…o livro do ano. Novecentas e vinte páginas de poesia de Sophia, com selecção e organização pela sua filha Maria Andresen de Sousa Tavares.
«Glenn Gould said, "Isolation is the indispensable component of human happiness."» [Contraponto] «How close to the self can we get without losing everything?»
Don DeLillo, “Counterpoint”, Brick, 2004.
segunda-feira, 22 de novembro de 2010
A Caminho…
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Sophia de Mello Breyner Andresen
sábado, 20 de novembro de 2010
O Armário e o Paquiderme*
Por vezes sou paquidérmico em relação a determinadas opiniões, que mais não são que pré-conceitos em estado latente prontos a serem arremessados para a arena de “olha que contra a corrente que eu sou”.
Não gosto mesmo nada de me citar, nem de fazer das minhas opiniões sentenças, até por razão de manter algum contacto com a realidade: ninguém lê este blogue – ou melhor, pedindo desculpa aos que me lêem, cerca de meia dúzia, tenho a consciência de que qualquer opinião que aqui emita jamais será considerada em qualquer microtertúlia em que se discuta cinema, literatura, ou qualquer outro tema que aqui desenvolvi. Não é falsa modéstia, é apenas a constatação da realidade: não distribuo empregos, nem abraço políticos, não sou dono de uma editora, não escrevo em jornais ou revistas, vivo (e espero continuar a viver) no Porto, sou apartidário, embora a minha condição de blogger dispensável se agrave por uma certa dextralidade política (o que é isso?), sou agnóstico, sempre dubitativo (e não dúbio), estou-me perfeitamente nas tintas para líderes e pseudo-líderes, para os tipos que se dizem éticos (esta é das melhores lidas ultimamente), chefes, autoridades (sobre qualquer matéria); nisso sou um anarca (não estender muito o conceito, por favor), libertário, anticonservador, cultor do meu pensamento livre (jamais constrangido), sem o fim último de insultar a diferença, embora por vezes uma boa provocação à laia de insulto sirva para aliviar um pouco desta minha idiossincrática carga emocional fortemente compressora.
Não preciso de sair do armário (pronto, já arrumei com o título), nem sinto a necessidade de me revelar, muito menos de encetar qualquer manobra de diversão que permita deixar-me mais confortável perante alguém.
A 2 de Outubro passado disse aqui:
Não gosto mesmo nada de me citar, nem de fazer das minhas opiniões sentenças, até por razão de manter algum contacto com a realidade: ninguém lê este blogue – ou melhor, pedindo desculpa aos que me lêem, cerca de meia dúzia, tenho a consciência de que qualquer opinião que aqui emita jamais será considerada em qualquer microtertúlia em que se discuta cinema, literatura, ou qualquer outro tema que aqui desenvolvi. Não é falsa modéstia, é apenas a constatação da realidade: não distribuo empregos, nem abraço políticos, não sou dono de uma editora, não escrevo em jornais ou revistas, vivo (e espero continuar a viver) no Porto, sou apartidário, embora a minha condição de blogger dispensável se agrave por uma certa dextralidade política (o que é isso?), sou agnóstico, sempre dubitativo (e não dúbio), estou-me perfeitamente nas tintas para líderes e pseudo-líderes, para os tipos que se dizem éticos (esta é das melhores lidas ultimamente), chefes, autoridades (sobre qualquer matéria); nisso sou um anarca (não estender muito o conceito, por favor), libertário, anticonservador, cultor do meu pensamento livre (jamais constrangido), sem o fim último de insultar a diferença, embora por vezes uma boa provocação à laia de insulto sirva para aliviar um pouco desta minha idiossincrática carga emocional fortemente compressora.
Não preciso de sair do armário (pronto, já arrumei com o título), nem sinto a necessidade de me revelar, muito menos de encetar qualquer manobra de diversão que permita deixar-me mais confortável perante alguém.
A 2 de Outubro passado disse aqui:
«A primeira e, pelos vistos, frutuosa união Fincher & Sorkin chega cá no próximo dia 4 de Novembro, e tenho uma forte suspeita de que, por terras do primeiro-ministro filósofo (…), onde predominam as mentes preclaras, levará no mínimo com uma bola preta… Há quem culpe o realizador de Denver por haver realizado alguns telediscos, uma mácula jamais expurgável na carreira de um cineasta.»
E a bola preta veio de onde mais esperava: o algoz do realizador de videoclipes para Madonna, Paula Abdul, George Michael, Sting, entre outros, dificilmente reconhecerá qualquer mérito ao realizador de Denver, só se, por uma análise da crítica intracomparada, conseguir vencer um reaccionarismo, que o próprio julgará tratar-se de criatividade e de ambição cinematográfica, tal como proferia o polémico Ben Marcus nas artes literárias. Adaptando o texto à sétima arte, vem: aqueles que procuram assegurar que a cultura se afaste do progresso cinematográfico, aqueles que insistem que os sucessos fílmicos do passado devem ser solidificados, polidos e praticados pelas gerações mais jovens. Qualquer adaptação à realidade vigente é um sacrilégio. Logo, mais vale filmar de câmara ao ombro um bairro degradado de Manila e contratar uma dúzia de actores não profissionais e com uma fotografia deslavada, sem artifícios, contar uma história banal, para não se cair na malfeitoria do truque fácil de câmara, jogos de luz, filtros e montagem, e demais maquinaria associada – a profanação do cinema.
A concretização da profecia (mesmo antes de ter visto o filme, que, suponho, vi no dia a seguir à estreia – 5 de Novembro), levou-me, como já aqui disse, a suspender e arremessar para o arquivo de ficheiros “ponto doc” mortos a minha opinião mais elaborada sobre a última obra de Fincher**. Mas estarei sempre disponível para exteriorizar uma boa irritação, como se não bastasse, para não danificar ainda mais as paredes desta panela de pressão, já de si bastante combalida e com cicatrizes de repressões de antanho. O outing é a minha forma de vida. E já agora a de exibir algumas opiniões de quem muito respeito nesta matéria, apesar de discordâncias viscerais noutras ocasiões, o fio condutor no exercício da crítica jamais se cristalizou num conservadorismo bafiento:
A concretização da profecia (mesmo antes de ter visto o filme, que, suponho, vi no dia a seguir à estreia – 5 de Novembro), levou-me, como já aqui disse, a suspender e arremessar para o arquivo de ficheiros “ponto doc” mortos a minha opinião mais elaborada sobre a última obra de Fincher**. Mas estarei sempre disponível para exteriorizar uma boa irritação, como se não bastasse, para não danificar ainda mais as paredes desta panela de pressão, já de si bastante combalida e com cicatrizes de repressões de antanho. O outing é a minha forma de vida. E já agora a de exibir algumas opiniões de quem muito respeito nesta matéria, apesar de discordâncias viscerais noutras ocasiões, o fio condutor no exercício da crítica jamais se cristalizou num conservadorismo bafiento:
«O filme de David Fincher possui não só a rara qualidade de ser tão inteligente como o seu brilhante herói, mas é-o da mesma forma. É arrogante, impaciente, frio, excitante e instintivamente arguto.Para terminar, e para um bom momento de descompressão, como seria A Rede Social se filmada por Wes Anderson, Michael Bay, Christopher Guest, Quentin Tarantino, Guillermo del Toro ou Frank Capra?
(…)
“A Rede Social” é um grande filme, não só devido ao seu estilo deslumbrante ou ao seu engenho visual, mas porque é admiravelmente bem-feito. Apesar das desconcertantes complicações da programação informática, da estratégia da Internet e da grande finança, o argumento de Aaron Sorkin torna tudo compreensível, e não seguimos com tanta força a história como somos puxados para detrás dela. Eu assisti ao filme rodeado por uma audiência que parecia absorta de uma forma invulgar: encontrava-se amplamente fascinada.»
Roger Ebert, “The Social Network”, Chicago Sun-Times, 29/09/2010.
Notas: *este título não se inspirou em qualquer obra do realizador, tão cauterizado pela crítica em Portugal, Julian Schnabel.
**A minha indefectibilidade fincheriana será posta à prova no passo que o realizador do Colorado está prestes a dar. Trata-se de um remake de um filme sueco estreado no ano passado sobre o primeiro livro da trilogia-dos-títulos-em-comboio do escritor já desaparecido Stieg Larsson. Entretanto, continuo em aulas de mentalização para considerar uma obra-prima o terceiro filme da série Alien. Depois do 8.º Passageiro de Scott (o Ridley, o menos apimbalhado dos manos) e do Recontro Final de Cameron, e antes da Ressurreição do Jeunet, suponho que não necessitarei de uma sala fechada com grampos nas pálpebras para a Desforra de Fincher.
**A minha indefectibilidade fincheriana será posta à prova no passo que o realizador do Colorado está prestes a dar. Trata-se de um remake de um filme sueco estreado no ano passado sobre o primeiro livro da trilogia-dos-títulos-em-comboio do escritor já desaparecido Stieg Larsson. Entretanto, continuo em aulas de mentalização para considerar uma obra-prima o terceiro filme da série Alien. Depois do 8.º Passageiro de Scott (o Ridley, o menos apimbalhado dos manos) e do Recontro Final de Cameron, e antes da Ressurreição do Jeunet, suponho que não necessitarei de uma sala fechada com grampos nas pálpebras para a Desforra de Fincher.
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quinta-feira, 18 de novembro de 2010
Patti Smith, como se esperava
Foram anunciados ontem os National Book Awards de 2010, e Patti Smith venceu com o seu Just Kids a categoria de “Melhor Livro – Não-Ficção”. A obra trata das memórias de uma parte importante da sua vida frenética, quando esta foi consumida nos 60 e 70 do século passado ao lado do fotógrafo, irreverente e controverso, Robert Mapplethorpe (1946-1989).
