quinta-feira, 20 de maio de 2010

Luz. Trevas. Impotência.

[Eis a minha contribuição para o exercício de memória sobre os Joy Division, notavelmente organizado pelo Manuel A. Domingos no seu blogue sob o título Licht und Blindheit (inspirado no EP de 1980, com número limitado de cópias, da pequena e selectiva editora francesa Sordide Sentimental, e no ensaio de um dos seus fundadores, Jean-Pierre Turmel), a propósito da passagem dos 30 anos da morte trágica de Ian Curtis.]
Contacto
Fim dos anos 80. Vivia nas guitarras estridentes de Joey Santiago, nos gritos animalescos de Iggy, nas ondas emplumadas de Bowie, na voz cavernosa de Murphy – curioso trio este, a iguana, o camaleão e o vampiro –, e ao lado, como meio libertador da overdose sonora dos incessantemente repetidos, repousava o quarteto de Manchester, usado mas não abusado, ouvido por letargia, porém não cravado na memória de uma mente febril pré-universitária. Talvez o Substance, compilação de 1988.
Foi S. que me iniciou no mundo sepulcral da voz cava de Ian, das batidas hipnóticas e continuamente repetidas numa caixa de ritmos de Morris, dos abalos sísmicos provindos do baixo de Hook, da melodia – foram sempre acordes melódicos – que se soltava da guitarra de Sumner: “Transmission”, “Passover”, “Dead Souls”, “She’s Lost Control”, “Leaders of Men”, “Shadowplay”, “Novelty” e “A Means to an End”; mesmo antes de “Komakino”, “Love Will Tear Us Apart” ou de “Atmosphere”. Mas vão sendo todas repetidamente queimadas pelo laser a pulsar entre “zeros” e “uns”.
Foi S. na sua voz carente, doce e afectada, entre afagos e efervescências sensuais, que me levou a trocar o pançudo Charles Thompson por Curtis no pedestal cimeiro dos veneráveis. Descíamos as escadas daquele bar escavado no subsolo da capital transmontana, mas já antes corríamos febrilmente rumo à boca do monstro que soltava os sons de um baixo gótico cuja reverberação sentíamos cá fora sob os nossos pés, que lá dentro parecia ressumar – lágrimas espessas de suor delirantes – daquelas paredes graníticas cavernosas: BarBaros, foi esse o local da epifania. Entre vapores alcoólicos e gestos desregrados de lubricidade, fui aluno competente da história narrada em surdina sobre os factos que conduziram o quarteto para o abismo e para loucura necrófila que se lhe seguiu, deturpando comportamentos, ocultando factos, gerando patranhas pós-modernas, deificando excessos que não eram tolerados, pela sede mercantilista que se comprazia em vender os miasmas da morte em pacotes factícios.
Ingestão
Num artigo publicado por Jon Savage no The Guardian em 2008 por esta ocasião de hábito rememorativo, todavia a propósito da estreia do documentário Joy Division escrito pelo próprio e realizado por Grant Gee, o escritor, jornalista e musicógrafo britânico faz uma dissecação do interior de Curtis e dos seus estados de alma, concluindo pelo seu medo primordial do isolamento, que ressalta das letras febrilmente marcadas a maiúsculas, entre a luz ofuscante e o desespero sombrio, na dialéctica luz e trevas, que se sintetiza na urgência em sentir o toque e o calor humanos.
Em suma, apesar da miríade de perspectivas que cada fã tem das atribulações do sujeito idolatrado, sempre entendi que foi num violento sentimento de impotência que a vida e o tempo de Ian se fizeram curtos, que de alguma forma apura e explicita todos os medos, apreensões e enfados, ou talvez, rivalize com a dilacerantemente percebida auto-estima nula.
O impulso corajoso da emancipação prematura, foi-se aniquilando com a necessária obediência a um ritual para pôr uma máquina a funcionar, que se foi montando à volta dele à porta de uma sala de espectáculos fechada que acabara de receber o Camaleão.
Ian era o fulcro, a mola impulsionadora, o vórtice aglutinador do único caminho para o sucesso, e ele sentia-o como um fardo que pesava toneladas, que o arremetia para as trevas de um poço húmido e profundo – afinal, de onde partiu toda a engenharia do processo criativo.
Dando um pequeno salto histórico. Desencadeou-se a sua epilepsia. A vizinhança da digressão para os Estados Unidos foi o catalisador de um cadinho efervescente de circunstâncias interiores rumo à catástrofe. A impotência perante um futuro antecipado como esmagador debaixo das luzes da ribalta, a conciliação entre a vida provinciana e anódina com Deborah e Natalie (n. 1979) e o arrojo de Annik, entre o prazer de compor e sobretudo de escrever, e a entendida função de pedra angular de uma entourage que, sem ele, se desfaria como um castelo de cartas – como, aliás, se veio a provar: Hook, Morris e Sumner, mas também Gretton e Wilson, e por fim a própria Annik. Os Joy Division esfumaram-se numa nuvem de cinzas – tão bem fotografada por Corbijn no teledisco apocalíptico de “Atmosphere” (1988), como no biopic Control (2007) –, e com o seu fim terminou para sempre um sub-estilo que não era pré-, pós-, ex-, proto- (juntem-se-lhes os prefixos que quiserem): pop, rock, punk, gótico, new wave, electrónico, garage, e por aí fora.
Depois da digressão continental nos primeiros meses de Janeiro de 1980, veio o ritmo inexorável do estúdio. Concluiu-se o segundo e último álbum do efémero grupo: Closer. O mais arcano, inexpugnável e transcendentalmente inacessível a não iniciados pela, talvez única, corrente esotérica que nasceu de geração espontânea e cujo grão-mestre morreu no momento em que aquela se erigiu no vento de Macclesfield e se difundiu pelo mundo através das ondas etéreas de uma sonoridade irrepetível.
Gozo
Entre Closer (“mais próximo”, com o frontispício tumular baseado numa fotografia de Bernard Pierre Wolff no Cemitério Monumental de Staglieno, Génova) e outros dispersos surgiu “Komakino”, levando à letra após uma simples tradução do alemão “Cinema Coma”. Foi em Junho de 1980, já Ian Kevin Curtis garroteara as suas súplicas na madrugada de 18 de Maio de 1980, que aquela voz cavernosa e implacável emergiu das trevas, gravada em milhares de círculos rotativos de plástico flexível, e cantou:
«A sombra que se manteve na beira da estrada / Faz-me sempre lembrar de ti.» [versão AMC]

terça-feira, 18 de maio de 2010

30 anos - O Melhor de Sempre

Ian Kevin Curtis
(15/Julho/1956 - 18/Maio/1980)
«Human beings are dangerous and they call me in the dark.»
(verso retirado da letra de "At A Later Date" (1977), Warsaw)

