sábado, 9 de outubro de 2010

Há um manicómio a alguns quarteirões

A história conta-se em duas penadas, e vem aqui descrita com mais uns quantos pormenores que me dispenso a descrever: Katherina Wagner, bisneta do compositor Richard Wagner (1813-1883), actualmente co-directora do há muito centenário Festival de Bayreuth no estado alemão da Baviera – aquela é a cidade onde, desde 1874, são interpretadas obras do compositor de Leipzig – convidou a Israel Chamber Orchestra para a abrir a edição do próximo festival. Como é óbvio seguiu-se o habitual arraial de recriminações, indignações insensatas e impropérios por parte de alguns sectores da comunidade judaica.
O Passado Não Perdoa (The Unforgiven) é o título em português de um famoso western realizado por John Huston em 1960, que acorre à minha memória sempre que, nos buliçosos dias de hoje, sou confrontando com situações com este matiz: de ódio e de intolerância, adquiridos como se tratasse de um direito ao rancor perpétuo. Vítimas de um passado bárbaro, atroz e inumano que, ao invés de empreenderem um processo de cura que permita a cicatrização das suas feridas profundas através da assunção de que o horror teve data marcada e há muito foi ultrapassado, prevenindo, em simultâneo, que jamais regresse o tempo da barbárie, optam pela vitimização que se eterniza, que não só macula as suas gerações vindouras através do ódio, meramente louco porque se encontram já puídos e difusos os fios da História, como instiga à transmissão de um saudosismo criminoso aos filhos e enteados dos verdugos de antanho.
Recordo-me bem. O filme marcou-me profundamente quando, na minha infância, o vi transmitido pela televisão pública em casa dos meus avós: consternou-me pelo forte sentimento de injustiça e pela percebida irreparabilidade do dano causado pelas crueldade e voracidade humanas – nunca mais o voltei a ver, embora subsista na minha memória um dos maiores apelos à tolerância materializado em celulóide em toda a história do cinema, levado à tela pelas mãos do mestre Huston e do argumentista Ben Maddow (que também colaborou com Huston no icónico Quando a Cidade Dorme, The Asphalt Jungle, de 1950), baseado no romance homónimo de Alan Le May.
Mas neste caso em particular, o admirável, genial e impiedoso judeu norte-americano Larry David consegue, levando-nos às lágrimas pelo riso, transmitir todo o tipo de mensagens que, por vontade própria, ainda estigmatizam a comunidade judaica. Veja-se, por exemplo e bem a propósito deste infeliz incidente na vida real, este excerto do 3.º episódio, “Trick or Treat”, da 2.ª temporada (2001) de Curb Your Enthusiasm – a melhor série cómica de sempre, logo após o Flying Circus dos Monty Python, e imediatamente antes de Seinfeld –, onde o trautear da obra orquestral Siegfried-Idyll (1870) de Richard Wagner, leva Larry a recomendar o internamento no manicómio de um judeu intrépido que o interpela e que, logo a seguir descobre, é seu vizinho, não sem antes lhe haver sugerido que lhe examinasse o pénis para verificar se era ou não judeu:
 
É verdadeiramente descoroçoante verificar que, com episódios destes, os esforços de judeus moderados como Daniel Barenboim (citado neste caso), Amos Oz ou David Grossman, entre tantos outros, não produzem os frutos pretendidos: que se afaste de uma vez por todas o sofrimento que ainda assola as mentes de uma comunidade, sem que, porém, seja apagada a História de um genocídio para ensinamento futuro.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

O Escravo, por Llosa

Com a descrição da aculturação forçada e o desbaste culpável e criminoso da personalidade intrínseca ao ser humano, desde que este solta o primeiro gemido neste mundo, o Nobel peruano dá início à sua carreira literária na narrativa longa de ficção, com o excepcional romance de 1962 La ciudad y los perros (A Cidade e os Cães). Uma vertiginosa alegoria. Los perros para Mario Vargas Llosa, são os cadetes internados no Colégio Militar Leoncio Prado na cidade de Lima, um microcosmos das práticas torcionárias durante o apogeu dos movimentos repressivos e a expansão dos seus ideais nas trevas da Guerra Fria, que, em nome de uma ideologia, coarctaram toda a sensibilidade em nome de um colectivo amorfo e obediente perante um directório cujos interesses se subsumem ao poder e ao seu exercício indiscriminado e cruel.
O Escravo que refiro no título do texto, é a alcunha do infeliz Ricardo Arana – talvez o personagem mais marcante e pungente de todo o memorável romance (já o li há anos e continua a marcar o meu pensamento, e quiçá parte do meu comportamento) –, o representante de uma minoria, mesmo entre os “perros” (ou os “cães”), que se vai autodestruindo pelo consentimento de aniquilação da sua vontade perante o poder dos outros, pela submissão dos seus sentimentos que enformam a sua personalidade.
Eis um trecho inesquecível deste romance, onde se retrata O Escravo e a sua sede de liberdade que pode assumir-se numa miríade de maneiras, tantas quantas as formas de pensar, sentir e agir de cada indivíduo – esta é uma alegoria de um mundo de repressão:
«Podia suportar a solidão e as humilhações que conhecia desde menino e que só feriam o seu espírito: o horrível era estar fechado, essa grande solidão exterior que não escolhera, que alguém lhe atirara para cima, como uma camisa-de-forças. Estava em frente ao quarto do tenente, no entanto, não levantava a mão para tocar. Sabia, contudo, que ia fazê-lo, tinha demorado três semanas a decidir-se, já não tinha medo, nem angústia. Era a sua mão que o atraiçoava: permanecia quieta, fraca, pegada às calças, morta. Não era a primeira vez. No Colegio Salesiano chamavam-lhe “boneca”: era tímido e tudo o assustava. “Chora, chora, boneca”, gritavam os seus companheiros no recreio, rodeando-o. Ele retrocedia até que as suas costas encontravam a parede. As caras aproximavam-se, as vozes eram mais altas, as bocas dos meninos pareciam focinhos dispostos a ferrá-lo. Punha-se a chorar. Um dia disse para si: “Tenho de fazer qualquer coisa.” Em plena aula desafiou o mais valente do ano: esquecera o seu nome e cara, os seus punhos certeiros e o seu ofegar. Quando se viu frente a ele, no canto da lixeira, encerrado dentro de um círculo de espectadores ansiosos, também não sentiu medo, nem sequer excitação: apenas um abatimento total. O corpo não respondia, nem se esquivava aos golpes; esperou que o outro se cansasse de lhe bater. Era para dar castigo a esse corpo cobarde e transformá-lo que se havia esforçado para entrar no Leoncio Prado: por isso tinha suportado esses vinte quatro largos meses. Agora já não tinha esperança; nunca seria como o Jaguar, que se impunha pela violência, nem sequer como Alberto, que podia desdobrar-se e dissimular para que os outros não fizessem dele uma vítima. A ele conheciam-no logo, tal como era, sem defesas, débil, um escravo. Só a liberdade lhe interessava agora para manejar a sua solidão à vontade, levá-la a um cinema, encerrar-se com ela em qualquer parte. Levantou a mão e bateu três vezes à porta.»
Mário Vargas Llosa, A Cidade e os Cães, pág. 106. [Mem Martins: Europa-América, 1988, 302 pp; tradução de José Eduardo Mendonça; obra original: La ciudad y los perros, 1962.]
Decorridas mais de doze horas após o anúncio, ainda persiste na minha mente um forte sentimento de exultação e de comprazimento: hoje, a Academia Nobel fez finalmente justiça. Será para manter? No início do próximo Outono veremos se o lixo ideológico de outros anos foi definitivamente expurgado daquelas mentes e reciclado em substância exclusivamente literária. Saiu-se do círculo de uma intelligentsia deslumbrada pelo exercício sedutor do poder, mesmo que arbitrário, iníquo e criminoso. Conceder o Nobel a Llosa foi uma forma de homenagear os oprimidos por Trujillo ou por Castro, à direita ou à esquerda, os filhos esmagados pelo peso dos ditadores deste mundo. O anúncio da Academia Sueca hoje de manhã sancionou esse grito de liberdade, antes que fosse tarde de mais. Llosa tem 74 anos e continua jovem e enérgico a escrever sem rodeios através da «sua cartografia das estruturas de poder e imagens incisivas da resistência, da rebelião e da derrota do indivíduo.»

