domingo, 12 de outubro de 2008

Salto no escuro

«Às vezes dá-se o caso de não se conhecer aquilo que obscuramente se deseja, mas sabe-se que se vai falhar o alvo; e então, deixa-se a vida escoar-se como num quarto trancado onde impera o medo.»
Robert Musil, “A tentação de Verónica, a serena”, in op. cit., pág. 198.

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Rumo

«Há uma fase na vida em que esta abranda de forma nítida, como se hesitasse entre continuar ou alterar o seu rumo. É possível que nesta fase seja mais fácil o azar vir ao nosso encontro.»
Robert Musil, “Grigia”, in A portuguesa e outras novelas, pág. 11.

[Lisboa: Dom Quixote, 1.ª edição, Setembro de 2008, 230 pp. (novela: pp. 11-40); tradução de Maria Antónia Amarante; obra original (reunião de duas obras): Zwei Erzählungen, 1911; Drei Frauen, 1924.]

O abrandamento é o próprio prenúncio, seja ele imposto ou auto-induzido, de que o azar virá, travestido de mudança, ataviado de promessas, mesmo que exista a sensação de continuidade do rumo, obstinada e integramente, traçado num passado mais ou menos recente.
Há um desvio, na maioria das vezes imperceptível numa análise ex post facto, e indetectável no aqui e agora. Não, nunca mais. Já não iremos calcorrear as mesmas pedras ou saltar os mesmos obstáculos.
Porém, o azar é apenas desresponsabilização: se melancolia, é um vício que se vai alimentando de autojustificações até à inacção pulverizadora daqueles que nos amam; se infelicidade, é um grito surdo de desespero, uma súplica dilacerante para o alijamento final para não os magoar.

Caeteris paribus: a melancolia é uma variante do egoísmo que se desenvolve até ao estádio máximo da ruína ou da destruição, caminha por fim como uma alma penada de eremitério em eremitério, cristalizada no tempo; a infelicidade, ao invés, é a própria ruína, procura rapidamente um acto de altruísmo, sem qualquer tipo de dissimulação, para que o tempo apague os despojos dessa destruição.

É fácil ser-se feliz na melancolia, mas é um contra-senso ser-se melancólico na infelicidade.

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

O Nobel ficou em França

Depois da expectativa, quiçá deliberadamente criada pelo inefável Secretário permanente da Academia Sueca, eis o Prémio Nobel da Literatura de 2008:

J.M.G. Le Clézio


Jean-Marie Gustave Le Clézio
(n. 1940, Nice, França, a 13 de Abril)


«Autor de novas paragens, aventura poética e êxtase sensual, explorador de uma humanidade mais além e subjacente à civilização dominante.» [tradução: AMC]


Obras de J.M.G. Le Clézio editadas em Portugal:

  • O Processo de Adão Pollo (Le Procès-verbal, 1963), obra editada pela Europa-América - 1.ª obra do autor, vencedora do prestigiado prémio literário francês Renaudot;
  • A febre (La fièvre, 1965), obra editada pela Ulisseia – contos e narrativas;
  • Índio branco (Haï, 1971), obra editada pela Fenda;
  • Deserto (Désert, 1980), obra editada pela Dom Quixote;
  • O caçador de tesouros (Le chercheur d'or, 1985), obra editada pela Assírio & Alvim;
  • Estrela errante (Étoile errante, 1992), obra editada pela Dom Quixote;
  • Diego e Frida (Diego et Frida, 1995), obra editada pela Relógio D'Água – não-ficção, biografia sobre a relação amorosa tempestuosa da pintora mexicana Frida Kahlo e o muralista mexicano Diego Rivera.

Nota: O Eduardo acertou em cheio e desperdiçou o "14/1" da casa de apostas britânica Ladbrokes (o Da Literatura contém uma mini-biografia).

O voto dos leitores


A vencer um norte-americano – resultado que me parece de todo improvável dadas as declarações de Engdahl na semana passada, e daí ter colocado este desafio, em forma de inquérito em linha, para eleger um escritor norte-americano (insular, não participante no grande diálogo da literatura mundial, em suma, um gentio provinciano) – a escassíssima comunidade de leitores deste blogue, votou:

  • Philip Roth (n. 1933), com 30% dos votos;
  • seguido do esquivo J.D. Salinger (n. 1919) e do literariamente brutal Cormac McCarthy (n. 1933), cada um obteve 15% das preferências.

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

O Nascimento de uma Nação [pub]

O poeta, ensaísta e professor universitário Mário Avelar apresentará o seu mais recente livro, com o título de inspiração griffitiana, O Nascimento de uma Nação – Nas origens da Literatura Americana.
(Nada mais a propósito quando se discute a valia da literatura norte-americana em resultado das palavras descabeladas do secretário permanente da Academia Sueca à Associated Press na semana passada.)
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A Fnac, as Edições Cosmos e o autor Mário Avelar, têm o prazer de o convidar para o lançamento do livro O Nascimento de uma Nação – Nas origens da Literatura Americana.

Quinta-feira, 16 de Outubro de 2008, pelas 18:30, na Fnac do Centro Comercial Vasco da Gama em Lisboa.

terça-feira, 7 de outubro de 2008

Depois de Revel, um remate com Gombrowicz

Witold GombrowiczFicaram coisas por dizer… ou melhor, por citar dos assomos de perplexidade de Jean-François Revel perante a sobranceria e a obstinação primária da elite intelectual europeia, em particular da francesa, perante a criação artística e filosófica norte-americana, infectada por um dogmatismo torpe que rejeita liminarmente qualquer tipo de manifestação política, económica, social, cultural e tecnológica provinda do outro lado do Atlântico.
Talvez insularidade concorde com globalização, ou imperialismo com ignorância (ou primitivismo). Possivelmente, noções como liberdade e democracia, pluralidade e livre iniciativa, se tenham transformado em conceitos tão desfasados que, à luz do espírito do europeu moderno e progressista, o caminho da libertação se dê pela opressão, aproximando, em síntese, o extremista racista e xenófobo do revolucionário antiglobalização. Perdeu-se a referência social por uma heteróclita fusão de ideologias. E Sempre o 11 de Setembro, para o melhor e para o pior, e o caso paradigmático daquilo que referi no parágrafo anterior, contado (ainda) por Revel à laia de demonstração: os festejos com champanhe de Le Pen e do seu inominável séquito na sede da Frente Nacional em Paris enquanto assistiam ao desmoronamento em directo das Torres Gémeas em Nova Iorque, e os apupos ao presidente da confederação sindical francesa CGT (equivalente à nossa CGTP-IN) quando, em 16 de Setembro de 2001, pretendia fazer três minutos de silêncio em memória das vítimas dos atentados ao WTC e ao Pentágono.

