sábado, 4 de outubro de 2008

Insulares, ignorantes e provincianos

DeLillo, McCarthy, Pynchon, Roth e Updike
Estes acima bem podem esperar. Horace Engdahl já os sentenciou ao olvido da Academia Sueca, por muitos livros que vendam, por muitos encómios que lhes dirija a crítica literária, por muito estudados que sejam nos bancos da universidade, nos cursos de filologia e nas inúmeras teses sobre a literatura americana.
É apenas o Nobel, o prémio máximo da literatura mundial que condecora a carreira de um escritor, que lhe dedicou, de corpo e alma, uma vida... mas não é o fim do mundo.
Aquele quinteto nascido na década de 30 do século passado, por azar Nobel criado em terras do Tio Sam, não necessita desse género de honrarias snobes de uma chusma de pedantes suecos colocados na sua torre de marfim, onde mora uma sala bafienta e anquilosada da elite nórdica das letras.
O quinteto é realmente apreciado por leitores e literatos de todo o mundo, mesmo por aqueles que tolamente costumam desdenhar de tudo o que seja americano, esquecendo-se que as suas vidinhas enfadonhas são quotidianamente assaltadas por algo que está directamente relacionado com a maior democracia do mundo.
Uma democracia com defeitos, pois claro. Apontados com toda a legitimidade e em primeiro lugar pelos seus filhos. Leiam-se as obras mais representativas do quinteto. São os primeiros a apontar o dedo aos exageros e aos contrastes da sociedade americana, à politica governamental tanto interna como externa. Todavia, une-os um sentimento de pertença a um todo heterogéneo que acolheu uma série de raças, crenças e ideologias, e é isto que alguns europeus não perdoam, perdidos nas mesquinhas rivalidades ancestrais entre povos no mesmo território.
O grande inimigo é a maior democracia do mundo. O desnazificador da Europa, o escudo contra o retrocesso primitivista da barbárie comunista da União Soviética. O governo que Pinter acusou de genocídio e de gerador de todos os males do mundo, o país que Dario Fo chamou de império do mal, a nação que Lessing chamou de histérica pela recordação comovida dos milhares de civis inocentes mortos no 11 de Setembro… e Grass e Saramago e Gordimer
Os esquerdistas europeus não gostam de Roth, desconhecendo a sua militância esquerdista – o que pensarão de DeLillo ou do mais radical Gore Vidal?
É verdade, não suporto aqueles intelectuais da treta que ostentam ou ostentaram a foice e o martelo, pertencem ou pertenceram a partidos que os exibem ou exibiam com um orgulho impune. O símbolo sob o qual se mataram inocentes pelos ideólogos Lenine e Trotsky entre 1917 e 1924, o Terror Vermelho, a Tchéka, o KGB, os gulags, Estaline, Pol Pot, Mao Tsé-Tung, Ceausescu, e que continua a figurar sem condenação nas bandeiras de alguns sectários que se alimentam das democracias ocidentais. A “suástica metamorfoseada, vermelha e dourada” que legitimamente continua entrar-nos pela casa dentro com uma indiferença amnésica da barbárie comunista.
Mas somos avessos a insulares e a provincianos. Exprobramos os ignorantes da iridescência cultural que pinta o mundo – mas não queremos misturas, nem multiculturalismo, nem liberdade religiosa, nem véus, nem memórias coloniais, nem capitalismo e nem tão-pouco um mercado livre e despojado de paternalismos vomitados por uma elite intelectual.

A seguir, ou seja, quando houver tempo, um pouco de Jean-François Revel.

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

Nobel da Literatura 2008

Já foi divulgada a data para o anúncio do vencedor do Prémio Nobel da Literatura de 2008. Será no próximo dia 9 de Outubro, quinta-feira, ao meio-dia (hora de Lisboa).
De acordo com a casa de apostas online Ladbrokes, perfilam-se nos primeiros lugares (ordenados pela maior probabilidade de ocorrência) os seguintes candidatos:

1.º) Claudio Magris (Itália, 1939) – 3/1
2.º) Adonis (Síria, 1930; Líbano) – 4/1 (poesia)
3.º) Amos Oz (Israel, 1939) – 5/1
----- Joyce Carol Oates (EUA, 1939) – 5/1
----- Philip Roth (EUA, 1933) – 5/1
6.º) Don DeLillo (EUA, 1936) – 7/1
----- Haruki Murakami (Japão, 1949) – 7/1
----- Les Murray (Austrália, 1938) – 7/1 (poesia)
9.º) Yves Bonnefoy (França, 1923) – 10/1 (poesia e ensaio)
10.º) Inger Christensen (Dinamarca, 1935) – 14/1
----- J.M.G. Le Clézio (França, 1940) – 14/1
----- Michael Ondaatje (Sri Lanka, 1943; Canadá) – 14/1
----- Thomas Pynchon (EUA, 1937) – 14/1

Alguns dos autores mais lidos em Portugal aparecem com as seguintes probabilidades associadas:

  • Kadaré / Vargas Llosa – 20/1;
  • M. Atwood – 33/1;
  • Munro / Tabucchi / C. Fuentes / Kundera / P. Carey / U. Eco – 40/1;
  • Achebe / C. McCarthy / McEwan / Updike – 50/1;
  • A.S. Byatt / Rushdie – 66/1;
  • Doctorow / Banville / J. Barnes / M. Tournier / J. Littell / Auster – 100/1

Até à data do anúncio, irá figurar na coluna do lado direito deste blogue um pequeno inquérito – que, diga-se, dada a sua cada vez mais reduzida audiência, jamais gozará de qualquer tipo de representatividade, a não ser a minha própria –, inquérito que apenas incluirá autores norte-americanos.
Facto: o ano de 1993 foi o último em que a inescrutável Academia Sueca resolveu galardoar com o Nobel da Literatura um autor proveniente dos Estados Unidos da América. O prémio foi atribuído à escritora Toni Morrison.
Quem me lê decerto não estranhará a inclusão deste inquérito assaz selectivo, uma vez que conhece a minha especial predilecção pela literatura norte-americana contemporânea.
Assim, na lista sujeita a votação será incluído o quarteto bloomiano (Roth, Pynchon, McCarthy e DeLillo), tal como outros nomes que considero relevantes no actual panorama da literatura norte-americana.
O que não se consegue compreender, para além de um primarismo antiamericano e de um desconhecimento grotesco da literatura da segunda metade do século XX e da contemporânea que se produziu e produz do outro lado do Atlântico, são as declarações de Horace Engdahl secretário permanente da Academia Sueca à Associated Press:

«O Estados Unidos estão bastante isolados, demasiado insulares. Eles não traduzem o suficiente e, na realidade, não participam no grande diálogo da literatura. (…) Essa ignorância é uma condicionante.» [tradução: AMC]

Para parecer um Chávez secundado pela dupla Putin/Medvedev só faltou apelidar a literatura norte-americana e os seus autores de diabo.

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

No dia em que...

Ajax Alçada, apeltroada em estivália sofocleira, tentou vitimolar-se em directo, entre lacrimúrias e tremulonias, perante analição certeira do sublipelidado Odisseu Viegas, teria merecido deste a bofeítação dos esproémios de Evohé Cortázar, mas em Português-Glíglico:

«Mal ele lhe amouvava o noema, o clémiso acumulava-se nela e os dois caíam em hidromúrias, em selvagens ambónios, em sústalos desesperantes. Sempre que ele tentava relamar os incupelos, perdia-se numa grimúria queixosa e tinha que inrolver-se com a cara contra o nóvalo, sentindo como as arnilhas se iam espelhunando pouco a pouco, apeltroando-se e reduprimendo-se até ficarem esticadas como o trimalciato de ergomanina sobre o qual se deixaram cair umas fílulas de cariacôncia. E no entanto aquilo era apenas o princípio, porque a certa altura ela tordulava-se os hurgálios, permitindo que ele aproximasse suavemente os seus orfelúnios. Assim que se entreplumavam, algo como um ulicórdio encristorava-os, extrajustava-os e paramovia-os, de repente surgia o clinão, a esterfurosa convulcante das mátricas, a jadescorrente nabocaplúvia do orgúmio, os espróemios do merpasmo numa suprahumítica agopausa. Evohé! Evohé! Volpousados na cresta do murélio, sentiam-se balparamar, porlinhos e márulos. Tremia o troc, venciam-se as marioplumas, e tudo se resolvirava num pínice profundo, em niolamas de gases argutensos, em carínias quase cruéis que os ordorreavam até ao limite das suas gúnfias.»
Julio Cortázar, O Jogo do Mundo (Rayuela), Capítulo 68, pág. 425
[Lisboa: Cavalo de Ferro, 1.ª edição, Abril de 2008, 632 pp; tradução de Alberto Simões; obra original: Rayuela, 1963]

Pertence ao cânone, cara e desvalorizada – talvez exista aqui uma contradição – Alçadajax.

Eis o capítulo 68 de Rayuela na voz do próprio autor argentino, embora em Espanhol-Glíglico:

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

«Só perdemos três pontos…»

Arsenal - FC Porto (30/09/2008)
É esta a mentalidade. A frieza dos números. Os três pontos perdidos numa exibição miserável de uma equipa que, só por acaso, envergava a camisola com o emblema de um clube que já por duas vezes venceu a Taça dos Campeões.
Não é que não possa acontecer. Ele há dias maus. O que dificilmente poderei aceitar como adepto e sócio do clube há quase trinta e três anos é o discurso da mediocridade, da desculpabilização do indesculpável, da legitimação da incompetência, da vergonha.
E foram só quatro…
Mas se fossem dez ou onze tudo leva a crer que a arengada passiva pós-coital se manteria. A equipa é jovem, o ambiente foi terrível, jogou-se bem até ao primeiro golo sofrido… depois, foi só deixar correr o marfim… por um ou por vinte, que importa?
Jamais aceitarei um discurso desta estirpe que, mais do que a derrota, me revolve as entranhas e deixa num estado de náusea perante a pequenez.
Não se pode apelar à compra dos lugares anuais, ao Dragão cheio, ao apoio incondicional da equipa e/ou à paciência dos adeptos com comportamentos destes. Está longe das expectativas criadas no fervoroso adepto no início de cada época.
Se o discurso é legítimo, e ademais tacitamente sancionado pelos emudecidos dirigentes do meu clube do coração, então que se tenha a coragem de abandonar de vez a competição internacional, dedicando-se a prestar os serviços mínimos na competiçãozinha interna, onde se reina com um só olho (que enfrenta sérios riscos de perder irremediavelmente a visão).
Está em causa o nome de um clube construído com sangue, suor e lágrimas ao longo das últimas décadas… respeitado e temido.
A resignação… melhor, a demagogia (para ser brando) da matemática dos três pontos perdidos tem de ser severamente repreendida, sob pena de a perda transformar um clube, que, acrescente-se, também é uma sociedade anónima que pretende a valorização dos seus activos e a maximização do valor dos seus accionistas, numa entidade que não se dá ao respeito, moralmente espúria, indigente e degradada.
Em suma, o mal está feito, é uma evidência, mas argumentar com a matemática sem que, rápida e reflectidamente, se exprobre a argumentação, apenas servirá para perpetuar o crime sem castigo.

