terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Exibição da sapiência paterna (tragédia)

Passariam uns dez minutos das nove da manhã. Escuro, o céu forrado de cúmulos-nimbos, um frio de rachar cortado apenas pelo aquecimento do carro e pelas palavras quentes que saíam da boca de I. a caminho de mais uma jornada de luta – que saudades desses tempos revolucionários de palmo e meio – no seu colégio… de freiras.
Inquieta, interrogava-me sobre as forma e cor inauditas daquelas nuvens. Eu, com um ouvido na TSF, Obama e a tomada de posse, e outro no espanto verbalizado por uma pirralha de cinco anos perante a magnitude da paisagem atmosférica, ia dando as minhas doutas respostas, um deus-pai da meteorologia e de qualquer assunto, a confiança cega que mais tarde se transforma numa dolorosa descoberta: ele afinal não sabia tudo; tem defeitos; bazófias; podendo até, em fases extremas, redundar num parricídio de contornos pasolinianos.
Chega a pergunta inevitável:
– Papá, achas que vai haver trovoada?
Esboço um sorriso sardónico como meio indispensável para a produção
do necessário efeito ansiolítico, e imperiosamente determino que isso seria um disparate, dada a inexistência da massa de ar quente… salvo pelo gongo, a buzina do carro de trás apressa-me a encontrar um lugar, o portão do colégio está próximo. Estaciono em segunda fila. Se fosse Aristófanes dir-te-ia o que farias com a tua buzina ligada à cabeça… Aspecto exterior: impassível.
Agasalho-a, aperto-a nos meus braços e diz-me na sua candura: – depois logo contas-me, papá.
Separámo-nos. Desligo a luzes de emergência e entro de novo no carro. O candidato à imprecação aristofânica desapareceu. Cem, duzentos metros. Ainda mal se emudecera na minha face o doce e terno beijo lambuzado da despedida e abate-se sobre o meu carro uma chuva de granizo, segundos antes anunciada por um forte trovão.
Brindo à minha erudição climatérica: bravo, papá, acertaste.
De quem é a culpa?, pergunto-me. A resposta óbvia não tarda…
Se a tua mãe num domingo deste querido mês de Agosto me tem dado ouvidos e não te tem levado à praia onde uma Senhora da Nazaré (ou similar) levada em ombros a banhos de água salgada por uma multidão garrida ao som de salvas de morteiros a cada mistério rezado, talvez hoje, querida I., não tivesses medo dos trovões…

Ah, meu marialva, comigo a culpa é sempre da mulher. As voltas que a vida… perdão, o texto dá.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Ainda (e sempre) sobre Benjamin Button


Se tiver oportunidade vê-lo-ei de novo ainda esta semana. Tal foi a marca de inquietação que, com uma persistência espantosa, não me larga o espírito.
Como desconstruir a hipótese existencial, em forma de prece divina, ambicionada por Mark Twain? O tal homem cujo destino ficou associado aos caprichos da circularidade de um cometa.
F. Scott Fitzgerald inspirou-se na biografia de Mark Twain, escrita e publicada em 1912 por Albert Bigelow Paine, onde leu uma curiosa citação:
«Seu eu houvesse ajudado o Todo-Poderoso quando Ele criou o homem, tê-Lo-ia persuadido a começar pelo outro extremo, pondo os seres humanos a nascer na velhice. Quão melhor seria nascer velho, com toda a amargura e a cegueira da idade dispostas no início! Ninguém se importaria se ansiássemos por uma juventude rejubilante. Pense na feliz perspectiva de rejuvenescer em vez de envelhecer! Pense na satisfação em esperar pelos dezoito anos em vez dos oitenta! Sim, o Todo-Poderoso nisso fez um mau trabalho. Quem me dera que Ele houvesse pedido o meu auxílio.» [tradução: AMC]
Na colectânea de contos de Scott Fitzgerald, Tales of the Jazz Age de 1922, Scott, na apresentação dos contos compilados refere o que se segue para “The Curious Case of Benjamin Button”:
«Esta história inspirou-se numa observação de Mark Twain, que propalava que era uma pena que a melhor parte da vida surgisse no seu início e a pior no seu fim. Ao efectuar a experiência em apenas um homem num mundo perfeitamente normal, dificilmente proporcionei à sua reflexão um julgamento justo.» [tradução: AMC]
Talvez tenham sido estas palavras introdutórias do criador que levaram Robin Swicord e Eric Roth (a primeira perseguia obsessivamente a concretização deste projecto em filme, e já dispunha de um guião escrito) à ampliação e trasladação histórica desta magistral alegoria sobre a morte como fim sombrio, angustiante, perceptível, inelutável e omnipresente em toda uma vida, quer haja ou não uma inversão do seu início. O sofrimento permanece, aproveitai os momentos.
Fincher alerta-nos para a beleza do preceito que, todavia, choca com princípios morais, na estrita medida em que se gera uma séria iniquidade, uma desarmonia existencial, jamais conjugável com, e potencialmente geradora de, uma felicidade perene e absoluta. Benjamin Button é uma parábola sobre essa dissonância insanável. Não é uma história de amor ou sobre o seu desencontro, é um hino ao não desperdício daquilo que a vida no traz no momento, saber vivê-lo, agarrá-lo com unhas e dentes, porque a única certeza, rejuvenescendo ou envelhecendo, é a transitoriedade para o vazio, que ultrapassa a dúvida paralisadora sobre a transcendência do fim.

Ainda sob a influência do espectro mágico do filme, que irei rever, revisitar e reexaminar, à procura dos famosos “ovos de Páscoa” – como gosta de chamar uma mente auto-iludida com a sua perspicácia – ou daquilo que aos meus olhos fugiu numa primeira exibição, não falarei, por enquanto, sobre os pormenores de realização, dos momentos memoráveis (o mais delicioso com Tilda Swinton no Hotel na cidade polar de Murmansk, no extremo noroeste da Rússia), a banda sonora, a fotografia e as interpretações (a soberba interpretação de Brad Pitt, que ao que tudo indica irá passar em branco).

Deixo apenas uma recomendação para a leitura deste excelente texto do Henrique e um excerto de um poema de Larkin (talvez a despropósito), que não me atrevo a traduzir:

I work all day, and get half drunk at night.
Waking at four to soundless dark, I stare.
In time the curtain edges will grow light.
Till then I see what's really always there:
Unresting death, a whole day nearer now,
Making all thought impossible but how
And where and when I shall myself die.
Arid interrogation: yet the dread
Of dying, and being dead,
Flashes afresh to hold and horrify.
Philip Larkin (1922-1985), 1.ª estrofe de “Aubade” (1977)

domingo, 18 de janeiro de 2009

João Lopes dixit

Ainda no campo das curiosidades, uma semana antes da estreia do filme, encontrei João Lopes na Almedina do Arrábida Shopping, supostamente no dia em que, segundo me informaram, o crítico viu o filme em sessão privada numa das salas do multiplex do UCI.

Chiste bolañiano

Os americanos descobriram-no há muito pouco tempo. Talvez através de Susan Sontag (1933-2004) com o sem ajuda de miss I., a sua amiga do peito. E pelos jornais, revistas da especialidade, pelas comunidades de leitores, críticos, autores sancionadores da qualidade profissional de seus pares e hermeneutas da palavra alheia – estes últimos, normalmente, em busca de mensagens subliminares e encriptadas de teor político, reconhecendo no autor as capacidades divinatórias de guia de luz contra o despotismo de índole capitalista – só se lê, ouve, ou vê – o gesticular afectado dos iniciados ou eleitos pelo esplendor da intelectualidade literária – falar de Roberto Bolaño (1953-2003). Traduzem-se as suas obras. Esmiúça-se ao mínimo detalhe a sua personalidade, vida familiar, teia de relacionamentos, entrevistas em publicações mais ou menos obscuras.
No ano passado, saiu Bolaño selvagem (Bolanõ selvaje, livro e DVD sob a chancela da Editorial Candaya, editado pelo boliviano Edmundo Paz Soldán e pelo peruano Gustavo Faverón Patriau, inclui textos de Enrique Vila-Matas, Rodrigo Fresán, Jorge Volpi, entre outros. Chega-se a hiperbolizar afirmando que com a morte de Bolaño morreu a literatura latino-americana (e eu, sozinho em casa a escrever este texto, pergunto-me por Fuentes e Vargas Llosa, até por García Márquez ou Piglia).

Prosseguindo. A vida e o brilhantismo de Bolaño reflectem-se na sua obra. Decerto que há muito para dizer sobre a curta vida deste ilustríssimo escritor chileno, mas primeiro leiam-no e deliciem-se com a sua ironia, por vezes subtil outras vezes carregada, sarcástica, pontuado de um espirituoso humor negro.