Termino com Gombrowicz [na imagem], postando um excerto de um deslumbrante prefácio ao seu conto «Filifor revestido de criança» [tradução livre], que dedico à Academia Sueca e, de forma especial e terna, ao seu secretário permanente Horace Engdahl:

«Meus senhores, existem sobre a terra sociedades mais ou menos ridículas, mais ou menos desonrosas, vergonhosas e humilhantes, e desta forma a quantidade de estupidez é igualmente variável. Assim, por exemplo, o meio dos cabeleireiros parece-me, à primeira vista, mais sujeito à imbecilidade que o meio dos sapateiros. Mas o que se passa no meio artístico do orbe supera todas as marcas da estupidez e da infâmia, a tal ponto que um homem normalmente decente e equilibrado não pode senão baixar o seu rosto inundado pelo suor da vergonha, perante essas orgias infantis e pretensiosas. Oh, esses cantos sublimes que ninguém escuta! Oh, as conversas lúcidas dos sabedores e o frenesim dos concertos e nas sessões de leitura de poesia, oh, aquelas iniciações íntimas e aquelas valorizações, discussões, e oh, os rostos dessas mesmas pessoas quando declamam ou escutam, celebrando entre si o santo mistério do belo! Por que dolorosa antinomia tudo o que vocês fazem ou dizem se converte, sob estas circunstâncias, em fantochada e vergonha? Se, com o passar dos séculos, uma sociedade cai em tais convulsões de imbecilidade, então, quase com toda a certeza, pode-se formular o juízo de que as suas ideias não correspondem à realidade, que, simplesmente, vive de ideias falsas. Já que, sem dúvida alguma, as vossas concepções artísticas constituem o cúmulo da ingenuidade conceptualista; e se querem saber como e em que sentido teríamos de as transformar, e qual deveria ser a concepção justa e não ridícula, eu poder-vos-ei dizê-lo de seguida, mas têm de apurar o ouvido.
«Na realidade, o que se imagina aquele que, nos nossos tempos, sente a vocação da pena, do pincel ou do clarinete? Ele, antes de tudo, quer ser artista. Quer criar arte. Anseia, então, através da beleza, da bondade e da verdade satisfazer-se a si mesmo e aos seus concidadãos, propõe-se a ser Vate, Bardo, Sacerdote e obsequiar com o seu ser os restantes, imolar-se no altar do sublime, procurando, em prol da humanidade, esse maná celestial tão desejado. Ao mesmo tempo, quer dedicar o seu Talento ao serviço da ideia e, talvez, conduzir a humanidade ou a nação a um melhor futuro. Que fins tão nobres! Que magníficos desígnios! Acaso não eram esses os fins e os desígnios de Shakespeare, Goethe, Beethoven ou Chopin? Mas aqui reside o problema, na realidade, vocês não são Chopins, nem Shakespeares, senão, no melhor dos casos, semi-Shakespeares e um quarto de Chopin (oh, as malditas partes de novo!) e, por conseguinte, essa atitude só põe a nu a vossa triste inferioridade e insuficiência, e iria parecer como se pretendessem, a toda a força, saltar para o pedestal em torpes saltos, pondo em perigo as mais sensíveis e preciosas partes do vosso corpo.»
Witold Gombrowicz, Ferdydurke, pp. 73-74
(Buenos Aires: Sudamericana, segunda edición, enero de 1983, 268 pp; tradução do polaco para castelhano: Witold Gombrowicz; obra original: Ferdydurke, 1937.)

[Nota: traduzido por AMC a partir da versão espanhola (Argentina), por sua vez traduzida do polaco pelo próprio autor em 1964.]

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Revel – II

E prossegue Revel com as suas perplexidades na obra já citada no texto anterior, num capítulo a que chamou «A pior sociedade que jamais existiu», recheado de algumas proposições injectadas de forma reiterada na opinião pública, sem qualquer tipo de contrastação, apenas sancionadas pelo tradicional ufanismo e verborreia narcísica de um grupelho de intelectuais que, engenhosamente, esconde o seu sectarismo primário e faz uso recorrente da falácia através do seu instrumento mais popular: o argumentum ad nauseam, por vezes mais bem descodificado como “a mentira nazi”.

«Replicando a um artigo de Jacques Julliard publicado no Libération, um certo Jean-Marc Adolphe, critica-o, no mesmo jornal por considerar a América uma democracia, quando obviamente não o é, uma vez que “reserva para os mais ricos o direito de cuidar da saúde e de envelhecer com dignidade”.
[…]
«Dando preferência aos termos vagos, o senhor Adolphe afirma que a América não pode ser uma democracia porque, segundo ele, é um país “onde tudo se compra e tudo se vende”. Mas que generalização mais audaciosa! Também gostaríamos de saber se a América é um país onde o poder dos juízes é excessivo, como tantas vezes se afirma, ou se não se trata mesmo de um Estado de direito. O direito existe, prossegue o senhor Adolphe, mas é o “direito dos produtores, que prevalece sobre o dos autores”. Que quererá isto dizer? Que nos Estados Unidos não há contratos editoriais? Que a propriedade literária e artística não está protegida? Que a história da literatura americana, tal como a do cinema, é um deserto, vazio de grandes criadores, de talentos originais, porque estes foram constantemente, reprimidos pelos “produtores”?
«As letras europeias não são as únicas a desprezar a literatura americana, à qual, no entanto, devem não só tantos temas inovadores como técnicas narrativas revolucionárias. O diário Asahi Shimbun, que realizou um inquérito de opinião entre escritores e filósofos japoneses, na sequência do 11 de Setembro, dá-nos conta não só de tendências políticas mais próximas dos terroristas islâmicos do que das suas vitimas, como também de críticas literárias eivadas de condescendência e de um sentimento de superioridade. O filósofo Yujiro Nakamura, por exemplo, escreve: “A cultura americana sempre dignificou a saúde física e mental e sempre desdenhou o que se dissimula na sombra da natureza humana: as fraquezas e as carências. [...] Quando os seres são fracos, ela ignora-os, pois trata-se de uma dimensão humana que não se pode colocar ao serviço da produtividade e da eficiência. Semelhante civilização veicula uma visão unidimensional do mundo que suprime a sensibilidade para com o abismo de sombras que os outros homens trazem consigo.”
É evidente que o senhor Nakamura nunca leu Melville, nem Poe, nem Hawthorne, nem Henry James, nem Faulkner, nem Tennessee Williams, nem
The Crack up de Scott Fitzgerald, para citar apenas alguns autores.
[…]
«Além de tudo o mais, os escritores americanos são muito mais críticos em relação à sua própria sociedade do que proclamam os papagaios do antiamericanismo, sejam eles japoneses, franceses, ou quaisquer outros. Especialmente no período entre 1865 e 1914, ou seja, desde o fim da Guerra de Secessão até ao início da Primeira Guerra Mundial, e que é designado por Gilded Age, que se poderia traduzir por “idade do caroço”, vêem-se surgir vários romancistas que denunciam a sociedade como corrupta, vulgar, inculta, materialista e hipocritamente puritana. É o tempo de Frank Norris, de Theodore Dreiser, de Upton Sinclair e de Sinclair Lewis, cujos romances são outros tantos libelos acusatórios tão cáusticos para com a sociedade americana como o foram os mais negros dos romances de Zola em relação à sociedade francesa da mesma época. Os temas tratados por estes autores são frequentemente produto de investigações jornalísticas escrupulosas na procura dos factos e sem recurso a eufemismos na formulação das ilações a retirar, o que é mais uma criação da cultura americana. Na altura, estes jornalistas eram apodados de muckrackers (literalmente “agitadores da lama”). No entanto, esta veia literária não se esgotou em 1914, bastando para isso mencionar, entre as duas guerras, a obra de John dos Passos, tendo-se prolongado para além da Segunda Guerra Mundial, como demonstram as obras de John Updike e de Tom Wolfe.»
Jean-François Revel, A obsessão antiamericana, pp. 105-107.
[Lisboa: Bertrand, Dezembro de 2002, 225 pp; tradução de Victor Antunes; obra original: L'obsession anti-américaine, 2002]

