domingo, 6 de julho de 2008

O Mestre, de novo

Henry JamesA notícia é do Eduardo. A recentemente criada editora independente lisboeta Palimpsesto acaba de editar o conto The Diary of a Man of Fifty do eminente escritor anglo-americano Henry James (1843-1916), escrito em 1879, que sairá para o mercado no próximo dia 9 de Julho, sob o título Diário de um homem de 50 anos.
Excluindo a não-ficção, o Mestre escreveu 112 novelas e contos e 20 romances, e uma pequeníssima percentagem dessas obras foi publicada no nosso país. É uma pena, agravada pela certeza de a maioria desses escritos não possuir, neste momento, de direitos autorais e de pertencerem ao denominado domínio público.
Deste modo, uma colectânea desses contos, de forma similar ao que a excepcional Relógio D’Água tem vindo a fazer com a obra de Anton Tchekhov, não seria, certamente, dinheiro mal gasto, contribuiria, desde logo, para o enriquecimento do património bibliográfico nacional, não deixando cair no olvido, através de uma obra dispersa e repetida num sem-número de publicações, um dos nomes mais ilustres da Literatura universal de todos os tempos.

Títulos de Henry James publicado em Portugal (lista actualizada, já publicada no meu blogue anterior, por ordem alfabética do título da obra):

Romances

  • Os Europeus (Clássica Editora) – The Europeans, 1878;
  • A Herdeira (Estampa), que poderá surgir sob o título original noutras editoras: Washington Square, 1880;
  • Infidelidades (Círculo de Leitores) – The Golden Bowl, 1904;
  • Retrato de uma senhora (Relógio D’Água) – The Portrait of a Lady, 1881.

Contos ou Novelas

  • O altar dos mortos e outras histórias sobrenaturais (colectânea: Estampa) – The Altar of the Dead, 1895; inclui, para além do conto epónimo os contos: “O romance dos De Grey” (De Grey – A Romance, 1868); “O último dos Valerii” (The Last of the Valerii, 1874); “Nona Vincent” (1892) e “Sir Dominick Ferrand” ((primeiro título: Jersey Villas; 1892);
  • Os Amigos dos Amigos (Presença) – The Friends of the Friends (primeiro título: The Way It Came), 1896; inclui, para além do conto epónimo os contos: “Owen Wingrave” (1892) e “A Vida Privada” (The Private Life, 1892);
  • Daisy Miller (Presença) – 1878;
  • O Desenho no Tapete (Relógio D’Água) – The Figure in the Carpet, 1896;
  • Diário de um homem de 50 anos (Palimpsesto) – The Diary of a Man of Fifty, 1879;
  • A Fera na Selva (Assírio & Alvim) – The Beast in the Jungle, 1903;
  • Os Manuscritos de Jeffrey Aspern (Relógio D’Água) – The Aspern Papers, 1888;
  • A Volta no Parafuso (Relógio D’Água), que poderá surgir sob o título “Calafrio” noutras editoras – The Turn of the Screw, 1898.

Estatística luso-jamesiana. Foram publicados de O Mestre em português europeu:
4 dos seus 20 romances – 1/5 ou 20%;
14 dos seus 112 contos e novelas – 1/8 ou 12,5%.

Lista dos 16 romances nãos publicados em Portugal (ou, pelo menos, já fora do circuito comercial), por ordem cronológica:
Watch and Ward (1871); Roderick Hudson (1875); The American (1877); Confidence (1879); The Bostonians (1886); The Princess Casamassima (1886); The Reverberator (1888); The Tragic Muse (1890); The Other House (1896); The Spoils of Poynton (1897); What Maisie Knew (1897); The Awkward Age (1899); The Sacred Fount (1901); The Wings of the Dove (1902); The Ambassadors (1903); The Outcry (1911).

sábado, 5 de julho de 2008

Ash / David J. / Haskins

Love and Rockets[na imagem da esquerda para a direita: Haskins, Ash e David J.]
Uma querida amiga ofereceu-me um bilhete duplo para a sessão inaugural do Super Bock Super Rock que se realizou ontem no Parque da Cidade.
Só pude recusar, amavelmente, não era pelos Xutos & Pontapés (grupo por quem tenho uma inexplicável e especial embirração), muito menos pelo David Fonseca ou pelos xaroposos Crowded House e muito menos pelos horríveis ZZ Top (que me desculpem os fãs, mas trata-se de um ancestral ódio de estimação), que me iria encafuar num recinto com aquela turba festivaleira.
Lá pelo meio havia os Love and Rockets, grupo com alguma consideração nos meus anos de adolescência – sim, a idade não perdoa – materializada na posse da sua discografia completa na minha fonoteca particular:

  • Da fase Beggar’s Banquet: Seventh Dream of Teenage Heaven (1985); Express (1986); Earth, Sun, Moon (1987) e Love And Rockets (1989);
  • Da fase American: disponho do primeiro e único álbum que vale a pena, Hot Trip to Heaven (1994).