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Prémio Nobel da Literatura 2010

Os 18 vigorosos membros (com uma média de idades a rondar os 72 anos) da Academia Sueca (fundada em 1786 pelo rei sueco Gustavo III) elegeram este ano:

(n. 1936, Arequipa, Peru)
FINALMENTE! Fez-se justiça ao mais brilhante escritor latino-americano vivo. 
(Llosa, apesar de ser um dissidente da esquerda radical, deverá seguramente participar no “grande diálogo da Literatura”, critério em nada abstracto para a atribuição de um prémio com esta dimensão, com forte impacto não só nos meios culturais internacionais, interferindo com o orgulho de nações, como também na vertente económico-financeira das empresas que operam no suficientemente rentável mercado editorial. García Márquez estará, decerto, a caminho de Havana para chorar no ombro amigo do fidel ditador.)
Para mais informações, ler aqui artigo em permanente actualização.
Os meus preferidos: A Cidade e os Cães (La ciudad y los perros, 1962); A Casa Verde (La casa verde, 1966); Os Cadernos de Dom Rigoberto (Los cuadernos de don Rigoberto, 1997); A Tia Julia e o Escrevedor (La tía Julia y el escribidor, 1977); A Festa do Chibo (La Fiesta del Chivo, 2000) e até, o recente e brutal, e não menos soberbo, Travessuras da Menina Má (Travesuras de la niña mala, 2006).

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Cambridge em Alta

Depois de, pela primeira vez, ter sido considerada a melhor universidade do mundo – ocupou o 1.º lugar em 2010 no certificado ranking da QS, onde a eterna rival Oxford desceu uma posição para 6.º lugar, e destronando Harvard, a habitual n.º 1 –, acabou de ver um dos seus mais ilustres académicos ser reconhecido com o Prémio Nobel da Medicina, anunciado hoje – critério (número de académicos galardoados com o Nobel) que tem um forte peso na elaboração da listagem.
Eis, metonimicamente, o pai dos “bebés proveta”:
Robert G. Edwards
(n. 1925, Manchester, Reino Unido)

domingo, 3 de outubro de 2010

Nobel da Literatura 2010 – anúncio

É já na próxima quinta-feira, dia 7 de Outubro, pelo meio-dia (hora de Lisboa), que será anunciado o 107.º vencedor do Prémio Nobel da Literatura, na sua 103.ª edição desde que começou a ser atribuído no primeiro ano do século XX.
Como tem sido hábito aqui neste blogue, tentar-se-á dar notícia do laureado em cima do acontecimento, isto é, se a rede, normalmente congestionada na ocasião, o permitir. É que os assuntos para-literários também são notícia, embora desprovidos da arte e intelectualidade superiores que os zelosos literatos (patrulheiros) adoptam nos seus comportamentos públicos, cuja pulsão snobenta conduz ao desprezo daqueles que se dedicam a este tipo de jogos florais. Pues que, a mí me encantan los juegos florales.
Outra pequena nuance ou exercício de desperdício de palavras comummente associados a esta ocasião, consiste em verificar as probabilidades atribuídas a autores consagrados pelas casas de apostas – no caso do Nobel da Literatura, já se tornou tradição citar a tabela da casa inglesa Ladbrokes, que em 2006 acertou em cheio no autor laureado, o turco Orhan Pamuk. Assim sendo, confiramos as probabilidades retiradas da tabela de apostas publicada hoje dos 15 nomes mais prováveis a arrecadar o Nobel da Literatura:

1) Tomas Tranströmer (n. 1931; Suécia), com 4/1
2) Haruki Murakami (n. 1949; Japão), com 7/1
3) Ko Un (n. 1933; Coreia do Sul), com 8/1
--- Adonis (n. 1930; Síria)
5) Adam Zagajewski (n. 1945; Ucrânia/Polónia), com 10/1
6) Antonio Tabucchi (n. 1943; Itália), com 12/1
7) Les Murray (n. 1938, Austrália), com 13/1
8) Yves Bonnefoy (n. 1923; França), com 15/1
--- Assia Djebar (n. 1936; Argélia)
--- Thomas Pynchon (n. 1937; Estados Unidos)
11) Joyce Carol Oates (n. 1938; Estados Unidos), com 18/1
--- Margaret Atwood (n. 1939; Canadá)
--- Alice Munro (n. 1931; Canadá)
--- A.S. Byatt (n. 1936; Reino Unido)
--- Michel Tournier (n. 1924; França)
Na lista surge também António Lobo Antunes (n. 1942) com uma probabilidade associada de 35/1.
Entre os 72 nomes constantes da lista, para além dos referidos anteriormente, em que apenas Thomas Pynchon e Margaret Atwood me deixam entusiasmado, há 8 (com Pynchon e Atwood, são 10) que pertencem ao clube restrito da devoção literária aqui da casa e que considero merecerem o Nobel:
  • Philip Roth (20/1);
  • Don DeLillo (22/1);
  • Mario Vargas Llosa (25/1);
  • Milan Kundera (25/1);
  • Umberto Eco (45/1);
  • Ian McEwan (50/1);
  • John Banville (66/1);
  • Paul Auster (66/1).

Há, no entanto, alguns outros autores, para além dos 10 atrás referidos e de ALA, cuja atribuição do Nobel de 2010 não me deixaria, de forma alguma, nada desagradado, como são os casos de Munro, Byatt, Cormac McCarthy, Magris, Oz, Handke, Carlos Fuentes, Modiano, Javier Marías, Barnes, Atiq Rahimi ou o notável serôdio norte-americano William H. Gass.
Mencionei 23 autores em 72 que constam da listagem da Ladbrokes e tenho, desde já, uma certeza: nenhum deles irá vencer, ou porque não participam no diálogo da cultura universal, ou porque são de direita, ou mesmo de esquerda, mas americanos, ou até porque os seus nomes são excessivamente conhecidos e os seus livros vendáveis (segundo os critérios obscuros da Academia Sueca).
Em memória de Henry James, Pessoa, Proust, Joyce, Woolf, Musil, Nabokov, Walser, Borges, Bernhard e Updike.   

