sábado, 13 de dezembro de 2008

14.ª volta

(A) A 6 de Novembro de 2006, os dez excelsos membros da Academia Goncourt reunidos ao jantar no habitual primeiro piso do restaurante Drouant, na rua Gaillon em Paris, decidiram atribuir prestigiado Prix Goncourt ao romance As Benevolentes (Les Bienveillantes) do escritor norte-americano Jonathan Littell, por unanimidade e aclamação. Aliás, as declarações do júri posteriores ao anúncio podem sintetizar-se nas palavras enfáticas do autor espanhol Jorge Semprún (um dos dez membros): «um acontecimento assombroso»; «o livro acontecimento do último meio século»; ou «Dentro de uma ou duas gerações, os jovens saberão o que se passou em meados do século XX graças a um romance com este.» Concordo, e quando o li, desacompanhado de outros livros que pudessem fazer divergir a minha mente focada para aquele objecto, também entrei na espiral de hipérboles (a geometria do exagero encomiástico), colocando-o de imediato na lista dos meus dez livros de sempre (ainda tenho de ver qual foi o destronado…)

(B) A 5 de Novembro de 2007, o mesmo júri escolhia para vencedor do prestigiado prémio das letras francesas ou francófonas, o romance do autor francês Gilles Leroy (n. 1958), Alabama Song. Segundo noticiou o Público na altura, o vencedor apenas foi eleito numa 14.ª volta de votações à mesa do Drouant, em acesa disputa com o romance de Olivier Adam, A l’abri de rien.

O que distingue ambos os vencedores?
Tudo. A começar pela nacionalidade e a acabar na volumetria biblíaca (conceito construido agora a preceito): nas edições portuguesas, (A), editado pela Dom Quixote, dispõe de 895 páginas, totalmente preenchidas por uma letra potencialmente geradora de problemas do foro oftalmológico; (B), editado pela Esfera do Caos, estende-se por 172 páginas, tamanho de letra normal, algumas páginas em branco e bastantes espaços entre parágrafos, e apenas menos centímetro e meio de comprimento relativamente a (A) (22 contra 23,5 cm; apresentam a mesma largura: 15 cm). Embora, os junte o instrumento História – embora em dimensões diferentes, o período mais negro da historiografia do século XX, no primeiro caso, e o negrume de um casamento atribulado e falhado, no seio do voraz mundo literário, de um dos casais mais famosos nos anos vintes do mesmo século: Zelda e Francis Scott Fitzgerald –, a pulsão especulativo-melodramática acentua-se exponencialmente no segundo. Se em As Benevolentes a história enquadra um nazi empedernido que, para sair incólume, se movimenta silenciosamente e sem piedade sobre os escombros da barbárie; em Alabama Song, a narrativa é-nos contada na primeira pessoa por uma vítima, Zelda, onde a barbárie se transforma num putativo espezinhamento psíquico infligido pelo marido, Scott, na sua busca da fama e da glória no meio mundano das letras norte-americanas de principio de século.

Fim de comparação. Quiçá um exercício potencialmente desonesto quando falamos de duas obras literárias distintas, com pretensões díspares, que, por fortuna ou por azar, depende da perspectiva, foram unidas pela atribuição consecutiva do prémio literário, concedido a uma obra de ficção, mais importante no pentágono (geográfico) francês.

Alabama Song é uma obra de ficção que parte de acontecimentos verídicos, cujo desenvolvimento retrata, na voz ficcional de Zelda Sayre (futuramente apelidada de Fitzgerald), em pouco mais de centena e meia de páginas, a vida (a começar pela sua infância em Montgomery, no Estado do Alabama) e a morte de uma das mais conhecidas, badaladas e vituperadas mulheres entre os escritores norte-americanos de “A Geração Perdida”.
Zelda (1900-1948), filha de um austero juiz e presidente do Supremo Tribunal do Alabama, neta e sobrinha-neta de proeminentes senadores, é a mais nova de seis filhos de um casal abastado tipicamente sulista, que respirava o miasma que, no virar do século, persistia ainda no ar, emanado da relativamente recente guerra da Secessão e das práticas de escravidão sulistas nas grandes plantações de tabaco ou de algodão. A história real parte, então, de uma sociedade onde se legitima e pratica às claras a segregação racial – trocadilho involuntário –, fortemente machista e puritana, que não se adequa com as eternas rebeldia e juventude de Zelda e da sua amiga e companheira inseperável de infância Tallulah Bankhead, num futuro próximo famosa e escandalosa estrela de Hollywood e dos palcos, em concomitância com os bistros e leitos, sem discriminação de género (diz-se), de gente famosa.
Em 1918, a sua vida dá uma volta completa. Zelda conhece num baile do Country Club local o Tenente Scott Fitzgerald (1896-1940) «tem vinte um anos e possui já muitos talentos. […] escreve novelas que a imprensa irá publicar em breve, tem a certeza; é asseado e elegante, sabe francês – foi graças ao conhecimento da língua francesa que foi promovido a Tenente da infantaria depois das aulas em Princeton, onde os francófonos gozam de um privilégio que os catapulta a oficiais» (p. 18).
Scott foi colega de Edmund Wilson e de John Peale Bishop em Princeton, com quem se introduz nas lides literárias antes do alistamento, e que o irão ajudar no início da sua carreira em tempos de paz. Também eles serão vítimas, revela o autor, da fúria de Zelda.
Segundo reza a história e de acordo com uma promessa arrebatada só ao alcance de um espírito lírico, Scott só aceitaria casar-se com Zelda quando se tornasse num escritor famoso – visionado por ele, um peralvilho narcísico, como uma inevitabilidade. Nos meses em que se refugia na estridência de Nova Iorque, Scott escreve The Romantic Egotist, que é sucessivamente recusado por uma miríade de editoras: «Ele chamou-lhe “O Egotista Romântico”, um título de não entusiasmar ninguém […] Claro que ele não ouve os meus reparos: só lhe interessam os elogios enamorados de Winston [Edmund Wilson] e Bishop, os seus lambe-botas de Princeton. Eles também querem escrever. O que é que todos eles têm, estes jovens tipos, para desejarem ser escritores? Contentem-se em ser ricos e célebres!» (pp. 32-33). Mais tarde, Scott, derrotado e endividado, regressa às cidades gémeas (em concreto St. Paul) e o romance é rescrito e acrescentado, e a Scribner resolve finalmente publicar o manuscrito sob o título This Side of Paradise (ed. port. Relógio D’Água; Este Lado do Paraíso).
Zelda abandona o Alabama e casa com Scott Fitzgerald na Catedral de São Patrício em Nova Iorque.
Aqui começam os tormentos do casal, agravados pelo nascimento da sua única filha em 1921, Patricia Frances, e o fenómeno da errância boémia na vida de Scott, destilando o seu «hálito fétido» (álcool) entre Paris, a Riviera francesa, Roma, Capri.
Entretanto, Zelda apaixona-se por um jovem aviador francês Edouard Jozan, com quem mantém um tórrido romance e concebe um ficcionado filho que Scott mandou desembaraçar. O romance termina ao fim de um mês, com o famoso encarceramento de Zelda na sua própria casa, imposto pelo marido e guardada por um casal de campónios assaz soturno.
Scott mergulha na boémia francesa, embrenha-se nas tertúlias etílicas em casa de Gertrude Stein, conhece Hemingway, detestado por Zelda e que, no entanto, surge no romance de Leroy com o nome fictício “Lewis O’Connor”, facilmente descortinável por qualquer pessoa que se interesse minimamente por literatura: «Depois este monte de banha entrou na nossa vida. O amador de touradas e de sensações fortes. O escritor mais puta e a glória ascendente do nosso país. Não era assim tão gordo e tão célebre na altura. Não tinha sequer publicado nada. […] Fiquei imediatamente chocada com a arrogância de Lewis, com o convencimento que só os imbecis e os falsos artistas têm de si mesmos. Ainda mal tínhamos apertado a mão, tive vontade de o esbofetear.» (p. 73)
Insistindo neste ponto, que as próprias biografias registam – em especial a de Nancy Milford, Zelda (1970) –, o do ódio visceral de Zelda por Ernest, Leroy estende a sua narrativa zeldiana adjectivando profusamente o novo companheiro literário do marido. Depois de aflorar a possibilidade de uma relação homossexual entre ambos e de presumir que aquele gostaria de «roubar a glória de Scott», zelda pela mão de Gilles disserta com erudição sobre o que aquele escroto poderá esconder:
«Chateia-nos com as suas descrições sanguinolentas. O plumitivo gosta de apanhar o touro pelos colhões… Isso deve impressioná-lo, ou excitá-lo, ele que os não tem. A menos que prefira os colhões do toureiro, que apesar de tudo são os que se vêem melhor, ensacados nos seus calções apertados, ouro e rosa.»
E completa com uma metáfora luminosa: «O seu olhar não é apenas um olhar: é uma nuvem de borboletas que se abatem, cegas, sobre a braguilha de Scott. Não, não estou demente. Não invento. Enuncio.» (p. 74)
E a história desenvolve-se em torno do alcoolismo crescente de Scott e da sua progressiva decadência, do afastamento da filha que este inflige e impõe à mãe, dos diversos internamentos compulsivos de Zelda em clínicas psiquiátricas, da usurpação de material escrito por Zelda que é posteriormente inserido nos romances do autor, assim como o uso e abuso de material biográfico, episódios da vida privada que surgem nos romances encobertos pelos nomes dos personagens, mas suficientemente visíveis e inteligíveis como verdadeiras cenas da vida conjugal para os demais.