domingo, 5 de outubro de 2008

Revel – I

Jean-François RevelSem mais, e tal como prometi, as palavras do escritor, jornalista, ensaísta e filósofo francês Jean-François Revel (1924-2006), membro da Academia Francesa, no lugar que hoje é ocupado por Max Gallo (cadeira outrora ocupada, por exemplo, por La Fontaine ou por Poincaré), ex-militante socialista e director da revista semanal L’Express, genro de Nathalie Sarraute (casou com a sua filha Claude), publica em 1970 o seu grande ensaio de ruptura com o seu passado socialista, que culpa de indulgente para com o comunismo soviético, Nem Marx Nem Jesus (Ni Marx ni Jésus : De la seconde révolution américaine à la seconde révolution mondiale), denunciando a elite europeia e o seu antiamericanismo primário.
Nas suas palavras:


«Repisa-se constantemente que o terrorismo antiamericano se explica, se justifica mesmo, pela “pobreza crescente” que o capitalismo espalha pelo mundo através da globalização orquestrada pelos Estados Unidos. É o tema que circula nos círculos Attac, na revista Politis, no seio dos Verdes alemães, no meio dos intelectuais latino-americanos e de diversos editorialistas franceses. Mesmo nos Estados Unidos, a extrema-esquerda (Radical Left) organizou manifestações para a divulgação desse slogan. É também a convicção do célebre juiz Baltasar Garzon (El País, 3 de Outubro de 2001), para quem um crime só é um crime se tiver sido cometido por Pinochet, tal como do Prémio Nobel, Dario Fo (Corriere della Sera, 15 de Setembro de 2001), que então escreveu: “Que são os vinte mil mortos de Nova Iorque (sic) comparados com os milhões de vítimas que caem cada ano às mãos dos especuladores?” A atribuição do Prémio Nobel da Literatura a uma nulidade como Dario Fo já tinha levantado dúvidas sobre a competência da Academia de Estocolmo na matéria. Finalmente, o equívoco foi dissipado: o prémio que lhe queriam na realidade atribuir era o da economia.»
Jean-François Revel, A obsessão antiamericana, pp. 84-85.
[Lisboa: Bertrand, Dezembro de 2002, 225 pp; tradução de Victor Antunes; obra original: L'obsession anti-américaine, 2002]

sábado, 4 de outubro de 2008

Insulares, ignorantes e provincianos

DeLillo, McCarthy, Pynchon, Roth e Updike
Estes acima bem podem esperar. Horace Engdahl já os sentenciou ao olvido da Academia Sueca, por muitos livros que vendam, por muitos encómios que lhes dirija a crítica literária, por muito estudados que sejam nos bancos da universidade, nos cursos de filologia e nas inúmeras teses sobre a literatura americana.
É apenas o Nobel, o prémio máximo da literatura mundial que condecora a carreira de um escritor, que lhe dedicou, de corpo e alma, uma vida... mas não é o fim do mundo.
Aquele quinteto nascido na década de 30 do século passado, por azar Nobel criado em terras do Tio Sam, não necessita desse género de honrarias snobes de uma chusma de pedantes suecos colocados na sua torre de marfim, onde mora uma sala bafienta e anquilosada da elite nórdica das letras.
O quinteto é realmente apreciado por leitores e literatos de todo o mundo, mesmo por aqueles que tolamente costumam desdenhar de tudo o que seja americano, esquecendo-se que as suas vidinhas enfadonhas são quotidianamente assaltadas por algo que está directamente relacionado com a maior democracia do mundo.
Uma democracia com defeitos, pois claro. Apontados com toda a legitimidade e em primeiro lugar pelos seus filhos. Leiam-se as obras mais representativas do quinteto. São os primeiros a apontar o dedo aos exageros e aos contrastes da sociedade americana, à politica governamental tanto interna como externa. Todavia, une-os um sentimento de pertença a um todo heterogéneo que acolheu uma série de raças, crenças e ideologias, e é isto que alguns europeus não perdoam, perdidos nas mesquinhas rivalidades ancestrais entre povos no mesmo território.
O grande inimigo é a maior democracia do mundo. O desnazificador da Europa, o escudo contra o retrocesso primitivista da barbárie comunista da União Soviética. O governo que Pinter acusou de genocídio e de gerador de todos os males do mundo, o país que Dario Fo chamou de império do mal, a nação que Lessing chamou de histérica pela recordação comovida dos milhares de civis inocentes mortos no 11 de Setembro… e Grass e Saramago e Gordimer
Os esquerdistas europeus não gostam de Roth, desconhecendo a sua militância esquerdista – o que pensarão de DeLillo ou do mais radical Gore Vidal?
É verdade, não suporto aqueles intelectuais da treta que ostentam ou ostentaram a foice e o martelo, pertencem ou pertenceram a partidos que os exibem ou exibiam com um orgulho impune. O símbolo sob o qual se mataram inocentes pelos ideólogos Lenine e Trotsky entre 1917 e 1924, o Terror Vermelho, a Tchéka, o KGB, os gulags, Estaline, Pol Pot, Mao Tsé-Tung, Ceausescu, e que continua a figurar sem condenação nas bandeiras de alguns sectários que se alimentam das democracias ocidentais. A “suástica metamorfoseada, vermelha e dourada” que legitimamente continua entrar-nos pela casa dentro com uma indiferença amnésica da barbárie comunista.
Mas somos avessos a insulares e a provincianos. Exprobramos os ignorantes da iridescência cultural que pinta o mundo – mas não queremos misturas, nem multiculturalismo, nem liberdade religiosa, nem véus, nem memórias coloniais, nem capitalismo e nem tão-pouco um mercado livre e despojado de paternalismos vomitados por uma elite intelectual.

A seguir, ou seja, quando houver tempo, um pouco de Jean-François Revel.

