terça-feira, 15 de julho de 2008

Exploração Corbijn

ou como fazer render o peixe:

Documentário realizado por Grant Gee e escrito por Jon Savage.

Depois do êxito de Anton Corbijn com Control (2007), já seria de esperar que surgissem as famosas réplicas plutocinéfilas de exploração do sucesso alheio.

Inevitavelmente, seguir-se-á a fase de expansão da arqueologia mexeriqueira britânica, plena de resultados.

(Depois de ter lido na Harper's deste mês a recensão de William H. Gass sobre o 2.º volume da biografia do Mestre escrita por Sheldon M. Novick, estou convencido de que se irão descobrir uns quaisquer The Curtis Papers – guardados por uma velhinha esquizofrénica e a sua filha submissa e emocionalmente instável, curadoras da Lamb House – que desvendam, apesar da impossibilidade físico-cronológica, que Ian Curtis, prévia e devidamente apresentado pelo belo e jovem escultor americano-norueguês Hendrik Andersen, foi amante de Henry James enquanto este viveu na famosa casa em Rye, no East Sussex.)

segunda-feira, 14 de julho de 2008

Um problema molecular

mel à esquerda, e à direita Romola Garai com François Ozon nos bastidores
Já nada me surpreende no mundo da 7.ª arte. Talvez me seja difícil, aqui e agora, conseguir divisar o marco para a irremediável perda de fé nalguma consistência nas artes cinematográficas, concretamente na carreira dos realizadores que acompanhamos, admiramos e nos transportam, através do sortilégio das suas obras, para longe de uma realidade, de um quotidiano que nos (me) vai asfixiando – libertar as pulsões que, de outro modo, deixam marcas de reverberação cujo recalcamento tem o implacável poder de avivar uma dor que não se extingue.
Tudo isto se resume a um problema molecular. Por exemplo, o agravamento do meu espírito saturnino levou-me a proferir as inanidades melodramáticas escritas no final do anterior parágrafo. É do ozono: três moléculas de oxigénio que instabilizam a vida na Terra. Um simples átomo de oxigénio que se acrescenta à sua molécula, um “e” que cai que não me permite continuar a tergiversar e a tentar ser engraçado com o apelido do benfazejo realizador francês, François de seu nome, nascido em Paris no ano da Graça de 1967.

Um longo período de publicidade e de trailers de filmes em exibição ou com exibição iminente. Letras do genérico rosa fúchsia estilizadas, barrocas e um som de fundo que me deixam a olhar de esguelha para o ecrã e a pensar nos penosos 135 minutos que irei passar naquele ambiente artificial. Romola Garai… curioso, este nome pindérico diz-me qualquer coisa… Sam NeillCharlotte Rampling… cadavérica... um outro que nasceu com um apelido com um possível erro ortográfico, um tal de Fassbenderbased on a novel by Elizabeth Taylor… Diamantes, lantejoulas, lamechices, Michael Jackson, gatos e laçarotes. Estava tudo lá, se exceptuarmos, é claro, o caucasiano ex Jackson Five.

Os minutos passam, as dúvidas desfazem-se. Trata-se, de facto, de um melodrama de quinta categoria, cuja música orquestrada de Philippe Rombi parece ser o canário na mina de carvão.
Romola… pois a tal de Romola, a sósia britânica de Carolina Salgado que vestiu a pele da personagem cruelmente expiatória Briony Tallis aos dezoito anos, quando se armou de Florence Nightingale na versão cinematográfica Joe Wright do romance de McEwan – parece que ainda a estou a ver a sair toda emplumada do seu BM X5 à porta do tribunal de Gondomar.

Com a excepção do
Luís Miguel, a crítica excita-se e estrela-o no máximo – de girassol ou de soja, é um enjoo. Pois, Ozon faz pulsar a priori a veia encomiástica dos cinéfilos e críticos de cinema.

Confesso que, durante as duas intermináveis horas, estive sempre na expectativa de assistir à metamorfose do desastre melodramático num thriller psicológico viscontiano, embora sem Helmut Berger, que terminasse com uma fanfarra felliniana, ou então, num intrigante e feérico jogo de espelhos hitchcockiano. Porém, foi uma espera sem proveito, a dramalhada termina subliminarmente com o cliché de que “o dinheiro (corporizado não só nos bens e na fortuna, mas também na fama) não traz felicidade”. (Ponham-mo na mão que já vos digo por onde começo a construir a minha felicidade...)

Ah, já me ia esquecendo... A tal de Elizabeth Taylor é outra. Também nascida em Inglaterra, mas em 1912, um quarto de século antes da amiga de Neverland, bi-Burton. E já não pertence ao mundo dos vivos, nem tão-pouco à estirpe dos zombies hollywoodianos. Morreu em 1975 vitimada por um cancro e escreveu 12 romances – entre eles, The Real Life of Angel Deverell em 1957 – e alguns contos; e segundo os especialistas em literatura britânica do século passado, passou tangencialmente ao lado de se tornar na Jane Austen do século XX. Talvez as simpatias e militância vermelhas sejam o catalisador para a tentativa de entronização póstuma. Para mim, basta olhar para a colecção que a Virago (a sua editora) lançou para o mercado assim que a eminente esquecida faleceu. Pede meças à colecção de Sabrinas, com toalha de praia e chinelos floridos incorporados no pacote global, à venda no hipermercado Jumbo.

Mas, isto sou eu. A condenar a pobre senhora sem haver lido uma única linha de um dos seus romances ou contos.

Quanto a Ozon, convém que nos esqueçamos rapidamente que engendrou (argumento e realização) esta xaropada.

Nota: a coloquialidade deve-se, sobretudo, ao estado de enervamento que me provoca o simples odor a desperdício artístico, seja ele na Música, na Literatura ou no Cinema – a minha tríade sagrada nas artes.

sexta-feira, 11 de julho de 2008

Os 20 melhores finais

Sissy Spacek - Brian De Palma's Carrie

Ontem, os críticos de cinema do jornal londrino The Times publicaram uma lista ordenada de 20 filmes cujos finais (surpreendentes, aterradores, melodramáticos, etc.) marcaram a história do cinema mundial.
Uma vez mais, poder-se-ia dissertar sobre a discutibilidade da lista, sobre alguns esquecimentos ou sobre outros que estranha e imerecidamente figuram entre as duas dezenas de títulos citados. Todavia, as listas não são um fim em si mesmo, ao invés procuram precisamente gerar a discussão e fomentar a tertúlia – assuma ela as formas que assumir, via blogosfera, jornais, em cafés, esplanadas, à bomba, fazendo despoletar uma guerra civil ou, quiçá, até um conflito mundial nuclear… o fim.
Poderia aqui discutir a não inclusão do filme Zona de perigo (The Dead Zone, 1983) de David Cronenberg, ou de A Mulher que Viveu Duas Vezes (Vertigo, 1958) do mestre Alfred Hitchcock; ou até dos recentes Entre Inimigos (The Departed, 2006) de Martin Scorsese ou de Match Point (2005) de Woody Allen; e muitos outros juntar-se-iam à lista, saindo, sem arrependimento, outros tantos. Porém, é disto que um listómano gosta, a discussão encarniçada pelo objecto estruturado de forma quase obsessivo-compulsiva, e disposto a morrer por ele… o objecto, a lista.

