segunda-feira, 28 de setembro de 2009

O camelo e a agulha: os números finais e o júbilo socialista

Falou o profeta: «Nós juntamo-nos ao júbilo que há nos socialistas portugueses, nós os socialistas do mundo. Esse é o caminho…», e prosseguindo disse, «Esse é o caminho, o socialismo! África tem muito que apostar nisso, o socialismo africano, corrente muito forte que surgiu no século XX, que trataram de apagá-la mas que aí está, viva. Kadhafi é uma testemunha disso, da República Socialista da Líbia».
E terminou de forma messiânica, «o primeiro socialista foi Cristo, para nós, para mim que sou cristão. Alguém imagina Cristo capitalista? Ah!, Judas, que o vendeu por umas moedas. Esse é o capitalista, que vende até Cristo…», rematando com a parábola, narrada nos três Evangelhos sinópticos, vide título deste texto (cf. A Bíblia Sagrada: Mateus 19, 23-24; Marcos 10, 23-25; e Lucas 18, 24-25).



Eis um resumo comparativo do júbilo anticapitalista:



2009

2005

Diferenças

Crescimento

Votos

%

Dep.

Votos

%

Dep.

votos

dep.

%

p.p.

PS  

2.068.665

36,6%

96

2.573.406

45,0%

120

-504.741


-24


-24,4%


-8,5

PSD

1.646.097

29,1%

78

1.639.240

28,7%

72

6.857


6


0,4%


0,4

CDS-PP  

592.064

10,5%

21

414.922

7,3%

12

177.142


9


29,9%


3,2

BE

557.109

9,8%

16

364.407

6,4%

8

192.702


8


34,6%


3,5

PCP-PEV  

446.174

7,9%

15

432.000

7,6%

14

14.174


1


3,2%


0,3



5.310.109

93,8%

226

5.423.975

95,0%

226

-113.866













Inscritos

9.337.314

-



8.785.762

-


551.552




Votantes

5.658.808

60,6%



5.712.427

65,0%


-53.619




Abstenção

3.678.506

39,4%



3.073.335

35,0%


605.171



domingo, 27 de setembro de 2009

E depois da reflexão…

…o que faço aqui.



Direito exercido, passava pouco da três e meia da tarde. Temperatura: 26ºC; humidade relativa: 60%.
E nada como citar Thoreau num dia como este, de canícula outonal, onde a força dos outros por vezes se sobrepõe mesmo à nossa vontade – bravo, participei no circo desta democracia.
«[…] o Estado nunca confronta intencionalmente o senso, intelectual ou moral, de um homem, mas apenas o seu corpo, os seus sentidos. Não é dotado de inteligência ou de honestidade superiores, mas apenas de superior força física. Eu não nasci para ser coagido. Quero respirar de acordo com a minha vontade. Veremos quem é mais forte. Que força tem uma multidão? Os únicos que me podem coagir são os que obedecem a uma lei superior à minha. Eles obrigam-me a ser como eles. Nunca ouvi falar de homens que tenham sido obrigados pelas massas a viver desta ou daquela forma. Que tipo de vida seria essa? Quando enfrento um governo que me diz “O dinheiro ou a vida!”, porque é que deveria apressar-me em lhe entregar o meu dinheiro? Ele talvez esteja a passar por um grande aperto, sem saber o que fazer. Não o posso ajudar. Ele deve cuidar de si mesmo; deve agir como eu ajo. Não vale a pena choramingar sobre o assunto. Não sou individualmente responsável pelo bom funcionamento da máquina da sociedade. Não sou o filho do maquinista. No meu modo de ver, quando uma bolota e uma castanha caem lado a lado, uma delas não se retrai para dar vez à outra; pelo contrário, cada uma obedece às suas próprias leis, e brotam, crescem e florescem da melhor maneira possível, até que uma, por acaso, acaba por vingar e destrói a outra. Se uma planta não pode viver de acordo com a sua natureza, então morre; o mesmo acontece com um homem.»
Henry David Thoreau, A Desobediência Civil
[Revisão da versão brasileira com apoio do texto original em inglês: AMC, 2009; obra original: Civil Disobedience, 1849]

sábado, 26 de setembro de 2009

Follas Novas

Pormenor do interior da livraria Follas Novas, Santiago de Compostela, EspanhaQuando visitava Santiago (há, pelo menos, nove ou dez anos que não ponho lá os pés), um dos pontos imprescindíveis do roteiro turístico era a livraria “Follas Novas” – a Díaz de Santos ficava sempre para segundo plano.
Independentemente da denominação impudica em castelhano – o nome da loja está em galego, em espanhol seria qualquer coisa como “Hojas Nuevas” –, e dos trocadilhos mais ou menos infelizes a que isso dava origem, havia sempre uma visita à bem apetrechada livraria de Montero Ríos, com os livreiros mais bem preparados e qualificados que encontrei de todas as livrarias que visitei até aos dias de hoje – naquela livraria existiam verdadeiras bases de dados antropomórficas.

Para quem irá ler o romance enciclopédico de Roberto Bolaño, 2666, recentemente publicado em Portugal – já o li na sua língua original e talvez leia a versão portuguesa – irá reparar, no segundo livro “La parte de Amalfitano”, na breve referência que é feita à livraria, quando Amalfitano abre a caixa que continha os seus livros e surge misteriosamente um livro de um tal Rafael Dieste, cujo título era Testamento geométrico – parte importante da narrativa:

«Buscó en la primera página y en la última y en la contraportada alguna señal y encontró, en la primera página, la etiqueta cortada de la Librería Follas Novas, S.L., Montero Ríos 37, teléfonos 981-59-44-06 y 981-59-44-18, Santiago. Evidentemente no Santiago de Chile, único lugar del mundo en donde Amalfitano era capaz de verse a sí mismo en un estado de catatonia total, capaz de entrar en una librería, coger un libro cualquiera sin siquiera mirar la portada, pagarlo y marcharse.
»Se trataba, era obvio, de Santiago de Compostela, en Galicia.»
Roberto Bolaño, 2666 (Barcelona: Anagrama, 2004, 1126 pp.)

Lembro-me bem de uma das últimas visitas – talvez até a última –, muito próxima da quadra natalícia, quando encontrei na “Follas Novas” uma magnífica fotobiografia de James Osterberg, mais conhecido por Iggy Pop, com texto traduzido em castelhano.
Serviria de presente. O destinatário estava escolhido. E, naquela noite de 24 de Dezembro, houve um par de olhos que brilhou com maior intensidade pela sua veneração musical à “Iguana”. Esse par cuja fulgência se apagou, em definitivo, há quase 7 anos… Razão de ser tudo isto que para aqui despejo.

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

A alegoria electiva

A cinco horas de acabar a repugnante algazarra, nada melhor que deixar uma pequena alegoria enxadrezada para o curto período de reflexão que se avizinha (será que não podem perder todos? Ah, que grande domingo seria!)

«O rei é sempre o rei.» – D’Angelo (epígrafe do episódio)


D’ANGELO BARKSDALE: O que é que foi isso? A torre não se move assim. A torre só se move para cima e para baixo, e também para os lados em linha recta.

PRESTON “BODIE” BROADUS: Não, nós não estamos a jogar a isso.

WALLACE: Olha para o tabuleiro, nós estamos a jogar damas.

D’ANGELO: Damas?

WALLACE: Sim, damas.

D’ANGELO: Porque é que estão a jogar damas com peças de xadrez?

BODIE: O que tens a ver com essa merda? Meu, nós não temos damas.

D’ANGELO: Ok, mas o xadrez é um jogo melhor.

BODIE: E…

D’ANGELO: Não, esperem aí. Vocês não sabem jogar xadrez, pois não?

BODIE: E depois?

D’ANGELO: E depois nada, meu. Eu ensino-vos se vocês quiserem aprender.

BODIE: Vá lá, meu, deixa-te disso. Nós estamos a meio de um jogo.

WALLACE: Tem calma, eu quero ver isto.

D’ANGELO: Vocês não podem jogar damas num tabuleiro de xadrez.

BODIE: Ok, meu, está bem.