Ash, David J. e Haskins sem MurphyO Vampiro – não é a mesma coisa que Sumner, Hook, Morris sem Curtis. Enquanto os primeiros como Love & Rockets, havendo rompido com sonoridade gótica e pós-punk dos Bauhaus, jamais conseguiram cativar da mesma forma os fãs da eterna antecessora; os segundos, os New Order, fizeram uma transição pacífica do inimitável som dos Joy Division, para o mundo da música electrónica que despontava no início dos anos 80 do século passado – como provam os três primeiros álbuns Movement (Fac 50, 1981) e Low-Life (Fac 100, 1985) com uma sonoridade ainda muito próxima dos Joy Division, intercalados pelo icónico álbum de ruptura Power, Corruption & Lies (Fac 75, 1983), ainda havia dedo de Tony Wilson, Rob Gretton e nos primeiros tempos de Martin Hannett; não esquecendo o extraordinário álbum de 2001, Get Ready (ainda com o co-fundador e baixista do grupo, Peter Hook) com uma dezena de músicas excepcionalmente bem estruturadas, com a mãozinha do produtor Steve Osborne.

Fiquei em casa e sintonizei a SIC Radical, a esperança converteu-se em certeza, houve transmissão televisiva. O concerto do trio de Northampton foi fraco numa atípica noite chuvosa de Verão. Iniciou-se com “Ball of Confusion” e prosseguiu com algumas canções facilmente identificáveis: “Haunted When the Minutes Drag”, “An American Dream”, “No Big Deal”, “No New Tale to Tell”, etc. Como seria de esperar, apenas brilhou Ash, a alma da banda. Um David J. desafinado, e aparentemente desnorteado – vá-se lá saber porquê? –, e um Kevin Haskins aparentemente descoordenado estragaram o produto final, que ficou irremediavelmente perdido pelo omissão, deliberada ou não, do ainda hoje magnífico tema “So Alive” – êxito maior da banda britânica –, e isto apesar de Daniel Ash num dos intervalos entre canções haver articulado ao microfone as suas duas primeiras estrofes «I don't know what colour your eyes are, baby / But your hair is long and brown», sem reacção de um público que me pareceu, à imagem do grupo, artrítico; do célebre instrumental dedicado a Portugal “Saudade”, de “All in My Mind”, “Mirror People”, “Motorcycle”, “Kundalini Express” ou até de “Lazy”, nem vestígios.
Ash termina de uma forma “especial” (como proferiu) e o trio toca “Should I Stay, or Should I Go” de Strummer & Cª. (The Clash), despedindo-se com um lacónico «Thank you» – ao que dizem, este finale não é original, os Love and Rockets já o haviam feito num concerto nos E.U.A., trata-se, segundo consta, de uma forma de homenagem ao desaparecido Joe Strummer (1952-2002) e à organização que luta contra o aquecimento global por que deu a cara, The Carbon Neutral Company (anteriormente denominada de Future Forests).

A seguir chegariam os inefáveis senhores texanos quase sexagenários de barbas longas. A SIC Radical despede-se do concerto e inicia um longo serão dos escabrosos espectáculos do WWE que encandeia metade da geração fast food norte-americana, com rápido contágio na Europa e na Ásia ocidentalizada.
Amanhã haverá o frenético Jay Kay, mas falta-me a paciência que já tive para tanta excitação.

Retiro o som ao televisor, o meu mulherio já dorme, pego num livro rememorando os meus tempos de adolescente onde a música era uma parte central da minha vida despreocupada e os meus ícones se vão esfumando pela lei da vida ou, de forma mais excruciante, pela total ignorância da ocasião ideal para iniciar o gozo dos privilégios da reforma.



----------------So Alive--------------------


Mapa de manuel a. domingos [pub]


(carregar na imagem para a ampliar)


Desde os cafés da Guarda, nos anos adolescentes, onde tudo era ainda possível, até a um certo desencanto com o mundo, manuel a. domingos constrói uma poética feita de pequenos detalhes comuns à vida e à poesia, tentando descobrir modos de acreditar em mapas que nos soam tão estrangeiros.


Livrododia Editores (para mais informações).

sexta-feira, 4 de julho de 2008

Descubra as diferenças...

Certamente tecnológicas, 11 anos depois:
Do realizador austríaco Michael Haneke Funny Games (1997) e Funny Games U.S. (2008) [ambos denominados por Brincadeiras Perigosas em Portugal].

1997 ou 2008?
1997 ou 2008?



Proposta de Brincadeira NM: faça corresponder o ano de produção do filme ao respectivo fotograma.
Fácil...