 
Vídeo elaborado por um fã, com imagens do memorável e brilhante filme de Anton Corbijn, Control (2007):
  • Sam Riley como Ian Curtis
  • Samantha Morton como Deborah Curtis
  • Som de fundo: "No Love Lost" (1978), Warsaw

quinta-feira, 6 de maio de 2010

festina lente

«Recebia a reforma de professor, mais o pequeno rendimento de um plano de poupança livre de impostos, e ainda os juros de uma velha caderneta bancária com os números escritos em caracteres simpáticos, entrecortados e pouco nítidos.
As estações sucediam-se numa amálgama, cada ano era uma névoa atordoada. Como o tempo nos livros. Num livro, o tempo escoa-se no hiato de uma frase, muitos meses e anos. Escrevendo uma palavra, passa uma década. Não é assim tão diferente aqui fora, na idade dele, no mundo sem margens.»
Don DeLillo, Submundo, p. 240. [Porto: Sextante, 1.ª edição, Abril de 2010, 840 pp.; tradução de Paulo Faria; obra original: Underworld, 1997]

sexta-feira, 30 de abril de 2010

Notes from Brooklyn’s most cultish literary couple


Um livro de memórias sobre factos, causas e consequências de um colapso nervoso e uma obra de ficção sobre o colapso.
O dela saiu para o mercado norte-americano no mês passado. O dele sairá lá para meados de Novembro próximo.
O dela parte de uma história real sobre um estranhíssimo achaque nervoso sofrido quando proferia a elegia fúnebre no enterro de seu pai. O dele parte de um julgado pequeno achaque financeiro que redundou numa tormenta cataclísmica que pôs o capitalismo e o seus súbditos de joelhos, contado sob a perspectiva de uma variedade de narradores.
Ambos têm as suas obras editadas em Portugal pela mesma editora: a Asa.
A dela, no original com 224 páginas em formato de capa dura, estreará se a subsidiária da LeYa pretender publicar um livro seu de não-ficção (facto até hoje inédito). A dele, no original com mais 96 páginas que o dela e no mesmo formato, terá direito à já anunciada publicação simultânea mundial, tal como aconteceu com a sua obra anterior, Invisível (Invisible, 2009).
A abertura do livro de memórias dela:
«Quando o meu pai morreu, eu estava em minha casa em Brooklyn, porém apenas uns dias antes estive sentada na beira da sua cama numa casa de saúde em NorthField, Minnesota. Embora ele estivesse fisicamente debilitado, a sua mente mantinha-se perspicaz, e lembro-me de que falámos e até nos rimos, apesar de não me conseguir lembrar do tema da nossa última conversa. No entanto, recordo-me com nitidez do quarto que ele habitou no fim da sua vida. As minhas três irmãs, a minha mãe e eu pendurámos quadros na parede e comprámos uma colcha verde-pálida para que o quarto parecesse menos austero. Havia um vaso de flores no parapeito da janela. O meu pai sofria de um enfisema e nós sabíamos que ele não duraria muito. A minha irmã Liv, que vive no Minnesota, foi a única que o acompanhou no dia derradeiro. O pulmão do meu pai entrou pela segunda vez em colapso e o médico sabia que ele não sobreviveria a outra intervenção. Enquanto permaneceu consciente, embora incapaz de falar, a minha mãe telefonou às suas três filhas que viviam em Nova Iorque, uma por uma, para que todas pudéssemos falar com ele ao telefone. Lembro-me claramente de ter feito uma pausa para pensar naquilo que lhe haveria de dizer. Acorreu-me um pensamento estranho de que não deveria proferir nenhum disparate naquele momento, deveria escolher cuidadosamente as minhas palavras. Queria dizer algo de memorável – um pensamento absurdo, porque a memória de meu pai em breve se apagaria com o pouco que ainda lhe restava. Porém, quando a minha mãe lhe encostou o telefone ao seu ouvido, tudo o que fiz foi pronunciar num tom abafado as palavras “adoro-te tanto”. Mais tarde, a minha mãe contou-me que quando ouviu a minha voz, ele sorriu.»
Siri Hustvedt, The Shaking Woman or a History of My Nerves, pp. 1-2 [New York: Henry Holt, first edition, 2010, 224 pp.; tradução: AMC, 2010]
A abertura do romance dele repousa no segredo dos deuses, no entanto há umas frases publicadas pela sua editora (a mesma que a dela) que aguçam o apetite a qualquer austeriano:
«Sunset Park segue as esperanças e os medos de um conjunto inesquecível de personagens, reunidas pelo misterioso Miles Heller durante os meses sombrios do colapso económico de 2008.
Um rapaz enigmático empregado numa empresa de limpeza de imóveis no sul da Florida que fotografa obsessivamente milhares de objectos abandonados pelas famílias que foram desapossadas de suas casas.
Um grupo de jovens que ocupa ilegalmente um apartamento no Sunset Park, em Brooklyn.
O Hospital dos Objectos Partidos, que se especializou na reparação de artefactos pertencentes a um mundo desaparecido.
O filme de 1946 de William Wyler, Os Melhores Anos das Nossas Vidas.
Um actriz célebre que prepara o seu regresso à Broadway.
Um editor independente que tenta desesperadamente salvar o seu negócio e o seu casamento.» [do editor Henry Holt; tradução livre: AMC, 2010]

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Bellow ao quadrado

Foi apenas hoje que, enquanto perscrutava os escaparates de uma livraria concorrente, mais asseada, diversificada e arrumada, para somar à minha onerosa (de certo modo, utópica) lista de desejos para os Dias do Aderente Fnac nas próximas quinta e sexta-feira – nos tempos que correm, não são despiciendos os 19% de desconto sobre o preço de capa –, reparei numa nova edição de um romance de Bellow no mercado editorial português. Trata-se do admiravelmente urdido Morrem Mais de Mágoa (More Die of Heartbreak, 1987), talvez o último romance de grande fôlego do autor canadiano de nascença, embora americano crónico desde tenra idade.
Bellow é responsável por um dos mais saudáveis dilemas no meu habitual e íntimo exercício de classificação da obra de um autor em que pelo menos dois terços daquela hajam passado pelo meu crivo estético-literário; e esse dilema mostrou o seu aspecto de dolorosa indecisão – como se escolher um romance em detrimento de outros se tornasse um caso de vida ou de morte, talvez uma vacuidade neste mundo filistino, a tender inexoravelmente para o absoluto do qualificativo – quando na minha passagem relâmpago pelo Facebook (a um ano de distância a desistência após três meses afigura-se-me cada vez mais como um acto prudente e ajuizado, um bem-haja para mim) me propuseram que, à queima-roupa, postasse uma listagem com os meus 10 ou 15 romances preferidos, sem muito pensar ou discernir para não contaminar a imposta espontaneidade. Assim o fiz e de imediato fui criticado, porque para além de ter efectuado trabalhos manuais de “copiar e colar” de um texto que havia escrito há alguns anos, tive de colocar um asterisco à frente da obra de Bellow porque não me conseguia decidir entre três das suas obras como a minha favorita, por onde vagueava com firmeza a acima mencionada; e, assim, a que figurava no arrolamento tornava-se perfeitamente intermutável com as outras duas, sem que a tal lista corresse riscos de desmoronamento por atentado à integridade da minha curta reflexão.
Mas voltemos aos escaparates da dita livraria, verifiquei com surpresa que a Quetzal editou o Morrem Mais de Mágoa, com nova tradução, quando uma outra de responsabilidade da editora Livros do Brasil circula ainda sem rupturas no mercado, com uma excelente tradução (aliás é seu apanágio) de Fernanda Pinto Rodrigues – e não é de todo necessário entrar neste caso, e como me parece óbvio, com o critério da pobreza estética das edições antigas da colecção “Dois Mundos” nesta editora (ver imagem) –, recuperando a de 1989 do Círculo de Leitores – jovem de 21 anos. De imediato, averiguei se nas badanas ou na contracapa existia um manifesto sobre a continuidade de publicação das obras do Prémio Nobel da Literatura de 1976. Para meu contentamento, a Quetzal irá continuar a publicar Bellow, embora no meu entender tenha começado mal, e esta apreciação não se prende só com a duplicação de Morrem Mais de Mágoa no, parco em qualidade, mercado editorial luso (a potência do título é hiperbólica), mas com a tríade de obras inacreditavelmente ainda não publicadas em Portugal:
  • The Adventures of Augie March (1953);
  • Humboldt’s Gift (1975);
  • The Dean’s December (1982).
E depois, nada me garante que as que se seguem não sejam aquelas que duas editoras, agora do grupo LeYa, a Texto e a Teorema, tinham vindo a publicar de forma sistemática desde o ano 2000, antes da mediática aquisição.
E para terminar, mais uma pequena irritação – apenas aplacada pela exposição do primeiro parágrafo desta notável obra, logo a seguir –, desta feita, julgo que de origem tipográfica, na badana da capa da nova edição, Bellow viveu quase 100 anos, nasceu na província do Quebeque, no Canadá, em 1905…

