sábado, 12 de dezembro de 2009

European Film Awards 2009


Foram hoje entregues, no Jahrhunderthalle em Bochum na Alemanha, as estatuetas relativas à 22.ª edição dos prémios de cinema europeu, da Academia Europeia de Cinema (EFA).
O realizador alemão Michael Haneke (n. 1942) foi o grande vencedor, arrecadando 3 estatuetas com o filme O Laço Branco (Das Weisse Band). A sua estreia em Portugal está marcada para o próximo dia 7 de Janeiro.
Com este filme, segundo a crítica, o mais sério candidato ao Óscar para Melhor Filme Estrangeiro, Haneke já havia vencido em Cannes a Palma de Ouro.
De notar que o SlumBoyle – realizador perito em cloacas – ainda mexe e ganhou mais dois prémios: um em partilha e outro o da popularidade.
Eis a listagem dos vencedores – (prémios precedidos do adjectivo “Melhor”):


Filme Europeu
O Laço Branco (Das Weisse Band), de Michael Haneke
Realizador Europeu
Michael HanekeO Laço Branco (Das Weisse Band)
Actriz Europeia
Kate WinsletO Leitor (The Reader), de Stephen Daldry
Actor Europeu
Tahar RahimUm Profeta (Un prophète), de Jacques Audiard
Argumentista Europeu
Michael Haneke O Laço Branco (Das Weisse Band), de Michael Haneke
Director de Fotografia Europeu
Anthony Dod Mantle (por 2 filmes) – Anticristo (Antichrist), de Lars Von Trier & Quem quer ser bilionário? (Slumdog Millionaire), de Danny Boyle
Compositor Europeu
Alberto IglesiasAbraços Desfeitos (Los abrazos Rotos), de Pedro Almodóvar
Revelação Europeia (Filme)
Katalin Varga, de Peter Strickland
EFA Prémio de Excelência
Francesca Calvelli (pela Montagem) – Vincere, de Marco Bellocchio
EFA Filme de Animação Europeu
Mia et le Migoo, de Jacques-Rémy Girerd (França)
Prémio da Crítica EFA – Pémio Fipresci
Andrzej Wajda [nota: realizador e argumentista polaco, nascido em 1926; entre outros prémios, foi o vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes de 1981 pelo filme O Homem de Ferro (Czlowiek z zelaza); e do Óscar Honorário da Academia de Hollywood em 2000).
EFA Documentário – Prémio Arte
The Sound of Insects: Record of a Mummy, de Peter Liechti (Suíça)
EFA Curta-Metragem
Poste Restante, de Marcel Lozinski (Polónia)
EFA Prémio de Carreira
Ken Loach [nota: realizador e argumentista britânico, nascido em 1936; entre outros prémios, foi o vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes 2006, pelo filme Brisa de Mudança (The Wind That Shakes the Barley).]
Prémio Europeu de Carreira – Cinema do Mundo
Isabelle Huppert [nota: actriz francesa, nascida em 1953; entre outros prémios, venceu: o prémio para Melhor Actriz no Festival de Cannes de 2001, pelo filme A Pianista (La pianiste), de Michael Haneke; e do César de 1996 para Melhor Actriz pelo filme A Cerimónia (La cérémonie), de Claude Chabrol – entre 1976 e 2006 foi nomeada mais 12 vezes para este prémio para outros tantos filmes. É a 3.ª estatueta que arrecada no festival da EFA, tendo sido as restantes conquistadas em 2002 por 8 Mulheres (8 femmes), de François Ozon (em conjunto com as restantes 7 actrizes); e em 2001 pelo filme A Pianista (La pianiste).]
Filme (Prémio – Escolha do Público)
Quem quer ser bilionário? (Slumdog Millionaire), de Danny Boyle

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Seguidismo crítico

«Parece que os críticos do Reino Unido gostaram realmente de Invisível, o último romance de Paul Auster, e eu dei por mim a pensar se valeria a pena analisá-lo – já não leio um livro dele desde O Livro das Ilusões (2002) – quando, na New Yorker, James Wood veio a terreiro e zurziu no livro.» [tradução livre: AMC, 2009]
Estas palavras pertencem a Christopher Tayler, postadas no blogue da London Review of Books no passado dia 9, sítio onde, em conjunto com outros peritos em assuntos artístico-literários, escreve sobre livros e supostamente sobre Literatura.
Tayler, de 34 anos, para além de colaborar com a LRB, é o crítico-chefe de ficção literária no jornal londrino The Guardian.
Todo o texto é hiperbólico, escrito num estilo de tragicomédia, cujo excerto atrás traduzido revela, à partida, uma debilidade preocupante – que muitos julgavam exclusiva dos críticos literários portugueses, vide as recensões em que se nota, num impudor ostensivo, um cunho eminentemente sintético, uma espécie de súmula dos textos produzidos pelos principais críticos anglófonos e, até, por alguns francófonos de reputação assegurada –, a subordinação da opinião de determinados críticos à concepção e ao pensamento provindos dos putativos donos da crítica literária. Porém, pensar que essa debilidade evidente é um caso exclusivo do recenseador e da publicação em questão, não só seria uma mentira muito mal amanhada, como branquearia todo o comportamento de uma nova horda recenseadora que se fundou com o endeusamento do crítico britânico James Wood e as suas repreensões (sovas eruditas) estético-literárias. É, aliás, com este personagem das letras contemporâneas que esse depauperamento, eucalíptico, da crítica se tornou flagrantemente chocante.
O caso não é de agora, Wood com a sua prosa inteligente e aparentemente dominadora do fenómeno, fomentou a ortodoxia literária que tem circunstanciado a análise crítica da ficção que se vai publicando por esse mundo fora.
Umberto Eco, referindo-se aos repetidos episódios inscritos na História universal de queima pública de livros – de Savonarola a Hitler, entre outros –, fala de uma censura promovida por um tipo de totalitarismo (pensamento único, se quisermos), em que o fomentador, longe de pensar que a fogueira extinguirá a obra queimada, assume um papel de demiurgo com vista a moldar e a purgar todo pensamento cultural de uma determinada comunidade. E esse é precisamente o perigo do anátema woodiano, promotor de um pernicioso unanimismo. 
Se provas faltassem para o seguidismo messiânico, onde se professa uma liturgia de estrita observância – usando da censura, do sarcasmo e dos ataques ad hominem –, benzendo-se, em contínua persignação supersticiosa e aduladora, todo o objecto de talento que fuja ao dogma do criador, leia-se para o efeito o artigo completo deste crítico em incubação (embora, como se afirmou, estejamos a falar do editor-chefe da secção de literatura de ficção no The Guardian) que, por vontade própria, não pretende sair da proveta, porquanto se sente aconchegado pelas palavras do deus criador – o curioso subtítulo deste texto é “Eu fui um adolescente fanático por Auster”.
As ondas sísmicas do abalo provocado pelo texto “covas rasas” – uma alusão à sepultura metaficcional em que August Brill introduziu Owen Brick no romance Homem na Escuridão (Man in the Dark, 2008) como exercício de diversão dos pensamentos tenebrosos que o assaltavam diariamente na titânica luta contra a insónia –, parte integrante do n.º 89, volume 35, da New Yorker, fizeram-se sentir um pouco por todo lado, basta para isso efectuar uma pequena e breve pesquisa na Internet num qualquer motor de busca. Para além dos diversos textos de recriminação dedicados ao emérito professor de crítica literária de Harvard, ressuscitaram algumas mentes cuja planura argumentativa não consegue fugir da mera corroboração: “eu sempre disse”, “até que enfim alguém pôs o dedo na ferida”. Como se não houvesse uma passado, um autor, toda uma obra que não deixou de ser escrutinada com encómios, indiferença ou duras críticas, fazendo tábua rasa de toda a sua biobibliografia, em suma, da própria história recente da literatura.
Mas, para nosso profundo pesar, estes são os campeões da nova crítica contemporânea, os filhos dilectos de qualquer publicação literária ou com pretensões a assumir esse estatuto; todos umbilicalmente ligados por um gritante minimalismo conceptual: “Shallow Thinking”.
PS – o acaso – um tema tão caro a Auster nas suas efabulações –, talvez o acaso (e quero continuar ingénuo) fez com que James Wood, nas habituais listas de final do ano, nomeasse o livro de contos de Lydia Davis como o melhor do ano no campo da ficção. As palavras são dele: «Este ano fiquei excitado com as “Collected Stories” de Lydia Davis. […] Davis é divertida, mordaz, autodepreciativa (até auto-repulsiva) e muito bem-humorada.» [tradução livre: AMC, 2009] Acaso sabem, os poucos que me lêem, com quem foi casada a autora supramencionada no início dos anos 70 e com quem compartilhou a experiência de vida de fome e atribulações em França, tendo gerado um filho em comum chamado Daniel? Bingo! Isso mesmo, um tal de Paul Benjamin Auster, nascido a 3 de Fevereiro de 1947 em Newark, Nova Jérsia. Usando uma frase feita, estafada, o velho cliché que se usa sem itálicos, qual Adamastor woodiano, apetece perguntar, abusando da retórica: Há coisas fantásticas, não há?