sábado, 2 de outubro de 2010

Mestre Fincher

Texto curto. Não vou falar da ansiedade doentia que me costuma assaltar nas imediações da projecção de um novo filme do meu realizador, na minha fanática maneira de ver e entender a coisa fílmica, o melhor cineasta da actualidade, e também o mais fleumático, íntegro e recatado – parece quase um contra-senso na era da pimbalhada arraialeira dos efeitos visuais (com ou sem 3D), sonoros e promocionais.
Estreou hoje [ontem] nos Estados Unidos – A Rede Social (The Social Network) – e conseguiu o quase impensável perante o manifestamente ininteligível zeitgeist contemporâneo: a unanimidade encomiástica dos críticos mais reputados do outro lado do Atlântico.
Para se ficar só com uma ideia do que acabo de escrever, é raríssimo ver estes 15 nomes (todos ligados a reputadas publicações) a convergir na opinião sobre o mesmo filme no exercício da crítica cinematográfica (ligação àqueles cujas críticas tenho mais em consideração, faltam A.O. Scott e Nathan Lane, por duplicação nas respectivas publicações): Roger Ebert (Chicago-Sun Times), Manohla Dargis (The New York Times), David Denby (The New Yorker), Andrew O’Hehir (Salon), J. Hoberman (Village Voice), Mark Harris (New York Magazine), Peter Howell (Toronto Star), Todd McCarthy (indieWIRE), Dana Stevens (Slate), Bob Mondello (National Public Radio), Mick LaSalle (San Francisco Chronicle), Joe Morgenstern (Wall Street Journal), Christopher Orr (The Atlantic), Richard Corliss (Time Magazine) e o truculento Peter Travers (Rolling Stone).
A primeira e, pelos vistos, frutuosa união Fincher & Sorkin chega cá no próximo dia 4 de Novembro, e tenho uma forte suspeita de que, por terras do primeiro-ministro filósofo (só mesmo de nome, porque de resto é redondo como um ovo, não tem ponta por onde se lhe pegue – acabei de plagiar VPV sobre Durão Barroso, muito antes de este último dispor do mínimo indício de que mais tarde iria assumir o grande tacho europeu), onde predominam as mentes preclaras, levará no mínimo com uma bola preta… Há quem culpe o realizador de Denver por haver realizado alguns telediscos, uma mácula jamais expurgável na carreira de um cineasta.

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

As pulsões de Augie March

Bellow, Saul Bellow, não me canso de repetir nestas páginas que ninguém lê, a minha intensa, por vezes pungente, admiração por este artesão da palavra que, em 1976, recebeu da Academia Sueca o Prémio Nobel da Literatura e, segundo confessam as fontes subterrâneas que vogam acima das ratazanas da Academia – e permitam-me esta inversão metafórica de papéis no teatro social, justificada pela repugnância que tais seres me provocam a cada Outubro –, estava destinado ao para sempre injustiçado Borges, que, segundo o próprio, nasceu com a sina de nobelizado e morreu sem que tal distinção lhe fosse atribuída. Bellow poderia esperar, e não foi tão-pouco o prémio que o marcou como um gigante da literatura universal, atribuído já o judeu americano-cannuck era sexagenário, porquanto aquele já havia publicado as suas melhores obras – se exceptuarmos a sagração da Literatura materializada no romance Morrem Mais de Mágoa (More Die of Heartbreak), publicado onze anos após o Nobel.
Detenho-me em Augie e na irrepreensível tradução que Salvato Telles de Menezes fez para a Quetzal – corajosa editora que imprimiu três mil exemplares de uma obra-prima a que apenas, estou seguro, uma centena de pessoas neste país atribuirá algum valor –, e no momento em que o nosso “herói”, acompanhando Mrs. Renling, a sua patroa e pretensa mentora milionária da alta sociedade de Chicago, numa deslocação à estância de repouso de Benton Harbor, num hotel de luxo bordejando as margens do rio St. Joseph, no ponto em que águas deste se fundem com as do lago Michigan, se apaixona arrebatadamente pela intocável e inacessível Esther Fenchel, num convencimento de sucesso a não ser que a sua pátina de «credenciais forjadas» por um jogo de aparências abrisse uma brecha e deixasse ver o mundo de pobreza que se escondia por baixo:
«Eu trabalhava, com o coração nas mãos, em prol do maior êxito possível nestes limites, como um impostor. Passava horas preparando-me para ser uma petição viva. Por meio de uma concentração muda e de uma batalha para atrair as atenções. A única maneira que consegui conceber, na minha paixão pitoresca e carregada de sangue. Porém, da mesma forma que um prenúncio de praga pode ser sentido no vento brando que faz tremular bandeiras e na beleza de um porto – uma cena de paz activa e segura –, talvez pudesse, apesar de toda a minha aparência equilibrada de quem vive circunstâncias normais e tranquilas, ter passado o tom dos meus pensamentos pelo ar – na praia, no relvado enfeitado de flores, no grande espaço aberto da sala de jantar branca e dourada –, e estes pensamentos eram que poderia sujeitar-me a ser enforcado nos cabelos da rapariga – coisas desta ordem. Sonhava pesadamente com os lábios dela, com as mãos, seios, pernas, entre pernas. Ela não podia baixar-se para apanhar uma bola no campo de ténis – eu parado e hirto, com um foulard com cavalos castanhos sobre um fundo verde engenhosamente enfiado numa argola de madeira talhada à mão que Renling tornara popular nessa estação em Evanston –, não podia testemunhar isto, dizia eu, sem sentir uma pontada de amor e adoração nas minhas entranhas pela curva das suas ancas, a gloriosa forma virginal do seu traseiro, o seu macio e protegido segredo. Onde ser admitido com amor seria o endosso do mundo, de que não era a infecunda confusão que distantes temores secos sugeriam e sussurravam, mas necessário, justificado, a validade da justificação comprovada pelo júbilo. Que se aceitasse, aprovasse, beijasse, usasse as suas mãos em mim, me deixasse tocar no pó de barro do campo de ténis colado às suas pernas, o leve suor, a sujidade e o suor íntimos, livrar-me-ia do mal da falsidade – mostraria que não havia nada que fosse falso, ofensivo ou leviano que não pudesse ser corrigido!»
Saul Bellow, As Aventuras de Augie March, pp. 192-193. [Lisboa: Quetzal, Setembro de 2010, 712 pp; tradução de Salvato Telles de Menezes; obra original: The Adventures of Augie March, 1953.]
É Bellow no seu melhor. Um parágrafo inteiro de puro deleite e arrebatamento literário, em que uma palavra a mais ou a menos estragaria a obra de arte subsumida no bombardeamento de um feixe de sentimentos que perpassam pela mente pré-adulta de Augie.
Também a Literatura (assim grafada) tem os seus momentos em que a síndrome de Stendhal se pode manifestar através do cadinho dos seus sintomas pela arte etérea que alguns dos seus artesãos apõem aos seus escritos: a perfeição, craftsmanship (perde toda a sua potência na tradução).
Por fim, a recusa e o vórtice que transforma as pulsões num buraco negro aglutinador da esperança: «O sangue fugiu-me da cabeça, do pescoço, dos ombros, e desmaiei pura e simplesmente.» (pág. 197)

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

PEN/Saul Bellow Award 2010

Merecido este prémio de carreira na ficção americana atribuído, na minha humilde opinião, ao melhor escritor da actualidade, Don DeLillo, curiosamente enquanto me vou deleitando com a leitura de As Aventuras de Augie March (The Adventures of Augie March), numa excelente edição da Quetzal, escrito em 1953 pelo excelso autor que deu o nome à distinção.
DeLillo, de ascendência italiana, nasceu no distrito do Bronx, na sua Nova Iorque, a 20 de Novembro de 1936: Submundo (Underworld, 1997; ed. port. Sextante), Ruído Branco (White Noise, 1985; ed. port. Presença / Sextante), Os Nomes (The Names, 1982; ed. port. Relógio D’Água), Mao II (1991; ed. port. Relógio D’Água), Libra (1988; ed. port. Presença) ou Cosmópolis (Cosmopolis, 2003; ed. port. Relógio D’Água) já mereciam esta distinção (romances ordenados de acordo com a minha preferência, deixando três de fora que já tive a oportunidade de ler, mas que conjugam mal com os acima referidos, pelo menor brilho – por ler, remanescem seis de um total de 16 romances já publicados pelo autor galardoado, os cinco primeiros da sua carreira, a que se junta o de Cleo Birdwell, não entrando em linha de conta com Point Omega, o seu último, publicado este ano e a ser editado nos próximos meses em Portugal).
Três dos quatro melhores romancistas norte-americanos contemporâneos vivos, seguindo as palavras proferidas num artigo de opinião de 2003 pelo erudito de Harvard, Harold Bloom (Philip Roth em 2007, Cormac McCarthy em 2009 e agora Don DeLillo), já receberam o prémio, neste momento fica em falta a sua atribuição a Thomas Pynchon, para se fazer o pleno dos “4 Grandes”, com o patrocínio do pai Bellow, o melhor deles todos.
Parabéns de um admirador portuense.