Haverá, num futuro próximo, uma versão portuguesa deste livro?
Haverá, num futuro próximo, uma versão portuguesa deste livro?
Na categoria de “Ficção” venceu um romance sobre outro género de cavalo (embora no caso anterior fosse moderado), Lord of Misrule, da escritora equina Jaimy Gordon. Carey voltou a perder a corrida. Oh, que situação tão triste.
O mais conhecido fabricante de calhamaços vivo, Tom Wolfe (n. 1931), sucede a Gore Vidal vencendo a Medalha de Distinção pelo seu contributo para letras norte-americanas (eu diria para os caracteres norte-americanos, dado o gasto…)
O mais conhecido fabricante de calhamaços vivo, Tom Wolfe (n. 1931), sucede a Gore Vidal vencendo a Medalha de Distinção pelo seu contributo para letras norte-americanas (eu diria para os caracteres norte-americanos, dado o gasto…)
Mais pormenores, em português, aqui.
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terça-feira, 16 de novembro de 2010
Biopic
«-noun
(informal) a film based on the life of a famous person, especially one giving a popular treatment
[from bio (graphical) + pic (ture)]»
Collins English Dictionary – Complete and Unabridged, 10th Edition.
Seguido de:
«You’re not an asshole, Mark. You just want to be.»q.e.d.
[Do argumento de Aaron Sorkin, The Social network, pág. 160 – última fala do filme, proferida pela assistente do advogado ("Sy") de Zuckerberg, "Marylin".]
Sugestão de temas a desenvolver:
- Facebook e o mundo.
- A privacidade e o Facebook.
- Facebook e a dependência afectiva.
- O Facebook e a alienação da identidade.
- Manuel Alegre: "Cavaco Silva serve-se do Facebook enquanto PR" – A instrumentalização capitalista de Cavaco patrão / Cavaco costureiro.
- Beijei a fotografia do perfil do Facebook de Rui Santos (o tal do cabelo encaracolado), será que estou grávida?
- O Facebook e a modernidade: a impossibilidade de dissociar estes conceitos, ou o emparelhamento inextinguível – estudo de críticas cinematográficas.
- Fincher começa por F… acebook, o que faltou incluir no F… ilme para o transformar numa obra rivettiana, F… oda-se.
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sábado, 13 de novembro de 2010
Desisto
Após esta leitura:
Não pretendo fazer a crítica da crítica ou dos críticos, embora esteja convicto de que todos nós, os que laboram nas mais diversas actividades cujo objectivo final é a exposição das nossas formas de pensar, sentir e/ou agir perante o mundo, jamais seremos possuidores do direito divino de proibir o seu escrutínio – negar esse exercício equivale a escrever entradas pueris num diário que se aferrolha ao fim de um dia de exaltações, tristezas, êxitos e frustrações, para mais tarde deitar fora a chave –, what lies beneath…
Desisto, mas deixo ficar uma sugestão: o excelente texto escrito pelo Sérgio Lavos a propósito do último trabalho de Fincher, A Rede Social (The Social Network, 2010). O tal que agora terminava, iniciava-se com uma rememoração (regressão), porventura fetal, e partia da técnica para estética: a fabulosa cena inicial num bar de Harvard e a viagem ao som do mestre Reznor, “Hand Covers Bruise”, até à consumação do pecado original na construção do personagem (que é real), e que acompanha os créditos iniciais até à sua entrada na Kirkland House: «Universidade de Harvard Outono 2003» (Fincher pretendia filmá-la num só take com a, segundo dizem, intrincada RED One®, que pediu de empréstimo ao seu amigo Steve [Soderbergh]).
Desisto, mas não resisto em deixar aqui, para memória futura, o começo do que estava escrito (excerto de um texto bastante mais longo – até poupei tempo ao leitor e meio que teimosamente me visita):
Um silêncio invadiu a sala durante os primeiros dez minutos após o último anúncio. A memória, por vezes traiçoeira, porém associativa num movimento perpétuo de sinapses, conduziu-me à infância. A estância – a última antes da reprise – concebida por uma trupe londrina de quatro (por justaposição à de Liverpool que sublima o final), quando ainda o calor líquido do ventre materno me afagava e abafava os sons psicadélicos que se lhe uniram numa perfeição eloquente, de vibração, tremor, oscilação – Respira:
«Depois de “Se7en”, David Fincher nunca mais atingiu as mesmas alturas, talvez porque se tenha deixado deslumbrar pelo seu virtuosismo, mais interessado em explorar jogos de imagem e surpresas de peripécias em reviravoltas constantes.»Desisto de postar aqui o texto que há uma semana vinha a congeminar nos intervalos da minha esgotante e, ultimamente, tumultuosa e angustiante actividade. Não sou crítico de nada, sou apenas, nestes domínios, um cinéfilo. Agarro nesta arte da projecção de ideias na grande tela com a paixão de um amante persistente não só da estética, mas também da técnica que a apurou. Preocupo-me menos com o corolário ético do «interrogar as manobras de poder e tocar nas contradições da modernidade», porque esse nunca foi o objectivo – faz-se a luz sobre um homem só, que aos dezanove anos começou do nada a erigir um império.
Breve crítica de Mário Jorge Torres, Público, CineCartaz e Ípsilon.
Não pretendo fazer a crítica da crítica ou dos críticos, embora esteja convicto de que todos nós, os que laboram nas mais diversas actividades cujo objectivo final é a exposição das nossas formas de pensar, sentir e/ou agir perante o mundo, jamais seremos possuidores do direito divino de proibir o seu escrutínio – negar esse exercício equivale a escrever entradas pueris num diário que se aferrolha ao fim de um dia de exaltações, tristezas, êxitos e frustrações, para mais tarde deitar fora a chave –, what lies beneath…
Desisto, mas deixo ficar uma sugestão: o excelente texto escrito pelo Sérgio Lavos a propósito do último trabalho de Fincher, A Rede Social (The Social Network, 2010). O tal que agora terminava, iniciava-se com uma rememoração (regressão), porventura fetal, e partia da técnica para estética: a fabulosa cena inicial num bar de Harvard e a viagem ao som do mestre Reznor, “Hand Covers Bruise”, até à consumação do pecado original na construção do personagem (que é real), e que acompanha os créditos iniciais até à sua entrada na Kirkland House: «Universidade de Harvard Outono 2003» (Fincher pretendia filmá-la num só take com a, segundo dizem, intrincada RED One®, que pediu de empréstimo ao seu amigo Steve [Soderbergh]).
Desisto, mas não resisto em deixar aqui, para memória futura, o começo do que estava escrito (excerto de um texto bastante mais longo – até poupei tempo ao leitor e meio que teimosamente me visita):
Um silêncio invadiu a sala durante os primeiros dez minutos após o último anúncio. A memória, por vezes traiçoeira, porém associativa num movimento perpétuo de sinapses, conduziu-me à infância. A estância – a última antes da reprise – concebida por uma trupe londrina de quatro (por justaposição à de Liverpool que sublima o final), quando ainda o calor líquido do ventre materno me afagava e abafava os sons psicadélicos que se lhe uniram numa perfeição eloquente, de vibração, tremor, oscilação – Respira:
Corre, coelho correRetomo ao silêncio embasbacado. Palavras proferidas em torno de uma mesa. Um diálogo frenético em tons pardacentos à mesa de um bar de Harvard. O fim, como revelação para a teia apocalíptica que se seguiria, envolvendo tudo e todos sem dó ou recuos perante a constatação do que se foi estilhaçando pelo caminho. Nove páginas do argumento de Sorkin equilibradas por um jogo de palavras que se entrecruzam sem se tangerem, que se esgotam com o murro no estômago:
Cava esse buraco e esquece-te do sol
E quando enfim o trabalho terminar
Não descanses é tempo de voltares a cavar
Por muito que vivas e por mais alto que voes
A menos que sigas com a maré
E te equilibres na maior das ondas
Lanças-te rumo a uma morte prematura.
Pink Floyd, “Breathe” (The Dark Side of the Moon, 1973; tradução livre: AMC, 2010)
«Ouve-me. Tu vais ser rico e ter imenso sucesso. Mas irás passar toda a tua vida a pensar que as raparigas não gostam de ti porque tu és um maníaco dos computadores. E eu só quero que saibas, do fundo do meu coração, que não irá ser esse o verdadeiro motivo. Será porque tu és uma besta.» [Do argumento de Aaron Sorkin, pág. 8; tradução livre: AMC][Textus interruptus]
Fincher 8 (obras-primas destacadas):
- Alien 3 – A Desforra (Alien3, 1992)
- Se7en – Sete Pecados Mortais (Se7en, 1995)
- O Jogo (The Game, 1997)
- Clube de Combate (Fight Club, 1999)
- Sala de Pânico (Panic Room, 2002)
- Zodiac (2007)
- O Estranho Caso de Benjamin Button (The Curious Case of Benjamin Button, 2008)
- A Rede Social (The Social Network, 2010)
segunda-feira, 8 de novembro de 2010
Houellebecq, finalmente
Eis o Prix Goncourt 2010:
Michel Houellebecq (n. 1956)
Pelo seu romance La Carte et le territoire, num resultado de 7 votos contra 2 [Cinco à maior? Parece-me familiar…] Eis um excerto do romance galardoado, antes que me dê vontade de aqui expor e destapar a verve asinina (e até criminosa, pelas calúnia, difamação e infâmia) daqueles cuja inquestionável meia dezena no bucho não consegue fazer calar (carregar aqui para mais informações sobre a atribuição do prémio):
«Jeff Koons tinha acabado de se levantar do seu assento, os braços projectados para diante num impulso de entusiasmo. Sentado à sua frente numa otomana de couro branco parcialmente coberta de sedas, de certa forma absorto nos seus próprios pensamentos, Damien Hirst parecia encontrar-se prestes a proferir uma objecção – a sua cara estava corada, soturna. Ambos vestiam um fato preto – o de Koons, de riscas finas –, uma camisa branca e uma gravata preta. Entre os dois, na mesa de centro, permanecia um cestinho de frutas cristalizadas que nem um, nem outro, prestou qualquer atenção – Hirst bebia uma Budweiser Light.