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Estarão mesmo todos bem? (apropriações fílmicas – parte II)


Foi em finais da década de 90 do século passado que, aproveitando uma sexta-feira de indolência pós-laboral, liguei o antigo canal de filmes TeleCine 2 da TV Cabo – na altura uma oferta, em período experimental, que não viria a ter continuidade pela exaustiva repetição dos filmes exibidos acrescida da prática de um preço abusivo – e reparei, de forma fortuita, que se anunciava um filme italiano para os minutos que se seguiam. Tratava-se de um filme do meu muito apreciado Pepuccino, protagonizado pelo monstro sagrado da cinematografia mundial Marcello Mastroianni – o homem de 8 ½ e de La Dolce Vita do inigualável Fellini, do maravilhoso La Notte do mestre Antonioni e do assombroso Um Dia Inesquecível (Una giornata particolare, 1977) de Ettore Scola, ao lado de Sophia Loren.
Perguntei-me como é que um filme de Tornatore havia escapado à minha análise indefectível de um faccioso do realizador siciliano e de um fã incondicional da escola de cinema que lhe serviu de sustentáculo: Visconti, Fellini, Scola, Antonioni, e tantos outros que construíram no pós-guerra a fábrica de sonhos alternativa à máquina devoradora de Hollywood. Sentimento de ignorância que se agravou pelo facto de o argumento ter sido escrito pelo realizador siciliano em co-autoria com o lendário Tonino Guerra.
E assim se iniciou o filme. Chamava-se Estão Todos Bem (Stanno tutti bene, 1990), terceira longa-metragem de Giuseppe Tornatore, produzida logo após o sucesso universal de Cinema Paraíso (Nuovo cinema Paradiso, 1988) que catapultou Pepuccino até ao Olimpo dos deuses do cinema. O filme abriu com as notas de um allegro que saindo da batuta de Ennio Morricone se tornaram de imediato etéreas. Mastroianni parte… ou melhor, Matteo Scuro sai da sua Sicília, partindo pela primeira vez rumo ao encontro dos seus filhos que há muito migraram, numa espécie de diáspora siciliana, para a imponente Itália em busca de melhores condições de vida.
Este é o filme de Matteo, um amante da ópera lírica, que, viúvo e após se reformar da função pública, caminha até aos lugares que o conduzem à sua prole espalhada por Itália entre Nápoles e Turim, passando por Roma, Florença e Milão. Todos lhe haviam assegurado nas espaçadas visitas à Sicília, estar bem na vida, disputando altos cargos nas mais variadas profissões. Eis o encantador Matteo que, tendo dado asas à sua paixão lírica, dispôs que todos os seus filhos tivessem nomes de personagens famosos criados por alguns dos mais que consagrados compositores italianos: Guglielmo (personagem da ópera Guillaume Tell de Rossini), Tosca (personagem da ópera epónima de Puccini), Norma (personagem da ópera epónima de Bellini), Alvaro (personagem da ópera La forza del destino de Verdi) e Canio (personagem da ópera Pagliacci de Ruggero Leoncavallo).
Mastroianni (1924-1996), apesar de alquebrado por um estado de saúde periclitante – embora quando protagonizou o filme tivesse apenas 65 anos – enche o ecrã com a sua magistral interpretação, desde as situações burlescas passando por aquelas carregadas de um pathos bem tornatoriano (vide, por exemplo, Cinema Paraíso, e o grave e simultaneamente enternecedor A Lenda de 1900).
Com este filme, Tornatore venceu, entre outros, o Prémio do Júri Ecuménico no decurso do Festival de Cannes de 1990 – ano em que David Lynch arrecadou a Palma de Ouro do festival com o inolvidável Um Coração Selvagem (Wild at Heart), sendo o júri presidido por Bernardo Bertolucci.
Mas agora, é chegado o tempo para descrever o horror que me assaltou há poucos dias numa suposta improfícua navegação pela Internet.
Tudo o que atrás foi referido, e que me inebriou até âmago do meu ser, foi, porventura, artisticamente extorquido aos seus autores e arrasado pela repetição, porquanto há pouco mais de uma semana, estreou nos Estados Unidos um filme chamado Everybody’s Fine, baseado no argumento original de Tornatore, Guerra e De Rita, com adaptação do também realizador, um tal de um inglês – que, confessando a minha muito provável cine-ignorância, até hoje desconhecia – chamado Kirk Jones.
Onde havia MorriconeMarianelli – sim, o mesmo das marteladas dactilografadas de Expiação (Atonement, 2007), cujo nome me faz lembrar uma qualquer marca de componentes para automóvel –, e onde brilhava Mastroianni há agora De Niro.
Curiosamente, Robert De Niro tem exactamente a mesma idade de Mastroianni quando este protagonizou o filme de Tornatore. Porém, apesar da inegável qualidade do actor norte-americano – um dos meus preferidos, diga-se –, não consigo vislumbrá-lo a interpretar o papel de um velho reformado, picaresco, terno, crédulo ou aparentemente iludido pelos seus filhos num périplo cheio de incidentes por Itália... perdão, pelos Estados Unidos. O resto do elenco é composto por nomes como Kate Beckinsale, Drew Barrymore e o normalmente apatetado Sam Rockwell.
Para ser sincero, espero o pior. Não consigo, por exemplo, encaixar os tiques dramáticos de De Niro – “are you talking to me?” ou “If I talk to you, and you turn me into a fag, I’m gonna kill you, you understand?” – no papel de Matteo que passou a Frank Goode. E, então, se atentarmos nos seus últimos filmes, o actor italo-americano está a necessitar de uma urgente e profunda intervenção, de que tipo for, para a regeneração do seus, outrora, infindáveis dotes interpretativos.
Como referi na parte I desta série, a ver vamos. Até à sua exibição em frente dos meus olhos (abertos, de preferência), vou deixar morrer lentamente alguns dos apriorismos que me toldaram a mente no momento da inesperada notícia do heteróclito remake hollywoodiano. Até lá resta-me assobiar como Mastroianni (Matteo) fazia para marcar a presença e chamar os seus filhos, e com isso desanuviar a tensão de um cinéfilo irascível.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

O Regresso seguido de “O Opróbrio” (act.)