[Imagem a partir da capa da edição de 01/10/2008 do jornal O Jogo]

domingo, 28 de setembro de 2008

Epílogo de uma morte anunciada

No final da Primavera deste ano ficámos a saber que Paul Leonard Newman padecia de um tipo fulminante de cancro de pulmão – a fina ironia para quem testou a resistência da própria vida ao limite no asfalto das pistas de velocidade.
Anunciaram-no, já o sabíamos. Afastado dos palcos por vontade própria desde 2007, a sua vida estava pendurada pela expectativa de semanas ou pouco meses. Morreu na passada sexta-feira, tinha 83 anos.

Em 1987, primou ostensivamente pela ausência no Dorothy Chandler Pavilion, onde lhe seria atribuído o único Óscar não honorário: Melhor Actor em A Cor do Dinheiro (The Color of Money, 1986) de Martin Scorsese. [No mesmo ano, outros vencedores, como Woody Allen, que à mesma hora tocava clarinete em Nova Iorque (Melhor Argumento Original por Ana e as Suas Irmãs), Michael Caine (Melhor Actor Secundário por Ana e as Suas Irmãs) e Ruth Prawer Jhabvala (Melhor Argumento Adaptado por Quarto com Vista sobre a Cidade, baseado num romance de E.M. Forster e realizado pelo seu eterno parceiro cinematográfico James Ivory, parceria que sempre incluiu o já falecido produtor indiano Ismail Merchant), decidiram não comparecer à apetecível noite de entrega das famosas estatuetas douradas da Academia das Artes e das Ciências Cinematográficas de Hollywood. O Óscar de Newman foi curiosamente recebido, em seu nome, por Robert Wise.]

«Rocky: Sabes, tenho tido sorte. Alguém lá em cima gosta de mim [NT: título do filme, se traduzido à letra para português].
Norma: Alguém cá em baixo também.
»
Diálogo entre Rocky Graziano, interpretado por Paul Newman, e a sua mulher Norma, papel interpretado pela actriz italiana Pier Angeli, no fabuloso filme Marcado pelo ódio (Somebody Up There Likes Me, 1956) do mestre Robert Wise, baseado na autobiografia do pugilista Rocky Graziano [tradução: AMC].

Paul Newman


Paul Newman

(Shaker Heights, Ohio, 26/Janeiro/1925 – Westport, Connecticut, 26/Setembro/2008)

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

Selvajarias

Foram quinhentas e seis páginas tragadas numa semana cheia de intermitências e de deslocações de última hora. Páginas que me trouxeram um prazer obnubilado por uma forte irritação – talvez potenciada pela azáfama extraordinária e consequentes interrupções de leitura – que resultou da sofrível tradução portuguesa do romance de 1998 Os Detectives Selvagens do escritor chileno Roberto Bolaño (1953-2003).
Nas capa e contracapa da edição da Teorema estão inscritas sete frases bombásticas retiradas de críticas e de artigos de opinião de gente culta, e uma extra como súmula das anteriores de autoria do editor, a ver pelos qualificativos que as enxameiam, seja pela obra, pelo autor e o seu estilo: «deslumbrante»; «influente e admirado»; «original, divertido e comovedor»; «Um dos cinco melhores»; «visão brutal e lírica»; «raro e fértil»; «Poderoso e desconcertante…»; «raro e sofisticado»; «o […] mais brilhante»; «lenda literária»; e, por fim, «O primeiro grande romance latino-americano do século XXI», embora tenha sido publicado originalmente no século XX e escrito até 1998 – nem mesmo os maus matemáticos que festejaram a passagem do milénio no fim da noite de 31 de Dezembro de 1999 cairiam nesse erro, embora se perceba que, nas entrelinhas, se pretenda falar dos efeitos do romance a posteriori, na geração coetânea e nas subsequentes.
Quinhentas e seis páginas, divididas por três partes, sendo as primeira e terceira ligadas pelo curto fio temporal entre Novembro de 1975 e Fevereiro de 1976, sob a forma narrativa de um diário mantido pelo jovem personagem Juan García Madero; e a segunda uma sucessão de testemunhos de um conjunto substancial de pessoas espalhadas pelo mundo que de certa forma se relacionaram durante os vintes anos que se seguem, de 1976 a 1996, com os personagens Arturo Belano – chileno, tal como o autor e com nome e apelido que se assemelham – e Ulisses Lima – mexicano, inspirado no seu companheiro infra-realista Mario Santiago –, poetas revivificadores do movimento literário apelidado de realismo visceral, ficcionalmente criado nos anos 20 do século passado pela poetisa Cesárea Tinajero, cujo desaparecimento sem obra publicada durante a década de 30 serve de leitmotiv a toda a acção do par instável de detectives selvagens.

Não me irei alongar muito sobre a valia literária deste romance de Bolaño, sob o risco de repetir alguns dos (merecidos) encómios hiperbólicos que fui lendo em recensões lusas recentes, e tão-pouco sobre as suas vida e obra que, por ora, pouco conheço para além da novela Estrela Distante (Estrella distante, 1996), também por cá editada pela Teorema, e das suas deambulações políticas trotskistas, e o colossal 2666 (obra póstuma) que li em castelhano na sua versão original.
Os Detectives Selvagens é uma obra de um impressionante fôlego literário. É séria e comovente como um todo, porém desafectada e flexível nos seus recursos, airosa e hilariante nos inúmeros episódios meticulosamente perfilados para servirem de válvula de escape. É, no seu fundo, uma obra melancólica, com laivos de um isolamento e de uma perambulação no espaço eminentemente saturninos, cujos naturais abalos emocionais são magistralmente geridos por Bolaño através do riso, da paródia a uma classe que se serve da literatura, concretamente da poesia, como meio de luta pela sobrevivência no caótico mosaico político, económico e social da América Latina da segunda metade do século XX, ou então, no caso de outros, à laia de contraponto, usando-a como meio de exteriorização de um narcisismo latente – recordo-me, por exemplo, do fabuloso episódio relatado pelo ufano advogado galego, residente em Barcelona, que escreve a partir do leito de morte em Roma em Outubro de 1992 (parte II, capítulo 20 – Xosé Lendoiro) rememorando os diversos encontros infelizes com o chileno Arturo Belano por terras de Espanha; ou da triste sina do escritor homossexual integrado no ubíquo movimento do realismo visceral, que devido a um aneurisma é sujeito a uma intervenção cirúrgica ao cérebro que lhe retira grande parte das capacidades físicas e intelectuais, onde os pais, passando por cima de tudo, exultam o resultado final (de quase vegetal) uma vez que lhe curaram o desvio sexual; as lúcidas divagações do inimputável Joaquim Font, (as mais lúcidas), internado, por ordem da mulher, num manicómio situado nos arredores da Cidade do México; o duelo preventivo (ao sabre) entre Arturo e o crítico literário de Barcelona; o prodigioso capítulo 23 (desde a Feira do Livro de Madrid) e as diversas perspectivas sobre a literatura, ou a vida. E poderia continuar…

Mas, como se sói dizer por cá – acabando agora mesmo de emprestar ao texto um tom eminentemente castelhano, através do emprego do usadíssimo verbo soer (em Cast. soler, do Lat. solere) em espanhol corrente –, não há bela sem senão. Se, através das minhas palavras, não existem dúvidas sobre o brilhantismo deste texto literário de Bolaño, a tradução para português acaba por danificar a obra original e irritar o leitor mais atento e familiarizado com a língua de Cervantes – que é precisamente o meu caso. Não falo das inúmeras gralhas que se multiplicam ao longo das quinhentas páginas e que resultam, decerto, de erros tipográficos e de uma pós-revisão deficiente. Falo, isso sim, do tom usado ao longo de toda a narrativa que parece haver sido traduzida por Luís Figo nos períodos áureos entre treinos e jogos de futebol quando tinha de soltar a língua. A utilização excessiva do “pois”, em particular do “pois que”, ao longo do texto, em toda e qualquer frase, é uma tradução literal do texto original que usa o estribilho a partir do vernáculo castelhano, que não se costuma usar na língua portuguesa: (apenas dois exemplos entre dezenas) «Se havia outras editoriais interessadas, pois que a publicassem eles, eu não» (pág. 174) «Porque eu sou real visceralista, disse eu, e, se esse cabrão não mete Ulisses, pois que também não conte comigo.» (pág. 230) No primeiro exemplo, para além do uso do referido estribilho castelhano, há que acrescentar o uso da expressão “editoriais” como tradução de “editoriales”, que neste caso pretende significar a empresa que edita, comummente designadas por “editora”, embora “editoriais” se refira ao mesmo, não é, porém, de uso corrente em português europeu.
Depois há a repetidíssima utilização da expressão “chino” para designar “chinês” – «Depois saímos todos para jantar num café chino.» (pág. 25), «Pancho e eu encontrámo-nos no café chino El Loto» (pág. 32) –, embora “chino” seja sinónimo de “chinês”, não se usa em português com excepção de “rato-chino”, uma vez mais resulta da tradução literal do espanhol “chino” que significa “chinês” na nossa língua. Este caso não é único, existem outras traduções literais como por exemplo «Quando cheguei levantou a cabeça, era o único usuário da biblioteca» (pág. 489)
Por fim, o critério de tradução de nomes próprios. Começando pelos protagonistas “Ulisses Lima” e “Arturo Belano”, o primeiro sofreu um aportuguesamento de “Ulises” no original (ficou com mais um “s”), e o segundo manteve o “Arturo” que em português é “Artur”. Assim, como “María Font” perdeu o acento agudo no “i”, uma vez que (pues que) a divisão silábica de “Maria” é diferente nas duas línguas: em português, “Maria” é uma palavra grave (Ma-ri-a); em castelhano, é uma palavra aguda devido à divisão silábica em castelhano (Ma-ria); opção que não é consistente com “Luis Rosado” onde se manteve a versão castelhana do nome em detrimento da portuguesa “Luís Rosado” ou com “García Madero” (o terceiro protagonista) em vez de “Garcia Madero”. Já “Joaquim Font” tanto é assim grafado (por exemplo, na página 151), como surge com o nome próprio em castelhano “Joaquín Font” (pág. 252).
Como é certo e sabido, uma má tradução poderá arruinar uma obra. No caso em questão não creio que tenha havido um dano insanável, ou seja, mesmo perante os erros consegue-se vislumbrar a genialidade da obra. Isso não invalida que refira que, através da minha experiência de leitura, houve uma irritação que se adensou à medida que me ia embrenhando no livro, prejudicando, de forma irremediável a avaliação final. À editora pede-se que proceda a uma urgente e aturada revisão do texto traduzido para a 2.ª edição, se a houver, caso contrário acredito que obra permanecerá na sua versão portuguesa, até nova tradução, ferida no seu brilho artístico.