Bom, antes que um habitual e felizmente transitório estado de loucura se apodere de mim, eis a lista elaborada pelos críticos do Times londrino (com as respectivas explicações da escolha no texto original mencionado):

  1. Carrie, de Brian de Palma (1976)
  2. Dois Homens e um Destino, de George Roy Hill (Butch Cassidy and the Sundance Kid, 1969)
  3. Casablanca, de Michael Curtiz (1942)
  4. E.T. o Extra-Terrestre, de Steven Spielberg (E.T.: The Extra-Terrestrial, 1982);
  5. Chinatown, de Roman Polanski (1974)
  6. Boneca de Luxo, de Blake Edwards (Breakfast at Tiffany’s, 1961)
  7. Quanto mais quente melhor, de Billy Wilder (Some Like It Hot, 1959)
  8. Um Golpe em Itália, de Peter Collinson (The Italian Job, 1969)
  9. Os Suspeitos do Costume, de Bryan Singer (The Usual Suspects, 1995)
  10. O Sexto Sentido, de M. Night Shyamalan, (The Sixth Sense, 1999)
  11. Thelma e Louise, de Ridley Scott (Thelma & Louise, 1991)
  12. O Feiticeiro de Oz, de Victor Fleming (The Wizard of Oz, 1939)
  13. As Diabólicas, de Henri-Georges Clouzot (Les Diaboliques, 1955)
  14. Dr. Estranho Amor, de Stanley Kubrick (Dr. Strangelove or: How I Learned to Stop Worrying and Love the Bomb, 1964)
  15. E Tudo o Vento Levou, de Victor Fleming (Gone With the Wind, 1939)
  16. Os Condenados Shawshank, de Frank Darabont (The Shawshank Redemption, 1994)
  17. O Planeta dos Macacos, de Franklin J. Schaffner (Planet of the Apes, 1968)
  18. Memento, de Christopher Nolan (2000)
  19. O Projecto Blair Witch, de Daniel Myrick e Eduardo Sanchez (The Blair Witch Project, 1999)
  20. Sete Pecados Mortais, de David Fincher (Se7en, 1995)

Nota: tenho de confessar que o 1.º lugar de Carrie assenta-lhe bem. Ainda me recordo do salto que literalmente dei da minha cadeira situada no meio da plateia do Carlos Alberto (antes da remodelação), quando, há mais de 20 anos, o Fantasporto decidiu fazer uma reposição do filme de Brian De Palma. Para meu grande alívio, não fui o único...

quinta-feira, 10 de julho de 2008

Sir Booker of Bookers

Salman Rushdie Salman Rushdie (n. Bombaim, 19 de Junho de 1947) venceu o Best of the Booker award

O escritor anglo-indiano Salman Rushdie venceu a votação para a eleição do melhor dos romances vencedores do Booker Prize (com 36% dos votos), pelo seu romance Os Filhos da Meia-Noite (Midnight's Children, 1981), na comemoração dos 40 anos do prémio literário mais prestigiado da língua inglesa (exceptuando os E.U.A.), que tem vindo a ser atribuído desde 1969 e que já premiou 41 romances (por duas vezes com vencedores ex aequo, em 1974 e 1992).
Já em 1993, a propósito da comemoração dos 25 anos de atribuição do galardão, Rushdie havia vencido o Booker dos Bookers.
Quinze anos volvidos Rushdie voltou a vencer, desta feita com a votação aberta ao público em geral, após a escolha por um júri dos 6 finalistas a concurso (que incluiu Pat Barker com The Ghost Road, 1995; Peter Carey com Oscar e Lucinda, 1988; J.M. Coetzee, Desgraça, 1999; J.G. Farrell, The Siege of Krishnapur, 1973; e Nadine Gordimer, O Conservador, 1974).

Eis um excerto do Livro Primeiro, 1.º Capítulo, “O Lençol Furado”:
«Nasci na cidade de Bombaim... um certo dia. Não, não pode ser assim. A data exacta. Nasci na maternidade do Dr. Narlikar no dia 15 de Agosto de 1947. Horas? A hora também é importante. Pois seja: foi de noite. Não, procuremos ser mais... Foi exactamente ao bater da meia-noite. Os ponteiros do relógio uniram as palmas das mãos para me cumprimentarem respeitosamente e me darem as boas-vindas. Há que dizer tudo: fui dado à luz no exacto momento em que a Índia se tomava independente. Continha-se a respiração. Do lado de fora da janela misturava-se o estralejar do fogo-de-artifício com a algazarra da multidão. Poucos segundos depois, o meu pai fracturou o dedo grande do pé; acidente insignificante em comparação com aquilo que me acontecia a mim naquele momento da noite; graças à tirania oculta dos relógios delicadamente acolhedores, eu passava a estar misteriosamente ligado à história e o meu destino indissoluvelmente unido ao do meu país. Durante as três décadas seguintes, ser-me-ia impossível escapar. A minha chegada tinha sido profetizada pelos adivinhos, celebraram-na os jornais, os políticos ratificaram a minha autenticidade. Não me foi consentido qualquer voto na matéria. Eu, Saleem Sinai, mais tarde chamado também Muco-na-Penca, Cara-Manchada, Careca, Sorve-Ranho, Buda e até Pedaço-de-Lua, fiquei definitivamente comprometido com o destino... as mais das vezes perigosamente amarrado a esse compromisso. E nessas alturas não tinha quaisquer possibilidades de me assoar.
Entretanto, o tempo (uma vez que não sei o que fazer de mim) está agora a chegar ao seu termo. Completarei em breve trinta e um anos. Se calhar. Se este meu corpo velho e escangalhado o permitir. Mas não me restam grandes esperanças de me salvar, não tenho pela frente sequer mil noites e uma noite. Tenho de ser rápido, mais rápido do que Xerazade, e é se quero deixar claro o sentido... Sim, o sentido. Não há nada que eu receie mais do que o absurdo.
»
Salman Rushdie, Os Filhos da Meia-Noite, pág. 13.
Lisboa: Dom Quixote, 4.ª edição, Maio de 2003, 428 pp. (tradução de Manuel João Gomes; obra original: Midnight's Children, 1981).

quarta-feira, 9 de julho de 2008

Do Empurrão

Há uns tempos disseram-me que estava na forja das letras norte-americanas um sucessor de McInerney e de Easton Ellis, nascido nos anos oitenta, logo já a amadurecer neste século inevitavelmente marcado pelo “11 de Setembro” e pelos terríveis acontecimentos que se lhe sucederam.
Aos 17 anos de idade escreveu um romance, Doze (Twelve, 2002) ao estilo dos celebrados Menos Que Zero (Less Than Zero, 1985) de Bret Easton Ellis (n.1964) e As Mil Luzes de Nova Iorque (Bright Lights, Big City; 1984) de Jay McInerney (n. 1955).
Chama-se Nick McDonell, nasceu a 18 de Fevereiro de 1984 em Nova Iorque e é filho do director da famosa revista desportiva Sports Illustrated, apadrinhado pelo truculento autor, falecido em 2005, Hunter S. Thompson, e pelos escritores Joan Didion e Richard Price, sendo o avô o presidente da Grove/Atlantic Inc., empresa que inclui a famosa revista literária The Atlantic (antes, The Atlantic Monthly) e a editora Grove Press que, por obra do destino, publicou ambos os romances do neto.
Com uma entourage destas, ao pobre Nick estava-lhe, desde logo, vedada a carreira na construção civil – caso o pretendesse.
Mas não. Nick quis ser escritor. E ao contrário da esmagadora maioria dos jovens que, como ele, se decidem pela aventura no mundo da literatura, viu o seu primeiro romance aprovado à primeira tentativa, caindo logo nas graças da temperamental e extravagante Michiko Kakutani. E depois… Depois, colheram-se os frutos do rótulo McInerney/Easton Ellis
Ora, independentemente do apadrinhamento de luxo, não considero, em primeiro lugar, que o mercado sinta a necessidade de encontrar sucessão para dois escritores já estabelecidos que, neste momento, entram na etapa de maturidade das suas vidas literárias e na fase normal de consolidação das suas carreiras, como provaram os seus últimos escritos. Em termos gerais, não se inova, imita-se, e só a arte sai a perder.
Depois, a um nível mais pessoal, considero assaz pernicioso o uso indiscriminado deste tipo de comparações de carreira e estilo literários, com ou sem as colaboração e anuência tácitas do comparado. No primeiro caso, (independente da sua vontade), exige o dobro do esforço do autor para despir a roupagem envergada à força, em segunda mão, de todo não desejada, quando aquele decidiu enveredar pelas artes literárias empreendendo um trilho eminentemente solitário e pessoal. No segundo caso, aproveita-se a boleia das eminências pardas já estabelecidas e usa-se e abusa-se da sua douta jurisprudência como um estridente e proveitoso slogan publicitário, que normalmente prenuncia, para um amante de literatura, o vazio de conteúdo do publicitado – é nestas situações que, por exemplo, conseguimos ler as mais aberrantes frases de caracterização da obra e do seu autor, parecendo resultar de metamorfoses samsianas, vítima de enxertias insólitas (Woody allen com Kafka, Lynch com Murakami, e por aí em diante).

