«O que é estranho é que, precisamente quando Shakespeare ostentava abertamente o seu desafogo financeiro, a companhia dos Lord Chamberlain’s Men atravessava uma grave crise financeira.» (Bill Bryson, Shakespeare, Bertrand, 2008, p. 127).
«Glenn Gould said, "Isolation is the indispensable component of human happiness."» [Contraponto] «How close to the self can we get without losing everything?»
Don DeLillo, “Counterpoint”, Brick, 2004.
sábado, 7 de fevereiro de 2009
Ingenuidade?
quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009
Morreu o Psychobilly

Lux Interior
(Stow, OH, 21 de Outubro de 1946 – Glendale, Calif., 4 de Fevereiro de 2009)
«Life is short, filled of stuff. Don’t know what for, I ain't had enough.»
New Kind of Kick
quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009
O Estranho Caso do Underdog
Fã de Milk, apreciador de Dúvida (Doubt), percebe-se um certo desencanto, de certa forma atenuado pela sua idiossincrasia: calmo, metódico e, sobretudo, um homem independente no seu sentido mais lato.
A partir de amanhã tentarei provar, segundo ouvi dizer, dessas histeria e agitação fílmicas boylianas.
terça-feira, 3 de fevereiro de 2009
6 Goyas para a Obra
Se dúvidas restassem quanto à expansão da impressionante máquina de produção cinematográfica em Espanha, um número, 163 longas-metragens a concurso, serviria para desfazer qualquer equívoco, para além das 110 curtas-metragens candidatas – não esquecendo que a Academia Espanhola procura envolver toda a comunidade de língua castelhana espalhada pelo mundo, como também os idiomas regionais de Espanha.
Questões para reflectir, enquanto por cá se produz e discute o cine-lixo, ainda por cima de contrafacção da Meca do cinema mundial, renegando os valores próprios da nossa cultura, que os espanhóis tão sabiamente sabem proteger, apesar da inevitável tendência mimética facilmente vislumbrável em muitos dos seus filmes.
Depois das nomeações, anunciadas no passado mês de Dezembro, o grande vencedor da noite foi o filme Camino do realizador madrileno Javier Fesser (n. 1964), nomeado para 7 categorias, arrecadou 6 prémios Goya: melhores “Filme”, “Realizador”, “Argumento Original”, “Actor Secundário – Jordi Dauder”, “Actriz – Carmen Elías” e “Actriz Revelação – Nerea Camacho”.
Camino, baseia-se em factos reais e narra a luta eterna entre a fé e a razão, entre o espiritual e o humano, numa triste história da morte de uma menina inserida com a sua família no meio da sinistra organização religiosa Opus Dei fundada por Josemaría Escrivá de Balaguer – agora santo, protagonista da canonização mais rápida de toda a história da Igreja Católica, ainda no papado de João Paulo II. Camino é também o título do livro escrito pelo fundador da Obra em 1939 que serve de guia a todos os sectários da prelatura pessoal do Papa.
(Carregar aqui ou aqui para obter mais informações sobre o filme vencedor.)
Entretanto, fiquemo-nos pelo trailer, para a conversa não divergir para os meandros de tão obscura organização tentacular, tanto em Espanha, como em Portugal, assim como o arrojado enraizamento na América Latina:
*«Uma sociedade de damas e cavalheiros vem jantar às seis da tarde. Eu sirvo à mesa e, desta vez, não entorno o vinho. Uma bofetada vale mais que dez repreensões: por seu intermédio compreendemos depressa, particularmente se for aplicada por uma pequenina e gordinha mão de mulher.»
Leopold von Sacher-Masoch, A Vénus de Kazabaïka, p. 127
(Lisboa: Relógio D’Água, 1994, 174 pp.; tradução de Ana Hatherly; obra original: Venus im Pelz, 1870.)
segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009
B.I. Musical
Proposto pelo Henrique, este desafio é bem mais complicado do que realmente aparenta. Lembramo-nos de canções, de músicas e letras, e associamo-las a diversas situações da nossa vida, a bons e a maus momentos, desespero, noites de insónia, a intraduzíveis momentos de alegria, à saudade, a medos e anseios; porém, dificilmente as encaixamos nas dez singelas questões que esta dúbia corrente nos propõe. Tentei introduzir nas questões alguns dos meus cantores e/ou grupos favoritos, mas o tempo que isso pedia não o permitiu; ficou a ganhar a espontaneidade.
Sem mais palavras vãs, eis o meu bilhete de identidade musical:
1 - És homem ou mulher?
«Eu sou o homem da cidade que manhã cedo acorda e canta, e, por amar a liberdade, com a cidade se levanta.» - Carlos do Carmo, “Um Homem na Cidade”.
«I was born in the city, but I longed to run free. A screaming horse in my belly, scar on my heart, I live outside of convention. You Know the people who stare.» - The Cult, “Wild Hearted Son” + «But don’t play with me, ‘cause you’re playing with fire.» - Rolling Stones, “Play With Fire”.
«Call me unpredictable, tell me I’m impractical. Rainbows I’m inclined to pursue.» but «You’re just too marvelous, too marvelous for words. Like “glorious”, “glamorous” and that old standby “amorous”.» ambas cantadas por Frank Sinatra “Call me irresponsible” e “Too Marvelous for Words”, respectivamente.
«Take your hands off me. I don't belong to you, you see. Take a look at my face for the last time. I never knew you. You never knew me. Say hello goodbye.» - Soft Cell, “Say Hello, Wave Goodbye”
«This is the happy house – we’re happy here in the happy house – oh it’s such fun.» - Siouxsie and the Banshees, “Happy House”
«Should I stay or should I go now? Should I stay or should I go now? If I go there will be trouble. And if I stay it will be double. So come on and let me know.» - The Clash, “Should I Stay or Should I Go”.
«As loud as hell a ringing bell, behind my smile it shakes my teeth, and all the while as vampires feed, I bleed.» - Pixies, “I Bleed”
«Vivendo dessa maneira continuar é besteira. Não adianta não, não, não. O que passou é poeira. Deixa de asneira que eu não sou limão. Não sou limão, eu não!» - João Gilberto, “De conversa em conversa”
«I want to see my family, my wife and child waiting for me. I’ve got to go home. I’ve been so alone, you see.» - New Order, “Love Vigilantes”.
