sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Haverá alguém que entenda isto?

A Editorial Presença acabou de anunciar que já se encontra disponível no mercado a segunda obra da sua recentemente inaugurada colecção “Obras Literárias Escolhidas” – a estreia deu-se com o romance, esgotadíssimo no mercado nacional, Trópico de Câncer (Tropic of Cancer, 1934) de Henry Miller.
Ora, a tal segunda obra é o excepcional romance Os Anos (The Years, 1937), de Virginia Woolf – o seu penúltimo romance, e o último publicado antes da sua morte trágica no Rio Ouse em 1941. A edição da Presença conta com a tradução de Fernanda Pinto Rodrigues e estende-se por 376 páginas, com o preço de venda ao público de 20 euros.
O que não se consegue entender é a oportunidade de publicação desta obra, uma vez que no mercado nacional de livros o mesmo romance, editado pela Relógio D’Água, distribuído por 414 páginas, com uma boa tradução de Pedro Elston, encontra-se perfeitamente disponível. Não há livraria, de média ou grande dimensão, que não o disponha, inclusive, em escaparate, pelo preço do editor de 17 euros.

Mas, comparemos as versões através das frases de abertura:

A versão original da abertura:
«It was an uncertain spring. The weather, perpetually changing, sent clouds of blue and of purple flying over the land. In the country farmers, looking at the fields, were apprehensive; in London umbrellas were opened and then shut by people looking up at the sky.»

A versão de Pedro Elston (Relógio D'Água) da abertura:
«Estava uma Primavera incerta. O tempo, em permanente mudança, fazia voar sobre a terra nuvens de azul e violeta. No campo os lavradores ao olharem para as terras ficavam apreensivos; em Londres os guarda-chuvas abriam-se e fechavam-se nas mãos das pessoas que olhavam para o céu.»

A versão de Fernanda Pinto Rodrigues (Presença) da abertura:
«Era uma Primavera irregular. O tempo, em constante mudança, punha nuvens azuis e purpúreas a voar sobre a terra. No interior, os agricultores olhavam, apreensivos, para os campos; em Londres, os guarda-chuvas eram abertos e depois fechados por pessoas que olhavam para o céu.»
A quem serve esta duplicação de esforços? Será a primeira versão uma má tradução? E se esse for o caso, quem a classificou como tal? O público? A crítica? Uma qualquer reunião casual de editores sentenciadores?

Já no início do ano havia dado conta de um caso ainda mais paradigmático de desperdício de eucaliptos para a produção de pasta de papel: as versões disponíveis no mercado nacional da novela de Lev Tolstói A Morte de Ivan Ilitch. Ele há para todos os gostos, de Adolfo Casais Monteiro, de António Pescada, de Pedro Tamen, de João Maia, de Nina e Filipe Guerra, e por aí fora.

Não há critério razoável que me permita discernir pela bondade desta duplicação, condição que é agravada pela quantidade incomensurável de obras de autores consagrados, há muito pertencentes ao cânone literário universal, que nunca viram a luz do dia em língua portuguesa deste lado do Atlântico.
Bastar-me-ão dois singelos exemplos entre dezenas: a obra de Thomas Pynchon após o romance O Leilão do Lote 49 (The Crying of Lot 49, 1966) e obras como The Adventures of Augie March (1953), Humboldt's Gift (1975) ou The Dean's December (1982), entre outras, do inigualável Saul Bellow (Prémio Nobel da Literatura em 1976).

Nas mãos do leitor fica a decisão: comprar o livro Os Anos de Woolf por 17 ou por 20 euros? Relógio D’Água ou Presença? 414 ou 376 páginas? Pedro Elston ou Fernanda Pinto Rodrigues?

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

Trapalhada Intolerável


Quando em 1984 surge a dupla Joel e Ethan Coen com o seu primeiro trabalho, um filme negro série B, Sangue por Sangue (Blood Simple), as portas da selectiva – particularidade que se rege por critérios que não interessa aqui e agora explorar – indústria de Hollywood foram-lhe franqueadas, por via da aclamação unânime gerada no circuito cinematográfico independente. Os Óscares, antecedidos, decerto, pela brisa marítima que perambula pela passadeira vermelha da emproada Cannes seria apenas uma questão de tempo.
E assim foi, de lá para cá, a chancela “Irmãos Coen” juntou-se ao exclusivíssimo conjunto de fazedores de cinema americano cuja crítica, e produtos derivados, trata com alguma complacência, nalgumas vezes merecida.
Na realidade, houve fortes razões para isso, na minha discutibilíssima opinião, Fargo (1996) e O Grande Lebowski (The Big Lebowski, 1998) por si só mereceriam o Olimpo e a chama eterna da memória cinematográfica. Para trás tinham ficado os aceitáveis Arizona Júnior (Raising Arizona, 1987), História de Gangsters (Miller's Crossing, 1990) e Barton Fink (1991), para além do anódino O Grande Salto (The Hudsucker Proxy, 1994).
Mas, 2000 foi a marca indelével para o início do desencanto, o ano em que surgiu o paupérrimo Irmão, Onde Estás? (O Brother, Where Art Thou?) com início do abuso da utilização da compassiva e celebrada estrela ascensional George Clooney e o recrutamento da irritante e histriónica Holly Hunter – aqueles que me conhecem, já sabem da minha qualificação apriorística de sofrível a qualquer película em que figure, mesmo que de forma fugaz, a enervante meia-leca georgiana; está acima da minha vontade, fazendo tinir as campainhas de alarme pela entrada na zona restrita da minha psique denominada por “ódios de estimação”.
Seguiu-se-lhe um trio indesculpável – onde O Barbeiro (The Man Who Wasn't There, 2001) se distingue dos demais por vestígios de alguma qualidade – que precedeu o euromilhões cinematográfico, em grande parte proporcionado pelo brilhante enredo de um dos melhores escritores norte-americanos da actualidade, Cormac McCarthy.
O livro de McCarthy, como por aqui fui referindo amiúde, é uma pequena obra-prima, e exigiria cautelas na sua adaptação cinematográfica. Todavia, os manos Coen conseguiram-no, apesar de, pelo caminho, se haver perdido alguma de massa encefálica (que até pode ser literal) do cérebro literário do romance, aparando-lhe alguma da frondosidade moral elucubrada por McCarthy, sem contudo danificar a raiz – mas esses são os tais graus de liberdade que deverá gozar a adaptação de uma obra literária consagrada ao cinema, sob pena da textualidade arruinar as necessárias ductilidade e comunicabilidade entre artes.
Este País Não É para Velhos (No Country for Old Men, 2007) vence 4 Óscares (incluindo o de Melhor Filme), 3 BAFTA e 2 Globos de Ouro, para além de mais umas oito dezenas de prémios e galardões cinematográficos – apenas falhou, entre os grandes, a Palma de Ouro de Cannes, para a qual estava também nomeado.
Os Coen rejubilam, recolhem os louros e prosseguem na tarefa de inscrição de títulos nas suas ainda não muito extensas filmografias.

