quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Nobel da Literatura 2009


Herta Müller
(Niţchidorf, Roménia em 17 de Agosto de 1953 – actualmente, cidadã alemã)
«…quem, com a consistência da sua poesia e a franqueza da sua prosa, retrata o panorama dos desapossados.» palavras das Academia Sueca [tradução: AMC]
Müller foi uma das mais activas vozes na literatura mundial que combateu feroz e frontalmente o regime despótico e torcionário do líder comunista da Roménia (entre 1967 e 1989) Nicolae Ceausescu e a sua impiedosa guarda pretoriana, a Securitate. Fugiu para Alemanha Federal em 1987. Actualmente, vive em Berlim.

Por enquanto, a autora alemã dispõe de 2 obras publicadas em Portugal (por ordem cronológica): O homem é um grande faisão sobre a terra (Cotovia, 1993; obra original: Der Mensch ist ein grosser Fasan auf der Welt, 1986); e A terra das ameixas verdes (Difel, 1999; obra original: Herztier, 1994).

Nota: para mais informações consultar a página oficial do Prémio Nobel da Literatura e, entre outros, este artigo do jornal Público.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Dia 8 – Nobel da Literatura 2009 (act.)


É já amanhã ao meio-dia (hora de Lisboa) que o emproado secretário permanente da Academia Sueca, Horace Engdahl (ao lado na imagem, com o seu habitual fácies efusivo, homem irradiador do mais aconchegante calor humano), anunciará, no seu inglês arrevesado, o vencedor do Prémio Nobel da Literatura de 2009.

Segundo a listagem deste ano da casa de apostas britânica Ladbrokes, o autor israelita Amos Oz lidera a lista dos prováveis laureados, lista que inclui nas dez primeiras posições quatro escritores que “não participam no diálogo da literatura mundial”, sinónimo de “norte-americanos” ou de “estado-unidenses”:

1.º) Amos Oz (Israel) - 3/1
2.º) Joyce Carol Oates, (EUA), e Philip Roth (EUA) - 5/1
4.º) Herta Müller (Alemanha) - 6/1
5.º) Thomas Pynchon (EUA) - 7/1
6.º) Haruki Murakami (Japão), e Mario Vargas Llosa (Peru) - 9/1
8.º) Claudio Magris (Itália), Don DeLillo (EUA) e Thomas Tranströmer (Suécia) - 12/1

De notar que António Lobo Antunes figura na lista deste ano, com uma probabilidade de 100/1 – fazendo companhia a nomes como Cormac McCarthy, David Malouf, McEwan, Banville, Littell, Julian Barnes, Tournier, Modiano e Auster. Se o homem ganha, ninguém o cala…
Pessoalmente, gostaria que daquela lista de dez nomes saísse DeLillo como vencedor, não me desagradando, no entanto, que o prémio fosse atribuído a Vargas Llosa (se mais faltasse, irritar García Márquez deixar-me-ia à beira da felicidade) ou então, a Roth ou a PynchonUpdike já era; Auster tem de consolidar a sua obra e apesar de não ser um bestseller, tem um conjunto de fãs incondicionais, e era o que faltava ceder a lobbies de putativos literatos pós-modernistas; Kundera também não deve participar no diálogo da literatura mundial (é um dissidente do comunismo…); com Rushdie há o medo dos árabes; Eco escreveu romances históricos, apesar de serem brilhantes, talvez ofusquem a sua notável obra ensaística; McEwan e Barnes sofrem do mal (acima identificado) de Auster, mas vencendo poderiam servir como uma vingança esquerdista (moderada) às posições assumidas por Martin Amis que, de uma vez por todas, desapareceu das listas de favoritos.