Eis uma passagem de Nocturno Chileno (que demorei uma infinidade de tempo a encontrar, dada a minha mania de não profanar os meus livros com inscrições, sublinhados e anotações à margem), do Padre Ibacache recenseador literário (cujo ao ortónimo Sebastián era adicionada a estranha combinação de apelidos basco-francesa Urrutia Lacroix).
Pobre padre. Jovem, perdido na Europa numa demanda insana engendrada por dois numerários da Opus Dei, Oido e Odeim – ódio e medo (miedo), respectivamente, de trás para a frente –, sobre a preservação das fachadas das igrejas europeias frente aos bárbaros ataques de bandos de pombas (o símbolo do Espírito Santo) e a sua copiosa defecação. Solução wescottiana: criação de falcões. No momento de desespero absoluto, em que Sebastián pensa no regresso ao Chile, um bom padre alemão conta-lhe uma anedota:

«Está o Papa com um teólogo alemão, a falar tranquilamente numa das salas do Vaticano. De repente, aparecem dois teólogos franceses, muito excitados e nervosos, e dizem ao Santo Padre que acabam de chegar de Israel e que trazem duas notícias, uma muito boa e outra considerada má. O Papa suplica-lhes que falem de uma vez por todas, que não o mantenham na expectativa. Os franceses, atropelando-se, dizem que a boa notícia é que encontraram o Santo Sepulcro. O Santo Sepulcro?, diz o Papa. O Santo Sepulcro. Sem a mais pequena dúvida. O Papa chora de emoção. Qual é a má notícia?, pergunta, secando as lágrimas. Dentro do Santo Sepulcro encontrámos o cadáver de Jesus Cristo. O Papa desmaia. Os franceses tentam dar-lhe ar. O teólogo alemão, que é o único que está calmo, diz: ah, mas então Jesus Cristo existiu mesmo?»
Roberto Bolaño, Nocturno Chileno, p. 95
[Lisboa: Gótica, Julho de 2003, 150 pp.; tradução de Rui Lagartinho e Sofia Castro Rodrigues; obra original: Nocturno de Chile, 2000.]

Para a semana, nas habituais citações dominicais, um brilhante auto-retrato e análise do ilustre autor chileno (devidamente traduzido).

sábado, 17 de janeiro de 2009

Afecto


Um entre vários sentimentos que perpassam por um dos melhores filmes (americanos e não-americanos) dos últimos tempos.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

O desmadonnizado

Janeiro, 16. Três filmes contabilizados – se esta média for para manter, verei durante o corrente ano menos um filme que em 2008 (68). Mas a matemática e a estatística não se coadunam com a minhas volatilidade emocional e consistente inconsistência.
Primeiro, o fraquinho A Troca (Changeling, 2008) de Clint Eastwood, que se salva pelo excelente desempenho de Angelina Jolie, embora, tenha de admitir, que, pela história de base, o filme poderia ter facilmente resvalado para o melodrama grotesco e xaroposo, bem ao estilo dos metros de celulóide desperdiçados com peliculas que se baseiam em livros de Nicholas Sparks.

Numa das salas do ex-AMC, há já alguns anos rebaptizadas com a sigla UCI – tiveram essa descortesia para com o meu nome, a não ser que mude o meu nome próprio para Urbano (o que seria incoerente dada a minha irritabilidade crescente nos tempos que correm, somatizada numa coloquialidade discursiva e comportamental a rasar a grosseria) ou para um homérico Ulisses (não, não sou assim tão afanoso e empenhado) –, foi acrescentado um efeito sonoro, que, decerto, não influenciará os votantes desta categoria para os Óscares deste ano dada, por um lado, a distância geográfica e, por outro, uma eventual surdez do Echelon, efeito que poderia haver-se designado por “cascata”, “impetuosidade aquosa” ou “micção elefantina”: chovia dentro da sala, como se se houvesse materializado no tecto da dita cuja um fontanário de bica larga, impotente para deter tamanha descarga celestial. Resultado: a gerência do referido multiplex ofereceu a cada pessoa presente no putativo pantanal a possibilidade de assistir de graça a um outro filme, em qualquer dia, a qualquer hora. Bem-haja.
Gastei o vale. Decidi, em cima do acontecimento, que iria ver o último filme do santo, arcanjo, ou até Cristo ressuscitado Guy Ritchie – qualificativos que lhe assentam bem dado ter aturado durante anos aquela mulher inconcebível. RocknRolla, era o nome do filme. Ritchie é daqueles realizadores que por mais filmes que realize transmite a sensação de ter feito sempre o mesmo filme. Cheiro-me a Snatch – Porcos e Diamantes (a sala até se encontrava bem asseada), principalmente no histerismo cadencial das cenas, nos personagens, até no estribilho curto e acelerado de imagens que em Snatch funcionou tão bem com Dennis Farina.
Guy, agora com quarenta anos, despoluído de toda a carga de excentricidade, apimbalhada, sudorífera até (pronto, que querem, a dita cuja senhora sempre que aparece diante dos meus olhos, faz activar os meus detectores de um forte, adocicado e repugnante odor axilar), pode começar a viver de novo, e quiçá tal rompimento haja potenciado as suas capacidades criativas, aguardando-o uma série de filmes por si dirigidos que entrarão directamente, sem o necessário envelhecimento em casco de carvalho francês, para o panteão da cinematografia mundial. Ou então, descobre que é mesmo um completo fracasso enquanto cineasta e encontra a sua verdadeira vocação, desaparecendo na massa anódina de estivadores, também sudoríferos, que enrijecem corpo e alma nas docas de Southampton.
Salvam-se a banda sonora, sugerindo ao espectador ter sido objecto de uma selecção meticulosa, e a fantástica participação dos maravilhosos The Subways, com um dos seus êxitos de 2005, do álbum Young for Eternity, “Rock & Roll Queen”.
Mas, por enquanto, deixo aqui ficar o vídeo “I’m a Man” dos franceses Black Strobe, que dá vida ao excelente genérico (outra das escassíssimas coisas que valem mesmo a pena no filme) e, como bónus, permanecerá na barra lateral o som de The Subways:


Nota: no início do texto referi três filmes e, na realidade, não houve da minha parte qualquer lapso matemático. Aqui, neste texto, apenas deveria falar de dois. O terceiro merece um texto individual num futuro (próximo ou não, depende sempre da minha variável pachorra). Levantando a ponta do véu, não poderia estar mais em desacordo com o, a par de João Lopes, melhor crítico de cinema em Portugal: tempus fugit, porém, acrescento com alguma esperança (seja ela qual for), ars longa vita brevis.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

BAFTA 2009 – Nomeações

Prossegue a competição renhida, pelo menos nas nomeações (no que respeita a prémios a história é bem diferente), entre os filmes de Fincher e Boyle. Cada um recebeu 11 nomeações para os prémios de 2009 das British Academy of Film and Television Arts (mais conhecida pelo acrónimo BAFTA).

Ao todo, são 14 os filmes com 3 ou mais nomeações, num total de 29 títulos nomeados:

O Estranho Caso de Benjamin Button / The Curious Case of Benjamin Button (11 nomeações)
Actor – Brad Pitt
Argumento Adaptado – Eric Roth
Caracterização
Efeitos Especiais
Filme
Fotografia
Guarda-Roupa
Montagem
Música – Alexandre Desplat
Planeamento de Produção
Realizador – David Fincher

Slumdog Millionaire (11 nomeações)
Actor – Dav Patel
Actriz Secundária – Freida Pinto
Argumento Adaptado – Simon Beaufoy
Filme
Filme Britânico
Fotografia
Montagem
Música – A. R. Rahman
Planeamento de Produção
Realizador – Danny Boyle
Som

O Cavaleiro da Trevas / The Dark Knight (9 nomeações)
Actor Secundário – Heath Ledger
Caracterização
Efeitos Especiais
Fotografia
Guarda-Roupa
Montagem
Música – Hans Zimmer e James Newton Howard
Planeamento de Produção
Som

A Troca / Changeling (8 nomeações)
Actriz – Angelina Jolie
Argumento Original – J. Michael Straczynski
Fotografia
Guarda-Roupa
Montagem
Planeamento de Produção
Realizador – Clint Eastwood
Som

Frost/Nixon (6 nomeações)
Actor – Frank Langella
Argumento Adaptado – Peter Morgan
Caracterização
Filme
Montagem
Realizador – Ron Howard

The Reader (5 nomeações)
Actriz – Kate Winslet
Argumento Adaptado – David Hare
Filme
Fotografia
Realizador – Stephen Daldry

Em Bruges / In Bruges (4 nomeações)
Actor Secundário – Brendan Gleeson
Argumento Original – Martin McDonagh
Filme Britânico
Montagem

Milk (4 nomeações)
Actor – Sean Penn
Argumento Original – Dustin Lance Black
Caracterização
Filme

Revolutionary Road (4 nomeações)
Actriz – Kate Winslet
Argumento Adaptado – Justin Haythe
Guarda-Roupa
Planeamento de Produção

Destruir Depois de Ler / Burn After Reading (3 nomeações)
Actor Secundário – Brad Pitt
Actriz Secundária – Tilda Swinton
Argumento Original – Joel e Ethan Coen

Dúvida / Doubt (3 nomeações)
Actor Secundário – Philip Seymour Hoffman
Actriz – Meryl Streep
Actriz Secundária – Amy Adams

Il y a longtemps que je t’aime (3 nomeações)
Actriz – Kristin Scott Thomas
Argumento Original – Philippe Claudel
Filme em Língua Não-Inglesa

Mamma Mia! (3 nomeações)
Filme Britânico
Música – Benny Andersson e Björn Ulvaeus
Produtor Estreante (The Carl Foreman Award) Judy Craymer

Wall-E (3 nomeações)
Filme de Animação
Música – Thomas Newman
Som

Notas:

  • A categoria “Melhor Montagem” inclui, a título excepcional, seis nomeações, uma vez que se verificou um empate na contagem dos votos (como é óbvio, não foi divulgado em quantos e entre que filmes se verificou tal raridade);
  • Kate Winslet recebeu duas nomeações para “Melhor Actriz” (principal) pelos filmes Revolutionary Road e The Reader. É de recordar que a actriz venceu dois Globos de Ouro no passado domingo pelas mesmas interpretações, embora pela sua interpretação no filme The Reader tenha sido nomeada e depois vencido na categoria de “Melhor Actriz Secundária – Drama”;
  • Brad Pitt também dispõe de duas nomeações: “Melhor Actor Principal” no filme de Fincher e a merecidíssima nomeação para “Melhor Actor Secundário” no paupérrimo filme dos irmãos Coen – como referi aqui, a interpretação de Pitt e de Frances McDormand foram a excepção à regra da mediania (ou quase mediocridade) fílmica, apagar da memória depois de o ver;
  • O filme The Wrestler, realizado pelo homem do excitável e ostentador dedo do meio perante milhões de pessoas, the toughest guy on Earth, Darren Aronofsky, obteve duas nomeações, ambas em categorias de interpretação: Mickey Rourke na categoria de “Melhor Actor” e Marisa Tomei na categoria de “Melhor Actriz Secundária”;
  • Seria suficientemente notada uma não referência às nove nomeações alcançadas por O Cavaleiro das Trevas (The Dark Knight), de Christopher Nolan, apesar de, no meu íntimo e legítimo ponto de vista, considerar que se trata de um filme medíocre – como mencionei em tempos idos, o filme vale unicamente pela soberba interpretação de Heath Ledger –, as restantes nomeações referem-se a categorias técnicas, se exceptuarmos a nomeação para “Melhor Música” ou banda sonora;
  • Ao contrário do que ocorreu nos Óscares, Gomorra, de Matteo Garrone não deixou de ser nomeado para melhor filme não anglófono, todavia, de forma estranha, o aclamado A Turma (Entre les murs) de Laurent Cantet não figura na lista dos cinco nomeados; por outro lado, o filme de animação israelita A Valsa com Bashir (Vals Im Bashir) de Ari Folman, foi nomeado para esta categoria, e também faz trio com Persépolis (Persepolis), filme realizado pela dupla Vincent Paronnaud e Marjane Satrapi, e com o mais que favorito Wall-E de Andrew Stanton na categoria “Melhor Filme de Animação”;
  • O Filme sensação Hunger, recebeu duas nomeações: “Melhor Filme Britânico” e Steve McQueen foi nomeado para o Carl Foreman Award, na qualidade de melhor realizador/argumentista estreante.
  • Para mais informações, consultar o sítio do próprio organizador ou o jornal Público.

A gala de atribuição dos prémios realiza-se no domingo, 8 de Fevereiro na The Royal Opera House, Covent Garden, em Londres.

2 Filmes, 11 Nomeações cada

BAFTA 2009



Mais tarde (quando houver tempo, mas ainda hoje) será aqui divulgada a lista completa das nomeações, estruturada de acordo com a forma de apresentação habitual neste blogue.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

Benjamin Button, um assalto retroactivo?

Um dia um tal de Francis, Tenente do Exército americano, jurara à sua atrevida boneca provinciana Zelda que haveria de ser famoso. Conseguiu. Francis e Zelda casaram após a confirmação da iminência de uma carreira literária de sucesso.
Porém, o alto padrão de vida que mantinham, e procuravam manter, associada à destruição progressiva de uma vida pela boémia permanente, transformaram o estúrdio Tenente Francis numa máquina de produção de contos e novelas, que eram pagos à peça em revistas da especialidade e não só. Francis escreveu perto de duzentos contos, para um período de escrita tão curto (1920-1940) e se lhe acrescentarmos os cinco romances, com destaque para o inigualável O Grande Gatsby (The Great Gatsby, 1925) e o magistral Terna é a Noite (Tender is the Night, 1934), assim como o projecto de romance que redundou no inacabado e espantoso O Último Magnate (The Last Tycoon), e outras dezenas de artigos que, tal como os contos, foram publicados em revistas de reconhecido mérito, como a Scribner’s, a Harper’s, a Esquire, a Kenyon Review, ou até a Vanity Fair, percebemos que Scott era um trabalhador incansável, que provavelmente o conduziu, outros abusos à parte, à sua morte prematura nas cercanias do Natal de 1940.
A 27 de Maio de 1922, a extinta revista Collier’s publica nas suas páginas (ocupando cerca de 9 páginas dessa edição) o conto The Curious Case of Benjamin Button, mais tarde integrado numa mão cheia de antologias de histórias do próprio autor.
Hoje, o mesmo conto faz parte do domínio público, podendo ser descarregado na íntegra e de forma gratuita, na sua versão original, nas páginas do Projecto Gutenberg [ficheiro Zip], integrado na colectânea Tales of the Jazz Age, publicada em 1922 pela editora Charles Scribner’s Sons.
Hoje, o conto de F. Scott Fitzgerald ressuscitou das cinzas. Narra a história de Benjamin Button, nascido em 1860 em Baltimore, no Estado do Maryland, com a estranha idade de 70 anos, e que rejuvenesce até ao alvor da conturbada década de 1930. Segundo dizem os livros, Scott Fitzgerald escreveu a história inspirando-se nas palavras de um dos mais brilhantes pais fundadores das letras norte-americanas, Mark Twain (1935-1910) – o homem cuja existência está ligada a um fenómeno assaz curioso, nasceu e morreu entre duas aparições consecutivas do famoso Cometa Halley, em datas muito próximas, em ambas as ocasiões, do seu perigeu –, que referiu que o homem devia nascer velho, quando as preocupações e todos os problemas de vários níveis o atormentam, e morrer no berço, sem consciência da morte.
David Fincher foi o realizador escolhido para levar ao ecrã a fantástica história de retroactividade existencial. Eric Roth foi o argumentista escolhido – vencedor de um Óscar em 1995 pela adaptação do romance de Winston Groom, Forrest Gump; foi o responsável pelos argumentos de filmes como O Informador (The Insider, 1999) de Michael Mann ou Munique (Munich, 2005) de Steven Spielberg, e pelo guião de autênticas aberrações fílmicas como O Mensageiro (Postman, 1997) de Kevin Costner, ou de O Encantador de Cavalos (The Horse Whisperer, 1998) de Robert Redford, ou do mau de mais para ser verdade Mr. Jones (1993) de Mike Figgis. Roth partiu da história original de Fitzgerald, e reconstruiu com a incansável Robin Swicord, uma história trasladada para o século XX e para a cidade de Nova Orleães, no Estado do Luisiana, quando esta é fustigada pelo furacão Katrina.
O filme estreia esta quinta-feira (dia 15) em Portugal.

Entretanto, aproveitando os milhões aplicados na promoção do filme, a Editorial Presença resolveu publicar uma tradução inédita do conto de F. Scott Fitzgerald – que, como se referiu acima, tem pouco que ver com a história levada ao grande ecrã pelo realizador de Denver.
O livro dispõe de 75 páginas, com 61 páginas úteis (as que incluem a história, entre páginas em branco na mudança de capítulo, ficha técnica e título), com as dimensões de 23 por 15 cm, letra de tamanho 13, com margens bastante folgadas. E pasme-se: P.V.P. 10 euros.
Sobre o referido conto já não recaem direitos de autor, quando muito a editora teve de pagar à produtora do filme o direito de utilização das imagens da capa e da contracapa e os honorários (à cabeça ou em percentagem do volume de vendas) à tradutora (Fernanda Pinto Rodrigues).
Repete-se à saciedade que os livros em Portugal são caros. Não partilho dessa opinião e basta atentar nos preços normalmente praticados noutros países. Todavia, isso não significa que não deixe de considerar que os direitos de propriedade intelectual são ridiculamente baixos, principalmente no caso dos novos autores, face ao preço do produto final. No entanto, neste caso específico da publicação em Portugal de O Estanho Caso de Benjamin Button, o preço é excessivo, para não usar uma expressão mais severa e acutilante – para isso, basta o título deste texto…
Scott morreu em 1940, Zelda em 1948, Frances “Scottie” (filha única do casal) deixou o mundo dos vivos em 1986 com descendência que não renovou, ou nem tão-pouco herdou, os direitos de autor sobre as obras do avô.
O súbito e legítimo interesse dos leitores pela história epónima que serve de base ao filme de Fincher, levou a que editoras de todo o mundo a editassem usando uma de duas soluções: publicação em separado, retirando-a das quatro ou cinco antologias em que estava inserida; ou publicação de uma nova antologia cujo título era emprestado pelo próprio conto.

Eis seis exemplos:

  • Alemanha – editado pela Diogenes, 70 pp., €5,90;
  • Espanha – editado pela Lumen (de capa dura, inclui mais 7 contos), 272 pp., €18,90;
  • Estados Unidos – editado pela Juniper Grove, 32 pp., $5,95 (aprox. €4,50 ao câmbio do dia);
  • França – editado pela Gallimard (bolso, inclui mais 1 conto), 103 pp., €2;
  • Itália – irá ser editado pela Guanda (livro ilustrado), 130 pp., €14;
  • Reino Unido – editado pela Penguin (inclui mais 6 contos do autor), 208 pp., £7,99 (aprox. 8,78 € ao câmbio do dia).

Nota final: Em 19 de Junho de 2008, a propósito do anúncio da data de estreia da 7.ª longa-metragem de David Fincher, publiquei aqui o primeiro capítulo (de onze) do referido conto, com tradução, eminentemente livre, de minha autoria. A dita tradução corresponde ao intervalo fechado de páginas entre a 7 e a 18 da edição de 75 páginas da Presença; sendo a 18 uma página em branco, corresponde a 11 páginas úteis, num total de 61, ou seja, traduzi cerca de 18% da obra. Neste momento, sinto pena de não haver traduzido os restantes 82%, destinados àqueles que têm reais dificuldades com a língua inglesa… mas, porventura, seria trabalho de burro, sem recompensa recíproca, ou seja, o esforço não seria acompanhado de uma massagem blogosférica no ego com o aumento do número de visitas.