Menos de um ano depois da estreia comercial do filme de todos os sucessos, os manos voltam a atacar, regressando aos domínios da comédia, com o filme Destruir Depois de Ler (Burn After Reading, 2008) e com um elenco de luxo – expediente muito em voga, que o diga Soderbergh, talvez para disfarçar algum sentido desconforto artístico perante a obra forjada: John Malkovich, Frances McDormand, Clooney, Brad Pitt e Tilda Swinton – esta última acabadinha de ganhar, desmerecidamente, o Óscar para Melhor Actriz Secundária pelo seu banalíssimo papel em Michael Clayton (2007) de Tony Gilroy.
Destruir Depois de Ler é tipicamente um filme produto de dois fenómenos que costumam ocorrer quase em simultâneo em Hollywood após um grande sucesso: uma clamorosa ressaca vitoriosa e uma desmesurada insuflação do ego. Regra que se confirma não só com a realização mas com este desastroso regresso dos irmãos Coen ao argumento original: uma completa nulidade, confuso e desgarrado. Este País Não É para Velhos foi o livre-trânsito para este desastre, para esta imbecilidade fílmica, e estou certo de que a dupla se deve ter apercebido da manifestação de alguns sintomas eminentemente suicidários por negligência e de puro menosprezo por aqueles que se interessam pela manifestações artísticas da 7.ª arte. Nem se trata sequer de um exercício para invocar algum experimentalismo cénico, e com isso obter alguma condescendência. Já foi feito, e este é um acto falhado.
Nas interpretações, Brad Pitt está magnifico na personificação do típico bronco dos ginásios que inunda as nossas sociedades cultoras do físico a qualquer preço – consegue enroupar-se de todos os tiques do típico troll urbano que enxameia aqueles espaços bafientos com o seu adocicado perfume sudorífero. McDormand não sabe interpretar mal. Malkovich é prejudicado por um personagem oco num enredo sem nexo, fazendo com que o simples acto de assistir à sua performance se torne, de certa forma, num exercício confrangedor e masoquista, principalmente quando se é um admirador confesso do actor. Swinton está bem, e não mais do que isso, num papel que condiz com a sua cara de falsa pudica. Clooney está igual a si próprio, um pateta consumado.
O filme é uma sucessão de gags, quase todos sem o mínimo vestígio de graça e que jamais se unem num todo harmonioso e consistente. É um delírio fílmico arrevesado que nada tem de artístico no sentido lynchiano do termo, ou neste caso, pela índole que se lhe quis atribuir, no sentido gilliamiano de cinema.
Destruir Depois de Ler é um descarado assalto à mão armada para os admiradores do dueto fraterno e um roubo por esticão para todos aqueles que o meteram nos seus frágeis corações depois do seu último sucesso. E até me dou ao luxo de prescindir das metáforas anteriores, verbalizando alguma da minha pretendida violência classificativa: é um filme intelectual e literalmente desonesto.

Atrevo-me a finalizar com uma das frases do argumento, proferida por Chad Feldheimer (Pitt), que, pela pertinência, poderá ter servido de mote na concepção deste subproduto cinematográfico:

«As soon as you give us the money, dickwad!»

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Booker Prize 2008 – Vencedor

Eis o romance vencedor do The Man Booker Prize for Fiction 2008:


Aravind Adiga – The White Tiger (Atlantic)

Adiga nasceu na cidade de Madrasta (actualmente Chennai) situada no Sul da Índia, a 23 de Outubro de 1974. É jornalista e colunista de publicações como o Financial Times ou o Independent. Actualmente, vive em Mumbai, antiga Bombaim. The White Tiger é o seu primeiro romance.

As palavras de Michael Portillo, presidente do júri encarregado de atribuir o prémio deste ano:
«Este romance assume a tarefa extraordinariamente difícil de conquistar e manter a simpatia do leitor por um vilão consumado. O livro ganha ao conseguir lidar com graves questões sociais e as grandes transformações mundiais através de um humor espantoso.»

Notas:

  • Adiga junta-se ao então dueto formado pela compatriota Arundhati Roy com a obra, agradável e lacrimejante, O Deus das Pequenas Coisas (The God of Small Things, 1997) e pelo australiano vagabundo, quase eclipsado – obsceno mas limpo – DBC Pierre com o magnífico e hilariante romance Vernon Little – O Bode Expiatório (Vernon God Little, 2003), por ter vencido o Booker com o primeiro romance da carreira.
  • O que dirá James Wood – se a isso for chamado – por mais este prémio que, certamente, estará na linha do, apelidado por si, realismo histérico? Cujos fiéis representantes, ainda segundo o crítico, são Zadie Smith e Salman Rushdie.
  • (facto insólito) Este ano, nenhuma das obras finalistas foi ainda editada em Portugal. Aguarda-se, então, por sensibilidade e bom senso.

terça-feira, 14 de outubro de 2008

Sult (parte II)

(Nota: a dita "parte I", de pendor ecomiástico, pode ler-se aqui.)

«Era a época em que eu vagueava faminto por Kristiania, essa cidade curiosa donde ninguém parte sem levar consigo uma marca indelével...»
Knut Hamsun, Fome, pág. 23

[Lisboa: Cavalo de Ferro, 1.ª edição, Outubro de 2008, 254 pp.; tradução de Liliete Martins; obra original: Sult, 1890.]