Prognósticos (face à tendência Grass, Pinter, Lessing, Fo, Gordimer, Saramago, Coetzee):
  • Ernesto Cardenal, John Berger (não incluído na lista), Tabucchi ou Handke (apesar de brilhante, esse grande democrata miloseviquiano);
  • Joyce Carol Oates, para fugir à questão política, dar o braço a torcer à melhor literatura do mundo (a norte-americana), embora dissimulado por um activismo feminista ou pela “condição das mulheres” (frase que integrará a curta descrição justificativa na atribuição do prémio).

A ver vamos.

[rectificação] *O supracitado Horace Engdahl (ocupante da 17.ª cadeira da Academia Sueca desde 1997) deixou, felizmente, de desempenhar o cargo de Secretário Permanente da Academia Sueca no final do mês de Maio deste ano. Engdahl foi substituído pelo historiador e ensaísta Peter Englund (ocupante da 10.ª cadeira da Academia Sueca desde 2002), o que pode dar um sinal de abertura à literatura norte-americana, que já não é galardoada com o Nobel desde 1993, quando o prémio foi atribuído a Toni Morrison. Assim, os prognósticos aqui postados foram efectuados na presunção de Engdahl ainda como Secretário Permanente, que, em abono da verdade, na questão primordial da atribuição do prémio apenas contribuía com 1/17 dos votos (a Academia Sueca é originariamente composta por 18 membros – 18 cadeiras – mas, neste momento, a cadeira n.º 1 está vaga), logo a política seguida até Junho de 2009 poder-se-á manter. [Tomei conhecimento da substituição de Engdahl por Englund no blogue Bibliotecário de Babel.]

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Booker Prize 2009 [última hora]

O vencedor do Man Booker Prize de 2009 é:



Ao fim de três horas de deliberação, o júri – este ano presidido pelo jornalista e ensaísta James Naughtie – atribuiu o mais prestigiado galardão a premiar um livro de ficção em prosa escrito originalmente em inglês no Reino Unido, Commonwealth e Irlanda a Hilary Mantel, escritora inglesa (n. 1952), pelo seu romance Wolf Hall.
Mantel já havia sido uma dos 17 semifinalistas do mesmo prémio em 2005 – um dos melhores anos de sempre do Booker, com 6 finalistas de peso – com o seu romance Beyond Black.
Apesar de já haver publicado mais de uma dúzia de obras literárias, Mantel nunca viu um livro seu publicado em Portugal*.

* A não publicação de qualquer livro desta escritora em Portugal dever-se-á, decerto, a um qualquer veto ostensivo e oculto de Cavaco Silva, talvez travestido num cismático Henrique VIII, auxiliado pelo seu Cromwell, Fernando Lima, a necessitar de interpretação mais do que urgente (isto é, paga a peso de ouro) por Bettencourt Resendes, o equidistante Pedro Adão e Silva, Clara "Loira" Ferreira "Marquise" Alves, Teresa de Sousa, o isentíssimo e preclaro Daniel Oliveira, o erudito Luís Pedro Nunes, o não-sectário Emídio Rangel, o inefável Ferreira Fernandes, os sublevados Carlos Abreu Amorim e Pedro Marques Lopes, e os opinadores do independentíssimo Diário de Notícias (com o, hino antropomorfizado à deontologia profissional, Marcelino "the off the record man" à cabeça). Vedando-se, como é óbvio, todo e qualquer comentário ou mínima opinião, nem que seja fundada em 3 vocábulos apenas, aos fundamentalistas e diabólicos – agentes do império do mal – Nuno Rogeiro, Francisco José Viegas, Maria João Avillez, João Pereira Coutinho, Pedro Lomba e sinistras (esqueçam o italiano) figuras afins, porque não conseguem (deliberadamente) captar os nefastíssimos miasmas de pobreza (boliqueimenses, são palavras sinónimas para o 1.º grupo) de um gasolineiro que singrou na vida e que se tornou, para além de um dos mais reputados professores catedráticos de Finanças Públicas – a par de figuras como Sousa Franco e Teixeira dos Santos –, com obra científica publicada e certificada, em Ministro das Finanças, Primeiro-Ministro (1985-1995) e em Presidente da República Portuguesa (2006-?) pelo voto democrático de milhões de portugueses.    

