quarta-feira, 19 de novembro de 2008

IMPAC 2009

Como já se tornou um hábito nesta época do ano, foi anunciada a lista dos semifinalistas do International IMPAC Dublin Literary Award. A referida lista é constituída por 146 romances de outros tantos autores.
Nesta primeira fase de selecção intervieram 153 bibliotecas, espalhadas por 117 cidades de 47 países de todos os cantos do mundo.
Segue-se, agora, uma 2.ª fase, a cargo de um júri pré-seleccionado constituído por cinco elementos, e presidido por um sexto sem direito a voto, neste caso é o famoso juiz/escritor norte-americano Eugene R. Sullivan. A primeira tarefa do júri é desbastar a lista inicial, seleccionando aproximadamente dez obras que integrarão a lista de finalistas, cuja divulgação está marcada para o dia 2 de Abril de 2009.
Escolhidos os finalistas, atinge-se a 3.ª e última etapa, que consiste na eleição da obra vencedora dos cem mil euros em jogo que reverterão na íntegra para o autor, no caso de a obra seleccionada ter sido publicada originalmente em língua inglesa, ou serão repartidos numa proporção de ¾ para o autor e ¼ para o tradutor nos outros casos. O vencedor do IMPAC Award de 2009 será anunciado no dia 11 de Junho de 2009.

A curiosidade deste prémio reside precisamente nestas duas fases distintas de selecção, onde há a intervenção de especialistas de dois níveis distintos: bibliotecários, na 1.ª fase, e autores, críticos, editores e gente das letras nas duas últimas fases.
As regras para as bibliotecas seleccionadas através de candidatura previamente elaborada são bastante simples (replicação de um texto já publicado neste blogue com as necessárias adaptações para o ano em causa):
Como acabámos de ver, todos os anos o Dublin City Council, através da administração das bibliotecas públicas da cidade de Dublin recebe uma lista de obras de ficção nomeadas por responsáveis de bibliotecas espalhadas pelas capitais e principais cidades de países de todo o mundo.
Cada biblioteca pode nomear até 3 obras de ficção que apenas têm de obedecer a uma condição: a sua publicação em língua inglesa.

Para o prémio de 2009 só poderiam ser nomeadas:

  • Obras originalmente publicadas em inglês durante o ano de 2007;
    ou,
  • Obras originalmente publicadas noutra língua entre o quadriénio 2003/2007 e que hajam sido publicadas em inglês durante o ano de 2007.

Para o prémio de 2009, destacaram-se oito obras que obtiveram mais de quatro votos (entre as quais constam quatro que já foram publicadas em Portugal e uma outra a publicar em breve), no total dos 291 exercidos (para um máximo de 459 votos) pelas 153 bibliotecas (1 biblioteca – 3 obras diferentes; 1 obra – 1 voto):

  • 18 votosKhaled Hosseini, Mil Sóis Resplandecentes (Presença) – A Thousand Splendid Suns;
  • 13 votosMichael Ondaatje, Divisadero;
  • 10 votosIan McEwan, Na Praia de Chesil (Gradiva) – On Chesil Beach (vencedor de dois British Book Awards: Reader's Digest Author of the Year por este romance e do Galaxy Book of the Year);
  • 8 votos (2 obras)Michael Chabon, The Yiddish Policemen's Union e Mohsin Hamid, O Fundamentalista Relutante (Civilização) – The Reluctant Fundamentalist;
  • 7 votosJunot Diaz, The Brief Wondrous Life of Oscar Wao (esta obra irá ser publicada pela Porto Editora; vencedor do 2007 The National Book Critics Circle Award – Fiction e do Pulitzer Prize for Fiction 2008);
  • 6 votosAnne Enright, Corpo Presente (Gradiva) – The Gathering (vencedor do Booker Prize 2007);
  • 5 votosCatherine O'Flynn, What Was Lost (vencedor do 2007 Costa First Novel Award, antigo Whitbread Award; vencedora do British Book Awards: Waterstone's Newcomer of the Year).

Com quatro votos ficaram nove obras, de onde destaco três de autores bem conhecidos do público português e com a respectiva obra publicada no mercado nacional: Don DeLillo, O Homem em Queda (Sextante) – Falling Man; J.M. Coetzee, Diário de Um Mau Ano (Dom Quixote) – Diary of a Bad Year; e o fabuloso romance de Mario Vargas Llosa, Travessuras da Menina Má (Dom Quixote) – The Bad Girl.

De notar, que toda a estatística atrás vertida pode revelar-se assaz irrelevante, na medida em que a palavra final cabe sempre ao júri seleccionado, podendo eleger como vencedor uma obra que, no limite, tenha obtido apenas uma nomeação (1 voto). Aliás, se atentarmos aos vencedores dos três últimos anos, verificamos que o vencedor de 2008 – Rawi Hage, Como a Raiva ao Vento (De Niro's Game) – foi nomeado apenas por 1 biblioteca, a Winnipeg Public Library, no Canadá, enquanto o vencedor de 2007 – Per Petterson, Cavalos Roubados (Out Stealing Horses) – foi nomeado somente por 2 bibliotecas, e ambas norueguesas; porém, em contraste com os seus sucessores, o vencedor de 2006 – Colm Tóibín, O Mestre (The Master) – foi previamente nomeado por 17 bibliotecas (menos uma que a obra de Hosseini no concurso deste ano).

Uma vez mais, Portugal participou na referida 1.ª fase de nomeação através das duas habituais bibliotecas: a Biblioteca Pública Municipal do Porto (BPMP) ao jardim de São Lázaro e a Biblioteca Municipal Central de Lisboa (BMCL), situada no Palácio das Galveias.

BMCL (exerceu os 3 votos que tinha direito):

  • Arturo Pérez-Reverte, O Pintor de Batalhas (Asa) – The Painter of Battles (1 voto no total);
  • Ian McEwan, Na Praia de Chesil (Gradiva) – On Chesil Beach (votaram neste livro mais 9 bibliotecas);
  • Jonathan Coe, The Rain Before It Falls (votaram neste livro mais 3 bibliotecas) – uma curiosa antecipação à possível edição portuguesa.

BPMP (apenas votou numa obra, que, acrescente-se, é cromo repetido de outros anos):

  • Richard Zimler, A Sétima Porta (Asa) – The Seventh Gate (1 voto no total).

terça-feira, 18 de novembro de 2008

Alerta aos austerianos

Blogue de Paul Auster em Portugal

Acabou de ser criado, sem qualquer tipo de responsabilidade ou intervenção inspiratória da minha parte, um blogue português dedicado ao poeta do acaso: Paul Auster, de origem judaica, nascido em Newark, Nova Jérsia, a 3 de Fevereiro de 1947.

Biografia resumidíssima: Para além de trabalhos de tradução de poesia francesa, publicou a sua própria poesia, ensaios e memórias, escreveu argumentos para cinema, organizou antologias poéticas e de obras de ficção de autores consagrados, realizou quatro filmes A Vida Interior de Martin Frost (The Inner Life of Martin Frost, 2007), Lulu on the Bridge (1998), Fumo Azul (Blue in the Face, 1995) e Fumo (Smoke, 1995), os dois últimos em parceria com o realizador natural de Hong Kong Wayne Wang (n. 1949), e publicou doze romances; discriminados a seguir e ordenados segundo a minha preferência no momento presente (ao longo dos anos foi-se alterando à medida das releituras e/ou da minha percepção distanciada no tempo):

  1. Leviathan (Asa) – 1992
  2. A Trilogia de Nova Iorque (Asa) – The New York Trilogy, 1987
  3. A Música do Acaso (Asa) – The Music of Chance, 1990
  4. Palácio da Lua (Presença) – Moon Palace, 1989
  5. Timbuktu (Asa) – 1999
  6. No País das Últimas Coisas (Presença) – In the Country of Last Things, 1987
  7. As Loucuras de Brooklyn (Asa) – The Brooklyn Follies, 2005
  8. Mr. Vertigo (Asa) – 1994
  9. O Livro das Ilusões (Asa) – The Book of Illusions, 2002
  10. Viagens no Scriptorium (Asa) – Travels in the Scriptorium, 2006/2007
  11. A Noite do Oráculo (Asa) – Oracle Night, 2004

Ainda não lido: Homem na Escuridão (Asa) – Man in the Dark, 2008 (nas livrarias na próxima semana, editado pela Asa)
Próximo Romance (13.º): Invisible, 2009

As suas principais referências (confessadas em diversas entrevistas): Shakespeare, Beckett, Celan, Mallarmé, Blanchot, Poe, Proust, Hamsun, Cervantes, Kafka, Borges, Melville, Hawthorne, Thoreau, Dostoievski, Hölderlin, Montaigne, Leopardi, entre outros.

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Coisas Simples

É desta forma, abrupta, que Pacheco Pereira entra pela tarde, reproduzindo um raríssimo exemplar de um quadro pintado a óleo sobre zinco, neste caso de François Bonvin uma natureza morta e alguns objectos de scriptorium.
Hoje, ontem, não há, não houve, “milieu”, ou «o ambiente miasmático em que tudo se passa».

Ficam as imagens para mais tarde recordar (onde até houve um corajoso agente da autoridade que pretendia deter o operador de câmara da RTP – o agredido – depois de deixar fugir o agressor):



Nota: os mesmos indivíduos (oito homens e duas mulheres) já de cara destapada – ao que chega a impunidade… – e mais um grupo que se lhes juntou após os primeiros incidentes retratados no vídeo, permaneceram a tarde inteira em frente do TIC intimidando e ameaçando jornalistas e as respectivas famílias nas barbas da polícia e da segurança privada do DCIAP.