«When desire becomes an illness instead of a joy, and gilt a necessity that got to be destroyed.» - The The, “Infected”.
11 – Passa a corrente a cinco pessoas.
«And I can't break the chain. God help me break the chain. I wanna break the chain, please help me break the chain.» - Gene Loves Jezebel, “Break The Chain”.
(Porém, inusitadamente, Deus ajudou…)
domingo, 1 de fevereiro de 2009
Praia
Roberto Bolaño, “Playa”, in El Mundo*, 17/Agosto/2000 [tradução: AMC, 2009]
*série de contos escritos por vários autores subordinados ao tema “O pior Verão da minha vida” e publicados no Verão de 2000 no jornal espanhol El Mundo. Para além de Bolaño participarem neste desafio escritores como Zoé Valdés, Francisco Umbral, Eduardo Mendicutti, Manuel Hidalgo, Juan Marsé, Ignacio Padilla, Lucía Etxebarria, Guillermo Cabrera Infante, José Ovejero, entre outros.
sábado, 31 de janeiro de 2009
Os meus leitores votaram
A listagem foi facilmente organizada, e incluiu os filmes vencedores entre 1989 e 2008 (produzidos entre 1988 e 2007, apresentados entre a 61.ª e a 80.ª sessões de entrega dos Óscares), que, como terão reparado, iam desde o musical, por exemplo, o mauzinho filme Chicago de Rob Marshall, com argumento de Bill Condon – género que, confesso, anda bem longe das minhas preferências – ao mais sombrio dos thrillers, onde podemos sem qualquer dúvida incluir filmes como O Silêncio dos Inocentes (The Silence of the Lambs, 1991) de Jonathan Demme, com argumento de Ted Tally – filme que foi um dos raros na história dos Óscares a arrecadar as cinco estatuetas das principais categorias –, ou Este País Não É para Velhos (No Country for Old Men, 2007) com realização e argumento a cargo dos manos Joel e Ethan Coen, passando pelos géneros fantástico, biográfico, western, histórico, épico, e pelas películas de forte pendor melodramático, do mais xaroposo e lamechas ao mais cru e bem gerido em termos emocionais.
De todas a categorias atrás mencionadas, não há uma onde talvez possamos encaixar o filme vencedor deste pequeno inquérito, como veremos.
Votaram 82 pessoas (sem hipótese de repetição, a não ser por meios mais ou menos ilícitos e sofisticados de supressão de cookies ou de votar em vários computadores com diferentes acessos à internet).
Beleza Americana (American Beauty, 1999), filme realizado pelo britânico (de ascendência lusa) Sam Mendes, com o argumento original de Alan Ball (o criador da consagrada série televisiva Sete Palmos de Terra). O filme arrecadou 5 Óscares na sua 72.ª cerimónia de entrega (encontrava-se nomeado para 8). Para além da estatueta para “Melhor Filme”, venceu nas categorias para melhores “Realizador”, “Actor” (soberba interpretação de Kevin Spacey), “Argumento Original” e “Fotrografia”, perdendo, de forma inexplicável, o Óscar de “Melhor Banda Sonora Original”, composta por Thomas Newman, para a do filme O Violino Vermelho (Le violon rouge) criada por John Corigliano, realizado pelo canadiano francófono François Girard (e se bem estão recordados, realizador do meloso e pegajoso Seda em 2007, baseado num romance do autor italiano Alessandro Barrico).
Eis, então, os primeiros três classificados (4 filmes), que dividiram entre si cerca de 63% dos votos, um pouco abaixo dos dois terços:
- Beleza Americana (American Beauty, 1999), de Sam Mendes – 18 votos (21%);
- Imperdoável (Unforgiven, 1992), de Clint Eastwood – 15 votos (18%);
- A Lista de Schindler (Schindler’s List, 1993), de Steven Spielberg, e O Silêncio dos Inocentes (The Silence of the Lambs, 1991), de Jonathan Demme – ambos com 10 votos cada (12% + 12%).
Outras notas:
- Em branco ficaram 4 dos 20 filmes: Chicago (2002) de Rob Marshall, O Desafio do Guerreiro (Braveheart, 1995) de Mel Gibson, Gladiador (Gladiator, 2000) de Ridley Scott, e Miss Daisy (Driving Miss Daisy, 1989) de Bruce Beresford;
- Durante as últimas duas décadas houve dois filmes que conseguiram igualar o recordista do número de estatuetas arrecadas, 11 no total, Ben-Hur (1959) de William Wyler: Titanic (1997) de James Cameron e O Senhor dos Anéis: O Regresso do Rei (The Lord of the Rings: The Return of the King, 2003) de Peter Jackson, receberam 1 voto e 4 votos, respectivamente;
- Finalmente, e refiro-o com alguma pena minha, apesar de toda a campanha promocional e do lóbi das Caldas do meu querido amigo Henrique Fialho, Imperdoável de Clint Eastwood andou quase sempre atrás do filme vencedor.
Até ao dia 22, haverá mais qualquer coisa inútil na coluna do lado direito deste blogue. Jogos florais sobre cinema e para votar, obviamente.
Por enquanto, deixo-vos ficar uma das cenas mais marcantes do excelente filme vencedor:
«It’s the weirdest thing. I feel like I've been in a coma for about twenty years. And I'm just now waking up. Spectacular!» [“Lester Burnham”, Kevin Spacey]
sexta-feira, 30 de janeiro de 2009
Essa difícil arte, a de editar
Updike tinha 76 anos. A 18 de Março duplicaria o algarismo mágico. Publicou, entre romances, ensaios, antologias poéticas e colectâneas de críticas, mais de cinquenta obras. Nasceu em 1932 numa pequena comunidade rural do Estado da Pensilvânia, e agarrou-se à vida, esgadanhando-se para manter a cabeça à tona no lamaçal do negócio das letras – lá por ser arte, palavras soltas, preto no branco, que se formam pelo toque do génio e que se transformam em quimeras aos olhos dos seus leitores, não deixa de ser um negócio como outro qualquer: mercado, volume, margens, lucro.