domingo, 4 de outubro de 2009

Roth Nogueira Pinto

«Será para isto que serve a eternidade, para uma pessoa remoer todas as minudências de uma vida inteira? Quem poderia imaginar que ia ter de se lembrar para sempre de cada momento da vida, até ao mais pequeno pormenor? Ou será que esta vida depois da morte é só minha e, do mesmo modo que cada vida é única, também cada vida depois da morte o é, cada vida depois da morte é uma impressão digital imperecível diferente de todas as outras? Não tenho maneira de saber. Tal como na vida, só sei o que é, e na morte, o que é, é afinal o que foi. Não só estamos acorrentados à nossa vida enquanto a vivemos como continuamos presos a ela depois de morrermos.»
Philip Roth, Indignação, p. 52
[Algragide: Dom Quixote, 1.ª edição, Setembro de 2009, 175 pp; tradução de Francisco Agarez; obra original: Indignation, 2008.]


sábado, 3 de outubro de 2009

Pedrada no Charco

Paulo Furtado, ou melhor The Legendary Tiger Man, é o responsável por, na minha única e inalienável opinião, um dos melhores álbuns musicais do ano: Femina (o seu 4.º disco de “originais” a solo, sob este nome artístico).

O álbum é um deleite revivalista da música que acompanhou a minha adolescência e o início da idade adulta, com uma sonoridade arrepiante e interpretações vocais memoráveis, e até surpreendentes – e a surpresa advém de algumas canções que são interpretadas por quem não faz da música a sua carreira: uma vampírica e deslumbrante Asia Argento, que interpreta três temas (ver vídeo de “Life Ain't Enough for You”) e de uma extraordinária Maria de Medeiros a cantar, com a exigível voz de uma teenager lúbrica, “These Boots are made for Walking”, canção originalmente composta pelo gigante da música country Lee Hazlewood para Nancy Sinatra.




Nota: Deixo outras considerações lá mais para diante, quando o disco tiver amadurecido no meu ouvido (Rita Redshoes é fulgurante… ouvir, por exemplo, a faixa “Hey, Sister Ray”.)

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

A explicação: portas fechadas

«Mexe-me com os nervos quando vejo portas fechadas. Mesmo no trabalho, que me está a correr tão bem, a visão de uma porta fechada é o suficiente para me deixar desconfiado de que alguma coisa de horrível se está a passar atrás dela, algo que me irá afectar de uma forma hostil; se estou cansado e deprimido por uma noite de mentiras ou de bebida ou de sexo ou apenas de ansiedade e insónia, eu quase consigo cheirar o desastre que se acerca de forma invisível e que me esborracha contra as divisórias de vidro fosco. As minhas mãos podem ficar suadas e a minha voz revelar-se estranha. Gostaria de saber porquê?
Algo se passou comigo outrora.»
Joseph Heller, Something Happened, p. 3
[New York: Scribner, 1st paperback edition, 1997, 576 pp.; tradução: AMC, 2009; obra publicada originalmente em 1974.]

Uma porta fechada… a simples suspeita… o pânico. Infundado?