Prevê-se um Quadratura do Círculo alargado para discutir este tema.

domingo, 16 de novembro de 2008

Combater o destino

«Havia algo acerca do homem e do rosto que eu vira sob a luz trémula das nossas lanternas. Agora de repente tenho a certeza. […] e se aquilo fosse algo de um romance, limitar-se-ia apenas a ser irritante. De facto, tenho lido muito, em especial durante os últimos anos, mas antes também o fazia, e tenho pensado sobre aquilo que li, e esse tipo de coincidência parece demasiado rebuscado na ficção, pelo menos nos romances contemporâneos, e acho que é difícil de aceitar. Pode parecer muito bem em Dickens, mas quando se lê Dickens estamos a ler uma longa balada de um mundo desaparecido, em que tudo tem de se juntar no fim como uma equação, em que o equilíbrio daquilo que foi anteriormente perturbado deve ser restaurado de modo a que os deuses possam sorrir. Talvez uma consolação ou um protesto contra um mundo que saiu dos eixos, mas agora já não é assim, o meu mundo não é assim, e nunca me dei bem com aqueles que acreditam que as nossas vidas são governadas pelo destino. Eles queixam-se, lavam as mãos e infundem piedade. Eu acredito que somos nós que modelamos as nossas vidas, de qualquer maneira, eu modelei a minha, valha o que valer, e assumo toda a responsabilidade. Mas de todos os lugares para onde me poderia ter mudado, tinha de aterrar exactamente aqui.»
Per Petterson, Cavalos Roubados, pp. 73-74.
[Cruz Quebrada: Casa das Letras, 1.ª edição, Outubro de 2008, 275 pp.; tradução de Maria João Freire de Andrade; obra original: Ut og stjæle hester, 2003.]

Para quando?

Com estreia mundial em Maio passado, e sucessivos adiamentos da sua estreia nacional, impõe-se a pergunta que exalta o título deste texto.
Resposta mais que provável: lançamento directo no circuito de DVD (aluguer e venda directa).


Entretanto, é um dos filmes incluídos pela organização do Estoril Film Festival 2008 na excelente galeria “Fora de Competição”.

sábado, 15 de novembro de 2008

Sair para roubar cavalos [actualizado]

Quando em Junho de 2007 o júri do International IMPAC Dublin Literary Award – na altura o prémio literário pecuniariamente mais valioso do mundo a galardoar uma só obra de ficção – anunciou o vencedor, muitos foram os que ficaram de boca aberta pela escolha: um romance, com cavalos no título, de um escritor norueguês quase desconhecido chamado Per Petterson, soava, em primeira mão, a folclore nórdico.
A perplexidade foi ainda maior conhecendo-se a priori a
lista dos oito semifinalistas seleccionados pelo referido júri – constituído por seis elementos, que em 2007 incluía o escritor português Almeida Faria – dos quais destaco cinco, para além do vencedor, todos já com edição portuguesa: Arthur & George de Julian Barnes (Asa); O Homem Lento de J.M. Coetzee (Dom Quixote), Nobel da Literatura em 2003; Extremamente Alto, Incrivelmente Perto de Jonathan Safran Foer (Quetzal); Este País Não É para Velhos de Cormac McCarthy (Relógio D’Água); e Shalimar, o Palhaço de Salman Rushdie (Dom Quixote).
Porém, havia um facto anterior que não poderia ser desprezado, o mesmo romance já havia vencido em 2006 o prémio do jornal britânico
The Independent para a melhor obra de ficção estrangeira, derrotando autores como David Grossman, Claudel, Murakami, Kertész (Nobel da Literatura em 2002) e o autor marroquino Tahar Ben Jelloun.

Tal como referi
aqui, a versão portuguesa chegou (tarde) pelas mãos da Casa das Letras, adiantando-me, desde já, à nota de apreciação, para referir a tradução irrepreensível de Maria João Freire de Andrade* – menção que tem alguma razão de ser, dada a debilidade de algumas das traduções de obras lançadas pela mesma editora, cujo livro de memórias de Gore Vidal, Navegação Ponto por Ponto, é o epítome.

«Toda a minha vida ansiei estar sozinho num lugar como este. Mesmo quando tudo corria bem, como era frequente acontecer.» (pág. 11)

Cavalos Roubados – título concludente escolhido pelo editor português, enquadrável na polissemia do jogo de palavras do título original norueguês (dá o título a este texto) – foi publicado pela primeira vez na Noruega em 2003 e traduzido para inglês em 2005, e daí a sua elegibilidade para o IMPAC de 2007. Trata-se de uma história narrada na primeira pessoa pelo protagonista Trond Sander, que aos sessenta e sete anos se decidiu pela reforma e pela fuga de Oslo, desfazendo-se de todos os seus bens e compromissos que o agarravam à capital, procurando o isolamento numa cabana imersa na paisagem bucólica, verdejante, gélida e despovoada do interior da Noruega: «O meu plano para este lugar é bastante simples. Esta vai ser a minha última casa. Quanto tempo isso poderá demorar é algo acerca do qual ainda não pensei.» (pág. 74)

Aí instalado, na companhia da sua cadela Lyra, previamente adquirida para atenuar o isolamento previsto, Trond é o protagonista de uma estranha coincidência que irá despoletar uma série de rememorações dolorosas: «isso liga-me a um passado que pensei estar muito atrás de mim e afasta para o lado os cinquenta anos com uma ligeireza quase obscena.» (pág. 115). Rememorações que vão tão longe como o ano de 1940, quando o narrador tinha sete anos; passando pela ocupação nazi na Noruega e a sua retirada com a vitória dos Aliados em 1945; o Verão do afloramento de toda a verdade em 1948, desfrutado na companhia do pai, na última vez que estiveram juntos, deixando a mãe e a irmã em Oslo, num local muito parecido com o que actualmente escolheu para morrer; e as duas mortes trágicas ocorridas, no intervalo de um mês, três anos antes do momento presente. O agora é Novembro de 1999, um mês antes da passagem do milénio, segundo o autor e uns tantos milhões de pessoas em todo mundo na altura, que, com a sua ignorância, contribuíram para mais umas vergastadas na tão maltratada Matemática – e já agora, a talho de foice, o mesmo erro é cometido por Frederico Lourenço por haver escolhido, no inquérito levado a cabo pelo blogue
Os Livros Ardem Mal, como o melhor livro de ficção portuguesa do século XX A Ilustre Casa de Ramires de Eça de Queirós publicado em 1900, logo, ainda, no último ano do século XIX, embora aqui interesse a influência que a obra exerceu na literatura portuguesa subsequente e nas gerações vindouras, e assim durante o século XX.

Per Petterson, com uma escrita limpa, escorreita, sem o recurso a artifícios de linguagem ou a uma bateria de figuras de estilo, consegue agarrar o leitor do princípio ao fim, alternando com mestria os diversos períodos históricos atrás referidos. E talvez seja nessa limpidez de linguagem onde reside o principal brilho da obra: inocente, jamais estéril, que consegue captar a ingenuidade imanente de um ser intrinsecamente bom, profundamente emocional e sem a mácula da violência dos tempos que corriam.
Não há ressentimento, nem qualquer vestígio de vingança ou sequer de autoflagelação por um passado inamovível, em que se desconhece por completo a importância e o valor do papel desempenhado, nem isso parece importar ao narrador: «Se me irei transformar no herói da minha própria vida, ou se esse papel será representado por outra pessoa, é isso que estas páginas irão mostrar.» (pág. 228) Trata-se da abertura do romance de Charles Dickens, David Copperfield, o escritor preferido de Trond que a sua filha Ellen (fruto do seu primeiro casamento), após o haver encontrado na sua cabana e isto depois de o ter procurado pela Noruega rural, já que aquele partira de Oslo sem avisar, lhe recomenda a releitura – este é, sem dúvida, na minha opinião, um dos episódios mais pungentes e comovedores de todo o livro.
De seguida Trond reflecte sobre as admiravelmente tocantes palavras da filha, depois de lhe haver citado a introdução de Dickens: «Não me é fácil responder àquilo. Não sabia que ela pensava daquele modo. Nunca mo disse. É óbvio que pelo simples motivo de que eu não estava lá quando ela precisara de falar, mas ela não pode saber com que frequência pensei o mesmo e li aquelas primeiras linhas de David Copperfield e depois tive de continuar, página após página, quase petrificado de terror porque tinha de ver se no fim tudo encaixava no seu devido lugar, e como é natural encaixava, mas demorava sempre muito tempo até me sentir seguro. No livro. A vida real era de certo modo diferente.» (pág. 229).

É esta a magia de Cavalos Roubados, o paradoxo da inquietação tranquila, de um raro lirismo na literatura contemporânea. E que melhor resumo nos pode dar a percebida epígrafe dissimulada, porque há uma pequena chamada na ficha técnica que nos alerta, sem mais assunto, para umas frases no interior do texto, cujo sentido é repetido umas páginas mais adiante. As palavras pertencem ao romance de 1934 Viagem no escuro (Voyage in the Dark) da escritora dominicana Jean Rhys (1890-1979):

«Foi como um cortinado se tivesse fechado e escondido tudo aquilo que eu sempre conhecera. Era quase como renascer. As cores eram diferentes, os cheiros diferentes, a sensação que tocar nas coisas nos dava interiormente era diferente. Não apenas a diferença entre calor, frio; claridade, escuridão; roxo, cinzento. Mas a diferença estava no modo como me sentia assustado e no modo como me sentia feliz.» (pág. 255).

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Uma nota final para as estrelas que encerram esta nota de apreciação. Das 40 obras publicadas este ano que tive a oportunidade de ler, três figuram na categoria de excepção – se se tratassem de hotéis, eram de super luxo –, às restantes 35 que figuram em posições inferiores a esta – das 5 estrelas (Muito Bom) a 1 estrela (Mau) –, uma vez que 2 não foram reveladas para esta contagem, Cavalos Roubados é aquela que se aproxima mais do limiar da genialidade, e só não figura na categoria mais acima dados o fôlego, a profundidade e a intemporalidade das obras de Musil, Cortázar e Donoso que aí são referenciadas; em suma, ainda não dispõe da pátina de genialidade, ainda não obtida pela curta distância temporal entre os dias que correm e o momento em que foi publicada.

Classificação final: ***** (Muito Bom)

Referência bibliográfica:
Per Petterson
, Cavalos Roubados. Cruz Quebrada: Casa das Letras, 1.ª edição, Outubro de 2008, 275 pp. (tradução de Maria João Freire de Andrade; obra original: Ut og stjæle hester, 2003).

Nota: esta obra será vítima da habitual citação dominical, amanhã, portanto.