«O que há atrás da Janela?
[figura 1]
Uma estrela.
[…]
O que há atrás da Janela?
[figura 2]
Um lençol estendido. (…)» (pág. 506)

Pues que eclipsou-se uma estrela:

Classificação: **** (Bom)

Tudo o que começa como comédia acaba como ode ao ansiolítico.
[A despeito, neste caso, das outras proposições prismáticas, (…) como tragédia (pág. 403); como tragicomédia (pág. 404); como comédia (pág. 404); como exercício criptográfico (pág. 405); como filme de terror (pág. 408); como marcha triunfal (pág. 409); como mistério (pág. 411); como responso no vazio (pág. 413); como monólogo cómico, mas já não nos rimos (pág. 416).]


Referência bibliográfica:
Roberto Bolaño
, Os Detectives Selvagens. Lisboa: Teorema, Junho de 2008, 512 pp. (tradução de Miranda das Neves; obra original: Los detectives salvajes, 1998).

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

Harry “Coelho” Angstrom, de novo

A editora portuense Civilização acaba de lançar no mercado o 3.º livro da tetralogia (+ ½) do Coelho de autoria do escritor norte-americano John Updike (n. 1932): Coelho Enriquece (Rabbit is Rich, 1981).
Recorda-se aqui que já foram publicados em Portugal pela mesma editora as primeira e segunda partes da vida do americano arquetípico Harry “Coelho” Angstrom: Corre, Coelho (Rabbit, Run; 1960) em Fevereiro de 2007 e Regressa, Coelho (Rabbit Redux, 1971) em Março deste ano. Ainda por publicar estão o 4.º livro Rabbit at Rest de 1990 e a novela de 2001, integrada na colectânea de contos do autor Licks of Love, Rabbit Remembered.

Este livro venceu três dos mais importantes prémios literários atribuídos a uma obra de ficção publicada originalmente nos Estados Unidos da América:

  • National Book Critics Circle Award for Fiction em 1981;
  • Pulitzer Prizer for Fiction em 1982;
  • National Book Award for Fiction (Hardcover) em 1982.

«“A gasolina está a acabar-se”, pensa Coelho Angstrom […] Este mundo de merda está a ficar sem gasolina. […] A gasolina a noventa e nove ponto nove cêntimos o galão e noventa por cento das estações de serviço a fecharem ao fim-de-semana. […] os camionistas que não conseguem gasóleo disparam contra os próprios camiões […] As pessoas estão a perder a cabeça, os seus dólares não valem um cêntimo, retraem-se como se não houvesse amanhã.»
John Updike, Coelho Enriquece, pág. 7
[Porto: Civilização, Setembro de 2008, 498 pp. (tradução de Carmo Romão)]


A acção desenrola-se em pleno 2.º Choque Petrolífero que ocorreu em 1979. A actualidade da citação é mais do que angustiante. A América e o mundo ocidental ou ocidentalizado tardam em aprender com os erros passados. Porém, é óbvio que esta aprendizagem foi plenamente assumida, o que a torna, hoje em dia, num perigoso sofisma à disposição de políticos sem escrúpulos e de outros sem coragem para denunciar a acções concertadas e criminosas daqueles com os grandes interesses do petróleo, disseminados pelos opacos mercados de capitais (desregulamentados) que vomitam anonimamente gigantescas mais-valias nas operações financeiras sem o devido suporte de operações reais ou económicas. A avidez pelo capital destrói a essência do capitalismo, deixando o cidadão desprotegido e sem forças para lutar perante a ressuscitação das teorias económicas que comprovadamente conduziram à coarctação das liberdades política, económica, social, artística, etc.

terça-feira, 23 de setembro de 2008

Espírito das Alternativas

«– Mas eu queria dizer – sou um homem em pedaços, mutilado.
– Facilmente exasperado.
– Sabes bem como é. Sou oprimido, empurrado, atormentado, maçado, importunado, incomodado…
– Por quê? Pela consciência?
– Bom, por uma espécie de consciência. Não lhe tenho o respeito que tenho à minha consciência. É a parte pública de mim próprio. Vai até lá muito dentro. É o mundo interiorizado, em resumo é isso.
»
Saul Bellow, Na Corda Bamba, pág.166
[Lisboa: Círculo de Leitores, 1.ª edição, Junho de 1977, 193 pp. (tradução de Maria Adélia Silva Melo; obra original: Dangling Man, 1944]

Talvez seja da acalmia que se produz com aquele período a que se convencionou chamar “férias” – e talvez seja esse o único qualificativo capaz de traduzir o artifício, humanamente engenhoso… ou demasiadamente humano, basta, da tal suspensão de responsabilidades profissionais.
Não me convence. Nem nunca me convenceu, porque nunca o senti como um período de verdadeiro descanso. Não estou suficientemente longe de mim para apaziguar um espírito que se mortifica pela sua impiedosa imagem pública. Não preciso de férias. Necessito apenas que a liberdade que fui construindo para o meu eu me deixe, pelo menos, desfrutar da sensação de imponderabilidade, de anarquia – e que bem se emparelha este último com o termo “servidão”.
O isolamento, como ensaia DeLillo através da alusão de Bernhard a Glenn Gould (vide epígrafe deste blogue), cria instantaneamente essa ilusão de liberdade; efémera, desfaz-se como uma traça em pó depois de sovada, que, de forma cega e obstinada, vai dilacerando a nossa roupagem.
Assalta-me o terrível dilema bellowniano da liberdade individual frente às exigências do contrato social. Sou senhor de mim e sinto-me pouco grato por isso.

Reflectindo sobre os méritos alcançados (autodeterminação) pela minha forma de vida.
[contraponto]

«Hurray for regular hours!
And for the supervision of the spirit!
Long live regimentation!
»
Saul Bellow, Dangling Man
(New York: Penguin Books, October, 1996, p. 183)

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

Choque

Um pequeno contratempo fez com que regressasse de férias uns dias mais cedo, apesar de ter prontamente estabelecido que a estocada final, nessa sempre efémera palavra, só irá ser dada no domingo à noite por terras durienses.
Quase um mês fora, e a tralha que trouxe ainda se espalha pelos corredores e quartos à espera da habitual triagem: para guardar, lavar, arrumar até para o ano, etc.
Ontem, chegámos tarde e o ritmo ainda é lento, como se actuasse uma força estranha que, de forma perseverante, nos vai impedindo a cessação da boa preguiça adquirida durante esse mês.
Duas da manhã, a casa ficou finalmente em silêncio. Abri o Público, ainda inviolado, que havia comprado à hora do almoço julgando que ainda me esperavam cinco dias pela frente – no Verão, a regra de não dar um cêntimo por jornais costuma ser langorosamente derrogada.
Página 9 do caderno P2. Choque: morreu David Foster Wallace. Obituário de Alexandra Prado Coelho. As presumíveis circunstâncias da sua morte só serviram para acirrar a minha inquietação. O homem tinha tudo para se tornar no grande sucessor dos grandes ficcionistas americanos da segunda metade do século XX… O sucessor de Pynchon, diziam. Dois romances, entre eles o descomunal Infinite Jest de 1996 – o seu segundo e último –, diversos contos, ensaios e peças jornalísticas publicados em diversas colectâneas.
Em Portugal permanece quase desconhecido. Que eu saiba apenas tem um conto traduzido: “Encarnação de uma geração queimada”, na colectânea de jovens contistas americanos Geração Queimada da América, editada pela Bico de Pena e organizada pela realista histérica (qualificativo glosado através de Wood) Zadie Smith. Tal como tive oportunidade de referir na altura, é o melhor conto da desequilibrada antologia.
O desespero…


David Foster Wallace


David Foster Wallace

(Ithaca, Nova Iorque, 21 de Fevereiro de 1962 – Claremont, Califórnia, 12 de Setembro de 2008)

terça-feira, 16 de setembro de 2008

Literatura desesperada

(Contando, amargamente, os curtos dias para o fim da serenidade e tranquilidade do exílio estival.)

