domingo, 4 de julho de 2010

O regresso do fedelho

Tem sido lento o processo criativo do autor norte-americano, nascido em Los Angeles em 1964, Bret Easton Ellis. De facto, Ellis acabou de publicar o seu sétimo romance, depois de se haver estreado auspiciosamente com o seu minimalista e desbastado de eloquência lírica, epítome da, na altura, recém-criada geração MTV, Menos que Zero (Less Than Zero, 1985) quando tinha apenas vinte anos. Seguiram-se o fraquinho As Regras da Atracção (The Rules of Attraction, 1987), o tenebrosamente estranho e prodigioso Psicopata Americano (American Psycho, 1991), o modesto e sem qualquer valor acrescentado literário (um novo conceito, porventura mensurável) Os Confidentes (The Informers, 1994) – muito menos o filme que nele se baseou, o paupérrimo Os Informadores, do australiano Gregor Jordan –, o magnífico, cru e tão houellebecquiano Glamorama (1998) e, finalmente, o thriller existencialista, de certa forma desequilibrado pela estranha mescla de sentimentos contraditórios que me assomaram durante a sua leitura, e carregado de um pathos inédito em Ellis, Lunar Park (2005) – afinal, o homem não é de pedra, frio, hedonista e sem adiposidades sentimentais, e talvez por aquele ter sido escrito durante os seis anos de quase idílio amantético com o escultor Michael Wade Kaplan (1974-2004), que terminou de forma abrupta, Kaplan morre com apenas trinta anos, vítima de um fulminante ataque cardíaco; na realidade, este triste episódio acaba por fazer despertar o autor do torpor passional e pôr um fim à longa travessia do deserto em assuntos literários.
Em 2010, Ellis reaparece no mercado editorial com Imperial Bedrooms (uma vez mais tendo Elvis Costello como inspiração para o título), que o autor confirma, para depois parecer contestar a evidência – dado porventura o anátema normalmente associado ao vocábulo –, tratar-se de uma sequela da sua obra de estreia, incluindo os jovens personagens frívolos, mimados, degradantes e celerados, agora na idade adulta na Los Angeles da actualidade, um Menos Que Zero (na sua mais recente reedição) com upgrade: um par de cornos. Eles são adultos diplomados, com mais posses e poder, e por isso com maior capacidade de abrir o leque de horrores psicopatológicos. Senão atente-se no parágrafo de abertura da obra:

«Eles fizeram um filme sobre nós. O filme baseou-se num livro escrito por alguém que conhecíamos. O livro baseava-se numa história simples sobre quatro semanas passadas na cidade em que crescemos e na sua grande parte reproduzia um retrato fiel. Foi catalogado como ficção mas apenas alguns detalhes foram alterados, os nossos nomes não o foram e não havia nada nele que não houvesse ocorrido. Por exemplo, houve de facto a projecção de um filme snuff naquele quarto em Malibu numa tarde de Janeiro, e sim, eu abandonei o quarto e dirigi-me ao terraço mirando distraidamente o Pacífico onde o autor tentou consolar-me, assegurando-me que os gritos produzidos pelas crianças ao serem torturadas eram falsos, mas ele sorria enquanto proferia tudo isto e eu tive de me retirar. Outros exemplos: a minha namorada na realidade atropelou um coiote nos desfiladeiros sob Mulholland e foi fielmente relatado um jantar de natal com a minha família no Chasen’s que deplorei e, por casualidade, contei ao autor. E uma rapariga de doze anos foi mesmo violada em grupo – eu estava com o autor naquele quarto de West Hollywood, que no livro apenas descreve uma vaga relutância de minha parte e falhou em descrever com exactidão aquilo que eu realmente sentira nessa noite – o desejo, o choque, o medo que eu tinha do autor, um rapaz louro e solitário por quem a rapariga com que eu andava estava meio apaixonada. Mas o escritor jamais corresponderia ao seu amor porque estava demasiado perdido na sua própria passividade para estabelecer a ligação de que ela necessitava, e assim ela regressou a mim, mas na altura já era tarde de mais, e como o escritor ficou ressentido quando ela voltara a dar-me atenção, eu tornei-me no belo e nebuloso narrador, inabilitado no amor e na bondade. Foi desta forma que me tornei no perturbado rapaz das festas que vagueia pelos despojos, com sangue a correr do nariz, fazendo perguntas que não carecem de resposta. Foi desta forma que me tornei no rapaz que nunca compreendeu o funcionamento das coisas. Foi desta forma que me tornei no rapaz que jamais conseguiria manter uma amizade. Foi desta forma que me tornei no rapaz que não pôde amar a rapariga.» [tradução impudicamente livre: AMC, 2010]
Bret Easton Ellis, Imperial Bedrooms, pp. 3-4 [New York: Knopf, first edition, June 2010, 192 pp.]

quarta-feira, 30 de junho de 2010

O Capitão Metro

Uma fábula do n.º 7, o não-whitmaniano Capitão, Meu Capitão (a jornada assustadora prossegue): «Perguntem ao Carlos Queiroz.»
«Vivo no 11.º andar do edifício American Gardens na West 81st Street. Chamo-me Patrick Bateman e tenho 27 anos. Eu creio no cuidar de nós próprios com uma dieta equilibrada e um rigoroso programa de exercícios. De manhã, se a minha cara está um pouco inchada, aponho-lhe um saco de gelo enquanto faço abdominais – agora, já chego aos mil. Depois de retirar o saco de gelo, uso uma loção forte de limpeza dos poros. No duche, uso um gel refrescante de limpeza. De seguida utilizo uma escova com creme de mel e amêndoas e na cara esfrego um gel esfoliante. Depois aplico uma máscara de ervas e menta, que deixo na cara durante dez minutos enquanto preparo o resto da minha rotina. Uso sempre uma loção aftershave com o mínimo ou mesmo sem álcool, porque este seca-nos a pele do rosto e faz-nos parecer mais velhos. Depois vem o hidratante e de seguida aplico o bálsamo anti-rugas para os olhos, a que se segue a loção protectora hidratante final. Existe uma ideia de um Patrick Bateman, um género de abstracção, mas na realidade não existe um eu; é apenas uma entidade, algo de ilusório. E embora consiga esconder o meu olhar frio e até me consigam dar um aperto de mão e sentir a minha carne a envolver firmemente a sua carne, e até sentir que os nossos estilos de vida são provavelmente comparáveis; eu, simplesmente, não estou lá.»
Do argumento do filme Psicopata Americano (American Psycho, 2000), adaptado ao cinema por Mary Harron e baseado no romance homónimo, publicado em 1991, de autoria do escritor californiano Bret Easton Ellis.
Trabalhar? Com toda esta beleza e preparos, com ecrãs gigantes que me procuram e fixam, em que atesto as formas etéreas do meu rosto, senão do corpo inteiro, a cada cinco segundos!? Gritos histéricos de mulherio (e não só, valha-nos a sorte da lucrativa ambiguidade!) esfaimado… Trabalhar, unir esforços, respeitar hierarquias, lutar por um ideal. Assumir as funções de Capitão, que não passam apenas por ostentar aquela liga que nos aperta o braço, o mais fino adorno futebolístico que nos permitem usar em campo – deveria ser cravado de diamantes, tal como os círculos que enfeitam as minhas frágeis orelhas no pós-desafio. Porém, uma marca não faz isso, quando muito é multinacional, global na sua abstracção. Eu não existo. 
¡Hala Madrid!... y, pues que, con “El Especial” y los euros.

sábado, 26 de junho de 2010

O Mural (nova versão)