Numa operação inédita com Auster, que gerou o contentamento geral nos fãs lusos do autor, a antiga editora portuense Asa – hoje propriedade do grupo LeYa –, anunciou no início do ano a publicação em Portugal do 13.º romance do autor de Nova Jérsia – nos dias que correm, um filho dilecto do distrito de Brooklyn em Nova Iorque com direito a um dia no calendário a ele dedicado –, em simultâneo com a sua saída para o mercado literário nos Estados Unidos.
Paul Benjamin Auster (n. 1947), para muitos a voz contemporânea mais autorizada para carregar o epíteto de “o poeta do acaso”, considerado por outros tantos como o mais europeu dos escritores norte-americanos vivos, seguido por um alargado grupo de fãs espalhados por todo o mundo, (coeso embora heterogéneo nos elementos que o estabelecem, genuíno pelo ostentado deleite por todo o imaginário das suas histórias, que se constitui como uma espécie de milícia de defesa acérrima do seu processo criativo, mesmo quando o defendido se confessa cansado e vulnerável, na iminência de um ataque da terrível síndrome de que padecem alguns dos eminentes profissionais da palavra escrita, conhecida como “bloqueio do escritor”), parece ter feito a vontade àqueles que há anos vêm denunciando o desvio do rumo da sua prosa, para um intricado de convulsões metaficcionais – Invisível, cedo se provou como o regresso do ícone Auster .
Paul Auster é idolatrado em França e em Espanha – neste último pude constatar in loco a efervescente austeromania –, elevado ao estatuto de chanceler do pós-modernismo na Alemanha, autor de culto dos nórdicos e, paradoxalmente, quase censurado no seu país natal, recebendo sempre críticas que abrangem todo o espectro de qualificativos do soberbo ao hórrido, e glosado como ligeiro no Reino Unido – jamais separando o homem da sua obra na adjectivação empregada –, apesar de já se pressentir que, bem ao longe e de forma tímida, a brisa que hoje se anuncia já é parte integrante do silvo dos ventos de mudança opinativa da crítica profissional anglófona. Com efeito, Auster era (e ainda é) criticado por ser ele mesmo, independentemente da obra analisada. A cada novo romance seu, a escrita automática dos recenseadores anglófonos, especialmente os britânicos, onde o insulto travestido em frases mais ou menos buriladas porventura pelo medo imanente de uma assertividade que se transformaria em alvo de censura pública, saltava para as páginas dos jornais e revistas mais reputados em assuntos literários – com excepção do Independent, a crítica dos jornais londrinos está aí para corroborar a tal mudança.
A sua última obra de ficção, Invisível, confirma o retorno de Auster a Leviathan, à Música do Acaso, à Trilogia, ou a Palácio da Lua – obras que consolidaram, há muito, o seu estilo literário, quer se goste ou não, quer se ridicularize ou idolatre. Apesar de não abandonar por completo os seus dilectíssimos jogos metaficcionais – bem presentes nos seus dois últimos romances, eminentemente auto-referenciais, labirínticos, de uma impudica ostentação da omnisciência autoral e de mero exercício de forma literário –, porquanto nesta obra ainda se consegue pressentir o pulsar de Auster na fina camada primordial do quadro narrativo, em Invisível os três narradores que integram os quatro segmentos narrativos interdependentes, com estilos e vozes diferentes, ampliando a um nível de exigência extrema a gama diegética, são o sal mas não o fulcro de uma história com uma ímpar densidade psicológica dos seus personagens; o que outrora (especialmente em Viagens no Scriptorium e Homem na Escuridão) era a matéria-prima fundamental, assume nesta obra o papel de mero elemento adjuvante, embora necessário, não é de todo a sua alma, a essência, o espírito que paira por sobre as nossas cabeças mal lemos «Para o resto da minha vida, onde quer que me encontre, faça eu o que fizer, aquele som estará sempre comigo.» (p. 236) – que entendi como um apelo, através da alegoria, ao horror concentracionário das diversas formas de agrilhoamento do Homem que subsistem no mundo em que vivemos – e que nos assombra pelo manancial de interpretações que daí poderão ocorrer – as pontas soltas que o romancista não quis atar; o seu cunho literário mais marcante de um anti-Deus ex machina, e que induzem a um inebriamento que obriga a uma releitura.
Negro como A Trilogia de Nova Iorque. Obstinado como A Música do Acaso. Cativante, glamoroso e comovedor como Leviathan. Desesperado e descoroçoante como Palácio da Lua. Sufocante e devastador como No País das Últimas Coisas. Terno e fracturante como Mr. Vertigo. Invisível é a súmula de uma obra ímpar no panorama literário mundial. Muitos descrevem-na como a sua melhor obra de ficção. Eu como fã quase incondicional do homem de ascendência judaica nascido há 62 anos entre os despojos materiais e humanos da II Guerra Mundial, acrescento mais um traço às suas obras de ficção de minha eleição.
Por fim, reveste-se como obrigatório salientar que há muito que Auster não gozava de uma crítica tão favorável no mundo da anglofonia, e a crítica lusa é quase unânime na aclamação ou louvor da obra – e ainda faltam as recensões alemãs, francesas, espanholas, italianas e escandinavas, já que em muitos desses países o romance ainda não foi publicado. Como consequência, face a uma quase unanimidade da crítica anglófona sobre a arte desta última obra, era mais do que esperado o surgimento de…
O que James Wood (n. 1965) fez no alargadíssimo espaço de crítica que lhe é reservado na revista The New Yorker no passado mês de Novembro, só pode ser entendido no estreitíssimo campo semântico do opróbrio que atrás falei de forma meramente alusiva. O texto de Wood é um manifesto ataque ad hominem, com todos os seus ingredientes de confusão mental entre produção literária e carácter do criador – e qual a necessidade de gastar mais palavras e quatro páginas, mais espaço precioso no n.º 39 do volume 85 da afamada revista americana, crime que se agrava por haver sido perpetrado na vizinhança da Cimeira de Copenhaga, quando ao 7.º parágrafo (num total de 20) Wood afirma: «Embora existam coisas de apreciar na ficção de Auster, a prosa nunca está entre elas»? [tradução livre de minha responsabilidade] E o mais confrangedor é que o opróbrio vem primorosamente adornado com uma excelente caricatura de Paul Auster pelas mãos do nosso André Carrilho.
De facto, depois de haver lido dezenas de críticas e um ou outro livro do grande paladino das letras contemporâneas em defesa do realismo e das vicissitudes monomaníacas do “discurso indirecto livre” na Literatura (ou na ficção?) – esse nobre recurso estilístico, magno promotor da invisibilidade autoral na obra, uma espécie de Frankenstein narrativo –, um David em Elah contra os malefícios das aviltantes correntes do modernismo e do pós-modernismo, profanos enquanto fautores do festim orgiástico entre criador e personagens, qualquer pessoa moderadamente identificada com Auster e a sua obra não pode deixar de apresentar sintomas de algum desconforto perante este exercício de uma frivolidade inusitada, a roçar o maniqueísmo pueril, em conflito com o reconhecimento académico, e não só, do recenseador em questão.
Não vale a pena desbaratar mais palavras com o chorrilho de asserções sem substância, com um exercício formal de puro enxovalho. O tempo encarregar-se-á de separar as águas. O crítico britânico exportado como pré-vintage para a Ivy League, já nos habituou a estes meros panfletos que denunciam a heresia contra a teologia da sua literatura – vista, pela sua igreja, como uma entidade isolada, asséptica, do ambiente cultural que a rodeia. É certo que sem o grau ominoso e de amarga verborreia de fusão da criatura com o criador como neste caso, contra tudo que não derive do realismo novecentista de Flaubert ou de Henry James – que até são autores muito cá da casa –, erigindo, entre outros, DeLillo, Rushdie ou Pynchon como alvos, perdoando, em simultâneo, os passos em falso de alguns dos seus contemporâneos e conterrâneos, nos casos mais notáveis de Christopher Hitchens e Martin Amis.
Mas o erro crasso, o pecado primordial, adveio de quem teve a ousadia de o comparar com Edmund Wilson. A partir de um acontecimento com essa natureza contrafactual, emerge uma soberba declaradamente adiposa que costuma obnubilar a mente preclara, outrora livre da placa bloqueante do fausto louvaminheiro. É que um louvaminheiro astuto tem de ser selectivo, sob pena de não ver sancionados os seus ataques no pós-desferimento e cair, sem apelo, na mais sombria das indigências.  
Indo um pouco mais longe, não nos podemos esquecer que Wood – emprego, sem pedir meças, a sua técnica da asserção gratuita – é, aos 44 anos, um romancista frustrado. Para afiançar a validade de tal certeza, basta ler as críticas a The Book Against God, publicado em 2003, que curiosamente se socorre de um tique pós-modernista, que o próprio censura nos outros, mas que não se coibiu de usar no seu título e na sua abertura distintamente kitsch, usando o cliché sem ironia, isto é, de forma séria, sem itálicos…
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[actualizado às 23:39, 08/12/2009]: Auster, entrevistado no jornal espanhol La Vanguardia, é confrontado com a crítica de Wood, dissonante da publicada no New York Times Book Review, que considera Invisível como o seu melhor romance [dias mais tarde, o respeitado periódico nova-iorquino considerou-o como uma das 50 melhores obras de ficção publicadas em 2009]:
«JORNALISTA: […] nesta semana James Wood investe contra si na The New Yorker.
AUSTER: Não li a crítica. Não leio nenhuma crítica há quatro ou cinco anos, embora a conheça. Sei que me ataca. Não tenho nada de pessoal contra ele, mas é sempre assim. Muitos amigos perguntam-me qual é o problema. É um reaccionário. Não quero preocupar-me. Siri, a minha mulher, que está em viagem, telefonou para mo comentar. Disse que era como se fosses na rua e um desconhecido te desferisse um murro na cara.»
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Nota: E já agora, intervindo aqui apenas como um leitor interessado e noviço da liturgia woodiana – afirmações circunstanciadas na sua obra minimal –, será que Wood já releu a Parte II de Dom Quixote? Deixo essa tarefa indagadora a Deresiewicz.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Apropriações fílmicas – parte I