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Tran Anh Hung

O seu nome assemelha-se a uma onomatopeia retirada das páginas coloridas de uma fantasia gráfica maniqueísta da DC Comics ou da Marvel; porém, no mundo mais restrito da cinefilia, onde remanescem alguns estouvados que insistem em despender alguns dos seus parcos recursos para conseguirem obter o acesso a cinematografias alternativas de forma a proporcionar o enchimento estético da retina, aquela onomatopeia aliterante há muito que vai servindo para identificar um notável realizador vietnamita, quase desconhecido do público português pela imperiosas leis do nosso mercado, oligarca por definição, tanto no circuito da distribuição e da exibição cinematográficas, como no mercado de DVD.
Nascido em 1962 na tristemente célebre cidade de Da Nang, o jovem futuro cineasta viveu a sua infância em Saigão (hoje Ho Chi Minh). Em 1975, fugia com a sua família para França após a queda de Saigão sob o domínio dos norte-vietnamitas e perante o inevitável colapso e retirada das tropas americanas das terras meridionais da Indochina, encurraladas a oeste pelos khmers vermelhos cambojanos. Hoje, aquele rapaz que nasceu sob o estridor das bombas, dos gritos de martírio de uma população dizimada e o “cheiro a napalm pela manhã” (ou odor?), é um cidadão francês de pleno direito e um dos mais ilustres realizadores da inimitável indústria asiática de cinema.
Em Portugal, Tran Ahn Hung é sobretudo conhecido pelo seu maravilhoso filme de estreia, O Odor da Papaia Verde (Mùi du du xanh, 1993), que lhe valeu a nomeação para o Óscar para Melhor Filme Estrangeiro em 1994 (perdê-lo-ia para o mediano Belle Epoque do realizador espanhol Fernando Trueba) e que antes lhe havia permitido a saída do quase anonimato – embora já tivesse dado que falar com as suas duas curtas-metragens anteriores – ao vencer o Caméra d’Or no Festival de Cannes de 1993 – júri nesse ano presidido pela actriz Micheline Presle, a volúvel “Marthe Grangier” de Radiguet levado à grande tela pelo infame Claude Autant-Lara.
De lá para cá, Tran Ahn Hung realizou dois filmes notáveis: Cyclo (Xich lo, 1995) e “Em Pleno Verão” (título possível em português; Mua he chieu thang dung / À la verticale de l'été, 2000); o primeiro com projecção limitada no nosso país, o segundo nem sequer viu a luz da projecção em solo luso – valha-me o mercado espanhol que permitiu aprofundar a minha admiração pelo notável esteta asiático. Com o assombroso e brutal Cyclo, o realizador franco-vietnamita conquistou o Leão de Ouro no Festival de Cinema de Veneza em 1995 (Bienal de Veneza) – curiosamente, como é demais conhecido, um evento anual quase desde a sua fundação em 1932 – derrotando, entre outros, o nosso João César Monteiro, o recentemente falecido Claude Chabrol, Ettore Scola, Spike Lee ou Hirokazu Koreeda.
Em 2008, o cineasta asiático aventura-se no domínio do inglês, com uma produção multinacional (britânica, chinesa, espanhola, francesa e irlandesa), e cria I Come with the Rain (“Venho com a Chuva”, tradução possível para a nossa língua), tendo por protagonista o sex symbol norte-americano Josh Hartnett (que o interpretou ainda embalado pelo reconhecimento público do personagem-tipo em A Dália Negra de Brian De Palma) e a jovem estrela da televisão japonesa Takuya Kimura. Trata-se da 4.ª longa-metragem do autor vietnamita, cuja cópia se dissipou, misteriosamente, no éter dos circuitos comercial e independente de cinema, com estreias modestas no Extremo Oriente, estando apenas disponível no lado ocidental por vias esconsas e pouco recomendáveis em nome do cumprimento da lei. Há quem assegure que foi o próprio Tran Ahn Hung que procurou esse fim face à implacável rasoira de alguns sectores importantes da crítica internacional, apesar de terem surgido outras bastante positivas, as más foram suficientemente arrasadoras, e logo para a obra que marcou o regresso do cineasta ao grande ecrã após oito anos de ausência – se houver oportunidade, direi de minha justiça sobre este filme em que nos assomam sentimentos de amor e ódio quase simultâneos.
Uma curiosidade: todos os filmes contam com a presença da actriz vietnamita Yenkhe Tran Nu (n. 1968), assume o papel de mulher do realizador no mundo fora da tela: bela, de uma transcendência exótica difícil de definir com o seu sorriso enigmático de Mona Lisa, de gestos dóceis, lentos e de uma perfeição estudada, porém graciosa e profunda, de um equilíbrio oriental nos momentos mais frementes e buliçosos.
O que é Tran Ahn Hung?
Imagens fortes, com toda a carga polissémica do qualificativo: verdes deslumbrantes – a natureza húmida do Vietname; a iridescência bruxuleante e voluptuosa da gastronomia oriental; o suor endémico que escorre por aquela pele de tez acobreada, entre o ébano da Índia e o ebúrneo envelhecido da China. Movimentos de câmara enleantes e claustrofóbicos, como se os nossos olhos deambulassem por um mural gigantesco, incapaz de ser captado na sua plenitude pela insolúvel finitude espacial congénita do nosso campo visual – uma sensação de confinamento, que Tran Ahn Hung solta com mestria nos momentos adequados, mostrando-nos o pormenor que não nos poderia escapar. Os silêncios que nunca são mudos, sempre matizados pelos sons da fauna local – o chilreio dos pássaros exóticos, o sibilar dos répteis, o coaxar das rãs, o barulho ininterrupto dos mais espantosos insectos –, ou pelo bulício de uma metrópole babélica, como em Cyclo – o marralhar dos comerciantes, os escapes estridentes das motocicletas, a chiadeira dos travões dos táxis, o gotejar do desespero na solidão do lar degradado: a humidade, as lágrimas, o suor e o sangue. A banda sonora que irrompe mansamente para depois desaparecer de forma abrupta, regressamos ao silêncio, como alerta simbólico para o brotar de uma mensagem forte, que tem de ser retida, pode tratar-se de um desenlace perturbador – como com “Creep” dos Radiohead em Cyclo – ou das entrelinhas de uma emoção inconfessável, o despertar para um tabu pronto a ser quebrado – como com “Pale Blue Eyes” ou “Coney Island Baby” dos Velvet Underground e Lou Reed, no filme “Em Pleno Verão” – ou a paixão ardente, porém inocente, paciente, feita de uma longa espera mas pronta a eclodir, a derrubar os muros das convenções e estratos sociais – o 3.º andamento da Suite Bergamasque de DebussyClair de Lune”, ou o arrebatamento dos dois últimos prelúdios para piano de Chopin, em O Odor da Papaia Verde. A violência gráfica de “Venho com a Chuva” atinge os seus momentos culminantes com três faixas dos Radiohead, todas retiradas de álbuns diferentes: “Nude” (In Rainbows, 2007); “Climbing Up the Walls” (OK Computer, 1997); e “Bullet Proof..I Wish I Was” (The Bends, 1995).
E agora vem aí Jonny Greenwood com Murakami e os seus Beatles
[Na imagem: “Lien” (a irmã mais nova) por Yenkhe Tran Nu e “Hai” (o irmão) pelo actor Ngo Quang Hai, dançando ao som de “Coney Island Baby” de Lou Reed, em Mua he chieu thang dung – À la verticale de l'été, 2000.]
--- Fim da parte I (a parte II, a razão de ser deste texto, para quando houver tempo) ---