O Terceiro Irmão (The Third Brother, 2005) é uma amálgama de lugares-comuns dividida em três partes desconexas. Se a intenção do jovem autor era a de criar uma nova trilogia da Grande Maçã com passagem pelas corrupção e sordícia de Banguecoque e pelos efeitos do 11 de Setembro, relatando o desamparo, a solidão e a descaracterização progressiva dos personagens face à perda de valores da família tradicional americana e à voracidade da sociedade contemporânea, numa sucessão de causa e efeito, afirmo, sem qualquer tipo de pruridos, que falhou em toda a linha.
O romance está dividido em três partes desiguais, pelo menos em tamanho: a parte I é constituída por 59 capítulos e ocupa 168 páginas na versão portuguesa; a parte II, por 29 capítulos e desperdiça 70 páginas; a parte III por 20 capítulos e inutiliza 46 páginas.
O protagonista, o jovem e recém-licenciado Mike, vai estagiar para uma publicação em Hong Kong dirigida por um amigo do pai (curiosa identificação, talvez subliminar, entre nepotismos ficcionais e reais) chamado Elliot Anaclet, que o incumbe de elaborar uma reportagem sobre os jovens estrangeiros que procuram a Tailândia como paraíso hedonista, dedicando-se ao consumo de ecstasy. Para além disso, foi-lhe atribuída a função extraordinária de detective particular no estranho caso do desaparecimento de um amigo de faculdade de Anaclet e do Pai, Christopher Dorr, que se perdeu pelas ruas de Banguecoque – um estranho, e mais tarde descrito, episódio marca a separação do trio fraternal no passado.
Na viagem, Mike é acompanhado por um jornalista sénior da revista, Thomas Bishop, que desaparece de circulação desde o primeiro dia de estada na capital tailandesa.
Enquanto Mike deambula pelas ruas de Banguecoque, vão surgindo vários flashbacks que retratam inúmeros episódios das suas infância e adolescência no seio da sua família milionária disfuncional, com uma mãe alcoólica e ausente, com um historial de traição, um pai protector e um irmão obsessivo, vividas entre suas casas nos Hamptons e em Manhattan junto ao Central Park.
Em Banguecoque abundam os episódios mais ou menos sórdidos que qualquer turista poderá verificar in loco, a prostituição, as drogas, a corrupção e a brutalidade policiais, os estrangeiros “farangs” que por lá vão ficando pela depravação reinante – tudo o que foi descrito do ambiente exterior foi por mim comprovado apenas com cinco dias de estadia na fabulosa capital tailandesa, permanecendo na minha memória sem uma única linha escrita.
A parte II inicia-se com Mike a regressar a Nova Iorque devido a um acontecimento trágico que envolveu Lyle, o seu irmão, e os seus pais. Transfere-se de Harvard para a Columbia University e é um dos muitos nova-iorquinos que testemunha os acontecimentos da manhã de 11 de Setembro de 2001 nas torres gémeas do World Trade Center. Banguecoque fica definitivamente para trás, assim como a estranha prostituta menor “Tweety”, com quem se envolveu, assim como Bishop, Dorr e o grupo de jornalistas que se auto-intitulava de “Circo Voador” – talvez por referência aos Monty Python – e que dominava os meandros da cidade.
Mike parte numa busca desesperada pelo irmão, emocionalmente instável, numa viagem pelos destroços deixados pelo colapso das torres. Encontra-o, finalmente, para o tornar a perder de seguida… definitivamente.
Inicia-se a parte III, mais reflexiva e voltada para o interior da natureza humana.
Eis a estranha introdução:
«Mais cedo ao mais tarde, todos nós sofremos danos. Quando se apercebeu disto, Mike decidiu que seria mais fácil falar com pessoas que nunca existiram.» (pág. 239)
Seguindo-se esta preciosíssima meditação, que aqui destaco pelas frivolidade e risibilidade literárias, pelas questões pseudometafísicas que pretende levantar:
«A dor não é herdada, de geração em geração, como os genes. Será que alguns genes contêm em si dor? Será que tem de ser assim? Será que é essa a essência das famílias? Experiência. Sorte.» (pág. 241)
Todo o livro está recheado de pensamentos similares, de clichés (na maioria das vezes assumidos pelo próprio autor, porém não houve a vontade suficiente para os retirar do corpo da narrativa) e de aforismos de pacotilha, que como dizia espirituosamente Thomas Bernhard se imiscuem no meio da filosofia como uma praga de escaravelhos nos veados.

O Terceiro Irmão é um livro sem consistência, desgarrado, cheio de pontas soltas, de onde por vezes parece emergir a estrita necessidade de gastar páginas escritas para adensar o volume final da obra.
A prosa de McDonell nem sequer chega a ser minimalista, como pretendem os habituais catalogadores. Trata-se, sobretudo, de um aglomerado de palavras que não formam um todo coerente, assemelhando-se a uma compilação de notícias de jornal, sobre os mais diversos assuntos cujo elo de ligação não é visível a olho nu, ou então, estamos no domínio do puro esoterismo, cuja trama é apenas inteligível a mentes mais abertas e esclarecidas.
Atrevo-me a dizer que qualquer editora digna desse nome, funcionando em qualquer parte do mundo, rejeitaria liminarmente um manuscrito desta índole ou, no mínimo, exigiria uma reformulação integral encontrando-se, porventura e por ventura, alguma legitimidade artístico-literária na base da história, seguido, necessariamente, de um aturado e exaustivo trabalho de revisão editorial.
Publicá-lo?!... Só mesmo com um empurrão (já dizia o outro barbudo da voz rouca: with a little help of my friends... and family, acrescento).

Classificação: * (Mau)

Referência bibliográfica:
Nick McDonell, O Terceiro Irmão. Lisboa: Teorema, Abril de 2008, 284 pp. (tradução de Rita Graña; obra original: The Third Brother, 2005).

terça-feira, 8 de julho de 2008

MitD

UK US

«Estou só na escuridão, modificando o mundo na minha cabeça à medida que vou combatendo outro ataque de insónia, outra noite em branco na imensidão americana.»
Paul Auster, Man in the Dark (data de publicação: 21/08/2008) [frase de abertura; tradução: AMC]

segunda-feira, 7 de julho de 2008

Exorbitâncias

O Luís, sempre atento ao que se passa no meio editorial português, alertou-me via caixa de comentários para o preço que irá ser praticado pela editora Palimpsesto na venda da sua versão do conto de Henry James, The Diary of a Man of Fifty (1879), Diário de um homem de 50 anos: o preço final é de 12 euros (que, na prática, será 10,80 euros nos estabelecimentos comerciais que praticam o habitual desconto de “10% sobre o preço do editor”).
Sinceramente, no afã de dar a conhecer ao pequeno número de pessoas que diariamente visita o meu blogue a tradução de mais uma obra do meu mui estimado autor anglo-americano Henry James (1843-1916), não olhei sequer ao preço anunciado.
Ora, sabendo que a esmagadora maioria da obra de Henry James, senão mesmo a totalidade, pertence ao domínio público, isto é, não houve a renovação dos direitos de autor, a prática de um preço de 12 euros para uma obra que se enquadra nesse campo, mesmo sabendo que existem os custos de edição incluindo os da tradução, é, no mínimo e para ser brando, um exagero.
No Projecto Gutenberg ou no Portal Domínio Público do Governo Federal brasileiro, o texto, na sua versão original, está disponível para transferência integral sem qualquer custo para o utilizador (carregar aqui para transferir o documento em ficheiro PDF), surgindo à cabeça a seguinte informação em inglês:

«This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included with this eBook or online at www.gutenberg.net»

Não sei, contudo, (e com alguma preguiça investigadora) se estas disposições se aplicam no caso da edição comercial do texto. Mas, mesmo a existir a necessidade de pagar direitos de publicação, esses serão, decerto, consideravelmente menores àqueles que são, por exemplo, aplicados a uma obra que não pertença ao denominado domínio público, que resultam dos direitos de propriedade intelectual (royalties) dos seus autores ou herdeiros.

Na sua versão original, The Diary of a Man of Fifty dispõe de um total de 11.900 palavras (sabendo que, tendencialmente, em língua portuguesa o número de palavras aumenta numa pequena percentagem). A partir daqui podemos estabelecer uma comparação com os preços praticados no mercado editorial português nas obras do mesmo autor. Assim:

The Diary of a Man of Fifty, aproximadamente 11.900 palavras (conto):
– versão portuguesa Palimpsesto, 80 pp., PVP €12.

Washington Square, aproximadamente 64.200 palavras (romance):
– versão portuguesa Livros de Bolso da Europa-América, 143 pp., PVP €6,49.

The Europeans, aproximadamente 64.200 palavras (romance):
– versão portuguesa, Clássica Editora, Os Europeus, 169 pp., PVP €4,99.

Daisy Miller, aproximadamente 23.100 palavras (novela):
– versão portuguesa Editorial Presença, 112 pp., PVP €8,23.

The Altar of the Dead” (aprox. 13.100 palavras), “De Grey – A Romance” (aprox. 13.000 palavras); “The Last of the Valerii” (aprox. 11.100 palavras); “Nona Vincent” (aprox. 11.600 palavras) “Sir Dominick Ferrand” (aprox. 20.200 palavras) [Total: 69.000 palavras]:
– versão portuguesa Editorial Estampa, O altar dos mortos e outras histórias sobrenaturais, 280pp., PVP 9,56.

The Friends of the Friends” (aprox. 9.700 palavras); “Owen Wingrave” (aprox. 12.600 palavras); “The Private Life” (aprox. 12.800 palavras) [Total: 35.100 palavras]:
– versão portuguesa Editorial Presença (com prefácio de Jorge Luis Borges, colecção A Biblioteca de Babel), Os Amigos dos Amigos, 215pp., PVP €20.

The Turn of the Screw aproximadamente 39.600 palavras (novela):
– versão portuguesa Relógio D’Água, A Volta no Parafuso, 192 pp., PVP €12.

Depois de manifestada a minha opinião (vide título deste texto) e de apresentados alguns dos valores praticados em obras do mesmo autor no mercado editorial português por diferentes editoras, deixo à reflexão dos leitores sobre a proporcionalidade e a conveniência do preço anunciado pela editora de Diário de um homem de 50 anos.

domingo, 6 de julho de 2008

O Mestre, de novo

Henry JamesA notícia é do Eduardo. A recentemente criada editora independente lisboeta Palimpsesto acaba de editar o conto The Diary of a Man of Fifty do eminente escritor anglo-americano Henry James (1843-1916), escrito em 1879, que sairá para o mercado no próximo dia 9 de Julho, sob o título Diário de um homem de 50 anos.
Excluindo a não-ficção, o Mestre escreveu 112 novelas e contos e 20 romances, e uma pequeníssima percentagem dessas obras foi publicada no nosso país. É uma pena, agravada pela certeza de a maioria desses escritos não possuir, neste momento, de direitos autorais e de pertencerem ao denominado domínio público.
Deste modo, uma colectânea desses contos, de forma similar ao que a excepcional Relógio D’Água tem vindo a fazer com a obra de Anton Tchekhov, não seria, certamente, dinheiro mal gasto, contribuiria, desde logo, para o enriquecimento do património bibliográfico nacional, não deixando cair no olvido, através de uma obra dispersa e repetida num sem-número de publicações, um dos nomes mais ilustres da Literatura universal de todos os tempos.

Títulos de Henry James publicado em Portugal (lista actualizada, já publicada no meu blogue anterior, por ordem alfabética do título da obra):

Romances

  • Os Europeus (Clássica Editora) – The Europeans, 1878;
  • A Herdeira (Estampa), que poderá surgir sob o título original noutras editoras: Washington Square, 1880;
  • Infidelidades (Círculo de Leitores) – The Golden Bowl, 1904;
  • Retrato de uma senhora (Relógio D’Água) – The Portrait of a Lady, 1881.

Contos ou Novelas

  • O altar dos mortos e outras histórias sobrenaturais (colectânea: Estampa) – The Altar of the Dead, 1895; inclui, para além do conto epónimo os contos: “O romance dos De Grey” (De Grey – A Romance, 1868); “O último dos Valerii” (The Last of the Valerii, 1874); “Nona Vincent” (1892) e “Sir Dominick Ferrand” ((primeiro título: Jersey Villas; 1892);
  • Os Amigos dos Amigos (Presença) – The Friends of the Friends (primeiro título: The Way It Came), 1896; inclui, para além do conto epónimo os contos: “Owen Wingrave” (1892) e “A Vida Privada” (The Private Life, 1892);
  • Daisy Miller (Presença) – 1878;
  • O Desenho no Tapete (Relógio D’Água) – The Figure in the Carpet, 1896;
  • Diário de um homem de 50 anos (Palimpsesto) – The Diary of a Man of Fifty, 1879;
  • A Fera na Selva (Assírio & Alvim) – The Beast in the Jungle, 1903;
  • Os Manuscritos de Jeffrey Aspern (Relógio D’Água) – The Aspern Papers, 1888;
  • A Volta no Parafuso (Relógio D’Água), que poderá surgir sob o título “Calafrio” noutras editoras – The Turn of the Screw, 1898.

Estatística luso-jamesiana. Foram publicados de O Mestre em português europeu:
4 dos seus 20 romances – 1/5 ou 20%;
14 dos seus 112 contos e novelas – 1/8 ou 12,5%.

Lista dos 16 romances nãos publicados em Portugal (ou, pelo menos, já fora do circuito comercial), por ordem cronológica:
Watch and Ward (1871); Roderick Hudson (1875); The American (1877); Confidence (1879); The Bostonians (1886); The Princess Casamassima (1886); The Reverberator (1888); The Tragic Muse (1890); The Other House (1896); The Spoils of Poynton (1897); What Maisie Knew (1897); The Awkward Age (1899); The Sacred Fount (1901); The Wings of the Dove (1902); The Ambassadors (1903); The Outcry (1911).

sábado, 5 de julho de 2008

Ash / David J. / Haskins

Love and Rockets[na imagem da esquerda para a direita: Haskins, Ash e David J.]
Uma querida amiga ofereceu-me um bilhete duplo para a sessão inaugural do Super Bock Super Rock que se realizou ontem no Parque da Cidade.
Só pude recusar, amavelmente, não era pelos Xutos & Pontapés (grupo por quem tenho uma inexplicável e especial embirração), muito menos pelo David Fonseca ou pelos xaroposos Crowded House e muito menos pelos horríveis ZZ Top (que me desculpem os fãs, mas trata-se de um ancestral ódio de estimação), que me iria encafuar num recinto com aquela turba festivaleira.
Lá pelo meio havia os Love and Rockets, grupo com alguma consideração nos meus anos de adolescência – sim, a idade não perdoa – materializada na posse da sua discografia completa na minha fonoteca particular:

  • Da fase Beggar’s Banquet: Seventh Dream of Teenage Heaven (1985); Express (1986); Earth, Sun, Moon (1987) e Love And Rockets (1989);
  • Da fase American: disponho do primeiro e único álbum que vale a pena, Hot Trip to Heaven (1994).

