sábado, 27 de dezembro de 2008

Depois do hiato, regresso em grande (“10+” de 2008)

Desde o passado dia 22, e sempre entre a 1 e as 2 da tarde, este blogue tem vindo a revelar, por ordem perfeitamente aleatória, os 10 melhores álbuns (de originais) musicais de 2008.




“We Carry On”
Portishead* – Third (Island)

*E por favor, para cerca de 95% dos ouvintes/amantes da banda de Bristol que, decerto, não aprenderam a ouvi-la na saudosa XFM, o nome pronuncia-se como se “portis” e “head” fossem duas palavras separadas – evitem o dígrafo inglês “sh”, equivalente ao nosso “ch” –, tal como em “Brideshead”, o famoso vórtice dramático de toda a trama do romance de 1945 escrito por Evelyn Waugh (1903-1966), Brideshead Revisited (ed. port. Relógio D’Água, Reviver o Passado em Brideshead).

Notas:
  • No final do ano será divulgada a lista dos “Dez Melhores”, organizada por ordem de preferência;
  • No dia de Natal foram revelados dois álbuns;
  • Todos os álbuns ficaram desde o dia 22 agendados no Blogger para surgirem no intervalo de tempo determinado em cada dia.

Contrastes

Entre prendas e sorrisos. Velhas recordações e mesas cheias de tentações adiposas, de casa em casa, com espírito da quadra, mas sem vestígios expressos do motivo ancestral que nos acomodou frente a frente na revisão de um ano. Caras, corpos, razões, provindos de um mesmo código genético. Rugas que aparecem. Um inaudito cabelo branco que nos deixa siderados, de boca aberta… aquela que apenas se fecha para trincar, degustar, falar da vida, e de repetir até à náusea “parece que foi ontem”.
Sim, crescemos todos um pouco, mesmo que a acção não se tenha feito acompanhar da proposição “em” unida a expressões como “sensibilidade”, “razão para existir”, “paixão”, “alegria”, “compreensão”… “amor” – o que é isso?... Nunca nos questionámos, ou já não nos interrogamos sobre o significado das palavras, sobre a sua materialização em emoções. A vida corre voraz, galgando barreiras visíveis, poucas, ou, na sua maioria, imperceptíveis… envelhecemos… todos, sem excepção. É um belo espectáculo… enriquecemos? Bocas que se abrem e fecham e que proferiram aquilo que hoje já não recordamos. Não há memória, porque é demasiado dura e cara para a podermos alimentar…
Passou. As casas vazias durante uma noite e um dia, voltam a encher-se de quotidiano, apesar da festa que se avizinha… mais um ano, meus queridos… merda, mais uma ano.
Como é que te vou explicar isso, doce e caracolenta M.? Não me perdoaria se já houvesse ensaiado a decifração desta maldita existência, I. Dois e cinco anos, e um pai que vai definhando, de sorriso de orelha a orelha, qual histrião, palhaço treinado e consumado para suportar esta convivência infernal, protocolar… os outros. A mesquinhez, a indiferença, a maledicência, o arrivismo. O permanente estado de vigília para não ser espezinhado… cansa e estou exausto.
Mas quem não o está? Talvez, com dizia o “Pai da Pátria”, os “banqueiros delinquentes” que agora arfam como bestas pela ganância do dinheiro dos nossos impostos…

E poderia continuar, partindo do lúgubre para um conhecedor e exaltado J’accuse…! zoliano.

Mas, a despeito do palavreado inane acima registado em zeros e uns, o que, realmente, me trouxe a estas linhas foi a publicação de “A Tralha de 2008” no suplemento Ípsilon do jornal
Público de hoje (ontem) e a sua comparação com as listas que irei aqui publicar nos próximos dias 29, 30 e 31, os dez melhores filmes, livros e discos de 2008, respectivamente, segundo a minha única e íntima (e discutível, pois claro) opinião pessoal.

O contraste com a Ípsilon:

Música

  • 30 discos arrumados na secção “pop” (sem limão), organizados do melhor ao menos bom. Apenas 3 – em 30, é obra! – coincidem com a minha lista final: os Vampire Weekend, com o álbum Vampire Weekend; os Portishead, com Third; e os TV on the Radio, com álbum de originais editado em 2008, Dear Science. O restantes: ou são completamente desconhecidos para este ouvido que, confesso, já foi mais melómano; ou são aberrações, como os Buraka Som Sistema; ou, então, exaltou-se, de forma heteróclita, o experimentalismo dos tradicionais SYR’s dos mui estimados Sonic Youth – um faixa de 60 minutos de estridência.