D’ANGELO: Vejam, estejam atentos, é simples. Estão a ver este? Este é o rei do bando. Este é o homem. Se apanhares o rei do outro gajo, ganhaste. Mas ele também vai tentar apanhar o vosso rei, por isso têm de o proteger. Agora, o rei pode andar uma casa na porra da direcção que entender, porque ele é o rei. Tipo assim, ou assim… ok? Mas ele não tem pressa nenhuma. Mas os restantes cabrões da equipa protegem-lhe as costas; e eles estão tão bem organizados, que ele não tem de fazer nada.

BODIE: É como o teu tio.

D’ANGELO: Pois, é como o meu tio… Estão a ver esta? Esta é a dama. Ela é esperta e agressiva. Ela pode andar em todas as direcções, até onde quiser. É ela que trata das merdas todas.

WALLACE: Faz-me lembrar o Stringer.

D’ANGELO: E esta aqui é a torre. Como o buraco onde o material… as drogas e a massa estão escondidas. Move-se assim e assim.

WALLACE: Não pá, o material não se mexe.

D’ANGELO: Anda, pensa. Quantas vezes é que tivemos de mudar de buraco esta semana? E sempre que mudas o material, tens de, pelo menos, mexer uns pêlos para o proteger.

BODIE: É verdade, tens razão. Ok. Então e o que são essas putinhas carecas aí?

D’ANGELO: Estes aqui? Estes são os peões. São como os soldados. Eles movem-se para a frente uma casa de cada vez, excepto quando lutam. E então movem-se assim ou assim. E eles são a linha da frente. Estão cá fora, no terreno.

WALLACE: Então como é que tu podes ser o rei?

D’ANGELO: Isso, não é assim. O rei é sempre o rei, ok? Toda a gente continua a ser o que é, excepto os peões. Agora se um peão conseguir atravessar o tabuleiro e chegar ao lado do outro gajo, ele passa a ser dama. E como já disse, a dama não é nenhuma puta. Ela controla todos os movimentos.

BODIE: Ok, então, se eu chegar ao outro lado, eu ganho?

D’ANGELO: Se apanhares o rei do outro gajo e o conseguires encurralar, só aí é que ganhas.

BODIE: Ok, mas se eu chegar ao outro lado, passo a ser o grande chefe.

D’ANGELO: Não, não é assim, vê. No jogo, os peões são rapidamente comidos. Eles saem cedo do jogo.

BODIE: A não ser que sejam uns peões matreiros como o raio.

[diálogo extraído do 3.º episódio da 1.ª temporada, “As Compras”, da inigualável série televisiva norte-americana The Wire (HBO); tradução a partir do inglês, cautelosamente suavizada por AMC, 2009.]

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

"Morrer é divertido"

«The Nabokov Code» por Ron Rosenbaum (Slate)
A ironia final de Nabokov em 138 fichas de indexação, apresentadas na sua forma original e transcritas por Dmitri.

O livro (ou a pasta de arquivo literária) será publicado pela Knopf a 17 de Novembro próximo. Até lá, repousa no 21.º andar do edifício da Random House em Nova Iorque para consulta livre, com assinatura prévia de um documento de garantia confidencialidade absoluta pelo consultante.
Cito Steiner, como fiz há mais de um ano e meio a propósito deste assunto:

«Brod em lágrimas, numa noite chuvosa, na rua dos ourives e alquimistas por baixo do castelo de Praga. Cruza-se com um livreiro muito conhecido: “Por que [sic] choras, Max?” “Acabo de saber que Franz Kafka morreu.” “Oh, lamento muito. Sei da tua estima pelo moço.” “Não compreendes. Ele ordenou-me que queimasse os seus manuscritos.” “Nesse caso terás de o fazer, pela tua honra.” “Não compreendes. Franz foi um dos maiores escritores da língua alemã.” Um momento de silêncio: “Max, tenho a solução. Por que [sic] não queimas antes os teus próprios livros?”»
In George Steiner, As Lições dos Mestres.
[Lisboa: Gradiva, 2.ª edição, Outubro de 2005, pág. 69; tradução de Rui Pires Cabral; obra original: Lessons of the Masters, 2003]

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

O mocassim perdido

Anuncio ao mundo que:

  • Ainda há vida neste blogue – está em estado de hibernação intermitente;
  • Havendo lido os quatro romances do autor – e, digo-o sem vergonha, O Código Da Vinci divertiu-me –, a minha vontade de ler o novo livro de Dan Brown aumentou de forma considerável só pela frase de O Símbolo Perdido que Christopher Tayler, crítico do Guardian, destacou na sua recensão [via destaque no blogue da revista Ler]:

«Este tipo fugiu à polícia francesa... em mocassins?»
[trad. AMC; lost in translation? Saio, madraçamente, de pantufas.]

sexta-feira, 24 de julho de 2009

Deserto Vermelho


Há uns dias discutia com o Vítor Neves Fernandes sobre o Mestre Antonioni. Falávamos da impenetrabilidade de alguns dos seus filmes. Hoje recordei-me do singular (porque exclusivamente antoniniano) final de Il Deserto Rosso (último filme de uma tetralogia sobre o isolamento e desmoronamento emocional, sempre com a belíssima Monica Vitti como protagonista, que se inicia em 1960 com L'avventura, prossegue em 1961 com La Notte e em 1962 com L'eclisse):
Vitti (Giuliana), no centro da desolação de um campo pestilento da refinaria onde trabalha o seu marido, é confrontada por mais um dos sagazes dilemas do seu filho pequeno, quando este lhe pergunta porque é que as chaminés deitam fumo amarelo; ela responde que o fumo é daquela cor porque está carregado de veneno; o filho então retorque, alarmado, dizendo que os pássaros que por ali passarem irão morrer; Vitti remata (e cito de memória):

«Não, os pássaros já não passam mais por ali, eles já o sabem.»

Lembrei-me das eleições que se avizinham e já vislumbro o dealbar das guerras na blogosfera e nas redes sociais a roçar o insulto, a troça e a velhacaria; de uma coisa podem estar certos (também a quem interessa?) por esse deserto vermelho, ou rosa, ou laranja, nunca mais irei passar (em perfeita eponímia com este blogue) … Já senti no meu corpo os miasmas coloridos e perfidamente sedutores (o engodo corrupto) do poder.

domingo, 12 de julho de 2009

Divagação apartidária + John Berger

Porque é que deixamos que um grupo compacto, homogéneo na mediocridade dos seus elementos - meros veneradores de uma insígnia infame -, nos maltrate, humilhe e despedace até ao nível da indigência intelectual?
Despojos da prostituição do poder político. A ditadura dos partidos aniquilou de vez a hipótese de alcance de uma qualquer visão remota de Democracia. E eles que nos enchem os ouvidos com o "dever cívico"… votai!… dever cívico…
Mas existe "bem comum" para que possa considerar-se o voto como um gesto altruísta a favor do bem-estar da comunidade em que, sem voto, nos inseriram? Grupos de interesse… gentalha arrivista… chusma de necrófagos que se aproveita dos pedaços da alma que se vão extinguindo com a implacável voragem da desesperança que se assenhoreou de um povo exânime.
As leis por encomenda, por John Berger (título de minha autoria, convenientemente adequado ao ambiente político de podridão, cujo cheiro nos tolhe o discernimento):
«Por muito boa que seja uma lei, ela é invariavelmente inapta. É por isso que a sua aplicação deveria ser disputada ou questionada. E a prática de fazer isto corrige a sua inépcia e serve a justiça.
Existem leis más que legalizam a injustiça. Tais leis não são inaptas, porque elas reforçam, quando aplicadas, exactamente aquilo que se pretendia que reforçassem. E é preciso resistir-lhes, é preciso que sejam ignoradas, desafiadas. Mas é claro, compañeros, que o nosso desafio a elas é inapto!»
John Berger, De A para X. Cartas de Amor, pág. 36
[Porto: Civilização, Abril de 2009, 207 pp; tradução de Isabel Baptista; obra original: From A to X. A Story in Letters, 2008]

sexta-feira, 10 de julho de 2009

Bellow, a indiferença e o meu pathos




A propósito de um episódio que se sucedeu comigo hoje através de e-mail, que me magoou profundamente pela "Indiferença" (grafada propositadamente com maiúscula) de uma amizade que julgava existir apesar da distância física (encurtada por estas diabólicas redes sociais), recordei-me de um dos personagens mais marcantes de Saul Bellow, Asa Leventhal, e da salutar reprimenda que um dos seus melhores amigos, Dan Harkavy, lhe deu, como se o quisesse acordar para um mundo que não se condói com as nossas pequenas emoções… sou assim, é o meu pathos, que me desculpem aqueles que o conseguirem.