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

Nobel da Literatura 2008

Já foi divulgada a data para o anúncio do vencedor do Prémio Nobel da Literatura de 2008. Será no próximo dia 9 de Outubro, quinta-feira, ao meio-dia (hora de Lisboa).
De acordo com a casa de apostas online Ladbrokes, perfilam-se nos primeiros lugares (ordenados pela maior probabilidade de ocorrência) os seguintes candidatos:

1.º) Claudio Magris (Itália, 1939) – 3/1
2.º) Adonis (Síria, 1930; Líbano) – 4/1 (poesia)
3.º) Amos Oz (Israel, 1939) – 5/1
----- Joyce Carol Oates (EUA, 1939) – 5/1
----- Philip Roth (EUA, 1933) – 5/1
6.º) Don DeLillo (EUA, 1936) – 7/1
----- Haruki Murakami (Japão, 1949) – 7/1
----- Les Murray (Austrália, 1938) – 7/1 (poesia)
9.º) Yves Bonnefoy (França, 1923) – 10/1 (poesia e ensaio)
10.º) Inger Christensen (Dinamarca, 1935) – 14/1
----- J.M.G. Le Clézio (França, 1940) – 14/1
----- Michael Ondaatje (Sri Lanka, 1943; Canadá) – 14/1
----- Thomas Pynchon (EUA, 1937) – 14/1

Alguns dos autores mais lidos em Portugal aparecem com as seguintes probabilidades associadas:

  • Kadaré / Vargas Llosa – 20/1;
  • M. Atwood – 33/1;
  • Munro / Tabucchi / C. Fuentes / Kundera / P. Carey / U. Eco – 40/1;
  • Achebe / C. McCarthy / McEwan / Updike – 50/1;
  • A.S. Byatt / Rushdie – 66/1;
  • Doctorow / Banville / J. Barnes / M. Tournier / J. Littell / Auster – 100/1

Até à data do anúncio, irá figurar na coluna do lado direito deste blogue um pequeno inquérito – que, diga-se, dada a sua cada vez mais reduzida audiência, jamais gozará de qualquer tipo de representatividade, a não ser a minha própria –, inquérito que apenas incluirá autores norte-americanos.
Facto: o ano de 1993 foi o último em que a inescrutável Academia Sueca resolveu galardoar com o Nobel da Literatura um autor proveniente dos Estados Unidos da América. O prémio foi atribuído à escritora Toni Morrison.
Quem me lê decerto não estranhará a inclusão deste inquérito assaz selectivo, uma vez que conhece a minha especial predilecção pela literatura norte-americana contemporânea.
Assim, na lista sujeita a votação será incluído o quarteto bloomiano (Roth, Pynchon, McCarthy e DeLillo), tal como outros nomes que considero relevantes no actual panorama da literatura norte-americana.
O que não se consegue compreender, para além de um primarismo antiamericano e de um desconhecimento grotesco da literatura da segunda metade do século XX e da contemporânea que se produziu e produz do outro lado do Atlântico, são as declarações de Horace Engdahl secretário permanente da Academia Sueca à Associated Press:

«O Estados Unidos estão bastante isolados, demasiado insulares. Eles não traduzem o suficiente e, na realidade, não participam no grande diálogo da literatura. (…) Essa ignorância é uma condicionante.» [tradução: AMC]

Para parecer um Chávez secundado pela dupla Putin/Medvedev só faltou apelidar a literatura norte-americana e os seus autores de diabo.

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

No dia em que...

Ajax Alçada, apeltroada em estivália sofocleira, tentou vitimolar-se em directo, entre lacrimúrias e tremulonias, perante analição certeira do sublipelidado Odisseu Viegas, teria merecido deste a bofeítação dos esproémios de Evohé Cortázar, mas em Português-Glíglico:

«Mal ele lhe amouvava o noema, o clémiso acumulava-se nela e os dois caíam em hidromúrias, em selvagens ambónios, em sústalos desesperantes. Sempre que ele tentava relamar os incupelos, perdia-se numa grimúria queixosa e tinha que inrolver-se com a cara contra o nóvalo, sentindo como as arnilhas se iam espelhunando pouco a pouco, apeltroando-se e reduprimendo-se até ficarem esticadas como o trimalciato de ergomanina sobre o qual se deixaram cair umas fílulas de cariacôncia. E no entanto aquilo era apenas o princípio, porque a certa altura ela tordulava-se os hurgálios, permitindo que ele aproximasse suavemente os seus orfelúnios. Assim que se entreplumavam, algo como um ulicórdio encristorava-os, extrajustava-os e paramovia-os, de repente surgia o clinão, a esterfurosa convulcante das mátricas, a jadescorrente nabocaplúvia do orgúmio, os espróemios do merpasmo numa suprahumítica agopausa. Evohé! Evohé! Volpousados na cresta do murélio, sentiam-se balparamar, porlinhos e márulos. Tremia o troc, venciam-se as marioplumas, e tudo se resolvirava num pínice profundo, em niolamas de gases argutensos, em carínias quase cruéis que os ordorreavam até ao limite das suas gúnfias.»
Julio Cortázar, O Jogo do Mundo (Rayuela), Capítulo 68, pág. 425
[Lisboa: Cavalo de Ferro, 1.ª edição, Abril de 2008, 632 pp; tradução de Alberto Simões; obra original: Rayuela, 1963]

Pertence ao cânone, cara e desvalorizada – talvez exista aqui uma contradição – Alçadajax.

Eis o capítulo 68 de Rayuela na voz do próprio autor argentino, embora em Espanhol-Glíglico:

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

«Só perdemos três pontos…»

Arsenal - FC Porto (30/09/2008)
É esta a mentalidade. A frieza dos números. Os três pontos perdidos numa exibição miserável de uma equipa que, só por acaso, envergava a camisola com o emblema de um clube que já por duas vezes venceu a Taça dos Campeões.
Não é que não possa acontecer. Ele há dias maus. O que dificilmente poderei aceitar como adepto e sócio do clube há quase trinta e três anos é o discurso da mediocridade, da desculpabilização do indesculpável, da legitimação da incompetência, da vergonha.
E foram só quatro…
Mas se fossem dez ou onze tudo leva a crer que a arengada passiva pós-coital se manteria. A equipa é jovem, o ambiente foi terrível, jogou-se bem até ao primeiro golo sofrido… depois, foi só deixar correr o marfim… por um ou por vinte, que importa?
Jamais aceitarei um discurso desta estirpe que, mais do que a derrota, me revolve as entranhas e deixa num estado de náusea perante a pequenez.
Não se pode apelar à compra dos lugares anuais, ao Dragão cheio, ao apoio incondicional da equipa e/ou à paciência dos adeptos com comportamentos destes. Está longe das expectativas criadas no fervoroso adepto no início de cada época.
Se o discurso é legítimo, e ademais tacitamente sancionado pelos emudecidos dirigentes do meu clube do coração, então que se tenha a coragem de abandonar de vez a competição internacional, dedicando-se a prestar os serviços mínimos na competiçãozinha interna, onde se reina com um só olho (que enfrenta sérios riscos de perder irremediavelmente a visão).
Está em causa o nome de um clube construído com sangue, suor e lágrimas ao longo das últimas décadas… respeitado e temido.
A resignação… melhor, a demagogia (para ser brando) da matemática dos três pontos perdidos tem de ser severamente repreendida, sob pena de a perda transformar um clube, que, acrescente-se, também é uma sociedade anónima que pretende a valorização dos seus activos e a maximização do valor dos seus accionistas, numa entidade que não se dá ao respeito, moralmente espúria, indigente e degradada.
Em suma, o mal está feito, é uma evidência, mas argumentar com a matemática sem que, rápida e reflectidamente, se exprobre a argumentação, apenas servirá para perpetuar o crime sem castigo.