Os 20 que são 19…

Foi ontem. A segunda segunda-feira do mês (a 2.ª 2.ª-Feira), neste caso de Outubro, que não quer significar qualquer alinhamento astral com implicações impiedosas sobre o destino humano, porque as há doze vezes ao ano, se exceptuarmos o calendário Maya e quejandos, mas trata-se, isso sim, de mais uma oportunidade para beneficiar da excelente promoção concedida aos utentes do cartão de leitor pela rede de lojas Bertrand no país.
Para um bibliómano é difícil resistir-lhe. Ainda não inventaram a metadona de substituição, que apenas poderia passar por limites de cartão de crédito mais do que excedidos e os impertinentes telefonemas diários dos sisudos gestores de conta (quando é para pagar ou repor, é o momento de descanso dos seus repuxados músculos maxilofaciais de tanto lambebotismo para atingir os objectivos mensais).
Mas como referia, à 2.ª 2.ª-feira anuncia-se um pseudodesconto (adianto-me com o prefixo que lhe dá falsidade) de 20% sobre o preço de capa do livro, repartido da seguinte forma:

  • 10% de desconto imediato no momento da compra;


  • 10% na acumulação de pontos na conta do cartão “Leitor Bertrand” (onde cada euro despendido corresponde a 15 pontos, e a cada 1500 pontos acumulados é emitido um vale de desconto de 10 euros a utilizar na próxima compra em qualquer loja Bertrand do país).

Mais uma pilha de livros e, desta feita, um pouco mais de atenção. A vida não está fácil. De hora a hora somos bombardeados com notícias da derrocada do sistema financeiro mundial. Visões apocalípticas de fazer corar João, o Evangelista. Sérias predições, para uns, uma convicção firmada, para outros, sobre o fim de uma civilização a pedir meças a um universo ficcional huxliano, com laivos de uma veia pirómana de feição bradburiana, e de uma luta desesperada pela sobrevivência, de proporções cataclísmicas, tipicamente wellesiana.
(Prioridade nacional: há que garantir os depósitos da imensa… minoria que conseguiu aforrar – curioso que, por estas bandas, o verbo se transmute numa antonímia insuperável: torrar, derreter, desfazer-se. Há que injectar dinheiro no sistema bancário de forma discricionária e, assim, garantir a manutenção do sistema de compensação aos executivos que, por uma engenharia financeira, estatutária e de aquisição de almas auditoras, aliada a uma pequena desatenção dos reguladores dos mercados, conseguem, anual ou trimestralmente, escapar ao controlo dos accionistas.)

Dada a evidente excitação que o assunto suscitou na minha aquecida alma, o parágrafo anterior surge delimitado por parêntesis, ou seja, é de todo dispensável – prática que poderia ser, perfeitamente, extensível ao parágrafo anterior… ou quiçá ao próprio blogue dada a irrelevância de conteúdo, que se agiganta de dia para dia.

Ponto de ordem: dizia eu, “a vida está cara”. E se me prometem 20% de desconto sobre a aquisição de qualquer bem ou serviço, eu quero, com toda a força que a lei e a ética comercial me concedem, aproveitar e beneficiar desse quinto de generosidade provindo do fornecedor do bem ou do prestador do serviço. Mas há quintos e quintos, até o dos infernos, eis a história do João, (que não tem que ver com o de cima, o tal das trombetas), este é garagista:
O João, munido do seu cartão de leitor e aproveitando a hora de intervalo para o almoço, deslocou-se, de desperdício no bolso, a uma loja Bertrand no dia 13 de Outubro de 2008, pelas 13 horas e 5 minutos. Decorridos 22 minutos e 37 segundos apresentou-se à caixa registadora – e, acrescente-se, após haver constatado que a última edição da revista Ler, que por coincidência pertence ao mesmo grupo proprietário da livraria, ainda não estava disponível, apesar de o tal número ter saído para as bancas na passada sexta-feira – com uma pilha de livros que perfazia o total de 50 euros (três mulheres de fibra – All-Bran –, um xaroposo criativo e uma ave rara: Modignani, MRP®, Allende, Sparks e o consultório, estilo Bruxo de Viena, condensado em livro, sem calva e bigode, do Dr. Phil; ainda pensou no Arquipélago da Insónia mas já havia lido, pelo menos, um dos livros do autor pós Exortação aos Crocodilos, fac-símiles do que se lhe seguiu, e fez lembrar-lhe o recentemente desaparecido Aleksandr e a tortura e essas coisas sem sentido – cabeça em ebulição esta, a do nosso rapaz).

No documento de liquidação/pagamento estavam inscritas as seguintes parcelas:

  • V. Total – 50,00 € (valor bruto)


  • Desconto – 5,00 €


  • A Pagar – 45,00 € (valor líquido)


  • Pontos obtidos com a venda: 675 (ou seja, 45 € x 15 pts./€)

Ora, como 1500 pontos correspondem a 10 euros, então 675 pontos correspondem a 4,50 euros.
Em resumo, o desconto total saldou-se por 9,50 euros (5 € + 4,50 €) que corresponde a 19% do valor bruto da compra, 50 euros.

Na prática a Bertrand aplica uma fórmula de desconto de “10% + 10%” na campanha mensal das “segundas segundas-feiras” e nunca os publicitados “20%”. Em boa verdade vos digo, nem sempre “10+10” é igual a “20”, e bastaria apenas um pouco de boa vontade: retiraria da lama essa ciência exacta proscrita que se chama Matemática e limpava, ai se não limpava!, a honra esmaecida da casa germanico-hispano-lusa.

Pobre João. Enervado com a argumentação… meramente interior – uma vez que é rapaz tímido e jamais levantaria a voz para exigir os seus direitos sem um austero e reivindicativo agente sindical por perto –, ainda tropeça nas placas de sensores de alarme à porta da livraria e estraçalha, por um qualquer gesto amaneirado, exagerado e insólito, o último romance do prolífico Sparks, Um Homem com Sorte… Ah, tudo se resolveria não fosse a seguradora ter falido… Maldito mercado!

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

As Bruxas Enviuvaram

O provocante, arrebatador e célebre trio formado por Alexandra, Jane e Sukie – meninas agora enviuvadas por um defeito da sua malignidade –, regressou ao sortilégio histérico pela pena (por vezes misógina, daí o histerismo aqui explícito, e por lá subliminar) de John Updike, que há vinte e quatro anos publicou As Bruxas de Eastwick (The Witches of Eastwick, 1984) – obra editada em Portugal em 1987 pela Gradiva, que, de forma incompreensível e sobremaneira irritante, se encontra esgotada há anos no nosso mercadozinho editorial.

A obra será lançada na próxima semana nos Estados Unidos, e se provas faltassem quanto à comunicabilidade intercultural e às versatilidade e desinsularidade literárias de Updike, atente-se na sua vasta obra, que vai desde a crónica da conturbada vida familiar americana – recordemo-nos, por exemplo, da tetralogia do Coelho e do romance provocador e, à época, fracturante Casais Trocados (Couples, 1968) – aos meandros da política e dos meios artístico e literário, até aos grandes temas que preocupam ou preocuparam a população americana, como o terrorismo, o fundamentalismo assassino das seitas religiosas davidianas, e até, diga-se para que honra lhe seja feita, da condição feminina, chegando ao puro domínio da fábula e da fantasia onde As Bruxas de Eastwick e o extraordinário e inesquecível romance Brasil (Brazil, 1994) são o seu expoente máximo.