[adenda: 22:50]: *Alertado por e-mail, dei conta que ficou por referir, no que à tradução diz respeito, que a versão editada pela Casa das Letras foi elaborada a partir da versão inglesa, Out Stealing Horses, da poetisa e tradutora Anne Born (tradutora de norueguês e dinamarquês, traduziu, entre outras, obras de Isak Dinesen/Karen Blixen), cuja tradução do 2.º romance de Petterson (Cavalos Roubados) foi objecto de enorme aclamação no meio literário anglófono, realçada pelo próprio júri do IMPAC Award. Quanto às minhas referências neste campo apenas se circunscrevem (constava do espírito) à comparação entre a tradução inglesa (que já havia lido em deambulações livreiras) e a tradução de Maria João Freire de Andrade – infelizmente, não sei norueguês, e como diz Chico Buarque «devia ser proibido debochar de quem se aventura em língua estrangeira.»
Noutro aspecto, seria, como parece óbvio, preferível que se procedesse à tradução directa da língua original, mesmo que, como é o caso presente, a primeira tradução (do norueguês para o inglês) seja a todos os títulos irrepreensível, há sempre algo que se perde. Na tradução de uma tradução essas perdas serão, decerto, maiores.

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Fernando Dinis

Acabo de receber a excelente notícia pelas mãos do próprio, o vencedor da 6.ª edição do Prémio Literário Fnac/Teorema Novos Talentos, foi o nosso conhecido, e meu muito estimado, blogger, músico e poeta, agora romancista Fernando M. Dinis.
O romance, que venceu entre «cerca de uma centena de candidaturas», recebeu o título de A Casa do Esquecimento e será editado pela Teorema no próximo mês de Dezembro.
São estas pequenas (grandes) coisas que me vão deixando literalmente agarrado a este fenómeno, relativamente recente, da blogosfera.
Quando para aqui entrei a título definitivo em Dezembro de 2005, o Fernando foi das primeiras pessoas com quem estabeleci laços de afectividade e isto apesar de o desconhecer fisicamente – a não ser pela sua fotografia, de modo algum decisiva para o estabelecimento desse respeito recíproco.
Houve gostos literários que se entrecruzaram, ponto de partida para pequenas e frutuosas discussões, músicas que ouvíamos com o mesmo deleite, e o contacto com os seus trabalhos de piano que, este lisboeta nascido em 1976 (puto...), amavelmente me fez chegar.
Deixou a blogosfera neste Verão com o afinal efémero Fico Até Tarde Neste Mundo, curiosamente numa altura em que eu tentava – como é visível, sem êxito – o meu 147.º bloguicídio.
A minha hiperligação permanece na barra da direita, espera pelo teu regresso.

Por agora, apenas isto: Parabéns, querido amigo!

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Murakami, fim do pousio?

Num artigo publicado no jornal londrino The Times em Julho deste ano – a propósito da publicação no Reino Unido do primeiro livro de memórias de Haruki Murakami (n. 1949), De que falo quando falo de correr (tradução aproximada), publicado no Japão em 2007 –, o jornalista, crítico e ensaísta Stephen Armstrong discorre sobre as dez coisas que precisamos de saber sobre o escritor nipónico. A primeira asserção é a mais lógica: “Murakami divide as pessoas”. Há os que o idolatram e os que renegam os seus livros e seu tipo de literatura, acusando-a de ser «pop, sem qualidade e excessivamente ocidentalizada», bem longe, como nota o autor do artigo, do aspecto formalmente tradicional das obras de autores japoneses consagrados, como Yukio Mishima, Junichiro Tanizaki ou o nobelizado Yasunari Kawabata.
Murakami é um confirmado caso de sucesso, mas é simultaneamente objecto de uma guerra sem quartel no mundo das letras. As suas recensões são normalmente favoráveis e por vezes a roçar os limites da razoabilidade encomiástica, com comparações inusitadas, dando origem, por vezes, a frases de caracterização e descrição da obra e/ou do autor destemperadamente insólitas, de pura risibilidade, como a do “produto do cruzamento de Kafka com Woody Allen”; foi doutorado “honoris causa” por Princeton e pela Universidade de Liège; todos os anos surge na lista dos principais favoritos a conquistar o Nobel da Literatura, facto que, por si só, tem suscitado acesos debates literários.

Uma coisa parece certa, Murakami vende em Portugal, tal como vendem Paulo Coelho, MRP®, Nora Roberts ou Allende, porém o tipo de comprador/leitor é diferente, bastante heterogéneo em género e habilitações literárias, um pouco mais homogéneo na faixa etária, são sobretudo os mais jovens que lêem Murakami – informação baseada em estudo estatístico sem amostra representativa, rigorosamente acientífico, sem ficha técnica, porque resulta de um empirismo primário com um diminuto tratamento racional.

Segundo as minhas notas de leitura, li o meu último Murakami em Julho de 2007 e achei-o fraquinho, rudimentar e pueril.
Ora, até meados de Novembro de 2008, ou seja, um ano e quatro meses depois, saíram para o mercado mais três livros do escritor japonês, todos editados pela Casa das Letras e com tradução de Maria João Lourenço: Dança, Dança, Dança (Novembro de 2007); o livro de contos A rapariga que inventou um sonho (Março de 2008) e After Dark – Os passageiros da Noite (Novembro de 2008). Disponho de todos em 1.ª edição, num estado de quase pudica virgindade.
Depois de ler Em Busca do Carneiro Selvagem, cansei-me de Murakami, não significando porém que não faça uma segunda tentativa, gozando da excelente oportunidade dada pela publicação entre nós do incensado After Dark (o último romance do autor, publicado originalmente no Japão em 2004).
Talvez seja por uma frívola sugestão infundida pelo design das capas dos seus livros em Portugal – o mesmo ocorre com Lobo Antunes –, mas convenci-me de que estou a ler sempre o mesmo livro com títulos diferentes. Com o tal livro de Julho de 2007, a minha babilónica cabeça emitiu um fortíssimo sinal de déjà-vu, de uma releitura de um aborrecido universo onírico agrilhoado a uma perda de capacidade criativa do quase sexagenário autor nipónico; dando por mim – ah, a prodigiosa mente humana – a pôr em causa o que já tinha dado por adquirido: a identificação de talento e génio literários em algumas das suas obras anteriores.
De um total de onze romances, para além dos ensaios, livros de contos, autobiografia e livro de memórias, Murakami tem sete publicados em Portugal (um publicado pela Civilização e os restantes pela Casa das Letras), dos quais li cinco.

Classifico-os da seguinte forma (entre parêntesis figura o ano de publicação em japonês sem o respectivo título transliterado dada irrelevância da informação, de pôr os olhos em bico):

  • De leitura obrigatória: Norwegian Wood (1987, ed. port. Civilização) e Crónica do Pássaro de Corda (1992-1995);
  • A Ler: Sputnik, meu amor (1999);
  • Prescindíveis: Em Busca do Carneiro Selvagem (1982) e Kafka à Beira-Mar (2002);
  • Não lidos: Dança, Dança, Dança (1988) e After Dark – Os Passageiros da Noite (2004).

Será o fim do retemperador pousio?
(Se ainda lido este ano, descubra na secção de apreciação literária na barra da direita, ou mesmo sendo-o, talvez não, aumentando a diferença entre os lidos e classificados. Confuso?)

terça-feira, 11 de novembro de 2008

Reducionismo

Na verdade, há quem não entenda, e contra esses apenas um curso intensivo sob o título generalíssimo de “Realidade Política do Século XXI”, com um rigoroso sistema de avaliação, poderia salvá-los dessa triste ignorância; porém há outros que querem, através da verve e da pretensa legitimidade deífica para discorrer sobre todo e qualquer assunto, transformar a vitória de Barack Obama como o triunfo das forças do bem, doutas, piedosas, solidárias e compassivas concentradas na impoluta esquerda universal frente a uma direita eminentemente retrógrada, torcionária, extremista, xenófoba, racista, homofóbica, cúpida, açambarcadora do poder, geradora de todos conflitos à escala do globo, criminosa, fundamentalista e acima de tudo, como se o que ficou para trás não bastasse, profundamente inimiga do povo, essa massa informe de iletrados, sebentos e de mau gosto.
Barack ganhou com o voto universal, representativo do mosaico político, económico, social, étnico, etário e de género de uma nação formada por 50 Estados diferentes entre si. Não entender isso, tentando arrebanhar a vitória para uma facção (mooriana, por exemplo) tão notoriamente espúria como a bushiana, é pura desonestidade intelectual.
Eis as palavras do “Pai da Pátria” hoje no Diário de Notícias:

«Até 20 de Janeiro, praticamente dois meses, incluindo o Natal, o Presidente em funções é ainda George W. Bush. Obama será obviamente informado, mas não vai comprometer-se com nada.
Foi convidado para essa estranha e inoportuna Conferência dos 20 – iniciativa de Sarkozy, amigo de Bush, para dar relevo à sua presidência europeia, que termina no fim de Dezembro – mas creio bem que Obama não vai cair na armadilha que lhe estendem.
Vai ouvir – o que poderá ser útil –, mas não falar ou, muito menos, comprometer-se. Espero...
»

Estas palavras são de Mário Soares, um homem cuja idade polarizou o combate político numa luta maniqueísta de petiz folgazão – eu sou dos bons e tu és dos maus, uma brincadeira de índios e cobóis. Os maus estarão na reunião do G-20 representados por esse facínora do Sarkozy – que segurou uma França em ebulição e tem dado provas de boa governança –, acólito de Bush?, e os bons serão decerto representados pelo Brasil, a Índia e a China, porventura apresentando como cabeça de cartaz os virtuosos governantes da “Mãe Rússia”, os arautos da paz mundial, como demonstram à saciedade os acontecimentos mais recentes de Kalinegrado, da Geórgia, dos aviões e dos submarinos nucleares às portas da Venezuela, onde uma estranha amizade com o pacifista Chávez – que prontamente declarou que os aviões russos sobrevoariam Cuba para cumprimentar Fidel – foi saudada por esses emissários da concórdia entre terráqueos ou, o mesmo será dizer, pelos combatentes do imperialismo americano, com um raro e inócuo entusiasmo, que inclui alguns que ostentam sem o menor pingo de vergonha a foice e o martelo estampados no fundo vermelho do sangue que amparou Estaline, Ceausescu ou Mao Tsé-Tung nas suas purgas e eliminações sumárias pela imposição do socialismo.
Obama, como parece óbvio, estará apenas como observador. Até ao juramento presidencial que ocorrerá nas escadas do Capitólio no próximo dia 20 de Janeiro (o famoso Inauguration Day) não disporá de qualquer função executiva e prescindirá, certamente, dos conselhos paternalistas de Mário Soares: cuidado com os papões, filho, eles arrebanham-te ao primeiro sinal de fraqueza. O bom filho dir-lhe-ia: não te preocupes papá. O Savimbi foi assassinado no mato, o Craxi morreu às portas do deserto – na Tunísia fugido à justiça italiana, que o condenara a 27 anos de cadeia por corrupção –, e o Chávez não vem porque, sentado em cima de um barril de petróleo, joga ao campo minado no Windows português do Magalhães, oferecido pelo mano com nome de filósofo famoso, que não escreveu uma única linha.