Entrecortada por analepses e prolepses, entre os anos 20 e os anos do fim, os 40 (Scott morre em 1940, quatro dias antes do dia de Natal; Zelda morre à meia-noite em ponto do dia 10 de Março de 1948 durante um incêndio num asilo psiquiátrico na Carolina do Norte, onde se encontrava internada desde 1943), Leroy procura demonstrar-nos a espiral de loucura que se abateu sobre um casal em busca das luzes da ribalta, do luxo e do glamour das figuras da alta sociedade americana e europeia, cosmopolita e frívola. Ele filho de um falido vendedor de sabões do Minnesota, ela a «Rainha dos Labregos» (p. 32) do Alabama, «filha do juiz, neta de um senador e de um governador», engolidos pelo vórtice mediático dos famosos, esquecidos no fim das suas vidas: «Scott é o homem redimido do seu pai – ele brilhou tanto – ao mesmo tempo que o filho relapso do seu pai: ele fracassou tanto!» (p. 151)

É curta de ideias e parcial esta versão semi-ficcionada da vida de Zelda Sayre, de onde apenas parece sobressair, dada a ênfase do próprio autor, a qualidade de vítima impotente de uma mulher nas garras de um mundo machista e às mãos de uma subclasse inconsequente, hedonista e materialista, arrastada de forma involuntária e impiedosa para a inevitável desgraça.
Nas suas notas finais, Leroy adverte que deve ler-se «Alabama Song como um romance e não como uma biografia de Zelda Fitzgerald enquanto pessoa histórica.» (p. 171). E de seguida enumera alguns dos momentos fortes da obra, distinguindo a realidade da ficção. Descansei, não por qualquer prurido de laivos homofóbicos ou por alguma questão de higiene ligada à prática pura e simples do acto, mas por ser incapaz de tomar como possível a situação, dada a animosidade que historicamente envolveu ambos os autores, quando Leroy diz que o burlesco episódio do Hotel George V em Paris foi inventado. Ou seja, quando Zelda entra no quarto do referido hotel e descobre O’Connor (Hemingway) ajoelhado com a cabeça entre as coxas do marido, ao mesmo tempo que um projector de filmes exibia pornografia gay… as consequências materiais e físicas de tamanho flagrante engrandecem a risibilidade do episódio – só lido.

Por fim, uma pequena referência à tradução portuguesa. Uma vez mais, pobre (como muitas, ou a grande maioria, em Portugal), gaguejante, imprecisa, que irrita pela necessidade constante de releitura. Atente-se, por exemplo, neste parágrafo inteiro (entre muitos outros, mas que a preguiça aliada à minha tão típica mania de não profanação dos livros com anotações de qualquer tipo exigem um esforço de memória assinalável para os localizar): «Os homens franceses, não é que sejam mais belos, longe disso. É precisamente porque nos desejam: para eles, uma mulher que cede não é uma puta mas uma rainha.» (p. 57); ou a construção da frase: «É tão horrendo, nesse momento, o que sofro para me separar dele.» (p. 35); ou ainda «Repelia-me do próprio coração do meu amor, este coração que formavam os nossos dois corpos nus enlaçados na areia – e era como se ele, com um pontapé no rabo, me tivesse metido no barco de volta a Nova Iorque.» (p. 61); and so on…

Classificação: *** (A Ler)

Referência bibliográfica:
Gilles Leroy,
Alabama Song. Lisboa: Esfera do Caos, 1.ª edição, Novembro de 2008, 172 pp. (tradução de José Júdice e José Alberto Quaresma; obra original: Alabama Song, 2007).


Tenho de terminar com o portentoso epitáfio gravado na pedra tumular de Scott e Zelda, em Rockville, Maryland. Corresponde ao último parágrafo de um dos melhores romances de sempre na literatura universal (dificilmente destronável dos lugares cimeiros na minha lista pessoal das dez melhores obras de ficção de sempre):
«Assim vamos teimando, proas contra a corrente, incessantemente cortando águas, a caminho do passado.»
F. Scott Fitzgerald, O Grande Gatsby, p. 202
[Lisboa: Presença, 5.ª edição, Julho de 1997; 202 pp.; tradução de José Rodrigues Miguéis; obra original: The Great Gatsby, 1925.]

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

Ainda os Globos de Ouro 2009

Por esquecimento, desleixo ou resquícios do abalo emocional pós-impacto, ontem (hoje) não referi as nomeações da HFPA para duas categorias fundamentais:

Melhor Filme em Língua Estrangeira

  • Der Baader Meinhof Komplex, de Uli Edel (The Baader Meinhof Complex) – Alemanha
  • Gomorra, de Matteo Garrone (Gomorrah) – Itália
  • Il y a longtemps que je t’aime, de Philippe Claudel (I've Loved You So Long) – França
  • Maria Larssons eviga ögonblick, de Jan Troell (Everlasting Moments) – Suécia/Dinamarca
  • A Valsa com Bashir, de Ari Folman (Vals im Bashir/Waltz with Bashir) – Israel

Melhor Filme de Animação

  • Bolt, de Byron Howard e Chris Williams
  • O Panda do Kung Fu (Kung Fu Panda), de Mark Osborne e John Stevenson
  • WALL-E, de Andrew Stanton

Listas para reflexão crítica até ao dia 11 de Janeiro.

Globos de Ouro 2009

A associação de imprensa estrangeira em Hollywood, Hollywood Foreign Press Association (HFPA), anunciou hoje as nomeações para os Globos de Ouro 2009 (Golden Globe Awards) repartidos por 25 categorias, distribuídas entre o cinema e a televisão, cuja 66.ª edição da gala de atribuição dos cobiçados prémios dourados ocorrerá no próximo dia 11 de Janeiro, pelas 20 horas (EST) – 1 da manhã do dia 12 de Janeiro (GMT) –, no habitual jantar no The Beverly Hilton.

Eis os 9 filmes com 3 ou mais nomeações:

Dúvida / Doubt (5 nomeações)
Actor Secundário – Philip Seymour Hoffman
Actriz – Meryl Streep
Actriz Secundária (2) – Amy Adams / Viola Davis
Argumento – John Patrick Shanley
(nota: filme realizado por John Patrick Shanley)

O Estranho Caso de Benjamin Button / The Curious Case of Benjamin Button (5 nomeações)
Actor – Brad Pitt
Argumento – Eric Roth
Banda Sonora Original – Alexandre Desplat
Filme
Realizador – David Fincher

Frost/Nixon (5 nomeações)
Actor – Frank Langella
Argumento – Peter Morgan
Banda Sonora Original – Hans Zimmer
Filme
Realizador – Ron Howard

The Reader (4 nomeações)
Actriz Secundária – Kate Winslet
Argumento – David Hare
Filme
Realizador – Stephen Daldry

Revolutionary Road (4 nomeações)
Actor – Leonardo DiCaprio
Actriz – Kate Winslet
Filme
Realizador – Sam Mendes

Slumdog Millionaire (4 nomeações)
Argumento – Simon Beaufoy
Banda Sonora Original – A. R. Rahman
Filme
Realizador – Danny Boyle

Vicky Cristina Barcelona (4 nomeações)
Actor (musical ou comédia) – Javier Bardem
Actriz (musical ou comédia) – Rebecca Hall
Actriz Secundária (musical ou comédia) – Penélope Cruz
Filme (musical ou comédia)
(nota: filme realizado por Woody Allen)

Em Bruges / In Bruges (3 nomeações)
Actor (musical ou comédia) (2) – Colin Farrell / Brendan Gleeson
Filme (musical ou comédia)
(nota: filme realizado por Martin McDonagh)

The Wrestler (3 nomeações)
Actor – Mickey Rourke
Actriz Secundária – Marisa Tomei
Canção – Bruce Springsteen, “The Wrestler”
(nota: filme realizado por Darren Aronofsky)

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Post Scriptum: “Quem anda à chuva molha-se” diz o povo e se modificarmos o triste adágio com o potencialmente lúgubre “Quem anda à chuva numa correria, com a cabeça em mil assuntos e deprimido estampa-se”, apenas traz de madrugada alguma da informação que havia prometido despejaria aqui neste lugar em cima do acontecimento.

Haja saúde e inteireza, não só espiritual.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

O centenário é meu conterrâneo

(até nascemos em freguesias vizinhas.)

Manoel de Oliveira

MANOEL DE OLIVEIRA
100 anos

«Os meus filmes, de científicos, não têm nada, a não ser as máquinas de filmar e a película. Estão muito mais inseridos num campo poético do que em qualquer outra coisa.»
Manoel de Oliveira, in Público, 15/Dezembro/1992.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

NYFCC Awards 2008

Dando continuidade à política deste blogue de divulgação dos prémios mais importantes atribuídos a obras cinematográficas, que normalmente ocorre entre o fim de cada ano civil (ano de produção do filme) e os dois primeiros meses do ano seguinte, seria incontornável não referir os eleitos da associação de críticos de cinema de publicações sediadas em Nova Iorque, ou seja, os prémios anuais da New York Film Critics Circle, que inclui críticos de publicações tão emblemáticas como o The New York Times, The Wall Street Journal, as revistas The New Yorker, The New York Magazine, Esquire, Time, The Nation, Newsweek e até as publicações electrónicas como a Slate ou a Salon.

Dos prémios, sem grandes novidades relativamente aos seus predecessores, o destaque vai, em primeiro lugar para o grande vencedor, Milk de Gus Van Sant (3 prémios). Filme que narra a história verídica de Harvey Milk (1930-1978), o primeiro político assumidamente gay a ser eleito para um cargo público no Estado da Califórnia, assassinado um ano depois.

Outro dos destaques vai para o prémio para o melhor argumento atribuído a Jenny Lumet, filha do Sidney Lumet – reforçando a máxima popular do “filho de peixe…” –, escrito de raiz para o último filme de Jonathan Demme, com estreia marcada em Portugal para Fevereiro.
De estranhar o desfasamento cronológico do vencedor na categoria de melhor filme estrangeiro, do romeno Cristian Mungiu (filme de 2007), vencedor da Palma de Ouro em Cannes em 2007, nomeado para o Globo de Ouro do ano passado.
[Pequena nota de congratulação: nada de morcegos em collants e premiação dos choques toxicológicos…]

Sem mais delongas, os vencedores de 2008 (excluídas duas ou três categorias menos mediáticas) são:

  • Melhor Filme: Milk, de Gus Van Sant;
  • Melhor Realizador: Mike Leigh, por Happy-Go-Lucky;
  • Melhor Actor: Sean Penn, em Milk (Gus Van Sant);
  • Melhor Actriz: Sally Hawkins, em Happy-Go-Lucky (de Mike Leigh);
  • Melhor Argumento: Jenny Lumet, por O Casamento de Rachel (Rachel Getting Married; de Jonathan Demme);
  • Melhor Filme Estrangeiro: 4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias (4 luni, 3 saptamâni si 2 zile/4 Months, 3 Weeks and 2 Days), de Cristian Mungiu – Roménia;
  • Melhor Filme de Animação: WALL-E, de Andrew Stanton;
  • Melhor Actor Secundário: Josh Brolin, em Milk (de Gus Van Sant);
  • Melhor Actriz Secundária: Penélope Cruz, em Vicky Cristina Barcelona (de Woody Allen);
  • Melhor Primeiro Filme: Frozen River, de Courtney Hunt.