Não sei se os seus fautores estão ou não numa corrida desesperada ao restrito tapete vermelho que se estenderá à porta do Kodak Theatre no dia 7 de Março de 2010, mas há duas estreias cheias de pólvora festiva que me causaram alguma apreensão enquanto cinéfilo inflexível perante determinados desarranjos cinematográficos.

Começo com o muito incensado realizador alemão de 67 anos, radicado nos Estados Unidos, Werner Herzog – que viu recentemente parte da sua filmografia condensada em dois volumes em edição da Fnac – que surge com um tal The Bad Lieutenant: Port of Call – New Orleans, trazendo na bagagem uma menção especial da 66.ª edição do Festival de Cinema de Veneza, talvez condicionada pela água da Laguna Veneta que teimosamente vai inundando as outrora zonas secas da cidade italiana.
Herzog roubou o título ao filme de 1992 de Abel Ferrara, Bad Lieutenant (Polícia Sem Lei) superiormente interpretado por Harvey Keitel – que lhe valeu os prémios para Melhor Actor no nosso Fantasporto e no Independent Spirit Awards em 1993 –, para além de haver alistado o insuportavelmente decadente Nicolas Cage, a apoteótica bomba sexual Eva Mendes, o cabotino Val Kilmer – porventura ainda sob o efeito dos psicotrópicos do “Rei Lagarto”, nada de mais marcante tem feito, para além de Heat – Cidade Sob Pressão, filme de 1995 de Michael Mann, nem mesmo no sobrevalorizado Spartan – O Rapto, filme de 2004 de David Mamet. Porém, bem medidas as coisas neste particular, Herzog talvez se salve no meio desta horda artística que se prefigura como elenco catastrófico-milionário, pelo recrutamento de Michael Shannon, incapaz de não encher o ecrã com a sua reconhecida e incontornável aura (lynchiana) de actor de culto, enigmático e sombrio. Se exceptuarmos o título e os pecadilhos do Tenente, parece que nada aproxima o filme de Herzog ao original de Ferrara. O título deve-se à subjugação da arte à feroz política de marketing de Hollywood. Porém, os nomes de Ferrara, Victor Argo, Paul Calderon e Zoë Lund, argumentistas do filme de 92 surgem nos créditos da nova película de Herzog, entretanto estreada nos Estados Unidos, ao lado de um argumentista de séries televisivas conceituadas chamado William Finkelstein, que porventura retirou as vísceras ao argumento original, deixando decerto o produto final pronto a digerir pela avidez de um público cada vez menos exigente. Um outro bom sinal: Herzog confessa que não viu o filme de Ferrara – talvez, nunca lhe tenha sido apresentado e não o conheça de lado nenhum.
A ver vamos. Para ser honesto, não posso fazer aqui algum juízo apriorístico sobre os méritos do referido filme, porquanto apenas conheço os seus contornos e a manifestação de desagrado de Ferrara, de mãos e pés atados perante a derivação, talvez espúria, de um produto de sua autoria. No entanto, e a essa parte não me posso escusar, o processo é criticável, mesmo que o filme mereça que se esgotem os adjectivos encomiásticos após a sua projecção à frente dos meus olhos num grande ecrã desta cidade e arredores.

Nota: A parte II das “Apropriações fílmicas”, trará um filme cujo heteróclito e descabido remake me revolveu ainda mais as entranhas, essencialmente pela convicção de que jamais poderá resultar numa melhoria do produto original. Qual Gus Van Sant com Psico (Psycho, 1998).

(continua)

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

10,2%


«7,1% de desempregados. 7,1%... é a maior taxa de desemprego desde que começou esta série cronológica das medições do desemprego em Portugal. Este número é bem a marca de uma governação falhada, de uma economia mal conduzida.»
José Sócrates, num comício socialista em 2005, dias antes da tragédia nacional de 20 de Fevereiro.

Pois é, senhor engenheiro dominical. Foi por isso que em 2005 deixei de ser um crente sem mácula. Votei com toda a convicção num partido de esquerda, cuja propaganda – ainda sem a marca goebbelsiana do argumentum ad nauseam que iria caracterizar um governo com poder absoluto, porém à deriva, durante os quatro anos que se seguiram – fez resvalar a ponta da esferográfica – talvez uma similar àquela que o senhor usou na tomada de posse deste seu XVIII – para o partido que desistiu da rosa e manteve o punho cerrado da arrogância, a ostentação coelhiana da virulência de quem convosco se mete.
Quo vadis?

Nota: regresso a estas lides após quase um mês de ausência forçada por compromissos e alguma falta de vontade de teorizar para meia dúzia (e estou a ser optimista) de pessoas que me visitam. Os e-mails irão sendo respondidos à medida que forem surgindo oportunidades para uma resposta minimamente assisada – que nada tem que ver com o novo líder franciscano dos que se autodecapitam.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Bichices, O Referendo

Talvez seja esse o termo empregado em casa, na escuridão das palavras vãs, na educação moralizante que se dá a uma prole que se quer sã, despojada de todos os males do mundo moderno que redundou na licenciosidade.
Em minha casa ensina-se a moral cristã. E ponto final. Se houve Adão e Eva – crescei e multiplicai-vos, disse a troante voz divina, incapaz de matar a serpente do desejo, onde haverá lugar para Adão e Armando? E Eva encontrou uma Francelina de dedos hábeis? Não está escrito, são palavras ausentes que deveriam ter sido gravadas pelo fogo etéreo-criativo. Não vem n’O Livro. Procriai, independentemente da felicidade presente e futura desse acto.

