quinta-feira, 19 de junho de 2008

Fincher – Take 7



No próximo Natal, estreia mundial da 7.ª longa-metragem do realizador norte-americano David Fincher (n. 1962).
Filme baseado num conto de F. Scott Fitzgerald (1896-1940):

O estanho caso de Benjamin Button

I

Tão distante no tempo como 1860 o mais correcto era nascer-se em casa. Actualmente, dizem-me, os eminentes deuses da medicina decretaram que o primeiro choro dos nascituros deverá ser articulado num ambiente anestésico de um hospital, de preferência num que esteja na moda. Assim, o jovem casal Roger Button encontrava-se cinquenta anos à frente da moda quando decidiram, num dia de Verão de 1860, que o seu primeiro bebé deveria nascer num hospital. Porém, nunca saberemos se este anacronismo teve alguma influência nesta história admirável que vos irei contar.

Eu apenas irei narrar-vos o ocorrido e deixar-vos-ei julgá-lo por vós mesmos.

Os Roger Buttons dispunham de uma posição invejável, tanto em termos sociais como financeiros, na pré-bélica Baltimore. Eles eram parentes da família Esta e da família Aquela, que, como todos os sulistas sabiam, permitia-lhes pertencer à enorme aristocracia que cobria largamente a Confederação. Esta era a sua primeira experiência com esse costume encantador de ter bebés – o Sr. Button estava naturalmente nervoso. Ele ansiava por um rapaz para que este mais tarde pudesse ser enviado para a Universidade de Yale no Connecticut, onde ele próprio fora durante quatro anos conhecido pela alcunha mais ou menos óbvia de “Cuff*.”

Na manhã de Setembro consagrada ao grande evento, ele acordou nervoso às seis horas, vestiu-se, envergando uma irrepreensível indumentária e embrenhou-se apressadamente pelas ruas de Baltimore que o conduziam ao hospital, na ânsia de avaliar se a escuridão da noite haveria acolhido no seu seio uma vida nova.

Quando chegou a aproximadamente cem metros do Hospital Privado do Maryland para Senhoras e Cavalheiros, ele viu o Dr. Keene, o médico da família, a descer a escadaria da frente, esfregando as suas mãos num movimento típico de ablução – como se todos os médicos tivessem de cumprir este ritual por princípios éticos da sua profissão.

O Sr. Roger Button, o presidente da Roger Button & Cia., todo o tipo de ferragens, desatou a correr em direcção ao Dr. Keene com muito menos dignidade do que a que seria de esperar de um cavalheiro do sul pertencente àquele período pitoresco. «Doutor Keene!» chamou. «Ó Doutor Keene!»

O médico ouviu-o, voltou-se e ficou à espera, tinha posto uma expressão estranha na sua antipática e medicinal cara à medida que Button se ia aproximando.

«O que se passou?» perguntou Button enquanto se acercava do médico numa corrida de perder o fôlego. «Como foi? Como está ela? Um rapaz? Ou…? O que é…»

«Ganhe juízo!» disse de forma veemente o médico, aparentando encontrar-se irritado.

«Já nasceu o bebé?” suplicou Button.

O Dr. Keene franziu o cenho. «Porquê, sim, suponho que sim – dadas as circunstâncias». Fitando, de novo, Button de uma forma estranha.

«A minha mulher está bem?»

«Sim.»

«É menino ou menina?»

«Olhe lá!» gritou Dr. Keene num culminar de perfeita irritação, «eu sugiro-lhe que vá e veja por si próprio. É chocante!» Disse-o, cuspindo a última palavra em quase uma só sílaba e virou-lhe as costas murmurando: «Você imagina o que um caso destes irá fazer à minha reputação profissional? Outro deste género arruinar-me-ia – arruinaria qualquer pessoa.»

«Mas o que se passa?” perguntou Button aterrorizado. «Trigémeos?»

«Não, não são trigémeos!» respondeu o médico de forma cortante. «Sabe o que mais? Pode ir vê-lo pelos seus próprios olhos. E trate de encontrar outro médico. Eu trouxe-o a este mundo, meu rapaz, e fui médico da sua família durante quarenta anos, mas terminei a minha colaboração consigo! Eu nunca mais o quero ver a si ou a algum dos seus parentes! Adeus!»

Voltou-se bruscamente e sem mais uma palavra trepou para o seu cabriolé que o esperava no empedrado, afastando-se daquele local de uma forma brusca.

Button ficou especado no passeio, atónito e a tremer dos pés à cabeça. Que horrível desgraça poderia haver ocorrido? De repente perdeu toda a vontade de entrar no Hospital Privado do Maryland para Senhoras e Cavalheiros – foi então com a maior das dificuldades que, momentos depois, ele se obrigou a subir as escadas exteriores e a entrar pela porta principal.

Na opaca obscuridade da recepção entreviu uma enfermeira sentada atrás de uma secretária. Engolindo a sua vergonha, Button aproximou-se dela.

«Bom dia» proferiu ela, olhando-o de uma forma agradável.

«Bom dia. E-Eu sou o Sr. Button.»

Ao ouvir isto um esgar de absoluto terror abateu-se sobre a face da rapariga. Ela levantou-se e parecia prestes a iniciar um voo pela recepção, aparentando uma extrema dificuldade para se conseguir controlar.

«Quero ver o meu filho» disse Button.

A enfermeira deu um pequeno grito. «Lá em cima. Está lá em cima. Vá… para cima!...»

Ela mostrou a direcção a seguir e Button, ensopado em suores frios, voltou-se de forma vacilante e começou a subir as escadas que davam acesso ao segundo piso. No andar de cima dirigiu-se a outra enfermeira que se aproximou dele, com um bacia na mão. «Eu sou o Sr. Button,» tentou ele articular. «Eu quero ver o meu…»

A bacia caiu no chão com um estrondo e rolou em direcção às escadas. Iniciou uma descida metódica, batendo ruidosamente em cada degrau, como se partilhasse do terror geral que este cavalheiro provocara.

«Eu quero ver o meu filho!» Button quase vociferou. Encontrava-se à beira do colapso.

Com o último estrondo, a bacia alcançou o primeiro piso. A enfermeira recuperou o seu controlo e atirou a Button um vigoroso olhar de desprezo.

«Tudo bem, Sr. Button» concordou ela numa voz sussurrante. «Muito bem!... Mas se você… soubesse… em que estado isto nos pôs a todos esta manhã! É perfeitamente chocante! Depois disto… o hospital jamais voltará a recuperar um mínimo da sua anterior reputação.»

«Despache-se!» gritou ele numa voz rouca. «Não suporto esta coisa!»

«Venha então por aqui, Sr. Button.»

Ele arrastou-se atrás dela. No fundo de um longo corredor chegaram a um quarto de onde emanava uma variedade de choros – de facto, um quarto em que, por conversas posteriores, passaria a ser conhecido como o “quarto do pranto”. Eles entraram.

«Bem,» arquejou Button, «qual é o meu?»

«Ali!» disse a enfermeira.

Os olhos de Button seguiram o dedo indicador da enfermeira e isto foi o que ele viu: embrulhado num enorme cobertor branco, e parcialmente constrangido num dos berços, ali se sentava um velho aparentando ter uma idade à volta dos setenta anos. O seu cabelo ralo era quase branco e do seu queixo caía uma longa barba cor de fumo, que abanava absurdamente para a frente e para trás, movida pela brisa que vinha da janela. Ele olhou para Button com uns olhos baços e esmorecidos onde se escondia uma pergunta confusa.

«Estarei louco?» atroou Button, enquanto o seu terror se ia transformando em raiva. «Será isto tudo uma terrível partida de hospital?»

«Isto, para nós, não se parece nada com uma partida» retorquiu a enfermeira de forma severa. «E nada sei sobre se está doido ou não – mas este é de certeza o seu filho.»

Os suores frios redobraram na testa de Button. Ele fechou os olhos e depois, abrindo-os, olhou de novo. Não havia engano nenhum – ele estava a olhar para um homem com três vintenas e meia de anos de idade – um… bebé… com três vintenas e meia… um bebé cujos pés estavam pendurados do lado de fora do berço em que repousava.

Por uns momentos, o velho olhou placidamente para um e para outro e, de repente, falou numa voz estilhaçada e envelhecida. «Você é o meu pai?» perguntou.

Button e a enfermeira agitaram-se de uma forma violenta.

«Porque se o for» prosseguiu o velho queixando-se enfaticamente, «eu pretendo que me retire deste lugar – ou, pelo menos, que os obrigue a darem-me um berço mais confortável.»

«Em nome de Deus, de onde veio? Quem é o senhor?» clamou Button freneticamente.

«Não lhe posso dizer… de forma exacta… quem sou eu» replicou o chorão impertinente, «porque apenas nasci há umas horas – mas o meu último nome é certamente Button.»

«O senhor está a mentir! O senhor é um impostor!»

O velho virou-se, pacientemente, para a enfermeira. «Que maneira engraçada de dar as boas-vindas a um recém-nascido» queixou-se numa voz fraca. «Diga-lhe que ele está enganado, porque não o diz?»

«Está enganado, Sr. Buttton,» disse a enfermeira de forma severa. «Este é o seu filho e terá de se esforçar o melhor que puder. É que nós iremos pedir-lhe que o leve para casa consigo o mais cedo possível, algures durante este dia.»

«Casa?» repetiu incredulamente Button.

«Sim, nós não o podemos ter aqui. Não podemos mesmo, o senhor sabe?»

«Fico muito contente por isso,» queixou-se o velho. «Este não é um bom local para manter um miúdo de gostos sóbrios. Com toda esta gritaria e choradeira, eu não pude dormir absolutamente nada. Pedi alguma coisa para comer» – aqui a sua voz subiu para um tom estridente de protesto – «e eles trouxeram-me um biberão de leite!»