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

Melhor Filme Estrangeiro – Óscares

Imagem do filme Aquele Querido Mês de Agosto, de Miguel Gomes

Foram hoje anunciados, pela Academia das Artes e das Ciências Cinematográficas de Hollywood, os nove dos sessenta e cinco filmes a concurso que passaram a integrar a lista de semifinalistas candidatos ao Óscar para Melhor Filme Estrangeiro, de onde sairão, no próximo dia 22 de Janeiro, os cinco nomeados para a sessão de entrega das estatuetas douradas, a realizar no Kodak Theatre no dia 22 de Fevereiro (23 de Fevereiro, à 1 da manhã, hora de Lisboa).
Uma vez mais Portugal ficou de fora. No passado dia 30 de Setembro, a comissão de selecção do ICA (Instituto do Cinema e do Audiovisual) elegeu o filme de Miguel Gomes, Aquele Querido Mês de Agosto, como concorrente português à categoria de “Melhor Filme Estrangeiro” na 81.ª edição de entrega dos Óscares da Academia.

Sem mais delongas, eis a lista dos nove filmes semifinalistas (por ordem alfabética do título em português, se existir, ou título original):

  • Arráncame la vida, de Roberto Sneider – México (Tear This Heart Out);
  • Ce qu’il faut pour vivre, de Benoît Pilon – Canadá (The Necessities of Life);
  • Der Baader Meinhof Komplex, de Uli Edel – Alemanha (The Baader Meinhof Complex);
  • Maria Larssons eviga ögonblick, de Jan Troell – Suécia (Everlasting Moments);
  • Okuribito, de Yojiro Takita – Japão (Departures);
  • Revanche, de Gotz Spielmann – Áustria;
  • Os Três Macacos, de Nuri Bilge Ceylan – Turquia (Üç maymun / Three Monkeys);
  • A Turma, de Laurent Cantet – França (Entre les murs / The Class);
  • A Valsa com Bashir, de Ari Folman – Israel (Vals Im Bashir / Waltz with Bashir).

Notas:

  • Três dos nove filmes já estrearam em Portugal, e o representante alemão, Der Baader Meinhof Komplex, estreará, em princípio, no próximo dia 29 de Janeiro.
  • Surpresa na exclusão do supernomeado Gomorra, filme italiano realizado por Matteo Garrone, baseado no livro homónimo escrito pelo temerário jornalista Roberto Saviano. Terá sido uma incauta, e bem latina, prova de vida do aparentemente estilhaçado submundo italo-americano, que outrora, como bem sabemos, se encontrava bem infiltrado no show business norte-americano?

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

Slumdog, coleccionador de prémios


Ontem (hoje de madrugada), o mais recente filme do psicadélico realizador inglês de Manchester, de 52 anos, Danny Boyle juntou mais 4 à lista de 23 prémios que já havia arrecadado em cerimónias de distinção de filmes estreados durante o ano de 2008.
Com efeito, Slumdog Millionaire foi o grande vencedor da 66.ª edição dos Globos de Ouro, vencendo em todas as categorias para que estava nomeado, evento organizado pela Associação de Imprensa Estrangeira radicada em Hollywood (Hollywood Foreign Press Association), deixando em branco três filmes com 5 nomeações como O Estranho Caso de Benjamin Button (The Curious Case of Benjamin Button, de David Fincher), Dúvida (Doubt, de John Patrick Shanley), Frost/Nixon (de Ron Howard), assim como os dois filmes a concurso de Clint Eastwood, Gran Torino (1 nomeação) e A Troca (Changeling, 2 nomeações), ou o até agora incensado Milk de Gus Van Sant, que concorria com Sean Penn à categoria de “Melhor Actor – Drama”.
Eis os vencedores, com destaque para o previsível prémio a título póstumo a Heath Ledger, e à imprevisível dupla vitória da bem nutrida Kate Winslet:

Slumdog Millionaire (4 Globos de Ouro / 4 nomeações)
Argumento – Simon Beaufoy
Banda Sonora Original – A. R. Rahman
Filme
Realizador – Danny Boyle


The Wrestler (2 Globos de Ouro / 3 nomeações)
Actor – Mickey Rourke
Canção – Bruce Springsteen, “The Wrestler”
(nota: filme realizado por Darren Aronofsky)

O Cavaleiro das Trevas / The Dark Knight (1 Globo de Ouro / 1 nomeação)
Actor Secundário – Heath Ledger
(nota: filme realizado por Christopher Nolan)

Em Bruges / In Bruges (1 Globo de Ouro / 3 nomeações)
Actor (musical ou comédia) – Colin Farrell
(nota: filme realizado por Martin McDonagh)


The Reader (1 Globo de Ouro / 4 nomeações)
Actriz Secundária – Kate Winslet
(nota: filme realizado por Stephen Daldry)

Revolutionary Road (1 Globo de Ouro / 4 nomeações)
Actriz – Kate Winslet
(nota: filme realizado por Sam Mendes)

Um Dia de Cada Vez / Happy-Go-Lucky (1 Globo de Ouro / 2 nomeações)
Actriz (musical ou comédia) – Sally Hawkins
(nota: filme realizado por Mike Leigh)

Vicky Cristina Barcelona (1 Globo de Ouro / 4 nomeações)
Filme (musical ou comédia)
(nota: filme realizado por Woody Allen)

Outros:

A Valsa com Bashir / Vals Im Bashir (1 Globo de Ouro / 1 nomeação)
Filme Estrangeiro
(nota: filme realizado por Ari Folman)

Wall-E (1 Globo de Ouro / 2 nomeações)
Filme de Animação
(nota: filme realizado por Andrew Stanton)

-------------------

Notas:

  • Outros vencedores da noite: a minissérie John Adams venceu 4 Globos de Ouro; a série cómica 30 Rock foi galardoada com 3 Globos de Ouro; e pelo 2.º ano consecutivo Hugh Laurie, no papel do fabuloso médico misantropo (e mis-muitas-coisas) House, perde o Globo de Ouro na categoria “Melhor Actor em Séries de Televisão”, este ano para o meu mui estimado actor irlandês Gabriel Byrne, protagonista da série In Treatment – a medicina interna vencida pela medicina do interior… (rogo-vos, suplico-vos, de forma dramática, de joelhos e usando cilício (se necessário for), por perdão pelo mau gosto do trocadilho);
  • Mais um ano em que os actores originários do Cinema continuam a arrecadar os principais prémios de Televisão: para além do mencionado Gabriel Byrne, e com a honrosa excepção de Tina Faye, tivemos Alec Baldwin, Anna Paquin, Laura Dern, Laura Linney, Paul Giamatti e Tom Wilkinson.
  • Mais uma vez, uma noite sem glamour (parente pobre dos Óscares da Academia), com muito ruído de fundo (talheres, copos, risos e vozes, possíveis contratos celebrados pelo álcool e pelas filas de pó branco, e as bisbilhotices e piadas sarcásticas de pé de orelha do costume) e com prémios, a fazer fé, por enquanto, na crítica, que deixaram muito a desejar.
  • Mickey Rourke, apesar de aparentar continuar transformado num “farrapo humano”, consumido pelas drogas e pelo álcool, conseguiu, embora de forma entrecortada e tartamudeada, sem que aquelas cabeças, normalmente produtoras de eco em eventos destes, se houvessem apercebido, proferir o discurso mais emotivo-dramático da noite, ao falar da sua ruína nos últimos anos, da eterna gratidão pela pessoa que o retirou do poço e da solidão, da profunda solidão que o assalta no momento.
  • Ver aqui a notícia em português, com a listagem completa dos vencedores.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Breaking News

Neste preciso momento neva no Porto.

Adenda [às 10:29]: «Batem leve, levemente,/ como quem chama por mim.» Augusto Gil. E, pronto, ficamo-nos por aqui...