(Levou algum tempo a encontrá-la… já é por demais conhecida a minha mania ou fórmula enquanto leitor: "sublinhar=profanação")



«Se não te importas, Asa, há uma coisa que quero sublinhar e ainda não percebeste. Não somos crianças. Somos homens vividos. É quase pecado ser tão inocente como tu és. Pensa. Está bem? Queres que o mundo inteiro goste de ti. Mas existem fatalmente pessoas que não gostam. Como eu gosto, por exemplo. Não te chega que algumas pessoas gostem de ti? Não aceitas o facto de que algumas pessoas nunca hão-de gostar de ti? (…) É uma questão de vida ou de morte?»
Saul Bellow, A Vítima, p. 75 
[Lisboa: Texto, 1.ª edição., Março de 2006, p. 75; tradução de Sofia Gomes; obra original: The Victim, 1947]

sexta-feira, 15 de maio de 2009

Pausa (indefinida) – 2.ª parte

Depois da vontade irreprimível de exteriorizar (e de ostentar com orgulho, porque não?) as recentes alegrias clubísticas, inauguro a 2.ª parte do meu pousio blogueiro sem limite temporal definido.

Ganhar peso (neste país que me oprime) e saúde para não ter de me vender aos chineses como um perfeito Épsilon menos, mão-de-obra barata de acordo com a Cartilha Paradoxal de M. Pinho Huxley de Deus & Magalhães, responsabilidade limitada (leia-se "licença para a impunidade").

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Até ao possível regresso, gostaria de deixar uma nota à 2.ª “Nota de Tradução” de Tânia Ganho (pág. 221) do 14.º capítulo de A Vida em Surdina (Deaf Sentence, 2008) do escritor britânico David Lodge (Edições Asa, 1.ª edição, 2009) – foi cometido um crime de lesa-majestade (musical), sobre o Rei, o eterno, insubstituível e inesquecível Chairman of the Board:
– A canção a que Desmond Bates se refere não é “New York, New York”, mas “Chicago”, que, por um lado, o próprio personagem refere como exemplo da musicalidade da palavra no corpo do texto, e, por outro, para qualquer sinatreiro de trazer por casa – dispensando o recurso a um qualquer sinatrólico – o final dos versos (de Fred Fisher) “…that toddling town. / … I’ll show you around.” só podem vir acompanhados de início com o nome de uma e uma só cidade: CHICAGO.
Eis um exemplo de A Voz em Tóquio em 1962 (a talho de foice, reza a História, cidade em que detestou cantar, introduzindo vários remoques e gracejos subliminares entre e durante as canções):

segunda-feira, 11 de maio de 2009

24

FC Porto: Tetracampeão 2008/2009

Dúvida? Não. Mas, luz, realidade
e sonho que, na luta, amadurece.
- O de tornar maior esta cidade.
Eis o desejo que traduz a prece.

Só quem não sente o ardor da juventude
poderá vê-la, de olhos descuidados.
Porto - palavra exacta. Nunca ilude.
Renasce, nela, a ala dos namorados!

Deram tudo por nós estes atletas.
Seu trajo tem a cor das próprias veias
e a brancura das asas dos poetas…
Ó fé de que andam nossas almas cheias!

Não há derrotas quando é firme o passo.
Ninguém fale em perder! Ninguém recua…
E a mocidade invicta em cada abraço
a si mais nos estreita. A pátria é sua.

E, de hora a hora, cresce o baluarte!
Lembro a torre dos Clérigos, às vezes…
Um anjo dá sinal quando ele parte…
São sempre heróis! São sempre portugueses!

E, azul e branca, essa bandeira avança…
Azul, branca, indomável, imortal.
Como não pôr no Porto uma esperança
se “daqui houve nome Portugal”?

Pedro Homem de Mello, “Aleluia!”


(Nota: esta interrupção não significa a revogação da suspensão de actividade, com limite temporal indefinido, deste blogue.)

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Pausa (indefinida)

Até breve... (referência a cripto-filosófica nabokoviana postada a 30/Abr/2009)

«É geralmente aceite que, se o homem pudesse comprovar o facto da sobrevivência depois da morte, também resolveria, ou estaria no bom caminho para resolver, o mistério do Ser. Infelizmente, os dois problemas não se sobrepõem ou fundem, necessariamente.
Vamos encerrar o assunto com este bizarro apontamento.»
in Vladimir Nabokov, Transparências, p. 118 (Lisboa: Teorema, 1989, 129 pp; tradução de Margarida Santiago; obra original: Transparent Things, 1972).


A 24 de Fevereiro de 2009 [Nunca Mais + In Absentia + Porque (os três blogues nunca coexistiram no tempo e, entre o fim de um e o início de actividade de outro, verificou-se sempre um hiato de alguns meses), desde 17 de Dezembro de 2005], as estatísticas (fonte: Sitemeter):

  • Número de visitantes: 95.343
  • Número de páginas visitadas: 125.299

Obrigado a todos.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

A Queda


Para o futuro ficou uma das piores sessões de entrega dos Óscares de que tenho memória – e já são pelo menos umas vinte as que constam da minha memória cinéfila –, não só pelo espectáculo carnavalesco preparado pela organização (caiu-lhe bem a proximidade da data), mas sobretudo pela qualidade dos vencedores nas categorias principais, com a excepção do portentoso e admirável Sean Penn.
Será assim com a 91.ª edição a realizar-se em 2019?

[Lembro-me bem da 71.ª, realizada em Março de 1999 (referente aos filmes produzidos no ano de 1998): foi de uma mediocridade descoroçoante.]

Parece-me que sim e para bem pior. O triunfo do cinelixo e da cultura pop mais exacerbada pelos reality shows e o telelixo, como ficou ontem demonstrado em pleno Kodak Theatre, não augura nada de bom.
Como disse hoje à hora de almoço um ufano e sobranceiro crítico britânico na Sky News (ao estilo Brits won back America), cujo nome se me escapa neste momento, chegou a hora de demonstrar a qualidade do cinema britânico nos Estados Unidos, e de fazer ver aos americanos que filmes provenientes de grandes estúdios, longos, túrgidos e aborrecidos como Benjamin Button jamais triunfarão no futuro (foram mais ou menos estas as palavras, cito de memória).
Assim seja: Viva à era do Cinema Light – por esta altura, MRP® já deve estar a estudar a possibilidade de expandir a seu negócio rumo à 7.ª arte. Talvez uma joint-venture Pinto, Valente, Salgado & Associados (firma assaz sugestiva), substituindo as Panavision (digitais ou em filme) pelas mais pop e fashion Nokia, Motorola ou Sony-Ericsson na sua extensa gama com telemóvel incorporado.

domingo, 22 de fevereiro de 2009

...mas ficará para a História


«A iminência da tempestade é um mecanismo supérfluo e excessivamente portentoso, uma vez que o Katrina traz à memória precisamente as duras misérias da vida real que o filme, no alcance do seu poder, fez tudo para evitar.
Esse poder, contudo, é algo que deve ser tomado em conta, e consiste no talento de Fincher em usar a sua admirável aptidão para transformar um inconcebível e rebuscado conceito numa história de amor plausível. O romance entre Daisy e Benjamin começa quando ambos são cronologicamente pré-adolescentes e Benjamin é, fisicamente, um velho estranho, no entanto o elemento inicial de uma atmosfera perturbadora pedófila na relação dá lugar a outras formas de embaraço. O amor de ambos é incomparavelmente perfeito e paciente. Em simultâneo, como qualquer outro amor – como qualquer filme – é ensombrado pelo desapontamento e destinado ao fim. No caso de “Benjamin Button” tive pena quando acabou e feliz por o haver presenciado.
»
A.O. Scott, It’s the Age of a Child Who Grows From a Man, in The New York Times (25/12/2008) [tradução: AMC]


«Algumas pessoas nascem para se sentarem à beira do rio.
Algumas são atingidas por raios.
Algumas têm ouvido para a música.
Algumas são artistas.
Algumas nadam.
Algumas percebem de botões.
Algumas conhecem Shakespeare.
Algumas... são mães.
E algumas pessoas... dançam.
»
Eric Roth, The Curious Case of Benjamin Button [retirado do guião; tradução AMC]

Prognosticando a derrota nos tais prémios de hoje à noite, talvez não importe nada. Fincher, assim a vida o permita, prosseguirá com o seu dom natural, criador de ilusões, a sua carreira no meu Olimpo cinematográfico.

