sábado, 2 de outubro de 2010

Mestre Fincher

Texto curto. Não vou falar da ansiedade doentia que me costuma assaltar nas imediações da projecção de um novo filme do meu realizador, na minha fanática maneira de ver e entender a coisa fílmica, o melhor cineasta da actualidade, e também o mais fleumático, íntegro e recatado – parece quase um contra-senso na era da pimbalhada arraialeira dos efeitos visuais (com ou sem 3D), sonoros e promocionais.
Estreou hoje [ontem] nos Estados Unidos – A Rede Social (The Social Network) – e conseguiu o quase impensável perante o manifestamente ininteligível zeitgeist contemporâneo: a unanimidade encomiástica dos críticos mais reputados do outro lado do Atlântico.
Para se ficar só com uma ideia do que acabo de escrever, é raríssimo ver estes 15 nomes (todos ligados a reputadas publicações) a convergir na opinião sobre o mesmo filme no exercício da crítica cinematográfica (ligação àqueles cujas críticas tenho mais em consideração, faltam A.O. Scott e Nathan Lane, por duplicação nas respectivas publicações): Roger Ebert (Chicago-Sun Times), Manohla Dargis (The New York Times), David Denby (The New Yorker), Andrew O’Hehir (Salon), J. Hoberman (Village Voice), Mark Harris (New York Magazine), Peter Howell (Toronto Star), Todd McCarthy (indieWIRE), Dana Stevens (Slate), Bob Mondello (National Public Radio), Mick LaSalle (San Francisco Chronicle), Joe Morgenstern (Wall Street Journal), Christopher Orr (The Atlantic), Richard Corliss (Time Magazine) e o truculento Peter Travers (Rolling Stone).
A primeira e, pelos vistos, frutuosa união Fincher & Sorkin chega cá no próximo dia 4 de Novembro, e tenho uma forte suspeita de que, por terras do primeiro-ministro filósofo (só mesmo de nome, porque de resto é redondo como um ovo, não tem ponta por onde se lhe pegue – acabei de plagiar VPV sobre Durão Barroso, muito antes de este último dispor do mínimo indício de que mais tarde iria assumir o grande tacho europeu), onde predominam as mentes preclaras, levará no mínimo com uma bola preta… Há quem culpe o realizador de Denver por haver realizado alguns telediscos, uma mácula jamais expurgável na carreira de um cineasta.

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

As pulsões de Augie March

Bellow, Saul Bellow, não me canso de repetir nestas páginas que ninguém lê, a minha intensa, por vezes pungente, admiração por este artesão da palavra que, em 1976, recebeu da Academia Sueca o Prémio Nobel da Literatura e, segundo confessam as fontes subterrâneas que vogam acima das ratazanas da Academia – e permitam-me esta inversão metafórica de papéis no teatro social, justificada pela repugnância que tais seres me provocam a cada Outubro –, estava destinado ao para sempre injustiçado Borges, que, segundo o próprio, nasceu com a sina de nobelizado e morreu sem que tal distinção lhe fosse atribuída. Bellow poderia esperar, e não foi tão-pouco o prémio que o marcou como um gigante da literatura universal, atribuído já o judeu americano-cannuck era sexagenário, porquanto aquele já havia publicado as suas melhores obras – se exceptuarmos a sagração da Literatura materializada no romance Morrem Mais de Mágoa (More Die of Heartbreak), publicado onze anos após o Nobel.
Detenho-me em Augie e na irrepreensível tradução que Salvato Telles de Menezes fez para a Quetzal – corajosa editora que imprimiu três mil exemplares de uma obra-prima a que apenas, estou seguro, uma centena de pessoas neste país atribuirá algum valor –, e no momento em que o nosso “herói”, acompanhando Mrs. Renling, a sua patroa e pretensa mentora milionária da alta sociedade de Chicago, numa deslocação à estância de repouso de Benton Harbor, num hotel de luxo bordejando as margens do rio St. Joseph, no ponto em que águas deste se fundem com as do lago Michigan, se apaixona arrebatadamente pela intocável e inacessível Esther Fenchel, num convencimento de sucesso a não ser que a sua pátina de «credenciais forjadas» por um jogo de aparências abrisse uma brecha e deixasse ver o mundo de pobreza que se escondia por baixo:
«Eu trabalhava, com o coração nas mãos, em prol do maior êxito possível nestes limites, como um impostor. Passava horas preparando-me para ser uma petição viva. Por meio de uma concentração muda e de uma batalha para atrair as atenções. A única maneira que consegui conceber, na minha paixão pitoresca e carregada de sangue. Porém, da mesma forma que um prenúncio de praga pode ser sentido no vento brando que faz tremular bandeiras e na beleza de um porto – uma cena de paz activa e segura –, talvez pudesse, apesar de toda a minha aparência equilibrada de quem vive circunstâncias normais e tranquilas, ter passado o tom dos meus pensamentos pelo ar – na praia, no relvado enfeitado de flores, no grande espaço aberto da sala de jantar branca e dourada –, e estes pensamentos eram que poderia sujeitar-me a ser enforcado nos cabelos da rapariga – coisas desta ordem. Sonhava pesadamente com os lábios dela, com as mãos, seios, pernas, entre pernas. Ela não podia baixar-se para apanhar uma bola no campo de ténis – eu parado e hirto, com um foulard com cavalos castanhos sobre um fundo verde engenhosamente enfiado numa argola de madeira talhada à mão que Renling tornara popular nessa estação em Evanston –, não podia testemunhar isto, dizia eu, sem sentir uma pontada de amor e adoração nas minhas entranhas pela curva das suas ancas, a gloriosa forma virginal do seu traseiro, o seu macio e protegido segredo. Onde ser admitido com amor seria o endosso do mundo, de que não era a infecunda confusão que distantes temores secos sugeriam e sussurravam, mas necessário, justificado, a validade da justificação comprovada pelo júbilo. Que se aceitasse, aprovasse, beijasse, usasse as suas mãos em mim, me deixasse tocar no pó de barro do campo de ténis colado às suas pernas, o leve suor, a sujidade e o suor íntimos, livrar-me-ia do mal da falsidade – mostraria que não havia nada que fosse falso, ofensivo ou leviano que não pudesse ser corrigido!»
Saul Bellow, As Aventuras de Augie March, pp. 192-193. [Lisboa: Quetzal, Setembro de 2010, 712 pp; tradução de Salvato Telles de Menezes; obra original: The Adventures of Augie March, 1953.]
É Bellow no seu melhor. Um parágrafo inteiro de puro deleite e arrebatamento literário, em que uma palavra a mais ou a menos estragaria a obra de arte subsumida no bombardeamento de um feixe de sentimentos que perpassam pela mente pré-adulta de Augie.
Também a Literatura (assim grafada) tem os seus momentos em que a síndrome de Stendhal se pode manifestar através do cadinho dos seus sintomas pela arte etérea que alguns dos seus artesãos apõem aos seus escritos: a perfeição, craftsmanship (perde toda a sua potência na tradução).
Por fim, a recusa e o vórtice que transforma as pulsões num buraco negro aglutinador da esperança: «O sangue fugiu-me da cabeça, do pescoço, dos ombros, e desmaiei pura e simplesmente.» (pág. 197)

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

PEN/Saul Bellow Award 2010

Merecido este prémio de carreira na ficção americana atribuído, na minha humilde opinião, ao melhor escritor da actualidade, Don DeLillo, curiosamente enquanto me vou deleitando com a leitura de As Aventuras de Augie March (The Adventures of Augie March), numa excelente edição da Quetzal, escrito em 1953 pelo excelso autor que deu o nome à distinção.
DeLillo, de ascendência italiana, nasceu no distrito do Bronx, na sua Nova Iorque, a 20 de Novembro de 1936: Submundo (Underworld, 1997; ed. port. Sextante), Ruído Branco (White Noise, 1985; ed. port. Presença / Sextante), Os Nomes (The Names, 1982; ed. port. Relógio D’Água), Mao II (1991; ed. port. Relógio D’Água), Libra (1988; ed. port. Presença) ou Cosmópolis (Cosmopolis, 2003; ed. port. Relógio D’Água) já mereciam esta distinção (romances ordenados de acordo com a minha preferência, deixando três de fora que já tive a oportunidade de ler, mas que conjugam mal com os acima referidos, pelo menor brilho – por ler, remanescem seis de um total de 16 romances já publicados pelo autor galardoado, os cinco primeiros da sua carreira, a que se junta o de Cleo Birdwell, não entrando em linha de conta com Point Omega, o seu último, publicado este ano e a ser editado nos próximos meses em Portugal).
Três dos quatro melhores romancistas norte-americanos contemporâneos vivos, seguindo as palavras proferidas num artigo de opinião de 2003 pelo erudito de Harvard, Harold Bloom (Philip Roth em 2007, Cormac McCarthy em 2009 e agora Don DeLillo), já receberam o prémio, neste momento fica em falta a sua atribuição a Thomas Pynchon, para se fazer o pleno dos “4 Grandes”, com o patrocínio do pai Bellow, o melhor deles todos.
Parabéns de um admirador portuense.