«A raiz da palavra hipócrita em grego antigo encontra-se no verbo hypokrino, que possuía um conjunto de sentidos, podendo ir do simples discurso, à oratória, à representação cénica, à dissimulação ou à falsidade.»* [tradução AMC]
Robert Scholes, The Rise and Fall of English [em tradução livre A Ascensão e Queda da Língua Inglesa], p. 81 [Yale University Press, February 1998, 220 pp.]
Houve de tudo, viu-se de tudo, falou-se de tudo, mas com uma deformação sectária apriorística capaz de fazer retinir as campainhas da pura náusea ao ser mais resistente das intoxicações de pendor unanimista. A intelligentsia estava presente. O camarada Jerónimo discursou, o coordenador Louçã (o eufemismo mais bem esgalhado da política portuguesa, que o diga Joana Amaral Dias que foi bem co-ordenada rumo à empoeirada prateleira trotskista, onde porventura jazem uma famosa picareta e a expressão, com o mesmo prefixo, “colaborador”) vituperou, usando todo o seu fel – cujas reservas parecem não se esgotar –, levantando o seu queixo anguloso e bradando com toda a sua acrimónia facciosa, o mais alto magistrado da nação.
António Costa, numa atitude nobre, sem nunca deixar os seus laivos de populismo – está-lhe na massa do sangue e acautela-se já o problema sucessório –, ao franquear as portas da Câmara Municipal de Lisboa, previu um velório, seguido de funeral em homenagem ao notável escritor recentemente desaparecido. Porém, e basta seguir a voragem da apropriação com que se digladiam as esquerdas nacionais, o velório passou num ápice a comício, cujos senhores disseminadores da moral, proprietários do pacifismo e edificadores da ética (republicana, tão em moda) organizaram sob o pretexto da morte de mais um sectário, cujas tragédias monstruosas do século XX não desfizeram a irredutibilidade das suas posições de apoio incondicional à tirania comunista, um verdadeiro espectáculo de multimédia (só faltou a pirotecnia, não se esquecendo, porém, da useira piromania ad hominem) com comentários de circunstância, intervenções da laia de flash interviews, conferências de imprensa, comunicados, uma espécie de feijoada da Caras da Bibá, um “quem é quem” à moda portuguesa, a que só faltou a destreza criativa com as t-shirts estandardizadas previamente distribuídas.
Falou-se de um tal de Lara – o mesmo que fez parte da turba Moderna e foi um dos condenados no processo da famosa Universidade, sentenciado em 2003 a dois anos de prisão com pena suspensa pelo crime de “administração danosa” –, que nos idos de 1992, então Subsecretário de Estado da Cultura de Santana Lopes num Governo de Cavaco Silva, vetou o acesso de O Evangelho Segundo Jesus Cristo à lista de candidatos do Prémio Literário Europeu. E este incidente lamentável com dezoito anos, serviu para, na hora do luto, apoucar, depreciar, enxovalhar o Presidente da República Portuguesa apelidando-o de iletrado, mesquinho, revanchista, ressentido, tacanho e provinciano, chegando mesmo em diversos foros à desfaçatez do insulto brejeiro, boçal e ordinário que me eximo de expor neste texto. De banal e medíocre o defunto já o houvera insultado. Deixou, no entanto, os sequazes colectivistas para terminar a obra, de cujas agitação, histeria, insensatez e imundície provêm do acto eleitoral onde o candidato-Alegre-trovador-combatente-intelectual-humanista – um homem sisudo, poeta de primeira água, todavia, um prosador mais que mediano, político resvaladiço e volúvel, plantado num campo de paradoxos movido por um tropismo meramente eleitoralista – disputará com aquele demónio de Boliqueime – o tal sobre quem caíram os pecados do mundo da dialéctica em espiral.
Cavaco (tal como Gama, a 2.ª figura na hierarquia do Estado) pode ter errado ao não comparecer no funeral-comício aos Paços do Concelho de Lisboa (onde da mesma forma e com o mesmo matiz rubro se celebrou, uns meses antes, a vitória rara do clube do regime); mas com toda a certeza não se enganou nos valores democráticos e de liberdade, de uma imutabilidade recalcitrante, preconizados pelo camarada-defunto (demonstrados à saciedade em pleno PREC), baseados na filosofia, na doutrina e na práxis dos quatro acima representados no mural – é essa moral deles. Não foi a estética, muito menos a técnica, mas porventura a moral, assim grafada, das diversas diatribes e anátemas do camarada-defunto que estiveram na origem da omissão presencial, que no entanto se fez representar pelo segundo elemento da hierarquia do círculo presidencial. E se acima disse que Cavaco pode ter errado, restrinjo o campo de acção do verbo apenas à falta de iniciativa de elevar as exéquias fúnebres à condição de “nacional”, num país em que é constitucionalmente garantida a plena liberdade de expressão e consagrado o livre pensamento, independentemente da maior ou menor identificação com os conceitos do homenageado.
E facilmente se percebe o que a ambos, em vida, os distinguia, através de uma simples análise dos presentes. Se para uns a Coreia do Norte é quase uma democracia, para outros o Terror Vermelho trotskista era um mal necessário. E no século XXI continuamos a discutir Maiakovsky contra Mandelstam. Purgas contra a luta pela sobrevivência das diferenças num espaço comum de liberdades. Os Gulags, o colectivismo intelectual, o pensamento único contra a energia criadora em cada um de nós.
E se muitos, fornidos do magnésio para a memória – fumos, injecções e aspirações – não se esquecem da negra data de 1992, eu, como muita boa gente, não me esqueço de uma outra, mais negra e inquietante: 17 de Outubro de 1998 (e por curiosidade, os números têm destas coisas, a data combina-se para formar a cosmogonia do terror; ah, aquele Outubro juliano!...) Foi um sábado, no Centro de Desportos e Congressos de Matosinhos (cf. Pravda Lusitano, de 22/10/1998), a noite da infâmia: enquanto milhares são martirizados e assassinados por delito de opinião nas prisões cubanas, enquanto nesse sítio os “laras” estão armados de Kalashnikov, investidos com a mão de ferro da tortura, munidos do livro vermelho que suspende os direitos do Homem em prol de uma ideologia totalitária, Saramago entra em palco de braço dado a Fidel Castro, discursa em primeiro lugar e ouve de seguida, embevecido, hipnotizado, o comandante durante horas a fio a ditar o discurso estafado de quase quarenta anos (na altura, hoje já são mais de cinquenta). E como dizia Isaiah Berlin em The First and the Last (1999; NYRB, p. 57): «Causar dor, matar e torturar são actos geralmente condenados; mas se não forem cometidos para meu benefício pessoal e sim em prol de um ismo – socialismo, nacionalismo, fascismo, comunismo, de crenças religiosas fanáticas, do progresso, ou do cumprimento das leis da História –, então, esses actos são aceitáveis.»**
Mas esses (e regressemos à citação inicial do eminente filólogo Robert Scholes, aludindo aos descendentes da voz grega hypokrino), os que agora criticam, vituperam e desancam o mais elevado magistrado da nação – com espaços bem remunerados nos jornais, rádios e televisões, dominados historicamente pela esquerda mais radical e sectária – foram os mesmos que boicotaram a prestação do devido e merecido tributo na Assembleia da República ao poeta, ensaísta, dramaturgo António Manuel Couto Viana (1923-2010) que, curiosamente, tinha a mesma idade de Saramago e morreu apenas dez dias antes, sob o pretexto de supostas ligações fascistas de outrora, aventando-se a possibilidade de se haver alistado ao lado de Franco na Guerra Civil Espanhola (1936-1939) – seria um rapaz precoce que entre os 13, no mínimo, e os 16 anos, no máximo, já combatia por terras espanholas em nome de um ideal. Pobre país em que 20% da população votante se faz representar por gente deste calibre, onde a verdade, a honestidade intelectual e a transparência de procedimentos são aniquilados em nome de um colectivismo cuja História mostrou a índole e a prática torcionária e aniquiladora das liberdades individuais. Foram alguns desses que nos idos de 1980 festejaram a morte trágica do Primeiro-Ministro e do Ministro da Defesa nacionais, quando voavam sobre Camarate com destino ao Porto, e um rapaz incrédulo, com apenas 8 anos, e com alguma memória, questionava a autoridade familiar mais provecta a razão de ser das garrafas de champanhe, dos foguetes e dos urros de alegria perante as vidas despedaçadas naquele 4 de Dezembro.
Porém, a verdade, que todos querem arrebatar, subsiste e remanescerá pelos tempos nos escritos feéricos do autor da Azinhaga do Ribatejo. A verdade está nas narrativas inovadoras na, já de si, tão maltratada língua portuguesa e pungentes no seu lirismo, cuja ficção foi estonteando o mundo pela sua arte de contar histórias. A verdade está na sua ficção: no Memorial do Convento (1982), em O Ano da Morte de Ricardo Reis (1986) e em As Intermitências da Morte (2005; e, após um período de dura resistência, o meu primeiro de muitos contactos com a ficção saramaguiana) – a minha trilogia pessoal.
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Para terminar, uma curiosa passagem de um interessantíssimo artigo, publicado em 2007:
«Há cinco anos, [Saramago] conseguiu provocar um escândalo à escala global quando, numa visita à Faixa de Gaza, comparou a situação nos territórios palestinianos a “Auschwitz”.
»Para o crítico literário Harold Bloom, a comparação com Auschwitz foi “de uma falta de imaginação e de humanidade imperdoável” por parte de um romancista que ele considera “o segundo melhor, apenas atrás de Philip Roth” entre os escritores vivos. “Os romances de Saramago são ilimitadamente inventivos, ilimitadamente bondosos, ilimitadamente engenhosos”, disse-me Bloom, “mas deixa-me perplexo como é que o homem não consegue crescer politicamente. Em 2007, ser um português estalinista significa simplesmente não estar a viver no mundo real.”»
Fernanda Eberstadt, “José Saramago, the Unexpected Fantasist”, The New York Times, August 26, 2007.
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Notas: *Citação reproduzida da fonte primária, por sugestão da obra autobiográfica O Regresso do Hooligan, de Norman Manea (ed. port. Asa; p. 300).
**Citação retirada de Paul Hollander, O Fim do Compromisso (ed. port. Pedra da Lua, Fev/2009, p. 32, trad. de Virgílio Viseu).

