domingo, 28 de dezembro de 2008

Criptógrafos de Atlanta (“10+” de 2008)

Desde o passado dia 22, e sempre entre a 1 e as 2 da tarde, este blogue tem vindo a revelar, por ordem perfeitamente aleatória, os 10 melhores álbuns (de originais) musicais de 2008.




“Agoraphobia”
Deerhunter – Microcastle (Kranky/4AD)

Notas:

  • No final do ano será divulgada a lista dos “Dez Melhores”, organizada por ordem de preferência;
  • No dia de Natal foram revelados dois álbuns;
  • Todos os álbuns ficaram desde o dia 22 agendados no Blogger para surgirem no intervalo de tempo determinado em cada dia.

sábado, 27 de dezembro de 2008

Depois do hiato, regresso em grande (“10+” de 2008)

Desde o passado dia 22, e sempre entre a 1 e as 2 da tarde, este blogue tem vindo a revelar, por ordem perfeitamente aleatória, os 10 melhores álbuns (de originais) musicais de 2008.




“We Carry On”
Portishead* – Third (Island)

*E por favor, para cerca de 95% dos ouvintes/amantes da banda de Bristol que, decerto, não aprenderam a ouvi-la na saudosa XFM, o nome pronuncia-se como se “portis” e “head” fossem duas palavras separadas – evitem o dígrafo inglês “sh”, equivalente ao nosso “ch” –, tal como em “Brideshead”, o famoso vórtice dramático de toda a trama do romance de 1945 escrito por Evelyn Waugh (1903-1966), Brideshead Revisited (ed. port. Relógio D’Água, Reviver o Passado em Brideshead).

Notas:
  • No final do ano será divulgada a lista dos “Dez Melhores”, organizada por ordem de preferência;
  • No dia de Natal foram revelados dois álbuns;
  • Todos os álbuns ficaram desde o dia 22 agendados no Blogger para surgirem no intervalo de tempo determinado em cada dia.

Contrastes

Entre prendas e sorrisos. Velhas recordações e mesas cheias de tentações adiposas, de casa em casa, com espírito da quadra, mas sem vestígios expressos do motivo ancestral que nos acomodou frente a frente na revisão de um ano. Caras, corpos, razões, provindos de um mesmo código genético. Rugas que aparecem. Um inaudito cabelo branco que nos deixa siderados, de boca aberta… aquela que apenas se fecha para trincar, degustar, falar da vida, e de repetir até à náusea “parece que foi ontem”.
Sim, crescemos todos um pouco, mesmo que a acção não se tenha feito acompanhar da proposição “em” unida a expressões como “sensibilidade”, “razão para existir”, “paixão”, “alegria”, “compreensão”… “amor” – o que é isso?... Nunca nos questionámos, ou já não nos interrogamos sobre o significado das palavras, sobre a sua materialização em emoções. A vida corre voraz, galgando barreiras visíveis, poucas, ou, na sua maioria, imperceptíveis… envelhecemos… todos, sem excepção. É um belo espectáculo… enriquecemos? Bocas que se abrem e fecham e que proferiram aquilo que hoje já não recordamos. Não há memória, porque é demasiado dura e cara para a podermos alimentar…
Passou. As casas vazias durante uma noite e um dia, voltam a encher-se de quotidiano, apesar da festa que se avizinha… mais um ano, meus queridos… merda, mais uma ano.
Como é que te vou explicar isso, doce e caracolenta M.? Não me perdoaria se já houvesse ensaiado a decifração desta maldita existência, I. Dois e cinco anos, e um pai que vai definhando, de sorriso de orelha a orelha, qual histrião, palhaço treinado e consumado para suportar esta convivência infernal, protocolar… os outros. A mesquinhez, a indiferença, a maledicência, o arrivismo. O permanente estado de vigília para não ser espezinhado… cansa e estou exausto.
Mas quem não o está? Talvez, com dizia o “Pai da Pátria”, os “banqueiros delinquentes” que agora arfam como bestas pela ganância do dinheiro dos nossos impostos…

E poderia continuar, partindo do lúgubre para um conhecedor e exaltado J’accuse…! zoliano.

Mas, a despeito do palavreado inane acima registado em zeros e uns, o que, realmente, me trouxe a estas linhas foi a publicação de “A Tralha de 2008” no suplemento Ípsilon do jornal
Público de hoje (ontem) e a sua comparação com as listas que irei aqui publicar nos próximos dias 29, 30 e 31, os dez melhores filmes, livros e discos de 2008, respectivamente, segundo a minha única e íntima (e discutível, pois claro) opinião pessoal.

O contraste com a Ípsilon:

Música

  • 30 discos arrumados na secção “pop” (sem limão), organizados do melhor ao menos bom. Apenas 3 – em 30, é obra! – coincidem com a minha lista final: os Vampire Weekend, com o álbum Vampire Weekend; os Portishead, com Third; e os TV on the Radio, com álbum de originais editado em 2008, Dear Science. O restantes: ou são completamente desconhecidos para este ouvido que, confesso, já foi mais melómano; ou são aberrações, como os Buraka Som Sistema; ou, então, exaltou-se, de forma heteróclita, o experimentalismo dos tradicionais SYR’s dos mui estimados Sonic Youth – um faixa de 60 minutos de estridência.

Cinema

  • 10 filmes: 3 não vi (Austrália, Quatro Noites com Anna, e Aquele Querido Mês de Agosto); 2 integram o meu Top10; 4 integram o meu Top 17 (antes da tal “última triagem”, e serão apresentados no dia 29 por ordem alfabética); e finalmente há 1 que vi e foi colocado no conjunto de “indiferentes”, Nós Controlamos a Noite, de James Gray (We Own the Night, 2007).

Literatura

  • 20 livros: 13 não li, e desses apenas Capote e Bernhard constam da minha biblioteca para ler, os restantes acumularão sapiência literária na minha total ignorância; 2 foram lidos, mas de forma alguma integraram, ou tiveram sequer hipóteses de integrar, a lista dos meus 21 finalistas (Coetzee e Rushdie, atente-se na listagem que foi engrossando ao longo do ano na coluna do lado direito deste blogue); 5 foram lidos e integram a listagem final dos “10 Melhores”, depurada a listagem dos 21 possíveis.

Depois disto, só resta relembrar a agenda listómana deste blogue:

  • 29 de Dezembro – Cinema – Os Melhores Filmes de 2008 (estreados em salas de cinema portuguesas durante o corrente ano, independentemente do seu ano de produção);
  • 30 de Dezembro – Literatura – Os Melhores Livros de 2008 (editados, reeditados ou reimpressos durante o ano, em tradução portuguesa no mercado editorial nacional);
  • 31 de Dezembro – Música – Os Melhores Álbuns Musicais de 2008 (editados internacionalmente durante o ano de 2008).

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

Dueto Transatlântico (“10+” de 2008)

Desde o passado dia 22, e sempre entre a 1 e as 2 da tarde, este blogue tem vindo a revelar, por ordem perfeitamente aleatória, os 10 melhores álbuns (de originais) musicais de 2008.




“Last Day of Magic”
The KillsMidnight Boom (Domino)

Notas:

  • No final do ano será divulgada a lista dos “Dez Melhores”, organizada por ordem de preferência;
  • No dia de Natal foram revelados dois álbuns;
  • Todos os álbuns ficaram desde o dia 22 agendados no Blogger para surgirem no intervalo de tempo determinado em cada dia.

quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

A lenda viva australiana (“10+” de 2008)

Desde o passado dia 22, e sempre entre a 1 e as 2 da tarde, este blogue tem vindo a revelar, por ordem perfeitamente aleatória, os 10 melhores álbuns (de originais) musicais de 2008.




“More News From Nowhere”*
Nick Cave and the Bad Seeds – Dig!!! Lazarus Dig!!! (Mute)

*Em substituição da mais caviana e melhor música do álbum, “Hold on to Yourself”, até à data, ainda não merecedora de vídeo de promoção – manda o mercado…

Notas:

  • No final do ano será divulgada a lista dos “Dez Melhores”, organizada por ordem de preferência;
  • Hoje serão revelados dois álbuns;
  • Todos os álbuns ficaram desde o dia 22 agendados no Blogger para surgirem no intervalo de tempo determinado em cada dia.

Ratoneiros, Inc., nos tempos que correm… (“10+” de 2008)

Desde o passado dia 22, e sempre entre a 1 e as 2 da tarde, este blogue tem vindo a revelar, por ordem perfeitamente aleatória, os 10 melhores álbuns (de originais) musicais de 2008.