Morreu a publicar. O seu último romance foi editado no último trimestre de 2008, quando as metástases da doença decerto o impediriam de articular verbalmente as palavras que sempre gostou de proferir. No seu canto isolado no Massachusetts. Nova Iorque, pressentira havia anos, destruí-lo-ia e devoraria a sua notável obra. Espectral como um vitral iridescente de uma igreja medieval, os seus escritos conquistaram a pulso tudo o que havia para vencer, Pulitzer, National Book Award, PEN/Faulkner, American… excepto o Nobel. Escrita regional que não participa no grande diálogo da literatura, poderia referir o sueco indiscreto. Uma imagem borgiana, uma biblioteca em que se produz um diálogo tal – algazarra, vozearia – que destrói a verdadeira essência de um livro, o diálogo interior entre autor e leitor através das letras impressas, mil vezes ampliado em colunas de agudos, médios e graves de imaginosas viaturas de tuning, dispostas em filas organizadas nos corredores da biblioteca high-tech.
Vários obituários, elegias e notas comoventes de uma perda imensa para a Literatura, produzidos por colegas escritores, críticos literários, editores, gente anónima.
A sua edição em no nosso país, apenas conheceu alguma fase de prosperidade desde há dois ou três anos, medida pelo número de títulos publicados. Uma editora, aqui da minha terra, a Civilização publicou e completará (espera-se) a tetralogia do Coelho – acreditando que prossiga com a 5.ª parte, ou com a meia parte após o 4.º romance, a novela póstuma de Harry Angstrom, Rabbit Remembered (2001) agora publicada separadamente da antologia de contos Licks of Love (2000) – assim como publicou o feérico Brasil (Brazil, 1994) uma extrapolação de Tristão e Isolda, Procurai a Minha Face (Seek My Face, 2002) e O Terrorista (The Terrorist, 2006). No mercado podemos ainda encontrar S. (1988; ed. port. Livros do Brasil), O Centauro (The Centaur, 1963; ed. port. Europa-América) e o fascinante, fracturante e monumental Casais Trocados (Couples, 1968; reimpressão/ed. port. Modo de Ler/Inova).
Quando soube da notícia, procurei em vão na sua editora portuguesa textos, algumas palavras, uma frase apenas que descrevesse a honra de o haver editado e talvez uma manifestação de interesse, firme e inequívoca, pela continuidade na publicação das suas obras inéditas neste país de filisteus. Nada de nada. Nem uma linha. Nem uma nota de pé de página. Apenas a estrepitosa publicidade ao primeiro romance de Richard Yates (1926-1992), publicado com 47 anos de atraso, tudo porque o filme estreou hoje em Portugal, que ressuscita o casalinho do horripilante Titanic (1997) de James Cameron.
Pois claro, o mercado não se compadece com episódios de morte. Com lamechices e a amaricada (antimariálvica) exteriorização de sentimentos de perda. Porém, para mim, talvez um palerma de um idealista, isto não é editar. Qualquer semelhança com essa nobre arte é pura coincidência. Estariam melhor em Mirandela, assim que o frio se anuncia, a atiçar o fogo para a produção dos famosos enchidos em forma de “U”. Páginas queimadas que nos matam a fome.
Falta-me a palavra certa.
«Com uma ominosa frequência, não consigo pensar na palavra certa. Eu sei que existe a palavra; não consigo vislumbrar a forma exacta que ela ocupa no quebra-cabeças da língua inglesa. Mas a própria palavra, com a sua precisa expressividade e o seu matiz único de significação, aguarda no limiar nebuloso da consciência.»
John Updike, “The Writer in Winter”, AARP The Magazine, November/December, 2008.
quinta-feira, 29 de janeiro de 2009
Rose/Denby/Scott
Para o efeito, Rose convidou dois dos mais prestigiados críticos de cinema norte-americanos: David Denby da revista The New Yorker e A.O. Scott do jornal The New York Times. Críticos com gostos dissemelhantes e de gerações diferentes, que escrevem em dois dos mais importantes órgãos de informação do país, também distintos entre si. Todavia, uma dissensão de fundo cavava, à partida, um fosso entre as opiniões dos dois críticos, e Rose sabia-o: O Estanho Caso de Benjamin Button. Denby considera-o um dos piores filmes do ano – obviamente em termos retóricos, mera estratégia opinativa, argumento falacioso pelo exagero – deixando no ar, a certa altura a pergunta ridícula, «Como podemos ter pensamentos profundos sobre o que é essencial e artificialmente concebido?» Esta questão retórica servindo-se de um impudico sofisma, tentou responder à afirmação categórica de Charlie Rose «eu adorei este filme», completando e justificando o seu deleite fílmico com a angústia que o filme lhe transmitiu pela impossibilidade de amar, causada, na sua essência, por um heteróclito processo de envelhecimento (ao contrário), porém utilizável e plausível nos domínios da ficção.
O que Denby não percebeu ou não quis perceber, munido das suas farpas apriorísticas, e Rose entendeu e não se pôde exceder na sua limitativa qualidade de entrevistador perante um perito da 7.ª arte, é que a beleza do próprio filme reside na confabulação do processo de rejuvenescimento que, à partida e de imediato, soaria ao ouvido de qualquer homem como um ideia maravilhosa mas que choca com o preestabelecido na natureza, o ciclo inexorável nascimento-envelhecimento-morte. Trata-se da refutação, pura e simples, da hipótese inicial formulada por Scott Fitzgerald com base nas palavras de Mark Twain (que por aqui já foram por diversas vezes citadas). Em suma, não é por se padecer de todos os males geriátricos no início de vida e morrer inocente nos braços maternos, sem qualquer conhecimento daquilo que resultou de uma experiência de vida, que os seres humanos deixarão algum dia de sofrer as cruéis vicissitudes da existência no momento. O sofrimento não desaparece, e, pelo desencontro dos processos de transitoriedade existencial, dificulta ainda mais, numa visão romântica, a concretização da aspiração mais sublime de um ser humano: o amor. Denby diz que rejuvenescer não faz parte da nossa experiência, diz tratar-se de uma «distorção peculiar da nossa existência» e que dramaticamente nunca existiu na vida real, assim a obra é «absorvida pela sua própria mecânica», para de seguida acabar por confessar que admira o filme em termos técnicos – convenhamos que, para pior filme do ano, não é nada mau...