Pobre Joaquim (Quim) Font, durante a sua estadia forçada na Clínica de Saúde Mental El Reposo, em Janeiro de 1977, (talvez seguro da sua lucidez) escreveu:

«Agora tomemos o leitor desesperado, aquele a quem presumivelmente é dirigida a literatura dos desesperados. O que é que vêem? Primeiro: trata-se de um leitor adolescente ou de um adulto imaturo, acobardado, com os nervos à flor da pele. É o típico parvajola (perdoem-me a expressão) que se suicidava depois de ler Werther. Segundo: é um leitor limitado. Porquê limitado? Elementar, porque não consegue ler senão literatura desesperada ou para desesperados, tanto importa, um tipo ou um estafermo incapaz de ler duma assentada Em Busca do Tempo Perdido ou A Montanha Mágica (em minha modesta opinião um paradigma da literatura tranquila, serena, total), ou, se quisermos, Os Miseráveis ou Guerra e Paz. Acho que falei claro, não? Bem, falei claro. [...] E também: os leitores desesperados são como as minas de ouro da Califórnia. Mais cedo ou mais tarde, esgotam-se! Porquê? É bem evidente! Não se pode viver desesperado toda uma vida, o corpo acaba por dar de si, a dor acaba por se tornar insuportável, a lucidez escapa-se em grandes jorros frios. O leitor desesperado (ainda mais o leitor de poesia desesperado, esse é insuportável, acreditem-me) acaba por se antagonizar com os livros, acaba inelutavelmente por se transformar num desesperado sem apelo nem agravo. Ou cura-se! E então, como parte do seu processo de regeneração, volta lentamente, como que entre algodões, como que sob uma chuva de comprimidos tranquilizantes fundidos, volta, como ia dizendo, a uma literatura escrita para leitores serenos, repousados, com a mente bem centrada. A isto se chama (e, se ninguém lhe chama assim, eu chamo-lhe assim) a passagem da adolescência à idade adulta. E com isto não quero dizer que quando nos convertemos num leitor tranquilo se deixe de ler livros para desesperados. Claro que se lê! [sic] Sobretudo se são bons, ou passáveis, ou se um amigo os recomendou. Mas, no fundo, chateiam-no! No fundo, essa literatura amarga, cheia de armas brancas e de Messias enforcados, não consegue penetrá-lo até ao coração como, por outro lado, o consegue uma página serena, uma página meditada, uma página tecnicamente perfeita!»
Roberto Bolaño, Os Detectives Selvagens, pp. 169-170.
(Lisboa: Teorema, Junho de 2008, 512 pp; tradução de Miranda das Neves; obra original: Los detectives salvajes, 1998).

sábado, 13 de setembro de 2008

Sult, Knut Hamsun

Mesmo nos confins deste país desequilibrado (por exemplo, hoje a TSF no noticiário das 15 horas... perdão, das 14:58 emitiu durante 11 minutos ininterruptos as várias facetas do carricídio perpetrado, em plena luz do dia, por duas árvores centenárias, que se saldou na vil destruição de meia dúzia de inocentes automóveis, inundando-nos com entrevistas a vizinhos, um vereador, proprietários registados das vítimas, uma meteorologista com um nome inconcebível e outras testemunhas ocasionais e assaz comovidas... só faltaram os astrólogos e, claro, ninguém auscultou as vetustas árvores, porventura discriminadas por se tratar de mera flora...) continuo atento ao mercado editorial português. A Cavalo de Ferro reedita o magnum opus do escritor norueguês, Nobel da Literatura em 1920, Knut Hamsun (1859-1952), publicado originalmente em 1890, Sult (a.k.a. Hunger em inglês) – Fome.

Apesar das suas desprezíveis simpatias hitlerianas, exaltando as qualidades de liderança de um dos maiores monstros da História do século XX, são inegáveis as suas qualidades literárias confirmadas com este romance dilacerante, escrito quando o pai do nazismo ainda não havia largado as fraldas, e, curiosamente, quarenta anos antes de o maior monstro do século passado (Koba, ou Iosif Vissarionovich Dzhugashvili, mais conhecido por Estaline*, o homem de aço) usar a FOME de dezenas de milhões como a principal arma de propagação do Grande Terror, que o camarada Lenine não teve tempo (e conceda-se, nem coragem) para acabar através do seu Terror Vermelho.

Ei-lo, com introdução de um dos escritores contemporâneos que sempre se confessou um dos maiores admiradores do laureado escritor norueguês, influenciando, de forma explícita, a sua já extensa obra, Paul Auster (n. 1947):


*Nota: texto escrito usando o tipo de letra Georgia.

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

Áries

Rui PereiraPoderia ser o título de um novo romance de Don DeLillo – uma sequela do aclamado Libra de 1988, uma narrativa semificcional sobre o assassinato de John Fitzgerald Kennedy, a 22 de Novembro de 1963, enquanto desfilava no seu Lincoln descapotável na Elm Street em Dallas, reconstruindo a figura de Lee Harvey Oswald (de signo Balança) e uma teia de conspirações de ex-agentes da CIA e de exilados cubanos, que o usaram como instrumento, em busca de uma desforra da calamitosa invasão da Baía dos Porcos.
Oswald depois de haver sido detido no próprio dia do assassinato, viria, dois dias depois, a ser alvejado mortalmente no abdómen por Jack Ruby, um conhecido dono de um clube de striptease de Dallas e com ligações à máfia, com relações privilegiadas com a polícia local, na garagem da esquadra de polícia, onde o primeiro se preparava para ser transferido para a prisão mais próxima.
Áries, ou Carneiro como é usado na nossa língua, regula astrologicamente a vida e a cabeça de um homem, chamado Rui Carlos Pereira – a importância dos três nomes… –, que por coincidência ou teoria conspirativa é o Ministro da Administração Interna da país da impunidade: Portugal – a propósito, e como recordar é viver, José António Cerejo escrevia este artigo no Público a 17 de Abril de 1999, onde, entre outros, surge por casamento e pelas (múltiplas) funções exercidas o nosso inefável homem dos aventais, na altura director do SIS que investigava a Universidade Moderna (todavia, não consta do seu breve currículo disponível na página oficial do Governo o exercício das funções de docência neste estabelecimento de ensino).
Ontem, o nosso ministro comparou o caso do homem baleado em plena esquadra de Portimão, ao assassinato de Oswald por Ruby, depois de o primeiro haver assassinado J.F. Kennedy, apenas e somente o 35.º Presidente dos E.U.A. Para além de haver revelado algumas debilidades indesculpáveis no conhecimento de factos históricos ocorridos há quase 45 anos, este homem depois de mais um dos inúmeros disparates verbais na tentativa de explicar o inexplicável, continua à frente de um dos ministérios chave para a necessária tranquilização da sentidamente insegura população portuguesa.

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Finalistas do Booker Prize de 2008 (anunciados ontem)

  • Amitav Ghosh – Sea of Poppies;
  • Aravind Adiga – The White Tiger;
  • Linda Grant – The Clothes on Their Backs;
  • Philip Hensher – The Northern Clemency;
  • Sebastian Barry – The Secret Scripture;
  • Steve Toltz – A Fraction of the Whole.

Com a excepção de Sebastian Barry (finalista em 2005), todos os outros são estreantes na lista dos finalistas do galardão máximo a premiar uma obra em língua inglesa, originalmente publicada no Reino Unido, nos países da Commonwealth ou na Irlanda
Sinal dos tempos na literatura anglo-saxónica? Os novos romances dos autores consagrados John Berger e Salman Rushdie ficaram-se pela lista dos semifinalistas.
O vencedor será anunciado depois do habitual jantar no Guildhall em Londres no próximo dia 14 de Outubro.

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Nota importante: prossegue o interlúdio retemperador neste blogue. O autor continua com as suas férias até ao dia 22 de Setembro, altura em que se serão respondidos os e-mails e os comentários deixados nas respectivas caixas em anexo aos textos publicados.

terça-feira, 19 de agosto de 2008

Um homem que brilha no escuro

Treze dias passaram desde a data de publicação do último texto neste blogue. A modorra estival que sobre mim sói abater-se neste mês – o oitavo, pelo calendário, e verdade seja dita, também só restavam outros dois –, onde se esfumam os minúsculos resquícios de sanidade deste povo cultor da mediocridade, impede-me que prossiga escrevendo; talvez me solidarize, ou então, trata-se apenas de um sinal, de um terrível lembrete da minha inescapável condição de autóctone. Temo, por isso, sofrer dos mesmos males que afectam essa massa de arraialeiro-consumistas arquetípicos que dá corpo ao país que me viu nascer.
Querem melhor do que as justificativas para a participação desastrosa da nossa comitiva olímpica (valha-nos Santa Vanessa de Perosinho!): a humidade, o vento, os árbitros ou os juízes do judo, as provas matinais (hora para, em cima da almofada babada, dizer à caminha o quanto gostamos dela – aquele lançador do peso…), e até o desarranjo psíquico. Apenas um, que curiosamente é nigeriano de nascença, teve a humildade de reconhecer que as suas, outrora admiráveis, capacidades como atleta estão diminuídas – a idade não perdoa, especialmente, a um velocista – e que se retira para se dedicar de corpo e alma à sua fundação. Falo, é claro, de Francis Obikwelu.

Mas este regresso efémero – recolherei de imediato à lusa modorra – apenas teve que ver com um acontecimento literário: o meu, declarada e arrebatadamente, escritor preferido – e escusam de escrever na caixa de comentários, como já ocorreu, que é um autor cheio de debilidades – acabou de publicar (saiu para o mercado hoje mesmo no seu país natal) o seu 12.º romance – ou 14.ª obra de ficção para aqueles que preferem separar A Trilogia de Nova Iorque (The New York Trilogy, 1987) em três novelas, que de facto foram inicialmente publicadas em separado, entre 1985 e 1986. Trata-se do prometido Man in the Dark.