“Sweet Tides” (c/ a participação de LouLou)
Thievery Corporation – Radio Retaliation (Eighteenth Street Lounge)

Notas:

  • No final do ano será divulgada a lista dos “Dez Melhores”, organizada por ordem de preferência;
  • Hoje serão revelados dois álbuns;
  • Todos os álbuns ficaram desde o dia 22 agendados no Blogger para surgirem no intervalo de tempo determinado em cada dia.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

A ironia de uma Véspera

imagem original, The Times, na 1.ª página de 24 de Dezembro de 1915


Publicado a 24/12/1915 (com o mundo em plena Grande Guerra) no The Times.

Feliz Natal!

Surpresa debutante (“10+” de 2008)

Desde o passado dia 22, e sempre entre a 1 e as 2 da tarde, este blogue tem vindo a revelar, por ordem perfeitamente aleatória, os 10 melhores álbuns (de originais) musicais de 2008.




“Mansard Roof”
Vampire Weekend – Vampire Weekend (XL)

Notas:

  • No final do ano será divulgada a lista dos “Dez Melhores”, organizada por ordem de preferência;
  • No dia de Natal serão revelados dois álbuns;
  • Todos os álbuns ficaram desde o dia 22 agendados no Blogger para surgirem no intervalo de tempo determinado em cada dia.

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Lissack & Okereke, de novo (“10+” de 2008)

Desde o passado dia 22, e sempre entre a 1 e as 2 da tarde, este blogue tem vindo a revelar, por ordem perfeitamente aleatória, os 10 melhores álbuns (de originais) musicais de 2008.




“Talons”
Bloc Party – Intimacy (Wichita)

Notas:

  • No final do ano será divulgada a lista dos “Dez Melhores”, organizada por ordem de preferência;
  • No dia de Natal serão revelados dois álbuns;
  • Todos os álbuns ficaram desde o dia 22 agendados no Blogger para surgirem no intervalo de tempo determinado em cada dia.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

As listas de 2008 (parte II)

O listómano revela a agenda de ostentação das suas listas – jardelizou-se e fala dele na 3.ª pessoa do singular.
Como foi referido aqui, até ao último dia do ano serão reveladas as listas dos melhores objectos artísticos em três áreas distintas.
O exibicionista já encontrou as datas para a grande divulgação:

  • 29 de Dezembro – Cinema – Os Melhores Filmes de 2008 (estreados em salas de cinema portuguesas durante o corrente ano, independentemente do seu ano de produção)*;
  • 30 de Dezembro – Literatura – Os Melhores Livros de 2008 (editados, reeditados ou reimpressos durante o ano, em tradução portuguesa no mercado editorial nacional);
  • 31 de Dezembro – Música – Os Melhores Álbuns Musicais de 2008 (editados internacionalmente durante o ano de 2008)**.

Notas:
*Neste momento, foi finalmente ultrapassada a fase da “última triagem”. A lista dos “10+”, organizada por ordem de preferência, está concluída e pronta para publicação. A título de curiosidade, nela constam 5 filmes americanos, 3 franceses, 1 italiano e 1 britânico.
**Na coluna do lado direito, vão surgindo os 10 melhores álbuns de 2008, assim como a hiperligação ao vídeo de cada um dos escolhidos (entre 22 e 30 de Dezembro), por ordem aleatória de escolha. Apenas no dia 31 surgirão, em texto, ordenados por preferência do autor deste blogue apasquinado (cuidado com as confusões linguísticas!)

From Cardiff, Gales (“10+” de 2008)

A partir de hoje, e sempre entre a 1 e as 2 da tarde, este blogue revelará, por ordem perfeitamente aleatória, os 10 melhores álbuns (de originais) musicais de 2008.



“You! Me! Dancing!”
Los Campesinos!Hold On Now, Youngster… (Wichita)

Notas:

  • No final do ano será divulgada a lista dos “Dez Melhores”, organizada por ordem de preferência;
  • No dia de Natal serão revelados dois álbuns;
  • Todos os álbuns irão ficar no dia de hoje agendados no Blogger para surgirem no intervalo de tempo determinado em cada dia.

domingo, 21 de dezembro de 2008

Doutrina: literatura e coração

«A linguagem é um meio glacial, escarrapachado na página. Ao contrário de artistas e atletas, temos a possibilidade de reinventar, rever e reescrever por completo, se assim o quisermos. Antes de o nosso trabalho conhecer a versão em tipo de imprensa, tal como acontece gravado em pedra, mantemos o nosso poder sobre ele. A primeira versão pode ser algo confusa e cansativa, mas as versões seguintes levantarão voo e revelar-se-ão emocionantes e arrebatadoras. Só é preciso ter fé: não se pode escrever a primeira frase até a última frase ter sido escrita.
Só nessa altura saberás para onde vais e por onde andaste.
O romance é o mal para o qual só o romance constitui a cura.
E pela última vez:
Põe no papel tudo o que te vai no coração.» (p. 39)

«Põe no papel tudo o que te vai no coração.
Nunca tenhas vergonha do assunto, nem da paixão que sentes pelo assunto.
» (p. 35)

Joyce Carol Oates, “A Um Jovem Escritor”, A Fé de Um Escritor: Vida, Técnica, Arte (pp. 35-39).
[Cruz Quebrada: Casa das Letras, 1.ª edição, Setembro de 2008, 172 pp.; tradução de Maria João Lourenço; obra original: The Faith of A Writer: Life, Craft, Art; 2003.]

sábado, 20 de dezembro de 2008

A última triagem: Cinema

Basta fazer uma pequena prospecção pelos blogues nacionais, para verificar que alguns já se anteciparam às habituais listas de final do ano.
Por aqui, como tem sido hábito, divulgarei aqueles que, na minha mui íntima opinião pessoal, de acordo com os meus princípios artísticos e técnicos, atendendo sobretudo aos meus valores estéticos, nunca negligenciando as questões éticas ligadas ao fenómeno artístico, se distinguiram nas três áreas que preenchem, quase por completo, a minha sede insaciável por arte: Literatura, Cinema e Música.
No que diz respeito à literatura, as novidades – ou as eventuais surpresas – para quem me lê são escassas, uma vez que desde o início do ano (neste caso, o de 2008) figura na coluna do lado direito deste blogue um conjunto de livros lidos, editados e traduzidos em Portugal durante o corrente ano, organizados por nota de apreciação literária. A tarefa mais árdua consiste em dar-lhes uma ordem e escolher apenas dez entre os que se distribuem pelas categorias “obra-prima” e “muito bom” (6 e 5 estrelas, respectivamente).
No caso da música, o grau de insondabilidade é maior, dadas as curtas referências que a ela faço no decurso do ano, para além de existir uma jukebox sempre activa neste blogue, na medida em que, desde que me conheço, a volatilidade das preferências é extremamente alta: um disco idolatrado durante dez, quinze, vinte dias pode facilmente passar à categoria dos “odiados”, não só devido ao enjoo produzido pela repetição, como também por algum refinamento que a audição aturada produz.
Finalmente, na 7.ª arte, algumas das minhas preferências vão sendo aqui reveladas em textos escritos ao longo do ano – neste caso, filmes estreados em salas de cinema portuguesas em 2008. Apesar de dar um grande destaque aos meus ódios fílmicos depois de, penosamente, ter assistido à sua projecção no grande ecrã, também escrevi textos encomiásticos e de profunda admiração por determinada obra cinematográfica que acabara de assistir: surpresas, novidades e confirmações de talento.

Tendo iniciado a análise metódica de todos os filmes estreados em 2008 em Portugal – processo que foi explicado aqui, uma vez que não mantenho um ficheiro actualizado sobre os filmes que vou vendo e a sua nota de apreciação pessoal, como faço com os livros que vou lendo –, alcancei, por fim, a fase da última triagem, ou seja, consegui, através de algumas filtragens, chegar a uma listagem final… ou melhor duas (atendendo ao critério “produzido/não produzido nos Estados Unidos”).

Por enquanto, de acordo com o trabalho realizado, posso divulgar os seguintes dados:

  • Total de filmes vistos: 69;
  • Filmes anódinos ou indiferentes (sem separação do país de origem de produção): 19;
  • Filmes de produção americana: 34 (Bons ou Muito Bons: 15; Medíocres: 19)
  • Filmes de produção não americana: 16 (Bons ou Muito Bons: 12; Medíocres: 4)

Fase em que me encontro neste momento (a tal que precede a última triagem):

  • Total de filmes passíveis de integrar a lista dos “10 Melhores Filmes de 2008”: 17;
  • Americanos: 9/15;
  • Não Americanos: 8/12 (4 franceses, 2 italianos, 1 britânico, 1 turco/alemão/italiano).