«[O] ano passado, quando atravessava uma crise na sua vida, o meu tio Benn (B. Crader, o famoso botânico) mostrou-me um cartoon de Charles Addams. Era um cartoon trivial, bom para um sorriso, mas o Tio estava embeiçado por ele e queria discuti-lo minuciosamente. A mim não me apetecia analisar um cartoon. Ele insistiu. Mencionou-o relacionando-o com tantas coisas que me irritei e encarei até a ideia de mandar emoldurar o mamarracho e oferecer-lho no dia dos seus anos. Pendura-o na parede e livra-te dele, pensei. De vez em quando, Benn conseguia bulir-me com os nervos, daquele modo que só uma pessoa que ocupa um lugar especial na nossa vida consegue. Ele ocupava, sem sombra de dúvida, um lugar especial. Eu amava o meu tio.»
Saul Bellow, Morrem Mais de Mágoa, p. 7 [Lisboa: Livros do Brasil, 1990, 353 pp.; tradução de Fernanda Pinto Rodrigues.]

quinta-feira, 22 de abril de 2010

É pau, é pedra (corrigido)

É a literatura a descaminho.
Não são, felizmente as Águas de Março, fechando o Verão, mas os seus Meados no hemisfério Norte que anunciam a Primavera – época de bulício da natureza e do alvor de uma vida que se renova, ou quase…
Em Portugal, é também significado de livros em catadupa – não há carteira que resista à torrente livreira de frontispícios engalanados com prémios e encómios expelidos, como cinzas vulcânicas – que actual – por gente validada. Novidades editoriais. Livros fechando o Inverno da modorra comercial pós-natalícia.
Vejamos. Surgiu o incensado Booker de Mantel, e já se anuncia (para amanhã) o Submundo do notável DeLillo. Publicou-se em simultâneo mundial o mais recente de McEwan; chegou finalmente, com atraso de décadas, a fazer jus à instituição do título que a designa, o(s) Correios de Bukowski (Post Office, 1971)*; ou o Winesburg, Ohio de Sherwood Anderson. Biografias de Kerouac e de Orwell, e mais uns ensaios deste último. Um Bolaño fraquinho, porém inédito. O Hooligan de Manea. Tolstói e Turguéniev (ou Turguénev, vá lá entendam-se, doutos do cirílico russo, quanto à transliteração do mais ocidental dos seus filhos literários oitocentistas) a rodos. A última compilação de contos do recentemente desaparecido Updike, quando se anuncia o Volume II dos contos de Cheever pela Sextante. Reedição do 2.º romance de Auster (data de 1987), negro, sombrio e devastador, que mesmo a ilustrada Moura Pinheiro apresentou como novidade do autor de Newark. O alter-ego de Banville para os policiais. Antes disso houve Jean Rhys, Coetzee, e Valter Hugo Mãe, nos portugueses apreciados. E, por fim, o destaque para o regresso de Martin Amis à grande literatura, com A Viúva Grávida (The Pregnant Widow), publicado em Fevereiro em Inglaterra e apenas dois meses depois em Portugal (edição Quetzal, saúde-se):
«O único romance que ela elogiava sem reservas era Meados de Março1. Porque Lily era uma criatura do mundo mediano.»
Martin Amis, A Viúva Grávida, p. 42
[Lisboa: Quetzal, Abril de 2010, 533 pp.; tradução de Jorge Pereirinha Pires e revisão de Carlos Pinheiro.]
Talvez tenha havido uma electrocussão arbórea – raios cataclísmicos das águas de Março, conduzidas à terra pelo tronco enraizado –, porque a nota do tradutor “1”, postada logo após “Meados de Março”, remete-nos, em pé de página, para Middlemarch. Um caso de gravidez literária, com viúvas mas sem hiatos e herdeiro, porque histérica – abusando, sem remorsos, das águas correntes de Herzen (1812-1870).
Naquele excerto, Amis procurou jogar ironicamente com as palavras, na descrição da activista igualitária de género Lily, conjugando-a com a leitura compulsiva dos clássicos da literatura inglesa por Keith – personagem principal do romance e seu namorado, projecção do autor (mas não o seu superego, essa é outra história): trocadilho entre “Middlemarch” e “middleworld” (esta última traduzida por “mundo mediano”), em que a primeira surge sempre grafada com maiúscula e é citada em várias ocasiões ao longo das mais de quinhentas páginas que compõem a obra.
Ora, o inventivo e esdrúxulo Meados de Março é, tão-só e somente, a obra-prima da escritora vitoriana George Eliot (pseudónimo de Mary Anne Evans, 1819-1880), traduzida para português há várias décadas – recentemente reeditada pela Portugália, com prefácio de Jorge de Sena – como A vida era assim em Middlemarch. Pois, Middlemarch é uma vila ficcional criada por Eliot onde decorre a trama do romance entre 1830 e 1832, que a autora localizou nas Midlands inglesas (zona geográfica central de Inglaterra, entre as zonas norte e sul do país) – obra considerada por Amis, como o melhor romance de língua inglesa.
Se a moda pega, passaremos a ter mais literalismos proparoxítonos, como por exemplo, “Sussex” por “Sexo da Sue”, ou “Cornwall” por “Muro de Milho”, ou até “Blackburn” pelo intolerante e cruel “Queima de Negros”. E não se procurem exemplos sancionadores da asneira, por exemplo, Eugenides, com o seu Pulitzer Middlesex, não é para aqui chamado, porquanto, em boa verdade, o hermafroditismo é a base do seu romance.
E assim vamos andando, rindo e cantando neste acabrunhado país, onde a capital, a imensa cidade-prelo – como significação da fuga e da concentração nesse local, banhado pelo Tagus e o seu Straw Sea, das editoras nacionais –, poderá a partir de hoje literalizar-se em “Hornylily” – curiosamente a tal personagem do “mundo mediano” de Amis, que percorreu a narrativa em “meados” de qualquer coisa –, onde a sugestão de lubricidade poderá funcionar com factor captador de receitas extraordinárias provenientes do turismo anglófono.
Nota – não resisto a postar mais um exemplo sublime de confrontação entre a ficção (no que respeita ao romance inglês) e a realidade ficcionada no romance de Amis, corporizada na batalha dos pensamentos voluptuosos do jovem Keith perante Scheherazade e Gloria (mamas e rabo, respectivamente), com mais um exemplo de literalismo (pelo menos, felicite-se, há coerência do princípio ao fim):
«“E nunca te hei-de perdoar pela Rosamond Vincy”, disse ela [Lily] (retomando a discussão deles acerca do romance por ela preferido – Meados de Março). “Está lá a bela Dorothea, e tu vais atrás daquela cabra gananciosa da Rosamond Vincy. Que arruina [sic] o Lydgate. Badalhocas e vilões. É só disso que tu agora gostas – badalhocas e vilões.”» (p. 386)
*[Correcção, 23/4 às 11:10] Fui, felizmente, alertado por e-mail para um erro de facto cometido neste texto: a primeira publicação em Portugal de Correios de Charles Bukowski é de 2002 e foi da responsabilidade da extinta editora Canguru, com tradução de Marisa Mourinha. Apesar de a referida publicação ter escapado ao conhecimento do grande público – no qual me incluo, sendo um grande admirador da obra do impetuoso autor germano-americano –, isso não invalida que não se corrija o erro (crasso) que aqui cometi, ao referir-me, de forma indirecta, ao carácter inédito da publicação de 2010 da Antígona, com tradução de Rui Lopes.