Ash, David J. e Haskins sem MurphyO Vampiro – não é a mesma coisa que Sumner, Hook, Morris sem Curtis. Enquanto os primeiros como Love & Rockets, havendo rompido com sonoridade gótica e pós-punk dos Bauhaus, jamais conseguiram cativar da mesma forma os fãs da eterna antecessora; os segundos, os New Order, fizeram uma transição pacífica do inimitável som dos Joy Division, para o mundo da música electrónica que despontava no início dos anos 80 do século passado – como provam os três primeiros álbuns Movement (Fac 50, 1981) e Low-Life (Fac 100, 1985) com uma sonoridade ainda muito próxima dos Joy Division, intercalados pelo icónico álbum de ruptura Power, Corruption & Lies (Fac 75, 1983), ainda havia dedo de Tony Wilson, Rob Gretton e nos primeiros tempos de Martin Hannett; não esquecendo o extraordinário álbum de 2001, Get Ready (ainda com o co-fundador e baixista do grupo, Peter Hook) com uma dezena de músicas excepcionalmente bem estruturadas, com a mãozinha do produtor Steve Osborne.

Fiquei em casa e sintonizei a SIC Radical, a esperança converteu-se em certeza, houve transmissão televisiva. O concerto do trio de Northampton foi fraco numa atípica noite chuvosa de Verão. Iniciou-se com “Ball of Confusion” e prosseguiu com algumas canções facilmente identificáveis: “Haunted When the Minutes Drag”, “An American Dream”, “No Big Deal”, “No New Tale to Tell”, etc. Como seria de esperar, apenas brilhou Ash, a alma da banda. Um David J. desafinado, e aparentemente desnorteado – vá-se lá saber porquê? –, e um Kevin Haskins aparentemente descoordenado estragaram o produto final, que ficou irremediavelmente perdido pelo omissão, deliberada ou não, do ainda hoje magnífico tema “So Alive” – êxito maior da banda britânica –, e isto apesar de Daniel Ash num dos intervalos entre canções haver articulado ao microfone as suas duas primeiras estrofes «I don't know what colour your eyes are, baby / But your hair is long and brown», sem reacção de um público que me pareceu, à imagem do grupo, artrítico; do célebre instrumental dedicado a Portugal “Saudade”, de “All in My Mind”, “Mirror People”, “Motorcycle”, “Kundalini Express” ou até de “Lazy”, nem vestígios.
Ash termina de uma forma “especial” (como proferiu) e o trio toca “Should I Stay, or Should I Go” de Strummer & Cª. (The Clash), despedindo-se com um lacónico «Thank you» – ao que dizem, este finale não é original, os Love and Rockets já o haviam feito num concerto nos E.U.A., trata-se, segundo consta, de uma forma de homenagem ao desaparecido Joe Strummer (1952-2002) e à organização que luta contra o aquecimento global por que deu a cara, The Carbon Neutral Company (anteriormente denominada de Future Forests).

A seguir chegariam os inefáveis senhores texanos quase sexagenários de barbas longas. A SIC Radical despede-se do concerto e inicia um longo serão dos escabrosos espectáculos do WWE que encandeia metade da geração fast food norte-americana, com rápido contágio na Europa e na Ásia ocidentalizada.
Amanhã haverá o frenético Jay Kay, mas falta-me a paciência que já tive para tanta excitação.

Retiro o som ao televisor, o meu mulherio já dorme, pego num livro rememorando os meus tempos de adolescente onde a música era uma parte central da minha vida despreocupada e os meus ícones se vão esfumando pela lei da vida ou, de forma mais excruciante, pela total ignorância da ocasião ideal para iniciar o gozo dos privilégios da reforma.



----------------So Alive--------------------


Mapa de manuel a. domingos [pub]


(carregar na imagem para a ampliar)


Desde os cafés da Guarda, nos anos adolescentes, onde tudo era ainda possível, até a um certo desencanto com o mundo, manuel a. domingos constrói uma poética feita de pequenos detalhes comuns à vida e à poesia, tentando descobrir modos de acreditar em mapas que nos soam tão estrangeiros.


Livrododia Editores (para mais informações).

sexta-feira, 4 de julho de 2008

Descubra as diferenças...

Certamente tecnológicas, 11 anos depois:
Do realizador austríaco Michael Haneke Funny Games (1997) e Funny Games U.S. (2008) [ambos denominados por Brincadeiras Perigosas em Portugal].

1997 ou 2008?
1997 ou 2008?



Proposta de Brincadeira NM: faça corresponder o ano de produção do filme ao respectivo fotograma.
Fácil...

Se um desconhecido lhe pedir... ovos


Isso é Haneke!

quinta-feira, 3 de julho de 2008

A Queda

Manuela Ferreira LeiteProcurei. Sabia que se encontrava algures pelo início do pequeno romance ensaístico de Camus: A Queda. Lêem-se e relêem-se aquelas linhas espalhadas por cerca de 120 páginas sem cansar. Em todas elas doutrina para inquirir. Pedra deliberadamente em bruto, apenas fornecida pelo prazer de ver os outros lapidá-la.
(Em mim dá-se um fenómeno, pelo menos curioso, sempre que leio ou releio os admiráveis escritos deste argelino de nascença, tragicamente desaparecido nos primeiros dias de 1960, com apenas 46 anos completados, cada vez me afasto mais daquele presunçoso, cujo olhar vesgo – e, acreditem, não é, de forma alguma, minha característica aproveitar-me do defeitos físicos para a vituperação seja de que ordem for do diminuído – sempre me deixou a impressão indelével do falhanço intelectual da pontaria: J-P Sartre.)

Está Clamence, o parisiense que vive no bairro judeu em Amesterdão quando se tornou juiz-penitente, no início do seu aparente diálogo com um desconhecido no Mexico-City acabado de chegar de Paris, quando pergunta:

«Demora-se muito em Amsterdão [sic]? Linda cidade, não acha? Fascinante? Eis um adjectivo que não ouço há muito tempo. Precisamente desde que deixei Paris, já lá vão uns anos. Mas o coração tem a sua memória e eu nada esqueci da nossa bela capital, nem dos seus cais. Paris é uma autêntica ilusão de óptica, um imponente cenário habitado por quatro milhões de silhuetas. Perto de cinco milhões no último recenseamento? Está bem, devem ter feito meninos. Não me admiro. Sempre me pareceu que os nossos concidadãos tinham duas paixões violentas: as ideias e a fornicação. A torto e a direito, por assim dizer.»
Albert Camus, A Queda, pp. 9-10 (Lisboa: Livros do Brasil, Novembro de 2007, 113 pp.; tradução de José Terra; obra original: La chute, 1956).