A lista definitiva dos “10+” será apresentada num dos dias do intervalo fechado de 28 a 31 de Dezembro. Até lá, que venha o diabo e escolha… Aceitam-se apostas.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

Há alguém que se desculpa…

…com RICKY

Aceito...

AFI Awards 2008

Por puro esquecimento, não foram aqui despejados os títulos dos dez filmes vencedores dos prémios anuais do American Film Institute (AFI), anunciados no passado domingo, dia 14 de Dezembro.

Ei-los, por ordem alfabética (título em português, caso exista):

  • O Cavaleiro das Trevas, de Christopher Nolan (The Dark Knight)
  • O Estranho Caso de Benjamin Button, de David Fincher (The Curious Case of Benjamin Button)
  • Frost/Nixon, de Ron Howard
  • Frozen River, de Courtney Hunt
  • Gran Torino, de Clint Eastwood
  • Homem de Ferro, de Jon Favreau (Iron Man)
  • Milk, de Gus Van Sant
  • WALL-E, de Andrew Stanton
  • Wendy and Lucy, de Kelly Reichardt
  • The Wrestler, de Darren Aronofsky

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

As listas de 2008

Há dias, contando o tempo que me resta entre relatórios, trabalhos e compras de última hora, cheguei à conclusão que, no habitual exercício de ostentação dos meus filmes preferidos estreados nas salas de cinema portuguesas durante o ano, a lista de 2008 estava praticamente encerrada. Não há tempo, não há vícios...
Depois, com as úteis ferramentas disponíveis à mão de semear, o exercício é simples: Cinema PTGate/Arquivo/Estreias em Portugal/2008; seleccionar a lista de filmes estreados desde Janeiro até hoje e copiá-los para uma folha de cálculo; na célula à frente da que contém o nome de cada filme apor uma nota de classificação; se preferir, acrescente outros critérios – eu acrescentei um segundo critério: “de produção americana/outros”.
Se os ditos “de produção americana” não constituem qualquer tipo de problema no seu acesso, já os filmes produzidos fora da máquina colossal de Hollywood, e de alguns independentes que gravitam em seu torno, são um verdadeiro desespero para o cinéfilo exibicionista, aquele que gosta de ostentar as suas preferências.
O caso paradigmático é o circuito comercial dos filmes de produção europeia: não chegam, pura e simplesmente, às salas de cinema da segunda cidade do país; onde, atendendo à lei das probabilidades, é bem possível que aí subsista e procrie a segunda maior comunidade portuguesa de cinéfilos
.
Chego ao fim da tal lista, ordenada cronologicamente pela data de estreia, e fica de fora uma mão-cheia de filmes que, inevitavelmente, incluí na minha lista de desejos. Por outras palavras, aqueles filmes que, de início e de forma ardente, pretendia assistir à sua projecção em sala de cinema – e isto, claro, desde que não inclua uma aberração de usufruto de serviços prestados por empresas como a Brisa, a TAP, a CP, os Cruzeiros Costa, qualquer meio da frota pesqueira das Caxinas, o Clube de Parapente de Linhares da Beira ou a Panamá Jack (esfoladas com paragem de meditação em Fátima).
A Medeia Filmes não traz os filmes menos comerciais ao Porto, ou quando o faz, já a Fnac ou a Blockbuster fizeram com eles uns milhares de euros com a compra e aluguer, em DVD ou Blu-Ray, ou por hipótese caíram nas firmes e sossegadas teias do olvido. Mas mesmo que os traga, são exibidos num conjunto de quatro salas de cinema incrivelmente anacrónicas, com um sistema de som que se aproxima grotescamente dos saudosos e surdos tempos de Buster Keaton, deixando o século XXI a milhas de distância; com o grande ecrã colocado em cima, no 2.º andar – muito bom para os bolsos já recheados dos ortopedistas portugueses na desempanagem dos belos, flexíveis e curvilíneos pescoços (e apetitosos para Vlad), e nada de menos recomendável para um visão sã e descansada, confirmado até por qualquer oftalmologista de pacotilha; cadeiras rangentes, duras, e verdadeiros aparelhos de tortura por entalação – repito, para que não julguem que me equivoquei no emprego do vocábulo anterior dada a proximidade fonética e de grafia com outro porventura mais desconfortável e até porque invoquei, a despropósito, o mestre dos mestres na nobre arte, o tal de Vlad, disse entalação.
Com que autoridade cinéfila poderei fechar uma lista deste género sem ter visto Hunger, ou Je Veux Voir, ou La Frontière de l’Aube, ou Le Silence de Lorna ou até Lou Reed’s Berlin, entre muitos outros?
O motivo desta excitação não é, como é óbvio, aquilo que um arrolamento de preferências representa, mas a sobranceria cultural com que se trata os rurais da burguesa Invicta.
Cidade onde a Cinemateca Portuguesa vai funcionar em três pólos… à laia de uma “volta ao Porto em filme de culto, antigo ou raro”. Até os que sofrem pela arte dificilmente conseguem engolir uma situação destas, arranjada (é o termo, com toda a sua carga pejorativa) pelo Sr. Ministro engalanado de dialogante, extraído da fina cepa causídica lisboeta.
Com este centralismo voraz, ainda iremos chegar à altura em que, perante as escolhas possíveis de filmes exibidos durante o ano, a minha lista incluirá dez filmes que terão de ser ordenados não por grau íntimo de brilhantismo e de admiração decrescente, mas por grau de atenuação de enjoo e de horror (por mera hipótese académica, eis um exemplo ilustrativo baseado na listagem de filmes estreados este ano em solo luso; em letra pequena, para não ferir susceptibilidades):

  1. P.S., I Love You*, de Richard LaGravenese (ou o meu profundo amor a Sócrates e a tudo o que ele representa)
  2. Alien vs Predador 2, da brilhante dupla fraterna Colin e Greg Strause (Aliens vs Predator – Requiem)
  3. Uns Espartanos do Pior, da mais brilhante dupla não fraterna Jason Friedberg e Aaron Seltzer, (Meet the Spartans)
  4. Capítulo 27 - O Assassinato de John Lennon**, de J.P. Schaefer (Chapter 27)
  5. 10.000 AC, de Roland Emmerich (10,000 BC)
  6. Angel – Encanto e Sedução**, de François Ozon (Angel)
  7. High School Musical 3: Último Ano, de Kenny Ortega (High School Musical 3: Senior Year)
  8. Não Me Toques nas Bolas, de Robert Ben Garant (Balls of Fury)
  9. Saw 5 – A Sucessão, de David Hackl (Saw V)+
  10. Ensaio sobre a Cegueira**, de Fernando Meirelles (Blindness)+

Notas: *Abandonado ao minuto 15 de exibição.
**Heroicamente vistos na íntegra e profundamente detestados.
Quanto aos restantes (sem asterisco solitário ou duplo) não foram sequer vistos. Trata-se, por um lado, de uma questão paranóica de higiene e, por outro, do mais genuíno dos preconceitos fílmicos.
+Por mero acaso, aparecem juntos, mas são semanticamente desconexos.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

Um forte sentimento II

«Há duas coisas que me enchem de horror: o carrasco dentro de mim e o machado por cima de mim.»
Stig Dagerman, A Ilha dos Condenados, p. 7

[Lisboa: Antígona, 1990, 241 pp.; tradução de Miguel Serras Pereira; obra original: De dömdas ö, 1946]

Falta-me tempo (forte sentimento)

E o tempo, afincado na sua recta que o desloca ao infinito, com as suas marcas indeléveis, assinala três anos de divagação por este mundo de paradoxos, estridente, confessional, histérico, fraterno, egoísta, ambicioso e catártico – a blogosfera.
Intermitências. Amuos, júbilos, irritações, partilha... sobretudo, partilha. Começou com o Porque a 17 de Dezembro de 2005, prosseguiu com o In Absentia em 2 de Dezembro de 2007, termina com o Nunca Mais, inaugurado a 30 de Abril de 2008.

A todos (2 leitores e meio), antecipo-me, agradeço a vontade (ou a realização) de celebrar com palavras este momento, sem mais tarde – perdoem-me! – discriminar por escrito a, certamente, extensa lista de bloggers que assinalou a data.

Termino com um dos meus poetas favoritos, cuja morte se assemelha em muito àquela que está na origem da permanente inquietação que me trouxe até aqui; até no tal tempo emparedado por nascimento e morte.

Deixando a métrica e a prosódia de lado, e a minha profunda perplexidade pela quase inexistência de Keats em versão portuguesa, aqui fica um dos meus sonetos preferidos, que ilustra bem o ânimo que por aqui assentou arraiais.

[na sua versão original, trata-se de um soneto inglês, composto por três quartetos e um dístico, com versos em pentâmetro jâmbico – métrica integralmente descurada na versão que se segue, por falta de ciência e paciência do celebrante.]