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Por mero ACASO

Acabei de receber por correio electrónico o que se segue: Paul Auster em Cascais no próximo domingo, em companhia do crítico de cinema Rui Pedro Tendinha.


Presumo que irão falar sobre cinema, ou do relativo fracasso de A Vida Interior de Martin Frost (The Inner Life of Martin Frost, 2007), aproveitando o autor para lançar no mercado português a tradução do seu mais recente romance Homem na Escuridão (Man in the Dark, 2008), cuja edição está a cargo da editora, ex-portuense?, Asa, agora integrada no grupo LeYa. E diga-se que, apesar da debandada de autores, não abriu mão das obras do escritor sexagenário de Newark, Nova Jérsia – e só espero que, na espinhosa tarefa de manter os bons autores na casa, os responsáveis da editora não se tenham esquecido das obras da sua mulher, a alta e loura – como ele próprio a descreveu –, e descomunal escritora Siri Hustvedt, com novo romance publicado (e bastante elogiado) este ano nos Estados Unidos, e com a restante obra quase esgotada em Portugal, com excepção do avassalador Aquilo Que Eu Amava (What I Loved, 2003), a pedir uma urgente reedição.

Regressando à tertúlia cascalense, onde, possivelmente, se irá falar de um outro assunto que tem mexido com a imprensa cultural espanhola pela casualidade envolvida (ou o chamamento do eterno acaso): trata-se da estranha inspiração extra-sensorial e quase simbiótica entre Auster e Pedro Almodóvar quando o primeiro escrevia Homem na Escuridão e o segundo redigia o argumento para o seu próximo filme Abrazos Rotos (pode traduzir-se por Abraços Quebrados), fenómeno que foi antecedido por um fortíssimo ataque de cefaleias que quase imobilizaram o realizador espanhol no preciso momento em que ambos haviam combinado em Oviedo escrever um guião para o seu futuro filme (retirado do blogue de Almodóvar):

«Ao longo dos três dias que durou a nossa estadia em Oviedo [entrega, em Outubro de 2006, dos Prémios Príncipe das Astúrias] compartilhámos muitas situações, para além de comer e beber. Num desses jantares, quando já estávamos bastante animados, sondei-o sobre a possibilidade de escrevermos um guião juntos. De acordo com o seu programa de trabalho disse-me que não havia inconveniente, e eu pensava que podia levá-lo a cabo decorridos três ou quatro meses, não me importava de me deslocar a Nova Iorque.
Apenas isso, ao acabar a promoção em Janeiro de 2007
[do filme Voltar (Volver, 2006)] decido enfrentar o problema das minhas dores de cabeça, que haviam aumentado em 2006. A partir desse momento, enquanto fazia diversos tratamentos com um grupo de neurologistas, as dores aumentaram… enfim, a coisa é que durante o primeiro semestre de 2007 vivi aprisionado pelas cefaleias e pelos tratamentos. Não pude ir a Nova Iorque nem escrever com Paul Auster. Não obstante, cada um por seu lado escreveu duas histórias sobre narradores na escuridão. Uma situação tipicamente austeriana.» [destaque meu; tradução: AMC]

Porém, e regressando à costa atlântica ocidental, será decerto inescapável abordar o tema da crítica e da péssima recepção de A Vida Interior… pela comunidade lusa de críticos e não só. Lá fora a implacável Manohla Dargis – uma quase Kakutani do cinema – desancou, sem qualquer espécie de pruridos, no filme de Auster, terminando com o desabafo que “quanto menos dele se falar, melhor seria para Auster”.

Vi o filme depois ter ouvido e lido todo o chorrilho de zurzidelas nacionais e internacionais, profissionais e amadoras, e creio que não era motivo para tanto estardalhaço negativista. Está longe, bem longe, de ser um filme técnica e esteticamente perfeito, mas à mesma distância de segurança de um slapstick como vi rotulá-lo por muito boa e letrada gente.

domingo, 9 de novembro de 2008

Dos fracos (ao ou pelo poder)

Friedrich Nietzsche«Para uma filosofia da força ou da vontade, parece difícil explicar como é que as forças reactivas, como é que os “escravos”, os “fracos” levam a melhor. Porque, se todos em conjunto formam uma força maior que a dos fortes, não vemos muito bem o que mudou, e sobre que se funda uma avaliação qualitativa. Mas, na verdade, os fracos, os escravos não triunfam por adição das suas forças, mas por subtracção da força do outro: separam o forte daquilo que ele pode. Eles triunfam, não pela composição do seu poder, mas pelo poder do seu contágio. Acarretam um devir-reactivo de todas as forças. É isso a “degenerescência”. Nietzsche mostra já que os critérios da luta pela vida, da selecção natural, favorecem necessariamente os fracos e os doentes enquanto tais, os “secundários” (chama-se doente a uma vida reduzida aos seus processos reactivos). […] As forças reactivas, ao levarem a melhor, não deixam de ser reactivas. Porque, em todas as coisas, segundo Nietzsche, trata-se de uma tipologia qualitativa, trata-se de baixeza e de nobreza. Os nossos senhores são escravos que triunfam num devir-escravo universal [...] Nietzsche descreve os Estados modernos como formigueiros, em que os chefes e os poderosos levam a melhor devido à sua baixeza, ao contágio desta baixeza e desta truanice. Qualquer que seja a complexidade de Nietzsche, o leitor adivinha facilmente em que categoria (quer dizer, em que tipo) ele teria colocado a raça dos “senhores” concebidos pelos nazis. Quando o niilismo triunfa, então e só então a vontade de poder deixa de querer dizer “criar”, mas significa: querer o poder, desejar dominar (portanto, atribuir-se ou fazer com que lhe atribuam os valores estabelecidos, dinheiro, honras, poder...). Ora, esta vontade deste poder é precisamente a do escravo, é a maneira como o escravo ou o impotente concebe o poder, a ideia que dele faz, e que ele aplica quando triunfa. Acontece que um doente pode dizer: ah! se eu estivesse bom, faria isto – e talvez o fizesse –, mas os seus projectos e as suas concepções são ainda as de um doente, e nada mais que as de um doente. Passa-se o mesmo com o escravo e com a sua concepção do domínio ou do poder. Passa-se o mesmo com o homem reactivo e com a sua concepção de acção. Por toda a parte, é a inversão dos valores e das avaliações, por toda a parte são as coisas vistas do lado pequeno, as imagens invertidas como numa clarabóia. Uma das grandes frases de Nietzsche é: “Temos sempre de defender os fortes contra os fracos.» [destaque meu]
Gilles Deleuze, Nietzsche, pp. 25-26
[Lisboa: Edições 70, 1.ª edição, Agosto de 2007, 107 pp.; tradução de Alberto Campos; obra original: Nietzsche, 1965]

Sem mais comentários (como quase sempre nas citações dominicais neste blogue).

sábado, 8 de novembro de 2008

A intimidação dos poderosos

A Destruição do Leviatã, de Gustave Doré, 1865Intróito
Depois de ter lido
isto e isto do Eduardo Pitta no seu blogue Da Literatura, germinou em mim uma vontade incomensurável de falar, de gritar, de exteriorizar a revolta que casos como este e similares me provocam, me revolvem as entranhas e me fazem, por vezes, estiolar em palavras de desprezo perante este país de capelinhas e sacristias, onde uma pequena turba de oligarcas dedilha os fios que fazem mover os nossos braços e pernas como se fôssemos marionetas.
Irei falar um pouco das vicissitudes de um processo desta natureza, eminentemente persecutória, que está escrito nos seus contornos quase kafkianos. E, de seguida, recupero um texto – cujo título original deu o nome ao de hoje –, à laia de ensaio, passe o possível pretensiosismo, que havia escrito, por catarse (outros queriam-no para publicação, a que resisti com alguma veemência, dada a minha indisponibilidade física e mental, não literal, para servir de Martim Moniz), em Fevereiro de 2004. Hoje, ao ler os textos do Eduardo, sabia que o houvera escrito e que estaria arrumado com centenas de outros numa das pastas abandonadas do disco rígido do meu computador; apenas cheguei lá pelo título – neste caso aparece com o subtítulo “Do Poder: a incubação dos medíocres”.