Quem me visita e tem paciência para ler os meus textos, já o sabe: sou um admirador da ficção norte-americana contemporânea e, em particular, da de John Updike. De todas as suas obras por onde passaram os meus olhos de leitor atento – e, acreditem, trata-se já de uma parte substancial do seu catálogo romanesco que foi publicado em português –, apenas Procurai a Minha Face (Seek My Face, 2002) e O Terrorista (The Terrorist, 2006) abalaram as já firmes expectativas de um updikiano convicto. Ambas, e refiro-o com alguma frustração (felizmente curável), ficaram abaixo do nível de perfeição e de rigor estético que o autor da Pensilvânia nos habituou, e foi apenas isso, não se devendo a qualquer irrupção varicosa de má qualidade literária.
Por publicar, em Portugal, está a totalidade da sua poesia, dos seus contos e, mais importante e simultaneamente frustrante, todos os seus ensaios sobre arte e literatura, e principalmente o seu aclamado livro de memórias, publicado em 1989, Self-Consciousness – situação que, no meu caso, poderia ser de fácil resolução, não fora a minha teimosia de não ler em inglês nas horas de lazer pelo seu forte odor a trabalho e pelos sinais mentais de alerta de vivificação da desejadamente adormecida rotina quotidiana.

Sem mais delongas, aqui fica o início traduzido – pois claro – do romance que Updike publicou aos 76 anos:

«O conventículo reconstituído

Aqueles que entre nós estão a par da sua história sórdida e escandalosa não ficarão surpreendidos se ouvirem, mediante os rumores provenientes dos mais diversos locais onde as feiticeiras assentaram arraiais depois de escaparem da nossa venerável vila de Eastwick, Rhode Island, que os maridos que as três infames mulheres, através das suas artes negras, forjaram para elas próprias, não se revelaram duradouros. Métodos ruins fabricam produtos ruinosos. Satanás, claro, falsifica a Criação, mas através de deuses inferiores.
»
John Updike, The Widows of Eastwick (2008) [tradução: AMC]

domingo, 12 de outubro de 2008

Temível Aurora

«Quando acordei, vi a luz do amanhecer através dos buracos da persiana. Vinha tão de dentro da noite que tive uma espécie de vómito de mim mesmo, o espanto de encarar o novo dia com a mesma apresentação, a sua indiferença mecânica de sempre: consciência, sensação de luz, abrir os olhos, o nascer do dia.
«Nesse instante, medi o horror que tanto maravilha e seduz as religiões com a omnisciência do semi-adormecido: a perfeição eterna do cosmos, a revolução interminável do planeta sobre o seu eixo. Náusea, sensação insuportável de coacção. Estou obrigado a suportar que o sol apareça todos os dias. É monstruoso. É desumano.»
Julio Cortázar, O jogo do mundo (Rayuela), pág. 423.
[Lisboa: Cavalo de Ferro, 1.ª edição, Abril de 2008, 631 pp.; tradução de Alberto Simões; obra original: Rayuela, 1963]

Perpetuidade

«Quando tiveres a minha idade, dar-te-ás conta disso. Na minha idade, se levares às costas todas as tristezas que viste na vida, não te conseguirás levantar da cama todas as manhãs.»
John Updike, Coelho Enriquece, pág. 404.
[Porto: Civilização, Setembro de 2008, 498 pp.; tradução de Carmo Romão; obra original: Rabbit is Rich, 1981]

Salto no escuro

«Às vezes dá-se o caso de não se conhecer aquilo que obscuramente se deseja, mas sabe-se que se vai falhar o alvo; e então, deixa-se a vida escoar-se como num quarto trancado onde impera o medo.»
Robert Musil, “A tentação de Verónica, a serena”, in op. cit., pág. 198.

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Rumo

«Há uma fase na vida em que esta abranda de forma nítida, como se hesitasse entre continuar ou alterar o seu rumo. É possível que nesta fase seja mais fácil o azar vir ao nosso encontro.»
Robert Musil, “Grigia”, in A portuguesa e outras novelas, pág. 11.

[Lisboa: Dom Quixote, 1.ª edição, Setembro de 2008, 230 pp. (novela: pp. 11-40); tradução de Maria Antónia Amarante; obra original (reunião de duas obras): Zwei Erzählungen, 1911; Drei Frauen, 1924.]

O abrandamento é o próprio prenúncio, seja ele imposto ou auto-induzido, de que o azar virá, travestido de mudança, ataviado de promessas, mesmo que exista a sensação de continuidade do rumo, obstinada e integramente, traçado num passado mais ou menos recente.
Há um desvio, na maioria das vezes imperceptível numa análise ex post facto, e indetectável no aqui e agora. Não, nunca mais. Já não iremos calcorrear as mesmas pedras ou saltar os mesmos obstáculos.
Porém, o azar é apenas desresponsabilização: se melancolia, é um vício que se vai alimentando de autojustificações até à inacção pulverizadora daqueles que nos amam; se infelicidade, é um grito surdo de desespero, uma súplica dilacerante para o alijamento final para não os magoar.

Caeteris paribus: a melancolia é uma variante do egoísmo que se desenvolve até ao estádio máximo da ruína ou da destruição, caminha por fim como uma alma penada de eremitério em eremitério, cristalizada no tempo; a infelicidade, ao invés, é a própria ruína, procura rapidamente um acto de altruísmo, sem qualquer tipo de dissimulação, para que o tempo apague os despojos dessa destruição.

É fácil ser-se feliz na melancolia, mas é um contra-senso ser-se melancólico na infelicidade.