Releio incansavelmente o discurso de entrega do Prémio Príncipe de Astúrias de 2006. Concordo com cada linha e assumo que talvez seja por isso que entenda a literatura como a minha principal fuga para estes desvarios e irritações do quotidiano. A fuga ao real através da fantasia, da ilusão, através das histórias que nos são contadas por aqueles a quem concedemos a autoridade para a invasão do nosso imaginário.
Não é que a histórias de A Marquesa saiu às cinco horas não me despertem qualquer tipo de interesse, bem pelo contrário, encanta-me a estética do realismo literário, longe de algumas derivações contemporâneas do realismo: o histérico e o informacional, como crítica James Wood sem dó, nem piedade. Mas, como dizia André Breton, há que regressar aos contos de fadas, criando uma nova forma de contar histórias para gente crescida, retirando-lhes a fortíssima carga de puerilidade, tecendo mais fina a teia da inverosimilhança. No meu entender, Auster consegue-o, umas vezes com estrondoso sucesso, outras, infelizmente, a imperfeição humana, com menor brilhantismo; mas consegue, e isso é comprovável pela sua obra, construir a chamada narrativa do maravilhoso, preconizada pelo surrealista francês.

[Um exemplo cabal da narrativa do maravilhoso é o notável romance de 1978 do escritor chileno José Donoso (1924-1996) Casa de Campo e que foi publicado entre nós pela primeira vez este ano, sob a chancela da editora Cavalo de Ferro. O jogo da Marquesa saiu às cinco (expressão que Donoso retirou de Breton, e que este confessa que resultou de uma confissão de Paul Valéry), o trompe-l'œil, a descontinuidade, são de um empolgante enlevo literário, para além das sucessivas, encantadoras e inabituais interferências do omnisciente autor-narrador no decurso da história, chegando a dialogar com um dos seus inúmeros personagens.
Sobre ele gostava de aqui ter dito alguma coisa, mas a tal modorra/ausência/desencanto não mo vão permitindo.]

Correndo o risco de entrar para o Guiness (onde, decerto, estaria pneumaticamente mal acompanhado…) com o post mais longo de sempre da blogosfera, deixo-vos aqui, um excerto da primeira parte do novo romance de Paul Auster:

Paul Auster«Estou só na escuridão, alterando o mundo na minha cabeça à medida que vou combatendo outro ataque de insónia, outra noite em branco na desolação americana. Lá em cima, a minha filha e a minha neta estão a dormir nos seus quartos, cada uma igualmente só, a Miriam de quarenta e sete anos, a minha única filha, que passou a dormir sozinha nos últimos cinco anos e a Katya de vinte e três, filha única de Miriam, que costumava dormir com um rapaz chamado Titus Small, mas Titus está morto e Katya dorme sozinha com o seu coração partido.

Luz radiosa, depois as trevas. O sol disseminando-se por completo em todos os cantos do céu, seguido pelo negrume da noite, as estrelas silenciosas, o vento açulando os ramos das árvores. Tal é a rotina. Vivo nesta casa há mais de um ano, desde que me deixaram sair do hospital. Miriam insistiu para que eu viesse para cá e no início éramos só nós, com uma enfermeira de dia que cuidava de mim quando Miriam se ausentava para trabalhar. Então, três meses mais tarde, o céu abateu-se sobre Katya, abandonou a escola de cinema em Nova Iorque e regressou a casa para viver com a mãe no Vermont.

Os pais dele deram-lhe o nome do filho de Rembrandt, o rapazinho dos quadros, a criança de cabelos dourados com o barrete vermelho, o discípulo devaneante meditando profundamente sobre as suas leituras, o rapazinho que se tornou num jovem destruído pela doença e que morreu nos seus vinte e tal anos, assim como o Titus de Katya. É um nome assombrado, um nome que deveria desaparecer para sempre de circulação. Penso imensas vezes na morte de Titus, a história horrível daquela morte, as imagens dessa morte, as consequências demolidoras dessa morte na minha neta amargurada, mas não quero ir por aí agora, eu não posso seguir por aí neste momento. Tenho, tanto quanto possível, de atirar isso para longe de mim. A noite ainda é uma criança, e visto que estou aqui deitado a olhar para cima para escuridão, uma escuridão tão negra que torna o tecto invisível, começo a recordar-me da história que iniciei a noite passada. É isso que faço quando o sono recusa aparecer. Deito-me na cama e conto-me histórias. Elas poderão não acrescentar muito, mas enquanto permaneço dentro delas, elas impedem-me de pensar em assuntos que prefiro esquecer. A concentração pode ser um problema, todavia, e cada vez com mais frequência a minha mente afasta-se fortuitamente da história que tento contar rumo às coisas em que não pretendo pensar. Não há nada a fazer. Eu falho repetidas vezes, e essas são mais frequentes do que aquelas em que tenho sucesso, mas isso não significa que não lhe dedique a parte considerável do meu esforço.

Eu pu-lo num buraco. Pareceu-me um bom começo, uma forma promissora de prosseguir com as coisas. Pus um homem adormecido num buraco, e depois verei o que irá acontecer quando ele acordar e tentar rastejar para fora dele. Estou a falar de um buraco profundo no solo, com cerca de três metros de profundidade, cavado de maneira a formar um círculo perfeito, com paredes interiores alcantiladas formadas por terra tão densa e firmemente compactada que a superfície ganhou a textura de barro cozido, ou talvez até de vidro. Por outras palavras, o homem que está lá dentro será incapaz de se desembaraçar do buraco quando abrir os seus olhos. A não ser que esteja equipado com um conjunto de ferramentas de montanhismo – um martelo e espigões de metal, por exemplo, ou uma corda para enlaçar uma árvore que se encontre próxima – mas este homem não dispõe de ferramentas, e a partir do momento em que recuperar a consciência, rapidamente entenderá a natureza complicada da sua situação.

E assim acontece. O homem recobra os sentidos e descobre que está deitado de costas, olhando fixamente um céu crepuscular sem nuvens. Chama-se Owen Bricks e não faz a mínima ideia de como veio aqui parar, não tem memória de ter caído neste buraco cilíndrico, cujo diâmetro ele considera aproximar-se dos três metros e meio. Ele senta-se. Para sua surpresa enverga um uniforme militar feito de uma lá grosseira de tom pardacento. Tem uma boina na sua cabeça e calça um par de botas gastas de cabedal preto, atacadas acima dos tornozelos por um firme nó duplo. Existem duas listas militares em cada manga do seu casaco, indicando que aquele uniforme pertence a alguém com a patente de cabo. Essa pessoa poderá ser Owen Brick, porém o homem no buraco, cujo nome é Owen Brick, não se consegue recordar de, alguma vez na vida, ter servido em algum exército ou combatido numa guerra.

Em busca de uma qualquer explicação, ele assume que lhe infligiram uma pancada na cabeça e que temporariamente perdeu a memória. Quando põe a ponta dos dedos no seu escalpe e começa a procurar por inchaços ou golpes, ele não encontra, porém, qualquer sinal de tumefacção, nada de cortes, pisaduras, nada que sugira que tal lesão haja ocorrido. O que se passa, então? Terá sofrido alguma espécie de trauma debilitante que afectou uma grande parcela do seu cérebro? Talvez. Contudo, ele jamais terá maneira de o saber a não ser que regresse a memória desse trauma. Depois, ele começa a explorar a possibilidade de estar a dormir na sua cama em casa, aprisionado dentro de um qualquer sonho sobrenaturalmente lúcido, um sonho tão verosímil e intenso que a fronteira entre a fantasia e a consciência quase se dissipou. Se isso for verdade, então ele terá apenas de abrir os olhos, levantar-se num ápice da sua cama e ir para a cozinha preparar o seu primeiro café da manhã. Mas como podereis abrir os olhos se eles já estão na realidade abertos? Infantilmente, ele pestaneja algumas vezes, imaginando que esse acto lhe quebraria o feitiço – mas não há nenhum feitiço para quebrar e a cama mágica não é capaz de se materializar.

Um bando de estorninhos passa ao alto entrando no seu campo de visão por cinco ou seis segundos, desaparecendo depois na penumbra. Brick levanta-se para inspeccionar as suas imediações e enquanto o faz sente um objecto protuberante no bolso esquerdo da frente das suas calças. Era uma carteira, a sua carteira, e para além de setenta e seis dólares americanos, continha uma carta de condução emitida pelo Estado de Nova Iorque em nome de um Owen Brick, nascido a 12 de Junho de 1977. Isto só vem confirmar o que Brick já sabia: um homem aproximando-se dos trinta que vive em Jackson Heights, Queens. Ele também sabe que é casado com uma mulher chamada Flora e que nos últimos sete anos ele trabalhou como mágico profissional, actuando de preferência em festas de aniversário de crianças à volta da cidade, sob o nome artístico de Grande Zavello. Estes factos apenas adensam o mistério. Se ele está tão certo de quem é, então como é que ele acabou no fundo deste buraco, vestindo, sem mais, um uniforme de um cabo, sem papéis, chapas ou um cartão de identificação militar que pudessem provar o seu estatuto de soldado?

Não demora muito a aperceber-se de que escapar está fora de questão. A parede circular é demasiado alta e quando a pontapeia para amolgar a superfície e assim criar uma espécie de apoio para o pé que o ajudasse a trepá-la, o único resultado que logra alcançar é um dedo grande do pé dorido. A noite vai caindo velozmente e forma-se um tempo frio, um frio húmido e primaveril que lhe vai penetrando o corpo a pouco e pouco, e embora Brick comece a sentir algum receio, naquele momento ele ainda permanece mais confuso do que receoso. Não obstante, ele não se consegue deter em clamar por ajuda. Até agora, tudo se manteve silencioso à sua volta, sugerindo que ele se encontrava numa remota e despovoada extensão de terreno no campo, sem qualquer som excepto um ocasional gemido de um pássaro e o sussurrar do vento. Porém, como se estivesse ao comando, como se devesse a uma lógica torcida de causa e efeito, no preciso momento em que gritou a palavra SOCORRO, irrompe à distância fogo de artilharia e o céu escurecido iluminou-se por traços de cometas de destruição. Brick ouve metralhadoras, granadas a explodir e por trás de tudo isso, sem dúvida a quilómetros de distância, um coro sombrio de uivantes vozes humanas. Isto é a guerra, apercebe-se, e ele é um soldado nessa guerra, mas sem dispor de arma, nem forma de se defender perante o ataque, e, pela primeira vez desde que acordou dentro do buraco, ele está verdadeiramente assustado.