sábado, 25 de setembro de 2010

Náuseas Imperiais

Lisboetizando-me, trata-se daquelas carregadas de cevada, a cheirar a fermentação e a um insistente processo de levedação, alcoolicamente proibitivas, denunciadas pelo cheiro a benzina, pela dor de cabeça latejante e o inevitável vómito biliar que se nos apresenta de forma eruptiva no dia seguinte.
É assim o último romance do chavalo BEE da cidade dos anjos que resolveu repescar o seu sucesso de há 25 anos e escrever no mesmo estilo incipiente e cadavérico, perdoável, e até honorável, num jovem de vinte anos que se atirou de cabeça no mundo literário para contar as suas vacuidades burgueso-criminosas sob a forma de pseudónimos e sexos trocados, todavia inadmissível num jovem de 46 anos que não aprendeu a lidar com os seus traumas.
Mas se a história é deploravelmente enjoativa, a sua tradução para a nossa língua é repulsiva. Não há página, entre as 177, com letra de tamanho 12 e espaço e meio entre linhas, que não tenha o seu erro de palmatória em língua portuguesa. É o advérbio “demais” usado e abusado quando se pretende referir o excesso de alguma coisa; é o verbo “haver”, impessoal na sua acepção de “existir”, apresentando nesta situação formas verbais em todas as pessoas do singular ao plural; é a inconsistência no uso do “porque” e do “por que”, já de si uma fonte de polémica entre linguistas nacionais; é a terceira pessoa do presente do indicativo do verbo “vir” – “vêm” – substituída, quiçá por problema oftalmológico do tradutor, por “vêem”; são às dezenas as passagens de discurso directo ao indirecto que estão por assinalar devidamente pelo escolhido travessão, ou então, são incontáveis as vezes em que os diálogos são todos processados num só parágrafo, numa orgia gráfica entre “vírgulas”, “pontos finais” e “travessões” que fariam corar o José Castelo Branco, até pela terceira via de “género”; e, parafraseando este último, até é fino que apareça “New York” ao invés da forma portuguesa da Grande Maçã, “Nova Iorque”; mas depois vem o “112” em vez do “911”, o que é admissível, no entanto incoerente, e mesmo aviltante, quando se traduz a referência do narrador na página 114 que esteve “à porta do ER em Cedars-Sinai” (pág. 114) – o “ER” são as “urgências” e o “Cedars-Sinai” o famosíssimo hospital-universidade de Los Angeles, e não uma sala VIP de um clube nocturno exclusivo de Hollywood.
Um Nausef. E pronto. Acabei de tomar um antiemético muito conhecido sem nada receber por isso, nem uma viagem a um importante congresso à República Dominicana.
Referência bibliográfica
Bret Easton Ellis, Quartos Imperiais. Lisboa: Teorema, Agosto de 2010, 177 pp. Tradução de José Luís Luna, com revisão de José Costa; obra original: Imperial Bedrooms, 2010.

sábado, 18 de setembro de 2010

Círculo Vicioso Infernal

Ouvir em continuous playAfraid of Everyone”, repetindo para mim mesmo, como uma decisão irrevogável, I’ll defend my family with my orange umbrella (e sobrevém-me em pensamento uma irritação pela estupidez nacional: weary of the punctured and rotten pink one).

domingo, 12 de setembro de 2010

Claude

Claude Chabrol
(24 de Junho de 1930 – 12 de Setembro de 2010)
É o segundo a partir este ano, e do grupo de cinco, já só restam dois, os “jotas”: Jacques e Jean-Luc. Claude Chabrol morreu hoje na sua Paris natal.
Conjuntamente com François Truffaut (1932-1984), Eric Rohmer (1920-2010), Jean-Luc Godard (n. 1930) e Jacques Rivette (n. 1928), Chabrol foi um dos pais fundadores do denominado movimento do cinema francês da “Nouvelle Vague”, cuja semente provém da revista Cahiers du Cinéma, onde o quinteto, fomentado pelo seu fundador André Bazin, escrevia artigos de crítica, e cujas arte, visão e estética se materializariam em centenas de filmes que, a partir do final da década de 50 do século passado, marcaram em definitivo o rumo do cinema francês e europeu, com fortes repercussões do outro lado do Atlântico.
Deste grupo, Chabrol foi o seu elemento mais prolífico começando com o notável Um Vinho Difícil (Le beau Serge, 1958) e terminando com Bellamy (2009) – com promessas de estreia em Portugal nunca concretizadas.
Não escondo, e nunca escondi, a minha predilecção por Rohmer e por Chabrol, apesar de a reverência ao Mestre Godard ser unânime no mundo da intelectualidade, de a marca de originalidade ser normalmente atribuída a Rivette e das superioridades técnica e estética usualmente apontadas a Truffaut. Chabrol, para além do mais produtivo, era também o mais comercial – ou mainstream, como alguns gostam de chamar – de entre os cinco: o Hitchcock de Paris.
Muito poderia, aqui e agora, destacar do excelso parisiense que hoje partiu – embora nos tenha deixado altruisticamente a sua arte para ser contemplada –, são incontáveis os filmes que dele apreciei e reapreciei com deleite, mas irei apenas destacar o último original da sua filmografia que pude ver (o seu penúltimo), e por este ter sido quase negligenciado pela crítica: o excepcionalmente belo e desesperante A Rapariga Cortada em Dois (La fille coupée en deux, 2007) com a bela, sensual e lúbrica Ludivine Sagnier e o meu mui estimado François Berléand (onde já não apareceu a sua musa Isabelle Huppert):

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Carey para o “Tri”