Button afundou-se numa cadeira que estava próxima do seu filho e tapou a cara com as mãos. «Meu Deus!» murmurou num êxtase de horror. «O que irão as pessoas dizer? O que terei de fazer?»

«Tem de o levar para casa» insistiu a enfermeira – «imediatamente!»

Aos olhos do homem torturado formou-se com uma terrível clareza uma imagem grotesca – o retrato dele próprio caminhando pelas ruas apinhadas da cidade com esta horrenda aparição a seu lado a acossá-lo.

«Não posso. Não posso» murmurou.

Pessoas parariam para lhe falar e o que é que ele iria dizer? Teria de apresentar isto – este septuagenário: «Este é o meu filho, nascido bem cedo nesta madrugada.» A seguir o velho enrolar-se-ia no seu cobertor e eles caminhariam a passo pesado, passando pelas lojas apinhadas, pelo mercado de escravos – por um instante obscuro Button desejou que o seu filho fosse negro – passando pelas casas luxuosas da zona residencial, pelo lar de idosos…

«Ande lá! Mexa-se sozinho» ordenou a enfermeira.

«Vê isto» anunciou de súbito o velho, «se você julga que eu vou para casa neste cobertor, está inteiramente enganada.»

«Os bebés têm sempre cobertores.»

Com um estalido malicioso o velho exibiu uns cueiros pequenos e brancos. «Veja!» tremia-lhe a voz. «Isto… foi aquilo que eles me arranjaram.»

«Os bebés usam sempre isso» disse a enfermeira de forma afectada.

«Bem» disse o velho, «este bebé dentro de dois minutos não vai é usar nada. Este cobertor pica-me. Eles podiam, pelo menos, ter-me dado um lençol.»

«Deixe-o estar! Mantenha-se coberto!» disse apressadamente Button. E voltando-se para a enfermeira perguntou-lhe: «Que poderei fazer?»

«Vá à cidade e compre algumas roupas para o seu filho.»

A voz do filho de Button perseguiu-o até lá baixo à recepção: «E uma bengala, pai. Eu quero ter uma bengala.»

Ao sair, Button bateu violentamente com a porta exterior…

[…]

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1.º capítulo do conto “The Curious Case of Benjamin Button” (1922), de F. Scott Fitzgerald, integrado no mesmo ano na colectânea de contos Tales of the Jazz Age [tradução livre: AMC, 2008]

Nota: *a alcunha aposta a Button de «Cuff» pelos seus colegas da famosa Universidade de Yale (Estado do Connecticut, situado no Norte, na denominada Nova Inglaterra) deriva, certamente, do significado do seu apelido, “Button” significa “botão” e “cuff” significa punho de camisa, de onde “cufflinks” são os tradicionais botões de punho usados pelas classes altas. Mas esta alcunha também poderá ser entendida, à luz da época histórica em que decorre a acção do conto – na vizinhança da Guerra da Secessão ou da Guerra Civil Americana, que teria o seu início menos de um ano depois, em Abril de 1861, apenas terminando em Abril 1865 – e considerando o protagonista como um “sulista” – aliás, como resulta do próprio texto – filho do Estado do Maryland – embora, em rigor, este Estado não fosse considerado um dos secessionistas, a esmagadora maioria da população juntou-se ao exército dos confederados. Assim, a expressão “cuff”, com o seu vasto campo semântico, poderia designar as grilhetas com que os proprietários sulistas amarravam os seus escravos.

segunda-feira, 16 de junho de 2008

“Não tenho pensado noutra coisa nestes últimos dias”

Palavras proferidas por Sócrates no passado dia 12 de Junho perante a Assembleia da República (ver vídeo).
Coisa: Referendo na República da Irlanda sobre a ratificação do Tratado de Lisboa (a.k.a. porreiro-pá treaty)
Um país a ferro e fogo. Cidades barricadas por camionistas. Prateleiras de hipermercados exauridas de bens de primeira necessidade. Agricultores angustiados e endividados até à raiz dos cabelos. Frota pesqueira parada. Nível de desemprego alto e estável. Desaparecimento progressivo da classe média, talvez agarrada à promessa futura do estrelato em programas de antropologia cultural do National Geographic. País que diverge. Estado da União Europeia com maiores desigualdades sociais. Corrupção institucionalizada e endémica, que se alastra vorazmente a toda a sociedade, a todos os sectores da actividade económica, perante um sistema de justiça quase complacente, pela demora, pela confecção da lei por medida, com a grande criminalidade de colarinho branco…
São palavras gastas. Perderam, pelo uso, todo o seu significado angustiante. Para quê repeti-las?

Há umas semanas, o Pedro Correia pediu a um conjunto de bloggers para que cada um escrevesse um texto sobre qualquer tema ou assunto à escolha para mais tarde o poder publicar no seu blogue
Corta-Fitas. Fui, imerecidamente, contemplado pelo pedido. Escrevi-o, num dia em que a fúria da minha triste e opressiva condição lusa me saía pelos poros. O Pedro publicou-o no dia 8 de Junho, e eu, correndo o risco de abusar da sua confiança, republico-o, sem lhe dar cavaco ou (aviso: as palavras que se seguem deveriam surgir no texto unidas por hífen, mas por razões estéticas e de formatação, optou-se por se lhe dar o devido descanso, substituindo-o por umas agradáveis aspas) “homem do dia da raça que se abstém de alertar os governantes e de falar sobre um país que de dia para dia vai imergindo num viscoso atoleiro sem qualquer hipótese de salvamento”.
Eis o texto:
Alheamento do Inferno

Já não ouvem e nem se fazem ouvir. Dezasseis criaturas aprisionadas a um discurso de um só líder. Magnânimo mas irritadiço, democrata impiedoso, munido da sua aura mágica de mestre de indução do êxtase político; ele garante-lhes a sublime perfeição do rumo por que vão enveredando. Seguem às cegas – já não precisam de ver –, sem bússola ou outros instrumentos de navegação. A tecnologia provém da inesgotável fonte da sua sabedoria. Estamos no bom caminho, ele diz-lhes para dizerem, porque ele também diz e anuncia, cria e inaugura, promete e já não se preocupa com a sua realização – já não necessitam de resultados palpáveis, basta a promessa de cumprimento de um conjunto de promessas e uma poderosa máquina de perpetuação da sensação do dever cumprido. Alguém lhe disse que uma boa mente, permeável, alimentada de sonhos e de quimeras é o sustento necessário e suficiente do corpo, porque a alma de cada corpo, sugada e mortificada, partiu há muito, envergonhada. Espectáculo indecente, grotesco, de mortos-vivos vencidos pela acédia.
Empreender, crescendo na imponderabilidade.
À volta do timoneiro e dos seus dezasseis seguidores, foi-se formando uma leve, translúcida e hermética película, que medida após medida, diapositivo após diapositivo – ou slide como por lá chamam os criadores de tecnologia –, soltou amarras rumo ao firmamento. Ambiente ionizado, (ele prometeu-lhes) onde moram os grandes decisores, imersos no éter do serviço desempenhado com notável orgulho em favor da humanidade. Vivem do insípido néctar sagrado que nasce a jorros por cada nova ideia: já não necessitam do palato. Julgam-se gordos no revérbero da sua eminência. Todavia, elegantes fiando-se na teoria da imagem virtual reflectida pela concavidade das paredes espelhadas do seu habitat em forma de bolha. Lá em cima, vogando no espaço, já não sentem o cheiro da miséria que se vai decompondo em mais miséria. (Enchem-se de esperança – talvez se transforme em húmus, terra fértil, como um seguro para quando um dia para cá voltarem). E, embora não confiando na desprezível fé divina do Homem – foram orgulhosamente descontaminados por um processo de escrupulosa descrença –, sabem… haverá Aquele (quem?) que pela Sua força (qual?) os poderá fazer cair como anjos em desgraça. Sem juízes ou promotores de justiça, sem espiões ou corpo policial, sem banqueiros, autarcas, cobradores ou criados burocratas.
Pura distracção. Estiveram sempre nas cercanias da famigerada porta.
Ignorantes…
E então, sem ouvir, ver, palpar, saborear ou cheirar… não, não sentem, e as emoções por lá rareiam, mas recordam-se daqueles nove versos que terminam com uma sentença aterradora (Lasciate ogne speranza, voi ch’intrate):

Por mim vai-se à cidade que é dolente,
  por mim se vai até à eterna dor,
  por mim se vai entre a perdida gente.
Moveu justiça o meu supremo autor:
  divina potestade fez-me e tais
  a suma sapiência, o primo amor.
Antes de mim não houve cousas mais
  do que as eternas e eu eterna duro.
  Deixai toda a esperança, vós que entrais.

Porreiro, pá!*

Referência: Dante Alighieri, A Divina Comédia (I Inferno: Canto III: v. 1-9). Venda Nova: Bertrand, 5.ª edição, Dezembro de 2000, pág. 47; tradução de Vasco Graça Moura; obra original: (La Divina) Commedia, 1307-1321.