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Tran Anh Hung

O seu nome assemelha-se a uma onomatopeia retirada das páginas coloridas de uma fantasia gráfica maniqueísta da DC Comics ou da Marvel; porém, no mundo mais restrito da cinefilia, onde remanescem alguns estouvados que insistem em despender alguns dos seus parcos recursos para conseguirem obter o acesso a cinematografias alternativas de forma a proporcionar o enchimento estético da retina, aquela onomatopeia aliterante há muito que vai servindo para identificar um notável realizador vietnamita, quase desconhecido do público português pela imperiosas leis do nosso mercado, oligarca por definição, tanto no circuito da distribuição e da exibição cinematográficas, como no mercado de DVD.
Nascido em 1962 na tristemente célebre cidade de Da Nang, o jovem futuro cineasta viveu a sua infância em Saigão (hoje Ho Chi Minh). Em 1975, fugia com a sua família para França após a queda de Saigão sob o domínio dos norte-vietnamitas e perante o inevitável colapso e retirada das tropas americanas das terras meridionais da Indochina, encurraladas a oeste pelos khmers vermelhos cambojanos. Hoje, aquele rapaz que nasceu sob o estridor das bombas, dos gritos de martírio de uma população dizimada e o “cheiro a napalm pela manhã” (ou odor?), é um cidadão francês de pleno direito e um dos mais ilustres realizadores da inimitável indústria asiática de cinema.
Em Portugal, Tran Ahn Hung é sobretudo conhecido pelo seu maravilhoso filme de estreia, O Odor da Papaia Verde (Mùi du du xanh, 1993), que lhe valeu a nomeação para o Óscar para Melhor Filme Estrangeiro em 1994 (perdê-lo-ia para o mediano Belle Epoque do realizador espanhol Fernando Trueba) e que antes lhe havia permitido a saída do quase anonimato – embora já tivesse dado que falar com as suas duas curtas-metragens anteriores – ao vencer o Caméra d’Or no Festival de Cannes de 1993 – júri nesse ano presidido pela actriz Micheline Presle, a volúvel “Marthe Grangier” de Radiguet levado à grande tela pelo infame Claude Autant-Lara.
De lá para cá, Tran Ahn Hung realizou dois filmes notáveis: Cyclo (Xich lo, 1995) e “Em Pleno Verão” (título possível em português; Mua he chieu thang dung / À la verticale de l'été, 2000); o primeiro com projecção limitada no nosso país, o segundo nem sequer viu a luz da projecção em solo luso – valha-me o mercado espanhol que permitiu aprofundar a minha admiração pelo notável esteta asiático. Com o assombroso e brutal Cyclo, o realizador franco-vietnamita conquistou o Leão de Ouro no Festival de Cinema de Veneza em 1995 (Bienal de Veneza) – curiosamente, como é demais conhecido, um evento anual quase desde a sua fundação em 1932 – derrotando, entre outros, o nosso João César Monteiro, o recentemente falecido Claude Chabrol, Ettore Scola, Spike Lee ou Hirokazu Koreeda.
Em 2008, o cineasta asiático aventura-se no domínio do inglês, com uma produção multinacional (britânica, chinesa, espanhola, francesa e irlandesa), e cria I Come with the Rain (“Venho com a Chuva”, tradução possível para a nossa língua), tendo por protagonista o sex symbol norte-americano Josh Hartnett (que o interpretou ainda embalado pelo reconhecimento público do personagem-tipo em A Dália Negra de Brian De Palma) e a jovem estrela da televisão japonesa Takuya Kimura. Trata-se da 4.ª longa-metragem do autor vietnamita, cuja cópia se dissipou, misteriosamente, no éter dos circuitos comercial e independente de cinema, com estreias modestas no Extremo Oriente, estando apenas disponível no lado ocidental por vias esconsas e pouco recomendáveis em nome do cumprimento da lei. Há quem assegure que foi o próprio Tran Ahn Hung que procurou esse fim face à implacável rasoira de alguns sectores importantes da crítica internacional, apesar de terem surgido outras bastante positivas, as más foram suficientemente arrasadoras, e logo para a obra que marcou o regresso do cineasta ao grande ecrã após oito anos de ausência – se houver oportunidade, direi de minha justiça sobre este filme em que nos assomam sentimentos de amor e ódio quase simultâneos.
Uma curiosidade: todos os filmes contam com a presença da actriz vietnamita Yenkhe Tran Nu (n. 1968), assume o papel de mulher do realizador no mundo fora da tela: bela, de uma transcendência exótica difícil de definir com o seu sorriso enigmático de Mona Lisa, de gestos dóceis, lentos e de uma perfeição estudada, porém graciosa e profunda, de um equilíbrio oriental nos momentos mais frementes e buliçosos.
O que é Tran Ahn Hung?
Imagens fortes, com toda a carga polissémica do qualificativo: verdes deslumbrantes – a natureza húmida do Vietname; a iridescência bruxuleante e voluptuosa da gastronomia oriental; o suor endémico que escorre por aquela pele de tez acobreada, entre o ébano da Índia e o ebúrneo envelhecido da China. Movimentos de câmara enleantes e claustrofóbicos, como se os nossos olhos deambulassem por um mural gigantesco, incapaz de ser captado na sua plenitude pela insolúvel finitude espacial congénita do nosso campo visual – uma sensação de confinamento, que Tran Ahn Hung solta com mestria nos momentos adequados, mostrando-nos o pormenor que não nos poderia escapar. Os silêncios que nunca são mudos, sempre matizados pelos sons da fauna local – o chilreio dos pássaros exóticos, o sibilar dos répteis, o coaxar das rãs, o barulho ininterrupto dos mais espantosos insectos –, ou pelo bulício de uma metrópole babélica, como em Cyclo – o marralhar dos comerciantes, os escapes estridentes das motocicletas, a chiadeira dos travões dos táxis, o gotejar do desespero na solidão do lar degradado: a humidade, as lágrimas, o suor e o sangue. A banda sonora que irrompe mansamente para depois desaparecer de forma abrupta, regressamos ao silêncio, como alerta simbólico para o brotar de uma mensagem forte, que tem de ser retida, pode tratar-se de um desenlace perturbador – como com “Creep” dos Radiohead em Cyclo – ou das entrelinhas de uma emoção inconfessável, o despertar para um tabu pronto a ser quebrado – como com “Pale Blue Eyes” ou “Coney Island Baby” dos Velvet Underground e Lou Reed, no filme “Em Pleno Verão” – ou a paixão ardente, porém inocente, paciente, feita de uma longa espera mas pronta a eclodir, a derrubar os muros das convenções e estratos sociais – o 3.º andamento da Suite Bergamasque de DebussyClair de Lune”, ou o arrebatamento dos dois últimos prelúdios para piano de Chopin, em O Odor da Papaia Verde. A violência gráfica de “Venho com a Chuva” atinge os seus momentos culminantes com três faixas dos Radiohead, todas retiradas de álbuns diferentes: “Nude” (In Rainbows, 2007); “Climbing Up the Walls” (OK Computer, 1997); e “Bullet Proof..I Wish I Was” (The Bends, 1995).
E agora vem aí Jonny Greenwood com Murakami e os seus Beatles
[Na imagem: “Lien” (a irmã mais nova) por Yenkhe Tran Nu e “Hai” (o irmão) pelo actor Ngo Quang Hai, dançando ao som de “Coney Island Baby” de Lou Reed, em Mua he chieu thang dung – À la verticale de l'été, 2000.]
--- Fim da parte I (a parte II, a razão de ser deste texto, para quando houver tempo) ---