Cinema

  • 10 filmes: 3 não vi (Austrália, Quatro Noites com Anna, e Aquele Querido Mês de Agosto); 2 integram o meu Top10; 4 integram o meu Top 17 (antes da tal “última triagem”, e serão apresentados no dia 29 por ordem alfabética); e finalmente há 1 que vi e foi colocado no conjunto de “indiferentes”, Nós Controlamos a Noite, de James Gray (We Own the Night, 2007).

Literatura

  • 20 livros: 13 não li, e desses apenas Capote e Bernhard constam da minha biblioteca para ler, os restantes acumularão sapiência literária na minha total ignorância; 2 foram lidos, mas de forma alguma integraram, ou tiveram sequer hipóteses de integrar, a lista dos meus 21 finalistas (Coetzee e Rushdie, atente-se na listagem que foi engrossando ao longo do ano na coluna do lado direito deste blogue); 5 foram lidos e integram a listagem final dos “10 Melhores”, depurada a listagem dos 21 possíveis.

Depois disto, só resta relembrar a agenda listómana deste blogue:

  • 29 de Dezembro – Cinema – Os Melhores Filmes de 2008 (estreados em salas de cinema portuguesas durante o corrente ano, independentemente do seu ano de produção);
  • 30 de Dezembro – Literatura – Os Melhores Livros de 2008 (editados, reeditados ou reimpressos durante o ano, em tradução portuguesa no mercado editorial nacional);
  • 31 de Dezembro – Música – Os Melhores Álbuns Musicais de 2008 (editados internacionalmente durante o ano de 2008).

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

Dueto Transatlântico (“10+” de 2008)

Desde o passado dia 22, e sempre entre a 1 e as 2 da tarde, este blogue tem vindo a revelar, por ordem perfeitamente aleatória, os 10 melhores álbuns (de originais) musicais de 2008.




“Last Day of Magic”
The KillsMidnight Boom (Domino)

Notas:

  • No final do ano será divulgada a lista dos “Dez Melhores”, organizada por ordem de preferência;
  • No dia de Natal foram revelados dois álbuns;
  • Todos os álbuns ficaram desde o dia 22 agendados no Blogger para surgirem no intervalo de tempo determinado em cada dia.

quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

A lenda viva australiana (“10+” de 2008)

Desde o passado dia 22, e sempre entre a 1 e as 2 da tarde, este blogue tem vindo a revelar, por ordem perfeitamente aleatória, os 10 melhores álbuns (de originais) musicais de 2008.




“More News From Nowhere”*
Nick Cave and the Bad Seeds – Dig!!! Lazarus Dig!!! (Mute)

*Em substituição da mais caviana e melhor música do álbum, “Hold on to Yourself”, até à data, ainda não merecedora de vídeo de promoção – manda o mercado…

Notas:

  • No final do ano será divulgada a lista dos “Dez Melhores”, organizada por ordem de preferência;
  • Hoje serão revelados dois álbuns;
  • Todos os álbuns ficaram desde o dia 22 agendados no Blogger para surgirem no intervalo de tempo determinado em cada dia.

Ratoneiros, Inc., nos tempos que correm… (“10+” de 2008)

Desde o passado dia 22, e sempre entre a 1 e as 2 da tarde, este blogue tem vindo a revelar, por ordem perfeitamente aleatória, os 10 melhores álbuns (de originais) musicais de 2008.




“Sweet Tides” (c/ a participação de LouLou)
Thievery Corporation – Radio Retaliation (Eighteenth Street Lounge)

Notas:

  • No final do ano será divulgada a lista dos “Dez Melhores”, organizada por ordem de preferência;
  • Hoje serão revelados dois álbuns;
  • Todos os álbuns ficaram desde o dia 22 agendados no Blogger para surgirem no intervalo de tempo determinado em cada dia.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

A ironia de uma Véspera

imagem original, The Times, na 1.ª página de 24 de Dezembro de 1915


Publicado a 24/12/1915 (com o mundo em plena Grande Guerra) no The Times.

Feliz Natal!

Surpresa debutante (“10+” de 2008)

Desde o passado dia 22, e sempre entre a 1 e as 2 da tarde, este blogue tem vindo a revelar, por ordem perfeitamente aleatória, os 10 melhores álbuns (de originais) musicais de 2008.