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*[acrescentado]: Agora há que encontrar meios de ostracizar o “tigre europeu”, colocando-o à margem dos restantes 26 – os apavorados ratificadores parlamentares. Gordon Brown já espuma de júbilo voraginoso pela punição a dar a esses infames católicos.
Como é que se diz “porreiro, pá” em gaélico?

domingo, 15 de junho de 2008

Padre António Vieira: 400 anos depois [pub]

(carregar na imagem para a ampliar)

De Niro’s Game

«Dez mil bombas caíram e eu esperava por George.
Dez mil bombas caíram em Beirute, essa cidade atafulhada de gente, e eu estava estendido num sofá azul coberto por lençóis brancos para o proteger da poeira e dos pés sujos.
Chegou a altura de partir, pensava eu. O rádio da minha mãe estava ligado. Esteve sempre ligado desde o início da guerra, um rádio com pilhas Rayovac que duravam dez mil anos. O rádio da minha mãe estava coberto por uma protecção barata de plástico verde com buracos, manchada de restos dos seus dedos de cozinheira e de pó que penetrara nos seus botões, cravado nos bordos. Nada jamais conseguira pôr fim àquelas canções melancólicas de Fairuz que dele saíam.
Eu não estava a escapar da guerra; eu fugia de Fairuz, a famigerada cantora.
O Verão e o calor haviam chegado; a terra ardia debaixo de um sol abrasador que cozia o nosso apartamento e o seu telhado. Mesmo abaixo da nossa janela branca, gatos cristãos caminhavam ao acaso nas ruas estreitas, nunca se persignando ou ajoelhando perante padres vestidos de negro. Carros estacionados em ambos os lados da rua, carros que galgavam os passeios, obstruíam a passagem aos peões, exaustos e sufocados, cujos pés, cansados, e caras, longas, amaldiçoavam e culpavam a América a cada passo dado e a cada estremecimento das suas vidas miseráveis.
O calor descia, as bombas caíam e rufiões transpunham as longas filas para o pão, roubavam a comida da semana, intimidavam o padeiro e acariciavam a sua filha. Os rufiões nunca esperavam em filas.
O George buzinou.
Os fumos negros e agonizantes da sua mota alcançaram a minha janela e o seu barulho estridente entrou pelo meu quarto. Desci as escadas e amaldiçoei Fairuz à saída: aquela cantora lamurienta que faz da minha vida um inferno.
A minha mãe desceu do telhado com dois baldes nas suas mãos; ela estava a roubar água do reservatório do vizinho.
Não há água, disse-me ela. Ela só chega duas horas por dia.
Ela disse qualquer coisa acerca de comida, como é hábito, mas eu acenei e corri pelas escadas abaixo.
Instalei-me na mota do George, sentei-me atrás dele e guiámos pelas principais ruas onde as bombas caíram, onde uma vez diplomatas sauditas se enredaram com prostitutas francesas, onde os antigos gregos dançaram, os romanos invadiram, os persas afiaram as suas espadas, os mamelucos roubaram o alimento aos aldeãos, os cruzados comeram carne humana e os turcos escravizaram a minha avó.
A guerra é para rufiões. As motos também são para rufiões e para adolescentes de cabelo comprido como nós, com armas sob as nossas barrigas, gasolina roubada nos nossos depósitos e sem algum lugar especial para onde ir. Parámos junto à marginal da cidade, no acesso a uma ponte, e o George disse-me, eu tenho um
mashkal (problema).»


Excerto do 1.º capítulo de De Niro's Game, o primeiro romance do autor canadiano-libanês Rawi Hage: nascido 1964 em Beirute, no Líbano, enfrentou os primeiros anos da guerra civil libanesa, iniciada em 1975; emigrou em 1982 para os Estados Unidos, onde dá os primeiros passos na sua carreira de fotógrafo; em 1991 instala-se definitivamente no Canadá, licenciando-se em "artes visuais" dando seguimento à sua veia artística na fotografia, contando já com inúmeras exposições no seu currículo. Hage acabou de arrecadar os 100.000 euros do
IMPAC 2008, como já aqui havia dado conta.
[Tradução livre: AMC, 2008]

sexta-feira, 13 de junho de 2008

IMPAC 2008

Rawi HageO autor canadiano-libanês Rawi Hage (n. 1964) foi o vencedor da edição deste ano do galardão milionário International IMPAC Dublin Literary Award e logo com o seu romance de estreia De Niro’s Game, a história cruel, sem atavios, do destino de dois amigos de infância, tendo o Líbano como pano de fundo e o realismo da brutalidade quotidiana da guerra civil que os separa, e como marco narrativo a famosa frase do brilhante Albert Camus (1913-1960):
«Só há um problema filosófico verdadeiramente série: é o suicídio. Julgar se a vida merece ou não ser vivida é responder a uma questão fundamental da filosofia.» Albert Camus, O Mito de Sísifo.
O júri do prémio escolheu Hage, entre as obras – este ano representativas de uma verdadeira babilónia de culturas – de oito autores diferentes, entre os quais, para além do próprio vencedor, se encontravam os nomes fortes de autores como o do espanhol Javier Cercas, com o romance A Velocidade da Luz (ed. port. Asa, 2006; La velocidad de la luz, 2005); ou do irlandês Patrick McCabe ou ainda do franco-russo Andreï Makine.

Este ano, um conjunto de 162 bibliotecas, pertencentes a cerca de 122 cidades de 45 países participaram na escolha inicial dos 137 romances a concurso, entre os quais 8 foram seleccionados para a final por um júri nomeado para o efeito. Portugal, como tem sido habitual em anos anteriores, participou com as sugestões da Biblioteca Municipal Central de Lisboa (nomeou três obras de três autores: José Eduardo Agualusa, Monica Ali e Paul Auster) e a Biblioteca Pública Municipal do Porto (nomeou apenas uma obra, de autoria da escritora chilena Isabel Allende).

Curioso, será verificar que o grande vencedor do IMPAC 2008 apenas foi nomeado por uma única biblioteca para a lista inicial, a sua conterrânea Winnipeg Public Library no Canadá – o mesmo já havia ocorrido com o vencedor de 2007, o norueguês Per Petterson, apenas nomeado por duas bibliotecas (entre as 169 participantes) e ambas norueguesas.

Eis os anteriores vencedores do prémio mais generoso do mundo a premiar uma obra de ficção:
2007 – Per PettersonOut Stealing Horses
2006 – Colm TóibínO Mestre (Dom Quixote, 2007)
2005 – Edward P. JonesThe Known World
2004 – Tahar Ben JellounUma Ofuscante Ausência de Luz (Asa, 2003)
2003 – Orhan PamukO Meu Nome é Vermelho (Presença, 2007)
2002 – Michel HouellebecqPartículas Elementares (Temas e Debates, 1999)
2001 – Alistair MacLeodNo Great Mischief
2000 – Nicola Barker À Flor da Pele (Gradiva, 2000)
1999 – Andrew MillerA Dor Industriosa (Teorema, 1999)
1998 – Herta MüllerA Terra das Ameixas Verdes (Difel, 1999)
1997 – Javier MaríasCoração Tão Branco (Relógio D’Água, 1994)
1996 – David MaloufRemembering Babylon

quarta-feira, 11 de junho de 2008

Marías, Feira do Livro, Literatura e Truculência

Terminou a 78.ª edição da Feira do Livro do Porto (FLP). Ao que se vai ouvindo e lendo, este foi mesmo o último ano em que o Pavilhão Rosa Mota recebeu o evento organizado pela APEL, finalmente, digo eu, dados o desconforto e a vetustez do layout. O Rosa Mota entrará num longo processo de obras de restauro e o nosso inefável Presidente da Câmara há muito que havia manifestado a sua vontade de trazer a feira para o coração da cidade (cuidado com os mal-entendidos): para a agora despida e matizada a Porto antracite Avenida dos Aliados – a ver vamos, se as incómodas e frequentes chuvas que em finais de Maio soem brindar a Invicta não irão estragar um evento que requer conforto e tempo seco para ter algum êxito.

Como o Francisco já escreveu, na sua bem descrita visão romântica da feira do livro, o sal do evento – visão de alguma forma repisada pelo Eduardo, quando este se referia ao espavento da tal empresa-colosso (à medida lusa) do meio editorial que, de forma heteróclita apenas dispunha das novidades e dos últimos livros publicados – manifesta-se no vasculhamento dos restos de colecção, dos fundos editoriais, há muito afastados, por razões economicistas, dos escaparates das principais livrarias, com preços de saldo, por vezes com capas já amarelecidas pelo tempo e pela resistência da letra impressa à fúria impiedosa dos elementos, que um mau armazenamento ousou debilitar.

[Curiosamente, há um odor típico que me ficou gravado na memória, endurecido pelos incontáveis anos de visita à FLP em espaço fechado: o único e inexpugnável cheiro a bafio que emana dos livros expostos no stand da editora Livros do Brasil, alguns com lombadas esfareladas, transmitindo a sensação de comovente fragilidade e de ruína iminente assim que manuseados; e sempre os mesmos autores: Irving Wallace, Daphne du Maurier, Norman Mailer, Thomas Mann (há anos sem os esgotadíssimos A Montanha Mágica e Os Buddenbrook), Pearl S. Buck, John Steinbeck (agora em fase de renovação), etc.]

Este ano, desloquei-me por diversas vezes à FLP à procura dos tais fundos editoriais que o recente movimento de fusões e aquisições de editoras permitiu que se fossem adensando nas caves das distribuidoras fortemente representadas no local.
A sede de arrancar aquele livro que durante um ano fica em lista de espera numa livraria, para depois ser anunciado como “fora de stock” – e este é um dos pontos a melhorar na relação entre editores, livreiros e leitores, ou seja, no tempo infindo que se espera por um livro raro que eventualmente reside numa qualquer cave de livros espalhada pelo país –, assim como a impossibilidade de visitar determinado stand dado o aglomerado de gente que se postava sem qualquer tipo de delicadeza a olhar para os títulos sem os folhear, como se esperassem por uma mensagem vinda do seu interior materializada no colorido do seu frontispício, fizeram que me deslocasse umas 7 ou 8 vezes ao dito recinto de exposição.