Sem mais comentários.

sábado, 21 de fevereiro de 2009

Se eu fosse membro da Academia…

…porventura não estaria aqui e agora a escrever em blogues, mas talvez nos Hamptons ou na minha casa de campo em Vermont, de onde teria enviado o meu voto por correio postal.

Regressando à fatal realidade de cinéfilo luso, apenas refiro que das 31 longas-metragens a concurso na 81.ª edição dos Óscares da Academia (excluindo os documentários, mas incluindo os filmes de animação e os de língua estrangeira), tive a feliz oportunidade, através de uma habilidosa engenharia na gestão do tempo disponível, de ver 18 filmes. E ei-los aqui inevitavelmente alinhados (dado o insanável distúrbio da listomania), por ordem de preferência (sem classificação aposta):

  1. O Estranho Caso de Benjamin Button (The Curious Case of Benjamin Button), de David Fincher;
  2. O Casamento de Rachel (Rachel Getting Married), de Jonathan Demme;
  3. Milk, de Gus Van Sant;
  4. Frost/Nixon, de Ron Howard;
  5. A Turma (Entre les murs), de Laurent Cantet;
  6. Vicky Cristina Barcelona, de Woody Allen;
  7. Resistentes (Defiance), de Edward Zwick;
  8. Dúvida (Doubt), de John Patrick Shanley;
  9. A Duquesa (The Duchess), de Saul Dibb;
  10. A Troca (Changeling), de Clint Eastwood;
  11. Em Bruges (In Bruges), de Martin McDonagh;
  12. O Leitor (The Reader), de Stephen Daldry;
  13. Procurado (Wanted), de Timur Bekmambetov;
  14. Revolutionary Road, de Sam Mendes;
  15. O Visitante (The Visitor), de Thomas McCarthy;
  16. Tempestade Tropical (Tropic Thunder), de Ben Stiller;
  17. O Cavaleiro das Trevas (The Dark Knight), de Christopher Nolan;
  18. Quem Quer Ser Bilionário? (Slumdog Millionaire), de Danny Boyle.

Estes 18 filmes permitiram-me dispor de uma perspectiva global sobre a votação em 7 das 20 categorias a concurso: melhores “Actor Secundário”, “Argumento Adaptado”, “Direcção Artística”, “Filme”, “Fotografia”, “Montagem” e “Realizador”.

Todavia, não vi:

  • nenhum dos 3 filmes candidatos a “Melhor Filme de Animação”;
  • 4 dos 5 filmes a concurso na categoria “Melhor Filme em Língua Estrangeira”;
  • 3 dos 5 filmes candidatos a “Melhor Argumento Original”;
  • 2 dos 5 filmes concorrentes na categoria “Melhor Som”;
  • 1 dos 2 filmes com canções candidatas à “Melhor Canção”.

Nas restantes 8 categorias, para além das 7 supramencionadas, permaneceu em todas, com muita pena minha, 1 filme por ver. Em suma, perante os factos atrás referidos formulei as minhas preferências apenas sobre estas 15 categorias, embora tenha a firme certeza de que serão todas, sem excepção, como tiros fora do alvo (o que pode querer significar que na próxima segunda-feira o anúncio da minha inusitada falta de pontaria, venha acompanhada do prometido encerramento temporário e indefinido deste blogue*).

Eis as minhas escolhas, elencadas por ordem alfabética do título das categorias principais, incluindo as de interpretação de papéis secundários (à frente de cada escolha nas categorias em que houve um filme que não passou pelos meus olhos, surge a notação “n.v.”, que significa “não-visto”, seguindo-se o título do respectivo filme):

  • Actor – Sean Penn (Milk) / [n.v. – O Wrestler]
  • Actor Secundário – Heath Ledger (O Cavaleiro das Trevas)
  • Actriz – Anne Hathaway (O Casamento de Rachel) / [n.v. – Frozen River]
  • Actriz Secundária – Taraji P. Henson (O Estranho Caso de Benjamin Button) / [n.v. – O Wrestler]
  • Argumento Adaptado – Eric Roth (O Estranho Caso de Benjamin Button)
  • Filme – O Estranho Caso de Benjamin Button
  • Realizador – David Fincher (O Estranho Caso de Benjamin Button)

Em conclusão, somando estas escolhas com aquelas que, por economia de texto não foram aqui discriminadas, Benjamin Button juntar-se-ia ao trio de filmes recordistas na arrecadação das famosas estatuetas douradas, com 11 Óscares (em relação às 13 nomeações perde o Óscar de “Melhor Actor” para Sean Penn em Milk, de Gus Van Sant, e o de “Melhor Guarda-Roupa” para A Duquesa (The Duchess), de Saul Dibb).

A título informativo, “o trio dos 11” é constituído pelos filmes: Ben-Hur (1959), de William Wyler; Titanic (1997), de James Cameron; e O Senhor dos Anéis: O Regresso do Rei (The Lord of the Rings: The Return of the King, 2003), de Peter Jackson.


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Nota: *Como é óbvio, a materialização do que há muito foi prognosticado, designadamente através da atribuição de outros prémios que já perfazem as seis dezenas, serve apenas de justificação pueril, à laia de cortina de fumo em fase de dissipação, para pôr em ordem determinados assuntos, pessoais e intransmissíveis, cuja actualização constante de um blogue, com derivações twitteiras, põe em causa. Por outro lado, não se tratará, caso o evento despoletador se venha a verificar, de um abandono definitivo, mas de uma pausa para reorganização. Quando a 30 de Abril do ano passado se deu continuidade à actividade na blogosfera, a carga absoluta do título do blogue teve que ver precisamente com imposição de uma medida cautelar que enfrentasse essa inconstância de partidas definitivas e que, num curto espaço de tempo, se transformavam em tímidos ou constrangidos regressos.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Algumas merdas mais

Francis Ford Coppola, O Vigilante (The Conversation, 1974)
Enquanto se vão agigantando os latidos, que rapidamente se transformaram numa vozearia de onde apenas emerge o insulto gratuito com marca corporativa registada, em reacção ao exercício profissional da crítica cinematográfica por quem tem autoridade não apenas pericial, mas sobretudo cultural para o fazer, vou-me divertindo com o festival da exultação da obscenidade animalesca da era do cine/telelixo de que alguns são responsáveis, soltando umas merdas de vez em quando que, prontamente, me disponibilizo para ceder para análise escatológica da obra de arte – afinal, a problemática excrementícia é ultrapassada com a transubstanciação da ficção para uma mera realidade documental: era manteiga de amendoim misturada com chocolate.

«O domínio no qual desaparecem os excrementos depois de termos puxado o autoclismo constitui de facto uma das metáforas do Além sublime-horripilante do Caos pré-ontológico primordial no qual as coisas se esfumam. Embora racionalmente saibamos o que acontece aos excrementos, o mistério imaginário persiste – a merda continua a ser um excesso que não se encaixa na nossa realidade diária, e Lacan tinha razão quando afirmou que passamos de animal a humano a partir do momento em que o animal fica sem saber o que fazer dos seus excrementos, quando estes se tornam um excesso que o incomoda.»
[O pensador esloveno remete-nos para O Vigilante (The Conversation, 1974) de Francis Ford Coppola, e às actividades investigativas de “Harry Caul” (Gene Hackman) que culminam num estranho sucesso conseguido pelo explosivo refluxo da sanita imaculada. (nota: AMC)]
«Mais uma vez, é claro que sabemos que os excrementos que desaparecem se encontram algures na rede de esgotos – o que é aqui “real” é o buraco topológico, ou a torção topológica, que “curva” o espaço da nossa realidade, de tal modo que percepcionamos/imaginamos os excrementos a desaparecer numa dimensão alternativa que não faz parte da nossa realidade quotidiana.»
Slavoj Žižek, Lacrimae Rerum, pp. 178-179.
(Lisboa: Orfeu Negro, 1.ª edição, 2008, 277 pp; tradução de Luís Leitão; obra original (antologia de ensaios sobre cinema): Lacrimae Rerum, 2005)
Nota: a talho de foice, ainda hoje divulgarei as minhas preferências para os Óscares de 2009, que, apesar de não constituírem grande novidade para quem me lê e comigo twitta, inevitavelmente, mais cedo ou mais tarde, teriam de surgir numa listagem organizada.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

Os negacionistas


(na imagem: Campo de Concentração de Auschwitz II – Birkenau. Câmara de gás e crematório II – as fornalhas. Fotografia das SS, 1943.)