sábado, 25 de setembro de 2010

Náuseas Imperiais

Lisboetizando-me, trata-se daquelas carregadas de cevada, a cheirar a fermentação e a um insistente processo de levedação, alcoolicamente proibitivas, denunciadas pelo cheiro a benzina, pela dor de cabeça latejante e o inevitável vómito biliar que se nos apresenta de forma eruptiva no dia seguinte.
É assim o último romance do chavalo BEE da cidade dos anjos que resolveu repescar o seu sucesso de há 25 anos e escrever no mesmo estilo incipiente e cadavérico, perdoável, e até honorável, num jovem de vinte anos que se atirou de cabeça no mundo literário para contar as suas vacuidades burgueso-criminosas sob a forma de pseudónimos e sexos trocados, todavia inadmissível num jovem de 46 anos que não aprendeu a lidar com os seus traumas.
Mas se a história é deploravelmente enjoativa, a sua tradução para a nossa língua é repulsiva. Não há página, entre as 177, com letra de tamanho 12 e espaço e meio entre linhas, que não tenha o seu erro de palmatória em língua portuguesa. É o advérbio “demais” usado e abusado quando se pretende referir o excesso de alguma coisa; é o verbo “haver”, impessoal na sua acepção de “existir”, apresentando nesta situação formas verbais em todas as pessoas do singular ao plural; é a inconsistência no uso do “porque” e do “por que”, já de si uma fonte de polémica entre linguistas nacionais; é a terceira pessoa do presente do indicativo do verbo “vir” – “vêm” – substituída, quiçá por problema oftalmológico do tradutor, por “vêem”; são às dezenas as passagens de discurso directo ao indirecto que estão por assinalar devidamente pelo escolhido travessão, ou então, são incontáveis as vezes em que os diálogos são todos processados num só parágrafo, numa orgia gráfica entre “vírgulas”, “pontos finais” e “travessões” que fariam corar o José Castelo Branco, até pela terceira via de “género”; e, parafraseando este último, até é fino que apareça “New York” ao invés da forma portuguesa da Grande Maçã, “Nova Iorque”; mas depois vem o “112” em vez do “911”, o que é admissível, no entanto incoerente, e mesmo aviltante, quando se traduz a referência do narrador na página 114 que esteve “à porta do ER em Cedars-Sinai” (pág. 114) – o “ER” são as “urgências” e o “Cedars-Sinai” o famosíssimo hospital-universidade de Los Angeles, e não uma sala VIP de um clube nocturno exclusivo de Hollywood.
Um Nausef. E pronto. Acabei de tomar um antiemético muito conhecido sem nada receber por isso, nem uma viagem a um importante congresso à República Dominicana.
Referência bibliográfica
Bret Easton Ellis, Quartos Imperiais. Lisboa: Teorema, Agosto de 2010, 177 pp. Tradução de José Luís Luna, com revisão de José Costa; obra original: Imperial Bedrooms, 2010.

sábado, 18 de setembro de 2010

Círculo Vicioso Infernal

Ouvir em continuous playAfraid of Everyone”, repetindo para mim mesmo, como uma decisão irrevogável, I’ll defend my family with my orange umbrella (e sobrevém-me em pensamento uma irritação pela estupidez nacional: weary of the punctured and rotten pink one).

domingo, 12 de setembro de 2010

Claude

Claude Chabrol
(24 de Junho de 1930 – 12 de Setembro de 2010)
É o segundo a partir este ano, e do grupo de cinco, já só restam dois, os “jotas”: Jacques e Jean-Luc. Claude Chabrol morreu hoje na sua Paris natal.
Conjuntamente com François Truffaut (1932-1984), Eric Rohmer (1920-2010), Jean-Luc Godard (n. 1930) e Jacques Rivette (n. 1928), Chabrol foi um dos pais fundadores do denominado movimento do cinema francês da “Nouvelle Vague”, cuja semente provém da revista Cahiers du Cinéma, onde o quinteto, fomentado pelo seu fundador André Bazin, escrevia artigos de crítica, e cujas arte, visão e estética se materializariam em centenas de filmes que, a partir do final da década de 50 do século passado, marcaram em definitivo o rumo do cinema francês e europeu, com fortes repercussões do outro lado do Atlântico.
Deste grupo, Chabrol foi o seu elemento mais prolífico começando com o notável Um Vinho Difícil (Le beau Serge, 1958) e terminando com Bellamy (2009) – com promessas de estreia em Portugal nunca concretizadas.
Não escondo, e nunca escondi, a minha predilecção por Rohmer e por Chabrol, apesar de a reverência ao Mestre Godard ser unânime no mundo da intelectualidade, de a marca de originalidade ser normalmente atribuída a Rivette e das superioridades técnica e estética usualmente apontadas a Truffaut. Chabrol, para além do mais produtivo, era também o mais comercial – ou mainstream, como alguns gostam de chamar – de entre os cinco: o Hitchcock de Paris.
Muito poderia, aqui e agora, destacar do excelso parisiense que hoje partiu – embora nos tenha deixado altruisticamente a sua arte para ser contemplada –, são incontáveis os filmes que dele apreciei e reapreciei com deleite, mas irei apenas destacar o último original da sua filmografia que pude ver (o seu penúltimo), e por este ter sido quase negligenciado pela crítica: o excepcionalmente belo e desesperante A Rapariga Cortada em Dois (La fille coupée en deux, 2007) com a bela, sensual e lúbrica Ludivine Sagnier e o meu mui estimado François Berléand (onde já não apareceu a sua musa Isabelle Huppert):

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Carey para o “Tri”

Hoje, à hora do almoço, Andrew Motion, presidente do júri do Booker Prize 2010, anunciou a habitual lista dos seis romances finalistas, candidatos a receber o mais prestigiado galardão a premiar uma obra de ficção de língua inglesa publicada originalmente na Commonwealth ou na Irlanda.
Peter Carey consta da lista, curiosamente com o único romance de entre os restantes finalistas que até agora teve o privilégio de ser editado em Portugal (Gradiva), Parrot e Olivier na América (Parrot and Olivier in America), um pretendente a calhamaço com quase quinhentas páginas; uma comédia, por vezes picaresca, sob um pano do fundo dramático e sério da liberdade e da democracia na América, que retrata as relações entre Alexis de Tocqueville e um seu criado.
Eis a lista completa de finalistas, retirados do “Booker’s Dozen” anunciado em finais de Julho:
  • Peter Carey, Parrot e Olivier na América (ed. port. Gradiva; Parrot and Olivier in America)
  • Emma Donoghue, Room
  • Damon Galgut, In a Strange Room
  • Howard Jacobson, The Finkler Question
  • Andrea Levy, The Long Song
  • Tom McCarthy, C
Fazendo fé nos prognósticos da opinião literária publicada, Carey – escritor australiano, radicado nos Estados Unidos –, prepara-se para ser o primeiro romancista a alcançar o “TriBooker” (expressão obviamente minha), ou seja, a vencer o Booker Prize por três vezes (ler aqui para mais informação), desde a sua instituição em 1969. O único escritor que estaria nessas condições seria o Nobel da Literatura de 2003, o escritor sul-africano, radicado na Austrália, J.M. Coetzee, que venceu o dito prémio em 1983 e 1999.
E assim vão as glórias do mundo, eu, um luso radicado na lusitana imundície, com longas e felizes escapadelas por outros reinos da Ibéria, que até nem aprecia muito o autor australiano, não poderia deixar de manifestar a minha raiva – vá lá, comedida, já que se trata apenas de um prémio, e um bom leitor ou entendido do assunto literário jamais deverá render-se a essa coisa kitsch de prémios, meras sinecuras diletantes – pela não presença, nem sequer na dúzia de frade anterior de dois excelentes romances ingleses publicados este ano: Solar de Ian McEwan e A Viúva Grávida (The Pregnant Widow) de Martin Amis.
Há quem diga, usando a técnica futebolística de caracterização dos fenómenos, sejam eles de que índole for, é apenas o Booker in Motion.

sábado, 28 de agosto de 2010

Presente ou prenda?