[Imagem a partir da capa da edição de 01/10/2008 do jornal O Jogo]

domingo, 28 de setembro de 2008

Epílogo de uma morte anunciada

No final da Primavera deste ano ficámos a saber que Paul Leonard Newman padecia de um tipo fulminante de cancro de pulmão – a fina ironia para quem testou a resistência da própria vida ao limite no asfalto das pistas de velocidade.
Anunciaram-no, já o sabíamos. Afastado dos palcos por vontade própria desde 2007, a sua vida estava pendurada pela expectativa de semanas ou pouco meses. Morreu na passada sexta-feira, tinha 83 anos.

Em 1987, primou ostensivamente pela ausência no Dorothy Chandler Pavilion, onde lhe seria atribuído o único Óscar não honorário: Melhor Actor em A Cor do Dinheiro (The Color of Money, 1986) de Martin Scorsese. [No mesmo ano, outros vencedores, como Woody Allen, que à mesma hora tocava clarinete em Nova Iorque (Melhor Argumento Original por Ana e as Suas Irmãs), Michael Caine (Melhor Actor Secundário por Ana e as Suas Irmãs) e Ruth Prawer Jhabvala (Melhor Argumento Adaptado por Quarto com Vista sobre a Cidade, baseado num romance de E.M. Forster e realizado pelo seu eterno parceiro cinematográfico James Ivory, parceria que sempre incluiu o já falecido produtor indiano Ismail Merchant), decidiram não comparecer à apetecível noite de entrega das famosas estatuetas douradas da Academia das Artes e das Ciências Cinematográficas de Hollywood. O Óscar de Newman foi curiosamente recebido, em seu nome, por Robert Wise.]

«Rocky: Sabes, tenho tido sorte. Alguém lá em cima gosta de mim [NT: título do filme, se traduzido à letra para português].
Norma: Alguém cá em baixo também.
»
Diálogo entre Rocky Graziano, interpretado por Paul Newman, e a sua mulher Norma, papel interpretado pela actriz italiana Pier Angeli, no fabuloso filme Marcado pelo ódio (Somebody Up There Likes Me, 1956) do mestre Robert Wise, baseado na autobiografia do pugilista Rocky Graziano [tradução: AMC].

Paul Newman


Paul Newman

(Shaker Heights, Ohio, 26/Janeiro/1925 – Westport, Connecticut, 26/Setembro/2008)

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

Selvajarias

Foram quinhentas e seis páginas tragadas numa semana cheia de intermitências e de deslocações de última hora. Páginas que me trouxeram um prazer obnubilado por uma forte irritação – talvez potenciada pela azáfama extraordinária e consequentes interrupções de leitura – que resultou da sofrível tradução portuguesa do romance de 1998 Os Detectives Selvagens do escritor chileno Roberto Bolaño (1953-2003).
Nas capa e contracapa da edição da Teorema estão inscritas sete frases bombásticas retiradas de críticas e de artigos de opinião de gente culta, e uma extra como súmula das anteriores de autoria do editor, a ver pelos qualificativos que as enxameiam, seja pela obra, pelo autor e o seu estilo: «deslumbrante»; «influente e admirado»; «original, divertido e comovedor»; «Um dos cinco melhores»; «visão brutal e lírica»; «raro e fértil»; «Poderoso e desconcertante…»; «raro e sofisticado»; «o […] mais brilhante»; «lenda literária»; e, por fim, «O primeiro grande romance latino-americano do século XXI», embora tenha sido publicado originalmente no século XX e escrito até 1998 – nem mesmo os maus matemáticos que festejaram a passagem do milénio no fim da noite de 31 de Dezembro de 1999 cairiam nesse erro, embora se perceba que, nas entrelinhas, se pretenda falar dos efeitos do romance a posteriori, na geração coetânea e nas subsequentes.
Quinhentas e seis páginas, divididas por três partes, sendo as primeira e terceira ligadas pelo curto fio temporal entre Novembro de 1975 e Fevereiro de 1976, sob a forma narrativa de um diário mantido pelo jovem personagem Juan García Madero; e a segunda uma sucessão de testemunhos de um conjunto substancial de pessoas espalhadas pelo mundo que de certa forma se relacionaram durante os vintes anos que se seguem, de 1976 a 1996, com os personagens Arturo Belano – chileno, tal como o autor e com nome e apelido que se assemelham – e Ulisses Lima – mexicano, inspirado no seu companheiro infra-realista Mario Santiago –, poetas revivificadores do movimento literário apelidado de realismo visceral, ficcionalmente criado nos anos 20 do século passado pela poetisa Cesárea Tinajero, cujo desaparecimento sem obra publicada durante a década de 30 serve de leitmotiv a toda a acção do par instável de detectives selvagens.

Não me irei alongar muito sobre a valia literária deste romance de Bolaño, sob o risco de repetir alguns dos (merecidos) encómios hiperbólicos que fui lendo em recensões lusas recentes, e tão-pouco sobre as suas vida e obra que, por ora, pouco conheço para além da novela Estrela Distante (Estrella distante, 1996), também por cá editada pela Teorema, e das suas deambulações políticas trotskistas, e o colossal 2666 (obra póstuma) que li em castelhano na sua versão original.
Os Detectives Selvagens é uma obra de um impressionante fôlego literário. É séria e comovente como um todo, porém desafectada e flexível nos seus recursos, airosa e hilariante nos inúmeros episódios meticulosamente perfilados para servirem de válvula de escape. É, no seu fundo, uma obra melancólica, com laivos de um isolamento e de uma perambulação no espaço eminentemente saturninos, cujos naturais abalos emocionais são magistralmente geridos por Bolaño através do riso, da paródia a uma classe que se serve da literatura, concretamente da poesia, como meio de luta pela sobrevivência no caótico mosaico político, económico e social da América Latina da segunda metade do século XX, ou então, no caso de outros, à laia de contraponto, usando-a como meio de exteriorização de um narcisismo latente – recordo-me, por exemplo, do fabuloso episódio relatado pelo ufano advogado galego, residente em Barcelona, que escreve a partir do leito de morte em Roma em Outubro de 1992 (parte II, capítulo 20 – Xosé Lendoiro) rememorando os diversos encontros infelizes com o chileno Arturo Belano por terras de Espanha; ou da triste sina do escritor homossexual integrado no ubíquo movimento do realismo visceral, que devido a um aneurisma é sujeito a uma intervenção cirúrgica ao cérebro que lhe retira grande parte das capacidades físicas e intelectuais, onde os pais, passando por cima de tudo, exultam o resultado final (de quase vegetal) uma vez que lhe curaram o desvio sexual; as lúcidas divagações do inimputável Joaquim Font, (as mais lúcidas), internado, por ordem da mulher, num manicómio situado nos arredores da Cidade do México; o duelo preventivo (ao sabre) entre Arturo e o crítico literário de Barcelona; o prodigioso capítulo 23 (desde a Feira do Livro de Madrid) e as diversas perspectivas sobre a literatura, ou a vida. E poderia continuar…

