositório de nomes sem qualquer referência biográfica (prática comummente conhecida por name dropping, que pode ser bem mais viciante que o consumo de yage), e, por outro, se tratar de um texto cronologicamente confuso, sem um marco histórico definido, com recurso a analepses e prolepses consecutivas, que por vezes faz distar dois parágrafos em duas ou mais dezenas de anos. E para dar o remate final poderia trazer à colação a objectividade do investigador que, na prática, sai prejudicada por uma longa narrativa que espremida se assemelha a uma espécie de elegia ao inocente mago literário canuck, apesar de nela se evidenciar uma posição íntima, como um severo ralhete paternalista, de censura pelos excessos cometidos.
Mas o pior não está no texto publicado originalmente pela Gallimard em 2006. A sua edição portuguesa é um verdadeiro desastre: uma tradução miserável, o que indica uma revisão literária ausente ou negligente. Ao longo das trezentas páginas não há um par que não escape a, pelo menos, um erro ortográfico e/ou de sintaxe, e até a um enxame de erros nitidamente tipográficos. É simplesmente inadmissível e ultrajante para o leitor luso, aquele que, em vias de extinção, gasta os seus parcos recursos na aquisição de uma obra com esta especificidade literária, apresentar um livro cujo chorrilho de asneiras torna quase impraticável a sua leitura. Se há casos em que mesmo uma má tradução não implica inexequibilidade da leitura, este seguramente que não é um deles. Muito do que foi dito nos parágrafos anteriores poderá, admito, advir do estado de irritação crescente à medida que me fui embrenhando no livro – erros de género e de número, então, são aos magotes, assim como, é assaz perceptível uma espreitadela, talvez à laia de muleta, na edição brasileira, bem patente no emprego de alguns termos apenas usados por terras de Vera Cruz. Aos responsáveis da editora atrevo-me a lançar um desafio: retirem, rápida e prontamente, a 1.ª edição do mercado, façam uma revisão literária, remodelem a capa com a aposição de uma frase do género “nova tradução” ou “2.ª edição revista”.
A beatitude lusa compadece-se destes casos, sem que se vislumbre qualquer hipótese de usar o qualificativo como um catalisador do engrandecimento do espírito, como defendia Kerouac e Clellon Holmes para a sua embrionária geração; talvez fosse preferível começarmos por adoptar e a adaptar, de uma vez por todas, como uma fatalidade, a origem do termo criado, em primeira mão, pelo beatnik Herbert Huncke, neste caso como a nação estéril, derrotada ou prostrada: beat to its socks.
Referência bibliográfica:
Yves Buin, Jack Kerouac – Biografia. Lisboa: Bertrand, Abril de 2010, 301 pp; tradução de Ana Godinho; obra original: Kerouac, 2006.