»Atrás deles, uma pequena varanda envidraçada abria-se para uma paisagem de prédios altos que formavam uma desordem babilónica de polígonos gigantescos até aos confins do horizonte. A noite estava luminosa, o ar de uma limpidez absoluta. Podiam encontra-se no Catar ou no Dubai. Na realidade, a decoração do quarto tinha-se inspirado numa fotografia publicitária, retirada de uma publicação de luxo alemã, do hotel Emirates em Abu Dhabi.
»A testa de Jeff Koons estava ligeiramente brilhante. Com o pincel, Jed esbateu-a e recuou três passos. Decididamente, havia um problema com Koons. Hirst, no fundo, foi fácil de captar: podemos fazê-lo brutal, cínico, do tipo “eu cago sobre todos vós do alto da minha riqueza”; também se poderia fazer dele um artista revoltado (mesmo continuando rico) porfiando num trabalho angustiante sobre a morte. O seu rosto possuía algo de sanguíneo e grosseiro, tipicamente inglês, que o aproximava de um membro da claque do Arsenal. Em suma, existiam diferentes aspectos, mas que poderiam ser combinados num retrato coerente, representável, de um artista britânico típico da sua geração. Enquanto Koons parecia transmitir qualquer coisa de ambíguo, como uma combinação intransponível entre a manha ordinária de um vendedor e o entusiasmo de um asceta. Com aquela já fazia três semanas que Jed retocava a expressão de Koons a levantar-se do seu assento de braços projectados para diante num impulso de entusiasmo, como se tentasse persuadir Hirst – foi tão difícil como pintar um pornógrafo mórmon.»
Michel Houellebecq, La Carte et le territoire [parágrafos de abertura; tradução livre: AMC, 2010]
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sábado, 6 de novembro de 2010
Um Passo
Por muito lixo traduzido que continue a proliferar pelos escaparates das livrarias portuguesas, é inegável, sem necessidade de recorrer a métodos econométricos para confirmar a hipótese, que o mercado editorial português tem melhorado significativamente no que se refere à publicação de títulos de autores estrangeiros há muito consagrados na literatura universal. Não associo, contudo, este fenómeno de melhoria à concentração de inúmeras editoras em grandes grupos económicos – aliás, seguir por esse caminho, como justificativa, poderia redundar na mais acerba das minhas críticas em forma de texto, apresentando alguns exemplos de casas editoriais, outrora respeitadas, que de momento pouco produzem e que, ao invés de expandir a sua carteira de obras literárias, têm deixado cair ao nível extremo da indigência os direitos de publicação que possuem dos seus mais eminentes autores e limitam-se a republicar, com um restyling, as obras que já, por vezes há décadas, dispunham no seus stocks livreiros.
Por diversas vezes salientei aqui o fantástico trabalho da neófita Ahab, do trabalho da Quetzal em trazer as obras de ficção nunca antes publicadas no nosso país de figuras de topo da literatura mundial, do exercício da liberdade editorial como política de excelência da Antígona, mas há mais. Já temos neste país imediatista, e citando apenas alguns nomes que agora vêem a luz do dia em português de Portugal: Bukowski, Pynchon, Fante, Gaddis, Denis Johnson ou Cheever. Foram editadas algumas (ainda não todas) das obras mais marcantes de Hamsun, DeLillo, Bellow ou Updike. Faltam muitos outros, mas porventura não convém ralhar nesta casa de pobre (talvez não consiga evitar) – as migalhas já são substanciais, estão, por isso, em vias de mudar de denotação.
O pouco do muito que falta – «não está traduzido em português. Este artigo é uma ternurenta forma de pressão (de que estão à espera, miseráveis?)», Rui Catalão na Ípsilon referindo-se à não edição em Portugal do glorificado segundo e último romance (completo) escrito pelo tristemente desaparecido David Foster Wallace – já poderá ser objecto de comemoração, mas sem excessos para que não prolifere a tradução asinina, traidora e mesmo até assassina da arte literária, potenciados pela pressa da corrida ao escaparate. E não é só DFW, autores como Norman Rush, Malamud, Vollmann, Matthiessen ou Barthelme continuam sem ver a luz do dia na literata Lusitânia, e o que dizer então de Henry James, Thomas Hardy, de Willa Cather ou de George Eliot?
Bom, mas uma excelente notícia surgiu esta semana, materializada no livro publicado pela Ulisseia que é representado pela imagem que adorna este texto. Mais um magnífico pequeno passo que vai engrandecendo aos poucos a nossa parca bibliografia em português de obras consagradas de autores estrangeiros – com a tradução a cargo de um bukowskiano indefectível que muito aprecio e que atesta a qualidade do trabalho realizado: Manuel A. Domingos.
domingo, 31 de outubro de 2010
Oito
Não me canso de repetir e fazer-me ouvir: “São apenas datas, um sinal no calendário igual aos demais que se repetem três centenas e meia num ano.” E assim tento enganar, ludibriar a dor inextinguível da saudade de outros, que também é minha, e que deste modo se multiplica e intensifica pela estúpida mentira que estipulei seria dita àqueles que mais amo no dia fatal. Todavia, fico com a dúvida que a mera percepção da estupidez cometida possa servir como indicador de algum resquício de lucidez que julgara definitivamente perdida.
«Pelo menos sabes que és a pessoa mais estúpida que jamais viveu neste mundo. Quantas pessoas terão a inteligência necessária para admitir uma coisa dessas?»Contudo, o dia passou, permanece a dor… 8, que se declina para o infinito.
Paul Auster, Sunset Park, pág. 188 [Alfragide: Asa, 1.ª edição, Outubro de 2010, 231 pp; tradução de José Vieira de Lima; obra original: Sunset Park, 2010.]
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sexta-feira, 29 de outubro de 2010
Consenso
Altruísmo, palavra tão morta para os que exercem o poder, como negociar simboliza uma acção impraticável e cedência uma impossibilidade constatada. Soberba no seu mais elevado grau de pureza que se conquistou com o exercício reiterado da teimosia, surda e manhosa, sobre as ruínas de um mundo em decomposição, enfraquecido por lutas intestinas na frente adversária. Obstinação, egoísmo que num jogo dialéctico com os patronos do consenso, uma forma espúria e perigosa de altruísmo, se sintetiza em ironia – vazia, sem consequências, como mera constatação do fracasso.
«(…)
De que forma a catástrofe,
traz perturbações ao velho método
de aplicar uma distância ao mundo?
De que forma a catástrofe,
traz perturbações ao velho método
de aplicar uma distância ao mundo?
Por cima da catástrofe, de um ponto de vista aéreo,
o homem é capaz de ironizar,
porém, já debaixo da catástrofe,
debaixo dos seus escombros,
a ironia será a última a aparecer
depois da acção instintiva de defesa,
do desespero que ainda emite ordens e tentativas,
e do último grito que assinala o fracasso.
o homem é capaz de ironizar,
porém, já debaixo da catástrofe,
debaixo dos seus escombros,
a ironia será a última a aparecer
depois da acção instintiva de defesa,
do desespero que ainda emite ordens e tentativas,
e do último grito que assinala o fracasso.
Só depois deste grito a ironia regressa,
dizendo, quando muito:
morro, é certo, mas mesmo assim
guardo uma elegante distância em relação
à minha morte.
(…)»
Gonçalo M. Tavares, Uma Viagem à Índia, pp. 37-38 (Canto I: 24-26). [Alfragide: Caminho, 1.ª edição, Outubro de 2010, 478 pp.]
dizendo, quando muito:
morro, é certo, mas mesmo assim
guardo uma elegante distância em relação
à minha morte.
(…)»
Gonçalo M. Tavares, Uma Viagem à Índia, pp. 37-38 (Canto I: 24-26). [Alfragide: Caminho, 1.ª edição, Outubro de 2010, 478 pp.]
Regresse à casa da partida e receba 2.000$00. Consenso: só mais um esforço. Ironia?
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sábado, 23 de outubro de 2010
Um é uma multidão
We don’t need people / to be alone. / We are together / on our own.
É com estas quatro estrofes que pretendo deixar aqui algumas (poucas) palavras, para memória futura, sobre o regresso de Ozon depois do OFNI (Objecto Fílmico Não Identificado) Ricky (2009) – filme este que não estreou no circuito comercial de cinema português, tendo sido lançado pela Clap Filmes directamente em DVD, sob a chancela da Fnac.
O Refúgio (Le refuge, 2009) é um regresso de François Ozon ao seu lado mais despido, enganadoramente seco, onde uma fina membrana pulsa sobre um turbilhão de sentimentos como a solidão, o egoísmo e até a tácita misantropia, potenciados pela dor que advém da brutalidade da morte, da doença ou da ausência insuportável de outrem; uma inóspita imperturbabilidade que não é mais que um disfarce erigido para resguardar a pessoa perante os efeitos nefastos do amor e dos afectos mais sinceros. Ozon retorna a O tempo que resta (Le temps qui reste, 2005) e ao seu melhor filme, o incontornável Sob a Areia (Sous le sable, 2000), com o seu fabuloso trabalho de actores, Melvil Poupaud e Charlotte Rampling, respectivamente; agora replicado com Isabelle Carré, que tem um desempenho notável – a actriz parisiense encontrava-se grávida na realidade durante as filmagens –, mas que está longe de plantar no espectador as raízes profundas da melancolia e da solidão, da ternura e do choque, como Ozon fez com mestria com os seus predecessores existencialistas.