Hoje, à hora do almoço, Andrew Motion, presidente do júri do Booker Prize 2010, anunciou a habitual lista dos seis romances finalistas, candidatos a receber o mais prestigiado galardão a premiar uma obra de ficção de língua inglesa publicada originalmente na Commonwealth ou na Irlanda.
Peter Carey consta da lista, curiosamente com o único romance de entre os restantes finalistas que até agora teve o privilégio de ser editado em Portugal (Gradiva), Parrot e Olivier na América (Parrot and Olivier in America), um pretendente a calhamaço com quase quinhentas páginas; uma comédia, por vezes picaresca, sob um pano do fundo dramático e sério da liberdade e da democracia na América, que retrata as relações entre Alexis de Tocqueville e um seu criado.
Eis a lista completa de finalistas, retirados do “Booker’s Dozen” anunciado em finais de Julho:
  • Peter Carey, Parrot e Olivier na América (ed. port. Gradiva; Parrot and Olivier in America)
  • Emma Donoghue, Room
  • Damon Galgut, In a Strange Room
  • Howard Jacobson, The Finkler Question
  • Andrea Levy, The Long Song
  • Tom McCarthy, C
Fazendo fé nos prognósticos da opinião literária publicada, Carey – escritor australiano, radicado nos Estados Unidos –, prepara-se para ser o primeiro romancista a alcançar o “TriBooker” (expressão obviamente minha), ou seja, a vencer o Booker Prize por três vezes (ler aqui para mais informação), desde a sua instituição em 1969. O único escritor que estaria nessas condições seria o Nobel da Literatura de 2003, o escritor sul-africano, radicado na Austrália, J.M. Coetzee, que venceu o dito prémio em 1983 e 1999.
E assim vão as glórias do mundo, eu, um luso radicado na lusitana imundície, com longas e felizes escapadelas por outros reinos da Ibéria, que até nem aprecia muito o autor australiano, não poderia deixar de manifestar a minha raiva – vá lá, comedida, já que se trata apenas de um prémio, e um bom leitor ou entendido do assunto literário jamais deverá render-se a essa coisa kitsch de prémios, meras sinecuras diletantes – pela não presença, nem sequer na dúzia de frade anterior de dois excelentes romances ingleses publicados este ano: Solar de Ian McEwan e A Viúva Grávida (The Pregnant Widow) de Martin Amis.
Há quem diga, usando a técnica futebolística de caracterização dos fenómenos, sejam eles de que índole for, é apenas o Booker in Motion.

sábado, 28 de agosto de 2010

Presente ou prenda?

Presente de Morte foi o título escolhido em Portugal para apresentar a última diabrura devaneante do menino-prodígio norte-americano Richard Kelly (n. 1971) que, com vinte e nove anos, assustou meio mundo, assim como o jovem púbere Donnie Darko (Jake Gyllenhaal) com um coelho psicadélico ectoplasmático e marcadamente apocalíptico.
The Box, ou A Caixa, é o seu título original, tal como original – podem substituir o adjectivo por heteróclito – foi a designação seleccionada para o circuito comercial português, que decerto teve o cunho da cerebral e erudita Cinha Jardim que tem horror a “prenda” para denominar uma “oferenda”, embora neste último caso a palavra tenha uma conotação mais bíblica e por isso mais próxima do bafio confessional que marcou o homem, por ela reverenciado, originário do Vimieiro, Santa Comba Dão, Viseu, que governou o país entre 1932 e 1968, e daí o seu uso poder ser interpretado como uma dupla heresia.
Saindo do mundo intelectual onde se cultiva o cinhismo, desta feita Kelly adaptou ao grande ecrã um conto, “Button, Button”, do autor prolixo de ficção científica Richard Matheson – publicado pela primeira vez na revista Playboy na edição de Junho de 1970, tendo como playmate nas icónicas centerfold Elaine Morton (julgo ser assaz relevante ter aposto neste texto esta nota, assim como a sua hiperligação de pendor biográfico).
O Coelho (esqueçam-se da minha deambulação pelo mundo das coelhinhas) transformou-se num homem enigmático, grotesco e cauterizado de nome Arlington Steward (Frank Langella, que substituiu à última hora Sandro Correia, uma vítima de outros raios, mais pneumáticos), e Donnie no casal Lewis (interpretado por Cameron Diaz e James Marsden), e mais uma vez, e de forma engenhosa, o sobrenatural se transubstancia num pano de fundo moral, cujas ganância e volúpia do materialismo sobressaem como teste de resistência à integridade humana. Estávamos na época de Gerald Ford, em plena efervescência da conquista do planeta vermelho e do lançamento da sonda espacial Viking 1.
Neste momento, e decorridas quase vinte e quatro horas da sua projecção perante estes meus olhos que muito já devoraram de arte cinematográfica, o filme subsiste no terrível limbo dos OFNI (Objecto Fílmico Não Identificado). Está, por enquanto, bastante longe do prazer que retirei do assombroso Donnie Darko (2001), embora perdure na minha mente um gérmen ambivalente e paroxísmico, pronto a eclodir, como um raio chamuscador que rasga os céus rumo a terra firme, numa aversão desmesurada ou numa afeição arrebatada; como até pode por lá permanecer (porventura acomodado num vácuo que por ora soberbamente desconheço) e definhar por inanição e indiferença.
Derrogando, com imenso prazer, o cinhismo balofo: que rica prenda Kelly nos deixou, manifestamente ignorada pelo mundo contemporâneo da cinefilia.

sábado, 21 de agosto de 2010

Wimmer e desejei-me

E mais trocadilhos poderiam ser usados para qualificar o argumentista de um dos piores filmes do ano, que entrou directamente para a minha lista da vulgaridade, em que por lá já figurava, sem passar pelo purgatório – deambula sem remissão por um dos círculos do inferno –, o filme musculado, aquela coisa informe, inverosímil mas sem arte, intelectualmente ronceiro e visualmente boçal como Um Cidadão Exemplar (Law Abiding Citizen, 2009) do aliterante F. Gary Gray. E se no início do parágrafo ensaiei a hipótese de se gerar uma punning machine – em estrangeiro alinda-se o objectivo maledicente –, esta resultou do marinho condimento do título, Salt (2010), e da entrada em vigor da norma panificadora com o objectivo de tornar menos tensos os cidadãos nacionais – esses viciados em dois átomos combinados de sódio e cloro, agarrados à excitação (hipertensiva) de um bom desgoverno e de uma vidinha enfadonha. Até o nome do realizador, Phillip Noyce, se presta a uma cadeia calemburista cujos início e fim não vislumbro, a sua sonoridade é-me um forte incentivo que provém de tempos imemoriais (era ainda um jovem cinéfilo), vigorava no circuito comercial a, enganadoramente pachorrenta, Calma de Morte (Dead Calm, 1989) – trocadilhai vós, ó raiz quadrada de meia dúzia arredondada à milésima que me lê.
Ah, já quase me esquecia do argumentista referenciado na abertura, Kurt Wimmer foi o autor de ambas as histórias directamente escritas para o ecrã – um cidadão sem vestígios de sal.
Em resumo, só mesmo para terminar com este meu texto potencialmente aberrativo ou que para aí caminha à medida que se vão adicionando mais caracteres, gostaria de deixar aqui, em letra de forma, a minha penitência: A Origem (Inception, 2010) do jovem arrevesado Nolan é uma obra-prima por comparação – se é que possível comparar-se uma amiba fílmica com entes fílmicos geneticamente mais desenvolvidos.
PS – O Ebert, desde que o resolvi mencionar, passou-se por completo (talvez tenha sido da excitação advinda dessa chamada encomiástica aqui impudicamente revelada), vejam-se as críticas à amiba e à coisa labiríntica.
PPS – Um questão/apelo aos reputados epidemiologistas mundiais: haverá algum vírus cinematográfico, um parasita dissimulado (não, não é uma ideia, resiliente como o Sócrates do inglês técnico), quiçá de proveniência alienígena, que ande de redacção em redacção a entreter-se em derribar, de forma sádica e paulatina, as mentes mais preclaras da crítica?

PPPS – 2,449 (é só fazer as contas).