A nossa lusamente fabricada “dama de ferro” – o neologismo já diz tudo – fazendo, decerto, apelo a um conservadorismo arrumado no armário dos dispendiosos e anacrónicos casacos de peles com cheiro a naftalina, afirmou que, se for poder, jamais permitirá uma lei que viabilize o casamento entre homossexuais: o casamento é para a procriação, diz ela.
Não sou historiador, sociólogo, psicólogo social, antropólogo, apenas um homem das ciências e das finanças empresariais, mas consigo afirmar que, para além do maior ou menor lirismo, pompa e circunstância, na celebração do matrimónio, o casamento nos tempos mais recentes sempre teve que ver com a defesa jurídica do património e nunca com a fornicação… perdão, procriação. Aliás, negá-lo levar-nos-ia a outros tempos onde o bafio e bolor intelectuais pairavam por sobre as cabeças dos meus concidadãos, neste país de sacristias; um odor a naftalina, bem diferente da Índia de Pasolini – OK, comecei a lê-lo há coisa de uma hora –, cuja toxicidade acabou por se revelar mortal: traçou o destino de um país que inevitavelmente saiu do limbo rumo ao inferno do atraso estrutural e, acima de tudo, mental.

A dúvida adensa-se: que fazer em 2009?

quarta-feira, 2 de julho de 2008

Jorge Calma

M., a segunda, veio baralhar ainda mais uma vida que já não era recomendável pelo império da incerteza e pela falta de arrumação. Mas não, tudo o que agora existe é antinomia do arrependimento: não consigo vislumbrá-la, a vida, sem a truculência dos seus 17 meses completados na passada quinta-feira.

Manhã fria e ventosa na Invicta. Seguia pela Fernão de Magalhães, rádio sintonizada na TSF. M. esbracejava, palrava, eu ia ouvindo o normal barulho do velcro dos sapatos que tentava tirar, ela olhava para as curtas vistas que o horizonte lateral fechado pela vigia da temporária embarcação que a levava ao transbordante mar de afectos da avó paterna. M. não parava. Perguntei pela chupeta, um pé descalço baloiçava no ar, até que… um silêncio cúmplice com a música e a voz que se soltaram dos altifalantes, algum sossego, seguido de apenas uns trilos curtos e melódicos, como se quisesse acompanhar o lisboeta cinquentão. Aumentei o volume, naveguei no resto do percurso com os olhos no retrovisor. Terminou: «M. chegámos.»
Voltou a dor de costas. Debruçado sobre o assento traseiro do meu carro de três portas procurava os objectos que se foram soltando até surgir a Calma, Jorge Palma “Encosta-te a Mim”.
Vídeo em baixo. Som na coluna do lado direito durante esta semana.


segunda-feira, 30 de junho de 2008

O futeboleiro Presidente

Michel Platini

Quarta-feira, 16 de Maio de 1984. A poucas semanas de completar a minha primeira dúzia de anos a vaguear por este mundo – hoje, já completei três – disputava-se na Suíça um dos jogos mais importantes da história futebolística do meu clube desde a sua fundação (28 de Setembro de 1893 pelo vinicultor e exportador de Vinho do Porto António Nicolau de Almeida): a final da Taça das Taças frente à vecchia signora, o clube de Turim Juventus FC, propriedade de Giovanni Agnelli, principal accionista do império FIAT (Fabbrica Italiana Automobili Torino) que ajudou a fundar.
De um lado a superpoderosa Juventus, do outro os irredutíveis homens de azul e banco – dirigidos interinamente por António Morais, dada a ausência forçada do colossal José Maria Pedroto, na batalha final contra a doença que o iria vitimar em Janeiro de 1985. Esses desconhecidos, de dragão ao peito, acabavam de vergar a outrora colossal equipa escocesa do Aberdeen, treinada por um homem chamado Alex Ferguson, saindo do estádio escocês debaixo dos aplausos em pé dos adeptos adversários, numa demonstração de reconhecimento da superioridade evidenciada por Gomes & Companhia nos dois jogos.

Aos dezasseis dias do mês de Maio, do ano da Graça de mil novecentos e oitenta e quatro, disputou-se no Estádio St. Jacob1, Basileia, a final Taça dos Vencedores das Taças, entre Futebol Clube do Porto (Portugal) e a Juventus Football Club (Itália), arbitrada pelo habilidosíssimo árbitro da extinta República Democrática Alemã (RDA) de seu nome Adolf Prokop.
Alinhamento das equipas2:

  • FC Porto: Zé Beto; João Pinto, Lima Pereira, Eurico e Eduardo Luís; Frasco, Jaime Magalhães, Jaime Pacheco e Sousa; Gomes e Vermelhinho. Jogaram ainda: Costa e Mike Walsh. Treinador: António Morais.
  • Juventus FC: Tacconi; Gentile, Scirea, Brio e Cabrini; Tardelli, Platini, Boninni e Vignola; Boniek e Paolo Rossi. Jogou ainda: Caricola. Treinador: Giovanni Trapattoni.

Resultado: FCP – 1 (Sousa, 29’) / Juventus – 2 (Vignola, 13’; Boniek, 85’)

Do jogo ficou a excelente exibição do meu FCP, manchada por uma arbitragem miseravelmente suspeita (aliás com ecos, à laia de rumor, que se fizeram ouvir pela Europa do futebol sobre a sua nomeação nos dias que antecederam o jogo) – eu, com mais 24 anos em cima, não me recordo de uma arbitragem que se aproximasse deste indecoroso calibre; nem o Bruno Paixão em Campo Maior...
Platini era o n.º 10 da equipa de Turim. A Juve venceu a Taça das Taças com a ajuda de uma arbitragem escandalosa de um senhor do outro lado (o leste, miserável) da cortina de ferro. Durante o jogo, ficaram faltas por marcar dentro e fora da área a favor do meu clube. Boniek (o excelente avançado polaco) aproveitou-se e marca o segundo golo em falta sobre os defesas portistas a cinco minutos do final do jogo. Zé Beto é suspenso pela UEFA durante 1 ano porque no túnel de acesso aos balneários tentou tirar satisfações do árbitro e o fiscal de linha interpondo-se ao conflito verbal acabou por levar um pontapé do irascível e saudoso guarda-redes portista.

Recordo-me, vivamente, de me haver agarrado ao meu irmão e de ter chorado de raiva, enquanto ele, então com 8 anos, perguntava à minha mãe: Mas porquê?

No entanto, acabámos por ficar com a Taça exposta no museu dos troféus conquistados. Numa demonstração inequívoca de amor ao clube, os sócios juntaram-se e arrecadaram o dinheiro necessário para construir uma réplica da dita taça e ofereceram-na ao FCP, como acto simbólico de reposição da justiça que faltou, que apaziguou a revolta que ainda vivia nos corações de todos os adeptos.

Por onde andavas Michel Platini? O homem que hoje se arroga das transparência e lealdade desportivas.
É um futeboleiro. Nunca deixou de o ser. Não se enganem. É por falar francês? Língua que, aos nossos ouvidos terceiro-mundistas, pela fonética lhe empresta um certo ar imperial, superior e afectado.
Platini fala do que desconhece na íntegra. Aparentemente, serve de mero ventríloquo das opiniões de alguém que as fez soprar ao ouvido, desautorizando a instâncias jurídicas e disciplinares do organismo máximo que superintende. Hoje, por exemplo, houve o encerramento definitivo de parte de um dos dois processos (o do Estrela da Amadora)…
E depois, M. Platini?

Notas:

  1. O amnésico-lacunar Valdemar Duarte da TVI, que a propósito de tudo e de nada se referia a qualquer incursão benfiquista, antiga ou recente, por terras austríacas e helvéticas – não se pôde, no entanto, furtar à referência do calcanhar de Madjer e eventos conexos no agora Ernst Happel, outrora apenas Praterstadion, que recebeu a final do Euro 2008 – esqueceu-se, que eu saiba, de mencionar a célebre final de Basileia em 1984. St. Jacob era um dos estádios do Europeu deste ano, tendo recebido inclusivamente um dos quatro jogos da selecção nacional.
  2. A constituição das equipas foi retirada do livro de Rémulo Jónatas e Bernardino Barros, Mui Nobre e Sempre Invicto Clube do Porto (Parede, Prime Books, 1.ª ed., pág. 44).

sexta-feira, 27 de junho de 2008

James, a idade de Cristo

A tradução trai-te muitas vezes, no afã de tudo explicitar, esquecem-se da derivação da raiz do teu nome hebraico, mais tarde latinizado… Irmão de sangue do pai do Apocalipse, “O Preferido”…

Hoje completarias a idade de Cristo33, dizem pregado na cruz para redenção dos pecados do mundo. Tu, como um cordeiro sacrificial, nem tiveste tempo para ultrapassar os primeiros três meses dos teus 27, como os dias de Junho que deixaste passar até irromperes do ventre da mãe no teu trinado irascível.