Contudo, não tenho dúvidas, apesar da desilusão pelas expectativas frustradas com O Refúgio, François Ozon é o mais notável e versátil realizador francês da sua geração, e um dos melhores entre os seus companheiros para além das fronteiras do pentágono gaulês.
As estrofes de abertura pertencem à música “People” do grupo alemão Superpitcher, incluída no seu sugestivo álbum Here Comes Love (2004). Nada é por acaso, a música marca engenhosamente o ponto de viragem do filme e é uma das suas cenas mais marcantes rumo ao inesperado desenlace que se aproxima e, como sempre em Ozon, dispõe da capacidade de nos deixar perturbados à medida que se vão acendendo as luzes da sala de projecção e vamos despertando para a nossa realidade.
O Refúgio (Le refuge, 2009) é um regresso de François Ozon ao seu lado mais despido, enganadoramente seco, onde uma fina membrana pulsa sobre um turbilhão de sentimentos como a solidão, o egoísmo e até a tácita misantropia, potenciados pela dor que advém da brutalidade da morte, da doença ou da ausência insuportável de outrem; uma inóspita imperturbabilidade que não é mais que um disfarce erigido para resguardar a pessoa perante os efeitos nefastos do amor e dos afectos mais sinceros. Ozon retorna a O tempo que resta (Le temps qui reste, 2005) e ao seu melhor filme, o incontornável Sob a Areia (Sous le sable, 2000), com o seu fabuloso trabalho de actores, Melvil Poupaud e Charlotte Rampling, respectivamente; agora replicado com Isabelle Carré, que tem um desempenho notável – a actriz parisiense encontrava-se grávida na realidade durante as filmagens –, mas que está longe de plantar no espectador as raízes profundas da melancolia e da solidão, da ternura e do choque, como Ozon fez com mestria com os seus predecessores existencialistas.
Contudo, não tenho dúvidas, apesar da desilusão pelas expectativas frustradas com O Refúgio, François Ozon é o mais notável e versátil realizador francês da sua geração, e um dos melhores entre os seus companheiros para além das fronteiras do pentágono gaulês.
As estrofes de abertura pertencem à música “People” do grupo alemão Superpitcher, incluída no seu sugestivo álbum Here Comes Love (2004). Nada é por acaso, a música marca engenhosamente o ponto de viragem do filme e é uma das suas cenas mais marcantes rumo ao inesperado desenlace que se aproxima e, como sempre em Ozon, dispõe da capacidade de nos deixar perturbados à medida que se vão acendendo as luzes da sala de projecção e vamos despertando para a nossa realidade.
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sábado, 16 de outubro de 2010
Tran Anh Hung – Parte II (com Murakami)
«Passaram-se já dezoito anos e, mesmo assim, consigo relembrar ainda cada um dos pormenores desse dia no prado. As montanhas, lavadas da poeira do Verão durante dias de uma chuva suave, ostentavam um verde carregado e brilhante. A brisa do Outono fazia baloiçar as frondes brancas das ervas altas. A comprida faixa de uma nuvem pairava ao longo de uma cúpula de intenso azul. Uma lufada de vento varreu o prado e agitou o cabelo dela até se esgueirar para o bosque, fazendo as ramagens movimentarem-se e trazendo os ecos de latidos ao longe: um som vago que parecia provir do limiar de outro mundo. Não ouvimos nenhum outro som. Não nos deparámos com mais ninguém. Vimos apenas dois cintilantes cardeais esvoaçarem sobressaltados do centro do prado e precipitarem-se para dentro do bosque. Enquanto deambulávamos, a Naoko falava-me de nascentes.»Haruki Murakami, Norwegian Wood, pág. 10. [Porto: Civilização, 3.ª edição, Junho de 2005, 350 pp; tradução de Alberto Gomes; obra original: Noruwei no mori, 1987.]
Rememoração do protagonista Toru Watanabe, com 37 anos, quando aterrou num dia frio e chuvoso de Novembro no aeroporto de Hamburgo. No meio da tensão e do bulício pré-anunciado de um aeroporto europeu, os altifalantes soltam uma versão instrumental da famosa música dos Beatles “Norwegian Wood” e Watanabe sentia «o cheiro da erva, sentia o vento no rosto, ouvia os gritos das aves. Outono de 1969, e em breve teria vinte anos.» E a história retrocede ao tempo em que fervilhou o idealismo de uma geração.
Dou por mim no vislumbre de luta titânica que se desenrola no meu interior: e desisto, como é difícil vencer o actual preconceito que, embora, por definição, não necessite de causas ou origens, foi o resultado de uma experiência de leitura que se foi tornando penosa.
Há uns anos quando a Civilização e logo de seguida a Casa das Letras apresentaram ao público português um ou dois exemplares da obra, na altura já extensa na sua língua original, do escritor nipónico Haruki Murakami (n. 1949), ouviu-se um coro quase unânime de panegíricos sobre uma espécie de renascimento do realismo mágico, embora com um vívido traço oriental, marcadamente mais místico e apaziguador. Murakami era novidade, uma descoberta no mundo ocidental das letras e na altura, pouca gente, mesmo quase ninguém, conhecia o ostracismo a que Murakami já havia sido votado no seu país de origem pelos seus intelectuais e prodígios culturais mais respeitados – rotulado como um escritor de massas, ligeiro, despojado de fontes literárias nipónicas, e talvez tenha sido essa a mola impulsionadora que o levou a abandonar o Japão e a fixar-se na Universidade de Princeton nos Estados Unidos, embora tenha regressado em definitivo ao Japão após o choque provocado pelo devastador terramoto de Kobe e pelos ataques com gás sarin no metro de Tóquio; corria o ano de 1995.
Murakami já publicou doze romances, três colectâneas de contos, um livro de memórias, e um conjunto razoável de ensaios, crónicas, artigos sobre literatura, música e desporto. Porém, fartei-me da sua escrita e do seu misticismo. Não sei se por um processo de acumulação de repetições com protagonistas diferentes, com toques mais ou menos crípticos de sexualidade juvenil, música pop, androginia, gatos, fenómenos espúrios de uma violência inusitada entre a imagética, transversal e quase bíblica, de verdes prados e águas refrescantes. Li os primeiros cinco livros à medida que estes iam sendo publicados em Portugal; parei, exaurido pela sensação, arquetípica de um pesadelo, de ter lido sempre o mesmo livro; mais tarde, não resisti, tentei travar essa espécie de desdém que se apoderou da minha cabeça sentenciosa, li After Dark – Os Passageiros da Noite (Afuta Daku, 2004) e, num ápice, arrependi-me com a quebra do pousio para desenjoo – tenho pena, deslumbrei-me e diverti-me bastante com os primeiros escritos do autor nipónico.
Todavia, a despeito do meu comportamento errático, há certezas que ficaram. Continuo teimosamente a eleger Norwegian Wood como a sua obra mais brilhante. E foi precisamente essa obra que o franco-vietnamita Tran Anh Hung elegeu para realizar a sua 5.ª longa-metragem e com esse acto abrir o seu leque poliglota ao idioma do país do sol nascente.
Exibido em Veneza e Toronto nos respectivos festivais de cinema há cerca de um mês, o filme teve críticas favoráveis, embora não efusivas, e entretanto desapareceu no lado ocidental do planeta.
Tran Anh Hung dirigiu o filme com base no seu argumento adaptado do romance de Murakami, despojando-o de algumas adiposidades, recentrando a narrativa no triângulo amoroso impulsionado pelo torturante suicídio de Kizuki (o melhor amigo de Watanabe). Houve quem lhe apontasse o processo de poda a que o romance foi sujeito como o ponto crucial para um filme menos conseguido – até consigo divisar este tipo de críticos, os literalistas, aqueles que não distinguem um livro de uma bobine de celulóide, e nem preciso de trazer à colação a famosa tirada pastoril de Hitchcock. Contudo, para quem tem acompanhado a carreira do vietnamita poderia esperar tudo, menos um argumento denso e rebuscado, que prejudicasse a sua distintiva imagética, como aqui referi.
Gostaria de o ver, até porque lendo a crítica de Valentina D’Amico para o Movieplayer.it identifico tudo aquilo que me leva a admirar Tran Anh Hung – a imagem, os sons, a música (neste caso não a cargo dos Radiohead, mas de um dos seus membros, o fantástico Jonny Greenwood), que alguns menosprezam colando-o ao videoclipe –, mas suponho que o minúsculo e oligárquico circuito comercial português não correrá esse risco, tal como aconteceu com os três últimos filmes de Tran.
Termino como Valentina no seu artigo, o despertar doloroso de Toru Watanabe e o seis últimos versos da canção dos meus nada estimados Beatles:
«And when I awoke / I was alone; / this bird had flown. / So I lit a fire, / isn’t it good / Norwegian wood.»
Dou por mim no vislumbre de luta titânica que se desenrola no meu interior: e desisto, como é difícil vencer o actual preconceito que, embora, por definição, não necessite de causas ou origens, foi o resultado de uma experiência de leitura que se foi tornando penosa.
Há uns anos quando a Civilização e logo de seguida a Casa das Letras apresentaram ao público português um ou dois exemplares da obra, na altura já extensa na sua língua original, do escritor nipónico Haruki Murakami (n. 1949), ouviu-se um coro quase unânime de panegíricos sobre uma espécie de renascimento do realismo mágico, embora com um vívido traço oriental, marcadamente mais místico e apaziguador. Murakami era novidade, uma descoberta no mundo ocidental das letras e na altura, pouca gente, mesmo quase ninguém, conhecia o ostracismo a que Murakami já havia sido votado no seu país de origem pelos seus intelectuais e prodígios culturais mais respeitados – rotulado como um escritor de massas, ligeiro, despojado de fontes literárias nipónicas, e talvez tenha sido essa a mola impulsionadora que o levou a abandonar o Japão e a fixar-se na Universidade de Princeton nos Estados Unidos, embora tenha regressado em definitivo ao Japão após o choque provocado pelo devastador terramoto de Kobe e pelos ataques com gás sarin no metro de Tóquio; corria o ano de 1995.