“Mansard Roof”
Vampire Weekend – Vampire Weekend (XL)

Notas:

  • No final do ano será divulgada a lista dos “Dez Melhores”, organizada por ordem de preferência;
  • No dia de Natal serão revelados dois álbuns;
  • Todos os álbuns ficaram desde o dia 22 agendados no Blogger para surgirem no intervalo de tempo determinado em cada dia.

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Lissack & Okereke, de novo (“10+” de 2008)

Desde o passado dia 22, e sempre entre a 1 e as 2 da tarde, este blogue tem vindo a revelar, por ordem perfeitamente aleatória, os 10 melhores álbuns (de originais) musicais de 2008.




“Talons”
Bloc Party – Intimacy (Wichita)

Notas:

  • No final do ano será divulgada a lista dos “Dez Melhores”, organizada por ordem de preferência;
  • No dia de Natal serão revelados dois álbuns;
  • Todos os álbuns ficaram desde o dia 22 agendados no Blogger para surgirem no intervalo de tempo determinado em cada dia.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

As listas de 2008 (parte II)

O listómano revela a agenda de ostentação das suas listas – jardelizou-se e fala dele na 3.ª pessoa do singular.
Como foi referido aqui, até ao último dia do ano serão reveladas as listas dos melhores objectos artísticos em três áreas distintas.
O exibicionista já encontrou as datas para a grande divulgação:

  • 29 de Dezembro – Cinema – Os Melhores Filmes de 2008 (estreados em salas de cinema portuguesas durante o corrente ano, independentemente do seu ano de produção)*;
  • 30 de Dezembro – Literatura – Os Melhores Livros de 2008 (editados, reeditados ou reimpressos durante o ano, em tradução portuguesa no mercado editorial nacional);
  • 31 de Dezembro – Música – Os Melhores Álbuns Musicais de 2008 (editados internacionalmente durante o ano de 2008)**.

Notas:
*Neste momento, foi finalmente ultrapassada a fase da “última triagem”. A lista dos “10+”, organizada por ordem de preferência, está concluída e pronta para publicação. A título de curiosidade, nela constam 5 filmes americanos, 3 franceses, 1 italiano e 1 britânico.
**Na coluna do lado direito, vão surgindo os 10 melhores álbuns de 2008, assim como a hiperligação ao vídeo de cada um dos escolhidos (entre 22 e 30 de Dezembro), por ordem aleatória de escolha. Apenas no dia 31 surgirão, em texto, ordenados por preferência do autor deste blogue apasquinado (cuidado com as confusões linguísticas!)

From Cardiff, Gales (“10+” de 2008)

A partir de hoje, e sempre entre a 1 e as 2 da tarde, este blogue revelará, por ordem perfeitamente aleatória, os 10 melhores álbuns (de originais) musicais de 2008.



“You! Me! Dancing!”
Los Campesinos!Hold On Now, Youngster… (Wichita)

Notas:

  • No final do ano será divulgada a lista dos “Dez Melhores”, organizada por ordem de preferência;
  • No dia de Natal serão revelados dois álbuns;
  • Todos os álbuns irão ficar no dia de hoje agendados no Blogger para surgirem no intervalo de tempo determinado em cada dia.

domingo, 21 de dezembro de 2008

Doutrina: literatura e coração

«A linguagem é um meio glacial, escarrapachado na página. Ao contrário de artistas e atletas, temos a possibilidade de reinventar, rever e reescrever por completo, se assim o quisermos. Antes de o nosso trabalho conhecer a versão em tipo de imprensa, tal como acontece gravado em pedra, mantemos o nosso poder sobre ele. A primeira versão pode ser algo confusa e cansativa, mas as versões seguintes levantarão voo e revelar-se-ão emocionantes e arrebatadoras. Só é preciso ter fé: não se pode escrever a primeira frase até a última frase ter sido escrita.
Só nessa altura saberás para onde vais e por onde andaste.
O romance é o mal para o qual só o romance constitui a cura.
E pela última vez:
Põe no papel tudo o que te vai no coração.» (p. 39)

«Põe no papel tudo o que te vai no coração.
Nunca tenhas vergonha do assunto, nem da paixão que sentes pelo assunto.
» (p. 35)

Joyce Carol Oates, “A Um Jovem Escritor”, A Fé de Um Escritor: Vida, Técnica, Arte (pp. 35-39).
[Cruz Quebrada: Casa das Letras, 1.ª edição, Setembro de 2008, 172 pp.; tradução de Maria João Lourenço; obra original: The Faith of A Writer: Life, Craft, Art; 2003.]