Ainda pensei no teu mais que tudo James “Iguana” Osterberg. Mas ficam estes, Booth & companhia, com os quais jogaste uma memorável peladinha no descampado das Antas atrás do antigo pavilhão Américo de Sá, antes do concerto.


Canto para mim mesmo para adormecer
Desde o momento mais negro uma canção
Segredos que não posso esconder
Durante a luz do dia
Oscilam do mais elevado ao mais profundo
Extremos de doce e amargo
Esperando que Deus exista
Eu tenho fé, eu rezo

Afogado até à raiz dos cabelos
A minha vida está fora de controlo
Acredito que esta onda susterá o meu peso
Então deixá-la fluir

Senta-te
Senta-te junto a mim
Senta-te
Com simpatia

Agora fiquei aliviado por ouvir
Que andaste por lugares distantes
É difícil prosseguir
Quando se sente a solidão
Agora que voltei a bater no fundo
É pior que antes
Como se jamais tivesse visto esses tesouros
Posso viver com a minha pobreza

Senta-te
Senta-te junto a mim
Senta-te
Simpaticamente

Aqueles que sentem o sopro da tristeza
Sentem-se junto de mim
Aqueles que se julgam tocados pela loucura
Sentem-se junto de mim
Aqueles que se consideram ridículos
Sentem-se junto de mim
Amor, no medo, no ódio, nas lágrimas

Senta-te
Senta-te junto a mim
Senta-te
Simpaticamente

James, “Sit Down”, 1989 (Gold Mother, 1991)
[versão: AMC, 2008]

quinta-feira, 26 de junho de 2008

Atwood sucede a Oz

Margaret Atwood
Margaret Atwood (n. 1939, Otava, Canadá) foi galardoada com o Premio Príncipe de Asturias de las Letras de 2008.

Justíssima atribuição do prémio para a eminente autora canadiana. Romancista, ensaísta, contista, poetisa, escritora de livros para crianças, ilustradora, responsável pela criação de obras-primas da literatura de ficção como O Assassino Cego (ed. port. Livros do Brasil, 2001; Blind Assassin, 2000; vencedor do Booker Prize de 2000) e dos excepcionais romances distópicos Órix e Crex. O Último Homem (ed. port. Asa, 2006; Oryx and Crake, 2003; finalista do Booker Prize de 2003) e Crónica de uma Serva (ed. port. Europa-América, 1985; The Handmaid's Tale, 1985; finalista do Booker Prize de 1986); não esquecendo a excelente urdidura (é o termo correcto) em A Odisseia de Penélope (ed. port. Teorema, 2006; The Penelopiad, 2005).
O vencedor anterior nesta categoria foi o escritor israelita Amos Oz – definitivamente, a organização dos ditos prémios de atribuição anual parece ter abandonado o chauvinismo que influenciou, de forma determinante, os primórdios deste prémio.
Vencedores anteriores:
2007 – Amos Oz (Israel)
2006 – Paul Auster (E.U.A.)
2005 – Nélida Piñon (Brasil)
2004 – Claudio Magris (Itália)
2003 – Fatema Mernissi (Marrocos) e Susan Sontag (E.U.A.)
2002 – Arthur Miller (E.U.A.)
2001 – Doris Lessing (Reino Unido)
2000 – Augusto Monterroso (Guatemala)
1999 – Günter Grass (Alemanha)
1998 – Francisco Ayala (Espanha)
1997 – Álvaro Mutis (Colômbia)
1996 – Francisco Umbral (Espanha)
1995 – Carlos Bousoño (Espanha)
1994 – Carlos Fuentes (México)
1993 – Claudio Rodríguez (Espanha)
1992 – Francisco Morales Nieva (Espanha)
1991 – Povo de Porto Rico
1990 – Arturo Uslar Pietri (Venezuela)
1989 – Ricardo Gullón (Espanha)
1988 – Carmen Martín Gaite (Espanha) e José Ángel Valente (Espanha)
1987 – Camilo José Cela (Espanha)
1986 – Rafael Lapesa Melgar (Espanha) e Mario Vargas Llosa (Peru)
1985 – Ángel González (Espanha)
1984 – Pablo García Baena (Espanha)
1983 – Juan Rulfo (México)
1982 – Miguel Delibes Setién (Espanha) e Gonzalo Torrente Ballester (Espanha)
1981 – José Hierro del Real (Espanha)

quarta-feira, 25 de junho de 2008

O Jogo de De Niro

Foi talvez pela cacofonia que resultaria da tradução literal do título da obra de Rawi Hage – por ela recentemente vencedor do IMPAC 2008 – que o editor português optou pelo título Como a Raiva ao Vento. Não me vou alongar pelas necessidade e pertinência da alteração, mas revelar o significado do título em inglês obrigar-me-ia a introduzir no texto, com direito a destaque, uma advertência sobre a possibilidade de, com as curtas palavras que irei escrever, revelar parte do enredo, o sal que tempera em medidas certeiras esta excelente obra. Porém, um tiro menos certeiro (neste caso seria mais afortunado), propositado ou não, do autor, ao desviar de Walken, de autoria ciminiana, o protagonismo do acto para De Niro, a alcunha de George que nos é dada a conhecer no desenvolvimento da obra.
Beirute, Líbano, 1975, eclodiu a Guerra Civil na até então conhecida suíça do médio oriente. A cidade ficou dividia em duas zonas: a oriental dominada pelas milícias cristãs e a ocidental pela facção muçulmana dominada pelos sírios e refugiados palestinianos.
Uma amizade subsiste ao conflito: George e Bassam (o narrador da história), os adolescentes protagonistas do romance, que se definem como rufias no centro de uma zona de guerra:

«A guerra é para os tugues. As motocicletas também são para os tugues e para os adolescentes cabeludos como nós, com armas na barriga e gasóleo roubado no depósito, sem destino certo.» (pp. 14-15)

Ambos vagueavam pelas ruas bombardeadas de Beirute, atulhadas de lixo, por onde perambulavam milhares de cães e gatos abandonados pelos que tiveram a sorte de fugir do país para continuar as suas vidas luxuosas em França. Jovens órfãos feitos adultos à força:

«Andámos sem rumo, como pedintes e ladrões, como árabes lascivos de cabelo encaracolado e camisas abertas com o maço de Marlboro preso nas mangas enroladas, refugos da escola, niilistas implacáveis com armas, mau hálito e calças de ganga compridas, americanas.» (p. 15)

Bassam é manobrador de um guincho no porto da cidade, George toma conta de uma casa de máquinas electrónicas de póquer controlada pela milícia cristã, onde os miseráveis enterravam a sua fortuna, as jóias e terrenos da família, as roupas e o futuro dos próprios filhos. Bassam convence George a abandonar o país, elaborando um esquema de viciação das máquinas. Este é ponto a partir do qual o destino de ambos – até então pretendida e efectivamente comum, como dois irmãos sangue, amigos que se conhecem desde a infância – chega a uma encruzilhada, e aquele bifurca-se, ambos terão de seguir por caminhos diferentes. George fica, tem de ficar, é-lhe solicitada a entrada para a milícia, vogando nas suas mentes a eventual descoberta do esquema fraudulento pelo gerente do estabelecimento, o terrível miliciano Abu Nará, como a causa imediata do alistamento compulsivo e de uma separação progressiva, impiedosa, que se irá revelar como fatal. Chega-se ao tal ponto viragem camusiano, a curta viagem, a percepção, da existência anódina e mecanizada entre os escombros da civilização para a tomada de consciência da solidão e da indiferença, do Homem só com o mundo, crescendo um sentimento de desapego pela vida – aliás, Camus é explicitamente citado na obra através do seu memorável O Estrangeiro (L’Étranger, 1942) e de forma subliminar a trilogia do absurdo de que aquele romance faz parte.