Murakami já publicou doze romances, três colectâneas de contos, um livro de memórias, e um conjunto razoável de ensaios, crónicas, artigos sobre literatura, música e desporto. Porém, fartei-me da sua escrita e do seu misticismo. Não sei se por um processo de acumulação de repetições com protagonistas diferentes, com toques mais ou menos crípticos de sexualidade juvenil, música pop, androginia, gatos, fenómenos espúrios de uma violência inusitada entre a imagética, transversal e quase bíblica, de verdes prados e águas refrescantes. Li os primeiros cinco livros à medida que estes iam sendo publicados em Portugal; parei, exaurido pela sensação, arquetípica de um pesadelo, de ter lido sempre o mesmo livro; mais tarde, não resisti, tentei travar essa espécie de desdém que se apoderou da minha cabeça sentenciosa, li After Dark – Os Passageiros da Noite (Afuta Daku, 2004) e, num ápice, arrependi-me com a quebra do pousio para desenjoo – tenho pena, deslumbrei-me e diverti-me bastante com os primeiros escritos do autor nipónico.
Todavia, a despeito do meu comportamento errático, há certezas que ficaram. Continuo teimosamente a eleger Norwegian Wood como a sua obra mais brilhante. E foi precisamente essa obra que o franco-vietnamita Tran Anh Hung elegeu para realizar a sua 5.ª longa-metragem e com esse acto abrir o seu leque poliglota ao idioma do país do sol nascente.
Exibido em Veneza e Toronto nos respectivos festivais de cinema há cerca de um mês, o filme teve críticas favoráveis, embora não efusivas, e entretanto desapareceu no lado ocidental do planeta.
Tran Anh Hung dirigiu o filme com base no seu argumento adaptado do romance de Murakami, despojando-o de algumas adiposidades, recentrando a narrativa no triângulo amoroso impulsionado pelo torturante suicídio de Kizuki (o melhor amigo de Watanabe). Houve quem lhe apontasse o processo de poda a que o romance foi sujeito como o ponto crucial para um filme menos conseguido – até consigo divisar este tipo de críticos, os literalistas, aqueles que não distinguem um livro de uma bobine de celulóide, e nem preciso de trazer à colação a famosa tirada pastoril de Hitchcock. Contudo, para quem tem acompanhado a carreira do vietnamita poderia esperar tudo, menos um argumento denso e rebuscado, que prejudicasse a sua distintiva imagética, como aqui referi.
Gostaria de o ver, até porque lendo a crítica de Valentina D’Amico para o Movieplayer.it identifico tudo aquilo que me leva a admirar Tran Anh Hung – a imagem, os sons, a música (neste caso não a cargo dos Radiohead, mas de um dos seus membros, o fantástico Jonny Greenwood), que alguns menosprezam colando-o ao videoclipe –, mas suponho que o minúsculo e oligárquico circuito comercial português não correrá esse risco, tal como aconteceu com os três últimos filmes de Tran.
Termino como Valentina no seu artigo, o despertar doloroso de Toru Watanabe e o seis últimos versos da canção dos meus nada estimados Beatles:
«And when I awoke / I was alone; / this bird had flown. / So I lit a fire, / isn’t it good / Norwegian wood.»
Lamechas? Melancólico? E depois de uma explosão visual que decerto inunda a sala de cinema com a beleza da lente de Tran Anh Hung? Posso bem com isso.
sexta-feira, 15 de outubro de 2010
Push Oprah, Push
Good salesgirl! E nem com toda a sua massa (apelo à polissemia) Oprah conseguiu dar o empurrão necessário, e nem tão-pouco o privilégio de ser capa da Time Magazine (edição de 23 de Agosto de 2010, com recensão do razoável crítico e miserável escritor Lev Grossman) trabalhou como um meio de pressão adicional para a sua promoção.
Descodificando. Foram anteontem anunciados, por Pat Conroy a partir da casa onde Flannery O’Connor passou a sua infância em Savannah no Estado da Geórgia (hoje uma fundação), os autores e respectivas obras finalistas nas diversas categorias do National Book Award e, de forma heteróclita e até aberrante, não se fala de outra coisa na imprensa especializada que não seja o crime da não nomeação do escritor Jonathan Franzen (n. 1951), com o seu mais recente candidato a calhamaço Freedom. Em todo lado se lê um “snubbed” indignado à obra e/ou ao autor, que muitos consideram, e não fazem a coisa por menos e de forma infundamentada, como um sucessor de Bernhard (talvez pela proximidade dos títulos de uma das obras) ou de Pynchon. Franzen é abertamente contra os escritos, que designa como obscuros, de autores deste calibre, elegendo como epítome do obscurantismo literário William Gaddis, em nome do realismo pop tão defendido pelos polícias da cristalização literária e do decalque oitocentista como B.R. Meyers ou James Wood. Frazen afirma que esse género de escritores (Joyce, Beckett ou Gaddis, como os seus prosélitos pós-modernos) – os tais de escrita complexa e ininteligível – desrespeita o público e causa danos comerciais irreparáveis à indústria literária.
Num famoso ensaio de 2005 do destemido escritor e crítico norte-americano Ben Marcus, publicado na edição de Outubro desse ano da Harper’s, Marcus desanca com toda a virulência em críticos como o citado Meyers e principalmente em autores como Franzen. A despeito do conceito primordial de elite, estes defensores do comercial e da clareza da palavra escrita, tornaram-se em verdadeiros elitistas que reconhecem como genuínos «aqueles [escritores] que procuram assegurar que a cultura se afaste do progresso literário, aqueles que insistem que os sucessos narrativos do passado devem ser solidificados, polidos e praticados pelas gerações mais jovens. Neste ambiente, o sucesso artístico é um legado e os escritores são encorajados a comportarem-se como grupos que se dedicam a cantar versões musicais, adornando os clássicos, talvez, enquanto se asseguram de que a canção encerra uma velha e familiar melodia que nos faz sorrir pelo simples reconhecimento, para que possamos ler mais de memória do que pelo esforço de concentração.
»Os verdadeiros elitistas no mundo literário são aqueles que se enfastiam perante a ambição literária sob qualquer forma, aqueles que transfiguraram na sua totalidade o verdadeiro significado da palavra ambição, que agora se traduz como um mero acto de desprezo, de hostilidade perante o pobre leitor comum, que jamais deveria ser chamado a fazer algo que lhe possa provocar uma lesão muscular. (Que alívio ouvir isto, não há necessidade de nos preocuparmos com um livro que possa parecer agreste, ou abstracto, ou invulgar.) Os elitistas são aqueles que ficam zangados quando se lhes sugere que um livro pouco vendido possa merecer um prémio, como aconteceu, no ano passado, com o National Book Award na categoria de ficção*.»
Ben Marcus, “Why experimental fiction threatens to destroy publishing, Jonathan Franzen, and life as we know it: A correction”, Harper’s, October 2005, pp. 40 [tradução: AMC; *N.T. – Marcus refere-se ao NBA de 2004, atribuído a Lily Tuck pelo seu romance The News from Paraguay (obviamente não editado em Portugal)]
Descodificando. Foram anteontem anunciados, por Pat Conroy a partir da casa onde Flannery O’Connor passou a sua infância em Savannah no Estado da Geórgia (hoje uma fundação), os autores e respectivas obras finalistas nas diversas categorias do National Book Award e, de forma heteróclita e até aberrante, não se fala de outra coisa na imprensa especializada que não seja o crime da não nomeação do escritor Jonathan Franzen (n. 1951), com o seu mais recente candidato a calhamaço Freedom. Em todo lado se lê um “snubbed” indignado à obra e/ou ao autor, que muitos consideram, e não fazem a coisa por menos e de forma infundamentada, como um sucessor de Bernhard (talvez pela proximidade dos títulos de uma das obras) ou de Pynchon. Franzen é abertamente contra os escritos, que designa como obscuros, de autores deste calibre, elegendo como epítome do obscurantismo literário William Gaddis, em nome do realismo pop tão defendido pelos polícias da cristalização literária e do decalque oitocentista como B.R. Meyers ou James Wood. Frazen afirma que esse género de escritores (Joyce, Beckett ou Gaddis, como os seus prosélitos pós-modernos) – os tais de escrita complexa e ininteligível – desrespeita o público e causa danos comerciais irreparáveis à indústria literária.
Num famoso ensaio de 2005 do destemido escritor e crítico norte-americano Ben Marcus, publicado na edição de Outubro desse ano da Harper’s, Marcus desanca com toda a virulência em críticos como o citado Meyers e principalmente em autores como Franzen. A despeito do conceito primordial de elite, estes defensores do comercial e da clareza da palavra escrita, tornaram-se em verdadeiros elitistas que reconhecem como genuínos «aqueles [escritores] que procuram assegurar que a cultura se afaste do progresso literário, aqueles que insistem que os sucessos narrativos do passado devem ser solidificados, polidos e praticados pelas gerações mais jovens. Neste ambiente, o sucesso artístico é um legado e os escritores são encorajados a comportarem-se como grupos que se dedicam a cantar versões musicais, adornando os clássicos, talvez, enquanto se asseguram de que a canção encerra uma velha e familiar melodia que nos faz sorrir pelo simples reconhecimento, para que possamos ler mais de memória do que pelo esforço de concentração.