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Um dos melhores romances dos últimos tempos…

…adaptado ao cinema por uma dupla com um passado cinematográfico arrepiantemente inútil e vazio: Romanek & Garland. Sobre este temor pré-visionamento ler o aqui escrevi há mais de dois meses, quando recebi a notícia da pós-produção do filme que se avizinha. Pobre Ishiguro
Tal como referi em 29 de Maio último, na minha memória ainda perduram os malefícios com que, por falta de engenho, a dupla Wright & Hampton ensombrou, sem reparação possível, o meu segundo romance dos últimos tempos: refiro-me, é claro, ao filme Expiação (Atonement, 2007), baseado na obra-prima homónima de 2001 do excelso Ian McEwan.
Resta esperar para ver. Não há outro remédio. Ou então, até à data da sua estreia em Portugal (ainda não marcada), tentar iniciar um exercício de exorcização dos fantasmas de catalogação apriorística – Max von Sydow deixa de jogar xadrez com a morte, desembaraça-te da armadura e veste os paramentos…
No elenco: Keira Knightley, Carey Mulligan, Andrew Garfield, Charlotte Rampling e Sally Hawkins.
Eis o primeiro vídeo de apresentação de Nunca Me Deixes (Never Let Me Go, 2010):

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Mais próximos

As boas notícias e as incógnitas do meio editorial português.
Imune à crítica do crítico vingador de Flaubert – quem lhe terá passado semelhante procuração? Ao homem do discurso indirecto livre, casado com uma romancista sofrível, e tal vez sofredora, e que vê a ficção como a pianola de Gaddis ou o multiusos pianocktail de Vian, cristalizada no século XIX –, Auster prossegue e prepara-se para ver publicado o seu 14.º romance desde que iniciou a carreira no campo da ficção em 1985, com a publicação da novela Cidade de Vidro (City of Glass), mais tarde integrada na sua, até hoje, obra mais admirada e objecto de culto, A Trilogia de Nova Iorque (The New York Trilogy, 1987), o seu primeiro romance, constituído por três partes interligadas de acordo com o seu leitmotiv. Eis que em breve chegará Sunset Park, cujo primeiro parágrafo aqui reproduzo, devidamente traduzido:


«Faz quase um ano que ele começou a tirar fotografias de objectos abandonados. Há pelo menos dois serviços por dia, por vezes chegam a seis ou sete, e de cada vez que ele e os seus colegas entram noutra casa, são confrontados pelas coisas, inúmeros objectos usados deixados para trás pelas famílias que partiram. Todas as pessoas ausentes fugiram à pressa, com vergonha, confusas, e é certo que, qualquer que seja o sítio em que agora vivam (se é que encontraram outro lugar para viver e não estão acampadas nas ruas) as suas novas residências são mais pequenas que as casas que perderam. Cada casa é uma história de fracasso – de bancarrota e de incumprimento, de dívidas e de hipotecas executadas – e ele resolveu assumir as responsabilidades deste emprego para documentar os últimos, os vestígios remanescentes daquelas vidas dissipadas para provar que, em tempos, as famílias desaparecidas aqui estiveram, que os fantasmas de pessoas que ele nunca verá e jamais conhecerá, continuam presentes nos objectos sem préstimo espalhados pelas suas casas vazias.»
Paul Auster, Sunset Park, p. 3 [excerto de obra a publicar em Novembro próximo pela Henry Holt no mercado norte-americano; 320 pp. – tradução livre: AMC, 2010]
Notas e questões (do mercado editorial):
1 – Tal como aconteceu com Invisível (Invisible, 2009) e segundo os editores nacionais do escritor originário de Newark, que gosta de ser reconhecido como um filho de Brooklyn, a Asa lançará a obra no mercado livreiro nacional no mesmo dia em que esta estrear nos Estados Unidos.
2 – Prometida para publicação em Setembro em Portugal, está finalmente o magistral romance As Aventuras de Augie March (The Adventures of Augie March, 1953), considerado por muitos dos seus mais fervorosos leitores como a obra-prima do autor norte-americano, nascido no Canadá no Dia de Portugal, Saul Bellow (1915-2005), Prémio Nobel da Literatura em 1976 – trata-se do seu 3.º romance. O anúncio foi feito pelo seu editor, Francisco José Viegas, no seu blogue A Origem das Espécies, e terá, como é óbvio, a chancela da brilhantemente renovada Quetzal.
3 – Para além da referida obra de Bellow, até hoje inédita em Portugal, a Quetzal irá publicar de uma só assentada o primeiro romance da já longa carreira literária de Martin Amis, inacreditavelmente ainda virgem na aridez do solo literário português, O Diário de Raquel (The Rachel Papers, 1973); e, pela primeira vez, um ensaio de escritor, polemista, jornalista e eminente blogger Andrew Sullivan, A Alma Conservadora (The Conservative Soul, 2006).
4 – Para finalizar, uma singela pergunta por quem se interessa por estas coisas aborrecidas, como ler: será que a Dom Quixote, desde que passou para o grupo LeYa, para além de muitos outros, se esqueceu de Philip Roth? Para quando a edição de The Humbling (2009) e/ou de Nemesis (2010)? Suponho que ainda detêm os direitos autorais de Roth.

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Gaddis

Uma notável recensão. Acabei de a ler há poucos minutos. Não sei se foi ou não foi hoje publicada na edição impressa da Ípsilon – para o caso não interessa, está acessível na rede –, e se a menciono com atraso, isso não lhe retira a pertinência e nem prejudica o propósito destas curtas linhas que aqui pretendo deixar. O texto crítico a que me refiro é de João Bonifácio que discorre, de forma admirável, sobre o mais recente romance publicado pela venerável editora portuense Ahab: Ágape, Agonia (Agapē Agape), quinta e última obra de ficção do escritor norte-americano William Gaddis (1922-1998), terminada no ano da sua morte, mas apenas publicada em 2002.
No quarto parágrafo, Bonifácio, crítico temerário, escreveu uma asserção susceptível de causar algum estrépito na turba dos ungidos pelos literários óleos da lusa mediocridade, decerto com consequências sísmicas nas suas infelizes doxologias, embora JB, muito longe de ser um novato ou crítico inexperiente, haja feito a devida ressalva – não vá o diabo tecê-las e garantir-lhe o enxofre pestilento de mais uma polémica estéril e morrinhenta (adjectivo meteorológico):
«Se nos é permitida a insolência, não nos recordamos de melhor primeiro capítulo que o de abertura de “Carpenter’s Gothic”».
Não foi necessário fazer um grande esforço de memória para me recordar desse capítulo e dos parágrafos que o delimitam; recordação que me fez despertar uma saudade que me irá levar a uma releitura muito em breve. Lembrei-me de um pássaro, o deus ex machina surpreendentemente deslocado para o início da narrativa, mas que deambula estropiado, alma penada num círculo borgiano, ao longo das entrecruzadas e alienadas conversas telefónicas. É um simples e genial desvario literário, que começa assim:
«O pássaro – um pombo-correio ou uma pomba brava? (ela sabia que havia pombos por ali) – esvoaçou pelos ares, sem cor definida, no crepúsculo. Aquilo que ela confundiu inicialmente com um trapo velho bateu as asas na cara do mais novo dos rapazes, que sacudiu a lama da face atingida, agarrou o pássaro e atirou-o para um dos amigos. Este improvisou um bastão com um ramo e divertiu-se a atirá-lo ao ar até ficar pendurado na copa de uma árvore. Depois abanou-a e o pássaro caiu por entre um turbilhão de folhas numa poça de água formada pela chuva da noite anterior. Voltou a agarrá-lo e prosseguiu a sua brincadeira cruel. Parecia um volante de badmington, cujas penas caíam a cada pancada do bastão, até que por fim chocou contra uma placa amarela que assinalava um beco, na esquina da casa onde as crianças costumavam brincar àquela hora do dia.
»Quando o telefone tocou, já ela se tinha afastado e tentava refazer-se do que acabava de presenciar.»
William Gaddis, Gótico Americano, p. 5 [Lisboa: Difusão Cultural, Fevereiro de 1991, 270 pp; tradução de Muriel Alves Brazil; obra original: Carpenter’s Gothic, 1985]
Fante, Stuparich, Solstad, Sherwood Anderson e agora Gaddis, com promessa de reedição da obra atrás referida Carpenter’s Gothic – embora pedisse, egoisticamente, uma troca por pelo menos um dos calhamaços The Recognitions (1955), com quase mil páginas na versão original, ou J R (1975), com mais de setecentas – assim se vai fazendo a Ahab.
Numa época em que o meio editorial português no campo da ficção e da poesia se concentra em três grupos (LeYa, Babel e Porto Editora), há umas pequenas ilhas onde ainda prolifera a qualidade literária e que, acima de tudo, nos garantem a diversidade. A Ahab é a mais recente nesse arquipélago, onde com critério e obstinação vai combatendo os monstros neptuninos informes que foram engordando à custa do filistinismo tão curial à época do lixo metamorfoseado em caracteres impressos em livro ou em bytes numa consola de livros digitais.