Sob um fundo de destruição, barbaridade e de terror, Hage constrói uma narrativa equilibrada, muitas vezes cómica e irónica que funciona como válvula de escape à tensão provocada por uma prosa necessariamente cruel e brutal na descrição das atrocidades perpetradas, das práticas de tortura e de um povo à beira da ruína – leia-se como exemplo da insanidade geral provocada pelo conflito, o grotesco massacre dos cães vadios despoletado por uma mordidela de um chihuahua a um outrora famoso advogado que a guerra desempregou, o Sr. Samir:

«Estão a matar os cães! As palavras dos cristãos corriam de varanda em varanda. Dois jipes que transportavam sete milicianos cercaram os cães. O massacre dos cães! A chacina dos cães. Uma cadela, galga afegã, foi executada por traição, enquanto a sua adorada dona se encontrava, em Paris, com as suas quatro patas numa cama de lençóis de seda, dando apoio ao seu amante secreto, Pierre, um pintor francês, nas suas diligências artísticas. Um cocker spaniel foi perseguido por um atacante gordo, enquanto a sua mamã comprava filet mignon nos Campos Elísios para um serão com vinho e debuxada. Um pastor alemão foi chacinado como uma ovelha numa história de lobos, enquanto os seus pais adoptivos bebiam cerveja, sentados a uma mesa comprida num bar europeu, repleto de homens a cantar canções bávaras. O chihuahua conseguiu escapar duas vezes devido ao seu diminuto tamanho, mas foi finalmente fuzilado à queima-roupa, debaixo de um carro, enquanto a sua mãe discutia, em Veneza, a origem da seda num salão chique onde se tomavam espressos. O líder de três patas, um órfão, morreu sozinho, no cimo de uma montanha de lixo, apoiado numa peça metálica, numas latas de hummus vazias e uma caixa de detergente belga.» (pp. 65-66)


Roma, Beirute e Paris. Três cidades que compõem as três partes em que se subdivide o romance. Beirute entre dois palcos onde se escreveram as páginas mais negras da História universal, em nome da religião, da raça ou da simples demarcação de fronteiras. O Corso montado no seu cavalo branco, o nazismo, o império de Roma, os cruzados…
Como a Raiva ao Vento não é uma obra de espionagem, um relato de guerra ou um romance histórico, é sobretudo uma narrativa sobre a inocência prematuramente perdida, que não foge ao lirismo do amor fraterno, da dor pungente da traição; é um ensaio sobre a perda, a solidão e o desamparo, sobre o egoísmo imanente a uma civilização que se degrada em torno do poder; e é, sobretudo, um relato vívido sobre o desencanto dessa descoberta, embora o autor, com toda a sua sagacidade e a sua destreza literária, deixe um sinal de esperança na réstia de inocência que permanece cá dentro, apesar das atrocidades, materializada na narrativa através dos fabulosos pueris e burlescos devaneios de Bassam.

Como a Raiva ao Vento é um romance poderoso, de leitura compulsiva e, certamente, daqueles cuja experiência de leitura perdurará por muito tempo na memória de quem faz da Literatura o seu principal objecto de distracção. É o primeiro romance de Rawi Hage (n. 1964)...

Classificação: ***** (Muito Bom)

Referência bibliográfica:
Rawi Hage
, Como a Raiva ao Vento. Porto: Civilização, Junho de 2008, 284 pp. (tradução de Teresa Fernandes Swiatkiewicz; obra original: De Niro’s Game, 2006).

sábado, 21 de junho de 2008

Ainda sobre o IMPAC 2008

A magnífica editora portuense Civilização acabou de publicar a versão portuguesa do romance vencedor do IMPAC de 2008, prémio que foi anunciado no passado dia 12 de Junho em Dublin na Irlanda.
Assim, o único romance do fotógrafo e escritor canadiano-libanês de 44 anos, Rawi Hage, originalmente intitulado como De Niro’s Game, surge em português sob o título Como a Raiva ao Vento, traduzido por Teresa Fernandes Swiatkiewicz.
Para ler, em breve.


sexta-feira, 20 de junho de 2008

Montand / Prévert / Kosma – Um Tributo

Escrita em 1945 por Jacques Prévert (1900-1977), com música do compositor húngaro Joseph Kosma (1905-1969) e interpretação do inesquecível Yves Montand (1921-1991) em 1981 no Olympia de Paris, «Les feuilles mortes» é o meu contributo singelo, melancólico e crocodílico-lacrimejante para retratar a fatal ruptura amorosa entre o povo português e um tal de sargentão – e de horas e horas a fio de reportagens sobre a selecção; as vidas, os vícios, os gostos (sempre duvidosos), lingerie, higiene pessoal e as pequenas perversões de treinadores, jogadores, cozinheiros, roupeiros e até dos seus animais de estimação; os directos das buzinadelas e das inanidades saídas da boca de um povo que, anestesiado, fez um manguito à crise. Pobre Eng.º... acabou-se futebolocaína...

Bom, regressando ao instrumento da minha pequena homenagem. Em 1947, Johnny Mercer (1909-1976) levou a música para os Estados Unidos e transformou-a num dos velhos standards americanos, “Autumn Leaves”, cantado por Nat King Cole (1919-1965) para o filme homónimo de 1956 de Robert Aldrich, com Joan Crawford (1906-1977) no principal papel, e imortalizado em 1957 por A Voz, Francis Albert Sinatra (1915-1998), com arranjo orquestral de Gordon Jenkins – esta versão permanecerá na coluna do lado direito deste blogue durante uns dias (os que me apetecer).

Trata-se, assim, de uma bi-homenagem bilingue na dilacerante partida do nosso Bismarck ou Garibaldi (como preferirem) para terras de Sua Majestade.

Eis, como prometi, Yves Montand no Olympia em 1981:

Oh ! je voudrais tant que tu te souviennes
Des jours heureux où nous étions amis.
En ce temps-là la vie était plus belle,
Et le soleil plus brûlant qu'aujourd'hui.
Les feuilles mortes se ramassent à la pelle.
Tu vois, je n'ai pas oublié...
Les feuilles mortes se ramassent à la pelle,
Les souvenirs et les regrets aussi
Et le vent du nord les emporte
Dans la nuit froide de l'oubli.
Tu vois, je n'ai pas oublié
La chanson que tu me chantais.

C'est une chanson qui nous ressemble.
Toi, tu m'aimais et je t'aimais
Et nous vivions tous deux ensemble,
Toi qui m'aimais, moi qui t'aimais.
Mais la vie sépare ceux qui s'aiment,
Tout doucement, sans faire de bruit
Et la mer efface sur le sable
Les pas des amants désunis.

Les feuilles mortes se ramassent à la pelle,
Les souvenirs et les regrets aussi
Mais mon amour silencieux et fidèle
Sourit toujours et remercie la vie.
Je t'aimais tant, tu étais si jolie.
Comment veux-tu que je t'oublie ?
En ce temps-là, la vie était plus belle
Et le soleil plus brûlant qu'aujourd'hui.
Tu étais ma plus douce amie
Mais je n'ai que faire des regrets
Et la chanson que tu chantais,
Toujours, toujours je l'entendrai !