»Os verdadeiros elitistas no mundo literário são aqueles que se enfastiam perante a ambição literária sob qualquer forma, aqueles que transfiguraram na sua totalidade o verdadeiro significado da palavra ambição, que agora se traduz como um mero acto de desprezo, de hostilidade perante o pobre leitor comum, que jamais deveria ser chamado a fazer algo que lhe possa provocar uma lesão muscular. (Que alívio ouvir isto, não há necessidade de nos preocuparmos com um livro que possa parecer agreste, ou abstracto, ou invulgar.) Os elitistas são aqueles que ficam zangados quando se lhes sugere que um livro pouco vendido possa merecer um prémio, como aconteceu, no ano passado, com o National Book Award na categoria de ficção*.»
Ben Marcus, “Why experimental fiction threatens to destroy publishing, Jonathan Franzen, and life as we know it: A correction”, Harper’s, October 2005, pp. 40 [tradução: AMC; *N.T. – Marcus refere-se ao NBA de 2004, atribuído a Lily Tuck pelo seu romance The News from Paraguay (obviamente não editado em Portugal)]
E tanta verborreia, para aqui deixar a listagem dos finalistas na categoria de ficção do National Book Award de 2010 (Carey entre mulheres, e é dele o único dos cinco romances, por agora, editado em Portugal):
- Jaimy Gordon, Lord of Misrule
- Karen Tei Yamashita, I Hotel
- Lionel Shriver, So Much for That
- Nicole Krauss, Great House
- Peter Carey, Parrot e Olivier na América (ed. port. Gradiva; Parrot and Olivier in America)
Nota: A portentosa Patti Smith está nomeada na categoria de não-ficção com livro de memórias Just Kids, que relata o seu relacionamento com o fotógrafo Robert Mapplethorpe. Ao que dizem, e segundo as minhas leituras, trata-se de um assombroso e comovente retrato dessa relação turbulenta que ocorreu nas décadas de 60 e 70 do século passado – espera-se, porventura em vão, pela edição portuguesa.
quinta-feira, 14 de outubro de 2010
Tiro de Partida
Informalmente, com a divulgação da lista completa de filmes em língua estrangeira candidatos a integrarem a lista final de cinco que seguirá até à cerimónia final de entrega, é dado o tiro de partida para os prémios de cinema mais prestigiados e cobiçados do mundo.
Para 83.ª edição do Óscares, com cerimónia marcada para o dia 27 de Fevereiro de 2010 no Kodak Theatre, marcam presença 65 filmes de outros tantos países.
Portugal far-se-á representar – escolha do ICA, anunciada no final de Setembro passado – pelo filme de João Pedro Rodrigues, Morrer como um homem. Trata-se da 3.ª longa-metragem do autor da película, à altura controversa, O Fantasma (2000), que lhe valeu o prémio de melhor filme no Festival de Cinema Gay e Lésbico de Nova Iorque em 2001, e de Odete (2005) que obteve uma menção especial de melhor filme no Festival de Cinema Gay e Lésbico de Milão em 2006, tendo conquistado uma menção especial dos “Cinémas de Recherche” no Festival de Cannes 2005, havendo, por outro lado, integrado a Quinzena dos Realizadores. Um filme esdrúxulo, mais felliniano que Fellini, um M Butterfly da Buraca ou do Aleixo, com péssimas interpretações e um final burlesco e lacrimejante de cantoria post mortem pelo coitadinho renegado num cemitério lisboeta. Mas há quem goste, e eu não censuro. Calo-me, apenas.
Da listagem da Academia das Artes e das Ciências Cinematográficas de Hollywood, é de destacar:
Da listagem da Academia das Artes e das Ciências Cinematográficas de Hollywood, é de destacar:
- O regresso do bósnio Danis Tanovic, representando o seu país com Cirkus Columbia – Tanovic já venceu este galardão em 2002 com o fabuloso Terra de Ninguém (No Man’s Land, 2001), e realizou o esquecido pelo público e pela crítica, embora notável (na minha opinião), Inferno (L’enfer, 2005) baseado num guião nunca filmado de uma trilogia de Krzysztof Kieslowski (1941-1996);
- A representar a Tailândia está o último vencedor do Festival de Cannes, Loong Boonmee raleuk chat (Uncle Boonmee Who Can Recall His Past Lives) de Apichatpong Weerasethakul;
- Pela França, o filme vencedor do Grande Prémio do Júri do Festival de Cannes, Des hommes et des dieux, de Xavier Beauvois;
- O arrevesado Canino (Kynodontas / Dogtooth; 2009) de Giorgos Lanthimos, vencedor do prémio Un Certain Regard, mas do Festival de Cannes de 2009, é o representante da Grécia;
- Por fim, é sempre de anunciar a presença do realizador irritante, nascido no México em 1963, com pretensões ao trono do Olimpo cinematográfico como o moralista/messiânico, Alejandro González Iñárritu, com o filme Biutiful a representar o seu país.
As nomeações serão anunciadas no dia 25 de Janeiro de 2010, embora nos últimos anos a Academia tenha vindo a anunciar uma lista de 9 pré-nomeados nesta categoria, cerca de duas semanas antes daquela data.
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quarta-feira, 13 de outubro de 2010
Quem?
As Novas Oportunidades in motion nas ilhas britânicas. Howard Jacobson, escritor-humorista mancuniano, nascido em 1942, venceu o Booker Prize de 2010, com The Finkler Question. E o júri considerou o pré-septuagenário como sendo em parte depositário «da mais espirituosa, pungente e verdadeiramente perspicaz prosa humorística na língua inglesa» – por andavas tu no nosso país (e talvez no teu), seu folgazão? E a obra «foi descrita como “maravilhosa” e “irrepreensivelmente satisfatória” e como um romance “pleno de sentido de humor, chama, inteligência, sensibilidade e compreensão”».
A obra debruça-se (com equilíbrio assegurado) sobre «o amor, a perda e a amizade masculina, explorando o que significa ser judeu nos dias que correm.» Estranho, este argumento parece-me familiar… [notícia em português aqui.]
A obra debruça-se (com equilíbrio assegurado) sobre «o amor, a perda e a amizade masculina, explorando o que significa ser judeu nos dias que correm.» Estranho, este argumento parece-me familiar… [notícia em português aqui.]
[E cá está o neo-Booker, em cima na fotografia; tradução mal-amanhada aqui da casa; uma brutal enxaqueca (não repassada por artes do oculto ao premiado, cf. imagem) que deliu qualquer hipótese para o humor e a dor até foi, de certa forma, inculcadora de algum desprezo por quem o possa possuir em barda por estas horas, cuja falta me levou ao, muito praticado por esse país fora, “copiar e colar” partes do texto disponível na página do prémio, e acrescente-se mais um motivo (ou dois?): é de tradição anunciar aqui o Booker e estou a borrifar-me para o vencedor e as suas cinquenta mil libras esterlinas – troca-as por euros, que a coisa parece imparável por estes dias – e o jantarzinho lacrimejante, quando McEwan e Amis ficaram de fora em ano de excelentes romances; vai uns graminhas infinitesimais de clonixina? De codeína? De hidrocodona? E deixem-se lá de trocadilhos lúbrico-farmacológicos, que isto é assunto sério. A enxaqueca, claro.]
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domingo, 10 de outubro de 2010
O Homem a Abater
Prometi a mim mesmo que dificilmente falaria aqui neste “novo” espaço – novo de Abril de 2008, pós Porque e In Absentia (textos integrados neste) – de futebol, por tudo o que isso implica: a irracionalidade de uma paixão desenfreada que embota os sentidos e hostiliza os amigos; que induz o homem mais pacífico a assumir, por palavras e actos, posições e comportamentos ignóbeis, mesquinhos, perversos e até criminosos; em suma, uma mescla de Mary Shelley e Anne Rice a criar monstros trogloditas, vampíricos, todos os dias. E não exagero. Atentem nos meios de comunicação social e nos blogues ditos de referência. É o vale tudo na arena sanguinária da opinião na imprensa engajada com as centrais de comunicação e com a inexpugnável clubite de jornalistas que, num país sério, há muito deveriam ter perdido a sua carteira profissional; é a selvajaria nos blogues, mesmo naqueles que se afirmaram pelo debate de ideias e sobre outros assuntos, nunca se dedicando em exclusivo ao fenómeno desportivo, cujos textos clubistas transformam, do dia para a noite, os outrora admiráveis livres-pensadores em facínoras de palavra acutilante em riste, pronta a decepar os mais incautos e de pensamento livre.
Nas vésperas do centenário da Implantação da República em Portugal, André Villas-Boas – a 13 dias de completar 33 anos – passou a ser mais um dos alvos em movimento. Os jornalistas arregimentados, os opinadores pagos à peça, os bloggers facciosos, os paineleiros da insídia e da inveja, não tardaram a sair do armário com todo a sua fúria, contida ao longo de seis longas jornadas futebolísticas e de onze jogos de invencibilidade. O veneno, esse, ia-se-lhes acumulando lenta e perigosamente nas glândulas pestilentas e a oportunidade surgiu com o justo desvario do rapaz na noite de 4 de Outubro – desatinos, sem consequências, que os treinadores e os directores desportivos das agremiações protegidas neste mundo desigual descerram, terminadas as inúmeras partidas, no centro do relvado acompanhando os árbitros, decerto com elogios e panegíricos entusiastas, até à boca do túnel. E a destilação do ódio não acalmou mesmo tendo o jovem treinador vindo a terreiro desculpar-se pela injustiça das suas críticas relativamente ao lance que o atirou de antecipação para os balneários pela primeira vez na sua curtíssima carreira – apesar do golo irregular do oponente, dos fora-de-jogo mal assinalados, da violência quase criminosa dos jogadores oponentes (ah, e aquele imberbe facínora, ao arrepio da prática comum aos seus companheiros de profissão em equipas adversárias noutros jogos, não falou da eventual grande penalidade cometida na grande área portista).