Nota: com os anúncios para breve dos Satellite Awards e mais tarde (previsto para a 1.ª semana de Janeiro) dos prémios da prestigiada National Society of Film Critics, para além dos prémios atribuídos pelas diversas associações de classe aos seus pares (actores, argumentistas, directores de fotografia, editores/montagem e realizadores), focar-nos-emos, a título informativo e para evitar a dispersão (e, porque não, o período de servidão deste blogger), nos Globos de Ouro, BAFTA e Óscares (por ordem cronológica da data de nomeação e de atribuição dos prémios, que termina no dia 22 de Fevereiro no Kodak Theatre em Hollywood com a 81.ª sessão de entrega dos Óscares da Academia das Artes e das Ciências Cinematográficas de Hollywood.)

LAFCA Awards 2008

A associação de críticos de cinema sediados em Los Angeles, Los Angeles Film Critics Association (LAFCA), anunciou há pouco os vencedores da 34.ª edição anual (edição de 2008) dos seus prémios de cinema em diferentes categorias técnicas e artísticas a concurso.
Algumas surpresas: como a do título vencedor de melhor filme, a nomeação de Penélope Cruz não só pela sua interpretação no filme de Woody Allen, como também na adaptação cinematográfica do romance Animal Moribundo (em filme, Elegia) de Philip Roth; e uma enorme frustração por ver que os meus receios têm, cada vez mais, alguma razão de ser, devido às várias nomeações do filme onde pulula, vacilante, o famoso morcego dos comics do menino-prodígio Chris Nolan e a sua (e deles, produtores e estúdios) poderosa máquina mediática pós-Ledger de aproveitamento da miséria num filme medíocre (ler aqui a minha opinião sobre o filme). E se mais não bastasse, nada de Fincher… movie geeks! (insultos, ainda em versão ultra-softcore)

Eis os vencedores nas categorias principais:

  • Melhor Filme: Wall-E (de Andrew Stanton) / 2.º lugar: O Cavaleiro das Trevas (The Dark Knight, de Christopher Nolan);
  • Melhor Realizador: Danny Boyle por Slumdog Millionaire / 2.º lugar: Christopher Nolan por O Cavaleiro das Trevas (The Dark Knight);
  • Melhor Actor: Sean Penn em Milk (de Gus Van Sant) / 2.º lugar: Mickey Rourke em The Wrestler (de Darren Aronofsky);
  • Melhor Actriz: Sally Hawkins em Happy-Go-Lucky (de Mike Leigh) / 2.º lugar: Melissa Leo em Frozen River (de Courtney Hunt);
  • Melhor Actor Secundário: Heath Ledger em O Cavaleiro das Trevas (The Dark Knight, de Christopher Nolan) / 2.º lugar: Eddie Marsan em Happy-Go-Lucky (de Mike Leigh);
  • Melhor Actriz secundária: Penélope Cruz em Vicky Cristina Barcelona (de Woody Allen) e Elegia (Elegy, de Isabel Coixet) / 2.º lugar: Viola Davis em Dúvida (Doubt, de John Patrick Shanley);
  • Melhor Argumento: Mike Leigh por Happy-Go-Lucky / 2.º lugar: Charlie Kaufman por Synecdoche, New York;
  • Melhor Filme Estrangeiro: Natureza Morta (Still Life/Sanxia haoren de Zhang Ke Jia) – China / 2.º lugar: A Turma (The Class/Entre les murs de Laurent Cantet) – França;
  • Melhor Filme de Animação: A Valsa com Bashir (Waltz with Bashir, de Ari Folman);
  • Prémio Melhor Estreia (New Generation Award): Steve McQueen, por Fome (Hunger);
  • Prémio de Carreira (Career Achievement Award): John Calley

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Alçada II (o lado feminino)

Numa breve crónica, que integra a sua derradeira publicação, pelo menos em vida, António Alçada Baptista presta um curto tributo aos destemor e atrevimento da escritora francesa George Sand (1804-1876) na defesa dos valores femininos e na luta da igualdade de género na marcadamente belicista sociedade francesa do século XIX, política, revolucionária e conspirativa – por consequência machista.
Alçada parte de uma asserção de Jules Michelet em que o eminente historiador enunciava: «eu tenho em mim o homem e a mulher», o masculino e o feminino (le mâle et la femelle), terminando o curto texto com três parágrafos que definem de uma forma nítida o seu pensamento, cuja raiz partiu anteontem aos 81 anos, deixando, porém, as sementes que germinaram (e ainda vão germinado) a reflexão da condição da mulher na sociedade Ocidental:

«Mas tudo isto se passou há mais de cento e cinquenta anos. Não se pode imaginar a força e a construção interior de uma mulher desse tempo que a fez enfrentar com tanta força e audácia o mundo masculino e abrir um pouco da muralha que impedia o acesso da mulher à própria entrada na história.
»Quando foi da sua morte [1876], Flaubert, numa carta a Tourgueniev [sic; o autor usou a transliteração francesa], escreveu: “No seu enterro, chorei como uma criança. Era preciso conhecê-la como eu a conheci para saber tudo aquilo que havia de feminino neste grande homem.”
»Talvez a frase de Flaubert esconda esta realidade de que não tomámos consciência. Se temos em nós o masculino e o feminino, como dizia Michelet, George Sand foi capaz de pôr ao seu serviço valores ditos “masculinos” – a audácia e a coragem – para impor na sociedade a presença “feminina” que tem que ver com o complexo mundo dos afectos, de que ainda estamos privados. As mulheres podem ser corajosas sem deixarem de ser mulheres.»
António Alçada Baptista, “George Sand”, A Cor dos Dias – Memórias e Peregrinações, pp. 162-163.
[Lisboa: Presença, 2.ª edição, Dezembro de 2003, 223 pp.]

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Alçada

Não li muitos livros de Alçada Baptista, embora tenha lido alguns textos, sobretudo ensaios e crónicas do tempo. Porém, o seu nome ficará indelevelmente marcado na minha memória de bibliómano pelo seu romance de 1994, não lido há muitos anos, O Riso de Deus.
Recordo-me sobretudo de uma narrativa translúcida, sem atavios, directa, que a certa altura, pela delicadeza do tema central e a forma descomplexada como é retratado – o amor sem barreiras ou limites, como um sentimento avassalador que não pode conhecer fronteiras estatuídas pelo homem – nos atinge de uma forma brutal, como se de um verdadeiro murro no estômago se tratasse.
Não li muito mais. Dos seus escassos romances, li o Tecido do Outono (o seu último romance), para além do acima mencionado. Li, contudo (com vontade de reler), o seu último livro, uma colectânea de textos A Cor dos dias: Memórias e Peregrinações, que anda à volta da suas inquietações ensaísticas do início de carreira: a religião, a política, o relacionamento com o Estado Novo e as suas figuras, as mulheres… sempre as mulheres. A propósito da sua publicação, em entrevista dada ao JL, pressagia (ou tratou-se apenas de, como dizia “A Voz”, vivi uma vida em cheio, e termino como comecei): «Acho que este é o meu último livro.»
Para memória futura deixo ficar os três primeiros parágrafos do deslumbrante O Riso de Deus (que em parte, já havia referido aqui em Agosto de 2006). Livro dedicado a Edgar Morin, e a Zélia e Jorge Amado. Ao primeiro por causa da sua amizade, aos segundos porque «souberam descobrir que o afecto é o nosso destino.» [destaque meu]
Com epígrafes de Pessoa e Borges e:

«O homem pensa, Deus ri.»
Provérbio judeu

António Alçada Baptista

(Covilhã, 29 de Janeiro de 1927 – Lisboa, 7 de Dezembro de 2008)

«A letra de Deus nem sempre é decifrável e ninguém conhece a língua em que escreveu a alma humana. Às vezes, a gente julga que as palavras chegam para esclarecer a vida mas, hoje, estou certo de que muitas coisas permanecem por detrás de palavras que ainda não foram feitas e outras, por detrás de palavras de que perdemos o uso.
Quando penso na minha vida e nas circunstâncias atribuladas do tempo que me foi dado viver, pressinto o que será a incomodidade dum bêbedo no dia seguinte ao da sua bebedeira, porque nos encharcámos de razão e esperança terrena e tudo ficou aquém de todas as promessas: tudo mais pequenino e mais cruel. Pior: é uma sensação misturada da ressaca do bêbedo com uma certa forma de orfandade: um desamparo perante a perda da herança prometida no texto fundador que fixou o projecto da nossa condição, como se, ao decretar-se a morte de Deus, ele tivesse levado consigo todos os seus bens. É isso que me leva a olhar para tudo o que vivi como se fosse um ensaio falhado duma harmonia possível.
Tudo me leva a crer que as marcações que nos deram para o desempenho da vida passam ao lado do caminho por onde os nossos afectos poderiam fluir conforme o que está inscrito no mapa oculto do ser humano. Pressinto que continuamos fora do essencial e que as razões das circunstâncias – que, muitas vezes, são poderosas e reais – só servem para nos afastar dos enigmas que estão à frente das coisas e que nos caberia decifrar. Porque, algumas vezes, até parece que a simplicidade emana do andamento da vida e que bastaria um pequeno gesto de espírito para passarmos para o lado de lá de tantas incomodidades que nos fazem viver como se tivéssemos calçado dois números abaixo da forma da alma.
»
António Alçada Baptista, O Riso de Deus, p. 13
[Lisboa: Presença, 16.ª edição, Novembro de 2005, 206 pp.]