sábado, 20 de dezembro de 2008

A última triagem: Cinema

Basta fazer uma pequena prospecção pelos blogues nacionais, para verificar que alguns já se anteciparam às habituais listas de final do ano.
Por aqui, como tem sido hábito, divulgarei aqueles que, na minha mui íntima opinião pessoal, de acordo com os meus princípios artísticos e técnicos, atendendo sobretudo aos meus valores estéticos, nunca negligenciando as questões éticas ligadas ao fenómeno artístico, se distinguiram nas três áreas que preenchem, quase por completo, a minha sede insaciável por arte: Literatura, Cinema e Música.
No que diz respeito à literatura, as novidades – ou as eventuais surpresas – para quem me lê são escassas, uma vez que desde o início do ano (neste caso, o de 2008) figura na coluna do lado direito deste blogue um conjunto de livros lidos, editados e traduzidos em Portugal durante o corrente ano, organizados por nota de apreciação literária. A tarefa mais árdua consiste em dar-lhes uma ordem e escolher apenas dez entre os que se distribuem pelas categorias “obra-prima” e “muito bom” (6 e 5 estrelas, respectivamente).
No caso da música, o grau de insondabilidade é maior, dadas as curtas referências que a ela faço no decurso do ano, para além de existir uma jukebox sempre activa neste blogue, na medida em que, desde que me conheço, a volatilidade das preferências é extremamente alta: um disco idolatrado durante dez, quinze, vinte dias pode facilmente passar à categoria dos “odiados”, não só devido ao enjoo produzido pela repetição, como também por algum refinamento que a audição aturada produz.
Finalmente, na 7.ª arte, algumas das minhas preferências vão sendo aqui reveladas em textos escritos ao longo do ano – neste caso, filmes estreados em salas de cinema portuguesas em 2008. Apesar de dar um grande destaque aos meus ódios fílmicos depois de, penosamente, ter assistido à sua projecção no grande ecrã, também escrevi textos encomiásticos e de profunda admiração por determinada obra cinematográfica que acabara de assistir: surpresas, novidades e confirmações de talento.

Tendo iniciado a análise metódica de todos os filmes estreados em 2008 em Portugal – processo que foi explicado aqui, uma vez que não mantenho um ficheiro actualizado sobre os filmes que vou vendo e a sua nota de apreciação pessoal, como faço com os livros que vou lendo –, alcancei, por fim, a fase da última triagem, ou seja, consegui, através de algumas filtragens, chegar a uma listagem final… ou melhor duas (atendendo ao critério “produzido/não produzido nos Estados Unidos”).

Por enquanto, de acordo com o trabalho realizado, posso divulgar os seguintes dados:

  • Total de filmes vistos: 69;
  • Filmes anódinos ou indiferentes (sem separação do país de origem de produção): 19;
  • Filmes de produção americana: 34 (Bons ou Muito Bons: 15; Medíocres: 19)
  • Filmes de produção não americana: 16 (Bons ou Muito Bons: 12; Medíocres: 4)

Fase em que me encontro neste momento (a tal que precede a última triagem):

  • Total de filmes passíveis de integrar a lista dos “10 Melhores Filmes de 2008”: 17;
  • Americanos: 9/15;
  • Não Americanos: 8/12 (4 franceses, 2 italianos, 1 britânico, 1 turco/alemão/italiano).

A lista definitiva dos “10+” será apresentada num dos dias do intervalo fechado de 28 a 31 de Dezembro. Até lá, que venha o diabo e escolha… Aceitam-se apostas.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

Há alguém que se desculpa…

…com RICKY

Aceito...

AFI Awards 2008

Por puro esquecimento, não foram aqui despejados os títulos dos dez filmes vencedores dos prémios anuais do American Film Institute (AFI), anunciados no passado domingo, dia 14 de Dezembro.