O jornalista e escritor galego Álvaro Otero (n. 1967) publicou, na segunda-feira passada no seu blogue, um artigo, sob o título Los negacionistas, que arrasa com o rumo seguido pela Igreja Católica no actual papado.
Otero refere-se em concreto às palavras proferidas pelo bispo inglês radicado na Argentina Richard Williamson, que nega o Holocausto e a existência das câmaras de gás, e isto após a sua recente reabilitação (revogação da excomunhão) pela Igreja de Roma a 24 de Janeiro deste ano. Wiliamnson, é um anglicano convertido ao catolicismo, tendo sido ordenado padre em 1976, foi consagrado como bispo em 1988 pela congregação fundada pelo ultraconservador e extremista Marcel Lefebvre, que valeu a ambos excomunhão automática segundo a Lei Canónica.

Eis as palavras finais do artigo de Otero:

«[…] Para defender a sua tese, este bispo que exerce em La Reja, próximo de Buenos Aires, onde costuma sair para fazer footing em sotaina, apoia-se em tais considerações sobre o gás cianeto, sobre a altura das chaminés dos crematórios, sobre o desenho de Auschwitz, que quando alguém as lê se interroga sobre o que é mais delirante, se o facto de que este personagem seja bispo ou que, para continuar a sê-lo, o Vaticano lhe tenha pedido uma retractação, ou seja, que minta sobre a suas verdadeiras convicções. Nada de novo, enfim, na gestão romana da vinha do senhor. Boffs* expulsos, pederastas perdoados, negacionistas de mitra e bordão apregoando as suas sandices a partir do púlpito. Para aqueles que acreditam, um desgraçado e secular soma e segue.» [tradução: AMC; destaque e nota explicativa que se segue de minha autoria.]

Nota: *referência a Leonardo Boff, teólogo, filósofo, escritor e professor universitário brasileiro (em universidade brasileiras e no estrangeiro como visitante das universidades de Lisboa, Harvard, Heidelberg, Salamanca e Basileia), figura eminente da Teoria da Libertação na América Latina. Boff foi silenciado nos anos 80 do século passado por Joseph Ratzinger (hoje Papa Bento XVI), quando este dirigia a Congregação para a Doutrina da Fé (a antiga Inquisição) da Cúria Romana. Perseguido pelo Vaticano nos anos subsequentes, abandonou o sacerdócio, dedicando-se em exclusivo ao ensino e à divulgação das suas ideias, apodadas de marxistas e subversivas pela Igreja de Roma.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

A fatwa: 20 anos

O Francisco relembra, pela marca a negro, tristemente indelével, no eixo do tempo (já foi há 20 anos!...), a fatwa lançada pelo Ayatollah Khomeini contra Salman Rushdie em 14 de Fevereiro de 1989, a propósito da publicação do romance Os Versículos Satânicos (The Satanic Verses) em 1988. Curiosamente, o líder espiritual dos xiitas iranianos morreu três meses e meio depois.
Sobre este triste acontecimento não há muito mais para contar, excepto o episódio agora revelado do solidário e comovente asilo dado pelo, humana e artisticamente portentoso, Ian McEwan nos dias mais terríveis da vida de Rushdie. De resto, trata-se apenas de reavivar a memória sobre a história de um ataque deliberado à liberdade de expressão, perpetrados pelas mesmas gentes e seus clones que hoje em dia desfrutam de uma confortável complacência da esquerda caviar europeia, em nome de um multiculturalismo – que não sei, nem eles sabem, o que é, e jamais aceitarei que se traduza numa derrogação da minha liberdade, das minhas formas de pensar, sentir e agir, dos valores apreendidos numa sociedade (europeia e ocidentalizada) que me viu crescer – e de uma hilariante apologia à proporcionalidade de meios bélicos – uma vez que a liberdade de expressão materializada nos rockets lançados contra cidades israelitas é coarctada pelos helicópteros Apache e caças F-16 de fabrico americano (Solnado hoje não faria melhor após haver encontrado a guerra fechada, neste caso por desproporção de meios).

Enfim, deixo apenas ficar, sem mais comentários, um texto escrito em 1993 por Paul Auster (oh, claro, é de origem judaica, e, para além disso, não se pode contar com o homem que dedica o seu último romance ao filho do seu colega escritor israelita David Grossman morto no Líbano em 2006) que relata a sua inquietação permanente perante a vida do seu amigo Salman Rushdie:

«Quando me sentei para escrever esta manhã, a primeira coisa que fiz foi pensar em Salman Rushdie. Há quase quatro anos e meio que faço isto todas as manhãs, e, agora, é já uma parte essencial da minha rotina diária. Pego na caneta e, antes de começar a escrever, penso no meu colega romancista que está do outro lado do oceano. Rezo para que ele continue vivo mais vinte e quatro horas. Rezo para que os seus protectores ingleses o mantenham escondido da gente a quem encomendaram o seu assassínio – a mesma gente que já matou um dos seus tradutores e feriu outro. Sobretudo, rezo para que venha um tempo em que estas orações deixem de ser necessárias, para que venha um tempo em que Salman Rushdie tenha tanta liberdade como eu para caminhar pelas ruas do mundo.
Rezo por este homem todas as manhãs, mas, no fundo, sei que estou também a rezar por mim. A sua vida corre perigo porque escreveu um livro. O meu trabalho é também escrever livros e eu sei que poderia estar na mesma situação que ele, não fossem os caprichos da história e uma questão de sorte, de pura e cega sorte. Se não hoje, então talvez amanhã. Pertencemos ao mesmo clube: uma irmandade secreta de solitários, confinados, e excêntricos, homens e mulheres que passamos a maior parte do nosso tempo fechados em pequenos quartos, travando a batalha de pôr palavras numa página. É um estranho modo de se viver a vida e só uma pessoa sem alternativa o escolheria como vocação. É demasiado árduo, demasiado mal pago, demasiado cheio de decepções para convir a qualquer outra pessoa. Os talentos variam, as ambições variam, mas qualquer escritor digno desse nome dir-lhes-á o mesmo: para se escrever uma obra de ficção temos de ser livres de dizer aquilo que temos para dizer. Pratiquei essa liberdade em todas as palavras que escrevi – tal como Salman Rushdie. É isso que nos torna irmãos e é por isso que a provação por que está a passar é também a minha provação.
Não posso saber como agiria no seu lugar, mas posso imaginá-lo – ou, pelo menos, posso tentar imaginá-lo. Com toda a franqueza, não estou certo de que conseguiria ter a coragem que ele tem demonstrado. A sua vida está em ruínas e, no entanto, continua a fazer aquilo para que nasceu. Obrigado a mudar constantemente de abrigo, separado do filho, cercado de polícia, todos os dias se senta à sua secretária e escreve. Sabendo até que ponto é difícil fazer esse trabalho mesmo nas melhores condições, só posso sentir admiração e respeito por aquilo que ele tem realizado. Um romance; um outro romance em preparação; uma série de extraordinários artigos e discursos defendendo um direito humano básico – o direito à livre expressão. Tudo isto já é, por si só, absolutamente notável, mas aquilo que verdadeiramente me espanta é que, para além do essencial do seu trabalho, Salman Rushdie ainda dedica algum do seu tempo a comentar livros de outros autores – por vezes, chega mesmo a redigir entusiásticas notas promovendo os livros de autores desconhecidos. Para um homem na sua situação, será possível pensar em mais alguém a não ser em si mesmo? Sim, pelos vistos é possível. Mas pergunto-me quantos de nós seriam capazes de fazer o mesmo que ele tem feito, se tivéssemos as costas encostadas à mesma parede.
Salman Rushdie está a lutar pela sua vida. A luta dura há já quase meia década, e não estamos mais perto de uma solução do que quando a fatwa foi anunciada. Como tantos outros, só queria que houvesse alguma coisa que eu pudesse fazer para ajudar. A frustração cresce, o desespero instala-se, mas, como não tenho nem o poder nem a influência para afectar as decisões de governos estrangeiros, o máximo que posso fazer é rezar por ele. Ele carrega o fardo por todos nós e eu já não consigo pensar no que faço sem pensar nele. O transe por que está a passar arrebatou toda a minha atenção, levou-me a reexaminar as minhas crenças, ensinou-me a nunca dar por adquirida a liberdade de que desfruto. Por tudo isso, tenho para com ele uma imensa dívida de gratidão. Apoio Salman Rushdie na luta que trava para reconquistar a sua vida, mas a verdade é que ele também me tem apoiado. Quero agradecer-lhe por isso. Sempre que pego na caneta quero agradecer-lhe.»
Paul Auster, “Uma oração por Salman Rushdie” (1993), Experiências com a Verdade, pp. 163-165
(Porto: Asa, 1.ª edição, Março de 2003, 201 pp; tradução de José Vieira de Lima; obra original: Experiments in Truth, 1995)