Javier MaríasUm dos títulos que adquiri, já no final dos dias e por apenas 5 euros, no pavilhão da Relógio D’Água, foi a colectânea de ensaios Literatura e Fantasma do escritor madrileno Javier Marías (n. 1951) – livro editado originalmente em 1993 sob o título Literatura y fantasma pela editora espanhola Siruela, e publicada entre nós em Novembro de 1998, com tradução do próprio Francisco Vale, sem a enorme ampliação sofrida pela obra em 2001, quando a editora espanhola Alfaguara lhe acrescentou mais 37 textos, aos 35 publicados em 1993 (que na versão portuguesa inclui ainda mais seis sobre “Mulheres Fugitivas”, incluídos na antologia Vidas Escritas de 1992).
Conheço pouco da obra de ficção do autor madrileno. Todavia, conheço o suficiente dos seus escritos dispersos, por vezes reunidos em livros, e as suas crónicas no El País e, sobretudo, o seu portentoso romance, galardoado em 1997 com milionário prémio IMPAC, Coração Tão Branco (Corazón tan blanco, 1992) – até hoje o único escritor espanhol a receber o prémio, desde a sua fundação em 1996 (correndo estas linhas o sério o risco de ficarem de súbito desactualizadas se, amanhã, Javier Cercas for o contemplado com o IMPAC de 2008).
Àquele romance pertence uma das mais inesquecíveis frases de abertura de uma obra de ficção (elas não me largam, já sabem):

«Não quis saber, mas soube, que uma das meninas, quando já não era menina e não havia muito tempo que tinha regressado da sua viagem de lua-de-mel, entrou na casa de banho, pôs-se em frente do espelho, abriu a blusa, tirou o soutien e procurou o coração com a ponta da pistola do seu próprio pai, que estava na sala de jantar com parte da família e três convidados.»
Javier Marías, Coração tão Branco, pág. 11.
(Lisboa: Relógio D’Água, 1994, 295 pp.; tradução de Cristina Rodriguez e Artur Guerra; obra original: Corazón tan blanco, 1992).


Cheguei a casa e ia folheando o livro que acabara de comprar, e detive-me num texto curto, ocupa pouco mais de uma página, que Marías escreveu para o El País de 19 de Outubro de 1991: “Contra a truculência”. E, de repente, recordei-me do que eu próprio havia escrito no meu anterior blogue – com o título sugestivo “Repugnância” – sobre o mais recente filme de Tim Burton, o realizador norte-americano incensado pelos intelectuais da crítica cinematográfica.
Marías discorre sobre a descrição da violência e do horror na literatura, estendendo-a também ao cinema

«O mal é que à quinta ou vigésima, se a descrição continua a ser mediana ou demasiado explícita, a tensão perde-se e o efeito desvanece-se, mesmo que o aspecto mais selvagem das coisas haja aumentado. […] Nabokov dizia que “na arte mais elevada e na ciência pura o pormenor é tudo”, e não se referia precisamente à morosidade descritiva, mas ao clarão visual, analógico, verbal ou de memória provocados no leitor por um sinal vermelho, um vislumbre, um instante.» (pág. 112)

Marías relembra Psico (Psycho, 1960) do mestre Hitchcock e a eterna cena da banheira, o pânico do entrevisto, do não explícito, para no campo da literatura referir logo a seguir:

«A frase que maior horror me causou em literatura não está em Lovecraft, mas em Flaubert: no final de Madame Bovary, com ela já morta e no caixão, enquanto várias personagens lhe cingem uma coroa, Flaubert diz: “Foi necessário erguer-lhe um pouco a cabeça, e então uma onda de líquidos negros saiu, como um vómito, da sua boca.”» (pág. 113)

Depois refere Faulkner, que em Santuário (Sanctuary, 1931) usou a expressão deste mesmo horror para descrever uma situação nauseante:

«Cheira a negro, pensou Benbow; cheira àquela substância negra que saiu da boca de Madame Bovary e caiu sobre o seu véu nupcial.» (pág. 113)

E acrescenta: «Duvido que alguém, mesmo o próprio Faulkner, conseguisse com uma frase menos sóbria a façanha de fazer sentir um tão hediondo cheiro.»

Sim, é verdade. Na minha juventude fui um admirador de Carpenter e de alguns dos seus colegas e discípulos desse subgénero fílmico. Mas quem via Carpenter sabia ao que ia, da mesma forma que hoje, quem lê, perde tempo e gasta dinheiro com Palahniuk já deveria saber ao que vai. A mim chegou-me vez e meia... É puro lixo sensacionalista.

Referência bibliográfica:
Javier Marías
, Literatura e Fantasma. Lisboa: Relógio D’Água, Novembro de 1998, 295 pp.; tradução de Francisco Vale; obra original: Literatura y fantasma, 1993.

sábado, 7 de junho de 2008

Volodya, de novo

Vladimir NabokovEnquanto Dmitri filho único de Vladimir Nabokov (1899-1977) anda, em letras de imprensa, a distrair meio mundo literário com a fábula dos manuscritos encerrados no cofre-forte de um banco suíço que só pode ser aberto pela combinação de chaves detidas por duas pessoas – qual trama browniana. Vão, estranhamente, surgindo uns dispersos do ilustre pai, escritos originalmente em russo e posteriormente traduzidos pelo filho – ou seja, manuscritos provavelmente com data anterior ao início da década de 40 do século passado, altura a partir da qual Nabokov, já nos Estados Unidos, passou a escrever exclusivamente em inglês.
Desta feita, surgiu do nada, no número desta semana da revista norte-americana The New Yorker (de 9 a 16 de Junho de 2008) um conto inédito do eminente escritor russo-americano intitulado “Natasha”.
Enquanto nada sai sobre o alegado romance inacabado The Original of Laura, depois de Lolita (1955) e de O Encantador (Volshebnik, 1939; publicado postumamente em 1985 por Dmitri sob o título The Enchanter, como uma versão, em forma de novela, mais punitiva de Lolita; a mácula da pederastia contribui para o desfecho trágico do perpetrador, dando-se a redenção da ninfeta sem nome), surge-nos agora “Natasha” provavelmente escrito em 1925.
Alguém me consegue explicar, para além de uma provável cupidez, o que anda Dmitri a fazer com o espólio de seu pai? Seguramente, a par de Borges, o melhor escritor dos 2.º e 3.º quartéis do século XX, e um dos melhores escritores de todos os tempos?

Eis as primeiras palavras do conto:

«On the stairs Natasha ran into her neighbor from across the hall, Baron Wolfe. He was somewhat laboriously ascending the bare wooden steps, caressing the bannister with his hand and whistling softly through his teeth.
“Where are you off to in such a hurry, Natasha?”
“To the drugstore to get a prescription filled. The doctor was just here. Father is better.”
“Ah, that’s good news.”
She flitted past in her rustling raincoat, hatless.
Leaning over the bannister, Wolfe glanced back at her. For an instant he caught sight from overhead of the sleek, girlish part in her hair. Still whistling, he climbed to the top floor, threw his rain-soaked briefcase on the bed, then thoroughly and satisfyingly washed and dried his hands.
[…]»

(versão completa aqui)

sexta-feira, 6 de junho de 2008

Apreciação literária

Regressa a listagem presente nos meus anteriores blogues que inclui a minha apreciação literária sobre livros editados e publicados no mercado editorial português durante o corrente ano.
Relembro que a classificação é simultaneamente quantitativa, de 1 a 5 estrelas, e qualitativa, de “Mau” a “Muito Bom”, reservando-se uma classificação excepcional de 6 estrelas para as inultrapassáveis obras-primas que felizmente passaram (ou passarão) pelos meus olhos.
Por manifesta falta de tempo, a maioria dos livros apontados na referida lista não terá a correspondente “nota de prova” – se digo recensão ainda me passam com o rolo compressor por cima –, ao contrário das edições de 2006 e de 2007, onde cerca de 90% dos livros classificados eram acompanhados de uma nota, de extensão assaz variável, explicativa para tal qualificação, com a respectiva ligação ao texto.

Finalmente, convém reforçar os seguintes pontos:

  • a selecção e a leitura dos livros seguem, tão-só e somente, o meu gosto pessoal, sem imposições que não sejam as minhas preferências estético-literárias;
  • nem todos os livros de 2008 que tive a oportunidade de ler figurarão na referida listagem: tal como em anos anteriores, reservo-me ao direito de ocultar alguns: só serão aqui reveladas algumas das obras com 1 (Mau) ou 2 estrelas (Medíocre), aquelas que pelo engodo panfletário/editorial merecem que se divulgue a mediocridade que se esconde entre a capa e a contracapa;
  • todos os livros referidos foram efectivamente pagos, na maioria da vezes por mim, usando para o efeito os meus limitadíssimos recursos financeiros, ou por quem, conhecendo os meus gostos literários, teve a feliz ideia de os oferecer como prova da sua pura e simples amizade;
  • em suma, move-me o amor pela literatura e jamais (palavra perigosa d.L.*) por qualquer espécie de interesse comercial.

A respectiva lista figurará na coluna do lado esquerdo deste blogue até ao balanço final que espero poder vir a efectuar nos primeiros dias de 2009.

Nota: *d.L. - depois de Lino.

Porque gosto do Google

(Para além de me proporcionar este espaço para as minhas divagações, várias caixas de correio electrónico gratuitas com funcionalidades sem rival; para além de ser a melhor empresa no mundo no vasto e intrincado domínio nas relações laborais – tema que me é muito caro, sendo um caso de estudo em toda a parte do mundo; para além das soluções inovadoras de conteúdos, plataformas de comunicação e da democratização da navegação na internet; para além de se dar ao luxo de ser a grande fonte de inveja da Bill Gates, que não consegue, por mais tentativas que faça – vide compra da Yahoo –, rivalizar com a empresa fundada em 1998 por dois estudantes de Stanford, Larry Page e Sergey Brin, sedeada Menlo Park, próximo de San Francisco, na Califórnia;...)