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Amizade Volúvel

Uma sucessão de repetições, de signos, de argumentos estafados que permitam sustentar uma justificação para algo que nem eu próprio consigo compreender: a manutenção deste blogue. Começou como um vício entendido como uma amálgama de paixão pela arte de escrever e uma imperiosa necessidade de catarse, e que agora se arrasta pela rede como um tormento, em que um título de um radicalismo inusitado emerge como um combatente obstinado frente a uma vontade persistente de encerramento definitivo. Voltar ao anonimato da vidinha enfadonha – talvez seja esse o obstáculo, mesmo conhecendo o pequeníssimo alcance dos escritos aqui produzidos. Não é um lamento, nem uma falsa modéstia, é uma constatação empírica, que tarda em ser racionalizada, derrotando as emoções, essas vadias que me vão deixando nu perante o mundo.
Volto a repetir-me. Nunca mais. É o terceiro título que aponho a este blogue desde que, em 17 de Dezembro de 2005, iniciei a minha viagem quase solitária pela blogosfera – sem compromissos, vínculos, reservas e obediências, senão à minha consciência, manifestação da minha liberdade individual jamais coarctada ou circunscrita a qualquer directório.
Volto a pisar os passos históricos destes quase cinco anos. Todos os títulos tiveram a sua origem em Sophia, sempre fundamentados em estados de espírito, de cuja incansável e persistente indagação sobre a obra poética da minha autora de eleição possibilitou que pressentisse a emergência de uma harmonia perfeita entre aqueles e os poemas escolhidos que foram figurando neste espaço.
Nunca mais, bem poderia ser um título interjectivo como reacção à sentida necessidade de isolamento – uma demanda pela integridade da minha consciência, pela minha liberdade intelectual. Por vezes invejando a coragem de um eremita, outras lastimando um destino que me impuseram como forma de luta perante o fingimento, a desconsideração episódica, o desprezo intermitente, o sórdido jogo de interesses a que nenhuma amizade deveria resistir, sob pena de se transformar numa relação parasitária, aviltante e potencialmente destrutiva: a insistência na sua manutenção – por indolência, apatia ou até pelas grilhetas da mais sórdida subjugação –, vai contribuindo de forma subliminar para a alienação total do eu.
A conclusão pela interjeição, agora realizada, serve-me de argumento quase perfeito para defender que o processo corrosivo de uma convivência insana se transforme num facto irreparável – som estrídulo que me mantém alerta –, permanente, sem remissão, de pura e simples abdicação, de aprovação sem resistência de um método de tortura auto-infligida. Mas, já não são eles, somos nós o nosso inferno, em que a misantropia abusando da sua simplicidade – como é fácil desprezar os outros – se vai hospedando nos interstícios dessa fragilidade, o “nunca mais” absolutiza-se e daí a interrogação de DeLillo que decora, como epígrafe, a parte cimeira deste blogue: até onde? Qual é a chave para encontrar o equilíbrio entre a cedência desmedida inculcadora de infelicidade e o isolamento como busca da felicidade? Perante a ubiquidade do inferno, em nós, nos outros, que caminho escolher? Haverá neste caso um jogo iterativo de escolha do “mal menor” que se renova a cada segundo que passa? Para que fogueira deveremos arremessar os toros de madeira lúbrica à espera de ser lambida? Sustentar o fogo de uma amizade volúvel ou avivar lume cujas labaredas são meras manifestações de uma angústia que advém da terrível agnição dos nossos medos e distorções do espírito, outrora em estado latente, hoje alimentadas pelo rugido do silêncio do isolamento?
Abro livros com uma avidez estonteante para neles encontrar as chaves que permitam descodificar e validar o meu estado de alma, como se um todo emaranhado de caracteres se combinasse no momento exacto em que os meus olhos indagadores cruzam vorazmente esse conjunto estruturado de palavras. Recorro, pois, a Orwell e ao seu extraordinário ensaio “A Prevenção da Literatura” (1946), que parte da discussão da Areopagitica (1644) de Milton, como denúncia de todas as formas de totalitarismo que cerceiam a liberdade de expressão, intelectual e criativa. Volvidas as primeiras páginas, Orwell cita o refrão de um velho hino religioso da América puritana composto em 1873 por Philip P. Bliss (1838-1876), para demonstrar mais adiante o processo em curso da colectivização do eu, que aniquila, acima das outras artes, a literatura enquanto exercício puro dessas liberdades. O hino oitocentista baseou-se na personagem bíblica de Daniel, condenado à cova dos leões por desafiar as ordens iníquas do seu rei, Dario: «Ousa ser um Daniel, / Ousa erguer-te só; / Ousa o teu fito vincar, / Ousa dar-lhe voz.» Orwell acusa: «Para tornar este hino actual, teríamos de iniciar cada verso com a expressão “Não ouses”, já que a nossa época possui como traço peculiar o facto de os rebeldes contra a ordem vigente […] se oporem também à ideia de integridade individual.» (in George Orwell, “A Prevenção da Literatura”, Livros & Cigarros. Lisboa: Antígona, 2010, trad. Paulo Faria, p. 44).
E prossigo com Enrique Vila-Matas quando este regista no seu volúvel caderno do “deve e haver” o regresso insólito de alguém que julgara haver perdido para sempre:

«O amigo que regressou depois de um ano de ausência. Liga cá para casa só para cumprimentar e quase sem ocultar que o faz por puro compromisso. Está mais calculista do que nunca. E eu, seja como for, não faço parte do seu campo de interesses. Creio perceber que não gosta nada de mim. […] Trata-se apenas que me tem um certo afecto, mas não está interessado em mim e é muito possível que, na realidade, eu nunca tenha tido qualquer interesse para ele. Talvez se sinta melhor com gente que o admira, ou talvez melhor com outros, apenas. Não tem importância, digo para comigo. Não vejo por que razão as amizades haveriam de durar mais do que as paixões.»
Enrique Vila-Matas, Diário Volúvel, p. 250 [Lisboa: Teorema, Fevereiro de 2010, 287 pp; tradução de Jorge Fallorca; obra original: Dietario Voluble, 2008].

A descoberta das marcas já profundas de uma amizade falhada que se foi alimentando de bons momentos – que, todavia, serviram para toldar equívocos, faltas de respeito e ataques implacáveis à nossa auto-estima –, tal como o fim abrupto de uma paixão, é susceptível de infundir no nosso espírito a inevitabilidade (como um pesadelo que se repete ab aeterno) de uma longa travessia por campos de destruição surrados e sombrios, que só o será – a dura constatação desse malogro – se não assumirmos uma ruptura definitiva, sem meias medidas e dando por esgotado o crédito de sucessivos pedidos de clemência, como o fogo passional que se extinguiu, cujos agravos o tempo se encarregará de dissolver pelos difusos refúgios da memória. Para isso, para evitar esse sofrimento que não se cala com um mero pedido de explicações, oriento a minha vida para um rotundo, definitivo, interjectivo e irreversível: partir, sempre; regressar, na sua significação de retroceder, calcar os caminhos já trilhados, “nunca mais!
Ah, como era sábio Antonio Machado.
Nota: na imagem acima, reprodução de Daniel na Cova dos Leões, de Peter Paul Rubens (1577-1640), circa 1615, óleo sobre tela.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Saramago

José Saramago
(1922 - 2010)

IMPAC 2010 - Vencedor

Foi anunciado ontem, ao fim da tarde, o romance vencedor da edição de 2010 do milionário International IMPAC Dublin Literary Award. Uma vez mais (tal como ocorreu com Rawi Hage em 2008), foi premiado um primeiro romance, desta feita do escritor holandês Gerbrand Bakker (n. 1962) – que já antes se estreara na literatura infanto-juvenil – trata-se do elucidativo, para a esmagadora maioria da blogosfera lusa que não entende uma palavra sequer de neerlandês, Boven is het stil (2006), obra que foi nomeada na fase inicial por quatro bibliotecas, todas holandesas. Ainda sem edição marcada para Portugal, o romance foi traduzido para inglês em 2008 sob o título The Twin. De notar, que Bakker, para além de haver sido o primeiro holandês a vencer este galardão desde a sua fundação em 1996, derrotou, entre outros, nomes já consagrados como Christoph Hein, Joseph O’Neill, Marilynne Robinson ou Zoe Heller.