Já me havia insurgido. No meu distrito, um partido – em que, sem me arrepender, já votei em três ou quatro eleições – colocou à frente de um conjunto de ilustres desconhecidos um homem ciliciado agarrado aos seus preconceitos e dogmas.
Fazer um referendo nacional sobre se os portugueses aceitam ou não “os casamentos entre pessoas do mesmo sexo” seria a mesma coisa que referendar o direito dos passantes domingueiros, de bigode à (bi)Godinho e fato de treino verde com laivos de roxo, à conquista dos sofás de um centro comercial.
Se os homossexuais são uma minoria, ainda desdenhados por uma espúria moral dita cristã – porque lendo e interpretando as palavras de Cristo, jamais nelas se encontra a reprovação da dita caridade mútua entre pessoas do mesmo sexo –, nunca, mas nunca mesmo tal referendo serviria para criar uma base jurídica que abriria a possibilidade do casamento entre duas pessoas que se amam, e que, por acaso, são ambas portadoras do mesmo par de cromossomas.
A questão do referendo é uma falácia. A (putativa) abertura de espírito evidenciada por aqueles que o defendem é uma impostura das mais ignóbeis. Uma mentira dita sem mover um músculo facial que revele o pensamento que lhe subjaz: esta questão referendada jamais triunfará para o lado dos invertidos.
Mesmo que o nosso povo revelasse, nos dias que correm, uma abertura de espírito e uma tolerância próprias dos tempos em que vivemos, no canto esconso, isolado, metálico, enferrujado da cabine de voto, votaria “não” à proliferação da bichice, da depravação moral, biblicamente destruída com Sodoma e Gomorra, do amor resultante apenas de um hedonismo doentio e incapaz de ser compreendido por quem tem a cabeça formatada por essa moral anquilosada fundada numa educação protocristã: se se querem sodomizar, sodomizem-se, mas longe da instituição casamento ancestralmente respeitada pelo moralista pequeno-burguês: talvez, o mesmo que bate na mulher, que não provê a casa de sustento, que se afunda no álcool e, mais modernamente, nas drogas ditas sociais, denega os próprios filhos, que se exime da reciprocidade afectiva que uma união exige, que se passeia no banco de trás por verdes prados com o colega de trabalho – seja de que sexo for, desde que ocultado dos olhos do mundo –, ou no motelzinho escondido por árvores frondosas cuja gerência garante confidencialidade imputando os encargos a despesas diversas com direito a dedução fiscal, até na transacção comercial do puro prazer, ou ainda nos mirmidões de que falava o Eduardo no seu belo romance Cidade Proibida, que se escondem nos baldios das nossas grandes cidades.
Porquê esta ideia absurda de referendar o direito à liberdade contratual? O casamento não é um contrato como outro qualquer? Apesar da carga religiosa que nos querem fazer incutir, o casamento civil é ou não é um contrato que, pelo amor, se anui na partilha de um património? Porquê referendar o direito à liberdade de escolha de uma minoria? Referende-se o povo turco quanto à independência do Curdistão. O povo da Arábia Saudita – habituadíssimo à democracia – sobre a introdução livre da carne porco e do álcool nos cardápios dos seus restaurantes.
Pobre gente. Pobres almas. Propositadamente ou não, é hoje lançado pela Asa um livrinho que faria bem às mentes do bando beato de políticos da falácia, porventura para libertar as pulsões há muito recalcadas. Talvez, após a sua leitura, saíssem do armário, onde previamente se despojariam de toda a hipocrisia, e agarrassem na bandeira multicor… [ver capa do livro na imagem – o tal que pelo simples vislumbre Frederico Lourenço suspirou de esperança, ao vê-lo postado numa biblioteca de um rapaz por quem sofria num silêncio de repressão social dos comportamentos.]

Seus mirmidões dos baldios!

terça-feira, 10 de novembro de 2009

O inelutável caminho para a servidão

«Dêem-nos, por exemplo, mais independência, desamarrem-nos as mãos a todos, alarguem o campo das nossas actividades, abrandem a vigilância e nós… garanto-vos: a primeira coisa que faríamos seria voltar a pedir que nos vigiassem.»
Fiodor Dostoievski, Cadernos do Subterrâneo, p. 188
[Lisboa: Assírio & Alvim, Dezembro de 2000, 191 pp; tradução de Nina Guerra e Filipe Guerra; obra original: Zapíski iz podpólia, 1864.]
Como Camus havia constatado, nunca se negando ao combate – palavras revividas na notável obra de Daniel –, referindo-se à abdicação dos homens perante a violência e o despotismo, evidenciada pelos que se comportam como espectadores bebendo as palavras sábias dos ilustres intelectuais. A tal inelutabilidade que uma vez postulada pelos segundos, conquista pelo comodismo a felicidade dos primeiros, deixando caminho aberto para a servidão que, no fim, pelo curso da história, é encarada como justa.
«Quaisquer que sejam as nossas imperfeições pessoais, a nobreza da nossa profissão radicará sempre em dois compromissos difíceis de manter: a recusa de mentir sobre o que se sabe e a resistência à opressão.»
Albert Camus, “Discursos da Suécia” (Prelecção Nobel, 10 de Dezembro de 1957), O Avesso e o Direito seguido de Discurso da Suécia, p. 85
[Lisboa: Livros do Brasil, Junho 2007, 119 pp; Tradução de Sousa Victorino; obras originais incluídas nesta compilação: L’Envers et l’endroit (1937); Discours de Suède (1958)]

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

20 Anos

Tinha apenas 17 anos. Assistia pela televisão, dominado por um fascínio, quase hipnótico, difícil de explicar, ao júbilo de milhões de alemães e de tantas outras pessoas vindas de todas as partes do mundo perante o derrube de um dos muros mais simbólicos da História mundial. Revi-me nas famosas palavras de JFK, proferidas apenas cinco meses e quatro dias antes de ser assassinado em Dallas, numa cidade cercada por um dos regimes políticos mais ignóbeis que o Homem conheceu.
Naquele frio dia de Novembro chorei pelo grito de liberdade de um povo oprimido e tiranizado que se exprimia em lágrimas de felicidade por cada batida que abria uma fenda no muro da vergonha. Tal como eles, também «Ich bin ein Berliner».

Aquele beijo apaixonado entre dois tiranos do mundo moderno, representantes directos da ortodoxia estalinista, os filhos do monstro, é ainda admirado com uma nostalgia que não se consegue compreender, nem à luz da liberdade de expressão – esbarra com qualquer conceito de justiça, igualdade, humanismo, liberdade, integridade, dignidade da condição humana. E se agora me envergonho, não é pela falácia da comparação sobre a derrogação daqueles valores entre dois sistemas que em tempos se digladiaram, como meio de justificar o regresso do status quo pré-“9 de Novembro”. Se a minha cara se cobre de vergonha é em razão dos 446.994 portugueses, representados por 15 deputados (em 230) na Assembleia da República, que no passado dia 27 de Setembro ao exercer livremente o seu direito de voto – coisa impensável se a sua doutrina tivesse vingado no nosso país – se revêem nas palavras espúrias dos seus dirigentes sobres este acontecimento histórico.
Não me interessa o relativismo, as comparações e o revisionismo. Não interessa a história e o passo em frente. Mas o momento presente, vivido por milhões de pessoas como um valor absoluto de libertação.

«Há muita gente no mundo que realmente não compreende, ou dizem não compreender, qual é a grande divergência entre o mundo livre e o mundo comunista.
Deixem-nos vir a Berlim.
Há alguns que dizem que o comunismo é a vaga do futuro.
Deixem-nos vir a Berlim.
E há outros que dizem, na Europa ou noutro sítio qualquer, que nós podemos trabalhar com os comunistas.
Deixem-nos vir a Berlim.
E há ainda uns poucos que dizem que é verdade que o comunismo é um sistema perverso, mas permite-nos alcançar progresso económico.
Lasst sie nach Berlin kommen.
Deixem-nos vir a Berlim.»
Parte do discurso proferido por John Fitzgerald Kennedy, a 26 de Junho de 1963, em Berlim Ocidental [tradução livre: AMC, 2009]

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Start spreading the news...