Quando temo o fim próximo da minha existência
Antes que a pena haja respigado meu cérebro atulhado,
Antes do monte de livros, símbolos e sinais em coerência,
Armazenados como grão maduro em celeiros abonados;
Quando observo o rosto da noite de estrelas manchado
Símbolos gigantescos e nebulosos de um amor-desatino,
E pensar que poderei não viver para haver esboçado
As suas sombras, através da mão mágica do destino;
E quando sinto, ser encantador de um dia radioso,
Que não mais poderei divisar as tuas formas ardentes,
Apreciar o dom das fadas e sentir-me poderoso
De amor irreflectido! – e logo nas vertentes
Deste mundo imenso estou só, vem-me em pensamento,
Até o amor e a fama se afundam no esquecimento.

John Keats (1795-1821), “When I have fears that I may cease to be” (escrito em 1817; 1818) [versão de AMC, 2008].

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Para perguntas idiotas…

…respostas à medida.

No blogue do New York Times, Paper Cuts, “Perguntas Vadias a…

«GC: Neste momento, está a trabalhar em quê?
MP: Em primeiro lugar, no meu falsete à Bee Gees no chuveiro. Depois, na paz mundial – se por “paz* mundial” estivermos a falar em código para um livro cuja história se passa numa vila espanhola, baseada no meu desejo, de há muito, em provar um certo pedaço* de queijo tão efémero e mundialmente famoso que só por uma vez lá foi feito.» (continue a ler no NYT)
[Tradução: AMC]

*Nota: intraduzível em português: palavras homófonas “peace” (paz) e “piece” (pedaço).

GC – Gregory Cowles (Paper Cuts)

MP para Paterniti, Michael Paterniti, o homem que a bordo de um Buick Skylark conduziu através da América profunda o patologista octogenário Thomas Harvey e o cérebro de Albert Einstein, acondicionado num Tupperware colocado na bagageira, para que o segundo, quarenta anos após a morte do cientista, o pudesse entregar à neta do terceiro, Evelyn Einstein, que vivia na Califórnia. Escreveu Ao Volante Com Mr. Albert: Uma Viagem através da América com o Cérebro de Einstein (ed. port. Teorema; Driving Mr. Albert: A Trip Across America with Einstein's Brain, 2000).

Nota: Thomas Stoltz Harvey (1912-2007) foi o homem que autopsiou o corpo de Albert Einstein quando este morreu a 18 de Abril de 1955 no Hospital de Princeton.
No entanto, por amor à ciência, Harvey não só manteve o cérebro na sua posse durante 41 anos, como o seccionou em mais de duzentas partes, nunca apresentando quaisquer resultados das possíveis análises patológicas, e, pasme-se, qual Robin dos Bosques da ciência forense, forneceu amostras do cérebro a quem o houvera solicitado. A acrescentar a tudo isto, há a errância de Harvey por diversos Estados americanos, sempre transportando o cérebro do pai da Teoria da Relatividade; até que, em 1996, regressa a Nova Jérsia e o entrega, definitivamente, ao Chefe de Patologia do Hospital de Princeton, Elliot Krauss para posterior estudo (note-se que todas as conclusões forenses, hoje em dia conhecidas, sobre o cérebro de Einstein são relativamente recentes dado este episódio rocambolesco que durou mais de quatro décadas).

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Se7en – Sete no Mercado de Capitais

[Imagem: ©Jornal de Negócios (15/12/2008); da esquerda para a direita: Jorge Jardim Gonçalves, Paulo Teixeira Pinto, Filipe Pinhal, Alípio Dias, Christopher de Beck, António Castro Henriques, António Rodrigues.]
O regulador reactivo reagiu. Com lentidão e parcimónia, sete, mágico. Espera-se por sangue, momentos difíceis, trágicos.
Não, não se trata dos tercetos dramáticos de Conrad, a que Roth se referia no seu penúltimo romance; Zuckerman rememorando a Linha de Sombra (The Shadow Line, 1917). E, então, que se cite a obra do excelso viajante polaco-britânico Józef Teodor:

«Só os jovens passam por momentos assim. Não quero dizer os novos demais; esses não conhecem, para falar verdade, momentos propriamente difíceis. É dado à adolescência o privilégio de viver antecipadamente os dias da sua vida na plena continuidade admirável de uma esperança» (p. 13)

E prossegue:
«O tempo também continua para diante – até que avistamos, mergulhando mais fundo, uma linha de sombra que nos previne de que o país da adolescência terá igualmente que ser deixado para trás.» (p. 14)
[ed. port. Relógio D’Água, 1984; tradução de Maria Teresa Sá e Miguel Serras Pereira.]
Mas aqui a Linha de Sombra é mais difusa, longe da costa, offshore… longe do coração e da supervisão.
(Já nem se fala sequer dos empréstimos concedidos a familiares e amigos ou a comparsas noutras empresas sem garantias…)

Por outro lado, será difícil invocar, a não ser por recurso a um trocadilho de baixo nível literário (ver título), a obra cinematográfica de Fincher, ou o épico divino de Dante, guiado por Virgílio, e a visão dos apocalípticos círculos do Inferno, porque a amálgama pecadora não permite uma discriminação e posterior classificação dos vícios: não se trata, apenas e só, de avareza. É muito mais que isso, é toda uma cultura que se foi enraizando pelas condições meteorológicas favoráveis: impunidade perene a soprar de todos os quadrantes, até mesmo inabalável por um furacão qualquer… sistema inafrontável, eterno, massacrante, iníquo.

(Os Estados Unidos, esse conglomerado gigante e proselítico do capitalismo, o império de todos os males, o paraíso da ganância e dos miseráveis à laia de Hugo, vai dando exemplos ao mundo – embora, tenha de convir, ainda bem longe da perfeição – das reais consequências dos homólogos perpetradores de crimes económicos e financeiros: Enron, WorldCom & C.ª)

Por cá, paradoxalmente, continua a ser muita parra para um país produtor de vinhos de qualidade e de um ímpar licoroso, suave e generoso, do Porto, bem na linha da costa.

Satellite Awards 2008

Mais uma jantarada, álcool (e, sem querer ser má-língua – não, não resultou nada com nariz –, muita coca a correr pelas notas de dólar nos toilets dos famosos do Grand Salon do InterContinental Hotel de Los Angeles), mais prémios para o cinema, mais uma lista que é literalmente despejada neste blogue – se exceptuarmos a preocupação deste que vos escreve para encontrar os títulos em português dos filmes a concurso.

Vencedores da noite: Slumdog Millionaire de Danny Boyle (3 prémios), que parece haver perdido o seu par, a indiana Loveleen Tandan, e Austrália (Australia*) de Baz Luhrmann (3 prémios em categorias técnicas); o excelente Gomorra de Mateo Garrone, baseado no livro do autor ameaçado de morte Roberto Saviano, continua a contabilizar prémios; assim como Wall-E na animação, sem rival à altura.

[*de notar a importância desta destrinça proparoxítona para a sobrevivência da língua portuguesa]

Eis, então, sem mais delongas e solilóquios, os vencedores da 13.ª edição dos Prémios Satellite 2008, atribuídos pela International Press Academy, sediada em Beverly Hills, Califórnia, nas diferentes categorias – Cinema (14 das 22 categorias):

  • Melhor Filme (Drama): Slumdog Millionaire, de Danny Boyle
  • Melhor Realizador: Danny Boyle, por Slumdog Millionaire
  • Melhor Argumento Adaptado: Peter Morgan, por Frost/Nixon (de Ron Howard)
  • Melhor Argumento Original: Thomas McCarthy, por The Visitor (de Thomas McCarthy)
  • Melhor Actriz (Drama): Angelina Jolie, em A Troca (Changeling; de Clint Eastwood)
  • Melhor Actriz Secundária: Rosemarie DeWitt, em O Casamento de Rachel (Rachel Getting Married; de Jonathan Demme)
  • Melhor Actor (Drama): Richard Jenkins, em The Visitor (de Thomas McCarthy)
  • Melhor Actor Secundário: Michael Shannon, em Revolutionary Road (de Sam Mendes)
  • Melhor Filme (Comédia ou Musical): Um Dia de Cada Vez (Happy-Go-Lucky), de Mike Leigh
  • Melhor Actriz (Comédia ou Musical): Sally Hawkins, em Um Dia de Cada Vez (Happy-Go-Lucky; de Mike Leigh)
  • Melhor Actor (Comédia ou Musical): Ricky Gervais, em Ghost Town (de David Koepp)
  • Melhor Filme (Língua Estrangeira): Gomorra (Gomorrah, título em inglês), de Matteo GarroneItália
  • Melhor Filme (Animação): Wall-E, de Andrew Stanton
  • Melhor Banda Sonora Original: A.R. Rahman, por Slumdog Millionaire (de Danny Boyle e Loveleen Tandan)