domingo, 7 de dezembro de 2008

La sangre

«Nesse dia, um cavalo foi sacrificado a fim de que a barbárie recebesse o seu tributo. E a barbárie foi duplamente lisonjeada: após a interminável agonia do cavalo arrastado por uma carroça pela areia da vergonha, ela teve direito à execução do touro criminoso cujo sangue não borbulhou menos em longas golfadas generosas. Um relinchava e debatia-se, os seus olhos aterrorizados revolviam-se de não compreender, as patas apontadas ao céu imploravam uma razão; o outro, o negro criminoso, tinha entre as omoplatas uma espada tão comprida que o atravessava de lado a lado e o fez flectir sobre as patas dianteiras e render-se (se é que houve batalha) e quando o viu assim curvado e entregando as armas a Multidão das bancadas ergueu-se para gritar a sua Felicidade, os Coveiros abriram as braguilhas, as Mulheres arrancaram as mantilhas e todas se precipitaram sobre os Rabos malcheirosos que no Dia do Senhor é permitido comungar, e enquanto elas engoliam o Corpo de Cristo e a Semente do Pai, os Meninos aterrorizados procuravam onde debicar, onde e como inventar um novo Matadouro, um novo Fornicadouro, e tudo aquilo chupava, tagarelava, examinava, enquanto em cima da padiola o malvado touro mal acabado chorava ainda como um vitelo desmamado. E ninguém lhe prestava já atenção, o emissário moribundo, outrora tão perigoso, outrora chamado o Diabo.»
Gilles Leroy, Alabama Song, p. 76
[Lisboa: Esfera do Caos, 1.ª edição, Novembro de 2008, 172 pp.; tradução de José Júdice e José Alberto Quaresma; obra original: Alabama Song, 2007]

sábado, 6 de dezembro de 2008

I know who you are

Vencedor do prémio para Melhor Filme no festival de cinema fantástico: SITGES Festival Internacional de Cinema de Catalunya 2008.


Vigilância (Surveillance, 2008) em DVD…
Aqui ficou a minha, por enquanto, imutável opinião sobre o filme, apesar da crítica dos criticáveis especialistas em genética lynchiana.

Na promoção do DVD, gosto especialmente desta frase bombástica, que figura na contracapa, retirada de um texto de apreciação à obra da filha de David, Jennifer Lynch:

«Um retrato psicológico que dá primazia à representação regozijante de um conto perverso.»
Jean-Pierre Rehm, CAHIERS DU CINEMA


sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

NBR Awards 2008

NBROs vencedores dos prémios do The National Board of Review of Motion Pictures de 2008 foram ontem anunciados em conferência de imprensa.

A gala de entrega dos prémios realizar-se-á no próximo dia 14 de Janeiro na cidade de Nova Iorque.

Eis os vencedores:
  • Melhor Filme: Slumdog Millionaire, de Danny Boyle e Loveleen Tandan;
  • Melhor Realizador: David Fincher, por O Estranho Caso de Benjamin Button (The Curious Case of Benjamin Button);
  • Melhor Filme em Língua Estrangeira: Mongol, de Sergei Bodrov;
  • Melhor Actor: Clint Eastwood, por Gran Torino;
  • Melhor Actriz: Anne Hathaway, por O Casamento de Rachel (Rachel Getting Married; de Jonathan Demme);
  • Melhor Actor Secundário: Josh Brolin, por Milk (de Gus Van Sant);
  • Melhor Actriz Secundária: Penélope Cruz, por Vicky Cristina Barcelona (de Woody Allen);
  • Melhor Argumento Adaptado: (ex aequo) Simon Beaufoy, por Slumdog Millionaire (de Danny Boyle e Loveleen Tandan) e Eric Roth, por O Estranho Caso de Benjamin Button (de David Fincher);
  • Melhor Argumento Original: Nick Schenk, por Gran Torino (de Clint Eastwood);
  • Melhor Filme de Animação: WALL-E, de Andrew Stanton.

Jogos florais

Em Outubro deste ano apareceu nos escaparates franceses o livro improvável: um livro epistolar que reúne a correspondência trocada entre dois dos mais fervorosos opositores no campo do pensamento, das ideias e da filosofia francesas: Ennemis publics (Inimigos públicos, ed. Flammarion/Grasset).
Eles são o escritor Michel Houellebecq (n. 1956) e o jornalista, ensaísta, pensador e projecto de cineasta Bernard-Henri Lévy (n. 1948), o criador do termo “Nova Filosofia” com a ajuda de Maurice Clavel, que reuniu num só grupo nomes como André Glucksmann ou Jean-Marie Benoist, com o propósito de mediatizar e de aproveitar o espaço comunicacional para difundir as sua ideias filosóficas, acercando-se das fontes de poder.

A Harper’s deste mês publicou um excerto da troca epistolar, sob a denominação Náusea (não sem uma certa ambiguidade, trata-se do título do primeiro trabalho ficcional de Sartre, a base da sua criação filosófica no campo do existencialismo), que reproduzo aqui uma parte. Um excerto de um excerto para não transformar a leitura da pessoa e meia que lê este blogue numa sensação desagradável ou enjoativa, como se houvesse ingerido um Roquefort inteiro, não esquecendo a fase que, de forma inelutável, antecede a degustação, o suplício odorífero.

«Bruxelas, 26 de Janeiro de 2008

Caro Bernard-Henri Lévy,

Tudo, como se diz, nos separa – com a excepção de um ponto fundamental: somos tanto um como o outro indivíduos assaz desprezíveis.
Especialista em golpes baixos e intrujices mediáticas, você até com as camisas brancas que veste consegue desonrar-se. Um confidente dos poderosos, elanguescendo desde a infância numa riqueza obscena, você é um exemplo acabado do que determinadas revistas de terceira categoria como a
Marianne considera a “esquerda-caviar” e que os jornalistas alemães, de forma mais elegante, chamam de Toskana-Fraktion. Filósofo sem pensamento mas não sem ligações, você é, além disso, o autor do filme mais ridículo da história do cinema*.
[Chama-me] Niilista, reaccionário, cínico, racista e um misógino vergonhoso – ainda assim, ser colocado nas posições repugnantes da direita anarquista seria uma honra injustificada, porque, fundamentalmente, eu sou apenas um bronco. Um autor insípido e sem estilo, alcancei notoriedade literária somente depois de um improvável erro de gosto cometido por críticos desorientados. Felizmente, as minhas provocações arquejantes deixaram, desde então, de os aborrecer.
Para ambos, simbolizamos perfeitamente a horrível deformação da cultura e da inteligência francesas, recentemente retratada, com severidade, no entanto justa, pela revista
Time.
Nós não contribuímos com nada de novo para o panorama da música electrónica francesa. Nem sequer aparecemos nos créditos do
Ratatui.
Estão reunidas as condições do debate.


Paris, 27 de Janeiro

O debate?
Três vias possíveis, caro Michel Houellebecq.
Via número um: Bravo. Está tudo aí. A sua mediocridade. A minha irrelevância. O vazio reverberante que domina o nosso pensamento. O gosto que temos pela comédia quando não é simples impostura. Durante trinta anos tenho-me perguntado a mim próprio como é que um tipo como eu conseguiu, e ainda consegue, criar tais ilusões. Trinta anos que, cansado de esperar pelo bom leitor que saberá desmascarar-me, eu prolongo as autocríticas cobardes, sem talento, inofensivas. E aqui estamos nós. Com a sua ajuda, sou capaz de o conseguir fazer. A sua e a minha vaidade. A minha imoralidade e a sua. Como diria outro degenerado – embora um eminente degenerado –, você mostra o seu jogo, eu mostro o meu – que alívio!
Via número dois: Você, tudo bem. Mas porquê eu? Porque é que, apesar de tudo, hei-de eu participar neste exercício de autodenigração? E porque hei-de eu segui-lo nesse gosto que você manifesta pela autodestruição fulminante, pejorativa e mortificante? Eu não gosto do niilismo. Eu odeio o ressentimento e a melancolia que vêm com ele. Penso que a literatura é a única coisa a combater este
depressionismo que, mais do que nunca, é a palavra-chave do nosso tempo. Eu posso devotar-me, nesse caso, à explicação de que há trabalhos mais prazenteiros, obras mais bem sucedidas, vidas mais harmoniosas que os desmancha-prazeres que nos detestam poderão pensar. Eu ficarei com o mau papel, aquele de Filinto contra Alceste**, e contribuirei com um aceitável tributo aos seus livros e, enquanto estiver nisso, para os meus.
Finalmente, a terceira via. Respostas à questão que formulou naquele serão no restaurante, quando a ideia deste diálogo surgiu. Porquê tanto ódio? De onde vem esse ódio?*** E donde ele vem que adquire, quando se trata de escritores, uma tonalidade, uma virulência sem extremos. Você, com efeito. Eu. Mas bem mais sério, o caso de Sartre, vomitado pelos seus contemporâneos… O de Cocteau que nunca podia ver um filme até ao fim porque tinha sempre alguém à sua espera, para lhe partir a cara, à saída… Pound dentro da sua cela… Camus dentro da sua caixa… Baudelaire a descrever, numa caligrafia terrível,
“a raça humana” conluiada contra ele… a lista seria longa. Porquanto é a história da literatura que deverá reunir tudo isso na íntegra. E possivelmente – essa é a minha tese – o próprio desejo dos escritores que deveríamos tentar compreender. Que desejo? O desejo de desagradar, veremos. O gosto da rejeição. A vertigem, o gozo, na infâmia. Você escolhe.» (p. 21) [tradução a partir do inglês, com revisão em francês (texto original): AMC]
in Harper’s, “Nausea”, December 2008, pp. 21-24.
[Michel Houellebecq e Bernard-Henri Lévy, Ennemis publics. Paris: Flammarion/Grasset, octobre, 2008, 332 pp.]