Vivo no presente, e os inexoráveis saltos e sobressaltos que o futuro traz a esta actualidade – que não é a mesma desde que comecei a escrever este texto vacilante, tal como a vontade de o acabar – obrigam-me a corrigir determinadas excitações incisivas perpetradas num passado recente, embora, muitas vezes – como é o caso –, não se revistam dessa qualidade de um paroxismo efervescente, mas de uma mais tranquila irritada constatação – a antinomia, tal como a idiotia, tem os seus malefícios; pelo sucedido peço perdão.
Bertrand, loja das Antas, por volta das 17 horas do dia de ontem. Corri os olhos pelo espectáculo multicor de capas, lombadas, brindes e cartazes sobredimensionados de autores ufanosos por ostentarem a sua prima do mestre-de-obras, com uma voracidade inaudita, sentindo o fôlego entrecortado, o coração em arritmia, a adrenalina a esvair-se como o pó pelas narinas sôfregas de Keith Richards, e detive-me na secção das “novidades” – acho que deverá estar próximo o futuro, que se fará anunciar por uma apocalíptica trombeta joanina, em que irei ver uma livraria com 500 metros quadrados de área útil cujas estantes apenas estarão forradas de novidades… saídas do prelo ontem, tal é a vertigem editorial nos dias que correm em Portugal. Encontrei-o. De capa azul celeste de fim de tarde outonal, eis o objecto para confirmação das minhas apreensões literárias. Abri a badana da contracapa e li:

«A publicar: Submundo.» (Sextante Editora)

Mas não fiquei por aí. Também li a ficha técnica e verifiquei que a revisão literária mudou de género – impossibilidade física (esqueçam as cirurgias de reconversão) de coincidir com a de antanho.
Fechei os olhos. Suspirei. Voltei a abri-los. Necessitava, como de pão para a boca de um acto puramente masoquista, pungente como o cilício nas pernas roliças e peludas dos fiéis de São Josemaría Escrivá. Foi então que agarrei no último livro de Nicholas Sparks (exposto aos magotes, como se não houvesse amanhã) e li as primeiras frases… uma tontura, seguida de uma forte náusea deixaram-me à beira do precipício do achaque estético em público, soltando gritos à Castelo Branco – não o da Plácido e da Cadeia da Relação – o outro(a), o José… Tomei uma resolução, e à João Vieira Pinto, dei um passo em frente.
Ponto final.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

IMPAC 2010

[Há pelo menos três anos que este texto se vai repetindo, como a biblioteca borgiana, tendendo para um infinito – se me julgasse eterno… –, apenas com algumas alterações numéricas que, muito ao jeito do pragmatismo anglo-saxónico, se constrói pelo emprego do método “fill in the blanks”. Tentarei, porém, mudar alguma coisa. Nem que seja uma vírgula, uma palavra pelo seu sinónimo directo (ou até por um erro ortográfico grosseiro, um obstinado apelo à atenção do leitor), vários pontos de exclamação (tão vituperados, ultimamente, ó símbolo viril; tratados como proscritos e condenados à chama com poder calorífero decerto superior a 451ºF onde jazem as cinzas das “reticências”, do “ponto e vírgula” e do “travessão”). Basta! Enfim…]

Ontem, foi anunciada a lista dos semifinalistas do International IMPAC Dublin Literary Award. A lista deste ano é constituída por 156 romances (mais 10 que em 2009) de outros tantos autores.
Nesta primeira fase de selecção intervieram 163 bibliotecas (mais 10), espalhadas por 123 cidades (mais 6) de 43 países (menos 4) de todos os cantos do mundo.
Segue-se, agora, uma 2.ª fase, a cargo de um júri pré-seleccionado constituído por cinco elementos, e presidido por um sexto sem direito a voto, neste caso é o famoso juiz/escritor norte-americano Eugene R. Sullivan (tal como no ano passado). A primeira tarefa do júri é desbastar a lista inicial, seleccionando aproximadamente dez obras que integrarão a lista de finalistas, cuja divulgação está marcada para o dia 14 de Abril de 2010.
Escolhidos os finalistas, atinge-se a 3.ª e última etapa, que consiste na eleição da obra vencedora dos cem mil euros em jogo que reverterão na íntegra para o autor, no caso de a obra seleccionada ter sido publicada originalmente em língua inglesa, ou serão repartidos numa proporção de ¾ para o autor e ¼ para o tradutor nos outros casos – note-se que das 156 obras seleccionadas este ano, 41 foram traduzidas para o inglês. O vencedor do IMPAC Award de 2010 será anunciado no dia 17 de Junho de 2010.
A curiosidade deste prémio reside precisamente nestas duas fases distintas de selecção, onde há a intervenção de especialistas de dois níveis distintos: bibliotecários, na 1.ª fase, e autores, críticos, editores e gente das letras nas duas últimas fases.
As regras para as bibliotecas seleccionadas através de candidatura previamente elaborada são bastante simples:
- O Dublin City Council, através da administração das bibliotecas públicas da cidade de Dublin recebe uma lista de obras de ficção nomeadas por responsáveis de bibliotecas espalhadas pelas capitais e principais cidades de países de todo o mundo.
- Cada biblioteca pode nomear até 3 obras de ficção que apenas têm de obedecer a uma condição: a sua publicação em língua inglesa.


Para o prémio de 2010 só poderiam ser nomeadas:
- Obras originalmente publicadas em inglês durante o ano de 2008;
ou,
- Obras originalmente publicadas noutra língua entre o quadriénio 2004/2008 e que hajam sido publicadas em inglês durante o ano de 2008.
Para o prémio de 2010, destacaram-se dez obras que obtiveram mais de cinco votos (entre as quais constam oito que já foram publicadas em Portugal, curiosamente, apenas distribuídas por 3 editoras: 4 da Presença, 3 da Bertrand e 1 da Dom Quixote), no total dos 300 votos exercidos (para um máximo de 489 votos) pelas 163 bibliotecas (1 biblioteca – 3 obras diferentes; 1 obra – 1 voto). Lidera a lista o Booker Prize de 2008:
  • 9 votosAravind Adiga, O Tigre Branco (ed. port. Presença, The White Tiger); 
  • 8 votos (3 obras)Muriel Barbery, A Elegância do Ouriço (ed. port. Presença, L’Élégance du hérisson); Sebastian Barry, Escritos Secretos (ed. port. Bertrand, The Secret Scripture); e Toni Morrison, A Dádiva (ed. port. Presença, A Mercy); 
  • 7 votos (2 obras)Joseph O'Neill, Netherland: Terra de Sombras (ed. port. Bertrand, Netherland); e Steven Galloway, O Violoncelo de Sarajevo (ed. port. Presença, The Cellist of Sarajevo); 
  • 6 votos (4 obras)David Wroblewski, A História de Edgar Sawtelle (ed. port. Bertrand, The Story of Edgar Sawtelle); Philip Hensher, The Northern Clemency; Philip Roth, Indignação (ed. port. Dom Quixote, Indignation); e Tim Winton, Breath.
Seguem-se cinco obras com cinco votos, de onde destaco o romance magistral de David Lodge, A Vida em Surdina (Deaf Sentence) – até há bem pouco tempo figurava com 6 estrelas (Obra-Prima) neste blogue (ver coluna do lado esquerdo) onde fazia companhia a Thomas Mann; todavia, dada a excepcionalidade da classificação, foi reclassificado, tendo sido destronado por Updike. Esta obra de Lodge foi publicada em Portugal pela Asa, e é, sem sombra de dúvida, um dos melhores romances editados em 2009 no nosso país, um daqueles que me levou às lágrimas tanto pelas peripécias da vida de um erudito em perda irreversível do sentido da audição, como pelos momentos mais melancólicos onde, através do picaresco, perpassa uma ternura esteticamente comovente.
De notar, que, atendendo ao historial deste prémio, toda a estatística que atrás despejei, no essencial as que incluem as obras com o maior número de nomeações, pode revelar-se apenas como mera indicação ou mero mostruário para não retirar o sentido lúdico (maníaco?) ao evento, ou seja, sem força vinculativa para a escolha dos finalistas e do vencedor a ocorrer no próximo ano. A palavra final cabe sempre ao júri seleccionado, podendo eleger como vencedor uma obra que, no limite, tenha obtido apenas uma nomeação (1 voto). Aliás, se atentarmos nos vencedores dos quatro últimos anos, verificamos que o vencedor de 2009, o bostoniano Michael Thomas, pela sua obra Man Gone Down, foi nomeado apenas por 1 biblioteca nos Barbados; tal como ocorreu com o vencedor de 2008, o autor canadiano-libanês Rawi Hage, Como a Raiva ao Vento (De Niro's Game), nomeado apenas por 1 biblioteca e conterrânea, a Winnipeg Public Library, no Canadá; enquanto o vencedor de 2007, o norueguês Per Petterson, com o admirável romance Cavalos Roubados (Ut og stjæle hester), foi nomeado somente por 2 bibliotecas, e ambas norueguesas; porém, em contraste com os seus sucessores, o vencedor de 2006, Colm Tóibín, com a sua inolvidável obra semi-ficcional sobre parte da vida de Henry James, O Mestre (The Master), foi previamente nomeado por 17 bibliotecas espalhadas pelo mundo.
Será ainda de notar que, pela primeira vez na curta história dos IMPAC Awards, foram nomeadas duas obras distintas pertencentes a um casal literário – e, diga-se, bastante famoso no mundo das letras –, ambas editadas pela Asa [fonte: Miguel Seara]: 
  • Paul Auster, pelo seu penúltimo romance Homem na Escuridão (Man in the Dark) – 4 nomeações (Alemanha, Áustria, Bélgica e Itália); 
  • Siri Hustvedt, por Elegia para um Americano (The Sorrows of an American) – 3 nomeações (Bélgica, Espanha e Noruega).