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Manipulação


Houve uma vez um destacado director de informação de uma estação de televisão privada que disse, suponho tratar-se de esse cargo, que se quisesse venderia ao país um primeiro-ministro. Sem blogues, redes sociais, com internet ainda na sua fase rudimentar de mera caixa-de-ressonância da informação que circulava pelos meios de comunicação tradicionais, vozes de indignação, ou a ela autorizadas, surgiram de todos os lados para exprobrar as palavras do novo profeta do dealbar da revolução mediática.
Aconteceu. Cedo, o poder político, costumeiramente astuto na sua perversidade, apercebeu-se dos poderes ilimitados dos novos circuitos comunicacionais. Criou-se uma rede subterrânea de influências, que vê a luz do dia sob a forma de opinião, nos jornais, nas rádios, nas televisões, nos blogues, mas escrupulosamente geridas por agigantadas centrais de informação – hoje, não há inocente que não saiba que a informação que lhe chega às mãos já foi depurada dos escolhos da livre interpretação; ela é-nos servida eviscerada, sem espinhas e sinais de gordura, basta ligar o microondas e comer sem reclamar o produto final. O fim sempre foi a notícia, mas os meios tradicionais de investigação jornalística  para o atingir desapareceram – vivemos em plena época de arrivismo informacional.
O tal “xerife” fez o seu caminho, reformou-se e hoje opina, livremente e sem remorso, num canal público de televisão pago pelo dinheiro dos contribuintes – esses mesmos que outrora se arrogava de poder comprar e manipular.
Hoje a perfídia dá os seus frutos, faz parte do nosso quotidiano, deixamo-nos dominar por ela através de uma acédia imanente – terreno fértil para a incubação de novas formas de assassinato de carácter e do derrube perverso do adversário.
Nos dias que correm, joga-se xadrez com luvas de boxe; potencialmente, o xeque-mate chega à primeira jogada; caem por terra as peças do tabuleiro à primeira jogada com as brancas, sem distinguir a cor dos derrubados, brancas ou pretas, amigos ou inimigos, atingiu-se o fim… o rei, que muda facilmente de figura, dependendo desse fim convencionado no momento, tomba sem sequer ter dado um passo. Mas não se aflijam, a vontade de acudir o moribundo jamais desaparecerá, sob pena de se estragar o fim. Haverá sempre o peão altruísta, aquele que o pretende socorrer, insuflando-lhe dignidade, atando-lhe uns cordéis translúcidos à cabeça e aos membros.
Apoiantes de ontem, são adversários de hoje, e para cúmulo da sem-vergonha e da sordícia confessam-se envergonhados pelo apoio manifestado (sob as mais variadas formas) em tempos idos. Como se o passado fosse negociável. Seguem o rebanho, pretensamente intoxicados pela opinião dos opinadores comprometidos com o regime. Mas a realidade é bem pior, pelo testemunho cobiçoso da alacridade e das recompensas dos que trabalham no campo oposto, vendem por meia dúzia de tostões o que à partida é infungível, a própria alma.


Conselho: a leitura deste texto sabe melhor se se puser em fundo a famosa faixa sonora de Nino Rota. Tenho a impressão de que já vi este filme mas com protagonistas diferentes… (já agora, em caso de dificuldade de identificação, voltar a este pequeno excerto aqui postado que, por si só, já nos dá uma ideia global).

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

O camelo e a agulha: os números finais e o júbilo socialista

Falou o profeta: «Nós juntamo-nos ao júbilo que há nos socialistas portugueses, nós os socialistas do mundo. Esse é o caminho…», e prosseguindo disse, «Esse é o caminho, o socialismo! África tem muito que apostar nisso, o socialismo africano, corrente muito forte que surgiu no século XX, que trataram de apagá-la mas que aí está, viva. Kadhafi é uma testemunha disso, da República Socialista da Líbia».
E terminou de forma messiânica, «o primeiro socialista foi Cristo, para nós, para mim que sou cristão. Alguém imagina Cristo capitalista? Ah!, Judas, que o vendeu por umas moedas. Esse é o capitalista, que vende até Cristo…», rematando com a parábola, narrada nos três Evangelhos sinópticos, vide título deste texto (cf. A Bíblia Sagrada: Mateus 19, 23-24; Marcos 10, 23-25; e Lucas 18, 24-25).



Eis um resumo comparativo do júbilo anticapitalista:



2009

2005

Diferenças

Crescimento

Votos

%

Dep.

Votos

%

Dep.

votos

dep.

%

p.p.