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Decepção

Princípio de 2010. Ainda mal acabara a época consumista da quadra natalícia, aproveitada pelo meio editorial para os lançamentos das mais retumbantes novidades literárias em carteira, após o aquecimento outonal pós-férias, e já se anunciavam as obras que, com as andorinhas (e insisto nisto, com os malfadados pólenes, que enfraquecem, pelo sofrimento, a minha certeza sobre a necessidade desta passagem terrena), chegariam aos escaparates das nossas livrarias. Um dos anunciados e mais aguardados era o mais recente romance do escritor irlandês (publicado em 2009), muito aqui da casa, Colm Tóibín, Brooklyn, sob a chancela da Bertrand.
Aguardei pelo dia 21 de Maio. Comprei o livro. Deixei de lado as potencialmente distractivas leituras paralelas. Encetei a leitura e no dia seguinte agarrei-me de novo aos livros que abandonara. Fosse eu presidente do Supremo Tribunal de Justiça e dir-vos-ia que li Brooklyn às “bochechas” – expressão que zarpará, pela força do consuetudinário, do idiolecto da quarta figura soberana da nação rumo à riqueza semântica da língua portuguesa –, enfastiado, a espaços nauseado pelo descomedimento melodramático, que, em suma, mereceu três estrelas no meu guia bibliófilo de novidades literárias, não só pelos laços afectivos que criei com o autor através da leitura das suas obras, que não se dissolvem por um ou dois desatinos ou delírios literários do autor (o número reduzido dá-me esperanças de uma brevíssima transitoriedade do novo estilo), mas também porque a estrutura de base do romance em causa não me deixou de todo desconfortável; o problema está no seu enchimento, mera adiposidade soberanamente viscosa – e a capa da edição portuguesa em nada auxilia o conteúdo (na imagem) –, que o autor, sobretudo, do extraordinário O Mestre (The Master, 2004), mas também de A História da Noite (The Story of the Night, 1996) e de O Navio-Farol de Blackwater (The Blackwater Lightship, 1999), não habituou o seu leitor indefectível.
Curiosamente, com Brooklyn, Tóibín venceu o Costa Novel Award de 2009 (antigo Whitbread) e foi semifinalista (entre 13 romances) do Booker Prize de 2009.
Por publicar em Portugal continua o seu livro de contos, editado originalmente em 2006, Mothers and Sons, que, a demorar mais um pouco, levar-me-á à derrogação do meu (questionável) critério de só ler em português*, fundado na leitura como eminente exercício de prazer.
Bom, regressei com deleite e alívio ao ziguezaguear de Vila-Matas, e aos ensaios de inexequibilidade político-filosófica de Orwell na sua última colectânea editada entre nós pela Antígona.
Nota: *Por vezes um masoquismo, que no caso em apreço, se elevou ao paroxismo do martírio de São Sebastião, mas com os fácies sereno de Botticelli (talvez pelo conhecimento que advém do efectivo não cometimento de um erro de sintaxe), mas que, na verdade, tira a paciência a um santo: refiro-me à locução verbal “deve de ser”, repetida amiúde e sem melindre no texto traduzido.
Referência bibliográfica:
Colm Tóibín, Brooklyn. Lisboa: Bertrand, Maio de 2010, 253 pp; traduzido por C. Santos (não, não se trata do concessionário da Mercedes-Benz em Portugal); obra original: Brooklyn, 2009

segunda-feira, 31 de maio de 2010

A Cin-Cinemateca

Nunca um defeito – que me merece todo o respeito, tal como um excesso, desde que não me fodam com patranhas – me pareceu tão adequado para qualificar a novela arrastada, burlesca, pobrezinha, em suma, epítome da lusitanidade, sobre a “vinda/não-vinda” da Cinemateca Portuguesa – Museu do Cinema para o Porto. Somos pobres, provincianos e estamos curvados, receptivos (faltam as feromonas), perante o poder ditado pela Capital. O Bénard, semideus, não queria, logo pelo dom emanado dos miasmas além-túmulo não se faz – como um oráculo tenebroso, lançando gritos, aflições e pragas através da corrupção da carne e da vetustez do espírito.
Sin Cinemateca – é como nos tratam, como bando de espanhóis que enchem os bolsos a uma corte de subsidiados que levantam o nariz e apontam o dedo, clamando por ventos e tempestades contra qualquer iniciativa que lhes roube a chama sagrada da cultura. E cá continuamos, no enquadramento bucólico do porto, como o Ícaro de Brueghel de cabeça e tronco mergulhados nas águas cediças, de traseiro virado ao deus iracundo pelo arrojo da sugestão – nem sequer houve tempo para o roubo da chama eterna que ilumina aquelas cabeças olímpicas, supra-sumos da intelectualidade e agentes exclusivos da cultura.
Basta olhar para a programação, e deixar destilar a inveja que me invadiu, arrasadora e pérfida, pela constatação da sua excelência, embora à custa da depredação dos corpos exauridos das regiões mais pobres da Europa a 27 – e, nesse momento, surge a ira pela diferença abissal entre a sumptuosidade asiática da Capital macrocéfala e os cenários de devastação humana que me rodeiam. Pecador sem remissão.
Oh, e como a Sra. Dra. (por lá tratam-se todos assim, pelos títulos, a que nem as salas de projecção conseguem escapar; esse novo-riquismo, snob, sine nobilitate, a jactância pequeno-burguesa, o triunfo dos porcos que finalmente se acham símiles dos humanos no poder), investida daquela sua farpa graciosa, em que tartamudeando, faz as suas piadinhas demagógicas e atestadas de soberba:

«Houve um abaixo-assinado [sobre a criação de um pólo da Cinemateca no Porto], como sabe. E acontecem algumas projecções na Fundação de Serralves em que, segundo me disseram... Por exemplo, no ciclo dedicado a Pedro Costa, não sei se o realizador se alguém por ele, perguntou, perante o número exíguo de espectadores, se eles estavam ali em representação dos 4970 signatários.»
Maria João Seixas, Ípsilon, 28/05/2010 (em entrevista a Kathleen Gomes).
Ciclo, mas que ciclo? O extinto preparatório? Um cripto-ciclo com duas projecções duas (Ne change rien de 2009, e O Sangue de 1989) num auditório que não reúne as condições necessárias para uma projecção cinematográfica de qualidade (visual e sonora) e minimamente confortável?
Não há salas cheias, sem se readquirirem os hábitos que se perderam, ou que nos foram roubando. A outrora considerada cidade ibérica com maior número de cinéfilos, vai-se divertindo com os popós nos Aliados e na Boavista (com aplauso de veneração da Capital), as lantejoulas brejeiras e revisteiras à Praça D. João I e o gordo dos concursos à Sá da Bandeira. E chega.
E continuo a olhar para o programa, e a ira e a inveja consomem-me pelos trezentos quilómetros de distância.
Sin-Cinemateca. Para os mais eruditos, latinistas, Sine-Cinemateca. Besuntai-vos com ela e com as soluções de compromisso com os mortos. Bastava um arquivo digital que, com o dinheiro de todos nós, replicasse no Porto e noutras cidades com um razoável número de cinéfilos (Coimbra, Braga ou Vila Real, por exemplo), o programa exibido na Barata Salgueiro.
Polanski, Spielberg, Visconti e… Mário Barroso, uma nota cómica (a talho de foice)
A Cinemateca promoveu uma pequena e curiosa iniciativa (ainda em realização) denominada “Os Filmes dos Presidentes”, que se enquadra nas comemorações do Centenário da República, nesse sentido «a Cinemateca entendeu convidar quem ocupa e ocupou o mais Alto Cargo da República para a realização deste Ciclo, apresentando um filme da sua escolha.» Eis a selecção:
  • Cavaco Silva escolheu O Pianista (The Pianist, 2002), de Roman Polanski;
  • Jorge Sampaio elegeu o grandioso O Leopardo (Il Gattopardo, 1963), de Luchino Visconti;
  • Ramalho Eanes optou pelo mais prosaico e militarista O Regaste do Soldado Ryan (Saving Private Ryan, 1998), de Steven Spielberg;
  • Mário Soares, bem ao seu estilo, laico e republicano (agora fala-se muito da ética desta última), sobrinhou (foi bastante papista) O milagre segundo Salomé, do realizador português Mário Barroso.
Como diria alguém que conheço e muito prezo: uma beleza!