E nas efemérides... assim responde o
motor de busca mais utilizado no mundo inteiro:

Google comemora os 409 anos do nascimento de Velázquez


Diego Rodríguez de Silva y Velázquez (seria, hoje em dia, Velasques, corria-lhe sangue portuense na veias pelo lado do pai) nasceu em Sevilha há 409 anos, 06/Junho/1599).

Epígrafe e abertura. Obsessões e… dedicatórias

(continuação do texto anterior, interrompido por introdução de material susceptível de fazer a capa da Ana + atrevida)

Mas antes já havia passado pela estranha dedicatória, a que depois regressei e li com mais atenção depois de lida a frase de abertura. Exigiu uma curtíssima investigação na Internet2:

«Para a Helen [Bransford]
Que gostaria de ter sido eu a inventar, se tivesse imaginação para tal.
» (pág. 5)

Notas:

  1. Na década de 80 do século passado, McInerney foi incluído no denominado Brat Pack literário artificialmente construído pela imprensa norte-americana, que ademais contava com os escritores Bret Easton Ellis, Tama Janowitz e Mark Lindquist, por corruptela, ou se se preferir como derivação (falhada pela heterogeneidade insolúvel) do famoso Rat Pack de Sinatra & companhia que espalhou o seu charme (muitas vezes etilizado) pelo cinema e pelos palcos dos teatros e casinos americanos durante as décadas de 50 e 60.
  2. The Last of the Savages foi publicado em 1996. Em 1997, Jay, então com 40 anos, divorciou-se da famosa designer de jóias Helen Bransford, a sua terceira mulher, sete anos mais velha. Ao que parece a actriz Julia Roberts desempenhou um papel importante; já para nem falar da história rocambolesca da concepção e gestação dos gémeos do casal, nascidos em 1995, Para quem se interessa por este tipo de assuntos cor-de-rosa, suponho que este artigo/entrevista de 2000 publicado no Guardian, sob o título sugestivo e bem a propósito de um dos romances do meu mui estimado F. Scott Fitzgerald (Belos e Malditos), faz um resumo interessante de toda a história… keywords: miscarriage, IVF, eggs, womb, surrogate mother,…

Referência bibliográfica:
Jay McInerney, O Último dos Savage. Lisboa: Teorema, Abril de 1998, 299 pp.; tradução de Telma Costa; obra original: The Last of the Savages, 1996.

quinta-feira, 5 de junho de 2008

Epígrafe e abertura. Obsessões.

Já muito se discutiu sobre a importância da frase de abertura de obras de ficção. Na maioria das vezes, é-lhe atribuída o poder de um sortilégio paralisante pela forma como agarra o leitor do princípio ao fim do livro. É óbvio que esta imagem do magnetismo literário das frases de abertura é um mero exercício teórico e hiperbólico para se discutir literatura e destreza literária, se não o fosse, o que seria de uma frase tão inócua como «Call me Ishmael.» («Tratem-me por Ismael.») do Moby Dick de Melville – classificada num concurso promovido pela revista American Book Review, que contactou para o efeito um conjunto alargado de escritores e críticos, como a melhor frase de abertura de romances – se não se tivesse em devida conta o corpo e o desenvolvimento da obra? E essa importância, nem tão-pouco sairia reforçada pela frase de encerramento «It was the devious-cruising Rachel, that in her retracing search after her missing children, only found another orphan.» («Era o Raquel, que prosseguia o seu errante cruzeiro e que tinha voltado para trás, na sua referida busca do filho perdido, não tendo achado mais do que outro órfão.») – esta classificada em 25.º lugar, quando uns tempos mais tarde a mesma publicação resolveu elaborar as 100 melhores frases de encerramento de romances.
Todavia, há um facto que não pode ser negado, a teimosa persistência de algumas delas na nossa memória, normalmente tão diligente a abandonar o supérfluo. Quem leu dificilmente se esquecerá da recordação aparentemente indelével de Aureliano Buendía da viagem que fez com o pai para conhecer o gelo enquanto, anos volvidos, enfrentava o pelotão de fuzilamento (García Márquez); das parecenças das famílias felizes e das dissemelhanças entre as infelizes (Tolstoi); da necessidade de casar um homem solteiro que possuísse uma grande fortuna (Austen); do monstruoso acordar de Gregor Samsa após sonhos agitados (Kafka); e por aí em diante.
Na realidade, confesso aqui e agora, é uma das minhas muitas manias relacionadas com o processo de aquisição de um livro: procurar a frase de abertura de uma determinada obra (de ficção, claro) sempre que me desloco a uma livraria e pego num livro que por conselho, alarde publicitário, curiosidade ou intuição, folheio e cheiro antes de o pousar de novo, em definitivo ou até nova oportunidade, ou de o agarrar e com ele me dirigir à caixa que me deixará materialmente mais pobre, juntando-se à miríade de obras que aguardam pelo passar dos meus olhos, dada a minha declarada oneomania predominantemente bibliómana e cinéfila – se tudo correr de acordo com o previsto, esgotá-los-ei na minha já eventualmente decrépita passagem pelos oitenta anos…

Folheava O Último dos Savage um livro do escritor e enólogo Jay McInerney1, fui desde logo agarrado pela epígrafe escolhida, de autoria do último dos duros:

«…ou se é rebelde ou conformista, ou se é um homem de fronteira do Oeste selvagem da vida nocturna americana, ou se é uma casa Quadrada, apanhado nas teias totalitaristas da sociedade americana, condenado ao conformismo sem apelo nem agravo, se se quiser triunfar.»
Norman Mailer (pág. 9)


Depois veio a dilacerante frase de abertura de McInerney:

«A capacidade de ter amigos é a maneira de Deus pedir desculpas pelas famílias que temos.» (pág. 13)


(Descontinuidade voluntária, para não danificar o que ficou para trás. Notas e referências no final. Publicação prevista, 6 de Junho às 0:30 WEST)

Exercício do direito de resposta


Relativo a parte do texto publicado neste blogue «Títulos, badanas e contracapas»:

Por Desidério Murcho:

Caro André

Obrigado pela sua atenção ao livro do Orwell. Como a responsabilidade é minha, no que respeita ao "por que", devo dizê-lo publicamente.

E defendo que você não tem razão. Há um erro fundamental na doutrina de um linguista português que fez escola, mas é pura e simplesmente absurdo considerar que "Porque escrevo" quer dizer o mesmo que "Por que razão escrevo". Isto é absurdo. "Porque escrevo" traduz-se por "Because I write" e "Por que razão escrevo" por "Why I write". Tanto em inglês como em francês ou alemão a diferença entre "porque" e "por que" é clara. Não faz pura e simplesmente sentido usar a norma que alguém em Portugal decidiu usar e que é incoerente. Semanticamente, não há qualquer diferença entre dizer "Por que [razão] escrevo" elidindo a palavra "razão", e por isso mesmo devemos escrever "por que" e não "porque". Enfim, espero que não se ofenda, mas a minha opção é muito consciente. Como referência, veja estes sítios:

http://omolete.blogspot.com/2007/10/por-que-porque.html

http://linguistica.publico.clix.pt/duvida.aspx?id=1317

quarta-feira, 4 de junho de 2008

Mia Couto // A Biblioteca de Babel [pub]

O autor moçambicano Mia Couto estará na Livraria Pára e Lê, em Vila Praia de Âncora, no próximo dia 12 de Junho (quinta-feira) pelas 18 horas, para uma sessão de autógrafos no âmbito do seu novo livro Venenos de Deus, Remédios do Diabo.

Livraria Pára e Lê // Rua 31 de Janeiro 47-A // 4910-455 Vila Praia de Âncora

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Saiu para o mercado mais um livro da colecção A Biblioteca de Babel de literatura fantástica, organizada por Jorge Luis Borges (1899-1986) com editor italiano Franco Maria Ricci (n. 1937) e publicada em Portugal pela Editorial Presença:
Edgar Allan Poe, A Carta Roubada (A Biblioteca de Babel n.º 8)

Do prefácio de Borges:
«As neuroses e a pobreza de Poe foram grandes desgraças, sem dúvida alguma, mas a vida reservou-lhe uma felicidade sem fim: a invenção e a realização de uma obra esplêndida. Poderia acrescentar-se que a desgraça foi o instrumento necessário dessa obra.
Há cerca de setenta anos, sentado no último degrau de uma escada que já não existe, li "The pit and the pendulum"; já me esqueci das vezes que, depois, o li, reli ou pedi que mo lessem; sei que ainda não cheguei à última vez e que voltarei ainda à prisão quadrangular que se vai comprimindo e ao abismo sem fundo.»

[Números anteriores: 1 – Gustav Meyrink, O Cardeal Napellus; 2 – Pedro Antonio de Alarcón, O Amigo da Morte; 3 – Giovanni Papini, O Espelho que foge; 4 – Henry James, Os Amigos dos Amigos; 5 – Arthur Machen, A Pirâmide de Fogo; 6 – Villiers de l'Isle-Adam, O Convidado das Últimas Festas; 7 – G.K. Chesterton, O Olho de Apolo.]

Menino gabado,,,

Corre por todos os blogues a notícia:
A editora Assírio & Alvim já tem blogue. E eu acrescento, já o teve há cerca de um ano, mas foi subitamente interrompido ao fim de alguns dias, talvez por falta de entusiasmo.

Mas, finalmente, D. Rosa, a
Assírio tem blogue e… está na feira

No passado dia 29 de Maio gabava-a
aqui neste blogue, conjuntamente com a Cotovia e a minha editora de eleição, a Relógio D’Água do resistente Francisco Vale.