Nota: para mais informações consultar o sítio oficial do prémio.




Vencedores anteriores:
2009 – Michael Thomas – Man Gone Down
2008 – Rawi Hage – Como a Raiva ao Vento (Civilização, 2008)
2007 – Per Petterson – Cavalos Roubados (Casa das Letras, 2008)
2006 – Colm Tóibín – O Mestre (Dom Quixote, 2007)
2005 – Edward P. Jones – The Known World
2004 – Tahar Ben Jelloun – Uma Ofuscante Ausência de Luz (Asa, 2003)
2003 – Orhan Pamuk – O Meu Nome é Vermelho (Presença, 2007)
2002 – Michel Houellebecq – Partículas Elementares (Temas e Debates, 1999)
2001 – Alistair MacLeod – No Great Mischief
2000 – Nicola Barker – À Flor da Pele (Gradiva, 2000)
1999 – Andrew Miller – A Dor Industriosa (Teorema, 1999)
1998 – Herta Müller – A Terra das Ameixas Verdes (Difel, 1999)
1997 – Javier Marías – Coração Tão Branco (Relógio D’Água, 1994)
1996 – David Malouf – Recordando a Babilónia (Assírio & Alvim, 2009)

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Tratado sobre o isolamento

Querido Diário,
Ainda não encontrei a minha Alicudi, (in)felizmente. Porventura impotente para me interrogar sobre quão próximo poderei estar de mim próprio (o inferno?), eu e a natureza… sem tudo perder. (cf. epígrafe, DeLillo)
Nada Pessoal. Vi a desolação interior de Urszula Antoniak e lembrei-me do inefável “Gerardo” (Renato Carpentieri), correndo como um louco, fugindo da isola, gritando, enconsta abaixo, enquanto o ferry soltava amarras:
«Televisione! Ascensore! Telefono! Acqua calda!»
Caro Diário,
Distancio-me. Vou abandonando o mundo dos afectos… álgido. Explicar-te-ei em nova entrada… uma teoria do equilíbrio?
Por enquanto vejo-me ao espelho, esquadrinho o meu rosto em busca de uma realidade alternativa, paralela e intermutável, de que possa escapar assim que os meus braços caírem puxando o fio – marioneta que grita ao criador – que fará soar o alarme:

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Beat to its socks

Pode ler-se, num círculo autocolante aposto à capa da edição portuguesa de mais uma entre dezenas de biografias e livros de memórias sobre o pai beatnik Jack Kerouac, a seguinte frase: «Primeira biografia em português» a rodear o nome do autor biografado, que surge estampado a vermelho e encimando o recorte vazio dos emblemáticos sinais de trânsito que demarcam as estradas norte-americanas.
Apesar de a edição brasileira do mesmo livro datar de 2007, não belisca de forma alguma a veracidade da frase promocional. Na realidade, e nos dias que correm, também no Brasil é a única biografia de Kerouac disponível na língua de Camões.
Para quem conhece outros livros versados sobre a vida do autor de Pela Estrada Fora, para além de alguns factos que, à custa da reiteração, fazem parte do folclore que rodeou aquele bando de desordeiros, toxicómanos, bêbados, pederastas, criminosos (também escreviam livros e pintavam), e que são do conhecimento de alguém com o mínimo interesse na coisa literária, especialmente na literatura americana da segunda metade do século XX, o livro de Yves Buin é uma síntese de biografias de maior fôlego – cito as do lynchiano Barry Gifford e a de Gerald Nicosia, que aliás são profusamente referenciadas por Buin ao longo do texto; como os testemunhos oculares escritos pelos companheiros de viagem do próprio biografado, também eles parte integrante do ruidoso movimento Beat: destaco, neste caso, as obras de John Clellon Holmes ou as de Joyce Johnson (Glassman), assim como as referências cruzadas da omnipresente Carolyn Cassady (mulher de Neal Cassady durante quinze anos e mãe dos seus três filhos – o inspirador do magnum opus de Kerouac, na pele de “Dean Moriarty” – e vértice de um sórdido triângulo luxurioso completado por aqueles).
A obra apresentada por Buin é um apanhado, como uma súmula académica pronta a servir de única base de estudo ao estudante mais indolente, da tortuosa biografia de Kerouac. O livro do pedopsiquiatra francês – e é curioso o prefixo profissional, já que, no auge do movimento cultural retratado, o biógrafo poderia ter sido de uma utilidade ímpar pelos diversos traumas decerto infundidos por aquele bando a inúmeros potenciais clientes – em nada acrescenta ao já publicado, para além de, por um lado e porventura num esforço de síntese, funcionar como um repositório de nomes sem qualquer referência biográfica (prática comummente conhecida por name dropping, que pode ser bem mais viciante que o consumo de yage), e, por outro, se tratar de um texto cronologicamente confuso, sem um marco histórico definido, com recurso a analepses e prolepses consecutivas, que por vezes faz distar dois parágrafos em duas ou mais dezenas de anos. E para dar o remate final poderia trazer à colação a objectividade do investigador que, na prática, sai prejudicada por uma longa narrativa que espremida se assemelha a uma espécie de elegia ao inocente mago literário canuck, apesar de nela se evidenciar uma posição íntima, como um severo ralhete paternalista, de censura pelos excessos cometidos.
Mas o pior não está no texto publicado originalmente pela Gallimard em 2006. A sua edição portuguesa é um verdadeiro desastre: uma tradução miserável, o que indica uma revisão literária ausente ou negligente. Ao longo das trezentas páginas não há um par que não escape a, pelo menos, um erro ortográfico e/ou de sintaxe, e até a um enxame de erros nitidamente tipográficos. É simplesmente inadmissível e ultrajante para o leitor luso, aquele que, em vias de extinção, gasta os seus parcos recursos na aquisição de uma obra com esta especificidade literária, apresentar um livro cujo chorrilho de asneiras torna quase impraticável a sua leitura. Se há casos em que mesmo uma má tradução não implica inexequibilidade da leitura, este seguramente que não é um deles. Muito do que foi dito nos parágrafos anteriores poderá, admito, advir do estado de irritação crescente à medida que me fui embrenhando no livro – erros de género e de número, então, são aos magotes, assim como, é assaz perceptível uma espreitadela, talvez à laia de muleta, na edição brasileira, bem patente no emprego de alguns termos apenas usados por terras de Vera Cruz. Aos responsáveis da editora atrevo-me a lançar um desafio: retirem, rápida e prontamente, a 1.ª edição do mercado, façam uma revisão literária, remodelem a capa com a aposição de uma frase do género “nova tradução” ou “2.ª edição revista”.
A beatitude lusa compadece-se destes casos, sem que se vislumbre qualquer hipótese de usar o qualificativo como um catalisador do engrandecimento do espírito, como defendia Kerouac e Clellon Holmes para a sua embrionária geração; talvez fosse preferível começarmos por adoptar e a adaptar, de uma vez por todas, como uma fatalidade, a origem do termo criado, em primeira mão, pelo beatnik Herbert Huncke, neste caso como a nação estéril, derrotada ou prostrada: beat to its socks.
Referência bibliográfica:
Yves Buin, Jack Kerouac – Biografia. Lisboa: Bertrand, Abril de 2010, 301 pp; tradução de Ana Godinho; obra original: Kerouac, 2006.