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Infinidades

Moderada e incoerentemente publicado em Portugal, não é de surpreender que o último romance do já sexagenário escritor irlandês John Banville (n. 1945) não seja notícia ou, pelo menos, objecto de bulício literário no meio editorial nacional – dois advérbios de modo a abrir o texto para provocar estrondosos arrepios aos escrupulosos guardiães da língua portuguesa, e (ai, e a vírgula a seguir à conjunção copulativa…) por, gramaticalmente, ser tão ao gosto do autor em questão (suponho ser dele a maior sucessão de advérbios de modo que pude ler numa obra de ficção, em cujo uso García Márquez manifestava uma enorme repulsa ou, pelo menos, relutância, embora os haja utilizado profusamente na sua primeira autobiografia, Viver para Contá-la).
Em 2005, Banville vence inesperadamente o seu, por enquanto único, Booker Prize, com a novela, mascarada de romance, por jeito regulamentar conferido pelo júri do mencionado galardão, O Mar (The Sea; entre nós publicado(a) em 2006 pela Asa – na altura, editora símbolo do orgulho literário e da independência literária portuenses –, ainda fora do caldeirão LeYa), num ano cujo sexteto finalista foi até hoje, na minha única e inderrogável perspectiva, um dos mais ilustres desde 1969 (annus mirabilis em que o Booker começou a ser atribuído).
Mas a literatura irlandesa tem sido um problema luso. Beckett, Joyce e, em certa medida, Bernard Shaw à parte e nas suas épocas, continuamos a publicar de forma episódica e errática os grandes autores contemporâneos do país da Harpa Gaélica. Se Portugal contasse no mercado editorial mundial, Banville até nem teria muitas razões para se queixar pelo constatado esquecimento hibérnico que assola o cantinho literário luso; lembremo-nos, por exemplo e para citar apenas alguns dos mais recentes ou contemporâneos, Sebastian Barry ou Colm Tóibín ou até mesmo, vogando para terras do Ulster, pelo mundo dos mortos e por tempos mais remotos, o aclamado Flann O’Brien (1911-1966), pseudónimo mais reconhecido de Brian O’Nolan, cuja obra-prima, assim universalmente considerada, At Swim-Two-Birds (1939) continua por publicar no mercado nacional, onde na sua algaraviada deprecatória se ouvem os sons abafados da ainda 6.ª língua mais falada em todo o mundo.
Mais de quatro anos volvidos, Banville volta a publicar um romance, libertando-se do seu heterónimo (pelo menos, nas suas confissões, pressentem-se os sintomas de desmultiplicação do eu, processo eminentemente pessoano) Benjamin Black. Banville é um autocrítico implacável, duro e, por vezes, tão severo, que as suas palavras autodepreciativas roçam os cenários conjecturais mais hórridos da autoflagelação. Black é prolífico, simples, redutor e escreve romances policiais, cujas palavras surgem como torrentes – segundo confissão do próprio – erigindo como epítome o belga, literariamente fértil, Georges Simenon e a obra das obras La neige était sale (1948), na opinião do escritor irlandês.
Por agora, jaz, constrangido, na minha pilha dos livros de leitura futura, a novel edição da Asa do primeiro romance de Black na era de fecundidade do alter-ego de Banville – O Segredo de Christine (Christine Falls, 2006). A seu tempo apreciá-lo-ei palavra por palavra, arabesco por arabesco. Todavia, para um banvilliano confesso, por maior que seja o menosprezo do próprio autor pela sua obra publicada – que se fosse outro a dizê-lo, lembro-me por exemplo de Auster, seria interpretado como um exercício da mais descarada forma de auto-indulgência de apelo à piedade pelo desgraçado –, os sintomas de ressaca de banviallina já se manifestam, catalisados pelo nervo óptico, tal é a quantidade de lixo estrangeiro que, hoje em dia, por aqui se publica. Só quem não leu o devastador, melancólico e sombrio (pois claro, está no título) Eclipse (2000) ou, por exemplo, os concatenados O Livro da Confissão (The Book of Evidence, 1989) e Fantasmas (Ghosts, 1993), é que pode vituperar estas curtas linhas de pura e irrestrita afeição literária.
Banville, o artista perturbado com o seu passado literário, lançou mão do seu predilecto e fonte de inspiração Heinrich von Kleist (1777-1811), baseando o seu romance mais recente na peça de teatro burlesca Anfitrião (Amphitryon, 1807), que o ilustre e desassossegado alemão foi beber à fonte inexaurível de Molière, que já vinha do romano Plauto, precedido, segundo se diz (não existe escrito), pelo génio criativo do grego Sófocles. O romance chama-se The Infinities, usando como referência a imortalidade olímpica.
Eis um pequeno excerto (1.º parágrafo) da, por agora, elogiadíssima obra, com tradução cá da casa – apesar do temor (e tremor) inicial em arruinar (dantescamente condenado às chamas do círculo nono do Inferno, traditore) as palavras etéreas que saem daquela pena:

«De entre as coisas que criámos para que eles se possam sentir desassombrados, o alvorecer é a que funciona melhor. Quando a escuridão é coada pelo ar, como suaves e finas partículas de pó, e a luz começa a espalhar-se, vagarosamente, a partir do Oriente, nesse instante todos, excepto os mais miseráveis entre a humanidade, recobram forças. É um espectáculo que nós, imortais, desfrutamos, esta pequena ressurreição diária; muitas vezes juntamo-nos nas muralhas das nuvens e fitamo-los, os nossos pequeninos, à medida que se agitam para acolher o novo dia. Que silêncio, então, se abate sobre nós, o triste silêncio da nossa inveja. Muitos deles continuam a dormir, claro, alheados do encantador truque matutino da nossa prima Aurora, mas há sempre os insones, os enfermos agitados, os mal-amados a dar voltas nas suas camas solitárias, ou apenas os madrugadores, os atarefados, com os seus alongamentos, os seus duches frios e as suas chaveninhas aparatosas de ambrósia negra. Sim, todos aqueles que o testemunham saúdam o alvorecer com alegria, ou quase todos, se exceptuarmos, claro, os homens condenados, para quem a primeira luz será a última sobre a Terra.»
John Banville, The Infinities, p. 1 [tradução livre: AMC, 2010]
[London: Picador, September, 2009, 304 pp.]