Nota: o filme dos irmãos Coen, Este País Não É para Velhos (No Country for Old Men), baseado no romance homónimo de Cormac McCarthy, continua a facturar. Desta feita ganhou o Satellite Award para o “Melhor DVD” (no seu conjunto); enquanto Homem de Ferro (Iron Man, de Jon Favreau) ganhou pelos melhores extras em DVD. Já Francis Ford Coppola – a quem ninguém atribuiu importância pelo seu excelente filme nietzschiano Uma Segunda Juventude (Youth Without Youth), baseado num romance do escritor e filósofo romeno Mircea Eliade – ganhou na categoria de “Melhor DVD Clássico” pelo pack da versão restaurada da trilogia O Padrinho (The Godfather).

domingo, 14 de dezembro de 2008

Ficção

«Mas não será o nosso coeficiente de dor suficientemente chocante sem a amplificação ficcional, sem dar às coisas uma intensidade que na vida real é efémera e por vezes até invisível? Para alguns, não. Para outros, poucos, muito poucos, essa amplificação, que se desenvolve hesitante a partir do nada, constitui a única segurança, e a vida não vivida, a vida conjecturada, minuciosamente passada ao papel, é aquela que acaba por ser a mais importante.»
Philip Roth, O Fantasma Sai de Cena, p. 145
[Lisboa: Dom Quixote, 1.ª edição, Novembro de 2008, 285 pp.; tradução de Francisco Agarez; obra original: Exit Ghost, 2007]

sábado, 13 de dezembro de 2008

14.ª volta

(A) A 6 de Novembro de 2006, os dez excelsos membros da Academia Goncourt reunidos ao jantar no habitual primeiro piso do restaurante Drouant, na rua Gaillon em Paris, decidiram atribuir prestigiado Prix Goncourt ao romance As Benevolentes (Les Bienveillantes) do escritor norte-americano Jonathan Littell, por unanimidade e aclamação. Aliás, as declarações do júri posteriores ao anúncio podem sintetizar-se nas palavras enfáticas do autor espanhol Jorge Semprún (um dos dez membros): «um acontecimento assombroso»; «o livro acontecimento do último meio século»; ou «Dentro de uma ou duas gerações, os jovens saberão o que se passou em meados do século XX graças a um romance com este.» Concordo, e quando o li, desacompanhado de outros livros que pudessem fazer divergir a minha mente focada para aquele objecto, também entrei na espiral de hipérboles (a geometria do exagero encomiástico), colocando-o de imediato na lista dos meus dez livros de sempre (ainda tenho de ver qual foi o destronado…)

(B) A 5 de Novembro de 2007, o mesmo júri escolhia para vencedor do prestigiado prémio das letras francesas ou francófonas, o romance do autor francês Gilles Leroy (n. 1958), Alabama Song. Segundo noticiou o Público na altura, o vencedor apenas foi eleito numa 14.ª volta de votações à mesa do Drouant, em acesa disputa com o romance de Olivier Adam, A l’abri de rien.

O que distingue ambos os vencedores?
Tudo. A começar pela nacionalidade e a acabar na volumetria biblíaca (conceito construido agora a preceito): nas edições portuguesas, (A), editado pela Dom Quixote, dispõe de 895 páginas, totalmente preenchidas por uma letra potencialmente geradora de problemas do foro oftalmológico; (B), editado pela Esfera do Caos, estende-se por 172 páginas, tamanho de letra normal, algumas páginas em branco e bastantes espaços entre parágrafos, e apenas menos centímetro e meio de comprimento relativamente a (A) (22 contra 23,5 cm; apresentam a mesma largura: 15 cm). Embora, os junte o instrumento História – embora em dimensões diferentes, o período mais negro da historiografia do século XX, no primeiro caso, e o negrume de um casamento atribulado e falhado, no seio do voraz mundo literário, de um dos casais mais famosos nos anos vintes do mesmo século: Zelda e Francis Scott Fitzgerald –, a pulsão especulativo-melodramática acentua-se exponencialmente no segundo. Se em As Benevolentes a história enquadra um nazi empedernido que, para sair incólume, se movimenta silenciosamente e sem piedade sobre os escombros da barbárie; em Alabama Song, a narrativa é-nos contada na primeira pessoa por uma vítima, Zelda, onde a barbárie se transforma num putativo espezinhamento psíquico infligido pelo marido, Scott, na sua busca da fama e da glória no meio mundano das letras norte-americanas de principio de século.

Fim de comparação. Quiçá um exercício potencialmente desonesto quando falamos de duas obras literárias distintas, com pretensões díspares, que, por fortuna ou por azar, depende da perspectiva, foram unidas pela atribuição consecutiva do prémio literário, concedido a uma obra de ficção, mais importante no pentágono (geográfico) francês.

Alabama Song é uma obra de ficção que parte de acontecimentos verídicos, cujo desenvolvimento retrata, na voz ficcional de Zelda Sayre (futuramente apelidada de Fitzgerald), em pouco mais de centena e meia de páginas, a vida (a começar pela sua infância em Montgomery, no Estado do Alabama) e a morte de uma das mais conhecidas, badaladas e vituperadas mulheres entre os escritores norte-americanos de “A Geração Perdida”.
Zelda (1900-1948), filha de um austero juiz e presidente do Supremo Tribunal do Alabama, neta e sobrinha-neta de proeminentes senadores, é a mais nova de seis filhos de um casal abastado tipicamente sulista, que respirava o miasma que, no virar do século, persistia ainda no ar, emanado da relativamente recente guerra da Secessão e das práticas de escravidão sulistas nas grandes plantações de tabaco ou de algodão. A história real parte, então, de uma sociedade onde se legitima e pratica às claras a segregação racial – trocadilho involuntário –, fortemente machista e puritana, que não se adequa com as eternas rebeldia e juventude de Zelda e da sua amiga e companheira inseperável de infância Tallulah Bankhead, num futuro próximo famosa e escandalosa estrela de Hollywood e dos palcos, em concomitância com os bistros e leitos, sem discriminação de género (diz-se), de gente famosa.
Em 1918, a sua vida dá uma volta completa. Zelda conhece num baile do Country Club local o Tenente Scott Fitzgerald (1896-1940) «tem vinte um anos e possui já muitos talentos. […] escreve novelas que a imprensa irá publicar em breve, tem a certeza; é asseado e elegante, sabe francês – foi graças ao conhecimento da língua francesa que foi promovido a Tenente da infantaria depois das aulas em Princeton, onde os francófonos gozam de um privilégio que os catapulta a oficiais» (p. 18).
Scott foi colega de Edmund Wilson e de John Peale Bishop em Princeton, com quem se introduz nas lides literárias antes do alistamento, e que o irão ajudar no início da sua carreira em tempos de paz. Também eles serão vítimas, revela o autor, da fúria de Zelda.
Segundo reza a história e de acordo com uma promessa arrebatada só ao alcance de um espírito lírico, Scott só aceitaria casar-se com Zelda quando se tornasse num escritor famoso – visionado por ele, um peralvilho narcísico, como uma inevitabilidade. Nos meses em que se refugia na estridência de Nova Iorque, Scott escreve The Romantic Egotist, que é sucessivamente recusado por uma miríade de editoras: «Ele chamou-lhe “O Egotista Romântico”, um título de não entusiasmar ninguém […] Claro que ele não ouve os meus reparos: só lhe interessam os elogios enamorados de Winston [Edmund Wilson] e Bishop, os seus lambe-botas de Princeton. Eles também querem escrever. O que é que todos eles têm, estes jovens tipos, para desejarem ser escritores? Contentem-se em ser ricos e célebres!» (pp. 32-33). Mais tarde, Scott, derrotado e endividado, regressa às cidades gémeas (em concreto St. Paul) e o romance é rescrito e acrescentado, e a Scribner resolve finalmente publicar o manuscrito sob o título This Side of Paradise (ed. port. Relógio D’Água; Este Lado do Paraíso).
Zelda abandona o Alabama e casa com Scott Fitzgerald na Catedral de São Patrício em Nova Iorque.
Aqui começam os tormentos do casal, agravados pelo nascimento da sua única filha em 1921, Patricia Frances, e o fenómeno da errância boémia na vida de Scott, destilando o seu «hálito fétido» (álcool) entre Paris, a Riviera francesa, Roma, Capri.
Entretanto, Zelda apaixona-se por um jovem aviador francês Edouard Jozan, com quem mantém um tórrido romance e concebe um ficcionado filho que Scott mandou desembaraçar. O romance termina ao fim de um mês, com o famoso encarceramento de Zelda na sua própria casa, imposto pelo marido e guardada por um casal de campónios assaz soturno.
Scott mergulha na boémia francesa, embrenha-se nas tertúlias etílicas em casa de Gertrude Stein, conhece Hemingway, detestado por Zelda e que, no entanto, surge no romance de Leroy com o nome fictício “Lewis O’Connor”, facilmente descortinável por qualquer pessoa que se interesse minimamente por literatura: «Depois este monte de banha entrou na nossa vida. O amador de touradas e de sensações fortes. O escritor mais puta e a glória ascendente do nosso país. Não era assim tão gordo e tão célebre na altura. Não tinha sequer publicado nada. […] Fiquei imediatamente chocada com a arrogância de Lewis, com o convencimento que só os imbecis e os falsos artistas têm de si mesmos. Ainda mal tínhamos apertado a mão, tive vontade de o esbofetear.» (p. 73)
Insistindo neste ponto, que as próprias biografias registam – em especial a de Nancy Milford, Zelda (1970) –, o do ódio visceral de Zelda por Ernest, Leroy estende a sua narrativa zeldiana adjectivando profusamente o novo companheiro literário do marido. Depois de aflorar a possibilidade de uma relação homossexual entre ambos e de presumir que aquele gostaria de «roubar a glória de Scott», zelda pela mão de Gilles disserta com erudição sobre o que aquele escroto poderá esconder:
«Chateia-nos com as suas descrições sanguinolentas. O plumitivo gosta de apanhar o touro pelos colhões… Isso deve impressioná-lo, ou excitá-lo, ele que os não tem. A menos que prefira os colhões do toureiro, que apesar de tudo são os que se vêem melhor, ensacados nos seus calções apertados, ouro e rosa.»
E completa com uma metáfora luminosa: «O seu olhar não é apenas um olhar: é uma nuvem de borboletas que se abatem, cegas, sobre a braguilha de Scott. Não, não estou demente. Não invento. Enuncio.» (p. 74)
E a história desenvolve-se em torno do alcoolismo crescente de Scott e da sua progressiva decadência, do afastamento da filha que este inflige e impõe à mãe, dos diversos internamentos compulsivos de Zelda em clínicas psiquiátricas, da usurpação de material escrito por Zelda que é posteriormente inserido nos romances do autor, assim como o uso e abuso de material biográfico, episódios da vida privada que surgem nos romances encobertos pelos nomes dos personagens, mas suficientemente visíveis e inteligíveis como verdadeiras cenas da vida conjugal para os demais.