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Decepção

Princípio de 2010. Ainda mal acabara a época consumista da quadra natalícia, aproveitada pelo meio editorial para os lançamentos das mais retumbantes novidades literárias em carteira, após o aquecimento outonal pós-férias, e já se anunciavam as obras que, com as andorinhas (e insisto nisto, com os malfadados pólenes, que enfraquecem, pelo sofrimento, a minha certeza sobre a necessidade desta passagem terrena), chegariam aos escaparates das nossas livrarias. Um dos anunciados e mais aguardados era o mais recente romance do escritor irlandês (publicado em 2009), muito aqui da casa, Colm Tóibín, Brooklyn, sob a chancela da Bertrand.
Aguardei pelo dia 21 de Maio. Comprei o livro. Deixei de lado as potencialmente distractivas leituras paralelas. Encetei a leitura e no dia seguinte agarrei-me de novo aos livros que abandonara. Fosse eu presidente do Supremo Tribunal de Justiça e dir-vos-ia que li Brooklyn às “bochechas” – expressão que zarpará, pela força do consuetudinário, do idiolecto da quarta figura soberana da nação rumo à riqueza semântica da língua portuguesa –, enfastiado, a espaços nauseado pelo descomedimento melodramático, que, em suma, mereceu três estrelas no meu guia bibliófilo de novidades literárias, não só pelos laços afectivos que criei com o autor através da leitura das suas obras, que não se dissolvem por um ou dois desatinos ou delírios literários do autor (o número reduzido dá-me esperanças de uma brevíssima transitoriedade do novo estilo), mas também porque a estrutura de base do romance em causa não me deixou de todo desconfortável; o problema está no seu enchimento, mera adiposidade soberanamente viscosa – e a capa da edição portuguesa em nada auxilia o conteúdo (na imagem) –, que o autor, sobretudo, do extraordinário O Mestre (The Master, 2004), mas também de A História da Noite (The Story of the Night, 1996) e de O Navio-Farol de Blackwater (The Blackwater Lightship, 1999), não habituou o seu leitor indefectível.
Curiosamente, com Brooklyn, Tóibín venceu o Costa Novel Award de 2009 (antigo Whitbread) e foi semifinalista (entre 13 romances) do Booker Prize de 2009.
Por publicar em Portugal continua o seu livro de contos, editado originalmente em 2006, Mothers and Sons, que, a demorar mais um pouco, levar-me-á à derrogação do meu (questionável) critério de só ler em português*, fundado na leitura como eminente exercício de prazer.
Bom, regressei com deleite e alívio ao ziguezaguear de Vila-Matas, e aos ensaios de inexequibilidade político-filosófica de Orwell na sua última colectânea editada entre nós pela Antígona.
Nota: *Por vezes um masoquismo, que no caso em apreço, se elevou ao paroxismo do martírio de São Sebastião, mas com os fácies sereno de Botticelli (talvez pelo conhecimento que advém do efectivo não cometimento de um erro de sintaxe), mas que, na verdade, tira a paciência a um santo: refiro-me à locução verbal “deve de ser”, repetida amiúde e sem melindre no texto traduzido.
Referência bibliográfica:
Colm Tóibín, Brooklyn. Lisboa: Bertrand, Maio de 2010, 253 pp; traduzido por C. Santos (não, não se trata do concessionário da Mercedes-Benz em Portugal); obra original: Brooklyn, 2009

segunda-feira, 31 de maio de 2010

A Cin-Cinemateca

Nunca um defeito – que me merece todo o respeito, tal como um excesso, desde que não me fodam com patranhas – me pareceu tão adequado para qualificar a novela arrastada, burlesca, pobrezinha, em suma, epítome da lusitanidade, sobre a “vinda/não-vinda” da Cinemateca Portuguesa – Museu do Cinema para o Porto. Somos pobres, provincianos e estamos curvados, receptivos (faltam as feromonas), perante o poder ditado pela Capital. O Bénard, semideus, não queria, logo pelo dom emanado dos miasmas além-túmulo não se faz – como um oráculo tenebroso, lançando gritos, aflições e pragas através da corrupção da carne e da vetustez do espírito.
Sin Cinemateca – é como nos tratam, como bando de espanhóis que enchem os bolsos a uma corte de subsidiados que levantam o nariz e apontam o dedo, clamando por ventos e tempestades contra qualquer iniciativa que lhes roube a chama sagrada da cultura. E cá continuamos, no enquadramento bucólico do porto, como o Ícaro de Brueghel de cabeça e tronco mergulhados nas águas cediças, de traseiro virado ao deus iracundo pelo arrojo da sugestão – nem sequer houve tempo para o roubo da chama eterna que ilumina aquelas cabeças olímpicas, supra-sumos da intelectualidade e agentes exclusivos da cultura.
Basta olhar para a programação, e deixar destilar a inveja que me invadiu, arrasadora e pérfida, pela constatação da sua excelência, embora à custa da depredação dos corpos exauridos das regiões mais pobres da Europa a 27 – e, nesse momento, surge a ira pela diferença abissal entre a sumptuosidade asiática da Capital macrocéfala e os cenários de devastação humana que me rodeiam. Pecador sem remissão.
Oh, e como a Sra. Dra. (por lá tratam-se todos assim, pelos títulos, a que nem as salas de projecção conseguem escapar; esse novo-riquismo, snob, sine nobilitate, a jactância pequeno-burguesa, o triunfo dos porcos que finalmente se acham símiles dos humanos no poder), investida daquela sua farpa graciosa, em que tartamudeando, faz as suas piadinhas demagógicas e atestadas de soberba:

«Houve um abaixo-assinado [sobre a criação de um pólo da Cinemateca no Porto], como sabe. E acontecem algumas projecções na Fundação de Serralves em que, segundo me disseram... Por exemplo, no ciclo dedicado a Pedro Costa, não sei se o realizador se alguém por ele, perguntou, perante o número exíguo de espectadores, se eles estavam ali em representação dos 4970 signatários.»
Maria João Seixas, Ípsilon, 28/05/2010 (em entrevista a Kathleen Gomes).
Ciclo, mas que ciclo? O extinto preparatório? Um cripto-ciclo com duas projecções duas (Ne change rien de 2009, e O Sangue de 1989) num auditório que não reúne as condições necessárias para uma projecção cinematográfica de qualidade (visual e sonora) e minimamente confortável?
Não há salas cheias, sem se readquirirem os hábitos que se perderam, ou que nos foram roubando. A outrora considerada cidade ibérica com maior número de cinéfilos, vai-se divertindo com os popós nos Aliados e na Boavista (com aplauso de veneração da Capital), as lantejoulas brejeiras e revisteiras à Praça D. João I e o gordo dos concursos à Sá da Bandeira. E chega.
E continuo a olhar para o programa, e a ira e a inveja consomem-me pelos trezentos quilómetros de distância.
Sin-Cinemateca. Para os mais eruditos, latinistas, Sine-Cinemateca. Besuntai-vos com ela e com as soluções de compromisso com os mortos. Bastava um arquivo digital que, com o dinheiro de todos nós, replicasse no Porto e noutras cidades com um razoável número de cinéfilos (Coimbra, Braga ou Vila Real, por exemplo), o programa exibido na Barata Salgueiro.
Polanski, Spielberg, Visconti e… Mário Barroso, uma nota cómica (a talho de foice)
A Cinemateca promoveu uma pequena e curiosa iniciativa (ainda em realização) denominada “Os Filmes dos Presidentes”, que se enquadra nas comemorações do Centenário da República, nesse sentido «a Cinemateca entendeu convidar quem ocupa e ocupou o mais Alto Cargo da República para a realização deste Ciclo, apresentando um filme da sua escolha.» Eis a selecção:
  • Cavaco Silva escolheu O Pianista (The Pianist, 2002), de Roman Polanski;
  • Jorge Sampaio elegeu o grandioso O Leopardo (Il Gattopardo, 1963), de Luchino Visconti;
  • Ramalho Eanes optou pelo mais prosaico e militarista O Regaste do Soldado Ryan (Saving Private Ryan, 1998), de Steven Spielberg;
  • Mário Soares, bem ao seu estilo, laico e republicano (agora fala-se muito da ética desta última), sobrinhou (foi bastante papista) O milagre segundo Salomé, do realizador português Mário Barroso.
Como diria alguém que conheço e muito prezo: uma beleza!