Mas já diz o ditado (completando):

…menino estragado.

Eu, leitor interessado, complemento a informação que o incensado blogue se esqueceu de fornecer:

  • A Assírio & Alvim também está presente na 78.ª Feira do Livro do Porto no pavilhão A-10 (corredor da entrada, ao fundo do lado direito);
  • Livros do dia: infelizmente não disponho dessa informação de carácter privilegiado(passei por lá hoje em busca do livro de Ezra Pound (& Hilda Doolittle), Fim do Tormento / O Livro de Hilda, que ainda não tenho, mas não só não o vislumbrei como não me souberam responder sobre o seu paradeiro: a) em stock, b) sem stock, c) prestes a chegar, d) exclusivo do Parque Eduardo VII, e) a vaguear pela estratosfera, f)nenhuma das anteriores, g) perguntar no stand de uma das seguintes editoras: Bertrand, Bico de pena, Pergaminho, Temas e Debates (jamais no do Círculo de Leitores, não nos largam...)

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Notícia do dia: entretanto, no próximo número da revista Ler mais 150 arquitectos dão a sua opinião sobre a localização e o layout da próxima Feira do Livro de Lisboa. Entre eles contam-se nomes como o centenário Oscar Niemeyer, o consagrado arquitecto canadiano e santanista Frank Gehry e a famosa Linda Reis (a.k.a. Pomba Gira) que entrou em contacto com Antonio Gaudí, Frank Lloyd Wright, Adolf Loos, Le Corbusier, Alvar Aalto, entre outros. Ao que até agora se conseguiu apurar, ninguém da denominada Escola do Porto foi contactado: Álvaro Siza, Alcino Soutinho, Eduardo Souto Moura, entre outros.

terça-feira, 3 de junho de 2008

Maniqueísmos

Recordo-me bem da minha ida ao cinema para ver África Minha. Arrastado pelo meu pai, suponho que ao defunto Estúdio Foco, que tentava cultivar as minhas preferências cinematográficas, especialmente numa altura em que, de forma impotente, procurava monitorizar os filmes que chegavam encobertos pela capa standard do clube de vídeo a minha casa: John Carpenter, acima de tudo e a suas parecerias com Debra Hill, e depois Wes Craven, Brian De Palma, Sam Raimi, Cronenberg, disfarçados com Ivory, Forman, Lean, Huston, de que gostava, mas em quem preferia poupar os meus parcos recursos.
Ver África Minha foi, por tudo isso, uma experiência traumatizante. Era um filme sobre uma tontinha em paisagens hipoteticamente deslumbrantes – a minha agulha estética estava longe desse pólo da beleza majestática e contemplativa, com fotografia a cargo do britânico, recentemente desaparecido, David Watkin e uma banda sonora original do bondiano John Barry –; sim, uma tontinha armada em independente que se perde de amores por um caçador errante nas colinas de África.

Em 2000 fui viver para Madrid, e resolvi completar a minha videoteca, a preços de saldo – por essa altura os DVD’s em Espanha, para além do número incomensuravelmente maior de títulos à disposição do público, custavam cerca de metade do preço praticado em Portugal. Comprei dezenas de títulos, com o único senão de a capa expor os títulos atribuídos pelos espanhóis, na maioria das vezes, grotescos, como por exemplo o maravilhoso filme do Mestre Hitchcock North by Northwest (1959) como Con la muerte en los talones; ou como o filme de 1980 de John Landis The Blues Brothers como Granujas a todo ritmo.
Comprei o África Minha (Out of Africa, 1985) ou o Memorias de África (ver imagem), e com vinte e oito anos – já há muito tinham passado os imberbes catorze de 1986 no Estúdio Foco – aprendi a apreciar a beleza que se me havia escondido nos anos oitenta, corporizada na harmonia imagética, fílmica e musical que Pollack conseguiu transmitir com a sua obra-prima e que, de facto, como diz o Luís Miguel Oliveira encantou meio-mundo – não a sua metade de mundo –, tal como a Academia de Hollywood (que lhe atribuiu 7 Óscares) – talvez, se trate do tal cinema filmado, como refere o Luís Miguel, mas então o que seria de gente como James Ivory, e principalmente de David Lean?
Foi então que saí da minha irredutibilidade, vislumbrei a bruma que se levantava como a neblina húmida de uma manhã fria de Primavera e olhei para o outro lado, de onde o meu pai e o seu meio-mundo saía das ostras a que os havia votado uns anos antes, ao som de John Barry, culminando com o 2.º andamento (Adágio) do Concerto para clarinete em Lá maior (K.622) composto pelo divino Wolfgang Amadeus Mozart a pouco menos de dois meses de ocorrer a maior tragédia de sempre para a Música, a sua morte aos 35 anos, em 5 de Dezembro de 1791:


Wolfgang Amadeus Mozart - Concerto para clarinete em Lá Maior (K.622) - 2. Adagio




(uma amostra a 96 kbps, com o solo de clarinete de Sabine Meyer e a Filarmónica de Berlim, dirigida por Claudio Abbado).

segunda-feira, 2 de junho de 2008

Títulos, badanas e contracapas

Há muito que o mercado editorial português vive momentos agitados, potenciados não só pelo aumento exponencial do número de livros publicados por dia, muitas vezes desfasados da realidade leitora nacional, mas também pela revolução motivada pelas fusões, aquisições e associações de editoras. Nós, do lado de cá, vamos assistindo compassivamente.
Pressente-se no ar, pelo agitar de águas que vai muito além da pedrada no charco, um cheiro pestilento que anuncia a insalubridade. E se o meio editorial nacional até aqui pudesse ser comparado a um atoleiro bafiento que resistia paredes meias ou às portas das piramidais construções de um progresso voraginoso, o tratamento que lhe foi imposto ultrapassou e muito a reciclagem dos resíduos provenientes dessa estagnação.
Dinamitaram o charco, e a sujidade que se acumulou durante anos de inacção espalhou-se por todos os lados, alimentando uma guerra infecta que ninguém pretende, muito menos os consumidores-leitores que há anos esperam por qualidade nesse passatempo tão ancestral como o de matar a sede de conhecimento nos livros.
Todavia, a insalubridade permanece. Neste momento preparamo-nos para recolher os primeiros despojos de uma guerra que teve por pano de fundo a organização das feiras dos livros. Assim, tentando resumir, temos, de um lado, um modelo gasto, espremido, rígido, anquilosado e seriamente ferido de morte, que se traduz na concepção da feira como um imenso espaço dedicado aos saldos de livros – como se fosse necessário esperar por Maio para comprar livros com descontos iguais ou superiores a 20% do p.v.p. –, que se afastou progressivamente da montra das novidades literárias e da ligação estreita entre o leitor e o produtor da obra – aquele que da literatura fez ocupação e passou meses, anos a fio encerrado com o seu interior na criação de uma obra para apreciação de um determinado público, de forma a garantir-lhe o sustento, não só o material, mas acima de tudo o espiritual, do reconhecimento, da aceitação e, porque não, do engrandecimento do seu ego – algum lirismo imaterialista nunca fez mal a ninguém. Do outro lado, apresentou-se o poderio económico, que munido de toda a sua arrogância pretende abanar (aniquilar?) o mercado sem ouvir o próprio mercado. Operações de reestruturação empresarial em cujos critérios não se vislumbra a atenção ao requisito mais importante: a cultura. A avidez pelo mercado, por quotas, pela formação de grupos ufanos pelo seu poderio no meio, parece ter sido o único critério. Não há uma cultura de base que se entenda, nem que se consiga, por maior que seja o esforço de abstracção, subentender; nem tão-pouco se respeitou a cultura das próprias organizações que da noite para o dia, sem ouvir escritores e editores, foram anexadas pelo poderio dos cifrões – anschluss ou blizkrieg?

E depois, admirem-se que no meio de tudo isto apareça um título como o que vem reflectido na imagem ao lado, relativo a um conjunto de ensaios do autor britânico George Orwell (1903-1950). Esta antologia foi publicada pela Antígona e traduzida por Desidério Murcho: Why I Write (1946) foi traduzido para “Por Que Escrevo”. Haja paciência… é o título da obra, que, como é obvio, aparece na capa, agravado pelo destaque de letras negras garrafais em fundo amarelo vivo que não deixam a dúvida da existência de um espaço entre a preposição “Por” e o pronome interrogativo adjunto “Que”, que apesar de adjunto surge sem substantivo (motivo, razão, carga de água, raio, etc.). Quiçá a editora, o revisor e/ou o tradutor pretendeu ser mais papista que o Papa e alargou o acordo ortográfico a um acordo gramatical; em português do Brasil o título estaria gramaticalmente bem formulado.