Notas do excelso tradutor deste excerto:
*Referência ao filme Le jour et la nuit de 1997, escrito e realizado por BHL, com Alain Delon e Lauren Bacall, entre outros, com uma misérrima interpretação do primeiro – críticos mais contundentes dizem que o declínio do charmoso actor francês começou, qual maldição, com este filme –, tendo sido fortemente pateado na sua estreia em Cannes, visto como o exemplo acabado de “como não fazer um filme”.
**Personagens de O Misantropo de Molière (Le Misanthrope ou l'Atrabilaire amoureux, 1666).
***A partir deste ponto, traduzido a partir do texto original em francês.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Saudosismo

De Niro e Pacino em A Dupla Face da Lei, de Jon Avnet
Contra todas as recomendações externas, ultrapassando todos os obstáculos interiores típicos de um ego mais que prudente neste matéria, vi A Dupla Face da Lei (Righteous Kill, 2008) do realizador nova-iorquino Jon Avnet (n. 1949), cujo currículo fílmico é bastante pobre, permanecendo ainda na minha mente cinéfila uma bambochata apelidada de 88 minutos (88 Minutes, 2007), estreada na Primavera deste ano em Portugal.
O argumento pertence a Russell Gewirtz, o mesmo que escreveu o guião para um dos melhores filmes de 2006 Infiltrado (Inside Man) realizado por Spike Lee.
No topo dois actores: Robert De Niro e Al Pacino.
Abstenho-me de enumerar o conjunto de filmes em que ambos os actores proporcionaram momentos de puro deleite cinematográfico a uma geração que cresceu nos anos 70 e aprendeu a endeusá-los nas duas décadas seguintes. Há muitos e bons exemplos de inexcedíveis interpretações, dirigidas por entronizados mestres da 7.ª arte.
Pode-se admirar apenas um deles, ou gostar mais de um – eu, intimamente, coloco num patamar superior, o meu De Niro – apesar de se elevar à condição de ídolo o outro, são gostos, discutíveis e incensuráveis; concedo que, por mais que se tente negar, existe sempre uma plêiade de motivos e argumentos que poderão ser evocados para colocar um à frente do outro, reconheço e dá uma interessante tertúlia rememorativa, de tabaco e álcool à volta de uma mesa de entendidos e admiradores. Mas o século XXI conduziu-os ao abismo do dinheiro fácil, da interpretação quase abúlica, mas lucrativa, que não pede sacrifícios (ou não lhes souberam/quiseram pedir), estudo aturado dos personagens, análise do enquadramento do seu papel num todo complexo que forma a obra de arte.
Pacino e De Niro limitam-se, com mais ou menos peso, com mais ou menos rugas e cabelos brancos, a ser o Alfredo e o Roberto da vida quotidiana, talvez por idolatria dos responsáveis que jamais se atreverão a tocar nas vacas sagradas italo-americanos feitas a pulso, ou quiçá por restrições contratuais pré-convencionadas que legitimam o esforço mínimo, ou, porventura, por uma inevitável perda de agilidade e de sabedoria performativas – motivo, cujo fatalismo, agride de forma profunda um admirador incondicional, levando-o ao desconfortável estado de negação.
Porém, para ser rigoroso, não fui ver A Dupla Face da Lei, quis apenas assistir à interpretação da dupla que povoa a secção dourada do meu imaginário de cinéfilo. E se deixarmos de lado a segunda parte de O Padrinho de Coppola, em que ambos, por mais que encantem com as suas interpretações – como assevero que encantaram –, não contracenam, dada a impossibilidade cronológica da trama – De Niro representa o jovem D. Vito Corleone acabado de chegar à América, e Pacino é Michael, o filho mais novo do primeiro que apenas surge de fraldas nas analepses, dando os seus primeiros passos por Little Italy –, apenas sobra o portentoso Cidade Sob Pressão (Heat, 1995), soberbamente dirigido por um dos meus realizadores favoritos, Michael Mann (e com argumento do próprio).
Mann é um exímio gestor de actores e das suas representações. Não me recordo – e não fora a preguiça, poderia rapidamente verificar a inviolabilidade da inabalável asserção – da direcção de uma parelha masculina de célebres actores mal conseguida ou desajustada no grande ecrã – recordo-me, por exemplo e para não recuar mais no tempo, de Farrell e Foxx em Miami Vice (2006), ou do mesmo Foxx e Cruise no filme, bem demonstrativo do paradigma manniano, Colateral (2004).

Como falar sobre o subproduto cinematográfico que acabei de assistir, seria como teorizar sobre um conjunto de inanidades e de lugares-comuns travestidos de arte, deixo aqui ficar, para a posteridade, uma das mais deliciosas contracenas da história do cinema americano. Em Cidade sob Pressão (Heat), o tenente da polícia Vincent Hanna (Al Pacino) janta com a sua Nemésis o assaltante e homicida Neil McCauley (Robert De Niro). Eis uma passagem do longo diálogo (dura cerca de seis minutos) à mesa de um restaurante em Beverly Hills:

«Vincent Hanna: A minha vida? Não, a minha vida... A minha vida é uma catástrofe. Tenho uma enteada completamente desvairada porque o pai dela é uma besta em larga escala. Tenho uma mulher, atravessamos ambos a curva descendente do casamento – o meu terceiro –, porque passo o tempo todo a perseguir tipos como tu. É esta a minha vida.
Neil McCauley: Uma vez um tipo disse-me que não me agarrasse a nada que não pudesse largar em trinta segundos se pressentisse a tensão* ao virar da esquina. Agora, se você quer prender-me e não me pode largar, como espera conseguir manter um casamento?» [tradução: AMC]

A postura, a expressão facial, o fraseado, os tom e voz, os olhares cruzados. Caçador e presa confundem-se. Que saudades...

*N.T. – a expressão usada é “feel the heat”; “heat” tanto pode ser genericamente designado por tensão (no contexto em causa, de permanente fuga), como, em termos restritos, no jargão usado entre criminosos, pode simplesmente designar a “polícia” na sua azáfama persecutória.

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Representação de um “banho de sangue”

É um facto indesmentível, o esquivo escritor norte-americano Cormac McCarthy (n. 1933), ausentado do mundo no seu rancho no Novo México, está definitivamente na moda em Hollywood.
Depois de Belos Cavalos (All the Pretty Horses, 1992) – primeiro romance da trilogia da Fronteira –, vítima de uma paupérrima adaptação ao cinema em 2000 pelo vaidoso Billy Bob Thornton, com argumento de Ted Tally (o mesmo que adaptou o romance de Thomas Harris para o inesquecível O Silêncio dos Inocentes do sossegado Jonathan Demme) e um conjunto de interpretações a roçar o cabotinismo do, na altura, auspicioso Matt Damon, da irritante Penélope Cruz e do quase sempre deslustrado Henry Thomas (porventura, ainda sente a falta do seu amigo alienígena), apareceu a celebrada e consagrada adaptação de Este País Não É para Velhos (No Country for Old Men, 2005) pelas mãos dos desinquietos irmãos Coen.

[Depois da adjectivação de um conjunto de personagens que pululam pelas famosas colinas californianas, o desenvolvimento do texto segue o seu percurso, para os parâmetros deste blogue, normal.]

Falemos, então, de McCarthy e de parte das suas dez obras de ficção, que se vai transformando em texto para cinema, mais conhecido por argumento.
Em rodagem ou em pré-produção encontram-se mais quatro adaptações de outros tantos romances do escritor de Providence, Rhode Island:

  • Outer Dark (1968), o primeiro romance do autor, adaptação em curta-metragem, com realização e argumento a cargo do desconhecido (pelo menos, por mim) Stephen Imwalle;
  • A Estrada (The Road, 2006; ed. port. Relógio D’Água), realizado pelo australiano John Hillcoat;
  • Cities of the Plain (1998) – terceiro livro da trilogia da Fronteira – a realizar pelo neozelandês Andrew Dominik (realizou, por exemplo, o excelente O Assassínio de Jesse James…)
  • Meridiano de Sangue (Blood Meridian, 1985; ed. port. Relógio D’Água), a realizar por Ridley Scott? Já não…

Este texto do José Mário Silva contém uma citação de parte de uma mensagem de correio electrónico que lhe enviei e que remete o leitor para um texto que aqui publiquei em Agosto deste ano. A sua publicação deveu-se ao horror que se apoderou de mim e que, por excitação, se antecipou à estreia, para nem falar da rodagem, do filme Meridiano de Sangue quando foi anunciado o realizador britânico Ridley Scott para dirigir o filme.

Ponto de ordem: a razão de ser do que se segue (e não só): perda de actualidade do que aqui escrevi em Agosto. Retomo…
Porém, a indústria de Hollywood é pródiga em rumores provindos dos bastidores da indústria e em previsões proto-astrológicas. Pelos vistos os produtores de Meridiano de Sangue terão substituído Scott por Todd Field – sim, esse mesmo, o de Pecados Íntimos (Little Children, 2006), baseado no romance homónimo de Tom Perrotta.
A que se ficou a dever esta substituição? Ninguém, por enquanto, sabe, mas parece ter provocado uma certa azia ao criador de Blade Runner. Scott, em entrevista à revista Empire, diz a respeito do filme (ver o vídeo):



«Está escrito. Penso tratar-se de um [argumento] bastante complexo, e talvez seja algo que deva permanecer apenas como romance. Se se opta por [levar ao grande ecrã] Meridiano de Sangue ter-se-á de representar na íntegra o banho de sangue e não há solução para o banho de sangue, ele faz parte da história, sem tirar nem pôr. Quando se começa a escalpar em cerimónias de casamento mexicanas isso irá exigir a definição de um limite.» [tradução aproximada: AMC]

Retirada estratégica e voluntária? Ou simples vislumbre, por parte de quem financia, de um inevitável e desaconselhável produto a raiar o paroxismo do sanguinário, se for deixado às mãos do primeiro nome a quem se pensou entregar a direcção da película? (Se Maxime du Camp lesse, do inescrutável lugar onde se encontra, este blogue, teria dito: «corrige lá isso, os nomes não têm mãos»; é claro que, tal como GF, não acataria a admoestação literária.)
Analisando as palavras e a postura de Scott parece que daí advém alguma forma de ressentimento por eventual recusa, e um aviso à navegação. O argumento de Monahan também parece haver sido abandonado, cabendo a Field a dupla tarefa: escrever o guião e realizar.
De Scott conta-se uma história a propósito da produção e da rodagem de Hannibal (2001). O realizador leu e recusou filmar, pela violência que reservava, o argumento escrito por David Mamet, que foi integralmente refeito por Steven Zaillian. Mesmo assim, Liotta, despojado de grande parte do crânio – previamente cortado por Hannibal (Anthony Hopkins) –, come o seu próprio cérebro preparado pelo famoso canibal, numa das cenas mais horripilantes e grotescas de toda a história do cinema – a que se juntou uma posterior fase de hilaridade e escárnio pelo picaresco do seu conteúdo.