Finalmente, três destaques, por razões diversas para três autores:
  • o ateu literalista (com falta de divino, não consciente) José Saramago foi nomeado pela Miami-Dade Public Library (Florida, EUA) pelo seu romance As Intermitências da Morte;
  • o autor brasileiro Milton Hatoum foi nomeada por uma biblioteca brasileira pelo seu romance Cinzas do Norte;
  • o sofrível romance do perseguido autor indo-britânico Salman Rushdie, A Feiticeira de Florença (ed. port. Dom Quixote; The Enchantress of Florence) recebeu apenas 1 nomeação (da Kansas City Public Library, Minnesota, EUA).
    Para terminar,deixo ficar a habitual referência ao comportamento eleitoral das nossas inventivas bibliotecas participantes. Uma vez mais, Portugal participou na referida 1.ª fase de nomeação através das suas duas habituais bibliotecas: a Biblioteca Pública Municipal do Porto (BPMP) ao jardim de São Lázaro e a Biblioteca Municipal Central de Lisboa (BMCL), situada no Palácio das Galveias – pouco chauvinistas, ao que parece… 
    BMCL: 
    • José Eduardo Agualusa, As Mulheres do meu Pai (Dom Quixote) – 2 nomeações; 
    • José Rodrigues dos Santos, Codex 632 (Gradiva) – 2 nomeações; 
    • Toni Morrison, A Dádiva (ed. port. Presença; A Mercy) – 9 nomeações. 
    BPMP (este ano, ao contrário de outros, exerceu a totalidade dos 3 votos a que tinha direito, e finalmente não escolheu uma obra do escritor nova-iorquino, residente na Invicta, Richard Zimler): 
    • Aravind Adiga, O Tigre Branco (ed. port. Presença; The White Tiger) – 8 nomeações; 
    • José Eduardo Agualusa, As Mulheres do meu Pai (Dom Quixote) – 2 nomeações; 
    • José Rodrigues dos Santos, Codex 632 (Gradiva) – 2 nomeações.
      Para o ano, se SaraMago, ou deus, ou outra entidade por eles permitir, cá estarei para apresentar um texto quase automático com a listagem da 1.ª fase do IMPAC de 2011.

      sexta-feira, 30 de outubro de 2009

      Aquilo que eu temia

      Há mais de um ano quando a neófita e desde logo louvável Sextante Editora entrou na denominada velocidade de cruzeiro editorial – após um arranque atribulado, em que se viu forçada a mudar de nome para evitar possíveis confusões com outras editoras no mercado, e escolheu este que corresponde a uma editora brasileira –, publicaram-se, numa base sistemática, obras originais de autores nacionais, que acabaram mais tarde por ser objecto de atribuição de importantes prémios literários, e optou-se por uma escolha criteriosa de obras, na sua maioria inéditas em Portugal, de autores estrangeiros consagrados. Enquadram-se neste último caso nomes como Cheever, Echenoz, A.S. Byatt, Pasternak, Truman Capote, Le Clézio e o meu mui estimado autor norte-americano Don DeLillo.
      Em Novembro de 2007, a Sextante publicava O Homem em Queda (Falling Man), o último romance do ilustre escritor nova-iorquino – pessoa responsável pela epígrafe deste blogue – publicado originalmente em Maio desse mesmo ano nos Estados Unidos, com uma tradução exemplar de Paulo Faria (aliás, em harmonia plena com o seu padrão de trabalho).
      Em suma, o meu júbilo pelo anúncio, embora não tenha tido paralelo após leitura pela qualidade do romance de DeLillo  – em boa verdade revelou-se uma pequena decepção –, deveu-se mais à oportunidade temporal da sua publicação – meio ano após a publicação original, o que é raro no meio editorial nacional –, como também pela escolha do mencionado tradutor, Paulo Faria, um dos poucos nomes cuja inscrição nas primeiras páginas de um livro me deixam a firme certeza de não ter de ingerir um (ou vários) Xanax por uma tradução exasperante.
      A talho de foice, dada a minha comprovada listomania – que alguém, não me lembro de quem (deve constar de um dos textos deste blogue, cuja bela preguiça não me permitiu encontrá-lo), condenou os colegas listómanos ao padecimento da síndrome de Asperger – apresentarei, num dia destes, uma pequena (dada a escassez de matéria-prima) relação  dos melhores tradutores nacionais.
      Na badana da contracapa do dito romance, houve um conjunto de caracteres que se destacou pelo brilho ofuscante da asseveração que aí era produzida, pelo menos para um delilliano (um verdadeiro trava-línguas):
      «Obras de Don DeLillo / A publicar / Ruído branco / Underworld»
      Assim que li aquela badana, perguntei-me por que motivo se duplicaria a publicação de uma obra [Ruído Branco] que ainda estava perfeitamente acessível no mercado livreiro, na sua versão de 1991 da Presença? Seria pela sua constatada tradução mais que sofrível, encomendando para o efeito a sua retradução a um notável tradutor da nossa praça?
      A segunda resposta afigurava-se-me positiva. De facto, a tradução de White Noise (1985) de Rui Wahnon, tal como ocorreu com a de Libra (1988), é de exasperar um santo bibliófilo, moderadamente apreciador das obras de DeLillo. E o mercado literário e os seus consumidores só têm a ganhar com traduções posteriores que procurem corrigir as traduções existentes e com isso captar, de forma mais eficaz, a verdadeira essência, o espírito que o autor emprestou à obra.
      Ruído Branco é, na realidade, um romance arrebatador, profundamente envolvente, admirável na gestão das expectativas do leitor, no recobro do seu fôlego, em suma, é uma obra genial engendrada por um colosso literário. Das oito* entre as catorze obras de ficção escritas por Don DeLillo – deixando de parte os contos e as peças de teatro – que tive a feliz oportunidade de ler, aquela é, sem sombra de dúvida e na minha pessoalíssima opinião, a melhor obra do autor de Nova Iorque, com a qual, este, até aos dias que correm, venceu o seu único National Book Award (o de 1985).
      É oficial. Acabei de receber a informação enviada pela própria editora:
      «Novidade de Outubro: Ruído branco, de Don DeLillo.»