Presente de Morte foi o título escolhido em Portugal para apresentar a última diabrura devaneante do menino-prodígio norte-americano Richard Kelly (n. 1971) que, com vinte e nove anos, assustou meio mundo, assim como o jovem púbere Donnie Darko (Jake Gyllenhaal) com um coelho psicadélico ectoplasmático e marcadamente apocalíptico.
The Box, ou A Caixa, é o seu título original, tal como original – podem substituir o adjectivo por heteróclito – foi a designação seleccionada para o circuito comercial português, que decerto teve o cunho da cerebral e erudita Cinha Jardim que tem horror a “prenda” para denominar uma “oferenda”, embora neste último caso a palavra tenha uma conotação mais bíblica e por isso mais próxima do bafio confessional que marcou o homem, por ela reverenciado, originário do Vimieiro, Santa Comba Dão, Viseu, que governou o país entre 1932 e 1968, e daí o seu uso poder ser interpretado como uma dupla heresia.
Saindo do mundo intelectual onde se cultiva o cinhismo, desta feita Kelly adaptou ao grande ecrã um conto, “Button, Button”, do autor prolixo de ficção científica Richard Matheson – publicado pela primeira vez na revista Playboy na edição de Junho de 1970, tendo como playmate nas icónicas centerfold Elaine Morton (julgo ser assaz relevante ter aposto neste texto esta nota, assim como a sua hiperligação de pendor biográfico).
O Coelho (esqueçam-se da minha deambulação pelo mundo das coelhinhas) transformou-se num homem enigmático, grotesco e cauterizado de nome Arlington Steward (Frank Langella, que substituiu à última hora Sandro Correia, uma vítima de outros raios, mais pneumáticos), e Donnie no casal Lewis (interpretado por Cameron Diaz e James Marsden), e mais uma vez, e de forma engenhosa, o sobrenatural se transubstancia num pano de fundo moral, cujas ganância e volúpia do materialismo sobressaem como teste de resistência à integridade humana. Estávamos na época de Gerald Ford, em plena efervescência da conquista do planeta vermelho e do lançamento da sonda espacial Viking 1.
Neste momento, e decorridas quase vinte e quatro horas da sua projecção perante estes meus olhos que muito já devoraram de arte cinematográfica, o filme subsiste no terrível limbo dos OFNI (Objecto Fílmico Não Identificado). Está, por enquanto, bastante longe do prazer que retirei do assombroso Donnie Darko (2001), embora perdure na minha mente um gérmen ambivalente e paroxísmico, pronto a eclodir, como um raio chamuscador que rasga os céus rumo a terra firme, numa aversão desmesurada ou numa afeição arrebatada; como até pode por lá permanecer (porventura acomodado num vácuo que por ora soberbamente desconheço) e definhar por inanição e indiferença.
Derrogando, com imenso prazer, o cinhismo balofo: que rica prenda Kelly nos deixou, manifestamente ignorada pelo mundo contemporâneo da cinefilia.

sábado, 21 de agosto de 2010

Wimmer e desejei-me

E mais trocadilhos poderiam ser usados para qualificar o argumentista de um dos piores filmes do ano, que entrou directamente para a minha lista da vulgaridade, em que por lá já figurava, sem passar pelo purgatório – deambula sem remissão por um dos círculos do inferno –, o filme musculado, aquela coisa informe, inverosímil mas sem arte, intelectualmente ronceiro e visualmente boçal como Um Cidadão Exemplar (Law Abiding Citizen, 2009) do aliterante F. Gary Gray. E se no início do parágrafo ensaiei a hipótese de se gerar uma punning machine – em estrangeiro alinda-se o objectivo maledicente –, esta resultou do marinho condimento do título, Salt (2010), e da entrada em vigor da norma panificadora com o objectivo de tornar menos tensos os cidadãos nacionais – esses viciados em dois átomos combinados de sódio e cloro, agarrados à excitação (hipertensiva) de um bom desgoverno e de uma vidinha enfadonha. Até o nome do realizador, Phillip Noyce, se presta a uma cadeia calemburista cujos início e fim não vislumbro, a sua sonoridade é-me um forte incentivo que provém de tempos imemoriais (era ainda um jovem cinéfilo), vigorava no circuito comercial a, enganadoramente pachorrenta, Calma de Morte (Dead Calm, 1989) – trocadilhai vós, ó raiz quadrada de meia dúzia arredondada à milésima que me lê.
Ah, já quase me esquecia do argumentista referenciado na abertura, Kurt Wimmer foi o autor de ambas as histórias directamente escritas para o ecrã – um cidadão sem vestígios de sal.
Em resumo, só mesmo para terminar com este meu texto potencialmente aberrativo ou que para aí caminha à medida que se vão adicionando mais caracteres, gostaria de deixar aqui, em letra de forma, a minha penitência: A Origem (Inception, 2010) do jovem arrevesado Nolan é uma obra-prima por comparação – se é que possível comparar-se uma amiba fílmica com entes fílmicos geneticamente mais desenvolvidos.
PS – O Ebert, desde que o resolvi mencionar, passou-se por completo (talvez tenha sido da excitação advinda dessa chamada encomiástica aqui impudicamente revelada), vejam-se as críticas à amiba e à coisa labiríntica.
PPS – Um questão/apelo aos reputados epidemiologistas mundiais: haverá algum vírus cinematográfico, um parasita dissimulado (não, não é uma ideia, resiliente como o Sócrates do inglês técnico), quiçá de proveniência alienígena, que ande de redacção em redacção a entreter-se em derribar, de forma sádica e paulatina, as mentes mais preclaras da crítica?

PPPS – 2,449 (é só fazer as contas).

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Um dos melhores romances dos últimos tempos…

…adaptado ao cinema por uma dupla com um passado cinematográfico arrepiantemente inútil e vazio: Romanek & Garland. Sobre este temor pré-visionamento ler o aqui escrevi há mais de dois meses, quando recebi a notícia da pós-produção do filme que se avizinha. Pobre Ishiguro
Tal como referi em 29 de Maio último, na minha memória ainda perduram os malefícios com que, por falta de engenho, a dupla Wright & Hampton ensombrou, sem reparação possível, o meu segundo romance dos últimos tempos: refiro-me, é claro, ao filme Expiação (Atonement, 2007), baseado na obra-prima homónima de 2001 do excelso Ian McEwan.
Resta esperar para ver. Não há outro remédio. Ou então, até à data da sua estreia em Portugal (ainda não marcada), tentar iniciar um exercício de exorcização dos fantasmas de catalogação apriorística – Max von Sydow deixa de jogar xadrez com a morte, desembaraça-te da armadura e veste os paramentos…
No elenco: Keira Knightley, Carey Mulligan, Andrew Garfield, Charlotte Rampling e Sally Hawkins.
Eis o primeiro vídeo de apresentação de Nunca Me Deixes (Never Let Me Go, 2010):

terça-feira, 17 de agosto de 2010

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As boas notícias e as incógnitas do meio editorial português.
Imune à crítica do crítico vingador de Flaubert – quem lhe terá passado semelhante procuração? Ao homem do discurso indirecto livre, casado com uma romancista sofrível, e tal vez sofredora, e que vê a ficção como a pianola de Gaddis ou o multiusos pianocktail de Vian, cristalizada no século XIX –, Auster prossegue e prepara-se para ver publicado o seu 14.º romance desde que iniciou a carreira no campo da ficção em 1985, com a publicação da novela Cidade de Vidro (City of Glass), mais tarde integrada na sua, até hoje, obra mais admirada e objecto de culto, A Trilogia de Nova Iorque (The New York Trilogy, 1987), o seu primeiro romance, constituído por três partes interligadas de acordo com o seu leitmotiv. Eis que em breve chegará Sunset Park, cujo primeiro parágrafo aqui reproduzo, devidamente traduzido:


«Faz quase um ano que ele começou a tirar fotografias de objectos abandonados. Há pelo menos dois serviços por dia, por vezes chegam a seis ou sete, e de cada vez que ele e os seus colegas entram noutra casa, são confrontados pelas coisas, inúmeros objectos usados deixados para trás pelas famílias que partiram. Todas as pessoas ausentes fugiram à pressa, com vergonha, confusas, e é certo que, qualquer que seja o sítio em que agora vivam (se é que encontraram outro lugar para viver e não estão acampadas nas ruas) as suas novas residências são mais pequenas que as casas que perderam. Cada casa é uma história de fracasso – de bancarrota e de incumprimento, de dívidas e de hipotecas executadas – e ele resolveu assumir as responsabilidades deste emprego para documentar os últimos, os vestígios remanescentes daquelas vidas dissipadas para provar que, em tempos, as famílias desaparecidas aqui estiveram, que os fantasmas de pessoas que ele nunca verá e jamais conhecerá, continuam presentes nos objectos sem préstimo espalhados pelas suas casas vazias.»
Paul Auster, Sunset Park, p. 3 [excerto de obra a publicar em Novembro próximo pela Henry Holt no mercado norte-americano; 320 pp. – tradução livre: AMC, 2010]
Notas e questões (do mercado editorial):
1 – Tal como aconteceu com Invisível (Invisible, 2009) e segundo os editores nacionais do escritor originário de Newark, que gosta de ser reconhecido como um filho de Brooklyn, a Asa lançará a obra no mercado livreiro nacional no mesmo dia em que esta estrear nos Estados Unidos.
2 – Prometida para publicação em Setembro em Portugal, está finalmente o magistral romance As Aventuras de Augie March (The Adventures of Augie March, 1953), considerado por muitos dos seus mais fervorosos leitores como a obra-prima do autor norte-americano, nascido no Canadá no Dia de Portugal, Saul Bellow (1915-2005), Prémio Nobel da Literatura em 1976 – trata-se do seu 3.º romance. O anúncio foi feito pelo seu editor, Francisco José Viegas, no seu blogue A Origem das Espécies, e terá, como é óbvio, a chancela da brilhantemente renovada Quetzal.
3 – Para além da referida obra de Bellow, até hoje inédita em Portugal, a Quetzal irá publicar de uma só assentada o primeiro romance da já longa carreira literária de Martin Amis, inacreditavelmente ainda virgem na aridez do solo literário português, O Diário de Raquel (The Rachel Papers, 1973); e, pela primeira vez, um ensaio de escritor, polemista, jornalista e eminente blogger Andrew Sullivan, A Alma Conservadora (The Conservative Soul, 2006).
4 – Para finalizar, uma singela pergunta por quem se interessa por estas coisas aborrecidas, como ler: será que a Dom Quixote, desde que passou para o grupo LeYa, para além de muitos outros, se esqueceu de Philip Roth? Para quando a edição de The Humbling (2009) e/ou de Nemesis (2010)? Suponho que ainda detêm os direitos autorais de Roth.

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Gaddis

Uma notável recensão. Acabei de a ler há poucos minutos. Não sei se foi ou não foi hoje publicada na edição impressa da Ípsilon – para o caso não interessa, está acessível na rede –, e se a menciono com atraso, isso não lhe retira a pertinência e nem prejudica o propósito destas curtas linhas que aqui pretendo deixar. O texto crítico a que me refiro é de João Bonifácio que discorre, de forma admirável, sobre o mais recente romance publicado pela venerável editora portuense Ahab: Ágape, Agonia (Agapē Agape), quinta e última obra de ficção do escritor norte-americano William Gaddis (1922-1998), terminada no ano da sua morte, mas apenas publicada em 2002.
No quarto parágrafo, Bonifácio, crítico temerário, escreveu uma asserção susceptível de causar algum estrépito na turba dos ungidos pelos literários óleos da lusa mediocridade, decerto com consequências sísmicas nas suas infelizes doxologias, embora JB, muito longe de ser um novato ou crítico inexperiente, haja feito a devida ressalva – não vá o diabo tecê-las e garantir-lhe o enxofre pestilento de mais uma polémica estéril e morrinhenta (adjectivo meteorológico):
«Se nos é permitida a insolência, não nos recordamos de melhor primeiro capítulo que o de abertura de “Carpenter’s Gothic”».
Não foi necessário fazer um grande esforço de memória para me recordar desse capítulo e dos parágrafos que o delimitam; recordação que me fez despertar uma saudade que me irá levar a uma releitura muito em breve. Lembrei-me de um pássaro, o deus ex machina surpreendentemente deslocado para o início da narrativa, mas que deambula estropiado, alma penada num círculo borgiano, ao longo das entrecruzadas e alienadas conversas telefónicas. É um simples e genial desvario literário, que começa assim:
«O pássaro – um pombo-correio ou uma pomba brava? (ela sabia que havia pombos por ali) – esvoaçou pelos ares, sem cor definida, no crepúsculo. Aquilo que ela confundiu inicialmente com um trapo velho bateu as asas na cara do mais novo dos rapazes, que sacudiu a lama da face atingida, agarrou o pássaro e atirou-o para um dos amigos. Este improvisou um bastão com um ramo e divertiu-se a atirá-lo ao ar até ficar pendurado na copa de uma árvore. Depois abanou-a e o pássaro caiu por entre um turbilhão de folhas numa poça de água formada pela chuva da noite anterior. Voltou a agarrá-lo e prosseguiu a sua brincadeira cruel. Parecia um volante de badmington, cujas penas caíam a cada pancada do bastão, até que por fim chocou contra uma placa amarela que assinalava um beco, na esquina da casa onde as crianças costumavam brincar àquela hora do dia.
»Quando o telefone tocou, já ela se tinha afastado e tentava refazer-se do que acabava de presenciar.»
William Gaddis, Gótico Americano, p. 5 [Lisboa: Difusão Cultural, Fevereiro de 1991, 270 pp; tradução de Muriel Alves Brazil; obra original: Carpenter’s Gothic, 1985]
Fante, Stuparich, Solstad, Sherwood Anderson e agora Gaddis, com promessa de reedição da obra atrás referida Carpenter’s Gothic – embora pedisse, egoisticamente, uma troca por pelo menos um dos calhamaços The Recognitions (1955), com quase mil páginas na versão original, ou J R (1975), com mais de setecentas – assim se vai fazendo a Ahab.
Numa época em que o meio editorial português no campo da ficção e da poesia se concentra em três grupos (LeYa, Babel e Porto Editora), há umas pequenas ilhas onde ainda prolifera a qualidade literária e que, acima de tudo, nos garantem a diversidade. A Ahab é a mais recente nesse arquipélago, onde com critério e obstinação vai combatendo os monstros neptuninos informes que foram engordando à custa do filistinismo tão curial à época do lixo metamorfoseado em caracteres impressos em livro ou em bytes numa consola de livros digitais.