Entrecortada por analepses e prolepses, entre os anos 20 e os anos do fim, os 40 (Scott morre em 1940, quatro dias antes do dia de Natal; Zelda morre à meia-noite em ponto do dia 10 de Março de 1948 durante um incêndio num asilo psiquiátrico na Carolina do Norte, onde se encontrava internada desde 1943), Leroy procura demonstrar-nos a espiral de loucura que se abateu sobre um casal em busca das luzes da ribalta, do luxo e do glamour das figuras da alta sociedade americana e europeia, cosmopolita e frívola. Ele filho de um falido vendedor de sabões do Minnesota, ela a «Rainha dos Labregos» (p. 32) do Alabama, «filha do juiz, neta de um senador e de um governador», engolidos pelo vórtice mediático dos famosos, esquecidos no fim das suas vidas: «Scott é o homem redimido do seu pai – ele brilhou tanto – ao mesmo tempo que o filho relapso do seu pai: ele fracassou tanto!» (p. 151)

É curta de ideias e parcial esta versão semi-ficcionada da vida de Zelda Sayre, de onde apenas parece sobressair, dada a ênfase do próprio autor, a qualidade de vítima impotente de uma mulher nas garras de um mundo machista e às mãos de uma subclasse inconsequente, hedonista e materialista, arrastada de forma involuntária e impiedosa para a inevitável desgraça.
Nas suas notas finais, Leroy adverte que deve ler-se «Alabama Song como um romance e não como uma biografia de Zelda Fitzgerald enquanto pessoa histórica.» (p. 171). E de seguida enumera alguns dos momentos fortes da obra, distinguindo a realidade da ficção. Descansei, não por qualquer prurido de laivos homofóbicos ou por alguma questão de higiene ligada à prática pura e simples do acto, mas por ser incapaz de tomar como possível a situação, dada a animosidade que historicamente envolveu ambos os autores, quando Leroy diz que o burlesco episódio do Hotel George V em Paris foi inventado. Ou seja, quando Zelda entra no quarto do referido hotel e descobre O’Connor (Hemingway) ajoelhado com a cabeça entre as coxas do marido, ao mesmo tempo que um projector de filmes exibia pornografia gay… as consequências materiais e físicas de tamanho flagrante engrandecem a risibilidade do episódio – só lido.

Por fim, uma pequena referência à tradução portuguesa. Uma vez mais, pobre (como muitas, ou a grande maioria, em Portugal), gaguejante, imprecisa, que irrita pela necessidade constante de releitura. Atente-se, por exemplo, neste parágrafo inteiro (entre muitos outros, mas que a preguiça aliada à minha tão típica mania de não profanação dos livros com anotações de qualquer tipo exigem um esforço de memória assinalável para os localizar): «Os homens franceses, não é que sejam mais belos, longe disso. É precisamente porque nos desejam: para eles, uma mulher que cede não é uma puta mas uma rainha.» (p. 57); ou a construção da frase: «É tão horrendo, nesse momento, o que sofro para me separar dele.» (p. 35); ou ainda «Repelia-me do próprio coração do meu amor, este coração que formavam os nossos dois corpos nus enlaçados na areia – e era como se ele, com um pontapé no rabo, me tivesse metido no barco de volta a Nova Iorque.» (p. 61); and so on…

Classificação: *** (A Ler)

Referência bibliográfica:
Gilles Leroy,
Alabama Song. Lisboa: Esfera do Caos, 1.ª edição, Novembro de 2008, 172 pp. (tradução de José Júdice e José Alberto Quaresma; obra original: Alabama Song, 2007).


Tenho de terminar com o portentoso epitáfio gravado na pedra tumular de Scott e Zelda, em Rockville, Maryland. Corresponde ao último parágrafo de um dos melhores romances de sempre na literatura universal (dificilmente destronável dos lugares cimeiros na minha lista pessoal das dez melhores obras de ficção de sempre):
«Assim vamos teimando, proas contra a corrente, incessantemente cortando águas, a caminho do passado.»
F. Scott Fitzgerald, O Grande Gatsby, p. 202
[Lisboa: Presença, 5.ª edição, Julho de 1997; 202 pp.; tradução de José Rodrigues Miguéis; obra original: The Great Gatsby, 1925.]

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

Ainda os Globos de Ouro 2009

Por esquecimento, desleixo ou resquícios do abalo emocional pós-impacto, ontem (hoje) não referi as nomeações da HFPA para duas categorias fundamentais:

Melhor Filme em Língua Estrangeira

  • Der Baader Meinhof Komplex, de Uli Edel (The Baader Meinhof Complex) – Alemanha
  • Gomorra, de Matteo Garrone (Gomorrah) – Itália
  • Il y a longtemps que je t’aime, de Philippe Claudel (I've Loved You So Long) – França
  • Maria Larssons eviga ögonblick, de Jan Troell (Everlasting Moments) – Suécia/Dinamarca
  • A Valsa com Bashir, de Ari Folman (Vals im Bashir/Waltz with Bashir) – Israel

Melhor Filme de Animação

  • Bolt, de Byron Howard e Chris Williams
  • O Panda do Kung Fu (Kung Fu Panda), de Mark Osborne e John Stevenson
  • WALL-E, de Andrew Stanton

Listas para reflexão crítica até ao dia 11 de Janeiro.

Globos de Ouro 2009

A associação de imprensa estrangeira em Hollywood, Hollywood Foreign Press Association (HFPA), anunciou hoje as nomeações para os Globos de Ouro 2009 (Golden Globe Awards) repartidos por 25 categorias, distribuídas entre o cinema e a televisão, cuja 66.ª edição da gala de atribuição dos cobiçados prémios dourados ocorrerá no próximo dia 11 de Janeiro, pelas 20 horas (EST) – 1 da manhã do dia 12 de Janeiro (GMT) –, no habitual jantar no The Beverly Hilton.