sábado, 29 de maio de 2010

Temor

Ishiguro teve sorte, ou procurou-a, no momento em que vendeu os direitos do seu romance Os Despojos do Dia à indústria cinematográfica. Não sei se os vendeu bem, sei, no entanto que, por mais ou menos ponderado que se haja revestido o seu o acto de cedência, a obra-prima, Booker Prize de 1989, ficou na melhor das mãos; foi arrebatada por uma das uniões mais bem-sucedidas no escasso mundo dos verdadeiros artesãos da sétima arte, a Merchant Ivory: James Ivory realizou e Ruth Prawer Jhabvala escreveu o argumento. Independentemente dos prémios, das críticas e das receitas, Os Despojos do Dia (The Remains of the Day, 1993) – a sua beleza cénica, o seu bem doseado pathos (veja-se a epítome da fleuma e da estrita observância no cumprimento do dever em “James Stevens”), o delicado rendilhado da trama, o par eterno Emma T. & Anthony H. – ficará de forma indelével ligado ao firmamento da indústria cinematográfica. A ele já voltei meia dúzias de vezes sem que se houvesse manifestado em mim qualquer sinal de cansaço.
Kazuo Ishiguro pertence ao pequeno grupo de escritores britânicos nascidos nos anos 40 e 50 do século passado cuja bibliografia dificilmente chegará à dezena nos tempos mais próximos. É um perfeccionista, e essa qualidade detecta-se em todas as suas obras. Entre a publicação das suas histórias, o autor de origem japonesa escreveu dois argumentos para cinema para um filme de Guy Maddin (A Canção Mais Triste do Mundo; The Saddest Music in the World, 2003) e outro para James Ivory (A Condessa Russa; The White Countess, 2005), ambos premiados mas bem longe dos holofotes do sucesso. Hoje, sabe-se que o melhor romance (opinião pessoal) (Nunca Me Deixes; Never Let Me Go, 2005) do mestre Ishiguro está a ser transposto para a sétima arte – encontrando-se já na fase de pós-produção, com estreia marcada nos Estados Unidos para os primeiros dias de Outubro deste ano – pelo génio retorcido do argumentista preferido do “blasonado sem causa” Danny Boyle, Alex Garland (n. 1970). A realização ficou a cargo do norte-americano Mark Romanek (n. 1959), que para além de haver dirigido apenas duas longas-metragens ao longo da sua carreira, que começou com a comédia Static de 1985, e terminou com o mais que medíocre projecto de thriller Câmara Indiscreta (One Hour Photo, 2002), realizou uma série de telediscos para Bowie, Morrisey, Madonna, Janet e Michael Jackson e para bandas como os R.E.M., Weezer, Sonic Youth ou os Red Hot Chili Peppers.
No elenco, já disponível na base de dados do IMDB, constam nomes como Carey Mulligan no papel da doce “Kathy”, Charlotte Rampling (que, atendendo às características da personagem, ficará bem no papel da inescrutável “Miss Emily”), a leighiania Sally Hawkins e a inevitável Keira Knightley, para além do jovem grande actor Andrew Garfield – os sentimentos mistos que me despertaram, também não auguram nada de bom.
Um temor apoderou-se de mim. E é sempre assim, quando uma obra literária que me encheu as medidas é adaptada ao cinema. Ainda bem presente na minha memória está a adaptação desastrosa em 2007 do melhor romance de Ian McEwan, Expiação (Atonement, 2001) pela dupla Joe Wright & Chris Hampton, uma película que parecia filmada com um scanner (remissão para dois textos aqui escritos) que retirou toda a beleza subliminar da já canónica obra de McEwan.
Só me resta esperar para nestas páginas, se ainda por cá andar, poder zurzir na obra fílmica que se anuncia, tal é a energia acumulada pelos sentimentos de temor/cólera. Porém, uma coisa afigura-se-me como certa, nestes casos qualquer lampejo de brilhantismo pode ter o efeito pernicioso de fazer soltar a minha veia encomiástica, tão baixas são as expectativas – pernicioso? Porquê? Se a imagem que possais ter deste que vos escreve não me preocupa…
Nota: no ficheiro fotográfico acima (da esquerda para a direita), Keira Knightley (“Ruth”) e Carey Mulligan (“Kathy”) no local das filmagens.

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Cinefilia

Do filme Filadélfia (Philadelphia, 1993), de Jonathan Demme, com Tom Hanks (como Andrew Beckett) e Denzel Washington (como Joe Miller):
Ficha Técnica (som):
  • Ópera: Andrea Chénier (1896)
  • Compositor: Umberto Giordano (1867-1948)
  • Soprano: Maria Callas (1923-1977), como Maddalena di Coigny
  • Ária “La Mamma Morta”, 3.º Acto
  • Gravação: Ao vivo, Scala de Milão, 1955 (EMI Classics)
  • Maestro: Antonino Votto (1896-1985)
  • Orquestra: Scala de Milão