quinta-feira, 29 de julho de 2010

Aquela cabeça…

Contava-se frequentemente entre o meu grupo restrito de amigos que emergiu da turba profissional, e como forma de incutir a boa disposição quase automática entre os presentes, uma história recente – que agora já tem bem mais de uma década – produzida por uma visita ministerial ao nosso local de trabalho, em que, como seria de esperar, tanto pelo cumprimento do protocolo, como pela incrustada prática académica do fazer-se notar, todo o directório dos ungidos pela cátedra se uniu ao seu séquito. A dada altura, o Ministro, em plena sala de convívio, entre hors d’œuvre e copos de plástico agradecidamente abastecidos a champanhe – once in a lifetime, diriam uns para os outros, para destoar do linguajar de soberba dos aperitivos –, interpelou um circunstante (membro do nosso círculo restrito) sobre se aquela figura de cabelos brancos, que se ria entre rissóis de camarão e guardanapos de papel, era a pessoa que ele, Ministro, pensava tratar-se. Perante a resposta afirmativa, declarou, em primeiro lugar, que estava impressionado pelo impecável estado de conservação da criatura, para, logo de seguida, pormenorizar a sua relação que evoluiu de aluno/professor para a de colegas de profissão, terminando com a frase: «Um homem inteligentíssimo e com uma cultura bem acima da média, todavia sempre preferiu a sinuosidade do caminho alternativo à recta para chegar do ponto A ao ponto B», a que acrescentou, despedindo simultaneamente o interlocutor de ocasião: «Ah, aquela cabeça…»
Como testemunha ocular, e dada a envolvente da história, posso assegurar sem necessidade de contraprova, a tal “cabeça” não era a de Christopher Nolan, até porque tem menos quarenta anos de bombardeamentos sinápticos e trabalha para o reconhecimento de outras academias.
É isso mesmo, não é necessário um enorme esforço de concentração, em poucas linhas confessei que já me foi dada a oportunidade de ver o filme de que todos falam na actualidade: A Origem (Inception, 2010) do realizador britânico (n. 1970) Christopher Nolan.
Nolan, apesar da ainda jovem idade, já nos obsequiou com sete longas-metragens, entre as quais vi, claramente vistas, quatro: Memento (2000), Insomnia (2002), O Cavaleiro das Trevas (The Dark Knight, 2008), e este último que atrás referi; desconfio se realmente vi Batman – O Início (Batman Begins, 2005), dada a profusão de filmes, actores e realizadores que, respectivamente, versaram, encarnaram e dirigiram o morcego moralista de Gotham; não vi os restantes dois, entre eles o muito aplaudido O Terceiro Passo (The Prestige, 2006).
Em A Origem, há uma frase lapidar que nos foi sendo bombardeada nos três ou quatros trailers que há quase seis meses foram sendo criteriosamente projectados nas salas de cinema:
«Qual é o parasita mais resiliente? Uma ideia. Uma simples ideia provinda da mente humana pode construir cidades. Uma ideia pode transformar o mundo e reescrever todas as regras. E é por isso que tenho de a roubar.» [tradução: AMC]
Uma ideia. Injecção de sonhos. Arquitectura de realidades alternativas. Imaginação em socalcos. Resultado: muita parra e pouca uva.
Há uma frase que retirei de um dos livros que neste momento vou desbravando – neste caso em particular com algum deleite pelo desafio intelectual, num momento em que necessito mais do que nunca da leveza espiritual de uma sitcom para confortar a minha mente em efervescência –, que, apesar da complexidade temática, da exigência de reflexão absoluta e de tudo o que foi dito em páginas anteriores da obra que a explicita e circunstancia, caracteriza bem os nossos tempos: «Irrito, logo existo.» (cf. Peter Sloterdijk, Cólera e Tempo, ed. Relógio D’Água, 2010). E Nolan levou-me à exasperação pela tortuosidade obesa de ideias, que mais não é que uma carapaça espaventosa e arraialesca vazia de conteúdo. A Origem, é uma peça meta-fílmica composta em duas horas e meia, que de facto poderia ser traduzida por “documentário de uma ideia” (jamais por obra de arte cinematográfica), como se tratasse de uma prelecção de filosofia do cinema. Aliás, o tom eminentemente preleccionista do filme resultou, porventura, de uma consciencialização de Nolan pela impotência imagética em contar a história, por mais ou menos arabescos visuais e sonoros que introduzisse; muito embora se possa ter apercebido de que o isco de apelo às massas estivesse no ponto certo para mais um retumbante êxito comercial – estava certo, a frieza dos números não o desmente; a horda de admiradores medrou que até dá gosto.
Na minha humilíssima opinião de aficionado da coisa fílmica, Nolan poderia ter aprendido com o ainda recente fenómeno de ascensão e queda em três actos dos manos Wachowski, por um lado, em como se constrói uma história na intrincada dialéctica ficção tecnológica/metaficção, sintetizada no sucesso quase unânime de Matrix (1999), como, por outro, nos desastres subsequentes pelo vazio narrativo de The Matrix Reloaded e The Matrix Revolutions (ambos de 2003). Depois, apesar dos milhões arrecadados, mediante a lembrança de um aforismo ultra-universal de que “o dinheiro não traz a felicidade”, aconselha-se, para a sua saúde psíquica, que o jovem Christopher deixe repousar aquela mente que vai sendo estorcegada pela popularidade filistina do espalhafato, e que caminha em progressão geométrica para o paroxismo do nebuloso e hermético, e não para a, decerto pretendida, abstracção, obviamente admissível sob o ponto de vista estético.
Em suma, a auto-assunção da genialidade, tem estes efeitos colaterais. Neste momento, apenas subjaz a questão: O que se seguirá? Mais um projecto sobre o famoso rato alado. E quem, desta feita, será o cordeiro sacrificial? “Ah, aquela cabeça…”
PS – Peço as minhas mais sinceras desculpas pela forma brusca como terminei o texto, a cheirar a incompletude de argumentos que reforcem a minha opinião sobre o filme, mas vou ver se o meu pião, que ainda há pouco rodava lá fora sobre uma mesa de pinho pacense, continua a girar… É mesmo importante que o faça… agora.

terça-feira, 27 de julho de 2010

Booker Prize 2010 – semifinalistas

Foi anunciada há poucos minutos a lista de romances semifinalistas que concorrem ao Booker Prize de 2010, patrocinado pelo grupo financeiro Man desde 2002. Para o vencedor, a anunciar no próximo dia 12 de Outubro*, está reservado um prémio monetário de 50.000 libras esterlinas, que corresponde, aproximadamente, a 60.000 euros.
Eis o habitualmente designado por “Booker’s dozen”** seleccionado pelo júri, que este ano é presidido por Andrew Motion, e que inclui 13 títulos de outros tantos autores (por ordem alfabética do apelido do autor – por enquanto, apenas uma obra está editada no mercado nacional, surgindo na listagem com o título em português):

  • Peter Carey, Parrot e Olivier na América (ed. port. Gradiva; Parrot and Olivier in America)
  • Emma Donoghue, Room
  • Helen Dunmore, The Betrayal
  • Damon Galgut, In a Strange Room
  • Howard Jacobson, The Finkler Question
  • Andrea Levy, The Long Song
  • Tom McCarthy, C
  • David Mitchell, The Thousand Autumns of Jacob de Zoet
  • Lisa Moore, February
  • Paul Murray, Skippy Dies
  • Rose Tremain, Trespass
  • Christos Tsiolkas, The Slap
  • Alan Warner, The Stars in the Bright Sky

Notas: *Os seis finalistas serão anunciados no próximo dia 7 de Setembro.
**designação adoptada nos anos mais recentes pelos organizadores para a longlist, que tem a sua origem na expressão inglesa do século XIII “baker’s dozen” ou “dúzia dos padeiros” (tradução literal), que em Portugal se designa por “dúzia de frade”, que significa treze (uma dúzia de treze).
***(act.) Mais informação em português, aqui.