Eis os 9 filmes com 3 ou mais nomeações:

Dúvida / Doubt (5 nomeações)
Actor Secundário – Philip Seymour Hoffman
Actriz – Meryl Streep
Actriz Secundária (2) – Amy Adams / Viola Davis
Argumento – John Patrick Shanley
(nota: filme realizado por John Patrick Shanley)

O Estranho Caso de Benjamin Button / The Curious Case of Benjamin Button (5 nomeações)
Actor – Brad Pitt
Argumento – Eric Roth
Banda Sonora Original – Alexandre Desplat
Filme
Realizador – David Fincher

Frost/Nixon (5 nomeações)
Actor – Frank Langella
Argumento – Peter Morgan
Banda Sonora Original – Hans Zimmer
Filme
Realizador – Ron Howard

The Reader (4 nomeações)
Actriz Secundária – Kate Winslet
Argumento – David Hare
Filme
Realizador – Stephen Daldry

Revolutionary Road (4 nomeações)
Actor – Leonardo DiCaprio
Actriz – Kate Winslet
Filme
Realizador – Sam Mendes

Slumdog Millionaire (4 nomeações)
Argumento – Simon Beaufoy
Banda Sonora Original – A. R. Rahman
Filme
Realizador – Danny Boyle

Vicky Cristina Barcelona (4 nomeações)
Actor (musical ou comédia) – Javier Bardem
Actriz (musical ou comédia) – Rebecca Hall
Actriz Secundária (musical ou comédia) – Penélope Cruz
Filme (musical ou comédia)
(nota: filme realizado por Woody Allen)

Em Bruges / In Bruges (3 nomeações)
Actor (musical ou comédia) (2) – Colin Farrell / Brendan Gleeson
Filme (musical ou comédia)
(nota: filme realizado por Martin McDonagh)

The Wrestler (3 nomeações)
Actor – Mickey Rourke
Actriz Secundária – Marisa Tomei
Canção – Bruce Springsteen, “The Wrestler”
(nota: filme realizado por Darren Aronofsky)

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Post Scriptum: “Quem anda à chuva molha-se” diz o povo e se modificarmos o triste adágio com o potencialmente lúgubre “Quem anda à chuva numa correria, com a cabeça em mil assuntos e deprimido estampa-se”, apenas traz de madrugada alguma da informação que havia prometido despejaria aqui neste lugar em cima do acontecimento.

Haja saúde e inteireza, não só espiritual.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

O centenário é meu conterrâneo

(até nascemos em freguesias vizinhas.)

Manoel de Oliveira

MANOEL DE OLIVEIRA
100 anos

«Os meus filmes, de científicos, não têm nada, a não ser as máquinas de filmar e a película. Estão muito mais inseridos num campo poético do que em qualquer outra coisa.»
Manoel de Oliveira, in Público, 15/Dezembro/1992.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

NYFCC Awards 2008

Dando continuidade à política deste blogue de divulgação dos prémios mais importantes atribuídos a obras cinematográficas, que normalmente ocorre entre o fim de cada ano civil (ano de produção do filme) e os dois primeiros meses do ano seguinte, seria incontornável não referir os eleitos da associação de críticos de cinema de publicações sediadas em Nova Iorque, ou seja, os prémios anuais da New York Film Critics Circle, que inclui críticos de publicações tão emblemáticas como o The New York Times, The Wall Street Journal, as revistas The New Yorker, The New York Magazine, Esquire, Time, The Nation, Newsweek e até as publicações electrónicas como a Slate ou a Salon.

Dos prémios, sem grandes novidades relativamente aos seus predecessores, o destaque vai, em primeiro lugar para o grande vencedor, Milk de Gus Van Sant (3 prémios). Filme que narra a história verídica de Harvey Milk (1930-1978), o primeiro político assumidamente gay a ser eleito para um cargo público no Estado da Califórnia, assassinado um ano depois.

Outro dos destaques vai para o prémio para o melhor argumento atribuído a Jenny Lumet, filha do Sidney Lumet – reforçando a máxima popular do “filho de peixe…” –, escrito de raiz para o último filme de Jonathan Demme, com estreia marcada em Portugal para Fevereiro.
De estranhar o desfasamento cronológico do vencedor na categoria de melhor filme estrangeiro, do romeno Cristian Mungiu (filme de 2007), vencedor da Palma de Ouro em Cannes em 2007, nomeado para o Globo de Ouro do ano passado.
[Pequena nota de congratulação: nada de morcegos em collants e premiação dos choques toxicológicos…]

Sem mais delongas, os vencedores de 2008 (excluídas duas ou três categorias menos mediáticas) são:

  • Melhor Filme: Milk, de Gus Van Sant;
  • Melhor Realizador: Mike Leigh, por Happy-Go-Lucky;
  • Melhor Actor: Sean Penn, em Milk (Gus Van Sant);
  • Melhor Actriz: Sally Hawkins, em Happy-Go-Lucky (de Mike Leigh);
  • Melhor Argumento: Jenny Lumet, por O Casamento de Rachel (Rachel Getting Married; de Jonathan Demme);
  • Melhor Filme Estrangeiro: 4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias (4 luni, 3 saptamâni si 2 zile/4 Months, 3 Weeks and 2 Days), de Cristian Mungiu – Roménia;
  • Melhor Filme de Animação: WALL-E, de Andrew Stanton;
  • Melhor Actor Secundário: Josh Brolin, em Milk (de Gus Van Sant);
  • Melhor Actriz Secundária: Penélope Cruz, em Vicky Cristina Barcelona (de Woody Allen);
  • Melhor Primeiro Filme: Frozen River, de Courtney Hunt.

Nota: com os anúncios para breve dos Satellite Awards e mais tarde (previsto para a 1.ª semana de Janeiro) dos prémios da prestigiada National Society of Film Critics, para além dos prémios atribuídos pelas diversas associações de classe aos seus pares (actores, argumentistas, directores de fotografia, editores/montagem e realizadores), focar-nos-emos, a título informativo e para evitar a dispersão (e, porque não, o período de servidão deste blogger), nos Globos de Ouro, BAFTA e Óscares (por ordem cronológica da data de nomeação e de atribuição dos prémios, que termina no dia 22 de Fevereiro no Kodak Theatre em Hollywood com a 81.ª sessão de entrega dos Óscares da Academia das Artes e das Ciências Cinematográficas de Hollywood.)

LAFCA Awards 2008

A associação de críticos de cinema sediados em Los Angeles, Los Angeles Film Critics Association (LAFCA), anunciou há pouco os vencedores da 34.ª edição anual (edição de 2008) dos seus prémios de cinema em diferentes categorias técnicas e artísticas a concurso.
Algumas surpresas: como a do título vencedor de melhor filme, a nomeação de Penélope Cruz não só pela sua interpretação no filme de Woody Allen, como também na adaptação cinematográfica do romance Animal Moribundo (em filme, Elegia) de Philip Roth; e uma enorme frustração por ver que os meus receios têm, cada vez mais, alguma razão de ser, devido às várias nomeações do filme onde pulula, vacilante, o famoso morcego dos comics do menino-prodígio Chris Nolan e a sua (e deles, produtores e estúdios) poderosa máquina mediática pós-Ledger de aproveitamento da miséria num filme medíocre (ler aqui a minha opinião sobre o filme). E se mais não bastasse, nada de Fincher… movie geeks! (insultos, ainda em versão ultra-softcore)

Eis os vencedores nas categorias principais:

  • Melhor Filme: Wall-E (de Andrew Stanton) / 2.º lugar: O Cavaleiro das Trevas (The Dark Knight, de Christopher Nolan);
  • Melhor Realizador: Danny Boyle por Slumdog Millionaire / 2.º lugar: Christopher Nolan por O Cavaleiro das Trevas (The Dark Knight);
  • Melhor Actor: Sean Penn em Milk (de Gus Van Sant) / 2.º lugar: Mickey Rourke em The Wrestler (de Darren Aronofsky);
  • Melhor Actriz: Sally Hawkins em Happy-Go-Lucky (de Mike Leigh) / 2.º lugar: Melissa Leo em Frozen River (de Courtney Hunt);
  • Melhor Actor Secundário: Heath Ledger em O Cavaleiro das Trevas (The Dark Knight, de Christopher Nolan) / 2.º lugar: Eddie Marsan em Happy-Go-Lucky (de Mike Leigh);
  • Melhor Actriz secundária: Penélope Cruz em Vicky Cristina Barcelona (de Woody Allen) e Elegia (Elegy, de Isabel Coixet) / 2.º lugar: Viola Davis em Dúvida (Doubt, de John Patrick Shanley);
  • Melhor Argumento: Mike Leigh por Happy-Go-Lucky / 2.º lugar: Charlie Kaufman por Synecdoche, New York;
  • Melhor Filme Estrangeiro: Natureza Morta (Still Life/Sanxia haoren de Zhang Ke Jia) – China / 2.º lugar: A Turma (The Class/Entre les murs de Laurent Cantet) – França;
  • Melhor Filme de Animação: A Valsa com Bashir (Waltz with Bashir, de Ari Folman);
  • Prémio Melhor Estreia (New Generation Award): Steve McQueen, por Fome (Hunger);
  • Prémio de Carreira (Career Achievement Award): John Calley