Ei-los, por ordem alfabética (título em português, caso exista):

  • O Cavaleiro das Trevas, de Christopher Nolan (The Dark Knight)
  • O Estranho Caso de Benjamin Button, de David Fincher (The Curious Case of Benjamin Button)
  • Frost/Nixon, de Ron Howard
  • Frozen River, de Courtney Hunt
  • Gran Torino, de Clint Eastwood
  • Homem de Ferro, de Jon Favreau (Iron Man)
  • Milk, de Gus Van Sant
  • WALL-E, de Andrew Stanton
  • Wendy and Lucy, de Kelly Reichardt
  • The Wrestler, de Darren Aronofsky

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

As listas de 2008

Há dias, contando o tempo que me resta entre relatórios, trabalhos e compras de última hora, cheguei à conclusão que, no habitual exercício de ostentação dos meus filmes preferidos estreados nas salas de cinema portuguesas durante o ano, a lista de 2008 estava praticamente encerrada. Não há tempo, não há vícios...
Depois, com as úteis ferramentas disponíveis à mão de semear, o exercício é simples: Cinema PTGate/Arquivo/Estreias em Portugal/2008; seleccionar a lista de filmes estreados desde Janeiro até hoje e copiá-los para uma folha de cálculo; na célula à frente da que contém o nome de cada filme apor uma nota de classificação; se preferir, acrescente outros critérios – eu acrescentei um segundo critério: “de produção americana/outros”.
Se os ditos “de produção americana” não constituem qualquer tipo de problema no seu acesso, já os filmes produzidos fora da máquina colossal de Hollywood, e de alguns independentes que gravitam em seu torno, são um verdadeiro desespero para o cinéfilo exibicionista, aquele que gosta de ostentar as suas preferências.
O caso paradigmático é o circuito comercial dos filmes de produção europeia: não chegam, pura e simplesmente, às salas de cinema da segunda cidade do país; onde, atendendo à lei das probabilidades, é bem possível que aí subsista e procrie a segunda maior comunidade portuguesa de cinéfilos
.
Chego ao fim da tal lista, ordenada cronologicamente pela data de estreia, e fica de fora uma mão-cheia de filmes que, inevitavelmente, incluí na minha lista de desejos. Por outras palavras, aqueles filmes que, de início e de forma ardente, pretendia assistir à sua projecção em sala de cinema – e isto, claro, desde que não inclua uma aberração de usufruto de serviços prestados por empresas como a Brisa, a TAP, a CP, os Cruzeiros Costa, qualquer meio da frota pesqueira das Caxinas, o Clube de Parapente de Linhares da Beira ou a Panamá Jack (esfoladas com paragem de meditação em Fátima).
A Medeia Filmes não traz os filmes menos comerciais ao Porto, ou quando o faz, já a Fnac ou a Blockbuster fizeram com eles uns milhares de euros com a compra e aluguer, em DVD ou Blu-Ray, ou por hipótese caíram nas firmes e sossegadas teias do olvido. Mas mesmo que os traga, são exibidos num conjunto de quatro salas de cinema incrivelmente anacrónicas, com um sistema de som que se aproxima grotescamente dos saudosos e surdos tempos de Buster Keaton, deixando o século XXI a milhas de distância; com o grande ecrã colocado em cima, no 2.º andar – muito bom para os bolsos já recheados dos ortopedistas portugueses na desempanagem dos belos, flexíveis e curvilíneos pescoços (e apetitosos para Vlad), e nada de menos recomendável para um visão sã e descansada, confirmado até por qualquer oftalmologista de pacotilha; cadeiras rangentes, duras, e verdadeiros aparelhos de tortura por entalação – repito, para que não julguem que me equivoquei no emprego do vocábulo anterior dada a proximidade fonética e de grafia com outro porventura mais desconfortável e até porque invoquei, a despropósito, o mestre dos mestres na nobre arte, o tal de Vlad, disse entalação.
Com que autoridade cinéfila poderei fechar uma lista deste género sem ter visto Hunger, ou Je Veux Voir, ou La Frontière de l’Aube, ou Le Silence de Lorna ou até Lou Reed’s Berlin, entre muitos outros?
O motivo desta excitação não é, como é óbvio, aquilo que um arrolamento de preferências representa, mas a sobranceria cultural com que se trata os rurais da burguesa Invicta.
Cidade onde a Cinemateca Portuguesa vai funcionar em três pólos… à laia de uma “volta ao Porto em filme de culto, antigo ou raro”. Até os que sofrem pela arte dificilmente conseguem engolir uma situação destas, arranjada (é o termo, com toda a sua carga pejorativa) pelo Sr. Ministro engalanado de dialogante, extraído da fina cepa causídica lisboeta.
Com este centralismo voraz, ainda iremos chegar à altura em que, perante as escolhas possíveis de filmes exibidos durante o ano, a minha lista incluirá dez filmes que terão de ser ordenados não por grau íntimo de brilhantismo e de admiração decrescente, mas por grau de atenuação de enjoo e de horror (por mera hipótese académica, eis um exemplo ilustrativo baseado na listagem de filmes estreados este ano em solo luso; em letra pequena, para não ferir susceptibilidades):