Depois, temos a LeYa, através da Dom Quixote – ou será o contrário? – acabou de publicar o horroroso projecto de romance de Truman Capote (1924-1984), publicado postumamente, Súplicas Atendidas (Answered Prayers, 1987).
Deixando de lado as questões conexas com a qualidade literária (quase nula ou mesmo abaixo de zero, digo) e as vicissitudes ligadas à sua publicação original, do conjunto das três histórias interligadas de Capote, o livro termina em beleza com o indescritível capítulo, pelo péssimo gosto da prosa nele vertida, de “La Côte Basque”, que revela um Capote mesquinho, ignóbil e decadente, entregue ao álcool e às drogas que, aliás, marcariam o ritmo dos seus últimos anos, o fim da aventura do rapaz irreverente de Nova Orleães que um dia quis ser famoso.
«La Côte Basque fica no lado Leste da rua 55, mesmo em frente ao St. Regis.» (pág. 160). É portanto um bar/restaurante em Nova Iorque, que ficaremos a saber ser de propriedade de um tal Sr. Soulé, local onde se reúne a nata da alta sociedade nova-iorquina numa grotesca parada de estrelas atulhada de fofoquices sobre as vidas sórdidas dos outros.
[O capítulo até começa bem com uma piada de saloon, que dá o verdadeiro cunho ao género do que a seguir, em cerca de quarenta páginas, se descreve:
«Ouvido num bar de cowboys em Roswell, no Novo México… Primeiro cowboy
: Hei, jed. Como estás? Como vai essa vida?
Segundo
cowboy: Bem! Mesmo bem. Sinto-me tão bem que, esta manhã, não tive de bater uma punheta para pôr o coração a funcionar.» (pág. 159)]

Bem, adiante…

Pois, na contracapa da recentíssima edição portuguesa da Dom Quixote podemos ler [destaque meu]:
«Ao acompanhar a carreira de um escritor de origens incertas e gostos eróticos insaciáveis, SUPLICAS ATENDIDAS conduz o leitor de um decadente bar em Tânger a um banquete na costa basca, dos salões literários aos mais caros bordéis […]»
Pelo título, deve tratar-se da costa basca francesa. Mas terá sido em Biarritz? Ou noutro lugar qualquer.
A maior editora portuguesa, agora pertença do império LeYa, dá-se a este tipo de negligência.

Conselho: seria melhor ler a obra antes de escrever os textos que irão constar das badanas e da contracapa. Como o livro (creio eu) não é para ser vendido a um conjunto de abrutalhados que o desfolham – ah, aqui a utilização do dito cujo verbo “desfolhar” teve a merecida utilização – e não o folheiam com olhos de ver, haveria de desperdiçar um pouco mais de tempo a rever a asneirada que se escreve, como numa corrida contra o tempo – eu sei, já dizia o outro, time is money, e é isso mesmo que permite a ocorrência deste tipo de abjecções literárias.
Enfim, à beira do abismo, vamos caminhando em frente...

Referências bibliográficas:

  • Truman Capote, Súplicas Atendidas. Lisboa: Dom Quixote, 1.ª edição, Maio de 2008, 199 pp. (tradução de José Luís Luna; obra original: Answered Prayers, 1987);
  • George Orwell, Por que escrevo e outros ensaios. Lisboa: Antígona, 1.ª edição, Maio de 2008, 154 pp. (tradução de Desidério Murcho; obra original: s/ ref.ª, ensaios dispersos).

sexta-feira, 30 de maio de 2008

Um esclarecimento

A propósito do meu texto anterior, o Nuno Góis do blogue com título sugestivo Nem Paz, Nem Guerra, pôs em evidência duas questões bastante pertinentes referentes à minha intenção de boicotar a compra de livros de determinadas editoras que não se dignaram a estar presentes, de forma individual – para que se entenda, já que muitas se fizeram representar por distribuidoras, com um escassíssimo número de títulos postos à disposição do público –, na 78.ª edição da Feira do Livro do Porto (FLP).
A primeira questão, resulta da impossibilidade de boicotar – ou recusar-se a adquirir – livros de uma determinada editora, quando o que, na realidade, importa é o produto em si, a obra e o seu autor. Ora, as editoras não vendem produtos indiferenciados que podem ser adquiridos com os mesmos requisitos noutras editoras, há os direitos de autor e de publicação. No caso de uma obra de meu interesse ter sido publicada por uma destas editoras, vou ter de, à socapa do meu polícia interior, infringir o boicote auto-imposto – aliás, passada a efervescência é o que irá ocorrer com frequência, tornando-se regra, derrogando assim o boicote.
A segunda, tem que ver com as enormes diferenças de recursos financeiros que podem ser observadas entre as diversas editoras nomeadas na dita lista. Muitas são pequenas editoras, que vivem com dificuldades económicas e financeiras e que lutam pela sobrevivência dia a dia no cruel mercado editorial nacional – há os David e os Golias – com sede e zona principal de actividade fora da região coberta pela FLP. Logo, os custos associados à manutenção de um stand individual, adicionando-se os necessários encargos com os recursos humanos, tornariam esse objectivo quase impraticável. Nesse grupo e olhando para a lista de 20 editores e livreiros por mim enunciada, talvez – o emprego deste advérbio deriva do desconhecimento da verdadeira situação económico-financiera de cada uma, individualmente – deva incluir editoras como: Alêtheia, Antígona, Cavalo de Ferro, Colibri, Fenda, Guerra e Paz, Nova Vega, Sextante e Tinta-da-China. Todavia, há outras de dimensão aparentemente similar que estão presentes na FLP. São critérios...
Porém, o que é mais revoltante em toda esta história de ausências importantes da FLP, advém do desinteresse dos grandes grupos editoriais, alguns com inúmeras lojas abertas ao público na região, sem que fosse dado qualquer tipo de explicação, ou então no caso de o ter sido, a justificação tem por base uma fundamentação tão irritantemente ridícula que se subsume num puro insulto à inteligência dos seus destinatários (grupo em que me incluo) – seria preferível apelidarem-nos de forma directa, sem atavios e circunlóquios, de burros e ignorantes; assim, pelo menos, a honestidade em todo este processo de aparente segregação sairia vencedora.

  • Porque é que a Bertrand (Direct Group – Bertelsmann) não está presente?
  • Porque é que a Guimarães (de Paulo Teixeira Pinto), após a sua reestruturação radical que acicatou a curiosidade dos interessados por assuntos literários, não se dignou a comparecer no Porto, onde reside um dos seus ícones, Agustina Bessa-Luís, que, durante anos, foi a verdadeira salvadora da dita editora à beira do colapso empresarial?
  • Porque é que a LeYa se fez representar por uma distribuidora, depois de tanto alarde mediático com as suas aquisições, eventos culturais e prémios literários milionários?
  • E a Fnac? Que explicações terá para dar aos seus clientes das suas lojas na região?

É este menosprezo que não se entende e que tem de ser justificado, com razões coerentes e plausíveis, a toda uma comunidade, que só na sua área metropolitana (da Póvoa a Espinho, do Porto a Arouca), alberga quase 1,7 milhões de pessoas* (a de Lisboa, por exemplo, tem uma população de quase 2,8 milhões*)

*Fonte: INE, INE/Metrex GAMP, 2008

quinta-feira, 29 de maio de 2008

Lista Negra [actualizado]

Por simples exercício de comparação, que através da preciosa ajuda de uma folha de cálculo e da conhecida técnica “copy & paste” não durou mais de 10 minutos, consegue-se facilmente chegar a uma lista de Editoras e Livreiros que resolveram demarcar-se do conjunto pela ausência da 78.ª edição da Feira do Livro do Porto (FLP), que ainda permenacerá de portas abertas até ao próximo dia 10 de Junho nos calabouços nas instalações do Pavilhão Rosa Mota (sito nos jardins do Palácio de Cristal), mas que, ao invés, não deixaram de marcar a sua presença no mesmo evento realizado no afamado local na Capital do Império – afamado, pelos serviços de primeira necessidade prestados durante o ano inteiro à população. Note-se, que em alguns casos, os faltantes por razões comerciais da FLP, dispõem de uma presença assinalável, com vários stands em Lisboa, como por exemplo a Bertrand Editora, mesmo excluindo os mini-pavilhões das outras chancelas do grupo DirectGroup – Bertelsmann também presentes no evento.
Assim, facilmente se chegou a uma lista de 20 editoras ou livreiros, que aqui serão expostos a título informativo, para fins de boicote na aquisição dos livros por si publicados (vai ser difícil, vide o texto anterior sobre um livro de uma delas) ou na deslocação a esses postos de venda; e, porque não?, para memória futura (já que a idade não perdoa, e um recurso informático deste calibre não é de desprezar). Ei-las, por ordem alfabética:

Alguns comentários:

  1. À lista supra-referida poder-se-ia acrescentar outro conjunto de editoras que aumentaria de forma considerável a cifra de 20 não-presenças na FLP. A exclusão dessas editoras deveu-se, única e exclusivamente, a um critério pessoal de selecção. Excluíram-se, por exemplo, as editoras de livros escolares ou de literatura infantil. Apenas me preocupei com as produtoras de Literatura (conto, novela, romance, ensaio, poesia, teatro, não-ficção em geral).
  2. De modo inverso, isto é, das que marcaram presença no Porto e não em Lisboa, há apenas a destacar a excelente casa portuense Edições Caixotim, que, a propósito, emitiu um comunicado transcrito na íntegra no Blogtailors, onde, para além de uma abordagem pertinaz sobre o estado de degradação actual da FLP, potenciado pelos nossos queridos responsáveis pela Câmara Municipal, dá o devido destaque ao ponto de que se ocupa este texto, muito embora a Caixotim se refira em exclusivo ao grupo LeYa, que ainda “participou” indirectamente com um escasso número de títulos através da desconhecida “Inovação à Leitura”, que segundo me disseram é uma distribuidora de livros de Braga:

    «Entretanto, alargando o âmbito desta análise, ao declarar abertamente, através da comunicação social, o seu desinteresse na participação da Feira do Livro do Porto, justificando-o por uma premissa de ordem comercial, o Grupo LeYa manifestou, para com os leitores do Norte, em geral, e os portuenses, em particular, um total alheamento, senão desprezo, mitigado por uma solução de remedeio encontrada à última hora e que se traduz na presença de uma distribuidora que expõe e comercializa os livros das editoras desse Grupo.» [destaques meus]