sábado, 29 de maio de 2010

Temor

Ishiguro teve sorte, ou procurou-a, no momento em que vendeu os direitos do seu romance Os Despojos do Dia à indústria cinematográfica. Não sei se os vendeu bem, sei, no entanto que, por mais ou menos ponderado que se haja revestido o seu o acto de cedência, a obra-prima, Booker Prize de 1989, ficou na melhor das mãos; foi arrebatada por uma das uniões mais bem-sucedidas no escasso mundo dos verdadeiros artesãos da sétima arte, a Merchant Ivory: James Ivory realizou e Ruth Prawer Jhabvala escreveu o argumento. Independentemente dos prémios, das críticas e das receitas, Os Despojos do Dia (The Remains of the Day, 1993) – a sua beleza cénica, o seu bem doseado pathos (veja-se a epítome da fleuma e da estrita observância no cumprimento do dever em “James Stevens”), o delicado rendilhado da trama, o par eterno Emma T. & Anthony H. – ficará de forma indelével ligado ao firmamento da indústria cinematográfica. A ele já voltei meia dúzias de vezes sem que se houvesse manifestado em mim qualquer sinal de cansaço.
Kazuo Ishiguro pertence ao pequeno grupo de escritores britânicos nascidos nos anos 40 e 50 do século passado cuja bibliografia dificilmente chegará à dezena nos tempos mais próximos. É um perfeccionista, e essa qualidade detecta-se em todas as suas obras. Entre a publicação das suas histórias, o autor de origem japonesa escreveu dois argumentos para cinema para um filme de Guy Maddin (A Canção Mais Triste do Mundo; The Saddest Music in the World, 2003) e outro para James Ivory (A Condessa Russa; The White Countess, 2005), ambos premiados mas bem longe dos holofotes do sucesso. Hoje, sabe-se que o melhor romance (opinião pessoal) (Nunca Me Deixes; Never Let Me Go, 2005) do mestre Ishiguro está a ser transposto para a sétima arte – encontrando-se já na fase de pós-produção, com estreia marcada nos Estados Unidos para os primeiros dias de Outubro deste ano – pelo génio retorcido do argumentista preferido do “blasonado sem causa” Danny Boyle, Alex Garland (n. 1970). A realização ficou a cargo do norte-americano Mark Romanek (n. 1959), que para além de haver dirigido apenas duas longas-metragens ao longo da sua carreira, que começou com a comédia Static de 1985, e terminou com o mais que medíocre projecto de thriller Câmara Indiscreta (One Hour Photo, 2002), realizou uma série de telediscos para Bowie, Morrisey, Madonna, Janet e Michael Jackson e para bandas como os R.E.M., Weezer, Sonic Youth ou os Red Hot Chili Peppers.
No elenco, já disponível na base de dados do IMDB, constam nomes como Carey Mulligan no papel da doce “Kathy”, Charlotte Rampling (que, atendendo às características da personagem, ficará bem no papel da inescrutável “Miss Emily”), a leighiania Sally Hawkins e a inevitável Keira Knightley, para além do jovem grande actor Andrew Garfield – os sentimentos mistos que me despertaram, também não auguram nada de bom.
Um temor apoderou-se de mim. E é sempre assim, quando uma obra literária que me encheu as medidas é adaptada ao cinema. Ainda bem presente na minha memória está a adaptação desastrosa em 2007 do melhor romance de Ian McEwan, Expiação (Atonement, 2001) pela dupla Joe Wright & Chris Hampton, uma película que parecia filmada com um scanner (remissão para dois textos aqui escritos) que retirou toda a beleza subliminar da já canónica obra de McEwan.
Só me resta esperar para nestas páginas, se ainda por cá andar, poder zurzir na obra fílmica que se anuncia, tal é a energia acumulada pelos sentimentos de temor/cólera. Porém, uma coisa afigura-se-me como certa, nestes casos qualquer lampejo de brilhantismo pode ter o efeito pernicioso de fazer soltar a minha veia encomiástica, tão baixas são as expectativas – pernicioso? Porquê? Se a imagem que possais ter deste que vos escreve não me preocupa…
Nota: no ficheiro fotográfico acima (da esquerda para a direita), Keira Knightley (“Ruth”) e Carey Mulligan (“Kathy”) no local das filmagens.

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Cinefilia

Do filme Filadélfia (Philadelphia, 1993), de Jonathan Demme, com Tom Hanks (como Andrew Beckett) e Denzel Washington (como Joe Miller):
Ficha Técnica (som):
  • Ópera: Andrea Chénier (1896)
  • Compositor: Umberto Giordano (1867-1948)
  • Soprano: Maria Callas (1923-1977), como Maddalena di Coigny
  • Ária “La Mamma Morta”, 3.º Acto
  • Gravação: Ao vivo, Scala de Milão, 1955 (EMI Classics)
  • Maestro: Antonino Votto (1896-1985)
  • Orquestra: Scala de Milão

quinta-feira, 27 de maio de 2010

O Peixe-Gato e a Cosmogonia de um Mancuniano

Júbilo e resignação. Uma alegria desmedida quando, por mero acaso, descobri que a obra-prima do realizador britânico Mike Leigh, Nu (Naked, 1993) foi finalmente editada em DVD em Portugal*, seguida da assunção da triste realidade materializada no conformismo que de imediato se abateu sobre o meu estado de espírito volátil – arriscando-me a citar Dalí através de Orwell, citação assestada em obra não escrita por Rui Santos, que «toda a vida quando vista de dentro, não passa de uma série de derrotas» –, porque nasci neste canto geográfico da finisterra, onde tudo o que potencialmente poderá ser apreciado como arte pertence a dois tipos de categorias de acesso restrito. A primeira categoria tem um cariz mais prático, físico, de mera locomoção; e a segunda resulta da estrutura da mentalidade de um povo: filistina, utilitarista e consumista. A primeira porque, pelos custos de transacção, se constitui numa ínfima minoria a parte dos portugueses que pode deslocar-se ao concelho (e não me enganei na circunscrição administrativo-geográfica) que absorve 63% do bolo monetário reservado à cultura – é aí que quase tudo acontece –, criando os necessários hábitos de consumo dos bens e das manifestações culturais; a segunda manifesta-se na falta de edição (sob que forma for) de marcos referenciais da cultura universal, por cedência ao imediatismo do espectáculo pirotécnico de um pequeno conjunto de baboseiras de valor acrescentado nulo, ou melhor, de depreciação progressiva de alguma intelectualidade residual que ainda subjaz findo o período ontogenético.
Todavia, mesmo considerando todas as dificuldades acima referidas, celebremos o pouco do muito que poderia ser feito. Finalmente, iremos ter as deambulações do mancuniano em Londres, Johnny (a grande interpretação do actor britânico, nascido em 1963, David Thewlis) e as suas asserções existencialistas derramadas nos escombros da degradação da sociedade ocidental contemporânea. Um filme para ver e rever, e a ele voltar regularmente.
Por último, o peixe-gato lascivo já tem distribuição garantida em Portugal. As tais cabriolas ronronantes aquáticas que fazem parte do filme vencedor da Palma de Ouro da edição deste ano do Festival de Cannes, anunciado aqui, e que se apresenta sob o título O Tio Boonme que se Lembra das Suas Vidas Anteriores, realizado pelo tailandês Apichatpong Weerasethakul*. Entretanto, fica o aviso para as senhoras (e não só) mais sensíveis a este tipo fauniano de frenesim interclassista: cuidado com as imitações e deixem de lado o espadarte por este poder vir a revelar-se como uma experiência potencialmente mais pungente. E isto, apesar da premência de novas formas de alcançar receitas turísticas para a Madeira – por favor, deixem, neste aspecto, a caridade de lado (ainda que me assemelhe a um bronze que soa ou a um címbalo que retine**…)
Notas:
* saúde-se a Midas Filmes por haver permitido, através da sua actuação enquanto agente de cultura, a comunicação destas duas novidades.
** 1 Coríntios 13:1