O tiroteio prossegue por mais de uma hora, depois dissipa-se gradualmente no silêncio. Não muito depois disso, Brick ouve o som desmaiado de sirenes, o que ele entende como sendo carros de bombeiros que acorrem aos edifícios que foram danificados durante o ataque. A seguir as sirenes também param e o silêncio assalta-o uma vez mais. Sente-se gelado e amedrontado, mas Brick está igualmente exausto e depois de ter andado à volta dos confins da sua prisão cilíndrica até as estrelas surgirem no céu, ele estende-se no chão e consegue finalmente adormecer.

Cedo, na manhã seguinte, ele é acordado por uma voz que o chama do topo do buraco. Brick olha para cima e vê o rosto de um homem que sobressai do rebordo, e uma vez que a cara é tudo o que ele consegue divisar, ele assume que o homem está estendido no chão sobre a sua barriga.

Cabo, diz o homem. Cabo Brick, é tempo de se pôr a mexer.

Brick levanta-se e agora que os seus olhos apenas se encontram a mais ou menos um metro do rosto do estranho, ele pode ver que o homem é um tipo de tez escura, de maxilar quadrado, com uma barba de dois dias e que enverga uma boina militar idêntica à dele. Antes de Brick poder protestar, tanto como gostaria de se pôr a mexer, ele não está em posição de fazer algo desse estilo, o rosto do homem desapareceu.

Não te preocupes, ele ouve-o a dizer. Nós tiramos-te daí já a seguir.

Uns instantes depois, segue-se um som de um martelo ou de uma marreta de ferro batendo ruidosamente num objecto de metal, e visto que, a cada martelada sucessiva, o som se ia tornando cada vez mais mudo, Brick imagina se o homem estará a espetar uma estaca no solo. E se for uma estaca, então talvez ser-lhe-á em breve amarrado um bocado de corda, e com essa corda Brick será capaz de trepar para fora do buraco. O estrépito pára, passam-se outros trinta ou quarenta segundos, e então, tal como havia previsto, uma corda desce até junto dos seus pés.»
Paul Auster, Man in the Dark, pp. 1-7
[tradução livre a partir da edição americana: AMC – New York: Henry Holt, first edition, 2008, 192 pp.]

Nota: foi actualizada a lista de obras, editadas em Portugal em 2008, por mim lidas e classificadas, que figura, desde o seu início, na coluna do lado direito deste blogue. Como se pode desde logo constatar, ao contrário das listas de 2006 e 2007, publicadas no Porque e no In Absentia, respectivamente, a lista deste ano, por manifesta falta de tempo e sobretudo de vontade, figura quase desprovida de “notas de leitura”.
Sic transit gloria mundi.

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

Pós-Humano

Para o antigo fã de Carpenter e dos restantes subprodutos da arte da realização cinematográfica, não é sem um arrepio de um horror declarado que me vou lembrando da atribuição do romance Meridiano de Sangue ou o Crepúsculo Vermelho no Oeste (Blood Meridian, or the Evening Redness in the West, 1985) do escritor norte-americano Cormac McCarthy ao realizador britânico Ridley Scott para dele erigir um filme. O argumento passará, no entanto, pelas mãos curiosamente mais subtis de William Monahan – reescreveu o argumento de Entre Inimigos (The Departed, 2006) de Scorsese.

Este devaneio de tons negros (o medo de um acontecimento que, com forte probabilidade, ocorrerá num futuro próximo) fez-me recordar um artigo publicado na novíssima revista
n+1, no seu primeiro número no Outono de 2004. Apesar de aí se discutir de forma lateral o assunto que me levou a escrever este texto, não resisto a enunciar a matéria principal que aí se tratava: a crítica literária praticada pela rival The New Republic. Os editores da n+1 dedicam-se a zurzir no negativismo do mais destacado crítico literário da revista e, certamente, da sua geração, o inglês James Wood (n.1965), actualmente ao serviço da revista The New Yorker, depois de quinze anos de serviço de recenseador repartidos pelo jornal britânico de The Guardian e pela já mencionada The New Republic.
O editorial da n+1 ataca-o em diversas frentes, por um lado acusando-o por exemplo de uma perseguição implacável a escritores consagrados como Don DeLillo, Toni Morrison (Nobel da Literatura em 1993), John Updike, Thomas Pynchon, Ian McEwan, Julian Barnes, Martin Amis e ao seu alvo dilecto Salman Rushdie, tal como a novos talentos que incluem autores como Zadie Smith ou Jonathan Frazen. E, por outro lado, afirmando que o esteticismo preconizado por Wood pretende pôr os escritores contemporâneos a escrever como os realistas do século XIX.
Wood defende-se, e bem, numa longa carta aos editores publicada na íntegra na edição número 3 da revista. Para além de refutar o negativismo militante que lhe é apontado, recordando um extenso rol de autores vivos e recentemente falecidos de quem as suas recensões foram assaz positivas – relembrando, ainda, outros que deixaram de publicar quando iniciou as suas funções e que de certa forma fazem parte do seu panteão pessoal –, Wood defende-se da crítica da sua alegada apologia do arcaizamento da escrita contemporânea ou pós-moderna. O crítico inglês diz que defender isso seria um total absurdo, porque apesar das realidades envolventes diferentes, hoje mais mediática e informacional, e das constantes mutações que afectam a arte da escrita, há toda uma ontologia da identidade que atravessa e supera as modas, as tendências e as formas de criação artística, concretamente a Literatura.

Eis uma explicação mais clara, usando para isso a suas próprias palavras:

«A forma e a linguagem da ficção encontram-se em permanente mudança. E o eu pode também estar a mudar. Mas não de forma tão rápida como as representações desse eu. A nossa geração pós-moderna cai frequentemente numa espécie de superioridade histórica ou provincianismo metafísico, já que nos orgulhamos no quão diferente é a nossa subjectividade – menos evidente, mais fracturada, mais consciente de si, etc. – em relação à dos nossos antepassados. Se isto fosse verdadeiro, seríamos incapazes de ler a ficção produzida por esses predecessores. Além disso, há escritores, como Hamsun e Dostoievski, cujas ideias do eu continuam a ser mais radicais do que qualquer coisa engendrada por, digamos, Thomas Pynchon. Nada na ficção contemporânea, nem mesmo as fantasias sádicas de Dennis Cooper ou as destruições sangrentas de Cormac McCarthy, é mais chocante que o momento em que o narrador de Hunger (1890) de Hamsun põe o seu próprio dedo na boca e começa a comê-lo. Não é pós-modernismo, é pós-humano. Beckett pediu claramente de empréstimo esta cena a Hamsun, quando Molloy come as suas pedras. E, claro, Beckett é um bom exemplo de escritor cujas forma e linguagem são completamente diferentes dos seus predecessores, mas cuja metafísica do eu seria reconhecível não só por Schopenhauer, mas provavelmente por Tomás de Aquino. (Poderão chamar a Beckett o último dos realistas.)» (pp. 135-136)
James Wood, “A Reply to the Editors”, n+1, n. 3, Fall 2005, pp. 129-139 [tradução: AMC]

O que hoje há, seguramente, de diferente em relação a épocas mais remotas é a possibilidade de perpetuação mediática de pós-humano referido por Wood, através de novas formas de representação artística, que ultrapassam a simples mimese, confundida amiúde com literalismo, a representação da beleza – conceito indissociável aos fundamentos da arte –, para entrar no domínio da repetição, do choque gratuito, em suma, da dita pornografia pseudo-artística.
O choque faz despertar sensações, retira-nos do torpor da indiferença. Porém, a sua reiteração faz desviar-nos do objecto de criação artística para um estado de catarse convulsiva, onde náusea passa à condição de reflexo condicionado sempre que as campainhas anunciam a chegada do seu criador.

O tal devaneio ridley-scottiano, levam-me já a vislumbrar uma sucessão inimaginável de cabeças cortadas e de escalpes arrancados. Começo a salivar… vem aí a náusea.

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

A Verdade

Morreu aos 89 anos, aquele que pela verdade viu ser-lhe retirada por decreto a sua amada nacionalidade e foi obrigado ao exílio em 1974 por ter aceitado receber o Prémio Nobel da Literatura, atribuído em 1970 pela Academia Sueca – regressou à Rússia em 1994.
Acusado por muitos de anti-semitismo e de um desmedido fervor religioso Ortodoxo, ninguém lhe retira o mérito das suas denúncias de opressão de um regime totalitário e de haver escrito O Arquipélago de Gulag, o seu magnum opus. Escrita entre 1958 e 1968, a obra circulou clandestinamente pela União Soviética até ser publicada pela primeira vez no ocidente em 1973, pondo a nu a brutalidade e perversidade do regime comunista soviético entre 1918 e 1956, condenando milhões aos campos de trabalhos forçados designados pelo acrónimo Gulag (transliterado em Glavnoye Upravleniye Ispravitelno-trudovykh Lagerey – Administração dos Campos de Trabalho ou de Reeducação).

Aleksandr Solzhenitsyn

Aleksandr Solzhenitsyn
(Kislovodsk, 11 de Dezembro de 1918 – Moscovo, 3 de Agosto de 2008)

«Os provérbios acerca da verdade são muito apreciados em russo. Eles dão uma expressão firme e por vezes surpreendente da não negligenciável dura experiência nacional:
UMA PALAVRA DE VERDADE DEVE PREVALECER SOBRE O MUNDO INTEIRO.
E é aqui, num imaginário de fantasia, uma violação do princípio da conservação da massa e da energia, em que eu fundamento tanto a minha actividade, como o meu apelo a todos os escritores do mundo inteiro.
»

Aleksandr Solzhenitsyn, parte da habitual prelecção Nobel entregue à Academia Sueca, que não chegou a ocorrer devido a impedimento das autoridades soviéticas e por alguns pruridos da Academia em entregar o prémio na embaixada sueca em Moscovo.