A.O. Scott, um defensor do filme de Fincher, confessa que a cada crítica de Denby, dá por si a admirar cada vez mais o filme, não por uma questão de teimosia infantil, mas por aquilo que os detractores tentam pôr a nu, que é, nem mais, nem menos, onde se situa o código genético da obra, onde reside toda a beleza do filme.
Depois temos um momento potencialmente embaraçoso ao minuto 29:45, quando Rose pede aos seus convidados para dissertarem sobre outro dos filmes nomeados, The Reader do realizador britânico Stephen Daldry – o criador de As Horas (The Hours, 2002), baseado no romance homónimo de Michael Cunningham, vencedor do Óscar para “Melhor Actriz” pela soberba interpretação de Nicole Kidman na pele de Virginia Woolf. Voltando ao debate, são quase três minutos e meio de zurzidela no filme protagonizado por Kate Winslet, com um hilariante remoque à, segundo eles, péssima interpretação de Ralph Fiennes.
Por fim, sem focar outros aspectos do curioso debate e para resumir, ambos os críticos são unânimes ao considerar que seria feita justiça em atribuir, pelo menos, os Óscares para “Melhor Filme” e “Melhor Actor” (Sean Penn) a Milk de Gus Van Sant.
Para acabar de forma apoteótica, Charlie Rose, um veterano e um ícone da PBS e dos meios de comunicação americanos, termina o debate dizendo «que foi a melhor conversa sobre filmes que alguma vez ocorreu naquela mesa.»
Eis o vídeo:
quarta-feira, 28 de janeiro de 2009
Updike – II

E outra coisa lamentável sobre a morte
é o cessamento da tua marca de magia,
que te levou uma vida inteira a desenvolver e promover –
os motejos, os gracejos, o remoque
adequados a uns poucos, aqueles seres amados próximos
da orla do palco, as suas faces suaves empalideceram
nas luzes da ribalta, o seu riso próximo das lágrimas,
o seu quente respirar compassado com o bater do teu coração,
as suas respostas e a tua performance irmanadas.
As piadas ao telefone. As memórias empilhadas
em ficheiros de rápido acesso. Todo o acto.
Quem o voltará a fazer? É isso: ninguém;
imitadores e descendentes não são a mesma coisa.
John Updike, “Perfection Wasted” (24/Jan/1990) [versão: AMC, 2009].
terça-feira, 27 de janeiro de 2009
Em choque
Não tenho palavras para descrever a emoção que me assolou ao saber da morte de um dos melhores escritores do mundo na 2.ª metade do século XX, ainda em plena actividade nestes primeiros oito anos do século XXI, despediu-se com a sequela de uma das suas obras mais famosas The Widows of Eastwick (2008) – epílogo de As Bruxas de Eastwick (The Witches of Eastwick, 1984). Para quem costuma ler os meus textos não é nenhuma novidade, Updike era um dos meus mais estimados autores.
A tetralogia do Coelho, Brasil,… (é só carregar no tag)
«Encontra esta curva côncava e desliza por ela, dorme. Ele. Ela. O.K.?»
John Updike
(Reading, Penn., 18 de Março de 1932 – Beverly Farms, Mass., 27 de Janeiro de 2009).
segunda-feira, 26 de janeiro de 2009
César 2009
Na passada sexta-feira foram anunciadas as nomeações para 34.ª edição dos Césares da Academia das Artes e Técnicas Cinematográficas de França, cuja cerimónia de entrega se realizará no próximo dia 27 de Fevereiro, em Paris, no Théâtre du Châtelet (cinco dias após a cerimónia de entrega dos Óscares da Academia de Hollywood), pelas 21 horas locais (20 horas – hora de Lisboa).
Da lista de nomeações sobressaem quatro filmes:
- Mesrine, de Jean-François Richet, com 10 nomeações (um díptico, ou filme em duas partes – L’Instinct de mort e L’Ennemi public n°1 – baseado na histórica verídica do famoso assaltante e assassino francês Jacques Mesrine (1936-1979), segundo dizem magistralmente interpretado por Vincent Cassel, também nomeado para o César de Melhor Actor);
- Segue-se um trio com 9 nomeações cada: Un conte de Noël, de Arnaud Desplechin; Séraphine, de Martin Provost; e Le Premier Jour du reste de ta vie, de Rémi Bezançon.
De notar que entre os sete filmes nomeados na categoria “Melhor Filme Estrangeiro” – filmes não produzidos em França, independentemente da língua em que é falado – figuram três filmes produzidos nos Estados Unidos (com James Gray a ver um filme seu nomeado pelo segundo ano consecutivo) e dois na Bélgica, completando a lista um filme israelita e outro italiano:
- Eldorado, de Bouli Lanners – Bélgica;
- Gomorra, de Matteo Garrone – Itália;
- Haverá Sangue, de Paul Thomas Anderson – Estados Unidos (There Will Be Blood);
- O Lado Selvagem, de Sean Penn – Estados Unidos (Into the Wild);
- O Silêncio de Lorna, de Jean-Pierre e Luc Dardenne – Bélgica (Le silence de Lorna);
- Two Lovers, de James Gray – Estados Unidos;
- A Valsa com Bashir, de Ari Folman – Israel (Vals Im Bashir).