  1. P.S., I Love You*, de Richard LaGravenese (ou o meu profundo amor a Sócrates e a tudo o que ele representa)
  2. Alien vs Predador 2, da brilhante dupla fraterna Colin e Greg Strause (Aliens vs Predator – Requiem)
  3. Uns Espartanos do Pior, da mais brilhante dupla não fraterna Jason Friedberg e Aaron Seltzer, (Meet the Spartans)
  4. Capítulo 27 - O Assassinato de John Lennon**, de J.P. Schaefer (Chapter 27)
  5. 10.000 AC, de Roland Emmerich (10,000 BC)
  6. Angel – Encanto e Sedução**, de François Ozon (Angel)
  7. High School Musical 3: Último Ano, de Kenny Ortega (High School Musical 3: Senior Year)
  8. Não Me Toques nas Bolas, de Robert Ben Garant (Balls of Fury)
  9. Saw 5 – A Sucessão, de David Hackl (Saw V)+
  10. Ensaio sobre a Cegueira**, de Fernando Meirelles (Blindness)+

Notas: *Abandonado ao minuto 15 de exibição.
**Heroicamente vistos na íntegra e profundamente detestados.
Quanto aos restantes (sem asterisco solitário ou duplo) não foram sequer vistos. Trata-se, por um lado, de uma questão paranóica de higiene e, por outro, do mais genuíno dos preconceitos fílmicos.
+Por mero acaso, aparecem juntos, mas são semanticamente desconexos.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

Um forte sentimento II

«Há duas coisas que me enchem de horror: o carrasco dentro de mim e o machado por cima de mim.»
Stig Dagerman, A Ilha dos Condenados, p. 7

[Lisboa: Antígona, 1990, 241 pp.; tradução de Miguel Serras Pereira; obra original: De dömdas ö, 1946]

Falta-me tempo (forte sentimento)

E o tempo, afincado na sua recta que o desloca ao infinito, com as suas marcas indeléveis, assinala três anos de divagação por este mundo de paradoxos, estridente, confessional, histérico, fraterno, egoísta, ambicioso e catártico – a blogosfera.
Intermitências. Amuos, júbilos, irritações, partilha... sobretudo, partilha. Começou com o Porque a 17 de Dezembro de 2005, prosseguiu com o In Absentia em 2 de Dezembro de 2007, termina com o Nunca Mais, inaugurado a 30 de Abril de 2008.

A todos (2 leitores e meio), antecipo-me, agradeço a vontade (ou a realização) de celebrar com palavras este momento, sem mais tarde – perdoem-me! – discriminar por escrito a, certamente, extensa lista de bloggers que assinalou a data.

Termino com um dos meus poetas favoritos, cuja morte se assemelha em muito àquela que está na origem da permanente inquietação que me trouxe até aqui; até no tal tempo emparedado por nascimento e morte.

Deixando a métrica e a prosódia de lado, e a minha profunda perplexidade pela quase inexistência de Keats em versão portuguesa, aqui fica um dos meus sonetos preferidos, que ilustra bem o ânimo que por aqui assentou arraiais.

[na sua versão original, trata-se de um soneto inglês, composto por três quartetos e um dístico, com versos em pentâmetro jâmbico – métrica integralmente descurada na versão que se segue, por falta de ciência e paciência do celebrante.]

Quando temo o fim próximo da minha existência
Antes que a pena haja respigado meu cérebro atulhado,
Antes do monte de livros, símbolos e sinais em coerência,
Armazenados como grão maduro em celeiros abonados;
Quando observo o rosto da noite de estrelas manchado
Símbolos gigantescos e nebulosos de um amor-desatino,
E pensar que poderei não viver para haver esboçado
As suas sombras, através da mão mágica do destino;
E quando sinto, ser encantador de um dia radioso,
Que não mais poderei divisar as tuas formas ardentes,
Apreciar o dom das fadas e sentir-me poderoso
De amor irreflectido! – e logo nas vertentes
Deste mundo imenso estou só, vem-me em pensamento,
Até o amor e a fama se afundam no esquecimento.

John Keats (1795-1821), “When I have fears that I may cease to be” (escrito em 1817; 1818) [versão de AMC, 2008].