Do Processo
É esta a resignação perante uma coisa cuja denominação há muito deixou de corresponder à sua etimologia (percebe-se no final, pela circularidade).
Um exemplo cabal desse desfasamento materializa-se no processo disciplinar consubstanciado no direito do trabalho. A putativa protecção do trabalhador nestes casos, não passa disso mesmo, de uma presunção de atribuição de determinados direitos de defesa que jamais poderão ser exercidos, quer no campo meramente interno – na condução do processo disciplinar tout court, que cabe única e exclusivamente à empresa dirigir, com um instrutor parcial (de partidário) nomeado para o efeito –, quer no plano externo quando a decisão de despedimento é tomada e se recorre aos tribunais para recuperação do vínculo e de todas as prerrogativas anteriores que a mera existência desse vínculo englobava.
A lei obriga a manifestação expressa do desejo de despedir na, usualmente rocambolesca, “Nota de Culpa”. Findo o processo de inquérito, segue-se o tribunal, com a interposição do procedimento cautelar de suspensão do despedimento. A vitória aí alcançada poderá, segundo dizem, ser um prenúncio para a vitória final, mas quase sempre se trata de um presente envenenado, uma vez que nada mais repõe que não seja o direito à retribuição.
Depois chega a acção declarativa (a chamada de "principal"), o processo de impugnação desse despedimento: a verdadeira tortura. Advogados, petições, juízes, requerimentos, audiências preliminares, tentativas de conciliação, audiência de partes, arrolamento de testemunhas, adiamentos por falta de douta agenda, expedientes dilatórios, etc. Custas, taxas de justiça, preparos, honorários, telefonemas, deslocações… dois anos, na melhor das hipóteses. Em suma, o despedido via processo disciplinar é condenado a pelo menos dois anos de tortura enquadrada nos beneplácitos e nas concessões da monstruosa máquina judicial portuguesa.
Todavia, o pior chega com o impedimento de entrada do visado nas instalações onde durante anos, talvez décadas, exerceu a sua actividade profissional; onde deixou todo o seu suor, as suas ideias, a sua dedicação e natural socialização dentro de um ambiente controlado que, fatalmente, criou uma teia de relações pessoais. É precisamente aí que se inicia a tortura chinesa da difamação e da injúria: dentro das instalações, “no escurinho do cinema” (sem dropes de anis), longe da vista e do coração do terrível aviltador do status quo, sem qualquer hipótese de defesa, inicialmente difundida pelos donos do poder e perpetrada diariamente nos corredores através do boato e da inócua maledicência, e depois propagada até por aqueles que um dia havíamos reputado como colegas de trabalho dignos da nossa confiança e até, em alguns casos, como amigos fora do círculo restrito das relações profissionais. É precisamente aí que ficamos a conhecer, sem hipótese de remissão, a mesquinhez da natureza humana, a baixeza, a vileza, o grau de maleabilidade moral de seres intrinsecamente reptilários.
Já não me recordo de quem o disse, mas louvo-lhe a coragem por haver proferido a seguinte frase: «frequento muito pouco a natureza humana». Atribuo, hoje em dia, um valor imensurável à independência e à sujeição mínima perante uma hierarquia. Como diz o Miguel Esteves Cardoso na última Ler, prefiro ser «autor de mim próprio» nem que isso faça de mim materialmente mais pobre.
Sem conhecer a visada, e tão-pouco vislumbrar a hipótese de algum dia a poder vir a conhecer; sem conhecer o processo em causa, mas divisando, infelizmente, os contornos que por ora assume e que, mais tarde, irá decerto assumir, gostaria de manifestar a minha solidariedade a Joana Morais Varela, que de um momento para outro se viu despojada de um projecto que erigiu e ajudou a retirar, em definitivo, a Colóquio/Letras dos escombros da ociosa intelectualidade lusa.

Do Poder: a incubação dos medíocres
Muitas vezes, a forma mais vil de se obter o poder, ao contrário do popularmente determinado, não é aquela onde se o conquista pela força. Ela advém de um sistema genericamente considerado como o mais “humanamente benigno”, a democracia.
Winston Churchill disse, mais ou menos por estas palavras, que «a democracia é o pior de todas as formas de governo, com excepção de todos as outras que a História já deu a conhecer ao mundo».
A inquietação implícita nesta frase leva-nos ao reconhecimento cabal das falhas dos sistemas democráticos.
Arriscar-me-ia a afirmar que a democracia, na sua fase de maturidade, conduz à alienação das massas, ao triunfo dos medíocres e à permanente insatisfação das franjas populacionais que lutam por ideias de transparência, honestidade e de desenvolvimento sustentado da condição humana.
Cada acto eleitoral deveria corresponder a um acto de renovação da esperança dos eternos insatisfeitos com a classe governativa. Quando falo de classe governativa não me circunscrevo àquela que administra e representa os destinos da nossa pátria, seja ela qual for. O conceito é mais abrangente, incluindo as micro-relações de poder que vamos enfrentando na nossa vivência quotidiana.
O respeito pela democracia plena determinaria “1 Homem – 1 voto”. Empiricamente, afigura-se-nos como a solução mais generosa no sentido de garantir a participação plural de todos os membros que compõem uma dada comunidade ou uma dada organização no processo de tomada de decisão. Todavia, o somatório das vontades individuais não é igual à vontade colectiva, na medida em que o jogo da procura pela solução consensual implica, à partida, cedências de alguns desejos de cariz pessoal para benefício da colectividade.
Parece um simples truísmo, mas convém salientar que é impossível conciliar posições individuais quando estas se revelam antagónicas, sob pena de o próprio sistema democrático não funcionar. Logo, os grupos formam-se por pessoas que têm valores, comportamentos, atitudes e objectivos similares. Agrupam-se, em primeiro lugar, pela identificabilidade.
Depois de constituídos os grupos, que normalmente se arrogam de representativos de determinadas franjas sociais, há a definição da acção comum de forma a seduzir os indecisos e engrossar fileiras para a conquista da vitória final, que se poderá facilmente traduzir pela conquista do poder – é todo um léxico marcial que mais bem se adequa à explicação da génese do poder.
Inicia-se o processo de governação, normalmente começa-se por satisfazer as clientelas políticas, distribuem-se os poleiros, hierarquizados pela notoriedade, poder de influência e pelo pretenso grau de operacionalidade ou mais-valia técnico-científica. Posteriormente, tomam-se decisões de fundo e afastam-se algumas vozes críticas que, potencialmente, pelas suas integridade e idoneidade, podem constituir um entrave à governação. Arrebanham-se os volúveis e os medíocres com promessas vãs de status social, de engrandecimento da reputação e/ou com estabilidade governativa, já que geralmente o seu valor de mercado é acessível.
Quem detém o poder governa para si e para os seus e intimida os oponentes que, de forma resistente, ainda perduram, quais obstáculos, no horizonte de poder dos dirigentes.
Ao ostracismo são votados os que permanecem com as suas convicções e, o pior de tudo, são apontados a dedo, pelos neodominados partidários da elite governamental, como destruidores da instituição ou da comunidade a que pertencem e das suas vidinhas conformistas.
Usualmente, vigora a tese da intimidação pelo bem colectivo – que para os poderosos significa a eternização no poder, manutenção do status quo e conservação ou expansão do açambarcamento de privilégios extraordinários –, que é divulgada, amedrontando: "o bem colectivo" poderá ser destruído pelos, por si denominados, com direito a comunicação explícita usando os gratuitos megafones do poder, “difamadores” e/ou “sequiosos de poder”, de forma a garantirem a imposição das suas vontades individuais.

Confesso. Não sei quem de mim merece um maior sentimento de comiseração, se os medíocres que sabem que são medíocres, ou aqueles que, devido à ignorância, se acham autorizados a intervir pelo bem comum. Estes últimos são os coitados que interferem nas nossas vidas com a consciência tranquila de que contribuíram de forma decisiva para a comunidade. Os primeiros são os parasitas da sociedade, aqueles que cedem, que recuam, que deambulam neste mundo esquecendo amigos, parentes, vizinhos, colegas de profissão, e, mais grave ainda, os valores mais nobres e elevados da sinceridade, honradez, amizade, compaixão, integridade e, acima de tudo, da lealdade nas relações humanas, que deveriam ser orientadores do seu comportamento nas suas mesquinhas vidas.
A democracia emprenha intimidadores, concebe medíocres e afasta aqueles com opiniões próprias.

Mas haverá melhor sistema!? (voltar a "Do Processo")

(Imagem:A Destruição do Leviatã” gravura de Gustave Doré, 1865, para a Bíblia Sagrada: Isaías, 27)

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Irrealismo pós-histérico

Alguns afazeres inadiáveis por estes dias têm-me afastado do blogue e feito da única leitura do momento – o último romance de Salman Rushdie editado entre nós – um exercício de entretenimento sincopado pelo necessário achamento do fio meada da dita obra que, se mais não bastasse, tinha de ser do babilónico-hermético escritor indo-britânico.
Talvez seja das sucessivas interrupções, algumas bastante longas, ou quiçá de um preconceito inultrapassável perante o autor da obra, mas parece-me que A Feiticeira de Florença é uma manta de retalhos muito mal cerzida. Mas a falta da visão global, que se adquire após a última página, prejudica, para já, qualquer análise minimamente séria.
Há, no entanto, passagens que têm o condão de fazer soar o alarme que me alerta para o atingimento de um nível estético notavelmente baixo, para não falar do ético, essencialmente pela sua impudica e descarada desarmonia com o texto, como se tentasse colar uma ideia que sobreveio inusitadamente a uma mente subitamente tortuosa – e espera-se, sem qualquer relação com a experiência, difícil de vislumbrar pela conhecida garbosidade da contraparte. Verosímil, pode ser; real, infelizmente sim; necessária, jamais, atendendo ao contexto, de uma Florença dissoluta, expulsos os Chorões corporizados em Savonarola e o seus sequazes, largamente descrita ao longo da obra.
Rushdie ultrapassou o histerismo, na medida em que ele é resolvido pelos devaneios lascivos perfeitamente secundários dos seus personagens, tautológicos e recalcitrantes, e que parecem resultar de um falhadíssimo pastiche da marca distintamente lúbrica de Philip Roth, ética e esteticamente irrepreensíveis.