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Alçada II (o lado feminino)

Numa breve crónica, que integra a sua derradeira publicação, pelo menos em vida, António Alçada Baptista presta um curto tributo aos destemor e atrevimento da escritora francesa George Sand (1804-1876) na defesa dos valores femininos e na luta da igualdade de género na marcadamente belicista sociedade francesa do século XIX, política, revolucionária e conspirativa – por consequência machista.
Alçada parte de uma asserção de Jules Michelet em que o eminente historiador enunciava: «eu tenho em mim o homem e a mulher», o masculino e o feminino (le mâle et la femelle), terminando o curto texto com três parágrafos que definem de uma forma nítida o seu pensamento, cuja raiz partiu anteontem aos 81 anos, deixando, porém, as sementes que germinaram (e ainda vão germinado) a reflexão da condição da mulher na sociedade Ocidental:

«Mas tudo isto se passou há mais de cento e cinquenta anos. Não se pode imaginar a força e a construção interior de uma mulher desse tempo que a fez enfrentar com tanta força e audácia o mundo masculino e abrir um pouco da muralha que impedia o acesso da mulher à própria entrada na história.
»Quando foi da sua morte [1876], Flaubert, numa carta a Tourgueniev [sic; o autor usou a transliteração francesa], escreveu: “No seu enterro, chorei como uma criança. Era preciso conhecê-la como eu a conheci para saber tudo aquilo que havia de feminino neste grande homem.”
»Talvez a frase de Flaubert esconda esta realidade de que não tomámos consciência. Se temos em nós o masculino e o feminino, como dizia Michelet, George Sand foi capaz de pôr ao seu serviço valores ditos “masculinos” – a audácia e a coragem – para impor na sociedade a presença “feminina” que tem que ver com o complexo mundo dos afectos, de que ainda estamos privados. As mulheres podem ser corajosas sem deixarem de ser mulheres.»
António Alçada Baptista, “George Sand”, A Cor dos Dias – Memórias e Peregrinações, pp. 162-163.
[Lisboa: Presença, 2.ª edição, Dezembro de 2003, 223 pp.]

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Alçada

Não li muitos livros de Alçada Baptista, embora tenha lido alguns textos, sobretudo ensaios e crónicas do tempo. Porém, o seu nome ficará indelevelmente marcado na minha memória de bibliómano pelo seu romance de 1994, não lido há muitos anos, O Riso de Deus.
Recordo-me sobretudo de uma narrativa translúcida, sem atavios, directa, que a certa altura, pela delicadeza do tema central e a forma descomplexada como é retratado – o amor sem barreiras ou limites, como um sentimento avassalador que não pode conhecer fronteiras estatuídas pelo homem – nos atinge de uma forma brutal, como se de um verdadeiro murro no estômago se tratasse.
Não li muito mais. Dos seus escassos romances, li o Tecido do Outono (o seu último romance), para além do acima mencionado. Li, contudo (com vontade de reler), o seu último livro, uma colectânea de textos A Cor dos dias: Memórias e Peregrinações, que anda à volta da suas inquietações ensaísticas do início de carreira: a religião, a política, o relacionamento com o Estado Novo e as suas figuras, as mulheres… sempre as mulheres. A propósito da sua publicação, em entrevista dada ao JL, pressagia (ou tratou-se apenas de, como dizia “A Voz”, vivi uma vida em cheio, e termino como comecei): «Acho que este é o meu último livro.»
Para memória futura deixo ficar os três primeiros parágrafos do deslumbrante O Riso de Deus (que em parte, já havia referido aqui em Agosto de 2006). Livro dedicado a Edgar Morin, e a Zélia e Jorge Amado. Ao primeiro por causa da sua amizade, aos segundos porque «souberam descobrir que o afecto é o nosso destino.» [destaque meu]
Com epígrafes de Pessoa e Borges e:

«O homem pensa, Deus ri.»
Provérbio judeu

António Alçada Baptista

(Covilhã, 29 de Janeiro de 1927 – Lisboa, 7 de Dezembro de 2008)

«A letra de Deus nem sempre é decifrável e ninguém conhece a língua em que escreveu a alma humana. Às vezes, a gente julga que as palavras chegam para esclarecer a vida mas, hoje, estou certo de que muitas coisas permanecem por detrás de palavras que ainda não foram feitas e outras, por detrás de palavras de que perdemos o uso.
Quando penso na minha vida e nas circunstâncias atribuladas do tempo que me foi dado viver, pressinto o que será a incomodidade dum bêbedo no dia seguinte ao da sua bebedeira, porque nos encharcámos de razão e esperança terrena e tudo ficou aquém de todas as promessas: tudo mais pequenino e mais cruel. Pior: é uma sensação misturada da ressaca do bêbedo com uma certa forma de orfandade: um desamparo perante a perda da herança prometida no texto fundador que fixou o projecto da nossa condição, como se, ao decretar-se a morte de Deus, ele tivesse levado consigo todos os seus bens. É isso que me leva a olhar para tudo o que vivi como se fosse um ensaio falhado duma harmonia possível.
Tudo me leva a crer que as marcações que nos deram para o desempenho da vida passam ao lado do caminho por onde os nossos afectos poderiam fluir conforme o que está inscrito no mapa oculto do ser humano. Pressinto que continuamos fora do essencial e que as razões das circunstâncias – que, muitas vezes, são poderosas e reais – só servem para nos afastar dos enigmas que estão à frente das coisas e que nos caberia decifrar. Porque, algumas vezes, até parece que a simplicidade emana do andamento da vida e que bastaria um pequeno gesto de espírito para passarmos para o lado de lá de tantas incomodidades que nos fazem viver como se tivéssemos calçado dois números abaixo da forma da alma.
»
António Alçada Baptista, O Riso de Deus, p. 13
[Lisboa: Presença, 16.ª edição, Novembro de 2005, 206 pp.]

domingo, 7 de dezembro de 2008

La sangre

«Nesse dia, um cavalo foi sacrificado a fim de que a barbárie recebesse o seu tributo. E a barbárie foi duplamente lisonjeada: após a interminável agonia do cavalo arrastado por uma carroça pela areia da vergonha, ela teve direito à execução do touro criminoso cujo sangue não borbulhou menos em longas golfadas generosas. Um relinchava e debatia-se, os seus olhos aterrorizados revolviam-se de não compreender, as patas apontadas ao céu imploravam uma razão; o outro, o negro criminoso, tinha entre as omoplatas uma espada tão comprida que o atravessava de lado a lado e o fez flectir sobre as patas dianteiras e render-se (se é que houve batalha) e quando o viu assim curvado e entregando as armas a Multidão das bancadas ergueu-se para gritar a sua Felicidade, os Coveiros abriram as braguilhas, as Mulheres arrancaram as mantilhas e todas se precipitaram sobre os Rabos malcheirosos que no Dia do Senhor é permitido comungar, e enquanto elas engoliam o Corpo de Cristo e a Semente do Pai, os Meninos aterrorizados procuravam onde debicar, onde e como inventar um novo Matadouro, um novo Fornicadouro, e tudo aquilo chupava, tagarelava, examinava, enquanto em cima da padiola o malvado touro mal acabado chorava ainda como um vitelo desmamado. E ninguém lhe prestava já atenção, o emissário moribundo, outrora tão perigoso, outrora chamado o Diabo.»
Gilles Leroy, Alabama Song, p. 76
[Lisboa: Esfera do Caos, 1.ª edição, Novembro de 2008, 172 pp.; tradução de José Júdice e José Alberto Quaresma; obra original: Alabama Song, 2007]

sábado, 6 de dezembro de 2008

I know who you are

Vencedor do prémio para Melhor Filme no festival de cinema fantástico: SITGES Festival Internacional de Cinema de Catalunya 2008.


Vigilância (Surveillance, 2008) em DVD…
Aqui ficou a minha, por enquanto, imutável opinião sobre o filme, apesar da crítica dos criticáveis especialistas em genética lynchiana.

Na promoção do DVD, gosto especialmente desta frase bombástica, que figura na contracapa, retirada de um texto de apreciação à obra da filha de David, Jennifer Lynch:

«Um retrato psicológico que dá primazia à representação regozijante de um conto perverso.»
Jean-Pierre Rehm, CAHIERS DU CINEMA