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

A chama que se apaga

Este é dos tais textos que vamos evitando escrever. Quiçá não o devesse mesmo ter escrito, esperando sempre, como espera um admirador, um quase incondicional, um amante arrebatado turvado pela incandescência da paixão, que com o tempo o destinatário dessas admiração, incondicionalidade ou paixão acabe por não nos desiludir e, cumprindo a sua tarefa, seja ela qual for, o alimento da nossa admiração, mantenha ou amplie, ou que pelo menos reponha com a brevidade necessária, o brilho artístico, neste caso literário, que nos ofusca ou um dia nos ofuscou. É essa a esperança do admirador apaixonadamente incondicional, mas há limites.
Falo de Auster, Paul Benjamin. Um homem cuja escrita teve o mérito de passar à primeira no meu crivo estético-literário com as obras de ficção que começou a publicar desde 1985, sublimadas em A Trilogia de Nova Iorque (The New York Trilogy) em 1987 e com continuidade nas restantes até 1999, com Timbuktu, e para não parecer tão severo e manifestar alguma da condescendência de um admirador típico, amplio o intervalo até ao ano de 2002 quando é lançado no mercado editorial O Livro das Ilusões (The Book of Illusions). De lá para cá, publica A Noite do Oráculo (The Oracle Night, 2004), As Loucuras de Brooklyn (o romance austeriano mais atípico; The Brooklyn Follies, 2005), Viagens no Scriptorium (Travels in the Scriptorium, 2006) e Homem na Escuridão (Man in the Dark, 2008), e enreda-se, ainda mais, nas teias da metaficção, no método das caixas chinesas e na narrativa desbastada ou sem atavios, magra, sem qualquer toque de génio, como se tratasse de um conjunto de caracteres despejados para páginas em branco que, por acaso, formam palavras e frases coerentes que, porém, não se ligam a outras frases ou a outras partes do texto.
É óbvio que, enquanto escrevo estas palavras, não me sai da cabeça o seu último romance (o tal que oferecia, ou ainda oferece, o inútil saco de pano assinado) que me partiu o coração tal como a morte de Titus fez ao de Katya – Auster já nem se furta aos clichés, usa-os como muleta, com uma urgência que não se compreende. Que diabo, é este o seu trabalho. Foi esta a profissão que escolheu, como tão bem proferiu no discurso de agradecimento em Oviedo no ano 2006 (Prémio Príncipe das Astúrias). Contar histórias e falar ao interior de cada leitor que ouve, lendo, a sua narração. Se as histórias são alimento e meio de sobrevivência da espécie humana, a falta, ou a perda total, dessa qualidade, por simples desperdício, preguiça, levaria o Homem à inanição intelectual, espiritual, e, por consequência, à morte e ao limiar da sua extinção.
Em Homem na Escuridão é-nos narrada a história de um homem septuagenário que se conta histórias para fazer com que a sua mente divirja das barbaridades que o foram assolando ao longo de décadas: a conturbada vida conjugal, os profundos desgosto e amargura da filha e o diletantismo pré-adulto da neta, que num arroubo deixou a Escola de Cinema em Nova Iorque para se juntar ao dueto familiar que se encontra a remoer o passado no Estado do Vermont. A filha escreve uma biografia sobre a obscura filha mais nova de Nathaniel Hawthorne, Rose e ele recupera das sequelas de um terrível acidente de automóvel no seu quarto escuro, onde engendra as histórias que o distraem da crueldade dos dias do seu quotidiano.
Os ingredientes para uma boa história estão lá. A receita, porém, acaba por estragar ou desperdiçar as propriedades individuais desses ingredientes, retirando-lhes os elementos que adicionados a outros potenciam, por sinergia, a perfeição do produto final.
A sensação que assalta o leitor não podia ser mais desagradável. Qual Tântalo esfaimado impedido de tragar os frutos suspensos à frente dos seus olhos. Embora, aqui, o fruto surja em formas difusas – o que poderia ter sido. Pontas soltas que não se unem. Histórias que ficam por contar. Uma infinidade de possibilidades que poderiam, sem esforço, encher uma meia estante de livros. As ideias estão lá, em bruto, prontas para serem lapidadas, calmamente desenvolvidas, à espera de ganhar o brilho espectral, iridescente e inimitável de uma história bem contada.
O protagonista e a neta, em alternativa de criarem um blogue, passam o seu tempo a assistir a filmes em DVD, em silêncio, com uma atenção crítica que mais tarde é verbalizada em troca de opiniões e pontos de vista. Depois, de forma heteróclita, a neta, assaltada por uma insónia, deita-se na cama do avô e falam da vida e dos filmes que viram. Auster chega ao cúmulo de debitar em papel autênticas recensões cinematográficas e as suas perspectivas sobre filmes de realizadores não-americanos, como Ozu, Renoir ou Satyajit Ray, sem objectivo aparente – ou que eu o tenha conseguido captar – para a história que se conta. Peças desconexas e perfeitamente expurgáveis, e se retiradas contribuiriam para emagrecer a obra como num processo de lipoaspiração – extrair a camada adiposa em excesso.
É apenas no fim do romance em que, perante a hecticidade literária das páginas anteriores, surge algum lirismo ligado a uma narrativa debilmente conexa, que necessitaria de mais páginas, de argumento, adjectivação… em suma, de tutano literário capaz de fazer retinir a campainha estética de um leitor minimamente exigente.

Nas sucessivas entrevistas que deu, Auster confessou que se limitou literalmente a despejar palavras para a sua máquina de escrever e que, entre a digressão mundial para a promoção do seu mais que zurzido filme – A Vida Interior de Martin Frost (The Inner Life of Martin Frost, 2007) –, só teve tempo de largar o manuscrito no seu editor americano sem mais considerações.
Como dizia Tom LeClair no The New York Times Book Review de 19 de Setembro de 2008:

«Depois, digamos, de 10 livros, os romancistas talvez devessem ser reexaminados, tal como acontece com os cidadãos mais idosos, cuja maior propensão para acidentes os obriga a renovar a carta de condução. Os veteranos de guerras literárias deveriam submeter, de forma anónima, um novo manuscrito aos agentes literários. Sobre Homem na Escuridão, suponho que diriam, “imitação de Paul Auster de terceira categoria.” Depois, o autor poderia decidir em acelerar a escrita de uma imitação de primeira categoria dos seus trabalhos passados de primeira categoria. Ou poderia escrever uma ofensiva de quarta categoria sobre os agentes literários.» [tradução: AMC]

Para finalizar, gostaria de deixar aqui um apelo que, com as estadas e curtas digressões em Portugal, o próprio Auster possivelmente poderia ler sem grandes dificuldades, deixando de lado a preguiça natural dos anglófonos em aprender qualquer palavra de outro idioma:

Benjamin, por favor, renova a tua carta.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Falta aqui alguém...

Seis realizadores nomeáveis para os Óscares deste ano numa mesa redonda promovida pelo The Hollywood Reporter para falar sobre o trabalho do ano e a inevitável bambochata dos projectos para o futuro.
Há por aí vídeos espalhados com as palavras, interpelações e expressões pretensamente espirituosas dos seis egos em análise.


Os Óscares. Essa terrível estatueta dos infernos para o profissional de cinema ou cinéfilo culto. Há, todavia, uma imagem que, por mais tempo que a minha alma deambule sobre este planeta, jamais irei esquecer: a subida ao palco do Kodak Theatre de Martin Scorsese, no dia 25 de Fevereiro de 2007, para receber das mãos do trio Coppola/Lucas/Spielberg a estatueta dourada pela “Melhor Realização” em Entre Inimigos (The Departed, 2006): a alegria agarotada de um homem sexagenário que conquistou o presente que ardentemente desejou durante anos, de sorriso comovido, rasgado de orelha a orelha, o orgulho pelo reconhecimento, menos apalhaçado, patético e grotesco que um Benigni em 1999, menos enfatuado que um Cameron, “King of the World”, em 1998, mas mais contido que um realmente feliz, sem vergonha de o mostrar em directo para milhões de pessoas, Stanley Donen, pai do Serenata à Chuva (Singin’ in the Rain, 1952) quando em 1998 recebeu o Óscar honorário e executou um notável pas de deux, em pleno Shrine Auditorium, com a estatueta ao som do “Cheek to Cheek” de Irving Berlin, canção imortalizada no filme musical de Mark Sandrich Chapéu Alto (Top Hat) de 1935 por Fred Astaire e mais tarde parte integrante de um dos melhores álbuns musicais de sempre, Come Dance with Me! (1959) de Frank Sinatra, com arranjo orquestral e direcção de orquestra de Billy May.
Muito poucos se podem gabar da indiferença com que encaram o evento e, em jeito de peroração palmelense, vocês sabem de quem estou a falar…

Mas, voltando ao meeting dos prováveis, alguém faltou...

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Delito de Opinião

Serve o presente texto para anunciar a criação de mais um espaço na blogosfera.
O meu mui estimado blogger e jornalista Pedro Correia, apesar do verde que inunda o seu coração – já o meu só tem uma cor, como diria o JP, é azul e branco –, inaugura o blogue com um manifesto suficientemente claro e abrangente, de onde se destaca a vontade declarada de dar uso à liberdade de expressão: a opinião sem constrangimentos ou ditames de uma ordem superior, não compactuando, todavia, com extremismos ou vilanias.

Parabéns ao Pedro e à bastante heterogénea equipa de autores, e votos de muitos sucessos, que neste pequeno mundo da blogosfera lusa se traduz em interacção e reciprocidade, jamais deixando de lado os interesses individuais em favor de um interesse colectivo pretensamente higienizado e plural, mas que normalmente reflecte o carácter e a vontade de uma só pessoa cuja megalomania, toldada por uma auto-ilusão de impoluível, tenta esmagar a criatividade alheia e padronizar o comportamento segundo uma cartilha, essa sim obscura, que satisfaz as necessidades primárias de um ego que, de tão insuflado, se torna falsificador da própria realidade e da mundividência do colectivista, passando a questão ao foro restrito da patologia psíquica.

Tenho dito. Delito de Opinião.

2009: O Regresso de Mann

Johnny Depp é John Dillinger, Michael Mann's Public EnemiesTrês anos depois do mediano Miami Vice, Mann volta ao grande ecrã sentado na cadeira que mais lhe diz, a do realizador, dirigindo desta vez a dupla Depp & Bale, adaptando para o cinema a verídica e aclamada história de gangsters, publicada em 2004, pelo escritor e jornalista Bryan Burrough, Public Enemies: The True Story of America’s Greatest Crime Wave.
Reduzindo ao mínimo (por preguiça) o argumento do filme: trata da ascensão de J. Edgar Hoover (Billy Crudup) na chefia impiedosa do BOI – que comandava desde 1924 –, mais tarde FBI (1936) e do seu agente especial – objecto das suas tão típicas invejas pessoais – Melvin Purvis (Christian Bale) no restabelecimento da ordem pública, quando em 1933 os Estados Unidos enfrentavam o crescimento exponencial da criminalidade no pós-1929 e a pior vaga de crimes da sua história. À época sobressaíam criminosos, ainda hoje famosos, como John Dillinger (Johnny Depp, na imagem), Baby Face Nelson (Stephen Graham), Pretty Boy Floyd (Channing Tatum), entre outros não referenciados no filme como Bonnie e Clyde, Machine Gun Kelly ou o gang de Ma-Barker e do seu impiedoso e assustador associado “Creepy” Alvin Karpis.