Veja-se esta passagem… ou melhor, leia-se este retalho, que deveria voltar ao lugar de onde saiu, à mente maltratada… retalhada:

«Todas as noites se punha a olhar para a sua mulher à mesa e não encontrava nada para lhe dizer. Marietta, era esse o seu nome, e aqui estavam os seus filhos, os filhos de ambos, os seus muitos, muitos filhos; era, portanto, verdade que ele se casara e tivera filhos a exemplo das pessoas como deve ser, mas isso era noutra época, na época da grandeza negligente, em que todos os dias fodia com uma rapariga diferente para se manter vigoroso e vivo, e fodia também com a mulher, claro, seis vezes, pelo menos. Marietta Corsini, a mulher, que lhe passajava as camisolas interiores e toalhas e não sabia nada de nada, que não compreendia a sua filosofia nem se ria das suas piadas. Todos os demais no mundo o achavam engraçado, mas ela tomava tudo à letra, pensava que um homem queria dizer exactamente o que dizia e as alusões e metáforas eram apenas as ferramentas de que os homens se serviam para enganar as mulheres, para as fazerem pensar que não sabiam o que se passava. Ele amava-a, é certo. Amava-a como um membro da sua família. Como uma irmã. Quando fodia com ela sentia-se levemente pecaminoso. Sentia-se incestuoso, como se estivesse a foder com a irmã. Aliás, essa noção era a única coisa capaz de o excitar quando se deitava com ela. Estou a foder com a minha irmã, dizia para consigo, e vinha-se.»
Salman Rushdie, A Feiticeira de Florença, pp. 230-231.
[Lisboa: Dom Quixote, 1.ª edição, Outubro de 2008, 343 pp.; tradução de J. Teixeira de Aguilar; obra original: The Enchantress of Florence, 2008.]

terça-feira, 4 de novembro de 2008

Ligações perigosas

Corrente enferrujadaQuando a 17 de Dezembro de 2005 resolvi entrar, em definitivo – já tinha havido uma intermitente experiência anterior em 2004/05 de que, feliz e lucidamente, não deixei qualquer traço, mesmo atendendo ao provável rasto viscoso e fosforescente deixado pelo desanuviamento emocional, com alguns espasmos de pura descarga biliar –, mas dizia que, quando resolvi entrar neste mundo a que, anglicizando, se convencionou chamar de blogosfera estatuí como regra inderrogável a reciprocidade das hiperligações a outros blogues.

Creio que a tal regra foi sendo cabalmente cumprida, com algumas excepções que podem ter-se ficado a dever a razões de vária ordem:

  1. O cada vez mais ineficaz Technorati não capta todos os blogues que aqui se vão ligando;
  2. A eliminação, pura e simples, de ligações a sítios racistas, xenófobos, sexistas e homófobos, de seitas religiosas e/ou esotéricas, de cilício ou de avental, e de blogues onde é manifesta a intolerância pela opinião alheia;
  3. Os deslincadores (uma das piores estirpes blogueiras) sem aparente razão objectiva que justifique a acção de deslincar (exemplos de algumas razões compreensíveis e objectivas: redução das ligações ao mínimo indispensável, aos blogues mais visitados ou abolição, pura e simples, de hiperligações a outros blogues), ou se meramente subjectiva e pessoal sem que haja da contraparte qualquer tipo de explicação, são permanente e liminarmente eliminados;
  4. Apenas são incluídos no meu rol de hiperligações os blogues que reputo pertencer ao submundo, ou seja, 99% dos blogues nacionais; os restantes blogues, os de incomensurável qualidade ditada pelo crivo pachequista (nem merece que se lhe atribua o habitual sufixo “-iano”), ou seja, os tais etéreos e democráticos, os que possam pertencer à escassíssima margem de 1%, são liminarmente retirados devido ao abrupto e prestimoso auxílio da ferramenta Upperworld Detector, mais conhecido por “caçador de torres de marfim” (entre a enormidade de funções de detecção, entra em acção bloqueadora, por exemplo, se captar o uso reiterado de frases e expressões como “salvífico”, “justicialista”, “essa não é a questão essencial”, “manhá”, “Super Dragões”, “Rui Rio”, “O Rui Rio disse…”, “Gosto muito do Porto, lá nasci, até sou portista, mas…”, etc.


Ser recíproco na amabilidade recebida da ligação é, porém, uma tarefa árdua de construção e desconstrução de arrolamentos de hiperligações, principalmente quando a constância na manutenção dos blogues é verdadeiramente inusitada. Comecei com o Porque, entretanto criei o Data – que funcionaria como uma espécie de receptáculo de matéria adiposa –, seguiu-se-lhe o In Absentia e, por fim, cheguei ao Nunca Mais, todos os títulos auxiliados pela excelsa poesia de Sophia, que se adequa grandemente ao meu estado de inquietação permanente. Logo, surgiu a necessidade premente de transportar dos falecidos (ou moribundos) a lista infindável de blogues, seguindo sempre a tal regra da reciprocidade – tarefa assaz estúpida, quando o autor (eu, na 3.ª pessoa como convém ao submundo) apagava a listagem antes de abrir o novo.
Todavia, as novas tecnologias cedo resolveram esse problema através do surgimento de ferramentas agregadoras de hiperligações com publicação imediata (mediante a cópia de um código em HTML para a página em causa). Aderi ao Blogrolling (logótipo acima), mas o dito cujo, com todas as suas debilidades identificadas na organização dos blogues arrolados (designadamente, na ordenação alfabética devido, na sua maioria, a questões diacríticas) foi, há duas semanas, vítima de um severo acto de intrusão informática – ah, que maravilha, o submundo a atacar o submundo! Conclusão, os seus autores ainda não se refizeram do ataque, limitando-se a largar umas mensagens no Twitter, onde dá para aferir o seu estado de profundo choque, com a ditosa esperança num futuro melhor, devolvendo aos utilizadores todas as funcionalidades que vinham a usar – gratuitamente, é preciso que se diga.
Até lá, que me desculpem aqueles que aqui se vão ligando e que não recebem em troca uma pequena lembrança desta parte, mas há dias que não consigo sequer aceder ao adicionamento de hiperligações, agravado pela impossibilidade de remover ou de rectificar (nomes, endereços, etc.) daqueles que já figuravam no arrolamento.
Mas nem tudo é mau. Pelo menos, o código vai funcionando, e a listagem que figura na barra da direita deste blogue continua de pé… desactualizada.

Submundo – n. m. (De sub-+mundo), se aplicado à blogosfera, conjunto de blogues cujos autores não disputam entre si colunas de opinião nos jornais, programas televisivos e tertúlias radiofónicas; não usufruem ou usufruíram de cargos políticos ou cargos de relevo para a consolidação da democracia nacional; são chatos como as carraças (ou melgas, de acordo com a preferência parasitária), porque denunciantes de crimes de colarinho branco que acabam com processos judiciais por difamação, injúria, calúnia, enquanto os imaculados denunciados gozam de total impunidade nos seus Bancos, a abrir e a transferir dinheiro aos magotes para offshores, a criar universidades para sacar mais uns benefícios do estado, gozando da dupla função de OMO (lava mais branco), onde até fazem a sua perninha dando umas lições sobre ética democrática e empresarial, viajando pelos pólos criados no exterior, essencialmente no Brasil e Angola.

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Exteriorização

Para um americanófilo é chegada a hora do minimalismo argumentativo (por todas as razões que reputo e assevero como válidas) sobre o evento que, amanhã, terça-feira, 4 de Novembro de 2008, irá parar o mundo:


Barack Obama

domingo, 2 de novembro de 2008

Magalhães

Porque lhe dei este título?
É domingo, dia quase oficial das citações tout court neste blogue, mas no entanto… Uma vontade irreprimível, como se os dedos que comandam as teclas houvessem ganhado vida, autónoma, independente da vontade da alma que se lhes infiltra a carne… é fraca, eu sei. Talvez, à laia de lenitivo lúbrico, o Soneto CXXIX de Shakespeare não fosse má ideia.
Recriando as palavras do outro, barricado em Novembro 1975 no Parlamento português, não gosto que façam sexo comigo quando contrariado…

Magalhães, vendido como tremoços em cimeiras internacionais… que vergonha! Por favor, não façam amor comigo sem a minha anuência!

(Auxiliar de leitura da citação: o rei que se segue, em conversa com o seu criado – que poderia ser a representação fiel de todos nós –, tem o hábito imperial de se referir a si mesmo na primeira pessoa do plural.)

«– Somos o Imperador da Índia, Bhaktri [sic] Ram Jain, mas não somos capazes de escrever o raio do nosso nome […]
– Sim, ó ditosíssima entidade, pai de muitos filhos, esposo de muitas esposas, monarca do mundo, abarcador da terra – respondeu Bhakti Ram Jain [o criado], estendendo-lhe uma toalha. Esta altura, a hora do levantar do rei, era também a hora da lisonja imperial. Bhakti Ram Jain detinha orgulhosamente a categoria de Lisonjeador Imperial de Primeira Classe, e era mestre no floreado estilo da velha escola conhecido por bajulação cumulativa. Só um homem com uma memória excelente para as barrocas formulações dos encómios excessivos era capaz de bajular cumulativamente, devido às repetições exigidas e à necessária precisão da sequência. A memória de Bhakti Ram Jain era infalível. Era capaz de bajular durante horas.
[…]
– Somos o rei dos reis, Bhakti Ram Jain, mas não somos capazes de ler as nossas próprias leis. Que dizes a isto?
– Sim, ó mais justo de todos os juízes, pai de muitos filhos, esposo de muitas esposas, monarca do mundo, abarcador da terra, governante de tudo o que existe, congregador de todo o ser – volveu Bhakti Ram Jain, fazendo aquecimento para a sua tarefa.
– Somos a Sublime Radiância, a Estrela da Índia e o Sol da Glória – disse o imperador, que sabia também uma ou duas coisas de lisonja, – e contudo fomos criados naquela esterqueira de cidade onde os homens fodem com as mulheres para fazerem filhos mas fodem com rapazes para os fazerem homens, criados tanto a estar alerta ao atacante que operava pelas costas como ao guerreiro mesmo na nossa frente.
[…]
[A bajulação do criado continua no seu mais firme estoicismo (nota minha)]
– Sim, ó mais perspicaz que os Videntes, pai de muitos...
– És um bode ao qual se devia cortar a garganta para podermos comer a sua carne ao almoço.
– Sim, ó mais misericordioso que os deuses, pai...
– A tua mãe fodeu com um porco para te fazer.
– Sim, ó mais eloquente de todos quantos têm eloquência, p...
– Deixa lá – atalhou o imperador. – Já nos sentimos melhor. Vai-te embora. Podes viver.
»
Salman Rushdie, A Feiticeira de Florença, pp. 44-45.
[Lisboa: Dom Quixote, 1.ª edição, Outubro de 2008, 343 pp.; tradução de J. Teixeira de Aguilar; obra original: The Enchantress of Florence, 2008.]