Outras notas:
- O aclamado filme de Laurent Cantet, A Turma (Entre les murs), vencedor da Palma de Ouro de Cannes em 2008 e nomeado para o Óscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2009, recebeu 5 nomeações, entre elas as de “Melhor Filme”, “Melhor Realizador” e “Melhor Argumento Adaptado”;
- A octogenária realizadora franco-belga Agnès Varda (n. 1928), foi nomeada na categoria “Melhor Filme Documentário”, com Les plages d’Agnès. A criadora de Sem Eira Nem Beira (Sans toit ni loi, 1985) e uma das veteranas da Nouvelle Vague francesa, realizou um documentário autobiográfico, sobre os lugares da sua infância e os seus primeiros passos na realização, designadamente com o seu aclamado e premiado primeiro filme de 1955 La pointe courte;
- O escritor francês Philippe Claudel (n. 1962) viu o seu primeiro filme Il y a longtemps que je t’aime ser nomeado para 6 categorias, entre as quais as de melhores “Filme” e “Primeiro Filme”, assim como a nomeação, quase por obrigação, procedente da sua ocupação principal, de “Melhor Argumento Original”, embora, em prol da verdade, escrever um guião seja, estilística e tecnicamente, diferente de escrever um livro.
domingo, 25 de janeiro de 2009
A Cozinha Literária de Bolaño
Às vezes, no entanto, quando sou vítima de irrefreáveis ataques de optimismo (que acabam, por outro lado, em alergias medonhas) a minha cozinha literária transforma-se num castelo medieval (com cozinha) ou num local em Nova Iorque (com cozinha e vistas privilegiadas), ou numa baiuca no sopé da cordilheira (sem cozinha, mas com uma fogueira). Mergulhado neste transe geralmente faço o que toda a gente faz: perco o equilíbrio e penso que sou imortal. Não quero dizer imortal literariamente falando, porque nisso só pode pensar um imbecil e eu não chego a tanto, senão literalmente imortal, como os cães e as crianças e os bons cidadãos que ainda não estiveram doentes. Por sorte, ou por desgraça, todo o ataque de optimismo tem um princípio e um fim. Se não tivesse fim, o ataque de optimismo converter-se-ia em vocação política. Ou em mensagem religiosa. E daí até sepultar livros (prefiro não dizer “queimá-los” porque estaria a exagerar) vai apenas um passo. O mais certo, pelo menos no meu caso, é que os ataques de optimismo acabem, e com eles a cozinha literária, desvanece-se no ar a cozinha literária, e apenas fico eu, convalescente, e um ligeiríssimo aroma de panelas sujas, pratos mal limpos, molhos apodrecidos.
A Cozinha literária, digo por vezes, é uma questão de gosto, ou seja, é um campo onde a memória e a ética (ou a moral, se me é permitido usar esta palavra) jogam um jogo cujas regras desconheço. O talento e a excelência contemplam, absortos, o jogo, mas não participam. A audácia e o valor participam, mas só em momentos pontuais, o que equivale a dizer que não participam em excesso. O sofrimento participa, a dor participa, a morte participa, mas com a condição de que só jogam a rir-se. Digamos, como um pormenor indispensável de cortesia.
Muito mais importante que a cozinha literária é a biblioteca literária (passe a redundância). Uma biblioteca é muito mais cómoda que uma cozinha. Uma biblioteca assemelha-se a uma igreja, enquanto uma cozinha de dia para dia se assemelha mais a uma morgue. Ler, disse Gil de Biedma, é mais natural que escrever. Eu acrescentaria, apesar da redundância, que também é muito mais saudável, digam o que disserem os oftalmologistas. De facto, a literatura é uma imensa luta de redundância em redundância, até à redundância final.
Se tivesse de escolher uma cozinha literária para aí me instalar durante uma semana, escolheria a de uma escritora, com a ressalva de que essa escritora não fosse chilena. Viveria com muito gosto na cozinha de Silvina Ocampo, ou na de Alejandra Pizarnik, na da romancista e poeta mexicana Carmen Boullosa, na de Simone de Beauvoir. Entre outros motivos, porque são cozinhas que estão mais limpas.
Em algumas noites sonho com a minha cozinha literária. É enorme, como três estádios de futebol, com tectos abobadados e mesas intermináveis onde se amontoavam todos os seres vivos da terra, os extintos e aqueles que muito em breve irão extinguir-se, iluminada de forma heterodoxa, nalgumas zonas com focos antiaéreos e noutras com archotes, e claro não faltariam zonas escuras onde somente se vislumbram sombras arquejantes ou ameaçadoras, e grandes ecrãs em que se observam, do canto do olho, filmes mudos ou exposições de fotografia, e no sonho, ou no pesadelo, passeio-me pela minha cozinha literária e por vezes acendo um fogão e preparo um ovo estrelado, incluindo por vezes uma torrada. E depois acordo com uma enorme sensação de cansaço.
Não sei o que se deve fazer numa cozinha literária, mas sei, todavia, o que não se deve fazer. Não se deve plagiar. O plagiador merece que o enforquem em praça pública. Quem disse isto foi Swift, e Swift, como todos sabemos, tinha mais razão que um santo.
Assim, que este ponto fique claro: não se deve plagiar, a não ser que desejes que te enforquem em praça pública. Ainda que aos plagiadores, hoje em dia, não os enforquem. Ao contrário, recebem bolsas, prémios, cargos públicos, e, na melhor das situações, convertem-se em bestsellers e líderes de opinião. Que termo mais estranho e feio: líder de opinião. Suponho que significa o mesmo que pastor de um rebanho, ou guia espiritual dos escravos, o poeta nacional, o pai da pátria, ou mãe da pátria, ou tio político da pátria.
Na minha cozinha literária ideal vive um guerreiro, a quem algumas vozes (vozes sem corpo nem sombra) chamam escritor. Esse guerreiro está sempre a lutar. Sabe que no fim, faça o que fizer, será derrotado. No entanto, recorre à cozinha literária, que é de cimento, e enfrenta o seu opositor sem dar nem pedir tréguas.»
Roberto Bolaño, “Un narrador en la intimidad”, in Revista ñ (Clarín), 25/03/2001.
sábado, 24 de janeiro de 2009
A Casa do Esquecimento
O romance do Fernando Dinis, A Casa do Esquecimento, vencedor do Prémio Literário Fnac/Teorema de 2008, já está à venda.«Um homem – Artur Poeira, nome já em si premonitório – é esquecido pelo próprio destino. Os “esquecidos”, são, mais tarde ou mais cedo, conduzidos à Casa do Esquecimento pelo seu Destino personificado. O que acontecerá quando um “esquecido” tem oportunidade de se tornar, ele próprio, o Destino de muitas outras pessoas? É essa incógnita, que este romance absolutamente invulgar, nos desvenda, numa narrativa cheia de suspense, a que não são estranhas as influências de Kafka e Murakami.»
quinta-feira, 22 de janeiro de 2009
Óscares 2009 – nomeações
Há poucos mais de duas horas, foram anunciadas, no Samuel Goldwyn Theater em Beverly Hills, Califórnia, as nomeações para cada categoria dos filmes candidatos à 81.ª edição dos Óscares, atribuídos pela Academia das Artes e das Ciências Cinematográficas de Hollywood. A cerimónia de entrega realizar-se-á no domingo, dia 22 de Fevereiro, às 17 horas locais (dia 23, à 1 da madrugada, hora de Lisboa).