Um mimo simbolicamente banvilliano (ou banvillianamente simbólico?)
Obras de John Banville editadas em Portugal, organizadas cronologicamente (data de publicação da obra original), da mais antiga à mais recente:
  • Doutor Copérnico (Dom Quixote; obra original: Doctor Copernicus, 1976) – inacreditavelmente, sem seguimento com as restantes duas obras que completam a “Trilogia das Revoluções”, literatura e ciência: Kepler (1981) e The Newton Letter (1982);
  • O Livro da Confissão (Quetzal; obra original: The Book of Evidence, 1989);
  • Fantasmas (Dom Quixote; obra original: Ghosts, 1993): neste caso, ficou por publicar o último livro da sua segunda trilogia, “Frames” – dada a carga semântica deste título, optei por o deixar em inglês, porquanto se refere não só à simples “moldura” de um mero quadro (roubado pelo omnipresente e brutal narrador no 1.º livro), como também à “urdidura” ou “trama”, bem como ao referencial temático da relação entre a arte (pintura) e a literatura, intertextualidade e descrição minuciosa do objecto artístico –, trilogia, então, constituída por este e pelo livro precedente, e ainda pelo não publicado Athena (1995);
  • O Intocável (Dom Quixote; obra original: The Untouchable, 1997);
  • Eclipse (Ulisseia; obra original: Eclipse, 2000);
  • O Impostor (Ulisseia; obra original: Shroud, 2002);
  • Imagens de Praga: Retratos de uma Cidade (Asa; obra original: Prague Pictures: Portrait of a City, 2003);
  • O Mar (Asa; obra original: The Sea, 2005);
  • O Segredo de Christine (Asa; obra original: Christine Falls, 2006) – publicada sob o pseudónimo Benjamin Black.

quarta-feira, 14 de abril de 2010

IMPAC 2010 – Finalistas

Três autores britânicos, um alemão, um francês, um holandês, um irlandês e uma autora norte-americana formam a lista de oito finalistas do IMPAC Dublin Literary Award de 2010, cujos semifinalistas (156 romances de outros tantos autores) já aqui dei notícia no dia 3 de Novembro do ano passado. Ei-los (ordenados alfabeticamente pelo nome do autor):
  • Christoph Hein, Settlement (obra original: Landnahme, 2004; obra nomeada na fase inicial por 1 biblioteca).
  • Gerbrand Bakker, The Twin (obra original: Boven is het stil, 2006; obra nomeada na fase inicial por 4 bibliotecas, todas holandesas).
  • Joseph O’Neill, Netherland: Terra de Sombras (edição portuguesa: Bertrand; obra original: Netherland, 2008; obra nomeada na fase inicial por 7 bibliotecas).
  • Marilynne Robinson, Home (2008; obra nomeada na fase inicial por 4 bibliotecas).
  • Muriel Barbery, A Elegância do Ouriço (edição portuguesa: Presença; obra original: L’Élégance du hérisson, 2006; obra nomeada na fase inicial por 8 bibliotecas).
  • Robert Edric, In Zodiac Light (2008; obra nomeada na fase inicial por 1 biblioteca).
  • Ross Raisin, God’s Own Country (2008; obra nomeada na fase inicial por 1 biblioteca).
  • Zoe Heller, The Believers (2008; obra nomeada na fase inicial por 1 biblioteca). 

Notas:
  1. Dos 8 romances, apenas 2 foram publicados em Portugal;
  2. O romance com maior número de nomeações na fase inicial (9 no total), a obra, na minha opinião pessoal, a tender para o sofrível de Aravind Adiga, O Tigre Branco (The White Tiger; Booker Prize em 2008), ficou de fora da lista de finalistas.
  3. O vencedor do IMPAC 2010 será revelado no próximo dia 17 de Junho.

Vencedores das edições anteriores:
2009 – Michael Thomas – Man Gone Down
2008 – Rawi Hage – Como a Raiva ao Vento (Civilização, 2008)
2007 – Per Petterson – Cavalos Roubados (Casa das Letras, 2008)
2006 – Colm Tóibín – O Mestre (Dom Quixote, 2007)
2005 – Edward P. Jones – The Known World
2004 – Tahar Ben Jelloun – Uma Ofuscante Ausência de Luz (Asa, 2003)
2003 – Orhan Pamuk – O Meu Nome é Vermelho (Presença, 2007)
2002 – Michel Houellebecq – Partículas Elementares (Temas e Debates, 1999)
2001 – Alistair MacLeod – No Great Mischief
2000 – Nicola Barker – À Flor da Pele (Gradiva, 2000)
1999 – Andrew Miller – A Dor Industriosa (Teorema, 1999)
1998 – Herta Müller – A Terra das Ameixas Verdes (Difel, 1999)
1997 – Javier Marías – Coração Tão Branco (Relógio D’Água, 1994)
1996 – David Malouf – Recordando a Babilónia (Assírio & Alvim, 2009)

Depois do auto de notícia, de volta à hibernação reparadora…

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Lucros Climáticos


«Beard poisou uma mão no braço do amigo, um sinal certo de que tinha ultrapassado bem o seu limite.
– Escute, Toby. Estamos perante uma catástrofe. Esteja descansado.»
Ian McEwan, Solar, p. 259.
[Lisboa: Gradiva, 1.ª edição, Março de 2010, 338 pp.; tradução de Ana Falcão Bastos; obra original: Solar, 2010]
Um exemplar críptico mcewaniano, para leitura, descodificação, compreensão e reflexão.

terça-feira, 30 de março de 2010

O Supermercado

Foi há cerca de duas semanas que, provavelmente por via da parcimónia retentiva dos factos históricos da nossa mente – tão pressurosa a viver na contemporaneidade consumista –, fui personagem acidental de um curioso episódio de confrontação desse presente voraz e amnésico, ou melhor, pouco interessado em revivalismos, e de um passado não muito longínquo, cuja extensão do adjectivo vai um pouco para lá de uma dezena de anos da minha já madura existência. O supermercado.
Cheguei a casa de meus pais e o cenário que se postava diante dos meus olhos assemelhava-se ao de um terreiro onde se travava uma pequena, polvorenta e buliçosa batalha, em que a poeira de antanho se evidenciava pela reverberação causada pelos finos raios de sol de Inverno que atravessavam a vidraça e o cheiro a mofo desenterrado das entranhas de uma luta. O pó e o bafio atiçaram-me a costumeira reacção alérgica – o eterno acicate da histamina –, tanto física, como mental – este tipo de arrumações e o excesso de zelo que lhe é normalmente associado induzem-me a um estado de melancolia de uma despedida inevitável –, havendo crescido em mim um desejo irrefreável de retroceder uns minutos e adiar por umas horas a visita de um homem emocional, cumpridor das suas obrigações filiais.
Os meus pais, mantendo o seu rigor exclusivista em matéria livresca, como uma espécie de ordem de “não profanação” daquela espaço sagrado de tantos dias de aprazível ócio, arrumavam a sua bem recheada biblioteca, retirando os livros um por um, limpando capas e lombadas, e reparando badanas e folhas que, fora da sua função, se exibiam de forma impudica aos elementos.
Houve um ligeiro resmungo, misturado com uma espécie de prazer de ostentação doutoral, quando chegou o filho inquisidor e metediço, desarrumando as pilhas de livros prontas a regressar aos seus locais de décadas, e lendo os ex-líbris que ambos, enquanto jovens idealistas nos anos vinte das suas vidas, apunham à literatura que adquiriam e liam, bem longe da função de mero adorno que hoje em dia desempenham – a vida por vezes endurece determinados prazeres, tornando-os memórias distantes de um tempo passado, ressessos e sem brilho. A minha mãe, mais romanesca e congruente: Somerset Maugham, Irving Wallace, John Steinbeck, Máximo Gorki, e mais um bando de autores de frémito romanesco; o meu pai, mais heterogéneo no estilo literário e nos autores: Camus, Henry Miller, Hemingway, Morris West, dos Passos, Freud, Yourcenar, D. H. Lawrence, e imensos livros de História, cuja maioria versa sobre um dos seus temas bélicos preferidos, a II Guerra Mundial.
Entretanto, vislumbrei uma relíquia pela envolvência da sua composição em obra. Estava encafuado numa das pilhas, já expropriado do seu pó alpino, como as neves eternas: Os Inadaptados, do colossal dramaturgo norte-americano Arthur Miller (1915-2005). Bem conservado, embora com um indisfarçável odor a velho bichado, tratava-se de uma edição da Livros do Brasil de 1961, com tradução de Sousa Victorino, cujo ex-líbris do meu pai assinalava a data de “20-V-67”.
Os Inadaptados (The Misfits, 1961), livro retirado do argumento escrito pelo próprio Miller para um filme de John Huston. O filme é um dos mais icónicos na fábrica de mitos e lendas de Hollywood, se nos atermos ao arrepiante departamento de “filmes maldição”. A história que envolveu a sua produção, há quase cinquenta anos, ainda consegue provocar calafrios aos mais supersticiosos, não só pela razia de mortandade que se abateu sobre o elenco principal nos períodos de pós-produção e de exibição, como nas constantes alterações de guião e batalhas surdas entre Miller, Huston e o produtor Frank E. Taylor, a que se juntaram os responsáveis pelos estúdios da United Artists, e para finalizar pelo desastre comercial e financeiro que o filme gerou:
  • Do elenco principal, só Eli Wallach sobreviveu à devastação, talvez, e não o refiro sem malícia ao antimito louro, por Marilyn Monroe se ter incompatibilizado com o actor nova-iorquino, hoje com 94 anos, durante as filmagens, segundo se diz por esta, perante a sobriedade daquele, se sentir diminuída do seu protagonismo.
  • Clark Gable morre alguns dias após o fim da rodagem do filme – nem sequer assistiu à sua estreia.
  • Marilyn Monroe divorcia-se de Arthur Miller, ironicamente processo que se acelerou por desentendimentos sobre a construção da volúvel personagem Roslyn Taber encarnada por Monroe, para quem Miller escreveu propositadamente o guião para tentar minorar a imagem de superficialidade da actriz californiana, que lhe era incessantemente aposta pela imprensa dedicada à 7.ª arte; este também foi o último filme protagonizado por Monroe, já que morre, encharcada em drogas, em Agosto de 1962 antes de completar o filme dirigido por George Cukor, Something’s Got to Give, cuja produção foi interrompida e jamais finalizada, dada a recusa inamovível de Dean Martin em contracenar com outra actriz que não a loura mais famosa de Hollywood.
  • Montgomery Clift foi o mais resistente, morre em sua casa durante a madrugada de 23 de Julho de 1966, vitimado, tal como Gable, por um ataque cardíaco fulminante. Segundo a sua biógrafa, Patricia Bosworth, as últimas palavras conhecidas proferidas por Monty compuseram a frase “Absolutely not!”, quando interpelado pelo seu companheiro-secretário Lorenzo James à 1 da manhã desse mesmo dia fatídico sobre se o actor gostaria de ver Os Inadaptados, precisamente na noite em que o filme de Huston fazia a sua estreia na televisão nacional.