sábado, 1 de novembro de 2008

Não, lamento, é cinema

A Turma, de Laurent Cantet (Entre les murs, 2008)

Não é preciso recuar muito na já longa semi-recta do tempo cinematográfico para evocar obras da 7.ª arte que fazem da claustrofobia das relações humanas, literalmente entre quatro paredes, e o inevitável choque de idiossincrasias e de personalidade, a sua acção. São obras que evocam o limite, a exaustão, o inferno da convivência, a tortura psicológica da colisão e natural dissolução de diferentes formas de pensar, sentir e agir numa espécie de matéria viscosa, inconsistente e incandescente que agrega todos os pensamentos, sentimentos e atitudes de um grupo, à espera de um momento de escape para libertar toda a sua energia avassaladora.
Basta recordar – e foi o primeiro filme que assomou à minha mente progressivamente amnésica quando abandonava a sala de cinema – o admirável Doze Homens em Fúria (12 Angry Men) baseado na peça de teatro de Reginald Rose e realizado para o cinema em 1957 por Sidney Lumet e para a televisão por William Friedkin em 1997, ambos com um elenco de luxo. E depois surgiram, enquanto assentia sozinho nas escadas rolantes do centro comercial num vigor de lunático, alguns dos mais claustrofóbicos produtos do mestre Hitchcock: A Corda (Rope, 1948), A Janela Indiscreta (Rear Window, 1954). Veio por fim, antes de chegar ao parque de estacionamento e desviar todas as minhas atenções para o comummente olvidável lugar onde estaciono o carro, um filme mais recente, o excepcional – nem para todos, (in)felizmente – Entrevista (Interview, 2007) de Steve Buscemi.

E que bem ficaria apenas Entre les Murs, ou quando muito Entre as Paredes (ou mesmo, Muros para que se lhe desse um toque mais austero e sombrio) para simbolizar a natureza prometeica de uma das mais duras profissões do mundo nos dias que correm – apesar da incomparabilidade de universos, pela menor dispersão de classes, raças e etnias, por se tratar de uma faixa etária mais avançada (mais amadurecida) e pela filtragem à partida dos verdadeiros problemas económicos e sociais, tenho alguma experiência no assunto para poder aferir do necessário grau de resistência de uma classe de heróis, cumulativamente maltratados por uma classe política, quer de forma directa, através de políticas de educação catastróficas, quer de forma indirecta, por uma macro acção legislativa, executiva e reguladora na condução do destino da população, com repercussão nas gerações mais jovens, face às rápidas e implacáveis mudanças da envolvente e da sua influência sobre as mentalidades.

François Bégaudeau (n. 1971) escreveu o livro de base, que dá o nome ao filme, e o respectivo argumento. Licenciado em Literatura, passou por uma curta experiência de professor do ensino secundário público francês num bairro de Paris. É ele próprio a dar corpo ao professor de Francês "François Marin" numa escola pública parisiense. Destaco o sufocante realismo de toda a sua actuação, constrangedora para quem pretendia assistir, no conforto da cadeira, a um universo escolar cor-de-rosa, eivado de alguns pontos negros.
Laurent Cantet (n. 1961) filmou com mestria esta luta de disseminação do poder e de hierarquias, de choque cultural e étnico, de visões do mundo entre duas gerações que paradoxalmente se entrecruzam no tempo, dentro das claustrofóbicas quatro paredes de uma sala de aula onde perambula um estado de rebelião latente, pronto a irromper, ameaçando não se deter, como um engenho explosivo, dentro dos muros da escola normalizadora de comportamentos de uma sociedade caduca.
Cantet consegue captar, com a sapiência e a maturidade de um veterano das artes cinematográficas, a oposição de atmosfera entre a sala de aula e a sala dos professores, a antinomia ambiental, se quisermos, apesar das inúmeras e díspares idiossincrasias dos adultos já formados pela mesma escola que compõem o corpo docente, realçando-a como um ponto de fuga, onde o alheamento e a frugalidade funcionam como a válvula de escape do ambiente de guerrilha vivido noutra parte do edifício há cerca de cinco minutos: a máquina do café ou o anúncio da gravidez de uma colega de trabalho, são o exemplo paradigmático dessa escapatória.
É um filme duro, que exige introspecção e disponibilidade mental.

A sala onde assistia ficou, no final, com metade da lotação inicial. Pressentia um abanar de cabeças rotuladoras da inactividade cénica dos filmes franceses, como se tratasse apenas de uma peça de teatro filmado. Mas aqueles que saíram antes do mês de Junho, do recreio de todo apaziguamento das tensões sofridas durante noves meses, enganaram-se: não, lamento, isto é (mesmo) cinema, porque, de outro modo, aquela história jamais poderia ser assim contada, com todo aquele desconforto visual.

Apenas para a história da 7.ª arte:
Depois de Maurice Pialat ter vencido a Palma de Ouro do Festival de Cinema de Cannes em 1987 com o filme Sob o Sol de Satanás (Sous le soleil de Satan), Laurent Cantet quebra o jejum francês de 21 anos deixando o galardão de novo em casa:

Eis os vencedores da Palma de Ouro de Cannes desde 1987 até aos dias de hoje (com o infeliz e seboso ano de 2004):

  • 2007 – 4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias (4 Luni, 3 Saptamini si 2 Zile) de Cristian Mungiu, Roménia
  • 2006 – Brisa de Mudança (The Wind That Shakes the Barley), de Ken Loach, Irlanda
  • 2005 – A Criança (L’Enfant), de Luc e Jean-Pierre Dardenne, Bélgica
  • 2004 – Fahrenheit 9/11, de Michael Moore, Estados Unidos
  • 2003 – Elefante (Elephant), de Gus Van Sant, Estados Unidos
  • 2002 – O Pianista (The Pianist), de Roman Polanski, Polónia
  • 2001 – O Quarto do Filho (La Stanza del Figlio), de Nanni Moretti, Itália
  • 2000 – Dancer in the Dark, de Lars von Trier, Dinamarca
  • 1999 – Rosetta, de Luc e Jean-Pierre Dardenne, Bélgica
  • 1998 – A Eternidade e Um Dia (Mia aioniotita kai mia mera), de Theo Angelopoulos, Grécia
  • 1997 – O Sabor da Cereja (Ta'm e guilass), de Abbas Kiarostami, Irão e A Enguia (Unagi), de Shohei Imamura, Japãoex aequo
  • 1996 – Segredos e Mentiras (Secrets & Lies), de Mike Leigh, Reino Unido
  • 1995 – Underground – Era Uma Vez Um País (Bila jednom jedna zemlja), de Emir Kusturica, Jugoslávia
  • 1994 – Pulp Fiction, de Quentin Tarantino, Estados Unidos
  • 1993 – O Piano (The Piano) de Jane Campion, Austrália e Adeus Minha Concubina (Ba wang bie ji), de Chen Kaige, Chinaex aequo
  • 1992 – As Melhores Intenções (Den Goda Viljan), de Bille August, Dinamarca
  • 1991– Barton Fink, de Joel e Ethan Coen, Estados Unidos
  • 1990 – Um Coração Selvagem (Wild at Heart), de David Lynch, Estados Unidos
  • 1989 – Sexo, Mentiras e Vídeo (Sex, Lies, and Videotape), de Steven Soderbergh, Estados Unidos
  • 1988 – Pelle, O Conquistador (Pelle Erobreren), de Bille August, Dinamarca

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Escuridão

«Já tudo escureceu;
contudo ainda resta algum dia
suspenso de onde veio a noite que chegou primeiro.

É de sempre este resto de dia
e acompanha-a pelo céu em busca das estrelas frágeis.

A noite, uma vez,
compreenderá que ele vem do mesmo lado que ela.
»

Jorge de Sena, “Nocturnos: V” (1941), in Antologia Poética, pág. 34.
[Porto: Asa, 2.ª edição, 2001, 304 pp.]


Regressa Auster às livrarias portuguesas em edição lusa. A Asa anunciou a publicação do último romance do escritor de Newark, nascido em 1947, Homem na Escuridão em Novembro, em dia que desconheço [via blogue da revista Ler].
A meio de Agosto, dei aqui a notícia da sua publicação mundial, atrevendo-me à tradução das primeiras páginas da versão original norte-americana.
Apenas três meses de desfasamento, a que se acresce a garantia, dada pela nova editora responsável pelas obras de literatura de ficção da Asa, Carmen Serrano, da edição simultânea do original americano e da versão portuguesa em 2009 do 13.º romance do poeta do acaso. O manuscrito está pronto, a obra chamar-se-á Invisible (como referi aqui) e ao que parece diferente dos romances anteriores marcadamente metadiegéticos, apesar de Auster não abandonar de todo o (para ele) viciante artifício metaliterário.
A propósito da sua enorme popularidade na Europa, em comparação com a quase indiferença norte-americana, Auster responde numa entrevista dada no início do mês ao jornal espanhol El Periódico [transcrição da notícia; tradução livre: AMC]:
«“Nos Estados Unidos corre tudo bem”, responde resguardando-se na iminência da pergunta do milhão de dólares. Porque tem uma melhor recepção na Europa do que nos Estados Unidos? “Tenho mais leitores na Alemanha, França e Espanha porque são países aonde ainda interessa a leitura. Nos Estados Unidos é um deserto”. Não se refere aos autores, mas aos leitores que, segundo ele, não têm em conta nem sequer os maiores [escritores], como Philip Roth, John Updike ou Don DeLillo. “Não se engane, eles não vendem muito por lá. Há anos que os escritores não interessam à televisão e tão-pouco lhes fazem entrevistas nos jornais. Em todo o país sobram somente dois ou três suplementos literários”.»
A seguir, como não poderia faltar a um Auster, ultimamente, mais interventivo em termos políticos, vem a zurzidela em George W. Bush e a responsabilidade do estado em que as coisas estão, e da sua influência no espírito do tempo americano contemporâneo.