Estreia em Julho nos Estados Unidos e, provavelmente, no fim do ano em Portugal.

Com este filme e o que ontem referi, ambos a estrear em ano de forte crise económica mundial – 80 anos após a Grande Depressão –, nada melhor que recordar os feitos das mentes criminosas que se serviram da instabilidade e da debilidade política, económica e social para atingir os seus fins perversos. Hoje, todavia, até os criminosos de puro sangue perderam o seu olhar vítreo e celerado, as cicatrizes lapidares, a rudeza e a ostentação impudica dos seus troféus de caça. Nos dias que correm, os grandes criminosos são conduzidos em jaguares, envergam Zegna e Armani, estudam o tempo em Rolex ou Patek Philippe, assinam os crimes com Mont Blanc ou Conway Stewart, carregam os seus papéis em Louis Vuitton prontos para uma lavagem em Gibraltar, nas Ilhas Virgens ou nas Caimão, regressando a solo firme nos seus Cessna, Gulfstream ou Learjet, mal sentando o rabo temerário nos cadeirões esterilizados das salas dos conselhos de administração de, pelo menos, 200 m2, equipadas de mobiliário de design, à espera que o Estado, de cócoras perante tal magnificência e opulência, lhes ponha a mão por baixo com o dinheiro que nos vai retirando sempre que ousamos pedir um café que possa despertar-nos para a dureza do quotidiano – talvez seja esse o delito, mantermo-nos acordados.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Mais prémios – NSFC Awards 2008

Antes dos Óscares e dos Globos de Ouro, surgem, por tradição, os prémios da associação de críticos norte-americanos (ditos independentes, banidos da associação, digamos canónica, New York Film Critics Circle em 1966) National Society of Film Critics (membro americano da prestigiadíssima organização de críticos internacional FIPRESCI – Fédération Internationale de la Presse Cinématographique).
Se é costume dizer-se que os Globos de Ouro são a antecâmara dos Óscares da Academia de Hollywood, os prémios da NSFC, quase por regra, contrariam (por antecipação, e diga-se o que se disser) os mais cobiçados prémios cinematográficos do mundo. Por exemplo, Haverá Sangue (There Will Be Blood) de Paul Thomas Anderson venceu nas categorias de Melhor Filme, Realizador, Actor e Fotografia (4 prémios em menos categorias), tendo vencido apenas dois Óscares: Melhor Actor e Fotografia.
A NFSC agrega um conjunto de mais de 60 críticos prestigiados no meio cinematográfico norte-americano que se reúne num restaurante nova-iorquino no início de cada ano civil e atribui os seus prémios por votação secreta em boletim de voto.
No passado sábado, 3 de Janeiro, 49 dos actuais 63 membros reuniram-se no célebre Sardi’s Restaurant em Nova Iorque, e atribuíram pela 43.ª vez os seus prémios anuais.

Eis a lista dos vencedores (a bold) e os respectivos derrotados por cada categoria. Numa análise rápida, o grupo de críticos não-alinhados continua a provocar estragos, senão atentem, desde logo, no trio que liderou a categoria “Melhor Filme”:

Melhor Filme
1. A Valsa com Bashir, de Ari Folman (Vals Im Bashir; 26 votos)
2. Um Dia de Cada Vez, de Mike Leigh (Happy-Go-Lucky; 20)
3. WALL-E, de Andrew Stanton (20)

Melhor Realizador
1. Mike Leigh, por Um Dia de Cada Vez (Happy-Go-Lucky; 36)
2. Gus Van Sant, por 2 filmes Milk e Paranoid Park (20)
3. Danny Boyle, por Slumdog Millionaire (16)

Melhor Actor
1. Sean Penn, por Milk (87)
2. Mickey Rourke, por The Wrestler (40)
3. Clint Eastwood, Gran Torino (38)

Melhor Actriz
1. Sally Hawkins, por Um Dia de Cada Vez (Happy-Go-Lucky; 65)

2. Melissa Leo, por Frozen River (33)
3. Michelle Williams, por Wendy and Lucy (31)

Melhor Actor Secundário
1. Eddie Marsan, por Um Dia de Cada Vez (Happy-Go-Lucky; 41)

2. Heath Ledger, por O Cavaleiro das Trevas (The Dark Knight; 35)
3. Josh Brolin, por Milk (29)

Melhor Actriz Secundária
1. Hanna Schygulla, por Do Outro Lado (Auf der anderen Seite; 29)

2. Viola Davis, por Dúvida (Doubt; 29, obtidos em menos boletins de voto)
3. Penélope Cruz, por Vicky Cristina Barcelona (24)

Melhor Argumento
1. Um Dia de Cada Vez, por Mike Leigh (Happy-Go-Lucky; 29)

2. Un conte de Noël, por Arnaud Desplechin e Emmanuel Bourdieu (24)
3. Synecdoche, New York, por Charlie Kaufman (17)

Melhor Fotografia
1. Slumdog Millionaire, Anthony Dod Mantle (29)

2. O Voo do Balão Vermelho, por Pin Bing Lee (Le voyage du ballon rouge; 22)
3. O Cavaleiro das Trevas, por Wally Pfister (The Dark Knight; 18)
Porém, o exercício mais divertido, após a atribuição destes prémios, tornou-se em passar uma rápida revista pelos jornais, revistas e sítios da web norte-americanos, mais ou menos ligados ao mundo do cinema (incluindo os generalistas com uma forte componente cultural), e atentar nos artigos de opinião. A zurzidela e o escárnio são de ir às lágrimas (eis um exemplo).

O que se segue Mr. F?

«Cleveland: 1935. Eliot Ness, engalanado com o seu ainda recente e lendário triunfo sobre Al Capone e os seus associados, aponta a mira para Cleveland e parte numa cruzada em que se confirma, e por vezes até ultrapassa, os seus feitos passados. Corpos desmembrados começam a aparecer numa determinada área do Lago Erie Sound. Os seus torsos decapitados não deixam qualquer pista sobre a sua identidade ou o motivo da sua morte. Eliot Ness e o seu garrido bando denominado por “Os Desconhecidos” perseguiram o assassino palmilhando o submundo de Cleveland durante anos. Tudo o que publicamente se sabe é que ele jamais foi capturado. Mas o que se sucedeu na realidade revelou-se ainda mais chocante.» [tradução: AMC]

O que acabaram de ler é a sinopse que acompanhou a promoção da “novela gráfica” (ou novela em banda desenhada), ilustrada pelo famoso desenhador de “Comics” Brian Michael Bendis e escrita em parceria com Marc Andreyko, intitulada Torso.
Publicada inicialmente em seis fascículos entre 1998 e 1999, a novela foi posteriormente editada num só volume, que viria a incluir as imagens reais dos torsos mutilados, retratando os verídicos e sangrentos acontecimentos, ocorridos em Cleveland no Estado do Ohio, entre 1935 e 1938, que redundaram em 13 vítimas. Os corpos surgiam à luz do dia decapitados e desmembrados por um assassino em série que escapou, sucessiva e, pelo menos, publicamente, às malhas da justiça. No entanto, a súbita interrupção dos crimes em simultâneo com o internamento voluntário num hospital psiquiátrico de um homem, médico-legista de profissão, bem relacionado politicamente e parente de um adversário declarado de Ness, curiosamente de apelido Sweeney, a quem Ness atribuiu o nome de código “Gaylord Sundheim” – estranha associação entre o apelido e as práticas sanguinárias, com um nome de código muito próximo do dramaturgo Sondheim que inspirou Burton –, que chumbou por duas vezes no teste do polígrafo, parecia indicar uma resolução próxima e definitiva para os misteriosos crimes. Ness mudou-se para Washington, D.C. em 1942, e o caso foi encerrado.

Mais uma série de crimes por resolver, que antecedeu 30 anos os conhecidos Crimes do Zodíaco no Estado da Califórnia… e é bem possível, a fazer fé nos boatos que correm pela imprensa sediada em Hollywood, que se repita a receita cinematográfica, encerrando-se uma desejada trilogia… (
desde que se afaste de uma vez por todas – queira Deus ou alguém por Ele – o cenário de um arriscado embarque num projecto fílmico-gastronómico já tentadoramente proposto a Mr. F. por Keanu Reeves).

domingo, 4 de janeiro de 2009

VERDADE

«Mais que amor, dinheiro e fama, dai-me a verdade. Sentei-me a uma mesa onde a comida era fina, os vinhos abundantes e o serviço impecável, mas onde faltavam sinceridade e verdade, e com fome me fui embora do inóspito recinto. A hospitalidade era fria como os sorvetes. Pensei que nem havia necessidade de gelo para conservá-los. Gabaram-me a idade do vinho e a fama da safra, mas eu pensava num vinho muito mais velho, mais novo e mais puro, de uma safra mais gloriosa, que eles não tinham e nem sequer podiam comprar. O estilo, a casa com o terreno em volta e o “entretenimento” não representam nada para mim. Visitei o rei, mas ele deixou-me à espera no vestíbulo, comportando-se como um homem incapaz de hospitalidade. Na minha vizinhança havia um homem que morava no oco de uma árvore e cujas maneiras eram régias. Teria feito bem melhor visitando-o a ele.»
Henry David Thoreau, Walden ou a Vida nos Bosques, pp. 358-359
[Lisboa: Antígona, Junho de 1999, 367 pp.; tradução de Astrid Cabral, com revisão e adaptação de Júlio Henriques; obra original: Walden; or, Life in the Woods, 1854.]