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Bartleby Sphere, foi há 27 anos

Nove da manhã. A efeméride anunciava-se na rádio e, ante a voracidade dos contratos publicitários da estação, cerca de 30 segundos de um som etéreo foram considerados suficientes para lhe render a homenagem. O dia de hoje marca os 27 anos da morte de um dos mais icónicos e bartlebianos (síndrome que o atacou no momento em que a sua carreira atingia o auge) pianistas e compositores de Jazz de sempre: a 17 de Fevereiro de 1982, morria em Weehawken, Nova Jérsia, Thelonious Sphere Monk, Jr. (1917-1982); conjuntamente com o eterno “BirdCharlie Parker, um dos pais fundadores do Bebop.
A sua última actuação ao vivo tinha ocorrido numa fugaz aparição em 1976 no famoso Bradley’s, em Greenwich Village em Nova Iorque, onde tocou apenas duas músicas e saiu de forma intempestiva da sala. Nas palavras do seu amigo pianista e compositor Randy Weston (n. 1926) «Ele [Monk] veio, exteriorizou a beleza e saiu.» [cf. The Nesuhi Ertegun Jazz Hall of Fame (Jazz at Lincoln Center Hall of Fame); tradução: AMC].

Volto ao célebre artigo de Don DeLillo de onde foram retiradas as palavras que constam da epígrafe deste blogue (e integram o segundo texto da 3.ª fase da minha vida na blogosfera: Nunca Mais), e volto, por força das palavras impressas, a O Náufrago de Thomas Bernhard, o abismo do isolamento – que DeLillo afirma ser uma forma abreviada de uma execução dentro da lei –, talvez simbolizado pela Moenchsberg [tradução literal na versão inglesa Monk’s Mountain (A Montanha do Monge)]:

«[…] Moenchsberg, a que se chama também o Monte do Suicídio porque é o que há de mais apropriado para um suicídio e, realmente, três ou quatro suicidas por semana, pelo menos, despenham-se do seu cume. Os suicidas sobem no elevador instalado no interior do monte, dão meia dúzia de passos e precipitam-se sobre a cidade. Sempre me senti fascinado por aqueles que vinham esborrachar-se na rua, e eu próprio subi muitas vezes ao Moenchsberg, a pé ou no ascensor (como aliás também o Wertheimer), na intenção de me atirar dele abaixo, mas não me atirei (e o Wertheimer também não!). Por várias vezes estive pronto a atirar-me, mas, tal como o Wertheimer, nunca cheguei a fazê-lo. Voltei as costas ao precipício. É evidente que até hoje houve muitos mais a voltar as costas do que a saltar, pensei.»
Thomas Bernhard, O Náufrago, p. 12.
(Lisboa: Relógio D’Água, 1987, 144 pp; tradução de Leopoldina Almeida; obra original: Der Untergeher, 1983)

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Óscares 2009: inquérito final [actualizado]

De hoje a uma semana, por esta hora, já a blogosfera e os jornais de referência nas suas páginas da internet discutem os vencedores e vencidos da 81.ª sessão de entrega dos Óscares da Academia, referentes aos filmes produzidos durante o ano de 2008 e previamente nomeados para cada categoria.
Há pouco menos de um mês foram anunciadas as nomeações – de que dei aqui notícia – destacando-se, à partida, dois filmes: (1) O Estranho Caso de Benjamin Button (The Curious Case of Benjamin Button) realizado pelo norte-americano David Fincher (n. 1962), com 13 nomeações; (2) Quem Quer Ser Bilionário? (Slumdog Millionaire) do realizador inglês Danny Boyle (n. 1956), com 10 nomeações. Ambos os filmes concorrem às categorias mais apetecidas: melhores filme, realização e argumento (neste caso adaptado para o grande ecrã), embora nas categorias de interpretação o primeiro conte apenas 2 em 4 possíveis nomeações (actor principal e actriz secundária), e o segundo não disponha de qualquer nomeação.
Seguindo a lógica de atribuição dos últimos galardões cinematográficos, o péssimo e indecoroso filme de Boyle é o grande favorito aos Óscares, parte com uma vantagem de 58 prémios atribuídos, contra os apenas 12 conquistados por Benjamin Button.
Em suma, tudo leva a crer que iremos ter a consagração do espectáculo pirotécnico e escatológico sobre a miséria do terceiro mundo, a pornografia da pobreza, o produto final excrementício… e será esse O Cheiro da Índia? (cf. Pier Paolo Pasolini, 90º Editora, 2008)

Na coluna do lado direito deste blogue, figurará até ao dealbar da tarde do próximo domingo um inquérito subdividido em quatro categorias, que incidirá sobre as preferências dos visitantes deste blogue em quatro das categorias a concurso nos Óscares deste ano: melhores filme, realizador, actor e actriz principais.
Para responder ao inquérito seria, como é óbvio, desejável ter visto os 11 filmes que integram as quatro categorias mencionadas (embora nas duas primeiras figurem em ambas os mesmos cinco filmes). Todavia, há preferências que se vão solidificando no nosso interior, por arrebatamento emocional, por exemplo, que dificilmente seriam abandonadas pelo simples acto de ver um filme concorrente, e nesse caso parece-me natural que, mesmo sem ter uma visão global sobre o conjunto, o voto possa ser exercido. Trata-se apenas de um passatempo e não do exercício formal para eleição dos melhores, equivalente ao realizado pelos membros votantes da Academia que, a não ser seguido, enviesaria de forma pouco honesta a atribuição de prémios.

Logo, não tem de haver pruridos de espécie alguma para eleger, directa ou indirectamente, um filme em cada uma das quatros categorias.


[adenda, às 23h57m]: Dos onze filmes nomeados que constam das quatro categorias para votação no inquérito, três, à data, ainda não estrearam em salas de cinema portuguesas: O Visitante (The Visitor; estreia 19/Fevereiro); O Wrestler (The Wrestler; estreia 26/Fevereiro); Frozen River (sem estreia marcada, provável comercialização directa no mercado de DVD, filme que também se encontra nomeado na categoria “Melhor Argumento Original”; curioso paralelismo com a edição 80 dos Óscares com o filme Away from Her, que contava com a nomeação de Julie Christie na categoria “Melhor Actriz”, para além da nomeação do filme para “Melhor Argumento Adaptado”).