Porém, o xistrema já estava montado, com toda a sua carga, folclore e ressentimento provinciano, balofo, saloio (ou como o quiserem qualificar), e a retirada perante o mea culpa do jovem inimigo seria mais dispendiosa que continuar a alimentar a fogueira do rancor, da caricatura soez e do incitamento à violência. A pesada máquina estava em estado de prontidão e iniciou-se a rentabilização do investimento inicial que só alcançará, pelo menos, um valor actual líquido (npv para os anglófilos das finanças empresariais) de zero em Maio de 2011, se o verde-lagarto ou o vermelho-lampião-ofuscado circular de bandeiras desfraldadas, com uma turba a cuspinhar impropérios perante as sedentas câmaras de televisão da capital do império.
Mas há coisas que os supra-referidos não conseguem controlar, como o fazem nos Ministérios da Justiça e da Administração Interna, com o PGR e os procuradores-adjuntos, com a imprensa, com as marionetas adestradas dos horrorosos e estupidificantes programas de debate futebolístico nas televisões e numa estação de rádio pública, no Elefante Branco e casas congéneres, com os órgãos da Liga e da FPF (então com o futuro presidente Seara…):
Nas vésperas do centenário da Implantação da República em Portugal, André Villas-Boas – a 13 dias de completar 33 anos – passou a ser mais um dos alvos em movimento. Os jornalistas arregimentados, os opinadores pagos à peça, os bloggers facciosos, os paineleiros da insídia e da inveja, não tardaram a sair do armário com todo a sua fúria, contida ao longo de seis longas jornadas futebolísticas e de onze jogos de invencibilidade. O veneno, esse, ia-se-lhes acumulando lenta e perigosamente nas glândulas pestilentas e a oportunidade surgiu com o justo desvario do rapaz na noite de 4 de Outubro – desatinos, sem consequências, que os treinadores e os directores desportivos das agremiações protegidas neste mundo desigual descerram, terminadas as inúmeras partidas, no centro do relvado acompanhando os árbitros, decerto com elogios e panegíricos entusiastas, até à boca do túnel. E a destilação do ódio não acalmou mesmo tendo o jovem treinador vindo a terreiro desculpar-se pela injustiça das suas críticas relativamente ao lance que o atirou de antecipação para os balneários pela primeira vez na sua curtíssima carreira – apesar do golo irregular do oponente, dos fora-de-jogo mal assinalados, da violência quase criminosa dos jogadores oponentes (ah, e aquele imberbe facínora, ao arrepio da prática comum aos seus companheiros de profissão em equipas adversárias noutros jogos, não falou da eventual grande penalidade cometida na grande área portista).
Porém, o xistrema já estava montado, com toda a sua carga, folclore e ressentimento provinciano, balofo, saloio (ou como o quiserem qualificar), e a retirada perante o mea culpa do jovem inimigo seria mais dispendiosa que continuar a alimentar a fogueira do rancor, da caricatura soez e do incitamento à violência. A pesada máquina estava em estado de prontidão e iniciou-se a rentabilização do investimento inicial que só alcançará, pelo menos, um valor actual líquido (npv para os anglófilos das finanças empresariais) de zero em Maio de 2011, se o verde-lagarto ou o vermelho-lampião-ofuscado circular de bandeiras desfraldadas, com uma turba a cuspinhar impropérios perante as sedentas câmaras de televisão da capital do império.
Mas há coisas que os supra-referidos não conseguem controlar, como o fazem nos Ministérios da Justiça e da Administração Interna, com o PGR e os procuradores-adjuntos, com a imprensa, com as marionetas adestradas dos horrorosos e estupidificantes programas de debate futebolístico nas televisões e numa estação de rádio pública, no Elefante Branco e casas congéneres, com os órgãos da Liga e da FPF (então com o futuro presidente Seara…):
- The Wall Street Journal (5 de Outubro de 2010) – “Meet Portugal’s Boy Genius”;
- La Gazzetta dello Sport (6 de Outubro de 2010) – “Villas-Boas il nuovo Mourinho: Il suo Porto è ancora imbattuto”.
Parabéns, homónimo.
sábado, 9 de outubro de 2010
Há um manicómio a alguns quarteirões
A história conta-se em duas penadas, e vem aqui descrita com mais uns quantos pormenores que me dispenso a descrever: Katherina Wagner, bisneta do compositor Richard Wagner (1813-1883), actualmente co-directora do há muito centenário Festival de Bayreuth no estado alemão da Baviera – aquela é a cidade onde, desde 1874, são interpretadas obras do compositor de Leipzig – convidou a Israel Chamber Orchestra para a abrir a edição do próximo festival. Como é óbvio seguiu-se o habitual arraial de recriminações, indignações insensatas e impropérios por parte de alguns sectores da comunidade judaica.
O Passado Não Perdoa (The Unforgiven) é o título em português de um famoso western realizado por John Huston em 1960, que acorre à minha memória sempre que, nos buliçosos dias de hoje, sou confrontando com situações com este matiz: de ódio e de intolerância, adquiridos como se tratasse de um direito ao rancor perpétuo. Vítimas de um passado bárbaro, atroz e inumano que, ao invés de empreenderem um processo de cura que permita a cicatrização das suas feridas profundas através da assunção de que o horror teve data marcada e há muito foi ultrapassado, prevenindo, em simultâneo, que jamais regresse o tempo da barbárie, optam pela vitimização que se eterniza, que não só macula as suas gerações vindouras através do ódio, meramente louco porque se encontram já puídos e difusos os fios da História, como instiga à transmissão de um saudosismo criminoso aos filhos e enteados dos verdugos de antanho.
Recordo-me bem. O filme marcou-me profundamente quando, na minha infância, o vi transmitido pela televisão pública em casa dos meus avós: consternou-me pelo forte sentimento de injustiça e pela percebida irreparabilidade do dano causado pelas crueldade e voracidade humanas – nunca mais o voltei a ver, embora subsista na minha memória um dos maiores apelos à tolerância materializado em celulóide em toda a história do cinema, levado à tela pelas mãos do mestre Huston e do argumentista Ben Maddow (que também colaborou com Huston no icónico Quando a Cidade Dorme, The Asphalt Jungle, de 1950), baseado no romance homónimo de Alan Le May.
Mas neste caso em particular, o admirável, genial e impiedoso judeu norte-americano Larry David consegue, levando-nos às lágrimas pelo riso, transmitir todo o tipo de mensagens que, por vontade própria, ainda estigmatizam a comunidade judaica. Veja-se, por exemplo e bem a propósito deste infeliz incidente na vida real, este excerto do 3.º episódio, “Trick or Treat”, da 2.ª temporada (2001) de Curb Your Enthusiasm – a melhor série cómica de sempre, logo após o Flying Circus dos Monty Python, e imediatamente antes de Seinfeld –, onde o trautear da obra orquestral Siegfried-Idyll (1870) de Richard Wagner, leva Larry a recomendar o internamento no manicómio de um judeu intrépido que o interpela e que, logo a seguir descobre, é seu vizinho, não sem antes lhe haver sugerido que lhe examinasse o pénis para verificar se era ou não judeu:
É verdadeiramente descoroçoante verificar que, com episódios destes, os esforços de judeus moderados como Daniel Barenboim (citado neste caso), Amos Oz ou David Grossman, entre tantos outros, não produzem os frutos pretendidos: que se afaste de uma vez por todas o sofrimento que ainda assola as mentes de uma comunidade, sem que, porém, seja apagada a História de um genocídio para ensinamento futuro.
sexta-feira, 8 de outubro de 2010
O Escravo, por Llosa
Com a descrição da aculturação forçada e o desbaste culpável e criminoso da personalidade intrínseca ao ser humano, desde que este solta o primeiro gemido neste mundo, o Nobel peruano dá início à sua carreira literária na narrativa longa de ficção, com o excepcional romance de 1962 La ciudad y los perros (A Cidade e os Cães). Uma vertiginosa alegoria. Los perros para Mario Vargas Llosa, são os cadetes internados no Colégio Militar Leoncio Prado na cidade de Lima, um microcosmos das práticas torcionárias durante o apogeu dos movimentos repressivos e a expansão dos seus ideais nas trevas da Guerra Fria, que, em nome de uma ideologia, coarctaram toda a sensibilidade em nome de um colectivo amorfo e obediente perante um directório cujos interesses se subsumem ao poder e ao seu exercício indiscriminado e cruel.
O Escravo que refiro no título do texto, é a alcunha do infeliz Ricardo Arana – talvez o personagem mais marcante e pungente de todo o memorável romance (já o li há anos e continua a marcar o meu pensamento, e quiçá parte do meu comportamento) –, o representante de uma minoria, mesmo entre os “perros” (ou os “cães”), que se vai autodestruindo pelo consentimento de aniquilação da sua vontade perante o poder dos outros, pela submissão dos seus sentimentos que enformam a sua personalidade.