Em destaque, a passagem sublinhada por Christopher McCandless no livro encontrado junto aos seus restos mortais no Alasca. No topo da página aquele havia escrito e sublinhado em letras maiúsculas a palavra “VERDADE” (cf. Jon Krakauer, O Lado Selvagem).

sábado, 3 de janeiro de 2009

Se me perguntam…

Tento responder com os argumentos que de relance me afloram a mente, mesmo que a questão não tenha existência física de facto, provinda de um interlocutor suficientemente vigilante para questionar as minhas escolhas. Ela está lá a gravitar, entre sinapses, à espera do momento infinitesimal em que a espoleta solta a interrogativa e surgem os fragmentos de uma possível resposta, não pensada, pronta a sair ao correr das emoções.
Porquê o Cashback? Ou, seguindo o título que o IGAC escolheu, porquê o Bem-vindo ao Turno da Noite?
Colocaste-o em 10.º lugar
Talvez responda, a abertura. Sim o momento em que se dá o contacto com a obra e que depende em muito da disposição emocional nesse marco temporal. O toque melodramático, potencialmente kitsch – dir-me-ão –, preservado indelevelmente pelo som que se solta, uma das melhores árias de ópera de todos os tempos, geradas pelo efémero e admirável compositor, que repousa ao lado de muitos outros que enobreceram a arte, em Père Lachaise, Paris: Vincenzo Bellini (1801-1835) – a ária é “Casta Diva” da ópera Norma, imortalizada por Maria Callas (1923-1977), neste caso interpretada pela soprano escocesa Jeni Bern, conduzida pelo jovem maestro e compositor inglês Guy Farley, com a Orquestra Metropolitana de Londres.

Não sei se conseguem ler as legendas em árabe, (e apenas me interrogo dadas as piedade e simpatia arrebatadas pelas suas gentes, religião e cultura que grassam pela blogosfera lusa esquerdófila e amnésica, e também pela saudosista e neonazi – como sempre, a ciência, os pólos opostos atraem-se –, contra esses celerados capitalistas/sionistas), mas pedindo perdão pela eventual contundência do aparte, eis esta deliciosa abertura:



«São necessários aproximadamente 227 kg para esmagar um crânio humano. Mas a emoção humana é uma coisa bem mais delicada.
Olhem para a Suzy, a minha primeira namorada a sério. A minha primeira separação a sério, a acontecer mesmo à minha frente. Nunca pensei que iria assemelhar-se a um acidente de carro. Travei a fundo, e estou a deslizar em direcção a um impacto emocional.
Então, será isto tudo culpa minha? Eu. Ben Willis.
É engraçado o que nos passa pela cabeça numa altura como esta. Os dois anos e meio que passámos juntos. As promessas que fizemos. As férias que passámos com os pais dela. O candeeiro que ambos comprámos no Ikea.
Era o meu último ano na Escola de Artes. E nas semanas que se seguiram à separação, tentei entender o que poderia ter corrido mal. Porque é que acabámos? É engraçado, mas quando recuo no tempo o motivo parece-me tão insignificante. Num dia ela está comigo e a dizer “eu amo-te”, e na semana seguinte ela está com outra pessoa... Provavelmente, a dizer-lhe a mesma coisa.
Será que, na realidade, ela me amou? Afinal, o que é o amor? E será assim tão passageiro?
[…] [a terminar o excerto arabizado, um diálogo banal, que se desbanaliza com as imagens]
Sean: Tens de arranjar uma rapariga bonita; uma modelo ou assim.
Bem: Porquê?
Sean: Bem, porque se tiveres uma rapariga bonita atrelada a ti, é porque a mereces. As mulheres estão sempre em competição umas com as outras. A Suzy vê-te com uma tipa sexy, então ela irá pensar “Se eu conseguir arrancar o Ben àquela rapariga bonita, então eu tenho de ser mais bonita que ela.”

O sucesso do Sean com mulheres era bastante impressionante.

Sean: É verdade. Pergunta à tua mãe.»

Diálogo extraído do filme britânico, exibido em 2008 nas salas de cinema portuguesas, Bem-vindo ao Turno da Noite (Cashback, 2006), argumento e realização de Sean Ellis [tradução: AMC, 2009]

Mote e fantasia:
«O tempo voa, mas a boa notícia é que tu és o piloto.»

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

90 anos

©2000 Margaret A. Salinger e J. D. SalingerFoi ontem. Um tal de Jerome David, mais conhecido pelo seu apelido Salinger, completou noventa anos de idade.
Desapareceu das luzes da ribalta em 1965, permanecendo em estrito isolamento perante o turbilhão do mundo exterior.
Nasceu a 1 de Janeiro de 1919, no seio de uma família de raízes judaicas (apesar de a mãe, de origem irlandesa, se haver convertido ao judaísmo somente após o casamento com o seu pai de ascendência polaca). Depois da aproximação do espiritualismo Zen, Yoga, e das religiões orientais, em meados da década de 1950 converteu-se à Ciência Cristã – não confundir com Cientologia, são seitas religiosas completamente distintas em todos os seus preceitos.
Salinger despediu-se do meio editorial com a novela Hapworth 16, 1924, publicada na íntegra na edição de 19 de Junho de 1965 da revista The New Yorker – número esgotado, tendo Salinger impedido a reedição, apesar de em 2005 ter surgido em oito DVD’s e um livro The Complete New Yorker: Eighty Years of the Nation's Greatest Magazine, onde o referido número não foi retirado.
O seu primeiro trabalho de ficção de fundo trouxe-lhe, de uma forma vertiginosa, a fama mundial: The Catcher in the Rye, de 1951, (ed. port: Uma Agulha em Palheiro, na edição da Livros do Brasil; À Espera no Centeio, na edição da Difel) e o seu protagonista de dezasseis anos Holden Caulfield.
Mais tarde dedicou-se à disfuncional família de prodígios de nome Glass e retirou-se.
Diversas fontes asseguram que, Salinger após a retirada, continuou com o seu ritmo normal de escrita, mas escorraçou a publicação da sua rotina, confidenciando à sua quase-ninfeta e amante Joyce Maynard (de apenas 18 anos), com quem viveu maritalmente durante dez meses entre 1972 e 1973, que:
«A publicação é um negócio sujo […] Irás ver a que me refiro um dia. Todos aqueles boçais, opinativos frequentadores de cocktails, tão prontos a julgar. Suficientemente maus quando o fazem a um escritor. Mas quando eles começam a fazê-lo com os teus personagens – e eles fazem-no – é assassinato. […] Trata-se apenas de uma maldita interrupção que eu não posso mais tolerar».
Joyce Maynard, At Home in the World: A Memoir, p.89 (tradução: AMC)
[New York : Picador, 1st edition, 1998, 347 pp.]
Ontem J. D. fez 90 anos, a fazer fé na escassa informação que fugiu do seu escrupuloso escrutínio, deixou instruções quanto à publicação dos seus escritos inéditos. O polémico livro de memórias da sua filha Margaret, Dream Catcher: A Memoir, publicado em 2000, expande não só o ambiente de clausura para dentro da própria casa do autor, como aguça o apetite do mundo salingeriano pelas possíveis obras a publicar num futuro, que a avançada idade do autor deixa entrever, próximo:

«Eu não sei por que razão os seus fatos não cabem no armário do seu quarto. Embora tenha visitado a sua casa por mais de trinta anos, eu nunca vi o seu armário nem o seu quarto de banho. O seu quarto, quarto de banho e escritório formam um “L” à volta da cozinha. A porta permanece sempre fechada. Fui convidada a entrar uma ou duas vezes em toda a minha vida quando ele me queria mostrar alguma coisa no seu escritório. Uma vez para me mostrar umas prateleiras novas com as quais ficara encantado. Outra para me mostrar um novo sistema de catalogação que ele havia engendrado para o material que se encontrava num dos seus cofres. Uma marca vermelha significava, se eu morrer antes de terminar o meu trabalho, publicar isto “tal como está”, azul significava publicar mas só depois de o corrigir e rever, e por aí em diante.»
Margaret A. Salinger, Dream Catcher: A Memoir, p. 323. (tradução: AMC)
[New York: Washington Square Press, 2000, 436 pp.]

E, afinal, para onde vão os patos do Central Park quando o lago gela no Inverno?

quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

Agradecimentos

Ao Pedro Nogueira e ao Nuno Góis pela distinção: 7.º lugar nos melhores blogues de 2008.

Um abraço ao Pedro Correia e a toda a equipa do
Corta-Fitas pela lembrança.

À Fátima, que nunca se esquece, retribuo a sua incomensurável simpatia, desejando-lhe um magnífico ano de 2009.

Preocupações, desejos e outras coisas para 2009


Começo com uma irritação – afinal é o tom que ultimamente mais se adequa a este blogue, dado o microcosmos relacional do seu autor: os responsáveis pela manutenção do BlogRolling continuam a empatar com a conversa da nova plataforma, melhoramentos, da vitimização perante esses cruéis hackers espalhados pelo mundo, do trabalho insano de reconstituição do serviço… desde Outubro! A partir de então estou impedido de remover, alterar endereços ou os títulos dos blogues já existentes. Só consigo adicioná-los, mas está-me vedado o deslincamento, essa potencial arma de destruição em massa na blogosfera. Não fora a quantidade de hiperligações, ter-me-ia dedicado a criar o arrolamento na plataforma do Blogger.