      Aconteceu o que temia depois de ler aquela badana, cuja informação transcrevi. Underworld, considerada a magnum opus de DeLillo, iria ficar para segundo plano. E esta predição baseou-se, essencialmente, em dois factores:
      1. As mais de oitocentas páginas da versão original da obra; logo, potencialmente menos vendável, dispendiosa em termos de edição, e a exigir uma tradução original sem rede ou sem muletas de edições anteriores;
      2. A tradução já existente da Editorial Presença, cuja edição deverá estar prestes a esgotar, aliada – e torna-se imperioso realçar este aspecto – à notoriedade de uma obra consideravelmente menos volumosa – a 1.ª edição de 1991 da referida editora não passou das 325 páginas (irão ser 400 na versão da Sextante).

      Mas o choque foi ainda maior, quando no dito auto de notícia pude ler «Tradução do inglês / por Rui Wahnon». Ai, não!
      Resta saber se rectificada pelo próprio que, é justo dizer-se, partilhou responsabilidades com o trabalho de revisão de um talvez adormecido Fernando Cunha Rebelo, ou dissecada por um revisor literário mais atento e conhecedor das falhas da tradução de 91. Se assim não for, pese embora a mudança de editora, trata-se de uma mera reimpressão em casa nova, que não acrescenta nada de positivo à obra traduzida, apenas perpetua o erro; ao invés da recomendável reedição de uma obra-prima da literatura americana traduzida com zelo e mestria que não faça desmerecer esse epíteto em português e que lhe foi merecidamente aposto pela versão original em língua inglesa.
      Quanto a Underwold (1997)**, só me resta esperar, de preferência deitado em colchão ortopédico não vá o diabo tecê-las.

      _____________________________
      *Nota, obras lidas de DeLillo: Cão em Fuga (1978), Os Nomes (1982), Ruído Branco (1985), Libra (1988), Mao II (1991), O Corpo Enquanto Arte (2001), Cosmópolis (2003) e O Homem em Queda (2007).
      **Nota, honras e prémios literários concedidos à obra Underworld: finalista vencido do National Book Award 1997 (perdeu para O Regresso do Soldado – Cold Mountain de Charles Frazier), do Pulitzer Prize for Fiction de 1998 (perdeu para o memorável Pastoral Americana de Philip Roth) e do concurso pontual, realizado em 2006, pelo The New York Times – Best Work of American Fiction of the Last 25 Years (perdeu para Beloved de Toni Morrison, autora galardoada com o Prémio Nobel da Literatura em 1993); venceu o American Book Award em 1988, o Jerusalem Prize (1999), o William Dean Howells Medal (2000) e o Riccardo Bacchelli International Award (2000).

      quinta-feira, 29 de outubro de 2009

      Pena


      «A pena é uma emoção tão horrível e tão inútil – temos de reprimi-la e guardá-la para nós mesmos. Quando tentamos exprimi-la, só pioramos as coisas.»
      Paul Auster, Invisível, p. 97.
      [Alfragide: Asa, 1.ª edição, Outubro de 2009, 236 pp; tradução de José Vieira de Lima; obra original: Invisible, 2009.]

      Aproxima-se o dia que cobriu de dor aqueles que mais quero, e quis a sorte que se colasse à data em que os católicos no seu masoquismo perene correm em bando, de cabeça baixa, pela alvenaria dos trilhos cortados entre campas, para recordar aqueles que, por maiores que sejam a recordações de felicidade e de profundo afecto, deixaram a dor de uma perda irreparável e os terríveis “ses” que se entalam na garganta e sufocam um grito, porventura, se exteriorizado, pouco abonatório da urbanidade das nossas vidas civilizadas.
      Amanhã será o dia de tréguas. A suspensão de uma provável recidiva da discussão teológica familiar entre o que acredita que o fim é um valor absoluto, de saudade e dor – o já descrente que deixou, em definitivo, de acreditar –, e aquele cuja fé se reforçou porque não acredita num Deus cruel e injusto, num Decisor impiedoso que arrebatou para si alguém na flor da idade, que só o fez para acomodar a sua alma desamparada numa vida melhor.
      Amanhã, serão sete os anos de ausência que ainda não consigo conceber como caridosa.
      Não é pena, nem tão-pouco uma súplica por piedade. É uma revolta pela incompreensão de tão bárbaro destino para os que cá ficaram.

      quarta-feira, 28 de outubro de 2009

      A pilha Murakami

      Curiosas as metamorfoses diárias da minha biblioteca pessoal.
      Não compro somente livros de um conjunto restrito de autores que me inebriam perante a minha sede de leitura – apesar de o “restrito” ser bastante amplo, há que dar novos mundos à minha biblioteca –, embora haja alguns que figuram na utópica listagem da “obra completa”; existem outros, porém, que, por variadíssimas razões, deixei de comprar e de ler, mesmo até à socapa numa livraria ou biblioteca pública sem despender o vil metal; há outros, ainda, recomendados por tudo e por nada, por todos e por ninguém – basta neste caso um vislumbre da capa, a leitura de uma sedutora frase de abertura –, que têm o poder de influenciar a minha alta propensão para o gasto livreiro.
      A biblioteca vai mudando à causa, bibliófila e oneomaníaca, de comprar consideravelmente mais livros que o tempo disponível para os ler. Agiganta-se no espaço. Não é ela eterna e infinita?
      No princípio, com Murakami, era o verbo no particípio “livro comprado, livro lido”; um passado que à sétima obra do autor publicada em Portugal mudou de forma silenciosa (Dança, Dança, Dança; ed. port. Casa das Letras): já não o li e sucedeu-se um empilhar de lombadas alvas com letras arrevesadas de vermelho e negro que desprestigia a carteira – que é um mimo de a ver farta –, e entulha a biblioteca, que se pretende qualitativamente irrepreensível, como objecto de ostentação puramente onanista – não tem de ser pública, nem figurar em local em que cada visitante solte um suspiro de admiração estonteado pela grandeza da coisa. É, por definição e teimosia, um prazer privado, não partilhável e jamais fungível como um subproduto do ócio.
      Agora, anuncia-se uma autobiografia. Corridas de fundo e literatura. Esforço físico e musculação mental. Suor transformado em caracteres ideográficos, com jacto marcado para o mercado norte-americano que se encarrega de espalhar a epidemia dos universos oníricos murakamianos pelo mundo ocidental – realismo mágico da pubescência fechada em poços e quartos escuros, esperando por cataclismos de proporções bíblicas como recurso final a um Deus ex machina singular e absurdamente xintoísta.
      Murakami corre. O nosso engenheiro-filósofo contemporâneo corre para aclarar as ideias que irão ser transubstanciadas em estratégias sobre o xadrez do casaco da Ministra do Trabalho, de apelido André. Cedo o passo, alivia-se o orçamento. A biblioteca continuará a transformar-se, seguindo por outros caminhos não trilhados pelas solas pneumáticas do andarilho jactancioso – a maiêutica em movimento (geração Magalhães). Talvez, num futuro próximo, os nossos trilhos se cruzem num ponto longínquo ideal que por agora não vislumbro.
      Haja fé e saúde. A pilha, por enquanto, manterá a medida do seu peso. Nem mais um grama! (e mais um ponto de exclamação, admirem-se.)