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Rui Flaubert Santos

Fui alertado, enfim, para um momento televisivo único, na óptica dos interesses do Rui Santos, designadamente, o Rui Santos citou Gustave Flaubert a propósito das recentes vitórias de José Mourinho. O acontecimento desportivo do ano em Portugal foi forjado em directo na bigorna da erudição, para a meia dúzia de pessoas (não contando com o Barbas, o Diabo de Gaia, o Advogado Incendiário e o Lampião de Canelas, estes últimos vulgarmente conhecidos por Pragal Colaço e Ricardo Costa, respectivamente) que ainda aguenta assistir a 23 segundos consecutivos daquele programa que vai para o ar na Benfica TV2… perdão, na SIC-Notícias todos os domingos à noite. O assunto, que decerto proveio de uma inspiração oracular, era o tal treinador bicampeão por um clube português – presidido por essa pessoa desprezível e monstruosa, chamada de Pinto da Costa –, vencedor do campeonato e da Liga dos Campeões logo, contra a óptica dos interesses dos invejosos, no ano da “fruta” e do “café com leite”, 2004 – ainda houve tempo, enfim, na óptica dos interesses da hermenêutica comportamental, designadamente de classificar de folclóricas (!?) as vitórias de Mourinho no FC Porto. Aquela, enfim, cabeça...
Na óptica dos interesses de Flaubert, eu estaria designadamente preocupado, porque, “ai, ai, ai” (1.ª andamento, adágio), “ai, ai, ai” (2.º andamento, andante con grazia ed intimissimo), “ai, ai, ai” (3.º andamento, vivace giocoso), o paradigma da verdade literária eclipsou-se na óptica dos interesses da verdade, ela mesma, para o paradigma da “verdade desportiva”, aquilo que, na óptica dos meus interesses (os dele), apelido de verdade encarnada ou, nomeadamente, enfim, entunelada.
Mais grave ainda, o enfarpelado da brilhantina do comentário desportivo nacional, cita-se a ele próprio para citar o eminente escritor francês oitocentista. Ou seja, na óptica dos interesses do ego, dele próprio, escreveu um livro (o que por si só já é de levar às lágrimas pelo choque – ele escreve! Na óptica dos interesses de John Carpenter quando realizou em 1988, nomeadamente, enfim, Eles Vivem) que contém uma citação, designada, nomeada e efectivamente do autor natural de Rouen retirada de… o Citador. Senão, experimentem perguntar-lhe de que obra, opúsculo, panfleto, ou até de que pedaço de papel higiénico manuscrito, retirou ele (o Rui na óptica dos interesses dos Santos) a seguinte frase, de uma originalidade inigualável (pelo menos a costureira Alice de Caneças, a tal Lili, recita-as de sua lavra):

«Para se ter talento é necessário estarmos convencidos de que o temos.»

O que no caso do citador em segunda mão em apreço, não é, designada e manifestamente, suficiente, na óptica dos seus interesses, por muito incomensurável que, enfim, fosse o seu convencimento.
Ver aqui, na óptica dos vossos interesses: os 90 minutos completos (sacrificai-vos, designadamente, ó vítimas da fome), ou, enfim, designadamente ligar-se ao minuto 6 mais 15 segundos (nota de tristeza: termina, enfim, aos 6 minutos e 38 segundos).
E logo hoje, que se comemoram os 6 anos dos feitos heróicos que culminaram no Estado da Renânia do Norte-Vestfália, em Gelsenkirchen.
Nota: este artigo foi elaborado, enfim, na óptica dos interesses do novo acordo ortográfico-gramatical rui-santês (em vigor por decreto balsemónico todos os domingos das 23 às 24 horas, designadamente no canal 5 da TV Cabo).

domingo, 23 de maio de 2010

Palma de Ouro – Cannes 2010

Como seria de esperar, Tim Burton e os seus pares premeiam um filme nos domínios do fantástico, repleto de criaturas monstruosas, que toca o temas da transitoriedade da morte, fundamentada na transmigração das almas e na reencarnação:
Lung Boonmee Raluek Chat (título transliterado que, em tradução livre, significa Tio Bonmee, Aquele que Recorda as suas Vidas Passadas), do realizador tailandês Apichatpong Weerasethakul.
Do realizador apenas conheço o sofrível, pseudomístico, entediante e tenuemente homoerótico, Febre Tropical (Sud Pralad, 2004), tendo vencido o Prémio do Júri na edição de 2004 do festival francês.
Os críticos das páginas especializadas do indieWIRE e do Salon acertaram no vencedor tendo-o elegido como o melhor filme na competição oficial. No entanto a película originária da Tailândia está longe de ser consensual. Ouvido há coisa de 20 minutos no canal France 24, pela boca da crítica cinematográfica norte-americana Lisa Nesselson: “Como é que um filme em que existe uma cena de sexo entre uma mulher e um peixe-gato pode ganhar a Palma de Ouro?
Eis o trailer, enquanto aguardamos (porventura em vão) pela sua distribuição em Portugal:
Nota: ver aqui ou aqui os restantes vencedores.

sábado, 22 de maio de 2010

No dia em que Sirk e Visconti se fundiram na tela

Uma inquietação sobre a realidade que chegou até mim em caracteres negros nas edições do dia dos matutinos lusos – podia haver-lhe chamado uma inflamação, não fora a primazia comodista e superficial dada à emanação lúbrica de pólenes fecundadores que, afagados pelo vento, acasalam com os meus olhos e as minhas mucosas nasais – sobreveio quando li que foi criada a primeira célula artificial em laboratório por um tal de Craig Venter. E se uma inflamação é potencialmente mais abrasiva que uma inquietação, não há nada como fazer cair sobre o assunto um manto de silêncio, à laia de um Donoso, escarninho, expondo ao ridículo o reaccionarismo literário de antanho e por curiosa anteposição ao seu revivalismo defendido por tão ilustre gente; aquela turba que, ainda hoje, beija os pés ao sumo-sacerdote James do Bosque – reduzido à condição de poeira episódica pelo canonizador Bloom, que desabrocha (e não, não me refiro aqui ao cúmulo da inocência) e é de imediato varrida pelo vento da irrelevância, concluindo pela inexistência do tal do Bosque na crítica literária, nem para corroborar o arcaico princípio cartesiano.
Deixemos a botânica, o Bosque a Desabrochar, as rememorações de Donoso, o realismo e a lanugem das gramíneas e voltemos ao manto de silêncio.
Entrei numa das vinte salas do UCI para assistir a mais um filme não-americano. Se na semana passada foi o claustrofóbico israelita, vencedor do último Leão de Ouro em Veneza, para esta reservei um italiano do, para mim, quase desconhecido realizador siciliano Luca Guadagnino (n. 1971), Eu Sou o Amor (Io sono l’amore*).
Decorridas duas horas, saí da sala como uma sensação estranha de enfartamento – não encontro melhor descrição para a espécie de mal-estar de que parecia padecer. Ainda os olhos se habituavam à luminosidade exterior e dei por mim a divagar sobre se tinha acabado de ver uma película realizada por um mutante que houvesse assumido, por um lado, a brusquidão, a violência psicológica, os zooms repentistas de Visconti e, por outro, o melodrama vívido, delirante, em technicolor de Sirk, como Imitação, antes de se despedir da América que o acolheu durante os anos do terror nazi. Focando na parte italiana da mimese (sintetizada no genoma do mutante), há, de facto, laivos de O Leopardo (Il gattopardo, 1963) como alguns lhe apontam. Todavia o que afluiu à minha mente cinéfila foi sobretudo o ímpeto e o delírio de Os Malditos (La caduta degli dei, 1969) e o lado mais áspero de Violência e Paixão (Gruppo di famiglia in un interno, 1974). Mas também há Haynes – talvez um dos braços do mutante, ou mesmo parte do tronco – e o seu premiadíssimo Longe do Paraíso (Far from Heaven, 2002).
Tilda Swinton é soberba. Arrisco-me mesmo a proferir uma sentença abonatória: neste momento, é a melhor actriz em actividade. Guadagnino é espalhafatoso na cor, nos grandes planos, na, a título de exemplo, duradoura cena de sexo quase explícita, numa, de certo modo estafada, metáfora imagética com abelhas, insectos, flores e polinizações, de onde sobressaem os cumes alcantilados das montanhas envolventes; é, em suma, um abusador do simbolismo, da mensagem subliminar que qualquer mente mais atenta não deixará de tentar descodificar, culminando com o plano da “caverna obscura”, já depois da ficha que anuncia o elenco e que os pressurosos filistinos já não vêem – quais bonecos articulados que tratam os créditos finais com menor apreço que o manual de instruções de uma loção capilar. Reflexos platónicos? A renúncia à descoberta da verdade, o triunfo do amor corpóreo como paralisia e fautor do acomodamento nas trevas da caverna?
Assaltam-me, ainda agora, sentimentos contraditórios: admiração e desassossego, o entranhado, por anos de aprendizagem, horror ao melodramático e a descoberta da beleza numa cascata de emoções a brotar do celulóide.
Obra-prima? O tempo e um novo visionamento o dirão. Por enquanto, não chegarei ao cúmulo de lhe justapor o rótulo OFNI (Objecto Fílmico Não Identificado), como, directamente de Cannes e com alguma graça, escreveu Olivier Delcroix acerca do Ricky de Ozon nas páginas do Le Figaro.
Nota: *título baseado na famosa ária do 3.º acto da ópera Andrea Chénier (1896) do compositor italiano Umberto Giordano (1867-1948). No filme é usado o registo da ária interpretada por Maria Callas (gravada ao vivo no Scala de Milão em 1955), tal como aparece no momento mais dramático do filme de 1993 de Jonathan Demme Filadélfia (Philadelphia), cujas imagens surgem simbolicamente no leito conjugal de Emma (Swinton) e Recchi (Delbono). Do libreto, os últimos versos:
«(…)Eu sou o amor, eu sou o amor, amor,
E o anjo aproxima-se, beija-me,
E é o beijo da morte!
O corpo de moribunda é o meu corpo.
Então leva-o.
Eu sou já uma coisa morta!» [versão: AMC]

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Luz. Trevas. Impotência.