O erro de Salinger

Chapman (Jared Leto) enfrentando a sua imagem no espelho no filme «Capítulo 27»
Estupidamente, depois de ter visto o filme e sem haver lido qualquer análise crítica sobre o filme intitulado Capítulo 27, procuro na minha biblioteca a nova tradução da obra-prima de Salinger que li há uns anos, À Espera no Centeio – a versão anterior, a da editora Livros do Brasil, chamava-se de forma esdrúxula Uma Agulha em Palheiro. Procuro nele o significado do tal capítulo que serve de leitmotiv ao filme, e a sensação do cometimento de uma burrice ainda maior apodera-se de mim com maior acuidade: 27, qual 27?
É com as palavras que se reproduzem a seguir que termina o famoso livro do relato da inocência perdida de um tal Holden Caulfield:

«É esquisito. Nunca contem nada a ninguém. Se contam, acabam por ter saudades de toda a gente.»
J.D. Salinger, À Espera no Centeio, pág. 226.
E assim termina o capítulo 26 do bestseller escrito pelo clandestino (por opção) escritor norte-americano Jerome David Salinger (n. 1919), que narra, na primeira pessoa, a história do jovem de dezasseis anos Holden Caulfield que, após expulsão da escola, aproveita as férias do Natal para escapar das garras parentais e passar três dias sozinho de intensa descoberta em Nova Iorque.
Salinger, antes de se dedicar à família Glass e aos seus pequenos prodígios ocidentalizados proto-tântricos, criou um dos personagens mais populares da história da literatura: um jovem que, provavelmente, no divã do seu psicanalista conta, um ano depois, o seu descrédito pelo mundo: corrompido e falso, clivado entre os baby-boomers e os adolescentes que, de forma metafórica, são atiradas por essa indiferença generalizada de um penhasco antecedido de um campo de centeio onde o avanço do cereal não permite o vislumbre dos jovens que nele se precipitam. Caulfield propõe-se a ser o “apanhador” dessa massa que resvala pelo campo e termina, ironicamente, como alguém que, perante a sordícia testemunhada, necessita de salvação. Nada mais a acrescentar.
Qual foi, então, o erro de Salinger? Trata-se do erro comum a todos os escritores: escrever ficção, que determinados psicóticos interpretam de forma messiânica, justiceira e apocalíptica, instrumentalizando a palavra escrita de outrem para, através da violência, alcançar a fama nas suas vidinhas enfadonhas. Por princípio, mas essencialmente, por pudor e honestidade intelectual, estas vidinhas deveriam no momento seguinte ao cometimento da barbárie – seja ela de que natureza for – voltar para o atroz e insuportável anonimato, condição cujas cabeças doentes, pervertidas e atormentadas dos perpetradores não conseguem aguentar. Mas, o voyeurismo da sociedade contemporânea jamais o permitiria. Logo, há que pôr a trabalhar a máquina de fazer milhões, e saciar a sede necrófila e sanguinária de uma massa tão banal como anónima. Todavia, a máquina falha, e muitas vezes devido a um erro na aquisição de uma simples peça que completa a engrenagem. Deixa de funcionar, ou funciona mal, virando-se o feitiço contra o cúpido feiticeiro.

A 8 de Dezembro de 1980, um inadaptado social chamado Mark David Chapman, no portão principal do edifício Dakota em Nova Iorque, onde John Lennon e Yoko Ono tinham um apartamento, consegue à saída do eminente ex-Beatles um autógrafo no disco Double Fantasy. No regresso ao Dakota, Chapman mata Lennon pelas costas, debaixo da mesma arcada do portão principal do edifício, com cinco tiros revólver – uma das balas foi a fatal, seccionou a aorta do cantor.
Chapman, para além do disco autografado e da arma do crime, trazia consigo um exemplar de À Espera no Centeio, e disse em entrevistas posteriores que se sentia maioritariamente como Holden Caulfield, procurando trazer justiça ao mundo – aquele que espera num campo de centeio e impede que os jovens se precipitem no penhasco da vida.

O filme Capítulo 27 – O Assassinato de John Lennon (Chapter 27, 2007), primeiro filme escrito e realizado pelo desconhecido germano-americano, cujo apelido encerra uma estranha coincidência*, Jarrett Schaefer (ou J.P. Schaefer, n. 1979), retrata os dias de insanidade de Chapman, interpretado por um irreconhecível Jared Leto, que engordou cerca de 30 quilos para poder desempenhar o papel – e que já o levou a confessar-se como arrependido, afirmando que jamais repetirá tal façanha.
O filme é igual a zero. Sem chama, sem ritmo, sem conteúdo, retrata o assassino sob a perspectiva do livro de base de Jack Jones Let Me Take You Down de 1992, correcta e impiedosamente massacrado pela crítica literária da altura, que se inspirou em entrevistas com o assassino e lhe dá uma configuração arrojada de propósito justificado pela cabeça de Chapman.
No ecrã aparecem sucessivas transcrições dos pensamentos – se é que lhe poderemos chamar pensamentos num sentido mais erudito do termo – a letras de fogo do assassino, misturadas com passagens do romance de Salinger.
Uma entrevista dada pelo casal Lennon/Ono funciona como catalisador, para um homem que se julga investido de um poder redentor de um personagem de ficção (no argumento):

«Li o artigo sobre o John Lennon. Ele dizia que apenas comia sushi e sashimi, e barras de chocolate com amêndoas “Hershey”. E que só fumava cigarros franceses. Quando lhe perguntaram se os Beatles alguma vez se voltariam a juntar, ele disse que lá porque um monte de idiotas perdeu a oportunidade na primeira vez, ele não teria de ser novamente crucificado. Não teria de voltar a caminhar sobre as águas. Ele disse que não teria de voltar a indicar o caminho às multidões.

«Ele, na realidade, disse isso tudo. E olhem para ele a viver a sua vida sumptuosa. Imaginem-no sem o seu património. O canalha tem milhões: iates, quintas, terrenos e sabe-se lá o que mais? Ele voltou as costas a toda a gente. Esta é para mim uma terrível confirmação.» [tradução: AMC]

O auge da risibilidade no filme – a medir forças com a cena a la Taxi Driver retratada na imagem acima – dá-se quando Chapman faz uma terrível associação, para cultivar o seu estribilho celerado de phoniness realçado por Caulfield. Num diálogo com Jude (papel interpretado pela actriz mal-amada em Hollywood Lindsay Lohan) Chapman fica a saber que naquele mesmo edifício foi rodado o icónico filme de terror A Semente do Diabo (Rosemary's Baby, 1968) de Roman Polanski. Chapman faz a associação entre o filme, o edifício onde germina o diabo, e a vida particular de Polanski, no que se refere ao trágico episódio do assassinato, em 1969, da sua jovem mulher Sharon Tate, grávida no fim de gestação, às mãos dos sequazes do demoníaco psicopata Charles Manson. Manson e as suas visões apocalípticas do fim do mundo a que chamou Helter Skelter, que se baseou no título de uma canção dos Beatles gravada em 1968 para o duplo álbum do mesmo ano The White Album, que por acaso foi integralmente escrita por Paul McCartney, sem qualquer participação de Lennon. O horrível diálogo que consta do argumento é o que se segue, contudo o desastre só é inteiramente assimilável vendo a histriónica interpretação de Leto no diálogo com Lohan:

«– Espera… esse é o tipo a quem Charles Manson matou a mulher. Certo?
– Sharon Tate.
– Pois, ela estava grávida.
– E bonita.
– “Helter Skelter”. O John Lennon vive num edifício onde foi rodado um filme sobre a vinda de Satanás à Terra de um realizador cuja mulher e o filho foram assassinados devido a uma canção do John Lennon. Oh Meu Deus, isto não é uma coincidência. Hoje é o dia. Hoje é o dia.
– É uma maneira de ver as coisas.
– Não há coincidências.**
» [tradução: AMC]
Não há uma única ideia aproveitável, uma técnica narrativa e fílmica inovadoras, um fio condutor da história para além do que se conhece do trágico incidente, nem sequer uma esperada interpretação de encher o olho por Leto – a não ser pela desmesura corporal do actor. Apenas diálogos primários e espúrios, circunlóquios estafados, uma cadência de planos repetitiva e cansativa.

Se no ano passado tive algumas dúvidas em atribuir a classificação de “pior filme do ano” a Ao Anoitecer (Evening, 2007) do realizador húngaro Lajos Koltai, com argumento de Michael Cunningham, baseado num romance de Susan Minot ou a Peões em Jogo (Lions for Lambs, 2007) realizado e protagonizado por Robert Redford (acabou por vencer o primeiro); este ano, ainda no início de Agosto, não vislumbro qualquer hipótese de salvação para esta sequência de imagens inanes a que alguns ousam chamar de filme, cinema, arte.

«Não estava para começar uma discussão. “OK – disse eu. E então de repente lembrei-me de uma coisa. – Oiça – disse eu. – Está a ver os patos naquela lagoa mesmo junto ao Central Park South? Um laguinho pequeno? Por acaso faz ideia para onde vão eles, os patos, quando aquilo fica gelado? Faz ideia, por acaso?” – Sabia bem que havia uma hipótese num milhão.»
J.D. Salinger, À Espera no Centeio, pág. 71.
Notas:
*A 18 de Julho de 1989 a jovem actriz norte-americana Rebecca Schaeffer (1967-1989) era assassinada a tiro no seu apartamento em Hollywood por um perseguidor e assediador chamado Robert John Bardo; ele, tal como Chapman, trazia consigo um exemplar de À Espera no Centeio de Salinger no momento do homicídio. Não há coincidências! Os apelidos da actriz e do realizador do slapstick, diferem apenas num “f” – ah, as liberdades poéticas que isso não me permitiria…

**Já o dizia MRP®, figura de proa do último número da
revista Ler, entrevistada por Carlos Vaz Marques (e que bem lhe fez incluí-la no seu pobre currículo). E, não fosse o filho de Rosemary tecê-las, a celebrada “escritora” foi também merecedora de entrevista pela rival Os Meus Livros.