domingo, 15 de fevereiro de 2009

Eastwood

Clint Eastwood em Caçador Branco, Coração Negro
Os Jogos Florais

Do inquérito, que durante uma semana figurou na coluna da esquerda deste blogue, resultou uma clara repartição de preferências por dois realizadores contemporâneos, ainda vivos, que têm enchido de fascínio e sedução o grande ecrã de muitas salas de cinema espalhadas pelo mundo.
Perguntou-se que realizador de cinema, vencedor nos últimos vintes anos (1988-2007) do Óscar da Academia na categoria “Melhor Realizador”, elegeria como o preferido.
Um apelo irrestrito à subjectividade de cada uma das (poucas) pessoas que visitam este blogue. Sem juízos de valor, sem demais comentários.
Entre as 61.ª e 80.ª cerimónias de entrega dos Óscares da Academia das Artes e das Ciências Cinematográficas de Hollywood, que decorreram entre os anos 1989 e 2008, respectivamente, entre Barry Levinson (Encontro de Irmãos; Rain Man, 1988) e Joel e Ethan Coen (Este País Não É para Velhos; No Country for Old Men, 2007), dezoito nomes venceram o prestigiado galardão (dezanove se desdobrássemos a irmandade Coen em Joel e Ethan). 20 anos, 18 realizadores, uma vez que Clint Eastwood venceu o Óscar para “Melhor Realizador” por duas vezes: em 1993 por Imperdoável (Unforgiven, 1992) e em 2005 por Sonhos Vencidos (Million Dollar Baby, 2004); tal como Steven Spielberg: em 1994 por A Lista de Schindler (Schindler’s List, 1993) e em 1999 por O Regaste do Soldado Ryan (Saving Private Ryan, 1998);

A votação

Ao contrário do relativo sucesso do desafio anterior (atendendo à dimensão deste blogue oculto nas brumas da blogosfera), apenas votaram 39 visitantes, votação que resultou nos seguintes dados estatísticos:

  • 11 dos 18 realizadores não obtiveram um único voto (neste grupo estavam incluídos realizadores como Spielberg, Polanski ou Soderbergh);
  • Dos 7 nomes que obtiveram votos, 4 obtiveram apenas 1 voto (Ang Lee, irmãos Coen, Jonathan Demme e Ron Howard) e somente 1 obteve 2 votos (Sam Mendes);
  • Dois realizadores foram responsáveis por 83% dos votos: Clint Eastwood liderou, com algumas intermitências, e obteve 19 dos 39 votos, contra 14 votos em Martin Scorsese.

Talvez tenha vencido a arte em todo o seu fulgor espectral e iridescente, contra a arte do pormenor, quase científica, do detalhe técnico e de movimento. Um atrevimento ou diatribe cinematográfica de minha autoria, na incomparabilidade de ambos os colossos: Ford venceu Hitchcock.

A minha preferência

Prefiro Scorsese a Eastwood, mas sempre gostei mais dos filmes de Clint do que os de Martin. Esclarecidos. Naquela frase tentei expressar, com o máximo de cuidado e rigor, o absurdo de tal escolha.
Se, como no filme de 1993 de Joseph Ruben, O Bom Filho (The Good Son), com argumento originalmente escrito por Ian McEwan, me coubesse o mesmo papel da actriz Wendy Crewson segurando, à beira do abismo, Macaulay Culkin (o filho) e Elijah Wood (o sobrinho), rendidos neste caso por Eastwood e Scorsese (a ordem dos eminentes realizadores é irrelevante, para não converter em maniqueísta esta contenda fílmica), suponho que a minha decisão era deixar-me cair com os meus provectos amigos – passaria, como é óbvio, a fazer companhia a Booth, Manson, Oswald, Chapman, e quejandos, na historiografia criminal norte-americana.

Clint

Se tivesse de eleger um único filme, dos cerca de trinta, realizados por Eastwood como o meu preferido, talvez a escolha brotasse da minha mente de forma espontânea, sem medir prós e contras, e de exercer a inevitável comparabilidade que estraga a espontaneidade da resposta: Meia-Noite no Jardim do Bem e do Mal (Midnight in the Garden of Good and Evil, 1997). Mas, se a tivesse de proferir de viva voz, nem que fosse em surdina, permaneceria para todo o sempre o travo amargo da injustiça na minha boca.
E Um Mundo Perfeito (A Perfect World, 1993)? E o filme que funcionou como o grande ponto de viragem de Eastwood para o Olimpo, o caminho para a perfeição na realização, Caçador Branco, Coração Negro (White Hunter, Black Heart, 1990)? E o seu prenunciador Fim do Sonho (Bird, 1988)? E Mystic River (2003)? Então… afinal o Meia-Noite… mas ainda há As Cartas de Iwo Jima (Letters from Iwo Jima, 2006)…
Jamais pararia por ali, neste ciclo de dúvidas, assaz inútil, talvez divertido no seu início, mas extremamente entediante com o passar do tempo, como uma cobaia a repetir os passos no seu labirinto translúcido de acrílico aos olhos do manipulador, cientista, dissecador de comportamentos.
Talvez fosse mais fácil pronunciar-me sobre os que não gostei pós-1988 (ou 90), mas iria decerto ser crucificado – e Cristo, dizem, houve apenas um, e Esse descerá ainda este ano à Terra como prometera… Marcelo será presidente do PSD, e as trombetas apocalípticas e o terrível odor a enxofre deixar-me-iam paralisado de medo, e nem a promessa de ambrósia à discrição, assegurada e certificada por organismo celestial competente, me deixariam cometer tamanho sacrilégio.

PS – Hoje, ou talvez amanhã, o último dos jogos florais, que constituíram, na sua invisibilidade aparente, a causa de tudo isto sobre o que estivemos até então a falar.

Atavismos

«Por dentro, no recesso da alma, o homem voluntarioso e efémero, sem escrúpulos, alcançava entretanto a estatura dum gigante. Olhava então com piedade para as próprias fraquezas, prometia à força momentânea: nunca mais, nunca mais. Em todo o caso, alguma coisa de dúbio passava da alma velha à alma nova. O que é, transformava-se-lhe o medo em cálculo, o terror religioso cedia o passo a uma crença firme e sem complicações na generosidade divina, que existe para tudo cobrir com o seu manto de perdão. E o remorso lá estava, mas encaroçado. Um quisto à margem do organismo em que se enconcha. À génese destas grandes transformações não era estranho o espectro da miséria que o pai lhe metera pelos olhos apavorados desde a infância, porque muita da fereza que o empedernia, da ganância cíclica que o empolgava, vinha daí, dessa longa lição individualista de que o homem é o lobo do homem e, portanto, entre devorar e ser devorado, o melhor é ir aguçando os dentes à cautela.»
Carlos de Oliveira, Uma abelha na chuva, pp. 81-82.
(Lisboa: Assírio & Alvim, 4.ª edição, Agosto de 2007, 132 pp; obra original publicada em 1953.)

sábado, 14 de fevereiro de 2009

Brooklyn, by Tóibín

À atenção da Dom Quixote / LeYa (editora portuguesa que publicou os últimos romances do autor irlandês, galardoado com IMPAC Award pelo seu último romance O Mestre (The Master, 2004), editado em Portugal no ano de 2007).


Data de publicação no Reino Unido: 5 de Maio de 2009 (Viking).

Nocturnes, by Ishiguro

À atenção da Gradiva (editora portuguesa que publicou quatro dos seis romances do autor anglo-nipónico, que poderia ser tão expedita como o foi na publicação do último trabalho de Ian McEwan, Na Praia de Chesil):


Data de publicação no Reino Unido: 7 de Maio de 2009 (Faber and Faber).