E tanta verborreia e palavra gasta, apenas para mencionar a desactualização do tal texto de Agosto deste ano.

Mas, se Meridiano de Sangue for parar à grande tela, estou curioso, não tanto pela forma como Field, ou, eliminado mais um realizador, outro que se lhe possa seguir, irá tentar amenizar a brutalidade imanente do romance em imagens – essa, será, como refere Scott, tarefa quase impossível –, mas pelos actores que irão fazer parte do elenco e representar papéis tão fortemente idiossincráticos como o misterioso, diabólico e pedófilo Juiz Holden, o celerado e sanguinário Glanton e o “rapaz”, o provável protagonista, de quem se conhecem os antecedentes e que se junta ao bando no início da narrativa.

Para terminar em beleza, deixo ficar uma das três epígrafes escolhidas por McCarthy para o seu extraordinário romance, que se baseia, imagine-se, em factos verídicos:

«As vossas ideias são apavorantes e os vossos corações fracos. Os vossos actos de clemência e crueldade são absurdos, executados sem ponderação, como se fossem irresistíveis. Por fim, vocês temem cada vez mais o sangue. O sangue e o tempo.»
Paul Valéry
in Cormac McCarthy, Meridiano de Sangue ou o Crepúsculo Vermelho no Oeste, p.13
[Lisboa: Relógio D’Água, Junho de 2004, 391 pp.; tradução de Paulo Faria; obra original: Blood Meridian, or the Evening Redness in the West, 1985]

Dança, dança sempre. Diz que nunca vai morrer.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Sensibilidade e Bom Senso*

Segundo debate da campanha para as presidenciais nos Estados Unidos: 7 de Outubro de 2008, Belmont University, em Nashville, Tennessee.
Uma assistente na plateia, Katie Hamm, faz a pergunta:
«Deveriam os Estados Unidos respeitar a soberania do Paquistão e não perseguir os terroristas da Al-Qaeda que aí mantêm bases, ou deveriam atravessar outras fronteiras e perseguir os nossos inimigos, como fizemos no Camboja durante a Guerra do Vietname?» [tradução: AMC]
O que se seguiu? Tenho a certeza de que a maioria dos que agora lêem estas linhas se lembra do escarnecimento e do sarcasmo de McCain – puerilidade, senilidade ou dificuldade em enfrentar os factos perante os apoios passados comprometedores prestados através de voto no Senado? – ante a resposta de Obama à pergunta formulada pela espectadora.
No fim do 4.º minuto, Obama torna a explicar a sua posição circunstanciada e clarividente; McCain na réplica veste a sua pose artrítica e sofredora e puxa dos lustrosos galões do sofrimento vietnamita…


Depois dos ataques de 26 de Novembro em Mumbai (antiga Bombaim) na Índia, que se prolongaram até anteontem, dia 29, que mataram e feriram centenas de civis inocentes, mais alguém* tem dúvidas sobre a tal necessidade de mudança que, felizmente, irá operar-se no próximo dia 20 de Janeiro na Casa Branca?

Notas: *Este blogue passa, claramente, pela sua fase mais austeniana de sempre.
**E usei a expressão “mais alguém” porque os próprios apoiantes lusos de Obama, um pouco por todo o lado, da televisão aos jornais, das rádios aos blogues, apostrofaram como infelizes aquelas declarações (eufemismo que o verbo não deixa demonstrar em toda a sua característica brandura) – alguns chamavam-lhe já o novo “falcão”.

domingo, 30 de novembro de 2008

Responsabilidade e indiferença*

«Reflecti acerca disso ao longo de anos, e a única explicação mais ou menos razoável que encontrei foi esta – há qualquer coisa errada em mim, um qualquer defeito no meu mecanismo, uma peça avariada que impede a máquina de funcionar em condições. Não estou a falar de fraqueza moral. Estou a falar da minha mente – da minha constituição mental. Creio que agora estou um pouco melhor, o problema parece ter-se esbatido com a idade, mas naqueles tempos, quando eu tinha trinta e cinco anos, trinta e oito, quarenta, havia um sentimento que não me largava, o sentimento de que a minha vida nunca me tinha realmente pertencido, de que eu nunca fora realmente eu, de que eu nunca fora real. E, como não era real, não compreendia o efeito que as minhas acções poderiam ter nos outros, os danos que poderia causar, o sofrimento que poderia infligir às pessoas que me amavam.»
Paul Auster, Homem na Escuridão, p. 137.
[Alfragide: Asa, 1.ª edição, Novembro de 2008, 160 pp.; tradução de José Vieira de Lima; obra original: Man in the Dark, 2008.]

*Dava um bom título para um romance de Jane Austen e até com uma boa abertura (da lavra desta mente torturada que vos escreve): É universalmente conhecido que, na posse de uma mente prodigiosa, um homem que atravessa a meia-idade deambula perigosamente pelo mundo sem tomar consciência dos terríveis actos que inflige aos que lhe estão mais próximos. (Título, talvez este: Impassiveness and Responsibility.)

Solidarizo-me...

«Jornalistas despedidos assinalam aniversário do jornal O Primeiro de Janeiro»

Não só porque nesse grupo estão pessoas que muito estimo e admiro profissionalmente, mas também pela impunidade do despotismo dos pequenos régulos que, assim que abocanham o poder, governam um espaço que julgam só seu – qual púbere irascível agarrado ao seu brinquedo – derrogando a ética e a responsabilidade empresariais.
Stakeholders, já alguém ouviu falar?...

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

Hipopótamos cozidos

Em termos literários, os anos 50 do século passado foram assolados por uma turba, que curiosamente germinou numa universidade, na Columbia University, em Nova Iorque, e que rapidamente foi baptizada de Beat Generation – o termo foi usado pela primeira vez pelo próprio Jack Kerouac e posto em papel num artigo no The New York Times por John Clellon Holmes e no seu romance de 1952 (dito) iniciador do movimento, Go. Também ficaram registados na História da Literatura pelo prosónimo tardio de beatnik.
Eram bêbados, toxicómanos e sexualmente promíscuos reunidos sob o signo das artes, cujos principais representantes ainda hoje se distinguem num trio que se destacou entre os reais fundadores do movimento: Kerouac, Ginsberg e Burroughs (este último não estudou em Columbia).
Em Agosto de 1944, em Riverside Park, um dos discípulos e amigo íntimo da dupla Kerouac e Burroughs, Lucien Carr (1925-2005), então com dezanove anos, esfaqueia barbaramente David Kammerer, por alegada tentativa de violação deste último ao mais novo, que já o assediava quando Carr ainda tinha uns imberbes catorze anos. Kammerer de 33 anos, amigo de infância de Burroughs em St. Louis, foi professor e era frequentador do círculo Beat.
O corpo de Kammerer é atirado ao rio Hudson e Carr refugia-se no apartamento de Burroughs, onde encontra Kerouac, trazendo a arma do crime, ainda ensanguentada, na mão.
Parte deste episódio vem descrito no romance semi-autobiográfico de 1968 de Kerouac, Duluoz, o Vaidoso (Vanity of Duluoz) – é a última obra escrita por Kerouac, que viria a falecer em 1969 –, onde para além do herói epónimo representar o próprio autor, aparecem os personagens Lucien Carr, com o nome ficcional de Claude, e David Kammerer, travestido de Mueller:

«No momento em que vou a passar diante da St. Paul’s Chapel, no campus, e começo a descer as velhas escadas de madeira que ali existiam, eis que surge Mueller no seu passo saltitante e ávido, de barbas, na penumbra, a caminhar na minha direcção, avista-me, pergunta: – Onde está o Claude?
– No West End.
– Obrigado. Até à vista! – E vejo-o precipitar-se ao encontro da morte.
[…]
[E]is ali Claude, de pé ao meu lado, com o cabelo loiro nos olhos, a sacudir-me pelo braço. […] Ele diz “Bom, despachei o velho a noite passada.”
[…]
– Para que é que foste fazer uma coisa dessas?
– Agora não há tempo para isso, ainda tenho a navalha e os óculos dele todos sujos de sangue. Queres vir comigo, a ver como é que havemos de os deitar fora?
[…]
– Apunhalei-o doze vezes no coração com a minha navalha de escuteiro.
– Porquê?
– Ele atirou-se a mim. Disse que me amava imenso e essas coisas todas e que não era capaz de viver sem mim e que me ia matar, que nos ia matar aos dois.
»
Jack Kerouac, Duluoz, o Vaidoso, pp. 236-237.
[Lisboa: Relógio D’Água, Abril de 2008, 285 pp.; tradução de Paulo Faria; obra original: Vanity of Duluoz, 1968]

Dois dias depois, Carr entregava-se às autoridades, e Kerouac e Burroughs são presos por cumplicidade. Burroughs sai sob fiança paga pela família, Kerouac permanece na prisão por recusa terminante do seu pai em pagar aquele valor fixado pelo tribunal. Kerouac só sairá após um casamento meteórico com Edie Parker, que assim pode aceder aos fundos da herança deixados pelo seu avô e pagar a fiança ao marido – ambos anulam o casamento passado um ano. Carr, atendendo à sua idade na altura da ocorrência dos factos e da prova produzida no que respeita ao assédio permanente de Kammerer, é condenado apenas por homicídio em 2.º grau e ao internamento num reformatório entre um e sete anos, sai ao fim de dois.