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

O Nobel ficou em França

Depois da expectativa, quiçá deliberadamente criada pelo inefável Secretário permanente da Academia Sueca, eis o Prémio Nobel da Literatura de 2008:

J.M.G. Le Clézio


Jean-Marie Gustave Le Clézio
(n. 1940, Nice, França, a 13 de Abril)


«Autor de novas paragens, aventura poética e êxtase sensual, explorador de uma humanidade mais além e subjacente à civilização dominante.» [tradução: AMC]


Obras de J.M.G. Le Clézio editadas em Portugal:

  • O Processo de Adão Pollo (Le Procès-verbal, 1963), obra editada pela Europa-América - 1.ª obra do autor, vencedora do prestigiado prémio literário francês Renaudot;
  • A febre (La fièvre, 1965), obra editada pela Ulisseia – contos e narrativas;
  • Índio branco (Haï, 1971), obra editada pela Fenda;
  • Deserto (Désert, 1980), obra editada pela Dom Quixote;
  • O caçador de tesouros (Le chercheur d'or, 1985), obra editada pela Assírio & Alvim;
  • Estrela errante (Étoile errante, 1992), obra editada pela Dom Quixote;
  • Diego e Frida (Diego et Frida, 1995), obra editada pela Relógio D'Água – não-ficção, biografia sobre a relação amorosa tempestuosa da pintora mexicana Frida Kahlo e o muralista mexicano Diego Rivera.

Nota: O Eduardo acertou em cheio e desperdiçou o "14/1" da casa de apostas britânica Ladbrokes (o Da Literatura contém uma mini-biografia).

O voto dos leitores


A vencer um norte-americano – resultado que me parece de todo improvável dadas as declarações de Engdahl na semana passada, e daí ter colocado este desafio, em forma de inquérito em linha, para eleger um escritor norte-americano (insular, não participante no grande diálogo da literatura mundial, em suma, um gentio provinciano) – a escassíssima comunidade de leitores deste blogue, votou:

  • Philip Roth (n. 1933), com 30% dos votos;
  • seguido do esquivo J.D. Salinger (n. 1919) e do literariamente brutal Cormac McCarthy (n. 1933), cada um obteve 15% das preferências.

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

O Nascimento de uma Nação [pub]

O poeta, ensaísta e professor universitário Mário Avelar apresentará o seu mais recente livro, com o título de inspiração griffitiana, O Nascimento de uma Nação – Nas origens da Literatura Americana.
(Nada mais a propósito quando se discute a valia da literatura norte-americana em resultado das palavras descabeladas do secretário permanente da Academia Sueca à Associated Press na semana passada.)
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A Fnac, as Edições Cosmos e o autor Mário Avelar, têm o prazer de o convidar para o lançamento do livro O Nascimento de uma Nação – Nas origens da Literatura Americana.

Quinta-feira, 16 de Outubro de 2008, pelas 18:30, na Fnac do Centro Comercial Vasco da Gama em Lisboa.

terça-feira, 7 de outubro de 2008

Depois de Revel, um remate com Gombrowicz

Witold GombrowiczFicaram coisas por dizer… ou melhor, por citar dos assomos de perplexidade de Jean-François Revel perante a sobranceria e a obstinação primária da elite intelectual europeia, em particular da francesa, perante a criação artística e filosófica norte-americana, infectada por um dogmatismo torpe que rejeita liminarmente qualquer tipo de manifestação política, económica, social, cultural e tecnológica provinda do outro lado do Atlântico.
Talvez insularidade concorde com globalização, ou imperialismo com ignorância (ou primitivismo). Possivelmente, noções como liberdade e democracia, pluralidade e livre iniciativa, se tenham transformado em conceitos tão desfasados que, à luz do espírito do europeu moderno e progressista, o caminho da libertação se dê pela opressão, aproximando, em síntese, o extremista racista e xenófobo do revolucionário antiglobalização. Perdeu-se a referência social por uma heteróclita fusão de ideologias. E Sempre o 11 de Setembro, para o melhor e para o pior, e o caso paradigmático daquilo que referi no parágrafo anterior, contado (ainda) por Revel à laia de demonstração: os festejos com champanhe de Le Pen e do seu inominável séquito na sede da Frente Nacional em Paris enquanto assistiam ao desmoronamento em directo das Torres Gémeas em Nova Iorque, e os apupos ao presidente da confederação sindical francesa CGT (equivalente à nossa CGTP-IN) quando, em 16 de Setembro de 2001, pretendia fazer três minutos de silêncio em memória das vítimas dos atentados ao WTC e ao Pentágono.

Termino com Gombrowicz [na imagem], postando um excerto de um deslumbrante prefácio ao seu conto «Filifor revestido de criança» [tradução livre], que dedico à Academia Sueca e, de forma especial e terna, ao seu secretário permanente Horace Engdahl:

«Meus senhores, existem sobre a terra sociedades mais ou menos ridículas, mais ou menos desonrosas, vergonhosas e humilhantes, e desta forma a quantidade de estupidez é igualmente variável. Assim, por exemplo, o meio dos cabeleireiros parece-me, à primeira vista, mais sujeito à imbecilidade que o meio dos sapateiros. Mas o que se passa no meio artístico do orbe supera todas as marcas da estupidez e da infâmia, a tal ponto que um homem normalmente decente e equilibrado não pode senão baixar o seu rosto inundado pelo suor da vergonha, perante essas orgias infantis e pretensiosas. Oh, esses cantos sublimes que ninguém escuta! Oh, as conversas lúcidas dos sabedores e o frenesim dos concertos e nas sessões de leitura de poesia, oh, aquelas iniciações íntimas e aquelas valorizações, discussões, e oh, os rostos dessas mesmas pessoas quando declamam ou escutam, celebrando entre si o santo mistério do belo! Por que dolorosa antinomia tudo o que vocês fazem ou dizem se converte, sob estas circunstâncias, em fantochada e vergonha? Se, com o passar dos séculos, uma sociedade cai em tais convulsões de imbecilidade, então, quase com toda a certeza, pode-se formular o juízo de que as suas ideias não correspondem à realidade, que, simplesmente, vive de ideias falsas. Já que, sem dúvida alguma, as vossas concepções artísticas constituem o cúmulo da ingenuidade conceptualista; e se querem saber como e em que sentido teríamos de as transformar, e qual deveria ser a concepção justa e não ridícula, eu poder-vos-ei dizê-lo de seguida, mas têm de apurar o ouvido.
«Na realidade, o que se imagina aquele que, nos nossos tempos, sente a vocação da pena, do pincel ou do clarinete? Ele, antes de tudo, quer ser artista. Quer criar arte. Anseia, então, através da beleza, da bondade e da verdade satisfazer-se a si mesmo e aos seus concidadãos, propõe-se a ser Vate, Bardo, Sacerdote e obsequiar com o seu ser os restantes, imolar-se no altar do sublime, procurando, em prol da humanidade, esse maná celestial tão desejado. Ao mesmo tempo, quer dedicar o seu Talento ao serviço da ideia e, talvez, conduzir a humanidade ou a nação a um melhor futuro. Que fins tão nobres! Que magníficos desígnios! Acaso não eram esses os fins e os desígnios de Shakespeare, Goethe, Beethoven ou Chopin? Mas aqui reside o problema, na realidade, vocês não são Chopins, nem Shakespeares, senão, no melhor dos casos, semi-Shakespeares e um quarto de Chopin (oh, as malditas partes de novo!) e, por conseguinte, essa atitude só põe a nu a vossa triste inferioridade e insuficiência, e iria parecer como se pretendessem, a toda a força, saltar para o pedestal em torpes saltos, pondo em perigo as mais sensíveis e preciosas partes do vosso corpo.»
Witold Gombrowicz, Ferdydurke, pp. 73-74
(Buenos Aires: Sudamericana, segunda edición, enero de 1983, 268 pp; tradução do polaco para castelhano: Witold Gombrowicz; obra original: Ferdydurke, 1937.)