quinta-feira, 29 de julho de 2010

Aquela cabeça…

Contava-se frequentemente entre o meu grupo restrito de amigos que emergiu da turba profissional, e como forma de incutir a boa disposição quase automática entre os presentes, uma história recente – que agora já tem bem mais de uma década – produzida por uma visita ministerial ao nosso local de trabalho, em que, como seria de esperar, tanto pelo cumprimento do protocolo, como pela incrustada prática académica do fazer-se notar, todo o directório dos ungidos pela cátedra se uniu ao seu séquito. A dada altura, o Ministro, em plena sala de convívio, entre hors d’œuvre e copos de plástico agradecidamente abastecidos a champanhe – once in a lifetime, diriam uns para os outros, para destoar do linguajar de soberba dos aperitivos –, interpelou um circunstante (membro do nosso círculo restrito) sobre se aquela figura de cabelos brancos, que se ria entre rissóis de camarão e guardanapos de papel, era a pessoa que ele, Ministro, pensava tratar-se. Perante a resposta afirmativa, declarou, em primeiro lugar, que estava impressionado pelo impecável estado de conservação da criatura, para, logo de seguida, pormenorizar a sua relação que evoluiu de aluno/professor para a de colegas de profissão, terminando com a frase: «Um homem inteligentíssimo e com uma cultura bem acima da média, todavia sempre preferiu a sinuosidade do caminho alternativo à recta para chegar do ponto A ao ponto B», a que acrescentou, despedindo simultaneamente o interlocutor de ocasião: «Ah, aquela cabeça…»
Como testemunha ocular, e dada a envolvente da história, posso assegurar sem necessidade de contraprova, a tal “cabeça” não era a de Christopher Nolan, até porque tem menos quarenta anos de bombardeamentos sinápticos e trabalha para o reconhecimento de outras academias.
É isso mesmo, não é necessário um enorme esforço de concentração, em poucas linhas confessei que já me foi dada a oportunidade de ver o filme de que todos falam na actualidade: A Origem (Inception, 2010) do realizador britânico (n. 1970) Christopher Nolan.
Nolan, apesar da ainda jovem idade, já nos obsequiou com sete longas-metragens, entre as quais vi, claramente vistas, quatro: Memento (2000), Insomnia (2002), O Cavaleiro das Trevas (The Dark Knight, 2008), e este último que atrás referi; desconfio se realmente vi Batman – O Início (Batman Begins, 2005), dada a profusão de filmes, actores e realizadores que, respectivamente, versaram, encarnaram e dirigiram o morcego moralista de Gotham; não vi os restantes dois, entre eles o muito aplaudido O Terceiro Passo (The Prestige, 2006).
Em A Origem, há uma frase lapidar que nos foi sendo bombardeada nos três ou quatros trailers que há quase seis meses foram sendo criteriosamente projectados nas salas de cinema:
«Qual é o parasita mais resiliente? Uma ideia. Uma simples ideia provinda da mente humana pode construir cidades. Uma ideia pode transformar o mundo e reescrever todas as regras. E é por isso que tenho de a roubar.» [tradução: AMC]
Uma ideia. Injecção de sonhos. Arquitectura de realidades alternativas. Imaginação em socalcos. Resultado: muita parra e pouca uva.
Há uma frase que retirei de um dos livros que neste momento vou desbravando – neste caso em particular com algum deleite pelo desafio intelectual, num momento em que necessito mais do que nunca da leveza espiritual de uma sitcom para confortar a minha mente em efervescência –, que, apesar da complexidade temática, da exigência de reflexão absoluta e de tudo o que foi dito em páginas anteriores da obra que a explicita e circunstancia, caracteriza bem os nossos tempos: «Irrito, logo existo.» (cf. Peter Sloterdijk, Cólera e Tempo, ed. Relógio D’Água, 2010). E Nolan levou-me à exasperação pela tortuosidade obesa de ideias, que mais não é que uma carapaça espaventosa e arraialesca vazia de conteúdo. A Origem, é uma peça meta-fílmica composta em duas horas e meia, que de facto poderia ser traduzida por “documentário de uma ideia” (jamais por obra de arte cinematográfica), como se tratasse de uma prelecção de filosofia do cinema. Aliás, o tom eminentemente preleccionista do filme resultou, porventura, de uma consciencialização de Nolan pela impotência imagética em contar a história, por mais ou menos arabescos visuais e sonoros que introduzisse; muito embora se possa ter apercebido de que o isco de apelo às massas estivesse no ponto certo para mais um retumbante êxito comercial – estava certo, a frieza dos números não o desmente; a horda de admiradores medrou que até dá gosto.
Na minha humilíssima opinião de aficionado da coisa fílmica, Nolan poderia ter aprendido com o ainda recente fenómeno de ascensão e queda em três actos dos manos Wachowski, por um lado, em como se constrói uma história na intrincada dialéctica ficção tecnológica/metaficção, sintetizada no sucesso quase unânime de Matrix (1999), como, por outro, nos desastres subsequentes pelo vazio narrativo de The Matrix Reloaded e The Matrix Revolutions (ambos de 2003). Depois, apesar dos milhões arrecadados, mediante a lembrança de um aforismo ultra-universal de que “o dinheiro não traz a felicidade”, aconselha-se, para a sua saúde psíquica, que o jovem Christopher deixe repousar aquela mente que vai sendo estorcegada pela popularidade filistina do espalhafato, e que caminha em progressão geométrica para o paroxismo do nebuloso e hermético, e não para a, decerto pretendida, abstracção, obviamente admissível sob o ponto de vista estético.
Em suma, a auto-assunção da genialidade, tem estes efeitos colaterais. Neste momento, apenas subjaz a questão: O que se seguirá? Mais um projecto sobre o famoso rato alado. E quem, desta feita, será o cordeiro sacrificial? “Ah, aquela cabeça…”
PS – Peço as minhas mais sinceras desculpas pela forma brusca como terminei o texto, a cheirar a incompletude de argumentos que reforcem a minha opinião sobre o filme, mas vou ver se o meu pião, que ainda há pouco rodava lá fora sobre uma mesa de pinho pacense, continua a girar… É mesmo importante que o faça… agora.