Segue-se uma lista, de elaboração própria, com os 10 filmes que obtiveram três ou mais nomeações, seguida da lista dos nomeados para “Melhor Filme Estrangeiro” e “Melhor Filme de Animação”:
[Em destaque (a bold) as nomeações pertencentes ao denominado Top 5, ou seja, aquelas que se inserem nas cinco categorias artísticas consideradas como as mais importantes na atribuição do galardão: melhores filme, realização, argumento (original e adaptado), actor principal e actriz principal. Ao lado do número de nomeações para cada filme, figurará o número de nomeações para o Top 5, seguida da notação “+”.]
O Estranho Caso de Benjamin Button / The Curious Case of Benjamin Button (13 nomeações, 4+)
Actor – Brad Pitt
Actriz Secundária – Taraji P. Henson
Argumento Adaptado – Eric Roth
Banda Sonora Original – Alexandre Desplat
Caracterização
Direcção Artística
Efeitos Especiais
Efeitos Sonoros
Filme
Fotografia
Guarda-Roupa
Montagem
Realização – David Fincher
Quem Quer Ser Bilionário? / Slumdog Millionaire (10 nomeações, 3+)
Argumento Adaptado – Simon Beaufoy
Banda Sonora Original – A. R. Rahman
Canção Original (2 canções nomeadas)
Efeitos Sonoros
Filme
Fotografia
Montagem
Realização – Danny Boyle
Som
O Cavaleiro da Trevas / The Dark Knight (8 nomeações, 0+)
Actor Secundário – Heath Ledger
Caracterização
Direcção Artística
Efeitos Especiais
Efeitos Sonoros
Fotografia
Montagem
Som
Milk (8 nomeações, 4+)
Actor – Sean Penn
Actor Secundário – Josh Brolin
Argumento Original – Dustin Lance Black
Banda Sonora Original – Danny Elfman
Filme
Guarda-Roupa
Montagem
Realização – Gus Van Sant
Wall-E (6 nomeações, 2+)
Argumento Original – Andrew Stanton e Jim Reardon
Banda Sonora Original – Thomas Newman
Canção Original
Efeitos Sonoros
Filme de Animação
Som
Dúvida / Doubt (5 nomeações, 2+)
Actor Secundário – Philip Seymour Hoffman
Actriz – Meryl Streep
Actriz Secundária – Amy Adams
Actriz Secundária – Viola Davis
Argumento Adaptado – John Patrick Shanley
Frost/Nixon (5 nomeações, 4+)
Actor – Frank Langella
Argumento Adaptado – Peter Morgan
Filme
Montagem
Realização – Ron Howard
The Reader (5 nomeações, 4+)
Actriz – Kate Winslet
Argumento Adaptado – David Hare
Filme
Fotografia
Realização – Stephen Daldry
A Troca / Changeling (3 nomeações, 1+)
Actriz – Angelina Jolie
Direcção Artística
Fotografia
Revolutionary Road (3 nomeações, 0+)
Actor Secundário – Michael Shannon
Direcção Artística
Guarda-Roupa
Melhor Filme de Animação
- Bolt, de Byron Howard e Chris Williams
- O Panda do Kung Fu (Kung Fu Panda), de Mark Osborne e John Stevenson
- Wall-E, de Andrew Stanton
Melhor Filme Estrangeiro
- O Complexo Baader Meinhof, de Uli Edel – Alemanha (Der Baader Meinhof Komplex / The Baader Meinhof Complex);
- Okuribito, de Yojiro Takita – Japão (Departures);
- Revanche, de Gotz Spielmann – Áustria;
- A Turma, de Laurent Cantet – França (Entre les murs / The Class);
- A Valsa com Bashir, de Ari Folman – Israel (Vals Im Bashir / Waltz with Bashir).
Notas:
- Tal como nos Globos de Ouro e nos BAFTA, o filme O Wrestler (The Wrestler), realizado por Darren Aronofsky, obteve as mesmas duas nomeações em categorias de interpretação: Mickey Rourke na categoria de “Melhor Actor” e Marisa Tomei na categoria de “Melhor Actriz Secundária”;
- O filme A Duquesa (The Duchess) do jovem realizador britânico Saul Dibb – recorde-se que realizou para a BBC a excelente minissérie A Linha da Beleza (The Line of Beauty) baseado no aclamado romance homónimo, vencedor do Booker Prize de 2004, de Alan Hollinghurst, com adaptação a cargo do eminente argumentista Andrew Davies – obteve duas nomeações: melhores “Direcção Artística” e “Guarda-Roupa”;
- De notar o eclipse total dos irmãos Coen das nomeações, que este ano apresentavam o medíocre Destruir Depois de Ler (Burn After Reading), e isto depois de terem sido os grandes vencedores da edição dos Óscares do ano passado (a 80.ª) com o filme Este País Não É para Velhos (No Country for Old Men) com 4 estatuetas arrecadadas: Melhores “Filme”, “Realização”, “Argumento Adaptado” (de um romance de Cormac McCarthy) e “Actor Secundário” (Javier Bardem);
- Nenhum dos filmes a concurso conseguiu ser nomeado para todas as categorias do Top 5, no entanto, houve quatro filmes (O Estanho Caso de Benjamin Button, Milk, Frost/Nixon e The Reader) que conseguiram obter quatro nomeações nesse conjunto de cinco, o que, desde logo, indicia uma noite em branco para muitos deles.
- Para informações mais detalhadas consultar, em português, a notícia do Público, e, em inglês, o próprio sítio da Academia.