[Nota: traduzido por AMC a partir da versão espanhola (Argentina), por sua vez traduzida do polaco pelo próprio autor em 1964.]

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Revel – II

E prossegue Revel com as suas perplexidades na obra já citada no texto anterior, num capítulo a que chamou «A pior sociedade que jamais existiu», recheado de algumas proposições injectadas de forma reiterada na opinião pública, sem qualquer tipo de contrastação, apenas sancionadas pelo tradicional ufanismo e verborreia narcísica de um grupelho de intelectuais que, engenhosamente, esconde o seu sectarismo primário e faz uso recorrente da falácia através do seu instrumento mais popular: o argumentum ad nauseam, por vezes mais bem descodificado como “a mentira nazi”.

«Replicando a um artigo de Jacques Julliard publicado no Libération, um certo Jean-Marc Adolphe, critica-o, no mesmo jornal por considerar a América uma democracia, quando obviamente não o é, uma vez que “reserva para os mais ricos o direito de cuidar da saúde e de envelhecer com dignidade”.
[…]
«Dando preferência aos termos vagos, o senhor Adolphe afirma que a América não pode ser uma democracia porque, segundo ele, é um país “onde tudo se compra e tudo se vende”. Mas que generalização mais audaciosa! Também gostaríamos de saber se a América é um país onde o poder dos juízes é excessivo, como tantas vezes se afirma, ou se não se trata mesmo de um Estado de direito. O direito existe, prossegue o senhor Adolphe, mas é o “direito dos produtores, que prevalece sobre o dos autores”. Que quererá isto dizer? Que nos Estados Unidos não há contratos editoriais? Que a propriedade literária e artística não está protegida? Que a história da literatura americana, tal como a do cinema, é um deserto, vazio de grandes criadores, de talentos originais, porque estes foram constantemente, reprimidos pelos “produtores”?
«As letras europeias não são as únicas a desprezar a literatura americana, à qual, no entanto, devem não só tantos temas inovadores como técnicas narrativas revolucionárias. O diário Asahi Shimbun, que realizou um inquérito de opinião entre escritores e filósofos japoneses, na sequência do 11 de Setembro, dá-nos conta não só de tendências políticas mais próximas dos terroristas islâmicos do que das suas vitimas, como também de críticas literárias eivadas de condescendência e de um sentimento de superioridade. O filósofo Yujiro Nakamura, por exemplo, escreve: “A cultura americana sempre dignificou a saúde física e mental e sempre desdenhou o que se dissimula na sombra da natureza humana: as fraquezas e as carências. [...] Quando os seres são fracos, ela ignora-os, pois trata-se de uma dimensão humana que não se pode colocar ao serviço da produtividade e da eficiência. Semelhante civilização veicula uma visão unidimensional do mundo que suprime a sensibilidade para com o abismo de sombras que os outros homens trazem consigo.”
É evidente que o senhor Nakamura nunca leu Melville, nem Poe, nem Hawthorne, nem Henry James, nem Faulkner, nem Tennessee Williams, nem
The Crack up de Scott Fitzgerald, para citar apenas alguns autores.
[…]
«Além de tudo o mais, os escritores americanos são muito mais críticos em relação à sua própria sociedade do que proclamam os papagaios do antiamericanismo, sejam eles japoneses, franceses, ou quaisquer outros. Especialmente no período entre 1865 e 1914, ou seja, desde o fim da Guerra de Secessão até ao início da Primeira Guerra Mundial, e que é designado por Gilded Age, que se poderia traduzir por “idade do caroço”, vêem-se surgir vários romancistas que denunciam a sociedade como corrupta, vulgar, inculta, materialista e hipocritamente puritana. É o tempo de Frank Norris, de Theodore Dreiser, de Upton Sinclair e de Sinclair Lewis, cujos romances são outros tantos libelos acusatórios tão cáusticos para com a sociedade americana como o foram os mais negros dos romances de Zola em relação à sociedade francesa da mesma época. Os temas tratados por estes autores são frequentemente produto de investigações jornalísticas escrupulosas na procura dos factos e sem recurso a eufemismos na formulação das ilações a retirar, o que é mais uma criação da cultura americana. Na altura, estes jornalistas eram apodados de muckrackers (literalmente “agitadores da lama”). No entanto, esta veia literária não se esgotou em 1914, bastando para isso mencionar, entre as duas guerras, a obra de John dos Passos, tendo-se prolongado para além da Segunda Guerra Mundial, como demonstram as obras de John Updike e de Tom Wolfe.»
Jean-François Revel, A obsessão antiamericana, pp. 105-107.
[Lisboa: Bertrand, Dezembro de 2002, 225 pp; tradução de Victor Antunes; obra original: L'obsession anti-américaine, 2002]

domingo, 5 de outubro de 2008

Revel – I

Jean-François RevelSem mais, e tal como prometi, as palavras do escritor, jornalista, ensaísta e filósofo francês Jean-François Revel (1924-2006), membro da Academia Francesa, no lugar que hoje é ocupado por Max Gallo (cadeira outrora ocupada, por exemplo, por La Fontaine ou por Poincaré), ex-militante socialista e director da revista semanal L’Express, genro de Nathalie Sarraute (casou com a sua filha Claude), publica em 1970 o seu grande ensaio de ruptura com o seu passado socialista, que culpa de indulgente para com o comunismo soviético, Nem Marx Nem Jesus (Ni Marx ni Jésus : De la seconde révolution américaine à la seconde révolution mondiale), denunciando a elite europeia e o seu antiamericanismo primário.
Nas suas palavras:


«Repisa-se constantemente que o terrorismo antiamericano se explica, se justifica mesmo, pela “pobreza crescente” que o capitalismo espalha pelo mundo através da globalização orquestrada pelos Estados Unidos. É o tema que circula nos círculos Attac, na revista Politis, no seio dos Verdes alemães, no meio dos intelectuais latino-americanos e de diversos editorialistas franceses. Mesmo nos Estados Unidos, a extrema-esquerda (Radical Left) organizou manifestações para a divulgação desse slogan. É também a convicção do célebre juiz Baltasar Garzon (El País, 3 de Outubro de 2001), para quem um crime só é um crime se tiver sido cometido por Pinochet, tal como do Prémio Nobel, Dario Fo (Corriere della Sera, 15 de Setembro de 2001), que então escreveu: “Que são os vinte mil mortos de Nova Iorque (sic) comparados com os milhões de vítimas que caem cada ano às mãos dos especuladores?” A atribuição do Prémio Nobel da Literatura a uma nulidade como Dario Fo já tinha levantado dúvidas sobre a competência da Academia de Estocolmo na matéria. Finalmente, o equívoco foi dissipado: o prémio que lhe queriam na realidade atribuir era o da economia.»
Jean-François Revel, A obsessão antiamericana, pp. 84-85.
[Lisboa: Bertrand, Dezembro de 2002, 225 pp; tradução de Victor Antunes; obra original: L'obsession anti-américaine, 2002]

sábado, 4 de outubro de 2008

Insulares, ignorantes e provincianos

DeLillo, McCarthy, Pynchon, Roth e Updike
Estes acima bem podem esperar. Horace Engdahl já os sentenciou ao olvido da Academia Sueca, por muitos livros que vendam, por muitos encómios que lhes dirija a crítica literária, por muito estudados que sejam nos bancos da universidade, nos cursos de filologia e nas inúmeras teses sobre a literatura americana.
É apenas o Nobel, o prémio máximo da literatura mundial que condecora a carreira de um escritor, que lhe dedicou, de corpo e alma, uma vida... mas não é o fim do mundo.
Aquele quinteto nascido na década de 30 do século passado, por azar Nobel criado em terras do Tio Sam, não necessita desse género de honrarias snobes de uma chusma de pedantes suecos colocados na sua torre de marfim, onde mora uma sala bafienta e anquilosada da elite nórdica das letras.
O quinteto é realmente apreciado por leitores e literatos de todo o mundo, mesmo por aqueles que tolamente costumam desdenhar de tudo o que seja americano, esquecendo-se que as suas vidinhas enfadonhas são quotidianamente assaltadas por algo que está directamente relacionado com a maior democracia do mundo.
Uma democracia com defeitos, pois claro. Apontados com toda a legitimidade e em primeiro lugar pelos seus filhos. Leiam-se as obras mais representativas do quinteto. São os primeiros a apontar o dedo aos exageros e aos contrastes da sociedade americana, à politica governamental tanto interna como externa. Todavia, une-os um sentimento de pertença a um todo heterogéneo que acolheu uma série de raças, crenças e ideologias, e é isto que alguns europeus não perdoam, perdidos nas mesquinhas rivalidades ancestrais entre povos no mesmo território.
O grande inimigo é a maior democracia do mundo. O desnazificador da Europa, o escudo contra o retrocesso primitivista da barbárie comunista da União Soviética. O governo que Pinter acusou de genocídio e de gerador de todos os males do mundo, o país que Dario Fo chamou de império do mal, a nação que Lessing chamou de histérica pela recordação comovida dos milhares de civis inocentes mortos no 11 de Setembro… e Grass e Saramago e Gordimer
Os esquerdistas europeus não gostam de Roth, desconhecendo a sua militância esquerdista – o que pensarão de DeLillo ou do mais radical Gore Vidal?
É verdade, não suporto aqueles intelectuais da treta que ostentam ou ostentaram a foice e o martelo, pertencem ou pertenceram a partidos que os exibem ou exibiam com um orgulho impune. O símbolo sob o qual se mataram inocentes pelos ideólogos Lenine e Trotsky entre 1917 e 1924, o Terror Vermelho, a Tchéka, o KGB, os gulags, Estaline, Pol Pot, Mao Tsé-Tung, Ceausescu, e que continua a figurar sem condenação nas bandeiras de alguns sectários que se alimentam das democracias ocidentais. A “suástica metamorfoseada, vermelha e dourada” que legitimamente continua entrar-nos pela casa dentro com uma indiferença amnésica da barbárie comunista.
Mas somos avessos a insulares e a provincianos. Exprobramos os ignorantes da iridescência cultural que pinta o mundo – mas não queremos misturas, nem multiculturalismo, nem liberdade religiosa, nem véus, nem memórias coloniais, nem capitalismo e nem tão-pouco um mercado livre e despojado de paternalismos vomitados por uma elite intelectual.

A seguir, ou seja, quando houver tempo, um pouco de Jean-François Revel.

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

Nobel da Literatura 2008

Já foi divulgada a data para o anúncio do vencedor do Prémio Nobel da Literatura de 2008. Será no próximo dia 9 de Outubro, quinta-feira, ao meio-dia (hora de Lisboa).
De acordo com a casa de apostas online Ladbrokes, perfilam-se nos primeiros lugares (ordenados pela maior probabilidade de ocorrência) os seguintes candidatos:

1.º) Claudio Magris (Itália, 1939) – 3/1
2.º) Adonis (Síria, 1930; Líbano) – 4/1 (poesia)
3.º) Amos Oz (Israel, 1939) – 5/1
----- Joyce Carol Oates (EUA, 1939) – 5/1
----- Philip Roth (EUA, 1933) – 5/1
6.º) Don DeLillo (EUA, 1936) – 7/1
----- Haruki Murakami (Japão, 1949) – 7/1
----- Les Murray (Austrália, 1938) – 7/1 (poesia)
9.º) Yves Bonnefoy (França, 1923) – 10/1 (poesia e ensaio)
10.º) Inger Christensen (Dinamarca, 1935) – 14/1
----- J.M.G. Le Clézio (França, 1940) – 14/1
----- Michael Ondaatje (Sri Lanka, 1943; Canadá) – 14/1
----- Thomas Pynchon (EUA, 1937) – 14/1

Alguns dos autores mais lidos em Portugal aparecem com as seguintes probabilidades associadas:

  • Kadaré / Vargas Llosa – 20/1;
  • M. Atwood – 33/1;
  • Munro / Tabucchi / C. Fuentes / Kundera / P. Carey / U. Eco – 40/1;
  • Achebe / C. McCarthy / McEwan / Updike – 50/1;
  • A.S. Byatt / Rushdie – 66/1;
  • Doctorow / Banville / J. Barnes / M. Tournier / J. Littell / Auster – 100/1

Até à data do anúncio, irá figurar na coluna do lado direito deste blogue um pequeno inquérito – que, diga-se, dada a sua cada vez mais reduzida audiência, jamais gozará de qualquer tipo de representatividade, a não ser a minha própria –, inquérito que apenas incluirá autores norte-americanos.
Facto: o ano de 1993 foi o último em que a inescrutável Academia Sueca resolveu galardoar com o Nobel da Literatura um autor proveniente dos Estados Unidos da América. O prémio foi atribuído à escritora Toni Morrison.
Quem me lê decerto não estranhará a inclusão deste inquérito assaz selectivo, uma vez que conhece a minha especial predilecção pela literatura norte-americana contemporânea.
Assim, na lista sujeita a votação será incluído o quarteto bloomiano (Roth, Pynchon, McCarthy e DeLillo), tal como outros nomes que considero relevantes no actual panorama da literatura norte-americana.
O que não se consegue compreender, para além de um primarismo antiamericano e de um desconhecimento grotesco da literatura da segunda metade do século XX e da contemporânea que se produziu e produz do outro lado do Atlântico, são as declarações de Horace Engdahl secretário permanente da Academia Sueca à Associated Press:

«O Estados Unidos estão bastante isolados, demasiado insulares. Eles não traduzem o suficiente e, na realidade, não participam no grande diálogo da literatura. (…) Essa ignorância é uma condicionante.» [tradução: AMC]

Para parecer um Chávez secundado pela dupla Putin/Medvedev só faltou apelidar a literatura norte-americana e os seus autores de diabo.

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

No dia em que...

Ajax Alçada, apeltroada em estivália sofocleira, tentou vitimolar-se em directo, entre lacrimúrias e tremulonias, perante analição certeira do sublipelidado Odisseu Viegas, teria merecido deste a bofeítação dos esproémios de Evohé Cortázar, mas em Português-Glíglico:

«Mal ele lhe amouvava o noema, o clémiso acumulava-se nela e os dois caíam em hidromúrias, em selvagens ambónios, em sústalos desesperantes. Sempre que ele tentava relamar os incupelos, perdia-se numa grimúria queixosa e tinha que inrolver-se com a cara contra o nóvalo, sentindo como as arnilhas se iam espelhunando pouco a pouco, apeltroando-se e reduprimendo-se até ficarem esticadas como o trimalciato de ergomanina sobre o qual se deixaram cair umas fílulas de cariacôncia. E no entanto aquilo era apenas o princípio, porque a certa altura ela tordulava-se os hurgálios, permitindo que ele aproximasse suavemente os seus orfelúnios. Assim que se entreplumavam, algo como um ulicórdio encristorava-os, extrajustava-os e paramovia-os, de repente surgia o clinão, a esterfurosa convulcante das mátricas, a jadescorrente nabocaplúvia do orgúmio, os espróemios do merpasmo numa suprahumítica agopausa. Evohé! Evohé! Volpousados na cresta do murélio, sentiam-se balparamar, porlinhos e márulos. Tremia o troc, venciam-se as marioplumas, e tudo se resolvirava num pínice profundo, em niolamas de gases argutensos, em carínias quase cruéis que os ordorreavam até ao limite das suas gúnfias.»
Julio Cortázar, O Jogo do Mundo (Rayuela), Capítulo 68, pág. 425
[Lisboa: Cavalo de Ferro, 1.ª edição, Abril de 2008, 632 pp; tradução de Alberto Simões; obra original: Rayuela, 1963]

Pertence ao cânone, cara e desvalorizada – talvez exista aqui uma contradição – Alçadajax.

Eis o capítulo 68 de Rayuela na voz do próprio autor argentino, embora em Espanhol-Glíglico:

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

«Só perdemos três pontos…»

Arsenal - FC Porto (30/09/2008)
É esta a mentalidade. A frieza dos números. Os três pontos perdidos numa exibição miserável de uma equipa que, só por acaso, envergava a camisola com o emblema de um clube que já por duas vezes venceu a Taça dos Campeões.
Não é que não possa acontecer. Ele há dias maus. O que dificilmente poderei aceitar como adepto e sócio do clube há quase trinta e três anos é o discurso da mediocridade, da desculpabilização do indesculpável, da legitimação da incompetência, da vergonha.
E foram só quatro…
Mas se fossem dez ou onze tudo leva a crer que a arengada passiva pós-coital se manteria. A equipa é jovem, o ambiente foi terrível, jogou-se bem até ao primeiro golo sofrido… depois, foi só deixar correr o marfim… por um ou por vinte, que importa?
Jamais aceitarei um discurso desta estirpe que, mais do que a derrota, me revolve as entranhas e deixa num estado de náusea perante a pequenez.
Não se pode apelar à compra dos lugares anuais, ao Dragão cheio, ao apoio incondicional da equipa e/ou à paciência dos adeptos com comportamentos destes. Está longe das expectativas criadas no fervoroso adepto no início de cada época.
Se o discurso é legítimo, e ademais tacitamente sancionado pelos emudecidos dirigentes do meu clube do coração, então que se tenha a coragem de abandonar de vez a competição internacional, dedicando-se a prestar os serviços mínimos na competiçãozinha interna, onde se reina com um só olho (que enfrenta sérios riscos de perder irremediavelmente a visão).
Está em causa o nome de um clube construído com sangue, suor e lágrimas ao longo das últimas décadas… respeitado e temido.
A resignação… melhor, a demagogia (para ser brando) da matemática dos três pontos perdidos tem de ser severamente repreendida, sob pena de a perda transformar um clube, que, acrescente-se, também é uma sociedade anónima que pretende a valorização dos seus activos e a maximização do valor dos seus accionistas, numa entidade que não se dá ao respeito, moralmente espúria, indigente e degradada.
Em suma, o mal está feito, é uma evidência, mas argumentar com a matemática sem que, rápida e reflectidamente, se exprobre a argumentação, apenas servirá para perpetuar o crime sem castigo.

[Imagem a partir da capa da edição de 01/10/2008 do jornal O Jogo]