Eis um trecho inesquecível deste romance, onde se retrata O Escravo e a sua sede de liberdade que pode assumir-se numa miríade de maneiras, tantas quantas as formas de pensar, sentir e agir de cada indivíduo – esta é uma alegoria de um mundo de repressão:
«Podia suportar a solidão e as humilhações que conhecia desde menino e que só feriam o seu espírito: o horrível era estar fechado, essa grande solidão exterior que não escolhera, que alguém lhe atirara para cima, como uma camisa-de-forças. Estava em frente ao quarto do tenente, no entanto, não levantava a mão para tocar. Sabia, contudo, que ia fazê-lo, tinha demorado três semanas a decidir-se, já não tinha medo, nem angústia. Era a sua mão que o atraiçoava: permanecia quieta, fraca, pegada às calças, morta. Não era a primeira vez. No Colegio Salesiano chamavam-lhe “boneca”: era tímido e tudo o assustava. “Chora, chora, boneca”, gritavam os seus companheiros no recreio, rodeando-o. Ele retrocedia até que as suas costas encontravam a parede. As caras aproximavam-se, as vozes eram mais altas, as bocas dos meninos pareciam focinhos dispostos a ferrá-lo. Punha-se a chorar. Um dia disse para si: “Tenho de fazer qualquer coisa.” Em plena aula desafiou o mais valente do ano: esquecera o seu nome e cara, os seus punhos certeiros e o seu ofegar. Quando se viu frente a ele, no canto da lixeira, encerrado dentro de um círculo de espectadores ansiosos, também não sentiu medo, nem sequer excitação: apenas um abatimento total. O corpo não respondia, nem se esquivava aos golpes; esperou que o outro se cansasse de lhe bater. Era para dar castigo a esse corpo cobarde e transformá-lo que se havia esforçado para entrar no Leoncio Prado: por isso tinha suportado esses vinte quatro largos meses. Agora já não tinha esperança; nunca seria como o Jaguar, que se impunha pela violência, nem sequer como Alberto, que podia desdobrar-se e dissimular para que os outros não fizessem dele uma vítima. A ele conheciam-no logo, tal como era, sem defesas, débil, um escravo. Só a liberdade lhe interessava agora para manejar a sua solidão à vontade, levá-la a um cinema, encerrar-se com ela em qualquer parte. Levantou a mão e bateu três vezes à porta.»Mário Vargas Llosa, A Cidade e os Cães, pág. 106. [Mem Martins: Europa-América, 1988, 302 pp; tradução de José Eduardo Mendonça; obra original: La ciudad y los perros, 1962.]
Decorridas mais de doze horas após o anúncio, ainda persiste na minha mente um forte sentimento de exultação e de comprazimento: hoje, a Academia Nobel fez finalmente justiça. Será para manter? No início do próximo Outono veremos se o lixo ideológico de outros anos foi definitivamente expurgado daquelas mentes e reciclado em substância exclusivamente literária. Saiu-se do círculo de uma intelligentsia deslumbrada pelo exercício sedutor do poder, mesmo que arbitrário, iníquo e criminoso. Conceder o Nobel a Llosa foi uma forma de homenagear os oprimidos por Trujillo ou por Castro, à direita ou à esquerda, os filhos esmagados pelo peso dos ditadores deste mundo. O anúncio da Academia Sueca hoje de manhã sancionou esse grito de liberdade, antes que fosse tarde de mais. Llosa tem 74 anos e continua jovem e enérgico a escrever sem rodeios através da «sua cartografia das estruturas de poder e imagens incisivas da resistência, da rebelião e da derrota do indivíduo.»
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quinta-feira, 7 de outubro de 2010
Prémio Nobel da Literatura 2010
Os 18 vigorosos membros (com uma média de idades a rondar os 72 anos) da Academia Sueca (fundada em 1786 pelo rei sueco Gustavo III) elegeram este ano:
(n. 1936, Arequipa, Peru)
FINALMENTE! Fez-se justiça ao mais brilhante escritor latino-americano vivo.
(Llosa, apesar de ser um dissidente da esquerda radical, deverá seguramente participar no “grande diálogo da Literatura”, critério em nada abstracto para a atribuição de um prémio com esta dimensão, com forte impacto não só nos meios culturais internacionais, interferindo com o orgulho de nações, como também na vertente económico-financeira das empresas que operam no suficientemente rentável mercado editorial. García Márquez estará, decerto, a caminho de Havana para chorar no ombro amigo do fidel ditador.)
Para mais informações, ler aqui artigo em permanente actualização.
Os meus preferidos: A Cidade e os Cães (La ciudad y los perros, 1962); A Casa Verde (La casa verde, 1966); Os Cadernos de Dom Rigoberto (Los cuadernos de don Rigoberto, 1997); A Tia Julia e o Escrevedor (La tía Julia y el escribidor, 1977); A Festa do Chibo (La Fiesta del Chivo, 2000) e até, o recente e brutal, e não menos soberbo, Travessuras da Menina Má (Travesuras de la niña mala, 2006).
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segunda-feira, 4 de outubro de 2010
Cambridge em Alta
Depois de, pela primeira vez, ter sido considerada a melhor universidade do mundo – ocupou o 1.º lugar em 2010 no certificado ranking da QS, onde a eterna rival Oxford desceu uma posição para 6.º lugar, e destronando Harvard, a habitual n.º 1 –, acabou de ver um dos seus mais ilustres académicos ser reconhecido com o Prémio Nobel da Medicina, anunciado hoje – critério (número de académicos galardoados com o Nobel) que tem um forte peso na elaboração da listagem.
Eis, metonimicamente, o pai dos “bebés proveta”:
Robert G. Edwards
(n. 1925, Manchester, Reino Unido)
(n. 1925, Manchester, Reino Unido)
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domingo, 3 de outubro de 2010
Nobel da Literatura 2010 – anúncio
É já na próxima quinta-feira, dia 7 de Outubro, pelo meio-dia (hora de Lisboa), que será anunciado o 107.º vencedor do Prémio Nobel da Literatura, na sua 103.ª edição desde que começou a ser atribuído no primeiro ano do século XX.
Como tem sido hábito aqui neste blogue, tentar-se-á dar notícia do laureado em cima do acontecimento, isto é, se a rede, normalmente congestionada na ocasião, o permitir. É que os assuntos para-literários também são notícia, embora desprovidos da arte e intelectualidade superiores que os zelosos literatos (patrulheiros) adoptam nos seus comportamentos públicos, cuja pulsão snobenta conduz ao desprezo daqueles que se dedicam a este tipo de jogos florais. Pues que, a mí me encantan los juegos florales.
Outra pequena nuance ou exercício de desperdício de palavras comummente associados a esta ocasião, consiste em verificar as probabilidades atribuídas a autores consagrados pelas casas de apostas – no caso do Nobel da Literatura, já se tornou tradição citar a tabela da casa inglesa Ladbrokes, que em 2006 acertou em cheio no autor laureado, o turco Orhan Pamuk. Assim sendo, confiramos as probabilidades retiradas da tabela de apostas publicada hoje dos 15 nomes mais prováveis a arrecadar o Nobel da Literatura:
1) Tomas Tranströmer (n. 1931; Suécia), com 4/1
2) Haruki Murakami (n. 1949; Japão), com 7/1
3) Ko Un (n. 1933; Coreia do Sul), com 8/1
--- Adonis (n. 1930; Síria)
5) Adam Zagajewski (n. 1945; Ucrânia/Polónia), com 10/1
6) Antonio Tabucchi (n. 1943; Itália), com 12/1
7) Les Murray (n. 1938, Austrália), com 13/1
8) Yves Bonnefoy (n. 1923; França), com 15/1
--- Assia Djebar (n. 1936; Argélia)
--- Thomas Pynchon (n. 1937; Estados Unidos)
11) Joyce Carol Oates (n. 1938; Estados Unidos), com 18/1
--- Margaret Atwood (n. 1939; Canadá)
--- Alice Munro (n. 1931; Canadá)
--- A.S. Byatt (n. 1936; Reino Unido)
--- Michel Tournier (n. 1924; França)
1) Tomas Tranströmer (n. 1931; Suécia), com 4/1
2) Haruki Murakami (n. 1949; Japão), com 7/1
3) Ko Un (n. 1933; Coreia do Sul), com 8/1
--- Adonis (n. 1930; Síria)
5) Adam Zagajewski (n. 1945; Ucrânia/Polónia), com 10/1
6) Antonio Tabucchi (n. 1943; Itália), com 12/1
7) Les Murray (n. 1938, Austrália), com 13/1
8) Yves Bonnefoy (n. 1923; França), com 15/1
--- Assia Djebar (n. 1936; Argélia)
--- Thomas Pynchon (n. 1937; Estados Unidos)
11) Joyce Carol Oates (n. 1938; Estados Unidos), com 18/1
--- Margaret Atwood (n. 1939; Canadá)
--- Alice Munro (n. 1931; Canadá)
--- A.S. Byatt (n. 1936; Reino Unido)
--- Michel Tournier (n. 1924; França)
Na lista surge também António Lobo Antunes (n. 1942) com uma probabilidade associada de 35/1.
Entre os 72 nomes constantes da lista, para além dos referidos anteriormente, em que apenas Thomas Pynchon e Margaret Atwood me deixam entusiasmado, há 8 (com Pynchon e Atwood, são 10) que pertencem ao clube restrito da devoção literária aqui da casa e que considero merecerem o Nobel:
- Philip Roth (20/1);
- Don DeLillo (22/1);
- Mario Vargas Llosa (25/1);
- Milan Kundera (25/1);
- Umberto Eco (45/1);
- Ian McEwan (50/1);
- John Banville (66/1);
- Paul Auster (66/1).
Há, no entanto, alguns outros autores, para além dos 10 atrás referidos e de ALA, cuja atribuição do Nobel de 2010 não me deixaria, de forma alguma, nada desagradado, como são os casos de Munro, Byatt, Cormac McCarthy, Magris, Oz, Handke, Carlos Fuentes, Modiano, Javier Marías, Barnes, Atiq Rahimi ou o notável serôdio norte-americano William H. Gass.
Mencionei 23 autores em 72 que constam da listagem da Ladbrokes e tenho, desde já, uma certeza: nenhum deles irá vencer, ou porque não participam no diálogo da cultura universal, ou porque são de direita, ou mesmo de esquerda, mas americanos, ou até porque os seus nomes são excessivamente conhecidos e os seus livros vendáveis (segundo os critérios obscuros da Academia Sueca).
Em memória de Henry James, Pessoa, Proust, Joyce, Woolf, Musil, Nabokov, Walser, Borges, Bernhard e Updike.
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