E eis, neste momento, o livro em minha casa, pronto a ser desfrutado, sem a real possibilidade de o poder acompanhar com a edição portuguesa do filme, porventura caído no esquecimento da esmagadora maioria dos portugueses, que nem as sinistras desventuras que o envolveram, o fizeram despertar para o circuito comercial em DVD.
Folheadas as primeiras páginas, saltaram-me à vista alguns deliciosos e falsos anacronismos, como algo que sentidamente acharíamos impossível verificar-se à data de edição em 1961. Porém, as disparidades entre a maior potência mundial e o nosso cantinho retrógrado, governado pela pequenez reducionista de uma ditadura, pronta a entregar os seus filhos numa guerra sem sentido que duraria treze anos, são hoje desconcertantes para quem sempre viveu os seus anos de assunção plena da sua consciência numa democracia ocidental, que se foi desenvolvendo, para o bem e para o mal, rumo a uma economia aberta, de mercado, sem fronteiras e sem as grilhetas que outrora amarravam, sem piedade, as liberdades mais fundamentais à existência digna do ser humano.
A páginas tantas, é mesmo a 13 – o número do anátema, mas também da religiosidade acerba – pode ler-se: «Vemos, através da montra dum supermarket (3) uma mulher que segura um grande saco de géneros de mercearia com um dos braços, enquanto baixa com o outro a alavanca de uma máquina caça-moedas.»
E o (3) refere-se à 3.ª nota assestada pelo tradutor desde que se iniciou a narrativa, que reza o seguinte:

«(3) Grande estabelecimento, principalmente de produtos alimentares, em que o cliente se serve a si próprio. (N. do T.)»
Era este o país dos estouvados marçanos que, agarrados à sua bicicleta munida do cesto na retaguarda carregado de produtos alimentares, se esgueiravam a toda brida por ruas e passeios e namoravam as criadas dos senhores às portas das casas fidalgas onde entregavam os produtos encomendados à mercearia do Sr. António. Sítio lúgubre, de mil odores em que constava a folha dos fiados escrita cuidadosamente à mão e quando aberto podia ainda sentir-se o cheiro a farinha do pão acabado de amassar, aí encerrado, com zelo, no momento da escrita. 

Proposta pascal para tema de redacção: O Supermercado.

sexta-feira, 26 de março de 2010

Novo McEwan

Tal como aconteceu com a extraordinária novela Na Praia de Chesil (On Chesil Beach, 2007), a Gradiva (inexplicavelmente, sem ligação à sua página oficial na Internet), editora portuguesa responsável pela edição da obra do eminente escritor inglês, publica em simultâneo com as edições britânica e norte-americana a mais recente obra de ficção de Ian McEwan: Solar. Felicitações à editora.
Preparo-me, por isso, para largar tudo que vem passando debaixo dos meus olhos em matéria de literatura recreativa, assim que dispuser do exemplar de um dos escritores contemporâneos pertencentes ao meu Olimpo pessoal.
 
Excerto (1.º parágrafo):

«Ele pertencia a essa classe de homens — de aparência vagamente desagradável, muitas vezes calvos, baixos, gordos, inteligentes — que são inexplicavelmente atraentes para certas mulheres belas. Ou ele julgava que o era, e pensá-lo parecia fazer com que assim fosse. E ajudava o facto de certas mulheres estarem convencidas de que ele era um génio a precisar que o socorressem. Mas o Michael Beard dessa época era um homem mentalmente diminuído, anedónico, monotemático, devastado. O seu quinto casamento estava a desintegrar-se, e ele devia ter sabido como comportar-se, pensar a longo prazo, arcar com as culpas. Os casamentos, os seus casamentos, não se assemelhariam a marés, com um a recuar para o largo imediatamente antes de o outro vir dar à praia? Mas este era diferente. Ele não sabia como comportar-se, pensar a longo prazo fazia-o sofrer e, por uma vez, não lhe parecia haver culpas com que arcar. Era a mulher dele que estava a ter um caso, e a tê-lo de uma forma flagrante, punitiva, seguramente sem remorsos. Ele descobria no seu íntimo, por entre uma série de emoções, momentos intensos de vergonha e nostalgia. Patrice andava com um empreiteiro, o empreiteiro que trabalhava para eles, que lhes tinha rebocado a casa, equipado a cozinha, posto azulejos novos na casa de banho, o mesmo sujeito corpulento que, certa vez, durante a pausa do chá, mostrara a Beard uma fotografia da sua casa Tudor de imitação, renovada e tudorizada por suas próprias mãos, com um barco atrelado a um reboque por baixo de um candeeiro de estilo vitoriano no caminho de acesso cimentado e espaço suficiente para pôr de pé uma cabine telefónica vermelha desafectada. Beard ficou surpreendido ao descobrir como era complicado ser o marido enganado. A desventura não era simples. Que ninguém dissesse que nessa fase avançada da vida ele era imune a novas experiências.»
Ian McEwan, Solar, pp. 11-12
[Lisboa: Gradiva, 1.ª edição, Março de 2010, 338 pp.; tradução de Ana Falcão Bastos; obra original: Solar, 2010]

quarta-feira, 24 de março de 2010

Fiat Justitia, pereat mundus (act.)