sexta-feira, 23 de julho de 2010

Em colapso

Hoje (ontem) ficou a saber-se que Pedro Mexia, subdirector da Cinemateca Portuguesa, abandonou as coisas muito lá da casa pelos expiatórios motivos pessoais. E não se atrevam a esquadrinhar os fundamentos que conduziram à demissão de Mexia de um cargo público – assuntos pessoais, assunto encerrado. E por favor, que não se aproveite este momento para engendrar a lusa questiúncula da escassez de verbas ou de uma incompatibilidade de carácter, ou até política de dirigente(+)/dirigente(-): um argumento rendilhado, novelesco e com toque melodramático, de conflitos ou de desinteligências com a nova directora (ver o que aqui proferi sobre esta eminência parda) empossada há meio ano – a tal que, por ser amiga pessoal do vulto Bénard, ganhou num ápice o estatuto de cinéfila e de erudita da coisa fílmica, e que o magnânimo aparelho socialista colocou sob o foco ardente do cinematógrafo.
Os motivos foram pessoais e há que aceitá-los porque, desta feita, a sua invocação até pode ser manifestamente verdadeira, e ninguém está disposto a, e com coragem para, contrariar a potencial pátina de verdade.
Como indicou a TSF, a notícia encontrava-se postada, sob a forma de uma singela e lacónica mensagem,  no blogue pessoal do demissionário.
Contudo, não posso negar as evidências e esconder a agitação que abalroou as minhas defesas da emoção desamarrada. A notícia do foro lisboeto-empolado teve uma virtude, a de me poder voltar a inebriar com o Lei Seca – motivos pessoais confessáveis e não financiados pelos impostos da Nação estiveram na sua origem, id est, afastamento da blogosfera, um invencível cansaço intelectual pelas expostas melancolias saturninas e pelos epigramas de índole ciorânica (permita-se-me a colagem ao eminente, e maior polímato vivo, George Steiner, para fazer dele a minha opinião sobre a arengada aforística do romeno da guarda de ferro – cf. “Da Concisão”, George Steiner em The New Yorker, Gradiva, 1.ª edição). Abalançado pela prosa curta, esquadrinhei alguns textos e detive-me nestas duas frases de uma mesma talhada cinéfila, a derrotista e a sentenciosa, respectivamente: «Chegámos a finais de Julho e confirma-se: este ano cinematográfico é fraco» e «Scorsese e von Trier entraram em colapso». Quanto ao dinamarquês, e fazendo uma pequeno esforço de memória sobre a sua filmografia, ele próprio é a personificação do colapso – aquele último onde uma auto-excisão é absurdamente dedicada a Tarkovski... ah, então aquela fantochada de antanho com a gritante (é literal) islandesinha cega é de pôr os cabelos em pé. No que respeita ao italo-americano, faço votos para que continue a colapsar desta forma por muitos e bons anos. E, a talho de foice, deixo aqui ficar o texto de um dos raríssimos críticos cinematográficos cujas críticas me servem de guia – embora, nesta matéria, preserve até ao ridículo do absoluto a minha independência estética. Eis Roger Ebert sobre Shutter Island, apreciação publicada no Chicago Sun-Times a 17 de Fevereiro deste ano:
«“Shutter Island” starts working on us with the first musical notes under the Paramount logo’s mountain, even before the film starts. They’re ominous and doomy. So is the film. This is Martin Scorsese’s evocation of the delicious shuddering fear we feel when horror movies are about something and don’t release all the tension with action scenes. In its own way it’s a haunted house movie, or make that a haunted castle or fortress. Shutter Island, we’re told, is a remote and craggy island off Boston, where a Civil War-era fort has been adapted as a prison for the criminally insane. We approach it by boat through lowering skies, and the feeling is something like the approach to King Kong’s island: Looming in gloom from the sea, it fills the visitor with dread. To this island travel U.S. marshal Teddy Daniels (Leonardo DiCaprio) and his partner Chuck Aule (Mark Ruffalo).
It’s 1954, and they are assigned to investigate the disappearance of a child murderer (Emily Mortimer). There seems to be no way to leave the island alive. The disappearance of one prisoner might not require the presence of two marshals unfamiliar with the situation, but we never ask that question. Not after the ominous walls of the prison arise. Not after the visitors are shown into the office of the prison medical director, Dr. Cawley, played by Ben Kingsley with that forbidding charm he has mastered.
It’s clear that Teddy has no idea what he’s getting himself into. Teddy – such an innocuous name in such a gothic setting. Scorsese, working from a novel by Dennis Lehane, seems to be telling a simple enough story here; the woman is missing, and Teddy and Chuck will look for her. But the cold, gray walls clamp in on them, and the offices of Cawley and his colleagues, furnished for the Civil War commanding officers, seem borrowed from a tale by Edgar Allan Poe.
Scorsese the craftsman chips away at reality piece by piece. Flashbacks suggest Teddy’s traumas in the decade since World War II. That war, its prologue and aftermath, supplied the dark undercurrent of classic film noir. The term “post-traumatic shock syndrome” was not then in use, but its symptoms could be seen in men attempting to look confident in their facades of unstyled suits, subdued ties, heavy smoking and fedoras pulled low against the rain. DiCaprio and Ruffalo both affect this look, but DiCaprio makes it seem more like a hopeful disguise.
The film’s primary effect is on the senses. Everything is brought together into a disturbing foreshadow of dreadful secrets. How did this woman escape from a locked cell in a locked ward in the old fort, its walls thick enough to withstand cannon fire? Why do Cawley and his sinister colleague Dr. Naehring (Max von Sydow, ready to play chess with Death) seem to be concealing something? Why is even such a pleasant person as the deputy warden not quite convincingly friendly? (He’s played by John Carroll Lynch, Marge’s husband in “Fargo,” so you can sense how nice he should be.) Why do the methods in the prison trigger flashbacks to Teddy’s memories of helping to liberate a Nazi death camp?
These kinds of questions are at the heart of film noir. The hero is always flawed. Scorsese showed his actors the great 1947 noir “Out of the Past,” whose very title is a noir theme: Characters never arrive at a story without baggage. They have unsettled issues, buried traumas. So, yes, perhaps Teddy isn’t simply a clean-cut G-man. But why are the others so strange? Kingsley in particular exudes menace every time he smiles.
There are thrilling visuals in “Shutter Island.” Another film Scorsese showed his cast was Hitchcock’s “Vertigo,” and we sense echoes of its hero’s fear of heights. There’s the possibility that the escaped woman might be lurking in a cave on a cliff, or hiding in a lighthouse. Both involve hazardous terrain to negotiate, above vertiginous falls to waves pounding on the rocks below. A possible hurricane is approaching. Light leaks out of the sky. The wind sounds mournful. It is, as they say, a dark and stormy night. And that’s what the movie is about: atmosphere, ominous portents, the erosion of Teddy’s confidence and even his identity. It’s all done with flawless directorial command. Scorsese has fear to evoke, and he does it with many notes.
You may read reviews of “Shutter Island” complaining that the ending blindsides you. The uncertainty it causes prevents the film from feeling perfect on first viewing. I have a feeling it might improve on second. Some may believe it doesn’t make sense. Or that, if it does, then the movie leading up to it doesn’t. I asked myself: OK, then, how should it end? What would be more satisfactory? Why can’t I be one of those critics who informs the director what he should have done instead?
Oh, I’ve had moments like that. Every moviegoer does. But not with “Shutter Island.” This movie is all of a piece, even the parts that don’t appear to fit. There is a human tendency to note carefully what goes before, and draw logical conclusions. But – what if you can’t nail down exactly what went before? What if there were things about Cawley and his peculiar staff that were hidden? What if the movie lacks a reliable narrator? What if its point of view isn’t omniscient but fragmented? Where can it all lead? What does it mean? We ask, and Teddy asks, too.»