PS  

2.068.665

36,6%

96

2.573.406

45,0%

120

-504.741


-24


-24,4%


-8,5

PSD

1.646.097

29,1%

78

1.639.240

28,7%

72

6.857


6


0,4%


0,4

CDS-PP  

592.064

10,5%

21

414.922

7,3%

12

177.142


9


29,9%


3,2

BE

557.109

9,8%

16

364.407

6,4%

8

192.702


8


34,6%


3,5

PCP-PEV  

446.174

7,9%

15

432.000

7,6%

14

14.174


1


3,2%


0,3



5.310.109

93,8%

226

5.423.975

95,0%

226

-113.866













Inscritos

9.337.314

-



8.785.762

-


551.552




Votantes

5.658.808

60,6%



5.712.427

65,0%


-53.619




Abstenção

3.678.506

39,4%



3.073.335

35,0%


605.171



domingo, 27 de setembro de 2009

E depois da reflexão…

…o que faço aqui.



Direito exercido, passava pouco da três e meia da tarde. Temperatura: 26ºC; humidade relativa: 60%.
E nada como citar Thoreau num dia como este, de canícula outonal, onde a força dos outros por vezes se sobrepõe mesmo à nossa vontade – bravo, participei no circo desta democracia.
«[…] o Estado nunca confronta intencionalmente o senso, intelectual ou moral, de um homem, mas apenas o seu corpo, os seus sentidos. Não é dotado de inteligência ou de honestidade superiores, mas apenas de superior força física. Eu não nasci para ser coagido. Quero respirar de acordo com a minha vontade. Veremos quem é mais forte. Que força tem uma multidão? Os únicos que me podem coagir são os que obedecem a uma lei superior à minha. Eles obrigam-me a ser como eles. Nunca ouvi falar de homens que tenham sido obrigados pelas massas a viver desta ou daquela forma. Que tipo de vida seria essa? Quando enfrento um governo que me diz “O dinheiro ou a vida!”, porque é que deveria apressar-me em lhe entregar o meu dinheiro? Ele talvez esteja a passar por um grande aperto, sem saber o que fazer. Não o posso ajudar. Ele deve cuidar de si mesmo; deve agir como eu ajo. Não vale a pena choramingar sobre o assunto. Não sou individualmente responsável pelo bom funcionamento da máquina da sociedade. Não sou o filho do maquinista. No meu modo de ver, quando uma bolota e uma castanha caem lado a lado, uma delas não se retrai para dar vez à outra; pelo contrário, cada uma obedece às suas próprias leis, e brotam, crescem e florescem da melhor maneira possível, até que uma, por acaso, acaba por vingar e destrói a outra. Se uma planta não pode viver de acordo com a sua natureza, então morre; o mesmo acontece com um homem.»
Henry David Thoreau, A Desobediência Civil
[Revisão da versão brasileira com apoio do texto original em inglês: AMC, 2009; obra original: Civil Disobedience, 1849]

sábado, 26 de setembro de 2009

Follas Novas

Pormenor do interior da livraria Follas Novas, Santiago de Compostela, EspanhaQuando visitava Santiago (há, pelo menos, nove ou dez anos que não ponho lá os pés), um dos pontos imprescindíveis do roteiro turístico era a livraria “Follas Novas” – a Díaz de Santos ficava sempre para segundo plano.
Independentemente da denominação impudica em castelhano – o nome da loja está em galego, em espanhol seria qualquer coisa como “Hojas Nuevas” –, e dos trocadilhos mais ou menos infelizes a que isso dava origem, havia sempre uma visita à bem apetrechada livraria de Montero Ríos, com os livreiros mais bem preparados e qualificados que encontrei de todas as livrarias que visitei até aos dias de hoje – naquela livraria existiam verdadeiras bases de dados antropomórficas.