Felicitações ao Eduardo Pitta pelo 4.º aniversário do seu blogue Da Literatura – extensíveis, como é óbvio, ao meu conterrâneo João Paulo Sousa –, um dos meus blogues de leitura diária e, como é possível comprovar, consta da Via-Sacra deste blogue (coluna do lado direito). E, já agora, um bom ano de 2009 para os seus autores. Este ano optei pela não particularização, via telefone, e-mail ou texto no blogue, limitei-me a encher um post com um muito a propósito poema de Thomas Hardy.

Para continuar na onda de atribuição de prémios e comendas, não poderia esquecer-me de Dana Stevens por esta brilhante abertura de um artigo seu, publicado em 29 de Dezembro último na página da Slate: «I must have the opposite of Asperger’s syndrome: I'm allergic to hierarchies, lists, and ranking.» Em primeiro lugar, fiquem a saber que deixarei passar o feriado na tranquilidade possível do meu lar, para amanhã recorrer, de urgência, a um neurologista – talvez um dos Lobo Antunes – e tentar desfazer a associação entre listomania e a mencionada síndrome. Depois, é de realçar o notório mau gosto da senhora americana, nem caiu em graça, nem conseguiu ser engraçada. Finalmente, o horror a listas – listofobia – pode querer indiciar um distúrbio neurológico de outra ordem que a senhora desconhece, e pedras ao vizinho… e que eu tão-pouco pretendo conhecer.

O Abrupto continua na sua senda de corporização em blogue da presidencialmente famosa “Lei de Gresham”– eu já a conhecia desde os bancos da faculdade e comprovo a flexibilidade da sua utilização. E parece – que se realce o verbo, porque apenas se vislumbra um aparente nexo de causalidade – estar na origem da expulsão de mais uma boa moeda… Todavia, o mais grave do Grande Educador da blogosfera nem está tanto quando aquele se refere, por outras palavras, “ao muito de mau que se faz nesta blogosfera lusa”, felizmente efervescente, mas, quando usando da falácia facilmente adquirida no seu miasmático milieu dos jogos sórdidos da política, se refere aos outros blogues, que segundo diz, visita diariamente, e aos seus autores no seu tom professoral e de guia espiritual, talvez servindo-se do seu livrinho de antanho, vide o elogio sofista que faz ao meu muito estimado João Gonçalves: «O blogue que eu mais leio continua a ser o Portugal dos Pequeninos. O que João Gonçalves escreve é muitas vezes irritante, tem o defeito de aceitar como válidas informações em segunda mão, - o que num blogue "pesado" ainda resulta mais errado ou injusto, - mas continua a ser das poucas e cada vez menos coisas legíveis na blogosfera.» É, apenas, execrável.
Mas a enunciação da verdadeira etiologia das tristes palavras naquele texto patético-colérico, é muito bem feita pelo Pedro Mexia numa única frase:

«Pacheco tem aquela velha repugnância marxista pelo registo autobiográfico emotivo, e por isso não liga à blogosfera do CÁ DENTRO, mas a blogosfera do CÁ DENTRO tem gente interessantíssima, culta e de boa prosa.»

Quanto a livros, aguardo a concretização da promessa de publicação do magnum opus de Don DeLillo, Underworld, pelos responsáveis da nova e excelente editora Sextante. E, apesar, de haver lido o 2666 de Bolaño na sua língua original, faço eco do apelo do homónimo, por pseudónimo, do conhecido femeeiro Giacomo Girolamo do século XVIII – ao autor do apelo não me refiro porque cortou a sua ligação a este blogue: publique-se, com urgência, o dito romance.

Finalmente, tenho vontade de fechar esta coisa. Arrancos e arremedos não me têm faltado – aliás, quem já me conhece o suficiente, via blogue, sabe desta minha faceta de consistente na inconstância. Mas procurarei dedicar-me mais à Literatura, que no último ano foi bastante descurada. Embora não se tenha reflectido na quantidade de leitura de livros publicados no ano, atente-se, por exemplo, no número de notas de apreciação (ou pseudo-recensões) escritas em 2008 por comparação às elaboradas em 2007: 8 contra 34.

A todos, uma vez mais e sem excepção, desejo um bom ano de 2009.

quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

Um Feliz Ano de 2009

Tal como fiz na véspera de Natal, deixo aqui ficar Thomas Hardy (1840-1928), com a sua ironia e o seu profundo cepticismo na humanidade, para o ano novo que se aproxima.

I (OLD STYLE)

Our songs went up and out the chimney,
And roused the home-gone husbandmen;
Our allemands, our heys, poussettings,
Our hands-across and back again,
Sent rhythmic throbbings through the casements
On to the white highway,
Where nighted farers paused and muttered,
“Keep it up well, do they!”

The contrabasso’s measured booming
Sped at each bar to the parish bounds,
To shepherds at their midnight lambings,
To stealthy poachers on their rounds;
And everybody caught full duly
The notes of our delight,
As Time unrobed the Youth of Promise
Hailed by our sanguine sight.

II (NEW STYLE)

We stand in the dusk of a pine-tree limb,
As if to give ear to the muffled peal,
Brought or withheld at the breeze’s whim;
But our truest heed is to words that steal
From the mantled ghost that looms in the gray,
And seems, so far as our sense can see,
To feature bereaved Humanity,
As it sighs to the imminent year its say:-

“O stay without, O stay without,
Calm comely Youth, untasked, untired;
Though stars irradiate thee about
Thy entrance here is undesired.
Open the gate not, mystic one;
Must we avow what we would close confine?
With thee, good friend, we would have converse none,
Albeit the fault may not be thine.”

December 31. During the War.


Thomas Hardy, At the Entering of the New Year (publicado em 1920).

O regresso de Brown, Howard & Hanks

Dito assim, parece mais uma daquelas firmas poderosas e obscuras de advogados saídas de um qualquer thriller judicial de John Grisham.
Mas não é, apesar de andarmos lá perto, trata-se de mais uns milhões para conta pessoal de Dan Brown, que prepara para a mesma altura o lançamento do seu novo romance, desta vez versando sobre os meandros e a influência tentacular da Maçonaria na democracia americana desde a proclamação da independência pelos Pais Fundadores em 1776.


Anjos e Demónios (Angels & Demons)

Realizado por Ron Howard, com argumento do repetente Akiva Goldsman e de David Koepp (novidade em relação a O Código Da Vinci, e já teve a seu cargo o argumento de filmes como o último Indiana Jones, Sala de Pânico, Homem Aranha ou Parque Jurássico), com a banda sonora novamente a cargo de Hans Zimmer, e com as interpretações de Tom Hanks, Ewan McGregor, Stellan Skarsgård, Armin Mueller-Stahl, entre outros, cabendo a representação do inevitável papel feminino emparelhador – usando o habitual e provável kitsch hollywoodesco: para as fugas pelas ruas de Roma de mão dada ao herói Hanks, no caso a interpretação da sensual cientista do CERN, Vittoria Vetra, uma expert em pró e antimatéria –, à actriz israelita de 39 anos Ayelet Zurer.

Estreia em Portugal, decerto com grande espalhafato mediático e uma tonitruante maledicência crítica, no dia 14 de Maio de 2009 (estreia mundial simultânea).

Música: O Melhor de 2008

Eis que, com esta lista, termina o arrolamento do melhor (e também do pior) que se pôde encontrar em três campos artísticos distintos – Cinema, Literatura e Música – no triste ano de 2008.
A última tarefa: ordenar, por ordem de preferência, os álbuns de pop, rock, música alternativa ou de tudo misturado – deixo essa tarefa aos rotuladores, patrulha zelosa e implacável perante a mínimo desacerto de catalogação – que, por ordem aleatória, foram sendo divulgados, à razão de um por dia, ao longo da última semana e meia.

Os Melhores Dez Álbuns Musicais de 2008 (por ordem de preferência):

  1. The Breeders, Mountain Battles (4AD);
  2. Portishead, Third (Island);
  3. Vampire Weekend, Vampire Weekend (XL);
  4. Nick Cave and the Bad Seeds, Dig!!! Lazarus Dig!!! (Mute);
  5. Deerhunter, Microcastle (Kranky/4AD);
  6. TV on the Radio, Dear Science (4AD/Interscope);
  7. Thievery Corporation, Radio Retaliation (Eighteenth Street Lounge);
  8. Los Campesinos!, Hold on Now, Youngster… (Wichita);
  9. The Kills, Midnight Boom (Domino);
  10. Bloc Party, Intimacy (Wichita).

Breve referência a cinco decepções, que não atingiram o nível da devastação emocional porque a última parte do trajecto das suas carreiras (com ou sem hiato) já vinha prenunciando a queda vertiginosa (por ordem alfabética da banda ou do cantor(a)):

  • Black Francis, SVN FNGRS (Cooking Vinyl);
  • Juliana Hatfield, How To Walk Away (Ye Olde);
  • Primal Scream, Beautiful Future (Atlantic);
  • The Verve, Forth (EMI);
  • Weezer, Weezer (The Red Album), (Geffen).

Outras categorias (insuportáveis):

  • Mercantilismo impudico: Coldplay, Viva la Vida or Death and All His Friends, que venha tudo, até um possível plágio e desde que pingue qualquer coisinha (nem com Delacroix ou com a ajuda de uns sais... Eno);
  • Se cantassem em português: Keane, Perfect Symmetry com o conjunto Albatroz e com o Marante, se este sozinho formasse um grupo;
  • Pedintes & quejandos: Ana Free, In My Place, mas sem amplificadores, por favor; ou na versão radical tampão para os ouvidos.

E por aí em diante… Tudo o que a criatividade, mais ou menos ordinária, permitir.