(Sugestão: regressar ao título do texto – que, infelizmente, não se refere à estreia de um novo modelo da conhecida marca de automóveis sedeada em Turim; trata-se de coisa mais séria, animada por matéria mais inflamável –, apelando-se, neste caso, a uma acção enérgica por parte dos dirigentes do meu clube – fundamentada na opinião corroborada pela esmagadora maioria dos juristas instados a pronunciar-se sobre a matéria – grupo em que se inclui José Manuel Meirim, adepto do clube da Luz, e o único doutorado em Direito do Desporto em Portugal –, indo até às últimas consequências compensatórias e indemnizatórias perante uma sentença injusta, desproporcionada, revoltante e que manchou indelevelmente, por muito que se tente esconder com justificações de forma física, o rumo dos acontecimentos desportivos da época 2009/2010).

[Actualização, 25/03, às 15:47]: comentário do dia (da decisão), por André Sousa, de Coimbra, em reacção à sanha justiceira vermelha e à cegueira da clubite exibida por outros nos comentários que postaram sobre a mesma notícia do jornal Público:

«Os tribunais Civis ilibaram o Pinto da Costa... e a Comissão Disciplinar é que era isenta!!... O TAS não deu razão às queixinhas do SLB e Guimarães... e a Comissão Disciplinar é que era isenta!! ... a FPF deliberou a favor da pretensão do FCP nas penas EXCEPCIONAL e PROPOSITADAMENTE aplicadas ao Hulk e Sapunaru, e a Comissão Disciplinar é que continua a ser a entidade isenta!! IRRA... quem acredita ainda na CD Liga ou é cego ou Lampião... só pode!! O Herminio Loureiro, perdeu uma boa oportunidade de dar outra entrevista à SIC a expressar a sua mágoa pelas decisões da CD Liga... enfim... é o SISTEMA!!» [sic]

segunda-feira, 22 de março de 2010

Do país em que foi mesmo a última

E por fim, reedita-se em Portugal (pelas mãos da Asa, o que outrora fora da Presença) o único romance de Paul Auster que, caso dotado da sua singularidade lusa, não se encontrava acessível em português europeu aos novos leitores, a não ser através do acervo literário das bibliotecas ou, com alguma sorte, do stock dos alfarrabistas.
Trata-se da obra No País da Últimas Coisas (In the Country of Last Things, 1987), o 2.º romance do autor de Newark, publicado originalmente no mesmo ano em que se forjava – reunião num só volume de três histórias – a sua obra mais emblemática, A Trilogia de Nova Iorque (The New York Trilogy, 1987) e que, ainda hoje, serve de diapasão para a sua restante obra e retém uma horda de fanáticos espalhados por todo o mundo, especialmente na Europa não anglófona.
Eis a distopia de uma das mais marcantes personagens de Auster, Anna Blume – que, de quando em vez, surge nas suas deambulações auto-referenciais e metaficcionais noutros romances mais recentes –, em busca do irmão misteriosamente desaparecido numa região sem nome, inóspita, devastada pelos inescapáveis vícios da natureza humana.
No País das Últimas Coisas lê-se de um só fôlego, austero – e austeriano, dois qualificativos que o acaso tornou sinónimos –, intimidante e comovedor. Em jeito de confissão, este foi um dos poucos livros em que profanei, pela exasperação da lentidão editorial nacional, o meu princípio de leitura de obras literárias de ficção “apenas em português”, porquanto o castelhano e o inglês são parte obrigatória das minhas leituras profissionais diárias, e prazer e trabalho não se coadunam com o meu sentimento de paz de espírito alcançado com a leitura de um bom livro.
Nota (à laia de conselho estafado): para os exegetas da literatura comparada e que pela primeira vez terão o privilégio de acesso à obra, suponho ser desnecessário cotejar esta com as de Houellebecq (A Possibilidade de uma Ilha), Atwood (Órix e Crex – O Último Homem) e, mais recentemente, de Cormac McCarthy (A Estrada); em primeiro lugar, pelo desfasamento temporal – quase vinte anos – entre esta e aquelas, e depois, segundo o mesmo critério, pela catalogação – com a já experimentada intenção de a menorizar – desta na “moda dos romances distópicos”, sem referir, por exemplo, as antecessoras de Huxley, Orwell ou Bradbury, e sem que haja, todavia, a real necessidade de alargar o espectro às de intervenção alienígena, tendo por epítome Wells.

quinta-feira, 18 de março de 2010

O que vale mesmo a pena…

…de entre o característico fogo-de-artifício burtoniano, arabescos computorizados, um pastiche mal concertado entre o País das Maravilhas e o Outro Lado do Espelho, a que se juntam as normais garridices de encher o olho num bailado excruciante pró-tauromáquico, sempre matizado pelas já doentias alusões à técnica funesta e assaz perigosa da decapitação ou pela exibição impudica de grotescos decapitados, dizia, o que vale mesmo a pena é o que se segue, e não sendo cunicultor, nem sequer apreciador do tal bicho à caçador, mia (e não se trata aqui do evanescente e mordaz Gato de Cheshire, é coisa mais tangível e inocente):
Mia Wasikowska (n. 1989)
Honra a Peter Jackson e à sua mais comedida fantasia onírico-etérea travestida de thriller de estalar os ossos.

segunda-feira, 15 de março de 2010

Driving Mr. Penn

Se os tempos não tivessem mudado e no caso de coarctada a exposição mediática (para o bem e para o mal) de determinadas atrocidades perpetradas pela sordícia do autoritarismo legítima ou ilegitimamente referendado – exposição agora inexorável, facilitada pelo crescimento exponencial dos meios de difusão de informação não manipulada –, o actor norte-americano Sean Penn porventura – e trata-se de mera especulação, embora fundamentada pelos flagícios sociopolíticos do século XX – teria dado um outro final à sua frase, proferida – é bom notar – num ambiente irrestrito de liberdade de expressão, «Devia haver um tribunal que mandasse» fuzilar* «as pessoas […] por este tipo de mentiras», e aquele tipo consiste em alcunhar reiteradamente de «ditador» o déspota venezuelano Hugo Chávez, um «líder eleito» como afirmou Penn, servido-se de forma abusiva da proposição para servir de alavanca enfática à sua irritação impositiva. Mas, Hitler também foi eleito e aclamado pelo povo – o que, por curiosidade, até desfaz a retórica falaciosa professada num dos exaltados filmes messiânicos em que Penn foi figura de cartaz (e que lhe permitiu arrecadar meia dúzia dos mais importantes prémios do mundo do cinema e mais um punhado de dólares): E se Klara Hitler tivesse abortado durante a gravidez de Adolf?
É o mundo em mudança. Santana manda expulsar quem critique a direcção do partido. Penn mandaria prender quem apodasse Chávez de ditador. Não vale. Duas estrelas que se movimentam no caldo protector da democracia para poderem proferir este tipo de inanidades. Enviemo-los para a Venezuela, transformemo-los em venezuelanos retirando-lhes as actuais cidadanias. Nada melhor que vestir a pele daqueles que clamam e se expõem ao martírio pelo simples cheiro da liberdade.
Se ao primeiro lhe permito o dislate, porque não existe, de forma sentida, qualquer apelo a um resquício de indulgência, o sujeito é-me soberanamente indiferente, e tão-pouco afecta a minha vida; ao segundo, que me diz muito, até o perdoo porque me deu o inesquecível Lado Selvagem (Into the Wild, 2007), e protagonizou autoritariamente Mystic River ou Milk.
Nota: *verbo caro ao grande amigo do camarada Soderbergh.