Para quem irá ler o romance enciclopédico de Roberto Bolaño, 2666, recentemente publicado em Portugal – já o li na sua língua original e talvez leia a versão portuguesa – irá reparar, no segundo livro “La parte de Amalfitano”, na breve referência que é feita à livraria, quando Amalfitano abre a caixa que continha os seus livros e surge misteriosamente um livro de um tal Rafael Dieste, cujo título era Testamento geométrico – parte importante da narrativa:

«Buscó en la primera página y en la última y en la contraportada alguna señal y encontró, en la primera página, la etiqueta cortada de la Librería Follas Novas, S.L., Montero Ríos 37, teléfonos 981-59-44-06 y 981-59-44-18, Santiago. Evidentemente no Santiago de Chile, único lugar del mundo en donde Amalfitano era capaz de verse a sí mismo en un estado de catatonia total, capaz de entrar en una librería, coger un libro cualquiera sin siquiera mirar la portada, pagarlo y marcharse.
»Se trataba, era obvio, de Santiago de Compostela, en Galicia.»
Roberto Bolaño, 2666 (Barcelona: Anagrama, 2004, 1126 pp.)

Lembro-me bem de uma das últimas visitas – talvez até a última –, muito próxima da quadra natalícia, quando encontrei na “Follas Novas” uma magnífica fotobiografia de James Osterberg, mais conhecido por Iggy Pop, com texto traduzido em castelhano.
Serviria de presente. O destinatário estava escolhido. E, naquela noite de 24 de Dezembro, houve um par de olhos que brilhou com maior intensidade pela sua veneração musical à “Iguana”. Esse par cuja fulgência se apagou, em definitivo, há quase 7 anos… Razão de ser tudo isto que para aqui despejo.

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

A alegoria electiva

A cinco horas de acabar a repugnante algazarra, nada melhor que deixar uma pequena alegoria enxadrezada para o curto período de reflexão que se avizinha (será que não podem perder todos? Ah, que grande domingo seria!)

«O rei é sempre o rei.» – D’Angelo (epígrafe do episódio)


D’ANGELO BARKSDALE: O que é que foi isso? A torre não se move assim. A torre só se move para cima e para baixo, e também para os lados em linha recta.

PRESTON “BODIE” BROADUS: Não, nós não estamos a jogar a isso.

WALLACE: Olha para o tabuleiro, nós estamos a jogar damas.

D’ANGELO: Damas?

WALLACE: Sim, damas.

D’ANGELO: Porque é que estão a jogar damas com peças de xadrez?

BODIE: O que tens a ver com essa merda? Meu, nós não temos damas.

D’ANGELO: Ok, mas o xadrez é um jogo melhor.

BODIE: E…

D’ANGELO: Não, esperem aí. Vocês não sabem jogar xadrez, pois não?

BODIE: E depois?

D’ANGELO: E depois nada, meu. Eu ensino-vos se vocês quiserem aprender.

BODIE: Vá lá, meu, deixa-te disso. Nós estamos a meio de um jogo.

WALLACE: Tem calma, eu quero ver isto.

D’ANGELO: Vocês não podem jogar damas num tabuleiro de xadrez.

BODIE: Ok, meu, está bem.

D’ANGELO: Vejam, estejam atentos, é simples. Estão a ver este? Este é o rei do bando. Este é o homem. Se apanhares o rei do outro gajo, ganhaste. Mas ele também vai tentar apanhar o vosso rei, por isso têm de o proteger. Agora, o rei pode andar uma casa na porra da direcção que entender, porque ele é o rei. Tipo assim, ou assim… ok? Mas ele não tem pressa nenhuma. Mas os restantes cabrões da equipa protegem-lhe as costas; e eles estão tão bem organizados, que ele não tem de fazer nada.

BODIE: É como o teu tio.

D’ANGELO: Pois, é como o meu tio… Estão a ver esta? Esta é a dama. Ela é esperta e agressiva. Ela pode andar em todas as direcções, até onde quiser. É ela que trata das merdas todas.

WALLACE: Faz-me lembrar o Stringer.