Até lá “vejam sempre bons filmes” e participem na sondagem que figurará na coluna do lado direito deste blogue até ao final do mês, sobre o filme que elegeriam como o melhor entre os vinte últimos vencedores da categoria “Melhor Filme” dos Óscares da Academia.
(Para o ano espero juntar ao rol o filme de Fincher…)
Murmansk
A casa em silêncio, lembrei-me de Button, que perdura instalado em definitivo na minha memória, como um organismo vivo, mutável, como uma entidade estranha alojada na minha mente pronta a receber as emanações feéricas da sua arte.
Insónia. Assalta-me a mesma sensação de conforto por saber que as três mulheres que partilham a minha vida, a minha casa, dormem protegidas, apenas vulneráveis às investidas dos sonhos.)
Murmansk, 1941. Palácio de Inverno, hotel. Benjamin Button (Brad Pitt) conhece Elizabeth Abbott (Tilda Swinton), inglesa casada com um espião disfarçado de chefe da delegação de comércio britânica em Murmansk, União Soviética. Um dos momentos mais belos do filme de David Fincher (com a excelente direcção de fotografia a cargo de um tal de Claudio Miranda, será luso-descendente ou brasileiro?):
«[Na cozinha do hotel, a meio da noite]
Elizabeth: E de onde é?
Benjamin: Nova Orleães, Luisiana.
Elizabeth: Não sabia que existia outra.
E falou-me de todos os lugares onde tinha estado, o que tinha visto. E falávamos até ao amanhecer. Depois voltávamos para os nossos quartos, para as nossas vidas separadas. E todas as noites, encontrávamo-nos de novo naquele salão. Um hotel durante a noite pode ser um lugar mágico. Um rato a correr e a parar. Um radiador a sibilar. Uma cortina a esvoaçar. Há qualquer coisa de tranquilo, até de confortável, em saber que as pessoas que amamos estão a dormir nas suas camas, onde nada as pode magoar.
Ambos perdíamos o rasto da noite, até ao romper do dia.
Elizabeth: Creio que talvez lhe possa ter dado uma ideia errada.
Benjamin: O que disse?
Elizabeth: Bom, não é normal mulheres casadas ficarem sentadas durante a noite em hotéis a conversar com estranhos.
Benjamin: Eu não faço mínima ideia do que faz ou não faz uma mulher casada.
[Elizabeth levanta-se e abandona a cozinha]
Benjamin: Boa Noite!»Extraído do guião escrito por Eric Roth, baseado na versão original de 2002 de Robin Swicord e do conto O Estranho Caso de Benjamin Button (The Curious Case of Benjamin Button, 1922) do escritor norte-americano F. Scott Fitzgerald. [tradução: AMC]
terça-feira, 20 de janeiro de 2009
Exibição da sapiência paterna (tragédia)
Inquieta, interrogava-me sobre as forma e cor inauditas daquelas nuvens. Eu, com um ouvido na TSF, Obama e a tomada de posse, e outro no espanto verbalizado por uma pirralha de cinco anos perante a magnitude da paisagem atmosférica, ia dando as minhas doutas respostas, um deus-pai da meteorologia e de qualquer assunto, a confiança cega que mais tarde se transforma numa dolorosa descoberta: ele afinal não sabia tudo; tem defeitos; bazófias; podendo até, em fases extremas, redundar num parricídio de contornos pasolinianos.
Chega a pergunta inevitável:
– Papá, achas que vai haver trovoada?
Esboço um sorriso sardónico como meio indispensável para a produção do necessário efeito ansiolítico, e imperiosamente determino que isso seria um disparate, dada a inexistência da massa de ar quente… salvo pelo gongo, a buzina do carro de trás apressa-me a encontrar um lugar, o portão do colégio está próximo. Estaciono em segunda fila. Se fosse Aristófanes dir-te-ia o que farias com a tua buzina ligada à cabeça… Aspecto exterior: impassível.
Agasalho-a, aperto-a nos meus braços e diz-me na sua candura: – depois logo contas-me, papá.
Separámo-nos. Desligo a luzes de emergência e entro de novo no carro. O candidato à imprecação aristofânica desapareceu. Cem, duzentos metros. Ainda mal se emudecera na minha face o doce e terno beijo lambuzado da despedida e abate-se sobre o meu carro uma chuva de granizo, segundos antes anunciada por um forte trovão.
Brindo à minha erudição climatérica: bravo, papá, acertaste.
De quem é a culpa?, pergunto-me. A resposta óbvia não tarda…
Se a tua mãe num domingo deste querido mês de Agosto me tem dado ouvidos e não te tem levado à praia onde uma Senhora da Nazaré (ou similar) levada em ombros a banhos de água salgada por uma multidão garrida ao som de salvas de morteiros a cada mistério rezado, talvez hoje, querida I., não tivesses medo dos trovões…
segunda-feira, 19 de janeiro de 2009
Ainda (e sempre) sobre Benjamin Button
Se tiver oportunidade vê-lo-ei de novo ainda esta semana. Tal foi a marca de inquietação que, com uma persistência espantosa, não me larga o espírito.
Como desconstruir a hipótese existencial, em forma de prece divina, ambicionada por Mark Twain? O tal homem cujo destino ficou associado aos caprichos da circularidade de um cometa.