Em 1945, Kerouac e Burroughs escrevem um romance a duas mãos, a que deram o título de And the Hippos Were boiled in Their Tanks (tradução literal: E os hipopótamos foram cozidos nos seus tanques), título grotesco que tem na sua origem um incêndio ocorrido no zoo de Nova Iorque onde os colossais mamíferos foram literalmente cozinhados – Consider the Hippo, poderia ter sido um título de um manifesto de defesa dos animais escrito pelo recentemente falecido David Foster Wallace, se a prática do “hipopótamo suado” tivesse alastrado às ementas dos restaurantes no mundo ocidental.

Sessenta e três anos depois, a Grove Press (nos EUA) e a Penguin (no Reino Unido) publicam o dito romance.


«WILL DENNISON*

»Aos sábados à noite os bares fecham às três da manhã, assim cheguei a casa por volta das 3:45, depois de ter comido o pequeno-almoço no Riker’s na esquina da Christopher Street com a 7.ª avenida. Atirei o News e o Mirror para cima do sofá e esbulhei-me do meu caso de seersucker atirando-o para cima deles. Eu ia direitinho para a cama.
Nesse instante, a campainha tocou. É uma campainha estridente que te trespassa, logo apressei-me pela sala para carregar no botão e abrir a porta lá de baixo. Tirei o casaco do sofá e assestei-o a uma cadeira para que ninguém se sentasse em cima dele, e meti o jornais numa gaveta. Eu queria ter a certeza de que eles ainda estariam por cá quando acordasse durante a manhã. Caminhei em direcção à porta e abri-a. Eu cronometrei o tempo preciso para que eles não tivessem hipótese de bater à porta.
Quatro pessoas entraram na sala. Agora, dir-vos-ei de forma genérica quem eles eram e como era a sua aparência, uma vez que a histórica diz sobretudo respeito a dois deles.
»
William S. Burroughs e Jack Kerouac, And the Hippos Were Boiled in Their Tanks, pp. 3-4 [tradução: AMC]
[New York: Grove Press, first edition, November, 2008, 224 pp.]

Nota: *os capítulos de Will Dennison, detective de profissão, foram escritos por Burroughs.

E assim se divertiam os beatniks, deixando os bacanais e as orgias de drogas e álcool de lado, esfaqueavam-se uns aos outros e, por vezes, há quem diga, interpretavam com afinco o papel do herói o suíço William Tell e dedicavam-se ao famoso jogo da maçã, substituindo o arco e a flecha por um revólver… é um problema de Guilhermes, enquanto um procurava salvar e salvou a mulher, o outro matou acidentalmente a sua na prática desse jogo delicioso, para confessar décadas depois que a matou intencionalmente porque já não a suportava.

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Combate à memória

When I shall go
Into the narrow home that leaves
No room for wringing of the hands and hair,
And feel the pressing of the walls which bear
The heavy sod upon my heart that grieves,
(As the weird earth rolls on),
Then I shall know
What is the power of destiny. But still,
Still while my life, however sad, be mine,
I war with memory, striving to divine
Phantom to-morrows, to outrun the past;
For yet the tears of final, absolute ill
And ruinous knowledge of my fate I shun.
Even as the frail, instinctive weed
Tries, through unending shade, to reach at last
A shining, mellowing, rapture-giving sun;
So in the deed of breathing joy's warm breath,
Fain to succeed,
I, too, in colorless longings, hope till death.

Rose Hawthorne, “Death’s Eloquence”, Along the Shore (1888)

Rose Hawthorne (1851-1926), terceira de três filhos (Una e Julian) do gigante Nathaniel Hawthorne (1804-1864).

Vocês sabem do que estou a falar®…

«É o que eu faço quando o sono se recusa a vir. Deixo-me ficar deitado na cama e conto-me histórias. Podem não ser nada de especial, mas, enquanto estou dentro delas, impedem-me de pensar nas coisas que preferiria esquecer.»

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Ah, o verdadeiro “Macho… Arábico”!

Aos marialvas, aos machões, aos taberneiros, ao homem português médio (afinfador polissémico), aos bigodados, aos raybanistas de aro dourado e lente esverdeada… aos palhaços.
Se vos acháveis orgulhosos pelo entupimento diário das urgências hospitalares provocado por casuais percalços físicos conjugais; se vos consideráveis como verdadeiros átilas domésticos sempre que ultrapassáveis a soleira da porta, onde jamais o bolor voltou a crescer, descarregando no ente amado a frustração e a ignomínia diárias dos mandos e desmandos dos vossos superiores, que, desgraçadas, numa ânsia feminil, vos espera com o quente manjar dos deuses servido, a alfazema da roupa lavada e a diligente geometria da cama feita, eis que surge algo que vos fará corar de inveja, pondo a nu a profundidade da vossa incompetência autoritária intramuros.
Quando lerdes as palavras que abaixo se reproduzem, agarrai-os com força, não os deixeis fugir, e pesai-os perante a tranquila preeminência e sensatez doutrinal que veio das arábias…
Ah, meu terno, alambicado e possessivo macho latino, quo vadis?

«Os homens batem mais vezes nas mulheres do que as mulheres batem nos homens. Alá criou as mulheres delicadas, frágeis, servis e macias porque elas usam mais as emoções do que usam os seus corpos. Embora o homem possa usar o açoitamento para disciplinar a mulher, ela por vezes usa as lágrimas para o disciplinar. Para os homens, as emoções das mulheres poderão ser mais violentas do que o golpe de uma espada.
Antes de bater numa mulher, repreenda-a primeiro – uma vez, duas, três, quatro ou dez vezes. Se isso não ajudar, deverá regressar ao ensinamento “recusar partilhar as suas camas.” Assim, um marido distancia-se ele próprio da mulher na cama e na conversação. Se um marido chega para comer uma refeição e a sua mulher lhe perguntar, “Como estás?” “Queres alguma coisa?” ele não deve responder. O marido não deve dormir com a sua mulher. Ele deverá dormir noutro quarto.
Se isso não ajudar, então a terceira opção do marido é a de açoitar suavemente a sua mulher de modo a não deixar uma marca. Ele não pode desfigurar a sua cara. Bater na cara é proibido. Mesmo que queira que o seu burro ou camelo caminhe mais depressa, não está autorizado a bater-lhe na cara. Se este é o comportamento correcto nos animais, ainda o é mais nos humanos. Se o marido estiver irritado com a sua mulher – se ele lhe disser, “Cuidado, a criança caiu perto do fogão,” e ela disser, “Estou atarefada” – então o marido deverá bater na sua mulher com um palito ou com algo do género*. Ele não deverá bater-lhe com uma garrafa de água, um prato ou uma faca. Repare quão delicado é um palito quando usado para bater – isto mostra-lhe que o objectivo não é o de infligir dor. Quando bate num animal, pretende que isso lhe provoque dor para que ele lhe obedeça, porque um camelo não entenderia se lhe dissesse, “Camelo, anda, mexe-te.” Um burro não entende nada mais para além dos açoitamentos, mas para uma mulher, um açoite leve transmite, “Mulher, foste longe de mais.”
Um marido não deverá bater na sua mulher como o faria a um filho, batendo-lhe a torto e a direito. Infelizmente, muitos maridos batem nas suas mulheres apenas quando ficam irritados, e quando começam a bater, eles usam ambas as mãos e algumas vezes os pés, como se estivessem a esmurrar uma parede. Lembra-te, irmão, isso é proibido; a tua mulher é um ser humano.
»
*ou talvez, com o avanço tecnológico, com fio dental [nota simplesmente desnecessária e jocoso-especulativa deste vosso tradutor].
in Harper’s, “Beat Her Like a Lady”, November, 2008, p. 29. [tradução: AMC]

Segundo a Harper’s, que atribuiu ao texto o subtítulo Etiqueta, estas palavras foram proferidas num programa televisivo transmitido no ano passado na Arábia Saudita e no Kuwait pelo clérigo Muhammad al’Arifi. Destinavam-se a aconselhar os jovens maridos na forma de tratamento das suas mulheres.

Depois de ter testemunhado a verdadeira epifania funcional do “palito”, ainda dizem que estes árabes não são civilizados...
Imaginem só se um destes homens entrasse num restaurante português e assistisse ao triste espectáculo daquelas mãos afanadas a cuspinhar a barbela, pontuada por aquele chilreio salivar interdental.

[disclaimer: este texto demonstra cabalmente o estado de espírito (se é que ele o tem) do autor deste blogue: sem paciência, rasteiro, hortero como suelen decir os meus queridos amigos espanhóis.]

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Sátira de um exílio

A Ulisseia acaba de lançar no mercado nacional o primeiro livro da trilogia que finalizou a obra de Louis-Ferdinand Céline (1894-1961), escritor maldito pela sua associação ao governo fantoche do Regime de Vichy durante a ocupação alemã de parte da França entre 1940 e 1944 e pelas suas ideias marcadamente racistas, xenófobas e anti-semitas.
Trata-se de uma reedição há muito aguardada no mercado editorial português – o mesmo livro havia sido publicado pela Dom Quixote em 1992, sob o título De Castelo em Castelo, actualmente encontrava-se esgotado – que recebeu desta feita o título de Castelos Perigosos (D’un château l’autre, 1957).
Castelos Perigosos retrata, em forma de romance, escrito na primeira pessoa, o picaresco do exílio do autor entre 1944 e 1945 em Sigmaringen, no Estado Baden-Württemberg, no sudoeste da Alemanha, em companhia dos colaboracionistas do governo de Vichy, onde aquele tentava retomar o exercício da sua profissão de médico – Céline era Doutor em Medicina desde 1924, pela École de médecine de Rennes.
A trilogia completa-se com os romances Nord (1960) e Rigodon (1969; publicado postumamente), todos sob a chancela da Gallimard – romances ainda inéditos em Portugal, sabendo-se que, segundo a Ulisseia, a segunda obra da trilogia já se encontra no prelo (ou, pelo menos, na vizinhança da tipografia) sob o título Norte; esperando que a mesma editora venha a publicar num futuro próximo o terceiro volume, ampliando assim a sensatez demonstrada com a publicação dos dois primeiros.
Apesar da profunda náusea e do menosprezo que poderão assaltar a mente mais empedernida, pelo terrível passado panfletário que fizeram do autor um torcionário intelectual, associado a um dos regimes mais hediondos que a História da humanidade jamais conheceu, Céline é quase unanimemente considerado pela crítica e pelos seus pares como um dos melhores escritores franceses de todo o século XX; consideração que em muito contribuíram as suas duas primeiras e notáveis obras, ainda publicadas na era pré-Vichy: Viagem ao Fim da Noite (Voyage au bout de la nuit, 1932; ed. port. Ulisseia) e Morte a Crédito (Mort à crédit, 1936; ed. port. Assírio & Alvim).