  3. Não se entende a estratégia do grupo Bertrand, que se prepara para inaugurar mais uma mega-loja com vários pisos no coração da Boavista. Para nosso grande consolo, apenas relegaram para a provinciana FLP os-mais-chatos-que-testemunhas-de-jeová funcionários/angariadores arrebatados [eufemismo] do Círculo de Leitores. Por outro lado, os responsáveis da editora do grupo alemão nem sequer tentaram a tal "solução de remedeio" através da inclusão dos seus livros através de uma distribuidora.
  4. Não se entende a não-presença da Fnac, pela primeira vez desde que chegou à Invicta. Ter-se-ão amedrontado com o excelente stand do El Corte Inglés, com inúmeros títulos em castelhano? Fará parte de uma estratégia de retirada, e irão fechar as três lojas do Grande Porto (GaiaShopping, NorteShopping e Santa Catarina)?
  5. Quanto à estratégia da Guimarães renovada, cedo me apercebi de um certo elitismo disfarçado que pululava sobre projecto. Com um patrão multimilionário, jovem e reformado, acabado de sair da banca por um processo no mínimo heteróclito, preocupou-se em formar um conselho editorial sonoro para uma determinada estirpe de frequentadores de eventos sociais quase esotéricos, com direito a pose junto de vivendas de assinatura nas revistas cor-de-rosa – estas, veículos privilegiados de práticas exotéricas, ou plásticas [eufemismo] das suas actividades em prole do povo, essa coisa enorme. Espero, com sinceridade, estar redondamente enganado.
  6. Não podia terminar este texto sobre a configuração de uma lista negra de editoras, sem que se fizesse uma referência especial a três outras cujo respeito pelos consumidores, as práticas de negócio, a não discriminação de públicos, em suma, os modos de agir são diametralmente opostos aos dos indexados. Falo, designadamente, da minha tríade de eleição, com a Relógio D’Água à cabeça – Francisco Vale, por favor não ceda, a sua editora é, de longe, a melhor do país –, a Assírio & Alvim e a Cotovia.

[Actualização às 20:02]: tal como referi no ponto 2 dos comentários relativamente às editoras do grupo Leya, há outras editoras que havendo decidindo pela não-presença na FLP enviaram uma parte dos seus títulos através de representantes ou distribuidores (figurará a vermelho à frente de cada editora).

rabiscos [quase] exemplares [pub]

A partir de oito do conjunto de microcontos reunidos em Crimes Exemplares do autor multinacional Max Aub (1903-1972), adaptados graficamente pelo desenhador Pedro Vieira, inaugura-se a exposição sob o título «rabiscos [quase] exemplares» que estará à vista a partir do dia 3 de Junho na Livraria Almedina no Atrium Saldanha.
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Nota: só mesmo o Pedro – amigo invisível, blogosférico de longa data – para fazer derrogar a regra imposta do regionalismo na divulgação de eventos culturais neste blogue.

quarta-feira, 28 de maio de 2008

Pobre Antonia

Por estes dias, a recente e louvavelmente criada editora Sextante – que começou por se chamar Sudoeste e modificou o nome para evitar possíveis mal-entendidos com outras editoras existentes, optando por um novo que, de forma estranha, é igual à de outra existente no Brasil – publicou a, até hoje considerada, obra-prima da romancista, ensaísta, crítica literária e ex-professora universitária Antonia Susan Byatt (assina o seus trabalhos como A.S. Byatt), nascida em 1936 em Sheffield em Inglaterra, Possessão (Possession, 1990).
Esta obra permitiu à escritora britânica juntar o seu nome ao restrito conjunto de autores que venceram o mais prestigiado prémio literário a galardoar uma obra de ficção publicada originalmente em língua inglesa (Estados Unidos não incluídos), o célebre Booker Prize. E se acrescentarmos que, até 2007 (inclusive), dos 41 prémios distribuídos desde 1969 (tanto em 1974 como em 1992 houve dois vencedores ex aequo, Middleton e Gordimer, e Ondaatje e Unsworth, respectivamente) apenas 14 foram atribuídos a mulheres, o valor da vitória ganha outros matizes de excelência.
Por estes dias vou terminando a sua leitura, que diga-se, a talho de foice, não é nada fácil. Porém, posso desde logo confirmar de que se trata de um romance minuciosamente trabalhado, de uma excelente obra, com um arcaboiço literário invejável capaz de retirar o fôlego a mentes menos avisadas nas artes literárias. Para além da técnica narrativa recorrentemente analéptica, pejada de saltos históricos entre os séculos XIX e XX (hoje), e do percebido conhecimento aprofundado dos poetas, das suas obras e biografias, dos períodos romântico e vitoriano (Wordsworth, Arnold, Tennyson, S.T. Coleridge, Byron, Keats, etc.), de mitologia grega, do folclore nórdico e celta, e de filosofia, Byatt alterna dentro da mesma obra as formas narrativas do conto, da poesia, da prosa epistolar e diarista, do romance profusamente descritivo dos personagens, ambientes e objectos e dos diversos locais por onde se vai desenrolando a trama, a diálogos bem elaborados, com uma grande dose de humor e de ironia normalmente apontada à vida académica contemporânea, caracterizada por um estado de guerrilha latente, de invejas e de compadrios – só quem por lá anda ou andou consegue rever-se na descrição da envolvente tão bem articulada pela autora inglesa.

Bom, mas o que me levou à elaboração deste já longo texto irónico-interrogativo, nada teve que ver com a obra em si mesma, mas com a coincidência estranha da forma como a edição desta obra foi noticiada pela imprensa da especialidade1.
aqui havia referido o texto publicado a propósito de Possessão no último número da renovada revista Ler que, pelos laconismo e brevidade, apenas, na minha maneira de ver, teve como resultado um dispêndio despropositado de espaço e de caracteres: «Empreendimento no mínimo volumoso, acaba de sair Possessão […]»
Desta feita, a honras cabem ao JL, que na sua última edição (n.º 982, de 21 de Maio) refere o seguinte na página 29: «Há mistérios insondáveis na tradução portuguesa. Possessão – Uma História de Amor de A. S. Byatt é um deles. Escrito em 1990 [será?], foi distinguido com o Man Booker Prize [o grupo Man, plc só começou a patrocinar o Booker Prize desde 2003] no mesmo ano. Mas só agora foi traduzido do inglês.»
Mistério insondável? Porquê? Tratar-se-á de uma ironia, em tom de ferroada, ao editor português, que em boa hora se lembrou de colmatar esta lacuna no mercado livreiro de língua portuguesa? Ou será um puxão de orelhas a todo o meio editorial nacional pela falta de sensibilidade na escolha das obras estrangeiras a editar no nosso país?
Ora, em quase 40 anos de Booker Prize (1969-2007), foram premiadas cerca de 41 obras de ficção, das quais 26 foram editadas em português europeu e 15 não mereceram essa atenção – destas 15 há quatro obras posteriores a Possessão de A.S. Byatt: é o caso das obras vencedoras em 1991, 1992, 1994 e 1995, respectivamente, The Famished Road de Ben Okri; Sacred Hunger de Barry Unsworth; How Late It Was, How Late de James Kelman; e The Ghost Road de Pat Barker. Curiosamente, esta última foi nomeada, em conjunto com mais 5 obras de outros tantos escritores vencedores do Booker, para a eleição aberta ao público em geral para o prémio “The Best of the Booker Prize” a propósito da comemoração dos seus 40 anos de existência. Neste caso e naqueles termos, estamos perante um mistério ainda mais insondável, sabendo que a escritora inglesa (n. 1943) conta já com duas das suas onze obras de ficção editadas em português, nenhuma das quais pertence ao grupo das suas três (incluíndo The Ghost Road) que foram contempladas com prémios literários.

Mas o verdadeiro problema do mercado editorial português, se nos abstivermos do critério do potencial êxito comercial, normalmente associado a obras de qualidade duvidosa, está nos autores que jamais viram as suas respectivas obras penetrarem no mercado luso, embora sejam internacionalmente reconhecidos por diversos méritos estritamente relacionados com a questão literária; ou naqueles de reconhecidíssimo mérito cuja obra completa editada na nossa língua está muito longe de ser alcançada.
Há cerca de um mês elaborei uma listagem, que ficou no segredo dos meus ficheiros pessoais, que incluía 50 obras fundamentais de 10 autores norte-americanos2 que jamais viram a luz do dia (ou o negro tipográfico) na língua de Camões (embora algumas tenham sido editadas em português do Brasil). Após a realização daquele empreendimento e por mera coincidência, uma semana bastou para a lista passar da sua configuração de 10/50 para 10/49, uma vez que a editora portuense Civilização acabara de lançar no mercado uma das obras referenciadas na dita lista, Regressa, Coelho (Rabbit Redux, 1971) de John Updike. E até sei que, pelas mãos da editora acossada pela publicação da obra de Byatt, a cifra passará, em breve, para 10/48, já que se prevê a edição da obra-prima de um dos mestres da literatura contemporânea: Underworld (1997) de Don DeLillo. Será, da mesma forma, um empreendimento volumoso e/ou um mistério insondável?
A ver vamos.


Notas:

  1. Antes de Possessão, já se encontravam editados em Portugal um romance e um conto de A.S. Byatt: A Fábula do Biógrafo (ed. port. Temas e Debates, 2003; The Biographer’s Tale, 2000) e, curiosamente, um conto de fadas extraído do romance Possessão (ed. port. Sextante, pp. 67-77), chamado O caixão de vidro (ed. port. Tempus, 1997; The Glass Coffin incluído na colectânea de contos da autora The Djinn In The Nightingale's Eye, 1994).
  2. Autores referenciados na lista pessoal: John Barth (1930), Donald Barthelme (1931-1989), Saul Bellow (1915-2005), Don DeLillo (1936), Vladimir Nabokov (1899-1977), Thomas Pynchon (1937), Philip Roth (1933), Norman Rush (1933), John Updike (1932) e David Foster Wallace (1962).