[Eis a minha contribuição para o exercício de memória sobre os Joy Division, notavelmente organizado pelo Manuel A. Domingos no seu blogue sob o título Licht und Blindheit (inspirado no EP de 1980, com número limitado de cópias, da pequena e selectiva editora francesa Sordide Sentimental, e no ensaio de um dos seus fundadores, Jean-Pierre Turmel), a propósito da passagem dos 30 anos da morte trágica de Ian Curtis.]
Contacto
Fim dos anos 80. Vivia nas guitarras estridentes de Joey Santiago, nos gritos animalescos de Iggy, nas ondas emplumadas de Bowie, na voz cavernosa de Murphy – curioso trio este, a iguana, o camaleão e o vampiro –, e ao lado, como meio libertador da overdose sonora dos incessantemente repetidos, repousava o quarteto de Manchester, usado mas não abusado, ouvido por letargia, porém não cravado na memória de uma mente febril pré-universitária. Talvez o Substance, compilação de 1988.
Foi S. que me iniciou no mundo sepulcral da voz cava de Ian, das batidas hipnóticas e continuamente repetidas numa caixa de ritmos de Morris, dos abalos sísmicos provindos do baixo de Hook, da melodia – foram sempre acordes melódicos – que se soltava da guitarra de Sumner: “Transmission”, “Passover”, “Dead Souls”, “She’s Lost Control”, “Leaders of Men”, “Shadowplay”, “Novelty” e “A Means to an End”; mesmo antes de “Komakino”, “Love Will Tear Us Apart” ou de “Atmosphere”. Mas vão sendo todas repetidamente queimadas pelo laser a pulsar entre “zeros” e “uns”.
Foi S. na sua voz carente, doce e afectada, entre afagos e efervescências sensuais, que me levou a trocar o pançudo Charles Thompson por Curtis no pedestal cimeiro dos veneráveis. Descíamos as escadas daquele bar escavado no subsolo da capital transmontana, mas já antes corríamos febrilmente rumo à boca do monstro que soltava os sons de um baixo gótico cuja reverberação sentíamos cá fora sob os nossos pés, que lá dentro parecia ressumar – lágrimas espessas de suor delirantes – daquelas paredes graníticas cavernosas: BarBaros, foi esse o local da epifania. Entre vapores alcoólicos e gestos desregrados de lubricidade, fui aluno competente da história narrada em surdina sobre os factos que conduziram o quarteto para o abismo e para loucura necrófila que se lhe seguiu, deturpando comportamentos, ocultando factos, gerando patranhas pós-modernas, deificando excessos que não eram tolerados, pela sede mercantilista que se comprazia em vender os miasmas da morte em pacotes factícios.
Ingestão
Num artigo publicado por Jon Savage no The Guardian em 2008 por esta ocasião de hábito rememorativo, todavia a propósito da estreia do documentário Joy Division escrito pelo próprio e realizado por Grant Gee, o escritor, jornalista e musicógrafo britânico faz uma dissecação do interior de Curtis e dos seus estados de alma, concluindo pelo seu medo primordial do isolamento, que ressalta das letras febrilmente marcadas a maiúsculas, entre a luz ofuscante e o desespero sombrio, na dialéctica luz e trevas, que se sintetiza na urgência em sentir o toque e o calor humanos.
Em suma, apesar da miríade de perspectivas que cada fã tem das atribulações do sujeito idolatrado, sempre entendi que foi num violento sentimento de impotência que a vida e o tempo de Ian se fizeram curtos, que de alguma forma apura e explicita todos os medos, apreensões e enfados, ou talvez, rivalize com a dilacerantemente percebida auto-estima nula.
O impulso corajoso da emancipação prematura, foi-se aniquilando com a necessária obediência a um ritual para pôr uma máquina a funcionar, que se foi montando à volta dele à porta de uma sala de espectáculos fechada que acabara de receber o Camaleão.
Ian era o fulcro, a mola impulsionadora, o vórtice aglutinador do único caminho para o sucesso, e ele sentia-o como um fardo que pesava toneladas, que o arremetia para as trevas de um poço húmido e profundo – afinal, de onde partiu toda a engenharia do processo criativo.
Dando um pequeno salto histórico. Desencadeou-se a sua epilepsia. A vizinhança da digressão para os Estados Unidos foi o catalisador de um cadinho efervescente de circunstâncias interiores rumo à catástrofe. A impotência perante um futuro antecipado como esmagador debaixo das luzes da ribalta, a conciliação entre a vida provinciana e anódina com Deborah e Natalie (n. 1979) e o arrojo de Annik, entre o prazer de compor e sobretudo de escrever, e a entendida função de pedra angular de uma entourage que, sem ele, se desfaria como um castelo de cartas – como, aliás, se veio a provar: Hook, Morris e Sumner, mas também Gretton e Wilson, e por fim a própria Annik. Os Joy Division esfumaram-se numa nuvem de cinzas – tão bem fotografada por Corbijn no teledisco apocalíptico de “Atmosphere” (1988), como no biopic Control (2007) –, e com o seu fim terminou para sempre um sub-estilo que não era pré-, pós-, ex-, proto- (juntem-se-lhes os prefixos que quiserem): pop, rock, punk, gótico, new wave, electrónico, garage, e por aí fora.
Depois da digressão continental nos primeiros meses de Janeiro de 1980, veio o ritmo inexorável do estúdio. Concluiu-se o segundo e último álbum do efémero grupo: Closer. O mais arcano, inexpugnável e transcendentalmente inacessível a não iniciados pela, talvez única, corrente esotérica que nasceu de geração espontânea e cujo grão-mestre morreu no momento em que aquela se erigiu no vento de Macclesfield e se difundiu pelo mundo através das ondas etéreas de uma sonoridade irrepetível.
Gozo
Entre Closer (“mais próximo”, com o frontispício tumular baseado numa fotografia de Bernard Pierre Wolff no Cemitério Monumental de Staglieno, Génova) e outros dispersos surgiu “Komakino”, levando à letra após uma simples tradução do alemão “Cinema Coma”. Foi em Junho de 1980, já Ian Kevin Curtis garroteara as suas súplicas na madrugada de 18 de Maio de 1980, que aquela voz cavernosa e implacável emergiu das trevas, gravada em milhares de círculos rotativos de plástico flexível, e cantou:
«A sombra que se manteve na beira da estrada / Faz-me sempre lembrar de ti.» [versão AMC]

terça-feira, 18 de maio de 2010

30 anos - O Melhor de Sempre

Ian Kevin Curtis
(15/Julho/1956 - 18/Maio/1980)
«Human beings are dangerous and they call me in the dark.»
(verso retirado da letra de "At A Later Date" (1977), Warsaw)

 
Vídeo elaborado por um fã, com imagens do memorável e brilhante filme de Anton Corbijn, Control (2007):
  • Sam Riley como Ian Curtis
  • Samantha Morton como Deborah Curtis
  • Som de fundo: "No Love Lost" (1978), Warsaw

quinta-feira, 6 de maio de 2010

festina lente

«Recebia a reforma de professor, mais o pequeno rendimento de um plano de poupança livre de impostos, e ainda os juros de uma velha caderneta bancária com os números escritos em caracteres simpáticos, entrecortados e pouco nítidos.
As estações sucediam-se numa amálgama, cada ano era uma névoa atordoada. Como o tempo nos livros. Num livro, o tempo escoa-se no hiato de uma frase, muitos meses e anos. Escrevendo uma palavra, passa uma década. Não é assim tão diferente aqui fora, na idade dele, no mundo sem margens.»
Don DeLillo, Submundo, p. 240. [Porto: Sextante, 1.ª edição, Abril de 2010, 840 pp.; tradução de Paulo Faria; obra original: Underworld, 1997]