F. Scott Fitzgerald inspirou-se na biografia de Mark Twain, escrita e publicada em 1912 por Albert Bigelow Paine, onde leu uma curiosa citação:
«Seu eu houvesse ajudado o Todo-Poderoso quando Ele criou o homem, tê-Lo-ia persuadido a começar pelo outro extremo, pondo os seres humanos a nascer na velhice. Quão melhor seria nascer velho, com toda a amargura e a cegueira da idade dispostas no início! Ninguém se importaria se ansiássemos por uma juventude rejubilante. Pense na feliz perspectiva de rejuvenescer em vez de envelhecer! Pense na satisfação em esperar pelos dezoito anos em vez dos oitenta! Sim, o Todo-Poderoso nisso fez um mau trabalho. Quem me dera que Ele houvesse pedido o meu auxílio.» [tradução: AMC]Na colectânea de contos de Scott Fitzgerald, Tales of the Jazz Age de 1922, Scott, na apresentação dos contos compilados refere o que se segue para “The Curious Case of Benjamin Button”:
«Esta história inspirou-se numa observação de Mark Twain, que propalava que era uma pena que a melhor parte da vida surgisse no seu início e a pior no seu fim. Ao efectuar a experiência em apenas um homem num mundo perfeitamente normal, dificilmente proporcionei à sua reflexão um julgamento justo.» [tradução: AMC]Talvez tenham sido estas palavras introdutórias do criador que levaram Robin Swicord e Eric Roth (a primeira perseguia obsessivamente a concretização deste projecto em filme, e já dispunha de um guião escrito) à ampliação e trasladação histórica desta magistral alegoria sobre a morte como fim sombrio, angustiante, perceptível, inelutável e omnipresente em toda uma vida, quer haja ou não uma inversão do seu início. O sofrimento permanece, aproveitai os momentos.
Fincher alerta-nos para a beleza do preceito que, todavia, choca com princípios morais, na estrita medida em que se gera uma séria iniquidade, uma desarmonia existencial, jamais conjugável com, e potencialmente geradora de, uma felicidade perene e absoluta. Benjamin Button é uma parábola sobre essa dissonância insanável. Não é uma história de amor ou sobre o seu desencontro, é um hino ao não desperdício daquilo que a vida no traz no momento, saber vivê-lo, agarrá-lo com unhas e dentes, porque a única certeza, rejuvenescendo ou envelhecendo, é a transitoriedade para o vazio, que ultrapassa a dúvida paralisadora sobre a transcendência do fim.
Ainda sob a influência do espectro mágico do filme, que irei rever, revisitar e reexaminar, à procura dos famosos “ovos de Páscoa” – como gosta de chamar uma mente auto-iludida com a sua perspicácia – ou daquilo que aos meus olhos fugiu numa primeira exibição, não falarei, por enquanto, sobre os pormenores de realização, dos momentos memoráveis (o mais delicioso com Tilda Swinton no Hotel na cidade polar de Murmansk, no extremo noroeste da Rússia), a banda sonora, a fotografia e as interpretações (a soberba interpretação de Brad Pitt, que ao que tudo indica irá passar em branco).
Deixo apenas uma recomendação para a leitura deste excelente texto do Henrique e um excerto de um poema de Larkin (talvez a despropósito), que não me atrevo a traduzir:
I work all day, and get half drunk at night.
Waking at four to soundless dark, I stare.
In time the curtain edges will grow light.
Till then I see what's really always there:
Unresting death, a whole day nearer now,
Making all thought impossible but how
And where and when I shall myself die.
Arid interrogation: yet the dread
Of dying, and being dead,
Flashes afresh to hold and horrify.
Philip Larkin (1922-1985), 1.ª estrofe de “Aubade” (1977)
domingo, 18 de janeiro de 2009
João Lopes dixit
Ainda no campo das curiosidades, uma semana antes da estreia do filme, encontrei João Lopes na Almedina do Arrábida Shopping, supostamente no dia em que, segundo me informaram, o crítico viu o filme em sessão privada numa das salas do multiplex do UCI.
Chiste bolañiano
No ano passado, saiu Bolaño selvagem (Bolanõ selvaje, livro e DVD sob a chancela da Editorial Candaya, editado pelo boliviano Edmundo Paz Soldán e pelo peruano Gustavo Faverón Patriau, inclui textos de Enrique Vila-Matas, Rodrigo Fresán, Jorge Volpi, entre outros. Chega-se a hiperbolizar afirmando que com a morte de Bolaño morreu a literatura latino-americana (e eu, sozinho em casa a escrever este texto, pergunto-me por Fuentes e Vargas Llosa, até por García Márquez ou Piglia).
Prosseguindo. A vida e o brilhantismo de Bolaño reflectem-se na sua obra. Decerto que há muito para dizer sobre a curta vida deste ilustríssimo escritor chileno, mas primeiro leiam-no e deliciem-se com a sua ironia, por vezes subtil outras vezes carregada, sarcástica, pontuado de um espirituoso humor negro.
Eis uma passagem de Nocturno Chileno (que demorei uma infinidade de tempo a encontrar, dada a minha mania de não profanar os meus livros com inscrições, sublinhados e anotações à margem), do Padre Ibacache recenseador literário (cujo ao ortónimo Sebastián era adicionada a estranha combinação de apelidos basco-francesa Urrutia Lacroix).
Pobre padre. Jovem, perdido na Europa numa demanda insana engendrada por dois numerários da Opus Dei, Oido e Odeim – ódio e medo (miedo), respectivamente, de trás para a frente –, sobre a preservação das fachadas das igrejas europeias frente aos bárbaros ataques de bandos de pombas (o símbolo do Espírito Santo) e a sua copiosa defecação. Solução wescottiana: criação de falcões. No momento de desespero absoluto, em que Sebastián pensa no regresso ao Chile, um bom padre alemão conta-lhe uma anedota:
«Está o Papa com um teólogo alemão, a falar tranquilamente numa das salas do Vaticano. De repente, aparecem dois teólogos franceses, muito excitados e nervosos, e dizem ao Santo Padre que acabam de chegar de Israel e que trazem duas notícias, uma muito boa e outra considerada má. O Papa suplica-lhes que falem de uma vez por todas, que não o mantenham na expectativa. Os franceses, atropelando-se, dizem que a boa notícia é que encontraram o Santo Sepulcro. O Santo Sepulcro?, diz o Papa. O Santo Sepulcro. Sem a mais pequena dúvida. O Papa chora de emoção. Qual é a má notícia?, pergunta, secando as lágrimas. Dentro do Santo Sepulcro encontrámos o cadáver de Jesus Cristo. O Papa desmaia. Os franceses tentam dar-lhe ar. O teólogo alemão, que é o único que está calmo, diz: ah, mas então Jesus Cristo existiu mesmo?»
Roberto Bolaño, Nocturno Chileno, p. 95
[Lisboa: Gótica, Julho de 2003, 150 pp.; tradução de Rui Lagartinho e Sofia Castro Rodrigues; obra original: Nocturno de Chile, 2000.]