Mas, como se sói dizer por cá – acabando agora mesmo de emprestar ao texto um tom eminentemente castelhano, através do emprego do usadíssimo verbo soer (em Cast. soler, do Lat. solere) em espanhol corrente –, não há bela sem senão. Se, através das minhas palavras, não existem dúvidas sobre o brilhantismo deste texto literário de Bolaño, a tradução para português acaba por danificar a obra original e irritar o leitor mais atento e familiarizado com a língua de Cervantes – que é precisamente o meu caso. Não falo das inúmeras gralhas que se multiplicam ao longo das quinhentas páginas e que resultam, decerto, de erros tipográficos e de uma pós-revisão deficiente. Falo, isso sim, do tom usado ao longo de toda a narrativa que parece haver sido traduzida por Luís Figo nos períodos áureos entre treinos e jogos de futebol quando tinha de soltar a língua. A utilização excessiva do “pois”, em particular do “pois que”, ao longo do texto, em toda e qualquer frase, é uma tradução literal do texto original que usa o estribilho a partir do vernáculo castelhano, que não se costuma usar na língua portuguesa: (apenas dois exemplos entre dezenas) «Se havia outras editoriais interessadas, pois que a publicassem eles, eu não» (pág. 174) «Porque eu sou real visceralista, disse eu, e, se esse cabrão não mete Ulisses, pois que também não conte comigo.» (pág. 230) No primeiro exemplo, para além do uso do referido estribilho castelhano, há que acrescentar o uso da expressão “editoriais” como tradução de “editoriales”, que neste caso pretende significar a empresa que edita, comummente designadas por “editora”, embora “editoriais” se refira ao mesmo, não é, porém, de uso corrente em português europeu.
Depois há a repetidíssima utilização da expressão “chino” para designar “chinês” – «Depois saímos todos para jantar num café chino.» (pág. 25), «Pancho e eu encontrámo-nos no café chino El Loto» (pág. 32) –, embora “chino” seja sinónimo de “chinês”, não se usa em português com excepção de “rato-chino”, uma vez mais resulta da tradução literal do espanhol “chino” que significa “chinês” na nossa língua. Este caso não é único, existem outras traduções literais como por exemplo «Quando cheguei levantou a cabeça, era o único usuário da biblioteca» (pág. 489)
Por fim, o critério de tradução de nomes próprios. Começando pelos protagonistas “Ulisses Lima” e “Arturo Belano”, o primeiro sofreu um aportuguesamento de “Ulises” no original (ficou com mais um “s”), e o segundo manteve o “Arturo” que em português é “Artur”. Assim, como “María Font” perdeu o acento agudo no “i”, uma vez que (pues que) a divisão silábica de “Maria” é diferente nas duas línguas: em português, “Maria” é uma palavra grave (Ma-ri-a); em castelhano, é uma palavra aguda devido à divisão silábica em castelhano (Ma-ria); opção que não é consistente com “Luis Rosado” onde se manteve a versão castelhana do nome em detrimento da portuguesa “Luís Rosado” ou com “García Madero” (o terceiro protagonista) em vez de “Garcia Madero”. Já “Joaquim Font” tanto é assim grafado (por exemplo, na página 151), como surge com o nome próprio em castelhano “Joaquín Font” (pág. 252).
Como é certo e sabido, uma má tradução poderá arruinar uma obra. No caso em questão não creio que tenha havido um dano insanável, ou seja, mesmo perante os erros consegue-se vislumbrar a genialidade da obra. Isso não invalida que refira que, através da minha experiência de leitura, houve uma irritação que se adensou à medida que me ia embrenhando no livro, prejudicando, de forma irremediável a avaliação final. À editora pede-se que proceda a uma urgente e aturada revisão do texto traduzido para a 2.ª edição, se a houver, caso contrário acredito que obra permanecerá na sua versão portuguesa, até nova tradução, ferida no seu brilho artístico.


«O que há atrás da Janela?
[figura 1]
Uma estrela.
[…]
O que há atrás da Janela?
[figura 2]
Um lençol estendido. (…)» (pág. 506)

Pues que eclipsou-se uma estrela:

Classificação: **** (Bom)

Tudo o que começa como comédia acaba como ode ao ansiolítico.
[A despeito, neste caso, das outras proposições prismáticas, (…) como tragédia (pág. 403); como tragicomédia (pág. 404); como comédia (pág. 404); como exercício criptográfico (pág. 405); como filme de terror (pág. 408); como marcha triunfal (pág. 409); como mistério (pág. 411); como responso no vazio (pág. 413); como monólogo cómico, mas já não nos rimos (pág. 416).]


Referência bibliográfica:
Roberto Bolaño
, Os Detectives Selvagens. Lisboa: Teorema, Junho de 2008, 512 pp. (tradução de Miranda das Neves; obra original: Los detectives salvajes, 1998).

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

Harry “Coelho” Angstrom, de novo

A editora portuense Civilização acaba de lançar no mercado o 3.º livro da tetralogia (+ ½) do Coelho de autoria do escritor norte-americano John Updike (n. 1932): Coelho Enriquece (Rabbit is Rich, 1981).
Recorda-se aqui que já foram publicados em Portugal pela mesma editora as primeira e segunda partes da vida do americano arquetípico Harry “Coelho” Angstrom: Corre, Coelho (Rabbit, Run; 1960) em Fevereiro de 2007 e Regressa, Coelho (Rabbit Redux, 1971) em Março deste ano. Ainda por publicar estão o 4.º livro Rabbit at Rest de 1990 e a novela de 2001, integrada na colectânea de contos do autor Licks of Love, Rabbit Remembered.

Este livro venceu três dos mais importantes prémios literários atribuídos a uma obra de ficção publicada originalmente nos Estados Unidos da América:

  • National Book Critics Circle Award for Fiction em 1981;
  • Pulitzer Prizer for Fiction em 1982;
  • National Book Award for Fiction (Hardcover) em 1982.