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Para perguntas idiotas…

…respostas à medida.

No blogue do New York Times, Paper Cuts, “Perguntas Vadias a…

«GC: Neste momento, está a trabalhar em quê?
MP: Em primeiro lugar, no meu falsete à Bee Gees no chuveiro. Depois, na paz mundial – se por “paz* mundial” estivermos a falar em código para um livro cuja história se passa numa vila espanhola, baseada no meu desejo, de há muito, em provar um certo pedaço* de queijo tão efémero e mundialmente famoso que só por uma vez lá foi feito.» (continue a ler no NYT)
[Tradução: AMC]

*Nota: intraduzível em português: palavras homófonas “peace” (paz) e “piece” (pedaço).

GC – Gregory Cowles (Paper Cuts)

MP para Paterniti, Michael Paterniti, o homem que a bordo de um Buick Skylark conduziu através da América profunda o patologista octogenário Thomas Harvey e o cérebro de Albert Einstein, acondicionado num Tupperware colocado na bagageira, para que o segundo, quarenta anos após a morte do cientista, o pudesse entregar à neta do terceiro, Evelyn Einstein, que vivia na Califórnia. Escreveu Ao Volante Com Mr. Albert: Uma Viagem através da América com o Cérebro de Einstein (ed. port. Teorema; Driving Mr. Albert: A Trip Across America with Einstein's Brain, 2000).

Nota: Thomas Stoltz Harvey (1912-2007) foi o homem que autopsiou o corpo de Albert Einstein quando este morreu a 18 de Abril de 1955 no Hospital de Princeton.
No entanto, por amor à ciência, Harvey não só manteve o cérebro na sua posse durante 41 anos, como o seccionou em mais de duzentas partes, nunca apresentando quaisquer resultados das possíveis análises patológicas, e, pasme-se, qual Robin dos Bosques da ciência forense, forneceu amostras do cérebro a quem o houvera solicitado. A acrescentar a tudo isto, há a errância de Harvey por diversos Estados americanos, sempre transportando o cérebro do pai da Teoria da Relatividade; até que, em 1996, regressa a Nova Jérsia e o entrega, definitivamente, ao Chefe de Patologia do Hospital de Princeton, Elliot Krauss para posterior estudo (note-se que todas as conclusões forenses, hoje em dia conhecidas, sobre o cérebro de Einstein são relativamente recentes dado este episódio rocambolesco que durou mais de quatro décadas).

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Se7en – Sete no Mercado de Capitais

[Imagem: ©Jornal de Negócios (15/12/2008); da esquerda para a direita: Jorge Jardim Gonçalves, Paulo Teixeira Pinto, Filipe Pinhal, Alípio Dias, Christopher de Beck, António Castro Henriques, António Rodrigues.]
O regulador reactivo reagiu. Com lentidão e parcimónia, sete, mágico. Espera-se por sangue, momentos difíceis, trágicos.
Não, não se trata dos tercetos dramáticos de Conrad, a que Roth se referia no seu penúltimo romance; Zuckerman rememorando a Linha de Sombra (The Shadow Line, 1917). E, então, que se cite a obra do excelso viajante polaco-britânico Józef Teodor:

«Só os jovens passam por momentos assim. Não quero dizer os novos demais; esses não conhecem, para falar verdade, momentos propriamente difíceis. É dado à adolescência o privilégio de viver antecipadamente os dias da sua vida na plena continuidade admirável de uma esperança» (p. 13)

E prossegue:
«O tempo também continua para diante – até que avistamos, mergulhando mais fundo, uma linha de sombra que nos previne de que o país da adolescência terá igualmente que ser deixado para trás.» (p. 14)
[ed. port. Relógio D’Água, 1984; tradução de Maria Teresa Sá e Miguel Serras Pereira.]
Mas aqui a Linha de Sombra é mais difusa, longe da costa, offshore… longe do coração e da supervisão.
(Já nem se fala sequer dos empréstimos concedidos a familiares e amigos ou a comparsas noutras empresas sem garantias…)

Por outro lado, será difícil invocar, a não ser por recurso a um trocadilho de baixo nível literário (ver título), a obra cinematográfica de Fincher, ou o épico divino de Dante, guiado por Virgílio, e a visão dos apocalípticos círculos do Inferno, porque a amálgama pecadora não permite uma discriminação e posterior classificação dos vícios: não se trata, apenas e só, de avareza. É muito mais que isso, é toda uma cultura que se foi enraizando pelas condições meteorológicas favoráveis: impunidade perene a soprar de todos os quadrantes, até mesmo inabalável por um furacão qualquer… sistema inafrontável, eterno, massacrante, iníquo.