D’ANGELO: E esta aqui é a torre. Como o buraco onde o material… as drogas e a massa estão escondidas. Move-se assim e assim.

WALLACE: Não pá, o material não se mexe.

D’ANGELO: Anda, pensa. Quantas vezes é que tivemos de mudar de buraco esta semana? E sempre que mudas o material, tens de, pelo menos, mexer uns pêlos para o proteger.

BODIE: É verdade, tens razão. Ok. Então e o que são essas putinhas carecas aí?

D’ANGELO: Estes aqui? Estes são os peões. São como os soldados. Eles movem-se para a frente uma casa de cada vez, excepto quando lutam. E então movem-se assim ou assim. E eles são a linha da frente. Estão cá fora, no terreno.

WALLACE: Então como é que tu podes ser o rei?

D’ANGELO: Isso, não é assim. O rei é sempre o rei, ok? Toda a gente continua a ser o que é, excepto os peões. Agora se um peão conseguir atravessar o tabuleiro e chegar ao lado do outro gajo, ele passa a ser dama. E como já disse, a dama não é nenhuma puta. Ela controla todos os movimentos.

BODIE: Ok, então, se eu chegar ao outro lado, eu ganho?

D’ANGELO: Se apanhares o rei do outro gajo e o conseguires encurralar, só aí é que ganhas.

BODIE: Ok, mas se eu chegar ao outro lado, passo a ser o grande chefe.

D’ANGELO: Não, não é assim, vê. No jogo, os peões são rapidamente comidos. Eles saem cedo do jogo.

BODIE: A não ser que sejam uns peões matreiros como o raio.

[diálogo extraído do 3.º episódio da 1.ª temporada, “As Compras”, da inigualável série televisiva norte-americana The Wire (HBO); tradução a partir do inglês, cautelosamente suavizada por AMC, 2009.]

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

"Morrer é divertido"

«The Nabokov Code» por Ron Rosenbaum (Slate)
A ironia final de Nabokov em 138 fichas de indexação, apresentadas na sua forma original e transcritas por Dmitri.

O livro (ou a pasta de arquivo literária) será publicado pela Knopf a 17 de Novembro próximo. Até lá, repousa no 21.º andar do edifício da Random House em Nova Iorque para consulta livre, com assinatura prévia de um documento de garantia confidencialidade absoluta pelo consultante.
Cito Steiner, como fiz há mais de um ano e meio a propósito deste assunto:

«Brod em lágrimas, numa noite chuvosa, na rua dos ourives e alquimistas por baixo do castelo de Praga. Cruza-se com um livreiro muito conhecido: “Por que [sic] choras, Max?” “Acabo de saber que Franz Kafka morreu.” “Oh, lamento muito. Sei da tua estima pelo moço.” “Não compreendes. Ele ordenou-me que queimasse os seus manuscritos.” “Nesse caso terás de o fazer, pela tua honra.” “Não compreendes. Franz foi um dos maiores escritores da língua alemã.” Um momento de silêncio: “Max, tenho a solução. Por que [sic] não queimas antes os teus próprios livros?”»
In George Steiner, As Lições dos Mestres.
[Lisboa: Gradiva, 2.ª edição, Outubro de 2005, pág. 69; tradução de Rui Pires Cabral; obra original: Lessons of the Masters, 2003]

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

O mocassim perdido

Anuncio ao mundo que:

  • Ainda há vida neste blogue – está em estado de hibernação intermitente;
  • Havendo lido os quatro romances do autor – e, digo-o sem vergonha, O Código Da Vinci divertiu-me –, a minha vontade de ler o novo livro de Dan Brown aumentou de forma considerável só pela frase de O Símbolo Perdido que Christopher Tayler, crítico do Guardian, destacou na sua recensão [via destaque no blogue da revista Ler]:

«Este tipo fugiu à polícia francesa... em mocassins?»
[trad. AMC; lost in translation? Saio, madraçamente, de pantufas.]