Referência bibliográfica:
J.D. Salinger, À Espera no Centeio. Algés: Difel, Janeiro de 2005, 226 pp. (tradução de José Lima; obra original: The Catcher in the Rye, 1951).

quinta-feira, 31 de julho de 2008

Lesbiandades

Imagem de satélite: Ilha de Lesbos - Grécia
Como já referi, nos imensos textos que, para vosso fastio – porque se sentem impelidos a lê-los, mesmo que não vos apeteça –, venho publicando, há muito que abandonei a leitura exaustiva de um ou vários jornais nacionais generalistas, por diversas razões que não vêm agora ao caso. Vou-me mantendo actualizado como posso, sem dramas, numa criteriosa selecção dos temas que deverão multiplicar o volume normal das minhas sinapses.
Encontrava-me numa dessas leituras (neste caso atrasada, constava da pilha “a ler”), quando li que na Grécia a famosa ilha de Lesbos passou a ser um bico-de-obra – e nestas situações todo o cuidado com a língua é pouco – para as associações de gays e lésbicas.
Num processo movido por um conjunto de pessoas nascidas na dita ilha contra a OLKE, a organização representativa da comunidade gay e lésbica da Grécia, pretende-se banir do significado de lesbiano/a – no caso português é mais frequente utilizar-se o género feminino da palavra, apesar da existência do masculino com uma conotação diferente, privilegiando-se o critério da tolerância no campo da semântica – a afeição e o amor recíprocos entre mulheres, para passar a designar apenas os habitantes ou nativos da dita ilha.
A notícia é da Harper’s de Julho que traduziu a pretensão dos requerentes da acção judicial, agora traduzida por mim:

«Somos oriundos da ilha de Lesbos, onde nascemos e fomos educados, tal como os nossos progenitores directos e os nossos mais distantes antepassados, e temos orgulho da nossa herança. A nossa designação cultural [gentílico] apresenta-se como “Lesbiano/a”, tal como “Ateniense” se refere a indivíduos oriundos de Atenas. Assim, “Lesbiano/a” refere-se a cem mil habitantes da ilha e a outros duzentos e cinquenta mil cujas famílias provêm de Lesbos mas que residem noutro lugar. O termo Lesbiano/a é usado na língua grega desde tempos remotos. Encontramo-lo na Ilíada e na Odisseia; podemos, de igual modo, encontrá-lo no período bizantino e durante a ocupação otomana. Mas nas últimas décadas, o termo tem vindo a ser usado pela OLKE e por outras associações de mulheres com determinadas particularidades e excentricidades, embora os seus membros não disponham de alguma ligação com Lesbos. A sua justificação para esta designação arbitrária – que invoca a poetisa Safo, que nasceu na nossa ilha – não pode servir de álibi, já que está provado que Safo tinha meramente relações espirituais com as suas estudantes, e não as relações homossexuais que lhe foram atribuídas. Esta perversão pública cria-nos um problema de comunicação do nosso legado, forçando-nos a evitar o uso de palavras cujo significado foi mal compreendido. O uso deste termo por organizações de homossexuais constitui uma afronta à nossa dignidade, uma vez que a palavra lesbiano/a classifica um desvio da natureza. Nós exigimos que o uso da palavra lesbiano/a na denominação da OLKE seja proibido; que lesbiano seja removido de todos os títulos da organização e de qualquer tipo de contrato, jornal, periódico ou outro documento; e que os membros da organização sejam ameaçados com penas de prisão de um ano e de multa se se recusarem ao seu cumprimento.»
«Dare not speak our name», Harper’s, July 2008, p. 29 [tradução: AMC]
Sinceramente, não sei – talvez porque não leio jornais – se a ILGA internacional e a nacional já se manifestaram, na medida em que correm o sério risco de verem o seu feliz e colorido acrónimo transformado numa alternativa deveras mais penetrante, vibrante e arrepiante – portuguesmente falando, é claro – a ISGA (International Sapphic and Gay Association), já que, neste caso, os lésbicos ou lesbianos decerto não se importariam com as possíveis deturpações das práticas meramente espirituais da vetusta senhora que viveu entre os séculos VII e VI a.C. – não deixou descendência cujos laços se prolongassem por cerca de 2800 anos...

Mas se a moda pega, o que dirão então os habitantes de terras como Picha, Coina, os naturais da ambígua Lambedoiro (também dada a «desvios da natureza»), da incrivelmente masoquista Venda da Gaita e da potencialmente sádica Dafundo?

Já que por aqui enveredei, resvalando para a boçalidade, proponho já agora que se altere o nome da massa que se usa nos famosos e deliciosos pastéis de Chaves, para massa “Mil Folhas” à espanhola, porque a sua pronúncia soa aos nossos maiores compradores estrangeiros como “massa fodida” e é capaz de arruinar o negócio de qualquer um. E depois… depois, expliquem-lhes o que é uma “espanholada” e talvez estes se associem num ápice aos orgulhosos lesbianos num manifesto do género, embora mais globalizante e fálico.

P.S. – Tenham lá paciência e atentai na sua topografia… da ilha, claro. Como chamarão as lesbianas e os lesbianos (veia guterrista) àquelas duas baías? Por favor, consultar, por muito menos de 63 mil euros, os manos Beverly e Elliot Mantle, os maiores especialistas do mundo no assunto...

quarta-feira, 30 de julho de 2008

O anti-melodrama

François Ozon

Tem sido um osso fílmico duro de roer, um soco no estômago cinematográfico que ainda faz repercutir as suas ondas de choque sobre a minha alma, uma traição em forma de filme cujo sabor amargo ainda perdura na minha boca, um… Chega!
O melodrama barato – a existir o caro… –, algo que nunca esteve presente nas anteriores longas-metragens realizadas pelo, provavelmente®1, melhor realizador francês da actualidade, nascido em Paris há menos de 41 anos (na imagem com um ar sério e não melodramático antes de proferir que a campónia e untuosa Romola Garai era a sua musa).
Como é possível ter-se por musa uma Romola?

Antes de descobrir a fonte de inspiração etérea, François Ozon havia realizado esta excepcional sequência de filmes:

  • Gotas de água sobre pedras escaldantes (Gouttes d’eau sur pierres brûlantes, 2000)2;
  • Sob a areia (Sous le sable, 2000);
  • 8 Mulheres (8 femmes, 2002);
  • Swimming Pool (2003);
  • Cinco vezes dois (5x2, 2004);
  • O tempo que resta (Le temps qui reste, 2005)

No admirável Sob a areia, Ozon demonstra toda a sua arte anti-climáctica, que antes poderia haver traduzido pelo horror ao melodrama.
Ozon cria o ambiente soturno de uma rotina conjugal e estraçalha o interior de uma mulher, Marie (soberbamente interpretada por Charlotte Rampling), que alheada da dor surda e da infelicidade estampada no rosto do marido (Bruno Cremer) quando chegam à sua casa de férias na estância de Landes, o vê partir no dia seguinte na praia quando este lhe disse que ia tomar um banho de mar. Apesar das buscas exaustivas, o corpo não aparece, uma série de incógnitas são levantadas (fuga, suicídio, morte acidental) e poderiam ter sido exploradas por Ozon para encetar um dramalhão de choro ininterrupto, dentro e fora do ecrã (neste último caso com um sério aviso para a eventual necessidade de uso do escafandro).
Marie parte para Paris, alheando-se da ausência do marido, falando dele no presente, compartilhando o leito com um homem num assumido adultério. Assiste-se ao desmoronar interior de um personagem, sem uma lágrima, apenas com gestos, reflexões e actos aparentemente demenciais de quem não aceita o que vê, mas apenas o que sente. Jean não está morto. A confrontação com a sogra. A morgue... a alienação.

Escrito em conjunto com três mulheres argumentistas (Emmanuèle Bernheim, Marina de Van e Marcia Romano), o momento da definição ocorre em Paris, na sala de aula da universidade onde Marie ensina Literatura Inglesa; Marie lê Virginia Woolf em voz alta, As Ondas, num momento da narrativa que se situa pouco após a morte do espectral Percival, na hora da confrontação da verdade poética com a realidade dos vários "eus" de Bernard:

«E o tempo, disse Bernard, esgota-se. A gota forma-se no telhado da nossa alma e depois cai. É o tempo que a faz cair. Na semana passada, quando me barbeava, a gota caiu. Estava de pé com a navalha de barbear na mão e de repente tomei consciência da natureza habitual desse meu gesto (a gota formando-se) e felicitei ironicamente as minhas mãos por se submeterem a esta rotina. “Barbeiem, barbeiem”, disse. Continuem a barbear. A gota caiu. Durante o dia, enquanto trabalhava, o meu pensamento escapou constantemente dirigindo-se a um lugar vazio em busca de qualquer coisa perdida, de qualquer coisa que acabara. «Morto e enterrado», murmurei consolando-me com as palavras. As pessoas repararam no meu ar ausente e na inconsequência das minhas frases. E enquanto abotoava o sobretudo para regressar a casa disse mais tragicamente: “Perdi a minha juventude.”»
Virginia Woolf, As Ondas, pág. 148
[Lisboa: Relógio D’Água, 1988, 239 pp; tradução de Francisco Vale; obra original: The Waves, 1931]

Marie interrompe a leitura nesse ponto da história, o terrível circunlóquio do despertar de Bernard, avista alguém no anfiteatro que ela sabe lhe poderá interromper o devaneio, a fuga que empreendeu para não ter de enfrentar a dor da perda. Interpelada no corredor, responde ao interlocutor, impávida, serena, firme da sua convicção do que é a verdade.
É, seguramente, um dos momentos mais sublimes da cinematografia contemporânea... apenas fica o silêncio da estupefacção...


Notas:

  1. Agradeço à Carlsberg pela utilização do advérbio de modo, que, nestes casos, impede que se ignorem os velhos ainda em actividade (Resnais, Rohmer, Godard, Rivette, Varda, Chabrol,…), os de meia-idade (Garrel, Téchiné, Schroeder, Chéreau,…) e os mais novos (Canet, Noé, Gondry, Carax, Honoré,…).
  2. Já o vi Luís, e agradeço-te a sugestão que colmatou uma das minhas falhas ozónicas (tenho ainda por ver Sitcom e Les amants criminels, para além da esmagadora maioria das curtas).

Porquê François? (em francês dava rima; volto à minha pose melodramática.)