(Os Estados Unidos, esse conglomerado gigante e proselítico do capitalismo, o império de todos os males, o paraíso da ganância e dos miseráveis à laia de Hugo, vai dando exemplos ao mundo – embora, tenha de convir, ainda bem longe da perfeição – das reais consequências dos homólogos perpetradores de crimes económicos e financeiros: Enron, WorldCom & C.ª)

Por cá, paradoxalmente, continua a ser muita parra para um país produtor de vinhos de qualidade e de um ímpar licoroso, suave e generoso, do Porto, bem na linha da costa.

Satellite Awards 2008

Mais uma jantarada, álcool (e, sem querer ser má-língua – não, não resultou nada com nariz –, muita coca a correr pelas notas de dólar nos toilets dos famosos do Grand Salon do InterContinental Hotel de Los Angeles), mais prémios para o cinema, mais uma lista que é literalmente despejada neste blogue – se exceptuarmos a preocupação deste que vos escreve para encontrar os títulos em português dos filmes a concurso.

Vencedores da noite: Slumdog Millionaire de Danny Boyle (3 prémios), que parece haver perdido o seu par, a indiana Loveleen Tandan, e Austrália (Australia*) de Baz Luhrmann (3 prémios em categorias técnicas); o excelente Gomorra de Mateo Garrone, baseado no livro do autor ameaçado de morte Roberto Saviano, continua a contabilizar prémios; assim como Wall-E na animação, sem rival à altura.

[*de notar a importância desta destrinça proparoxítona para a sobrevivência da língua portuguesa]

Eis, então, sem mais delongas e solilóquios, os vencedores da 13.ª edição dos Prémios Satellite 2008, atribuídos pela International Press Academy, sediada em Beverly Hills, Califórnia, nas diferentes categorias – Cinema (14 das 22 categorias):

  • Melhor Filme (Drama): Slumdog Millionaire, de Danny Boyle
  • Melhor Realizador: Danny Boyle, por Slumdog Millionaire
  • Melhor Argumento Adaptado: Peter Morgan, por Frost/Nixon (de Ron Howard)
  • Melhor Argumento Original: Thomas McCarthy, por The Visitor (de Thomas McCarthy)
  • Melhor Actriz (Drama): Angelina Jolie, em A Troca (Changeling; de Clint Eastwood)
  • Melhor Actriz Secundária: Rosemarie DeWitt, em O Casamento de Rachel (Rachel Getting Married; de Jonathan Demme)
  • Melhor Actor (Drama): Richard Jenkins, em The Visitor (de Thomas McCarthy)
  • Melhor Actor Secundário: Michael Shannon, em Revolutionary Road (de Sam Mendes)
  • Melhor Filme (Comédia ou Musical): Um Dia de Cada Vez (Happy-Go-Lucky), de Mike Leigh
  • Melhor Actriz (Comédia ou Musical): Sally Hawkins, em Um Dia de Cada Vez (Happy-Go-Lucky; de Mike Leigh)
  • Melhor Actor (Comédia ou Musical): Ricky Gervais, em Ghost Town (de David Koepp)
  • Melhor Filme (Língua Estrangeira): Gomorra (Gomorrah, título em inglês), de Matteo GarroneItália
  • Melhor Filme (Animação): Wall-E, de Andrew Stanton
  • Melhor Banda Sonora Original: A.R. Rahman, por Slumdog Millionaire (de Danny Boyle e Loveleen Tandan)

Nota: o filme dos irmãos Coen, Este País Não É para Velhos (No Country for Old Men), baseado no romance homónimo de Cormac McCarthy, continua a facturar. Desta feita ganhou o Satellite Award para o “Melhor DVD” (no seu conjunto); enquanto Homem de Ferro (Iron Man, de Jon Favreau) ganhou pelos melhores extras em DVD. Já Francis Ford Coppola – a quem ninguém atribuiu importância pelo seu excelente filme nietzschiano Uma Segunda Juventude (Youth Without Youth), baseado num romance do escritor e filósofo romeno Mircea Eliade – ganhou na categoria de “Melhor DVD Clássico” pelo pack da versão restaurada da trilogia O Padrinho (The Godfather).