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Memória

Dizem que o passar do tempo apaga a má memória, apenas subjaz a boa saudade – que antinomia –, a boa memória da pessoa ausente.
Mas o que é isso da “boa memória”?
Toda a memória é má enquanto, no intrincado da nossa mente torturada pela morte a destempo, impera o sentimento de perda.
Não há sossego por um minuto que seja. E foram tantos, 3.153.600 contados por alto.
Não pode haver quietude enquanto o nó da saudade que nos sufoca não se desfizer em areia que se desloca na ampulheta da vida.
O meu tempo parou há seis anos. Vou vivendo aquele que os outros que de mim não desistiram me concedem.
Só vos posso agradecer e nada prometer, enquanto, com químicos ou sem eles, com reflexões ou sem elas, com conselhos ou sem eles, sentir que «nenhuma ausência é mais funda do que a tua» (sempre Sophia).

Para o T. (27/06/1975 – 30/10/2002), o teu eterno e cadavérico James Osterberg bem acompanhado, na cidade que galgámos sofregamente pela iminência do desfecho:


Do álbum Jazz A Saint-Germain (1998)
(Créditos – letra: Irving Kahal; música: Sammy Fain; 1938)

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

Casanova explanado em Nabokov

Epígrafe:
«Não julgueis, para que não sejais julgados.»
Mateus, 7:1

E ao 20.º dia Casanova quebra o silêncio e diz: em boa verdade vos digo [estas são minhas, para efeitos bíblico-dramáticos] «Qualquer leitor atento de Pynchon reconhece aqui o intento autorial: a magnificação apofénica das semelhanças entre locais ou eventos distantes.»

Mas foi a apofenia da magnificação que travou pensamentos ociosos, que em Nabokov encontrariam a resposta, retirando-nos para sempre do jugo paralisante da obnoxiosidade literária:

«“Mania referencial”, chamara-lhe Herman Brink. Nestes casos, muito raros, o paciente imagina que tudo o que acontece em seu redor é uma referência velada à sua personalidade e existência. Exclui pessoas reais da conspiração porque se considera muito mais inteligente do que os outros homens. A natureza fenoménica faz-lhe sombra onde quer que vá. As nuvens no grande céu transmitem umas às outras, por meio de vagarosos sinais, informações incrivelmente minuciosas a seu respeito. Os seus mais íntimos pensamentos são discutidos ao anoitecer, num alfabeto manual, pelo esbracejar de negras árvores. Os seixos, as manchas, os salpicos de sol formam padrões que representam de uma maneira horrível mensagens que tem que interceptar. Tudo é uma cifra e de tudo ele é o tema.»
in Vladimir Nabokov, “Sinais e Símbolos”, Contos Completos II, (pág. 282)
[Lisboa: Teorema, Outubro de 2003, 351 pp.; tradução de Telma Costa; conto original escrito em inglês: “Signs and Symbols”, 1946 (pub. The New Yorker); colectânea: The Stories of Vladimir Nabokov, 1995, editada por Dmitri Nabokov.]

Depois de tudo o que se passou nos últimos cinco anos com as revelações de Dmitri sobre a desobediência à ordem dada pelo pai para destruição da obra em que trabalhava na Suíça na vizinhança da sua morte – que, todavia, vai ser publicada, como The Original of Laura –, muitos apofenevitch (patronímico) foram inoculados pela mão lúdico-manipuladora de Dmitri, ou a apofenia antropomorfizada.

terça-feira, 28 de outubro de 2008

Fôlego

Foi a palavra que me surgiu de forma espontânea, tremulando com toda a sua carga polissémica, assim que abri a página em branco do processador de texto, à laia da libertação automática de impulsos de Breton, para escrever alguma coisa e tentar caracterizar a obra de ficção literária que acabara de desfrutar por completo havia pouco mais de vinte e quatros horas.

[Este texto permaneceu encerrado na pasta de arquivo “não publicado”, que guarda os inúmeros ficheiros reprimidos deste blogue, há quase uma semana; um terrível ataque de pudor sem origem e razão certas, levaram-me a este indescritível aferrolhamento; bom, angústia, talvez advinda de uma lesadíssima auto-estima, ultrapassada].

A obra. Trata-se de As Três Vidas, o último romance publicado pelo jovem escritor lisboeta João Tordo (n. 1975) – o seu terceiro, depois de O Livro dos Homens sem Luz (2004) e do fascinante Hotel Memória (2007).
Fôlego: desmedido, em termos literários, em inspiração; meticuloso, ritmos narrativos bem medidos, uma urdidura tecida em filigrana, extraordinária gestão de expectativas; exigência, sem intervalos e outros intoxicantes, de uma leitura atenta, de uma paz de espírito que nos retire o complexo de culpa do consumo de tempo originado por uma vontade voraginosa de o ler de uma só assentada.
Uma abertura suficientemente cativante, auxiliada por um frontispício denodadamente ilusório:

«Ainda hoje, sempre que o mundo se apresenta como um espectáculo enfadonho e miserável, sou incapaz de resistir à tentação de relembrar o tempo em que, por força da necessidade, fui obrigado a aprender a difícil arte do funambulismo.» (pág. 11)

O protagonista, narrador omnipresente de uma história pontualmente feliz, matizada de uma pungente e indelével inquietude, uma pátina de melancolia, vivida durante um quarto de século, é um banal jovem lisboeta nascido em 1960, que terminando o liceu no início da década de 1980, procura emprego, após um hiato estival de indolência, como meio de ajudar a mãe, mentalmente perturbada após a morte prematura e trágica do pai, e a irmã de dezoito anos. Encontra-o, num anúncio de jornal. Irá trabalhar na Quinta do Tempo, situada nas cercanias de Santiago do Cacém, onde o espera um jardineiro muito especial, Artur, e um patrão esquivo e enigmático, de seu nome António Augusto Millhouse Pascal.
O trabalho é suficientemente repetitivo e enfadonho, que um cheque chorudo no final do mês não dá azo à desistência; catalogar e indexar as fichas de uma série de clientes que frequentam a Quinta, desconhecendo-se o objecto e a missão dos serviços que lhes são prestados.
Intercalada com o entra e sai de pessoas misteriosas de todas as nacionalidades, que de certa forma parecem ter estado ligadas a um passado brutal, surge a história dos três netos de Millhouse Pascal que calcorreiam os jardins da casa aos fins-de-semana – estudam em Cascais durante a semana num colégio inglês – de onde se destaca a jovem Camila, que depois da centelha inicial, despertou um fogo impetuoso e inextinguível no coração do pobre narrador, a que se junta o estranho desaparecimento de Adriana, a filha do patrão, que, segundo a própria filha Camila, apesar da integral perda de contacto com a progenitora, se encontra em Nova Iorque a praticar funambulismo.
Está dado o mote para o desenvolvimento de uma narrativa que, com a seus momentos decisivos, fatalmente directores das vidas dos personagens e do próprio local de todos os mistérios no Alentejo, conduzem o leitor a um labirinto emblematicamente borgiano, tão bem utilizado por Auster nas suas narrativas do acaso, a que se junta o insólito arrevesado tipicamente kafkiano; a obstinação sem fim à vista.

Borges, um leitor atento e apreensivo de Kafka, referia-se-lhe como o escritor da postergação infinita – aludindo ao paradoxo de Zenão de “Aquiles e a Tartaruga”, da busca perpétua –, cuja presença o autor argentino identificava com maior acuidade em dois dos seus três (inacabados) romances, O Castelo (Das Schloss, 1925) e O Processo (Der Prozess, 1925), e em alguns dos seus contos, onde aquele destacava a narrativa curta “A construção da muralha da China” (Beim Bau der Chinesischen Mauer, pub. 1931) como o paradigma dessa postergação, de infinito múltiplo.
As Três Vidas, o último romance de João Tordo, tem, de certa forma, matizes kafkianos na estrita medida do qualificativo definido por Borges, implicando, para isso, que da leitura da obra se tivesse verificado o uso (mais ou menos consciente) das seguintes premissas: a subordinação e o infinito – que Borges afirmava serem obsessões do jovem Kafka, e que, de certa forma, influenciarão, definitivamente, a sua extensa obra, plena de circularidades e perpetuidades.
A subordinação concentrada no personagem aglutinador de toda a trama, o misterioso António Augusto Millhouse Pascal, leva o narrador a uma viagem detectivesca no espaço e no tempo, ou seja, servindo-se do cruzamento das duas dimensões para tentar entender o alvoroço da sua situação presente. Todavia, mesmo que surjam as respostas para as suas inquietações através do achamento de determinadas pontas soltas, a que o narrador atribui a autoria ao mero acaso, a insatisfação subsiste, o convencimento da insignificância da sua existência é o obstáculo para a obtenção de uma visão geral multifacetada, que lhe escorre por entre os dedos como água, sem hipótese de a deter.
Em João Tordo, ou na sua obra, que uma simples releitura de Hotel Memória pode confirmar, não há soluções finais, nem desenlaces; existe antes a aparência de um fim, como uma imagem para dúvida existencial, para o desassossego, para a contínua dilaceração da alma.

«Se eu fosse um homem diferente, com mais imaginação, talvez pudesse acreditar – e fazer-vos acreditar – que os mistérios que perpassaram esta narrativa irão, um dia, encontrar a sua resposta; estou convencido, contudo, de que muitas coisas permanecem eternamente veladas e, com o passar do tempo, aprendi a viver com esta resignação. Por vezes, claro, é impossível evitar os enigmas que me atormentam (…); e, ao desejar sarar as minhas feridas com a lógica absurda deste mundo que, a cada hora que passa, me parece mais distante, zombando dos espíritos que ousam desafiá-lo, compreendo a inutilidade desta empreitada.» (pág. 301)

E não é este o mistério da vida?

Que se me perdoe o ar de graça com a hipérbole paradoxal, As Três Vidas é uma obra de um sufocante fôlego literário.

Classificação: ***** (Muito Bom)

Referência bibliográfica:
João Tordo
, As Três Vidas. Matosinhos: QuidNovi, 1.ª edição, Setembro de 2008, 304 pp.