Nota: Já agora, eis as minhas breves impressões deixadas neste blogue sobre o mesmo filme.

sexta-feira, 16 de julho de 2010

A Imaginação Moral

«Ao contrário de muitos críticos contemporâneos que durante os últimos anos adquiriram uma reputação súbita nos Estados Unidos, Steiner não se dispõe a ler para ficar desapontado, e nunca encarou a actividade crítica como uma oportunidade para adoptar posturas profundamente desdenhosas.»
Robert Boyers, “Introdução”, p. 14. In George Steiner, George Steiner em The New Yorker [Lisboa: Gradiva, 1.ª edição, Junho de 2010, 417 pp; tradução de Joana Pedroso Correia e Miguel Serras Pereira; obra original: George Steiner at The New Yorker, 2008.]
Muito haveria para dizer partindo do curto período atrás citado, retirado do prefácio de autoria do coordenador (não, não se trata do eufemista Louçã) da antologia de ensaios escritos para a revista norte-americana The New Yorker por George Steiner e que, com louvor e consideração – não sem uma pequena reprimenda pela contumaz preguiça editorial de marca lusa* –, a Gradiva traduziu e publicou há cerca de um par de semanas em Portugal, sobre a ortodoxia e o reaccionarismo que se apoderou da crítica literária praticada em solo americano e que se estendeu, de forma pandémica, à crítica literária ocidental, inclusivamente nos cantinhos geográficos propensos à expansão da mediocridade dos visionários de um só olho. Discute-se e muito a técnica, ignora-se a estética e exalta-se a ética literárias – por outras palavras, fazendo uso do conhecimento quase científico da primeira, subordina-se a segunda a um conjunto de interesses de índole diversa que se subsumem nos princípios prevalecentes da terceira num dado momento. Descarta-se a imaginação em detrimento de um manual de bons costumes, de uma cartilha que implicitamente homenageia a obtusidade filistina, pois a arte – imaginação, criatividade, integridade estilística – é menorizada em favor de apriorismos políticos pseudoculturais, ou melhor, segue-se uma agenda económica, garroteada pelos subsídio-saqueadores, e, sobretudo, política, travestida de uma verdade oracular pela untuosa eminência auto-alardeada, apoiada pelo inebriante caleidoscópio contemporâneo dos novos canais promocionais – uma espécie de proliferação acelerada de Rui “brilhantina” Santos, ainda de menor calibre, com acesso privilegiado e exclusivo, porém irrestrito, a uma Delfos, que bem pode ser a Amadora ou Gondomar.
Os que confundem este movimento com a democratização da opinião, são os mesmos que, no seu afã libertário (contrário às convicções íntimas), acabam por criar mitos autocráticos, os monstros da opinião postados em torres de marfim, emprenhando um conjunto de seguidores cegos pelo falso brilho do logro bem vendido, e ainda mais medíocres que o justo progenitor, o que é bem mais atentatório para a evangelizada liberdade de expressão – causa arrebatada pela percebida autoridade moral publicitada, que mais não é que um narcisismo degenerado, porque a distorção mental é de tal ordem que não lhes permite sequer divisar a sua própria imagem numa hesitante superfície reflectora.
É assim a arte na mão dos políticos, burocratas e plutocratas (que proliferam pela actividade dos dois primeiros grupos), roubada aos artistas pelos sequazes da domação da criatividade. Passo a passo vai-se construindo o decálogo de onde emanará a feroz liturgia: e venha a nós a vossa crítica, ó sumo-sacerdote do realismo novecentista, engrandece os livros escritos pelos teus correligionários, publicados pelo grupo editorial da tua mulher e amigos, reprova a abstracção como liberdade criativa. Não denegarás o discurso indirecto livre…
*Nota: a edição lusa deste livro, para além de alguns pecadilhos de tradução detectados logo no primeiro e gigantesco ensaio (por exemplo, troca-se “MI5” por “M15”), enferma do habitual nacional-forretismo, um dos principais derivados do nacional-porreirismo. De facto, os responsáveis da Gradiva não só eliminaram o essencialíssimo “índice remissivo” – peça fundamental em obras com esta configuração –, como também suprimiram um importante “anexo” que continha, na edição original, a listagem completa de todos os artigos publicados por Steiner na icónica revista norte-americana. Assim como, em nenhuma parte do texto em português se faz referência à, jamais negligenciável, data de publicação – percorri o livro de lés a lés e… nada de datas, que permitiriam descortinar a envolvente e o enquadramento histórico no momento em que os escritos foram produzidos e publicados.
Assim sendo, deixo aqui ficar um auxiliar de minha lavra [tudo o que figurar entre parêntesis rectos], para aqueles que fazem tenções de se aventurar na 1.ª edição desta obra (esperando, porventura em vão, uma correcção para a 2.ª):
–––O Sacerdote da traição [sobre Anthony Blunt; “The Cleric of Treason”; 08/12/1980]
–––Wien, Wien, Nur du Allein [sobre Anton Webern & Viena; 25/06/1979]
–––De Profundis [sobre o Volume III do Arquipélago de Gulag de Aleksandr Solzhenitsyn; 04/09/1978]
–––Espiões de Deus [sobre O Factor Humano de Graham Greene; “God’s Spies”; 08/05/1978]
–––Da Casa dos Mortos [sobre Albert Speer; “From the House of the Dead”; 19/04/1976]
–––De Mortuis [sobre Philippe Ariès & O Homem Perante a Morte; 22/06/1981]
–––Mil Anos de Solidão [sobre Salvatore Satta; “One Thousand Years of Solitude”; 19/10/1987]
–––Matar o Tempo [sobre Mil Novecentos e Oitenta e Quatro de George Orwell; “Killing Time”; 12/12/1983]
–––Danúbio Negro [sobre Karl Kraus & Thomas Bernhard; “Black Danube”; ”21/07/1986]
–––B. B. [sobre Bertolt Brecht; 10/09/1990]
–––Uneasy Rider [sobre Zen e a Arte de Manutenção de Motocicletas de Robert M. Pirsig; 15/04/1974]
–––Uma Ave Rara [sobre Guy Davenport; “Rare Bird”; 30/11/1981]
–––Cartas Perdidas [sobre John Barth; “Dead Letters”; 31/12/1979]
–––Tigres no Espelho [sobre Jorge Luis Borges; “Tigers in the Mirror”; 20/06/1970]
–––Do Cambiante e do Escrúpulo [sobre Samuel Beckett; “Of Nuance and Scruple”; 27/04/1968]
–––Aos Olhos do Oriente [sobre Aleksandr Solzhenitsyn & outros russos; “Under Eastern Eyes”; 11/10/1976]
–––Homem-Gato [sobre Louis-Ferdinand Céline; “Cat Man”; 24/08/1992]
–––O Amigo de um Amigo [sobre Walter Benjamin & Gershom Scholem; “The Friend of a Friend”; 22/01/1990]
–––Uma Sexta-Feira Má [sobre Simone Weil; “Bad Friday”; 02/03/1992]
–––O Jardim Perdido [sobre Claude Lévi-Strauss; “The Lost Garden”; 03/06/1974]
–––Da Concisão [sobre E.M. Cioran; “Short Shrift”; 16/04/1984]
–––Velhos Olhos Cintilantes [sobre Bertrand Russell; “Ancient Glittering Eyes”; 19/08/1967]
–––Uma História de Três Cidades [sobre as Memórias de Elias Canetti; “A Tale of Three Cities”; 22/11/1982]
–––Le [sic] Morte d’Arthur [sobre Arthur Koestler; “La Morte D’Arthur”; 11/06/1984]
–––As Línguas do Homem [sobre Noam Chomsky; “The Tongues of Man”; 15/11/1969]
–––Uma Morte de Reis [sobre Xadrez; “A Death of Kings”; 07/09/1968]
–––Dar a Palavra [sobre James Murray & o Oxford English Dictionary; “Give the Word”; 21/11/77]
–––Uma Vida Examinada [sobre Robert Hutchins & a Universidade de Chicago; “An Examined Life”; 23/10/1989]

Imagem: (cf. Metamorfoses de Ovídio) reprodução de Eco e Narciso, de Nicolas Poussin (1594-1665), circa 1630, óleo sobre tela (Museu do Louvre, Paris).