«“A gasolina está a acabar-se”, pensa Coelho Angstrom […] Este mundo de merda está a ficar sem gasolina. […] A gasolina a noventa e nove ponto nove cêntimos o galão e noventa por cento das estações de serviço a fecharem ao fim-de-semana. […] os camionistas que não conseguem gasóleo disparam contra os próprios camiões […] As pessoas estão a perder a cabeça, os seus dólares não valem um cêntimo, retraem-se como se não houvesse amanhã.»
John Updike, Coelho Enriquece, pág. 7
[Porto: Civilização, Setembro de 2008, 498 pp. (tradução de Carmo Romão)]


A acção desenrola-se em pleno 2.º Choque Petrolífero que ocorreu em 1979. A actualidade da citação é mais do que angustiante. A América e o mundo ocidental ou ocidentalizado tardam em aprender com os erros passados. Porém, é óbvio que esta aprendizagem foi plenamente assumida, o que a torna, hoje em dia, num perigoso sofisma à disposição de políticos sem escrúpulos e de outros sem coragem para denunciar a acções concertadas e criminosas daqueles com os grandes interesses do petróleo, disseminados pelos opacos mercados de capitais (desregulamentados) que vomitam anonimamente gigantescas mais-valias nas operações financeiras sem o devido suporte de operações reais ou económicas. A avidez pelo capital destrói a essência do capitalismo, deixando o cidadão desprotegido e sem forças para lutar perante a ressuscitação das teorias económicas que comprovadamente conduziram à coarctação das liberdades política, económica, social, artística, etc.

terça-feira, 23 de setembro de 2008

Espírito das Alternativas

«– Mas eu queria dizer – sou um homem em pedaços, mutilado.
– Facilmente exasperado.
– Sabes bem como é. Sou oprimido, empurrado, atormentado, maçado, importunado, incomodado…
– Por quê? Pela consciência?
– Bom, por uma espécie de consciência. Não lhe tenho o respeito que tenho à minha consciência. É a parte pública de mim próprio. Vai até lá muito dentro. É o mundo interiorizado, em resumo é isso.
»
Saul Bellow, Na Corda Bamba, pág.166
[Lisboa: Círculo de Leitores, 1.ª edição, Junho de 1977, 193 pp. (tradução de Maria Adélia Silva Melo; obra original: Dangling Man, 1944]

Talvez seja da acalmia que se produz com aquele período a que se convencionou chamar “férias” – e talvez seja esse o único qualificativo capaz de traduzir o artifício, humanamente engenhoso… ou demasiadamente humano, basta, da tal suspensão de responsabilidades profissionais.
Não me convence. Nem nunca me convenceu, porque nunca o senti como um período de verdadeiro descanso. Não estou suficientemente longe de mim para apaziguar um espírito que se mortifica pela sua impiedosa imagem pública. Não preciso de férias. Necessito apenas que a liberdade que fui construindo para o meu eu me deixe, pelo menos, desfrutar da sensação de imponderabilidade, de anarquia – e que bem se emparelha este último com o termo “servidão”.
O isolamento, como ensaia DeLillo através da alusão de Bernhard a Glenn Gould (vide epígrafe deste blogue), cria instantaneamente essa ilusão de liberdade; efémera, desfaz-se como uma traça em pó depois de sovada, que, de forma cega e obstinada, vai dilacerando a nossa roupagem.
Assalta-me o terrível dilema bellowniano da liberdade individual frente às exigências do contrato social. Sou senhor de mim e sinto-me pouco grato por isso.

Reflectindo sobre os méritos alcançados (autodeterminação) pela minha forma de vida.
[contraponto]

«Hurray for regular hours!
And for the supervision of the spirit!
Long live regimentation!
»
Saul Bellow, Dangling Man
(New York: Penguin Books, October, 1996, p. 183)

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

Choque

Um pequeno contratempo fez com que regressasse de férias uns dias mais cedo, apesar de ter prontamente estabelecido que a estocada final, nessa sempre efémera palavra, só irá ser dada no domingo à noite por terras durienses.
Quase um mês fora, e a tralha que trouxe ainda se espalha pelos corredores e quartos à espera da habitual triagem: para guardar, lavar, arrumar até para o ano, etc.
Ontem, chegámos tarde e o ritmo ainda é lento, como se actuasse uma força estranha que, de forma perseverante, nos vai impedindo a cessação da boa preguiça adquirida durante esse mês.
Duas da manhã, a casa ficou finalmente em silêncio. Abri o Público, ainda inviolado, que havia comprado à hora do almoço julgando que ainda me esperavam cinco dias pela frente – no Verão, a regra de não dar um cêntimo por jornais costuma ser langorosamente derrogada.
Página 9 do caderno P2. Choque: morreu David Foster Wallace. Obituário de Alexandra Prado Coelho. As presumíveis circunstâncias da sua morte só serviram para acirrar a minha inquietação. O homem tinha tudo para se tornar no grande sucessor dos grandes ficcionistas americanos da segunda metade do século XX… O sucessor de Pynchon, diziam. Dois romances, entre eles o descomunal Infinite Jest de 1996 – o seu segundo e último –, diversos contos, ensaios e peças jornalísticas publicados em diversas colectâneas.
Em Portugal permanece quase desconhecido. Que eu saiba apenas tem um conto traduzido: “Encarnação de uma geração queimada”, na colectânea de jovens contistas americanos Geração Queimada da América, editada pela Bico de Pena e organizada pela realista histérica (qualificativo glosado através de Wood) Zadie Smith. Tal como tive oportunidade de referir na altura, é o melhor conto da desequilibrada antologia.
O desespero…


David Foster Wallace


David Foster Wallace

(Ithaca, Nova Iorque, 21 de Fevereiro de 1962 – Claremont, Califórnia, 12 de Setembro de 2008)

terça-feira, 16 de setembro de 2008

Literatura desesperada

(Contando, amargamente, os curtos dias para o fim da serenidade e tranquilidade do exílio estival.)

Pobre Joaquim (Quim) Font, durante a sua estadia forçada na Clínica de Saúde Mental El Reposo, em Janeiro de 1977, (talvez seguro da sua lucidez) escreveu:

«Agora tomemos o leitor desesperado, aquele a quem presumivelmente é dirigida a literatura dos desesperados. O que é que vêem? Primeiro: trata-se de um leitor adolescente ou de um adulto imaturo, acobardado, com os nervos à flor da pele. É o típico parvajola (perdoem-me a expressão) que se suicidava depois de ler Werther. Segundo: é um leitor limitado. Porquê limitado? Elementar, porque não consegue ler senão literatura desesperada ou para desesperados, tanto importa, um tipo ou um estafermo incapaz de ler duma assentada Em Busca do Tempo Perdido ou A Montanha Mágica (em minha modesta opinião um paradigma da literatura tranquila, serena, total), ou, se quisermos, Os Miseráveis ou Guerra e Paz. Acho que falei claro, não? Bem, falei claro. [...] E também: os leitores desesperados são como as minas de ouro da Califórnia. Mais cedo ou mais tarde, esgotam-se! Porquê? É bem evidente! Não se pode viver desesperado toda uma vida, o corpo acaba por dar de si, a dor acaba por se tornar insuportável, a lucidez escapa-se em grandes jorros frios. O leitor desesperado (ainda mais o leitor de poesia desesperado, esse é insuportável, acreditem-me) acaba por se antagonizar com os livros, acaba inelutavelmente por se transformar num desesperado sem apelo nem agravo. Ou cura-se! E então, como parte do seu processo de regeneração, volta lentamente, como que entre algodões, como que sob uma chuva de comprimidos tranquilizantes fundidos, volta, como ia dizendo, a uma literatura escrita para leitores serenos, repousados, com a mente bem centrada. A isto se chama (e, se ninguém lhe chama assim, eu chamo-lhe assim) a passagem da adolescência à idade adulta. E com isto não quero dizer que quando nos convertemos num leitor tranquilo se deixe de ler livros para desesperados. Claro que se lê! [sic] Sobretudo se são bons, ou passáveis, ou se um amigo os recomendou. Mas, no fundo, chateiam-no! No fundo, essa literatura amarga, cheia de armas brancas e de Messias enforcados, não consegue penetrá-lo até ao coração como, por outro lado, o consegue uma página serena, uma página meditada, uma página tecnicamente perfeita!»
Roberto Bolaño, Os Detectives Selvagens, pp. 169-170.
(Lisboa: Teorema, Junho de 2008, 512 pp; tradução de Miranda das Neves; obra original: Los detectives salvajes, 1998).

sábado, 13 de setembro de 2008

Sult, Knut Hamsun

Mesmo nos confins deste país desequilibrado (por exemplo, hoje a TSF no noticiário das 15 horas... perdão, das 14:58 emitiu durante 11 minutos ininterruptos as várias facetas do carricídio perpetrado, em plena luz do dia, por duas árvores centenárias, que se saldou na vil destruição de meia dúzia de inocentes automóveis, inundando-nos com entrevistas a vizinhos, um vereador, proprietários registados das vítimas, uma meteorologista com um nome inconcebível e outras testemunhas ocasionais e assaz comovidas... só faltaram os astrólogos e, claro, ninguém auscultou as vetustas árvores, porventura discriminadas por se tratar de mera flora...) continuo atento ao mercado editorial português. A Cavalo de Ferro reedita o magnum opus do escritor norueguês, Nobel da Literatura em 1920, Knut Hamsun (1859-1952), publicado originalmente em 1890, Sult (a.k.a. Hunger em inglês) – Fome.

Apesar das suas desprezíveis simpatias hitlerianas, exaltando as qualidades de liderança de um dos maiores monstros da História do século XX, são inegáveis as suas qualidades literárias confirmadas com este romance dilacerante, escrito quando o pai do nazismo ainda não havia largado as fraldas, e, curiosamente, quarenta anos antes de o maior monstro do século passado (Koba, ou Iosif Vissarionovich Dzhugashvili, mais conhecido por Estaline*, o homem de aço) usar a FOME de dezenas de milhões como a principal arma de propagação do Grande Terror, que o camarada Lenine não teve tempo (e conceda-se, nem coragem) para acabar através do seu Terror Vermelho.

Ei-lo, com introdução de um dos escritores contemporâneos que sempre se confessou um dos maiores admiradores do laureado escritor norueguês, influenciando, de forma explícita, a sua já extensa obra, Paul Auster (n. 1947):


*Nota: texto escrito usando o tipo de letra Georgia.

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

Áries

Rui PereiraPoderia ser o título de um novo romance de Don DeLillo – uma sequela do aclamado Libra de 1988, uma narrativa semificcional sobre o assassinato de John Fitzgerald Kennedy, a 22 de Novembro de 1963, enquanto desfilava no seu Lincoln descapotável na Elm Street em Dallas, reconstruindo a figura de Lee Harvey Oswald (de signo Balança) e uma teia de conspirações de ex-agentes da CIA e de exilados cubanos, que o usaram como instrumento, em busca de uma desforra da calamitosa invasão da Baía dos Porcos.
Oswald depois de haver sido detido no próprio dia do assassinato, viria, dois dias depois, a ser alvejado mortalmente no abdómen por Jack Ruby, um conhecido dono de um clube de striptease de Dallas e com ligações à máfia, com relações privilegiadas com a polícia local, na garagem da esquadra de polícia, onde o primeiro se preparava para ser transferido para a prisão mais próxima.
Áries, ou Carneiro como é usado na nossa língua, regula astrologicamente a vida e a cabeça de um homem, chamado Rui Carlos Pereira – a importância dos três nomes… –, que por coincidência ou teoria conspirativa é o Ministro da Administração Interna da país da impunidade: Portugal – a propósito, e como recordar é viver, José António Cerejo escrevia este artigo no Público a 17 de Abril de 1999, onde, entre outros, surge por casamento e pelas (múltiplas) funções exercidas o nosso inefável homem dos aventais, na altura director do SIS que investigava a Universidade Moderna (todavia, não consta do seu breve currículo disponível na página oficial do Governo o exercício das funções de docência neste estabelecimento de ensino).
Ontem, o nosso ministro comparou o caso do homem baleado em plena esquadra de Portimão, ao assassinato de Oswald por Ruby, depois de o primeiro haver assassinado J.F. Kennedy, apenas e somente o 35.º Presidente dos E.U.A. Para além de haver revelado algumas debilidades indesculpáveis no conhecimento de factos históricos ocorridos há quase 45 anos, este homem depois de mais um dos inúmeros disparates verbais na tentativa de explicar o inexplicável, continua à frente de um dos ministérios chave para a necessária tranquilização da sentidamente insegura população portuguesa.

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Finalistas do Booker Prize de 2008 (anunciados ontem)

  • Amitav Ghosh – Sea of Poppies;
  • Aravind Adiga – The White Tiger;
  • Linda Grant – The Clothes on Their Backs;
  • Philip Hensher – The Northern Clemency;
  • Sebastian Barry – The Secret Scripture;
  • Steve Toltz – A Fraction of the Whole.

Com a excepção de Sebastian Barry (finalista em 2005), todos os outros são estreantes na lista dos finalistas do galardão máximo a premiar uma obra em língua inglesa, originalmente publicada no Reino Unido, nos países da Commonwealth ou na Irlanda
Sinal dos tempos na literatura anglo-saxónica? Os novos romances dos autores consagrados John Berger e Salman Rushdie ficaram-se pela lista dos semifinalistas.
O vencedor será anunciado depois do habitual jantar no Guildhall em Londres no próximo dia 14 de Outubro.

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Nota importante: prossegue o interlúdio retemperador neste blogue. O autor continua com as suas férias até ao dia 22 de Setembro, altura em que se serão respondidos os e-mails e os comentários deixados nas respectivas caixas em anexo aos textos publicados.