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Suttree

Mais uma vez escrevo um texto neste blogue – que, parecendo que não, é um sinal de resistência às minhas tentativas de bloguicídio que surgem de forma intermitente há mais de três anos –, para felicitar, senão mesmo a melhor, uma das melhores editoras nacionais: a Relógio D’Água.
Para os membros do seu corpo editorial, evidenciado na figura tutelar de Francisco Vale – editor principal que tem sabido resistir ao assédio provindo da febre aquisitiva, de índole oligárquica, dos empórios lusos dos meios de comunicação e editoriais –, não há ano de publicação de uma obra (por mais longínquo que tenha sido), número de páginas de um livro (por mais volumoso que este seja), autor (por mais esquecido, hermético ou desconhecido, assim apontado pelas ondas de intelectualidade literária emanadas da perene sapiência de alguns notáveis que integram determinados órgãos de outras casas editoriais), que os assustem ou desviem do seu objectivo primordial: publicar livros de qualidade, independentemente da sua capacidade para gerar receitas imediatas, engrandecer o volume de negócios para ostentação futura, muitas vezes com lucros diminutos ou até inexistentes, apenas para alimentar a empáfia mediática.
Existem edições menos bem conseguidas – é por demais inevitável que assim seja. Há falhas de diversos níveis e gradações – claro que as há. Insucessos potencialmente ruinosos. Mas essas falhas e esses insucessos são claramente minorados, reduzidos à sua insignificância, desde que a pontaria, afinada por anos de prática e experiência no mercado dos livros, vá permitindo que se acerte quase sempre no coração do alvo. Uma marca de gestão: acompanhar o mercado em aparente silêncio, sem uma estratégia de marketing mix deliberadamente ofensiva. Reflecte-se, por exemplo, num produto bem construído, havendo-se contratado os melhores tradutores; numa excelente política de preços; numa simples, mas estudada, política de distribuição do produto literário pelos principais livreiros; são actos de gestão que quase evitam uma política promocional excessiva, meramente esbanjadora de recursos – contudo, e é de primordial importância realçar, todos estes encómios desinteressados, não devem servir de desculpa para as fracas actualização, facilidade de navegação e interactividade da página da internet da referida editora; no momento presente, reveste-se de um carácter urgente uma intervenção de fundo que permita melhorar esta funcionalidade, um dos principais pontos de contacto entre o consumidor final e a casa editora, antes de o primeiro tomar a decisão de compra.

E qual é a razão de ser de todo o palavreado anterior?
A Relógio D’Água publicará em breve uma das obras lapidares do icónico escritor norte-americano, Cormac McCarthy, nascido em Providence, no Estado de Rhode Island em 1933, vive, actualmente, enclausurado no seu rancho no Novo México, longe dos focos mediáticos. McCarthy pertence ao grupo dos quatro grandes escritores americanos contemporâneos identificado pelo crítico literário e professor univeristário, criador de cânones, Harold Bloom – para além do escritor de Providence, o “bando dos quatro” inclui os escritores Philip Roth, Don DeLillo e Thomas Pynchon, grupo a que eu, na minha modesta opinião de amante das letras, haveria juntado John Updike (falecido no passado dia 27 de Janeiro), mas que por qualquer motivo (político ou religioso, quiçá meramente por critérios estético-literários) nunca caiu nas suas graças; consulte-se, a título de exemplo, a sua obra de 1994 The Western Canon: The Books and School of the Ages, na Parte IV “The Chaotic Age”, onde Updike é apenas incluído no cânone literário ocidental pelo seu romance As Bruxas de Eastwick (The Witches of Eastwick, 1984), atirando para segundo plano toda a obra notável e multidimensional deste prolífico ficcionista, poeta e ensaísta.
Regressando ao assunto principal deste texto, a casa dirigida por Francisco Vale editará mais uma obra de ficção de autoria de Cormac McCarthy: trata-se do romance, originalmente publicado em 1979, intitulado Suttree, que se estende, nas suas versões americanas, por quase 500 páginas. O personagem principal, que dá o nome ao livro, abandona uma vida familiar e profissional confortável na cidade para se refugiar nos bairros de lata de Knoxville, partindo numa digressão que muitos comparam à de Leopold Bloom no colossal Ulisses de James Joyce – à semelhança dos itinerários joycianos de Dublin, existe um percurso em Knoxville marcado pelos lugares por onde perambulou Suttree. Por outro lado, segundo refere a crítica, Suttree é o romance mais faulkneriano de McCarthy, com notas bem vincadas de Mark Twain – já só falta falar dos taninos… –, designadamente através do seu púbere personagem Gene Harrogate que se identifica com a rebeldia anárquica de Tom Sawyer.
Suttree é o quarto de dez romances de Cormac McCarthy. Segundo a opinião de muitos entendidos em matérias qualificativo-literárias, trata-se, até ao presente, do magnum opus do autor, apesar de cronologicamente se lhe seguir a obra magistral Meridiano de Sangue (Blood Meridian, 1985), essa sim, considerada por uma grande maioria de críticos e de leitores como o seu melhor romance – onde me incluo, apesar de ainda não haver lido a primeira.
Na sua edição pela Vintage (cuja capa figura na imagem acima reproduzida) – a Vintage é uma chancela da Random House, destinada a reeditar os romances consagrados em formato paperback –, figuram nas primeiras páginas, depois da ficha técnica, algumas frases que destacam a eminência e o brilhantismo do autor, uma delas pertence a um dos escritores mais bartlebianos de toda a literatura norte-americana, Ralph Ellison (1913-1994) – escreveu e publicou em vida apenas um romance, uma obra-prima, Homem Invisível (Invisible Man, 1952). Segundo Ellison, «McCarthy é um escritor para ser lido, admirado e, muito honestamente, invejado.» [tradução: AMC]

Sem perder tempo com traduções livres, uma vez que o livro deverá estar prestes a chegar às livrarias, deixo ficar o parágrafo de abertura do romance, capítulo inicial escrito em forma de prefácio pelo próprio protagonista da obra (atente-se nestas escassas oitenta palavras, estão bem presentes os sinais idiossincráticos mccartianos em alguns neologismos e na repetição exaustiva da conjunção copulativa “e” em detrimento da vírgula):

«Dear friend now in the dusky clockless hours of the town when the streets lie black and steaming in the wake of the watertrucks and now when the drunk and the homeless have washed up in the lee of walls in alleys or abandoned lots and cats go forth highshouldered and lean in the grim perimeters about, now in these sootblacked brick or cobbled corridors where lightwire shadows make a gothic harp of cellar doors no soul shall walk save you.»
Cormac McCarthy, Suttree. New York: Vintage, May, 1992, p. 3.

Romances de Cormac McCarthy (por ordem cronológica da publicação original):

  • O Guarda do Pomar (ed. port. Relógio D’Água; The Orchard Keeper, 1965);
  • Outer Dark (1968);
  • Filho de Deus (ed. port. Relógio D’Água; Child of God, 1974);
  • Suttree (ed. port. Relógio D’Água; 1979);
  • Meridiano de Sangue ou O Crepúsculo Vermelho no Oeste (ed. port. Relógio D’Água; Blood Meridian, Or the Evening Redness in the West, 1985);
  • Belos Cavalos (ed. port. Teorema; All the Pretty Horses, 1992);
  • The Crossing (1994);
  • Cities of the Plain (1998);
  • Este País Não É para Velhos (ed. port. Relógio D’Água; No Country for Old Men, 2005);
  • A Estrada (ed. port. Relógio D’Água; The Road, 2006).

Nota: tendo em consideração a tão distintiva penúria qualitativa do meio editorial português, o rácio “obras editadas em Portugal/obras do autor estrangeiro”, regista um coeficiente bastante aceitável: 0,7 (7/10 ou 70% dos romances de Cormac McCarthy já se encontram editados em Portugal).

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Decisão

E assim vamos vivendo, muitas vezes dominados por uma emoção instantânea, outras vezes detidos por uma racionalidade anquilosada e paralisante, mas felizmente a vida demonstra-nos que, a despeito do nosso comportamento errático, tão humano, tão sofredoramente humano, tudo tende para um equilíbrio, mais ou menos frágil, íntimo, subjectivo, intransmissível. Sem esse equilíbrio... o vazio, caminharíamos fatalmente para a autodestruição, independentemente dos seus danos colaterais – dispenso-me às demais considerações que entrariam num ápice nos campos da psicologia e da sociologia, e nos seus corolários interdisciplinares.
A tomada de uma decisão implica sempre um custo de oportunidade. Seja ele qual for, há sempre uma perda, mensurável de inúmeras maneiras, compensável ou não pelos frutos da escolha no momento inicial. Claro que há correcções que podem obviar o sentimento de perda irreparável, mas jamais voltaremos ao ponto de partida, mesmo que nos convençamos que de facto é possível uma retroactividade plena, desfazer aquilo que foi feito e partir do zero.
Nunca mais voltaremos a partir do zero, «Para sempre está perdido / O que mais do que tudo procuraste / A plenitude de cada presença.» (Sophia).

Foi esta a decisão. Por mais estúpida e mais insignificante que possa parecer… estamos no domínio das aparências, porventura esconder-se-á algo de mais elevado, uma necessidade de rumo ou de mudança… outros valores se levantam.

Porém, ali ao lado, o tempo escoa-se, e, apesar da altura da fasquia, a manutenção do estado em que as coisas estão não é de todo impossível.