Sem conseguir resistir à transcrição, deixo aqui ficar o primeiro e longo parágrafo da obra que deu origem a este texto:
«Para falar com franqueza, aqui entre nós, eu ainda acabo pior do que comecei… Oh! não comecei muito bem… nasci, repito, em Courbevoie, Sena… repito-o pela milésima vez… depois de muitas andanças chego ao fim da vida realmente muito mal… a idade, dir-me-á você… a idade!… pois claro!… com sessenta e três anos feitos, torna-se muito difícil refazer a vida… ganhar de novo clientela… aqui ou em qualquer outro sítio!… já me esquecia de lhe dizer!… sou médico… a clientela médica, e isto que fique entre nós, em confidência, não é apenas uma questão de ciência e de consciência… mas sim, em primeiro lugar, e acima de tudo, de encanto pessoal… encanto pessoal depois dos sessenta? com uma idade destas você ainda pode fazer de manequim no museu, de figura decorativa… talvez… e agradar a uns quantos excêntricos, curiosos de enigmas… e as senhoras? o velhote anda nos trinques, perfumado, pintado, laca no cabelo?… um espantalho! com clientela ou sem clientela, exercendo medicina ou não, ele provoca-lhes vómitos!… e se estiver podre de rico?… ainda vá!… é tolerado… hum! hum!… mas um velho de cabelos brancos e sem dinheiro?… ele que se vá embora! basta ouvir as clientes nos passeios, nas lojas… a falar de um jovem colega dele… “oh! sabe, minha senhora!… minha senhora!… que olhos! que olhos, aquele médico!… entendeu logo o meu caso!… e as gotas que ele me receitou! ao almoço e ao jantar!… que gotas!… este jovem médico é maravilhoso!…” mas espere a sua vez… espere até elas falarem de si!… “embirrento, desdentado, ignorante, corcunda, sempre a cuspinhar…” elas vingam-se de si!… a tagarelice das senhoras é soberana!… enquanto os homens parem as leis, as senhoras só se ocupam de coisas sérias: a Opinião Pública!… uma clientela médica é feita pelas senhoras!. .. não as tem do seu lado?… deite-se a afogar!… as suas senhoras são umas atrasadas mentais, umas idiotas de fugir?… tanto melhor! quanto mais tacanhas, casmurras e irredutivelmente estúpidas, mais soberanas elas são!… arrume a bata, e o resto!… o resto?… roubaram-me tudo em Montmartre!… tudo!… na rue Girardon!… repito-o e nunca o repetirei o bastante!… fazem de conta que não me ouvem… justamente as coisas que devem ouvir!… no entanto eu ponho os pontos nos ii… tudo!… uns indivíduos, libertadores e vingadores, entraram em minha casa por arrombamento, e levaram tudo para a Feira da Ladra!… tudo passado a patacos!… não estou a exagerar, tenho provas, testemunhas, nomes… todos os meus livros e os meus instrumentos, os meus móveis e os meus manuscritos!… a tralha toda!… não encontrei nada!… nem um lenço, nem uma cadeira!… até as paredes eles venderam!… a casa, tudo!… saldado!… metido ao bolso!… e ponto final! sei o que você pensa! estou a ouvi-lo!… é natural! oh! que isto não lhe acontecerá! que nada de semelhante lhe acontecerá! que tomou as devidas precauções!… que é tão comunista como qualquer milionário, tão poujadista como Poujade tão russo como todas as saladas, mais americano que Buffalo!… perfeitamente conluiado com tudo o que é importante, Loja, Célula, Sacristia, Ministério Público!… Vrunzês da nova vaga como ninguém!… o sentido da História passa-lhe pelo meio das nádegas!… irmão honorário?… claro!… criado de carrasco? veremos!… adulador da guilhotina?… he! he!»
Louis-Ferdinand Céline, Castelos Perigosos, pp. 7-8.
[Lisboa: Ulisseia, Setembro de 2008, 362 pp.; tradução de Clara Alvarez; obra original: D’un château l’autre, 1957].


Como dizia o MEC, por outras palavras, mas cujo sentido é o que se segue, se fôssemos a eliminar todos os livros de todos os autores com gigantescos esqueletos no armário – pederastas, nazis, estalinistas, assassinos, toxicómanos, bêbados, adúlteros, burlões, etc. – ficaríamos reduzidos às excepcionais obras de Samuel Beckett, que, segundo ele – e eu confirmo, por aquilo que conheço de um dos meus autores favoritos, residente no meu top-5 literário –, era um santo.
Entretanto, para quem já leu, vai lendo ou faz tenções de ler as obras fundamentais de Pound, Gorki, Bernard Shaw ou Jünger (para não sair da linha acusatória celiniana), este livro não irá legitimar, de forma alguma, a hediondez doutrinária perfilhada pelo autor francês.

domingo, 23 de novembro de 2008

Realismo e a visão cinemática

I

«Ao sabor do acaso, subia o Quartier Latin, habitualmente tão tumultuoso, mas deserto naquela época, porque os estudantes tinham partido para casa da família. Os grandes muros das escolas, como que alongados pelo silêncio, tinham um aspecto ainda mais taciturno; ouviam-se todas as espécies de ruídos calmos, batimentos de asas nas gaiolas, o fragor de um torno, o martelo de um sapateiro; e os vendedores de roupa, no meio das ruas, interrogavam com o olhar cada janela, inutilmente. No fundo dos cafés solitários, a mulher que atendia ao balcão bocejava entre as garrafas cheias; os jornais permaneciam arrumados na mesa dos reservados de leitura; na oficina das engomadeiras, as roupas estremeciam sob as lufadas do vento tépido. De vez em quando, detinha-se diante da montra de um alfarrabista; um ónibus, que descia roçando o passeio, fazia-o voltar-se; e, chegado em frente do Luxembourg, não ia mais além.»
Gustave Flaubert, A Educação Sentimental, p. 59.
[Lisboa: Relógio D’Água, Outubro de 2008, 367 pp.; tradução de João Costa; obra original: L’Éducation sentimentale, 1869.]


II

«Isto foi publicado em 1869, mas podia ter surgido em 1969; muitos romancistas soam essencialmente ao mesmo. Flaubert parece perscrutar as ruas de uma forma indiferente, como uma câmara. Enquanto assistimos a um filme não somos capazes de determinar aquilo que foi excluído, aquilo que ficou de fora das margens do enquadramento da câmara, da mesma maneira que não somos capazes de assinalar o que Flaubert decidiu não assinalar. E já não reparamos que aquilo que ele escolheu não foi, como é óbvio, casualmente procurado mas ferozmente bem escolhido, em que cada pormenor é quase coalhado no seu soro de escolhimento. Quão soberba e magnificamente isolados estão estes pormenores – a mulher a bocejar, os jornais, por ler, arrumados, as roupas a estremecer ao vento tépido.»
James Wood, How Fiction Works, p. 33. [tradução: AMC]
[London: Jonathan Cape, 2008, 194 pp.]

Nota: uma vez mais, apesar da promessa de não intervenção autoral no domingo das citações, vejo-me obrigado a deixar umas pequenas anotações para, lá está, dar o devido enquadramento, de natureza não especulativa – senão largava-as tout court –, àquilo que acima foi reproduzido.
James Wood é um admirador confesso de Flaubert, atribuindo-lhe a paternidade do realismo literário e o papel de precursor da narrativa moderna – assim como João Baptista para os vários cristos (os ungidos da modernidade), sem, no entanto perder a cabeça por uma Salomé… não, esse foi o pai do Eterno Retorno… [passagem bem demonstrativa da precariedade humorística que atravessa este blogue].
Para além das longas divagações woodianas sobre o uso e abuso do “discurso indirecto livre”, uma marca distintiva em Flaubert e em Henry James, o crítico britânico fica fascinado pela forma como o escritor francês trabalha a sua narrativa em torno da invisibilidade autoral, ou do processo em que as palavras do protagonista parecem cortar o cordão umbilical que o liga ao criador, actuando com vida própria, semelhante à vida, criando no leitor uma espécie de assombro. Nas palavras de Flaubert, retiradas do livro de Wood (p. 34,; tradução: AMC):

«Um autor no seu trabalho tem de ser como Deus no universo, presente em todo a parte e visível em nenhuma.»

Anotação à nota anterior: este capítulo do livro de Wood é verdadeiramente uma delícia para quem gosta e se interessa por Literatura (palavra intencionalmente grafada desta forma), principalmente com a riqueza dos exemplos reveladores, não só de trabalho árduo (investigação), mas sobretudo de uma memória e de uma erudição ímpares. A seguir, ainda neste registo, faz-se a comparação entre o famoso poema de Auden perante a observação do picaresco quadro de Brueghel, A Queda de Ícaro; a atitude de Andrómaca perante a recentíssima morte de Heitor, o seu marido, no Canto XXII da Ilíada; o famoso traveling narrativo de McEwan em Expiação, quando Robbie deambula no cenário de devastação na praia de Dunquerque.