sexta-feira, 12 de março de 2010

Ritmos Copulativos, segundo Coetzee

Pode parecer estranho, mas um adágio pode prolongar a coisa sem a necessidade de recurso a químicos, apenas música de câmara e uma imaginação fértil e síncrona.
Franz Schubert, Quinteto de Cordas em Dó Maior, D. 956, 2.º andamento:

domingo, 7 de março de 2010

Ao iniciar-se a madrugada

Abrem-se a hostilidades fílmicas e as futilidades indumentárias e comportamentais, assim que aquele tapete vermelho que afaga a entrada do Kodak Theatre for calcorreado por ufanos agentes da 7.ª arte à procura de glória e promoção.
Trata-se, pois, da 82.ª segunda edição de entrega dos Óscares da Academia das Artes e das Ciências Cinematográficas de Hollywood, e porventura a primeira em algumas décadas (desde os tempos remotos dos directos da TVE em emissão pirata no Porto) que não irá merecer um segundo sequer da minha atenção – este é o desejo, porém receio que, lá pela 1 da madrugada, o bichinho da curiosidade, mesmo perante tão fraco produto a concurso, seja mais forte que a minha férrea vontade.
São 38 filmes a concurso (incluindo os de “língua estrangeira” e os de “animação, e excluindo os documentários e as curtas-metragens). Do total, apenas vi, por sorte, 12, já que não abrange o abandono a meio do espesso e dulcíssimo xarope keatsiano de Jane Campion. Posso quase apostar contra mim mesmo que esta é a edição em que menos filmes a concurso passaram previamente pelos meus olhos.
Independentemente do número de categorias para que estão nomeados, um bom listómano – exibicionista por definição (não entrando em considerações sobre a auto-ilusão que advém de um orgulho potencialmente espúrio) –, expõe no seu blogue um arrolamento dos filmes que viu, com ordem de preferência e os demais requisitos. Naturalmente, é o que segue neste meu cantinho de catarse (entendam-no como vos aprouver).
Organizei 6 grupos, dentro de cada qual os filmes figuram por ordem alfabética do título em português:
Obra-Prima
(Estou a brincar.)
Merecem destaque, quiçá a vitória (conceito bastante relativo dada, pelo menos, a disparidade do número de categorias a que concorrem) – 5 filmes:
  • Estado de Guerra, de Kathryn Bigelow (The Hurt Locker);
  • Um Homem Singular, de Tom Ford (A Single Man);
  • O Laço Branco, de Michael Haneke (Das Weisse Band);
  • Um Profeta, de Jacques Audiard (Un Prophète);
  • Sacanas Sem Lei, de Quentin Tarantino (Inglourious Basterds).
Mediania (apesar de algum aparato cénico num dos elementos) – 2 filmes:
  • Avatar, de James Cameron;
  • O Mensageiro, de Oren Moverman (The Messenger).
Ah, se eu soubesse… (variável tempo em jogo, neste caso o desperdiçado) – 2 filmes:
  • Distrito 9, de Neill Blomkamp (District 9);
  • Invictus, de Clint Eastwood.
Pretensiosos e sem substância (estafados, sem ideias ou novidade) – 2 filmes:
  • Nas Nuvens, de Jason Reitman (Up in the Air);
  • Uma Outra Educação, de Lone Scherfig (An Education).
Simplesmente horrendo, grotesco e escabroso – 1 filme:
  • Precious, de Lee Daniels (Precious: Based on the Novel ‘Push’ by Sapphire).
Em cima, na fotografia, o grupo que a ser convidado pela Academia animaria com toda a ternura e singeleza os intervalos, com contrato garantido pela inenarrável Oprah no fim do espectáculo.

sábado, 6 de março de 2010

Sonhos

Sentei-me sem expectativa que adviesse de conselho de mente avisada na cinefilia médico-legal do “suspense”. Procurei não ler e nada ver ou ouvir sobre a última obra de Scorsese, a mente mais preclara e enciclopédica de Hollywood sobre a arte, a ciência e a técnica cinematográficas da indústria centenária.
Ecrã preto, letras no velho formato cinemascópio e um navio ao largo de Boston quebrando as ondas ao som do trecho orquestral “Lontano” do compositor austro-húngaro György Ligeti, criam o ambiente hitchcockiano que, como prenúncio, sabemos que irá salpicar de estilo as cenas marcantes do filme.
A obra de base é um thriller de Dennis Lehane, e o primeiro passo consistiu em vencer a tentação de catalogação apriorística – ir ao fundo da mente para denegar a denegação –, surdindo um apelo de confrontação entre o italo-americano e o Mestre inglês, em que, um dos corolários da agitação da memória, se faz recordando e estabelecendo-nos na admiração irrestrita do primeiro sobre a plasticidade transformadora de uma má história na mais brilhante mistura cénica para o grande ecrã. E não foi só, porquanto o cientista foi buscar os distúrbios de personalidade e o seu recontro final esquizofrénico a um Samuel Fuller (argumento e realização) do início dos anos 60: O Corredor do Silêncio (Shock Corridor, 1963) e a inesquecível sequência do sonho. Mas mais uma vez são do Mestre as reminiscências que me assaltam em catadupa; e a ele recorro invocando esse portentoso e incrivelmente tortuoso A Casa Encantada (Spellbound, 1945), estigmatizado pela cena do “sonho” concebida por Salvador DalíPeck em DiCaprio, porque não? Ballantine e Daniels, uma curiosa contenda onomástica entre um scotch e um bourbon.
Lembrei-me também do subavaliado Fear X – O Medo (2003) escrito pelo desenfreado Hubert Selby, Jr. nos seus últimos dias de vida, em parceria com o jovem realizador dinamarquês Nicolas Winding Refn, e do seu final aberto, com a curiosidade de Brian Eno ser um dos elementos comuns com esta ilha do desassossego.
E depois emergiu o mínimo literário Harlan Coben, engenhosamente adaptado por Guillaume Canet, trasladando a trama de Nova Iorque para Paris, e o sonho ganhou aqui uma palpabilidade propulsada por um inusitadamente realista happy ending.

No fim do filme, enquanto seguia atrás de dois casais de septuagenários que, para além de teimosamente, com a sua parcimónia senil, me tentarem manter dentro da claustrofobia que desceu sobre a sala com o angustiante “This bitter Earth” plantada em “On the nature of daylight”, ensaiavam interpretar o final de Shutter Island, outras imagens corriam desenfreadamente na minha mente. Os paralelismos, sem nunca pensar em plágios, senão em arte como uma sucessão de originalidades decorrentes de repetições ao longo dos séculos, neste caso encorpada por um dos poucos fazedores de filmes que pode ser comparado a uma filmoteca viva, cujas técnicas foram aprendidas e apreendidas pelo olhar de relojoeiro no rendilhado minucioso que molda com uma marca pessoal inimitável, com a sua assinatura, uma obra de arte.
A mim bastou-me aquele início para a rendição completa, uma câmara hitchcockiana a deambular pelas escarpas de uma ilha-prisão assustadora pelo som tenebroso do trítono de “Passacalha - Allegro Moderato”, o 4.º andamento da 3.ª sinfonia de Penderecki.
Sem mais delongas ou palavras vãs: Arrepiante. Magnífico. A arte de tornar verosímil o absurdo, aqui como no Mestre, elevada ao seu expoente máximo. Martin Scorsese.

Ouvir aqui Dinah Washington (This bitter earth) e Max Richter (On the nature of daylight), uma mistura etérea de autoria de Robbie Robertson.