Se um desconhecido lhe pedir... ovos


Isso é Haneke!

quinta-feira, 3 de julho de 2008

A Queda

Manuela Ferreira LeiteProcurei. Sabia que se encontrava algures pelo início do pequeno romance ensaístico de Camus: A Queda. Lêem-se e relêem-se aquelas linhas espalhadas por cerca de 120 páginas sem cansar. Em todas elas doutrina para inquirir. Pedra deliberadamente em bruto, apenas fornecida pelo prazer de ver os outros lapidá-la.
(Em mim dá-se um fenómeno, pelo menos curioso, sempre que leio ou releio os admiráveis escritos deste argelino de nascença, tragicamente desaparecido nos primeiros dias de 1960, com apenas 46 anos completados, cada vez me afasto mais daquele presunçoso, cujo olhar vesgo – e, acreditem, não é, de forma alguma, minha característica aproveitar-me do defeitos físicos para a vituperação seja de que ordem for do diminuído – sempre me deixou a impressão indelével do falhanço intelectual da pontaria: J-P Sartre.)

Está Clamence, o parisiense que vive no bairro judeu em Amesterdão quando se tornou juiz-penitente, no início do seu aparente diálogo com um desconhecido no Mexico-City acabado de chegar de Paris, quando pergunta:

«Demora-se muito em Amsterdão [sic]? Linda cidade, não acha? Fascinante? Eis um adjectivo que não ouço há muito tempo. Precisamente desde que deixei Paris, já lá vão uns anos. Mas o coração tem a sua memória e eu nada esqueci da nossa bela capital, nem dos seus cais. Paris é uma autêntica ilusão de óptica, um imponente cenário habitado por quatro milhões de silhuetas. Perto de cinco milhões no último recenseamento? Está bem, devem ter feito meninos. Não me admiro. Sempre me pareceu que os nossos concidadãos tinham duas paixões violentas: as ideias e a fornicação. A torto e a direito, por assim dizer.»
Albert Camus, A Queda, pp. 9-10 (Lisboa: Livros do Brasil, Novembro de 2007, 113 pp.; tradução de José Terra; obra original: La chute, 1956).

A nossa lusamente fabricada “dama de ferro” – o neologismo já diz tudo – fazendo, decerto, apelo a um conservadorismo arrumado no armário dos dispendiosos e anacrónicos casacos de peles com cheiro a naftalina, afirmou que, se for poder, jamais permitirá uma lei que viabilize o casamento entre homossexuais: o casamento é para a procriação, diz ela.
Não sou historiador, sociólogo, psicólogo social, antropólogo, apenas um homem das ciências e das finanças empresariais, mas consigo afirmar que, para além do maior ou menor lirismo, pompa e circunstância, na celebração do matrimónio, o casamento nos tempos mais recentes sempre teve que ver com a defesa jurídica do património e nunca com a fornicação… perdão, procriação. Aliás, negá-lo levar-nos-ia a outros tempos onde o bafio e bolor intelectuais pairavam por sobre as cabeças dos meus concidadãos, neste país de sacristias; um odor a naftalina, bem diferente da Índia de Pasolini – OK, comecei a lê-lo há coisa de uma hora –, cuja toxicidade acabou por se revelar mortal: traçou o destino de um país que inevitavelmente saiu do limbo rumo ao inferno do atraso estrutural e, acima de tudo, mental.

A dúvida adensa-se: que fazer em 2009?

quarta-feira, 2 de julho de 2008

Jorge Calma

M., a segunda, veio baralhar ainda mais uma vida que já não era recomendável pelo império da incerteza e pela falta de arrumação. Mas não, tudo o que agora existe é antinomia do arrependimento: não consigo vislumbrá-la, a vida, sem a truculência dos seus 17 meses completados na passada quinta-feira.

Manhã fria e ventosa na Invicta. Seguia pela Fernão de Magalhães, rádio sintonizada na TSF. M. esbracejava, palrava, eu ia ouvindo o normal barulho do velcro dos sapatos que tentava tirar, ela olhava para as curtas vistas que o horizonte lateral fechado pela vigia da temporária embarcação que a levava ao transbordante mar de afectos da avó paterna. M. não parava. Perguntei pela chupeta, um pé descalço baloiçava no ar, até que… um silêncio cúmplice com a música e a voz que se soltaram dos altifalantes, algum sossego, seguido de apenas uns trilos curtos e melódicos, como se quisesse acompanhar o lisboeta cinquentão. Aumentei o volume, naveguei no resto do percurso com os olhos no retrovisor. Terminou: «M. chegámos.»
Voltou a dor de costas. Debruçado sobre o assento traseiro do meu carro de três portas procurava os objectos que se foram soltando até surgir a Calma, Jorge Palma “Encosta-te a Mim”.
Vídeo em baixo. Som na coluna do lado direito durante esta semana.


segunda-feira, 30 de junho de 2008

O futeboleiro Presidente

Michel Platini

Quarta-feira, 16 de Maio de 1984. A poucas semanas de completar a minha primeira dúzia de anos a vaguear por este mundo – hoje, já completei três – disputava-se na Suíça um dos jogos mais importantes da história futebolística do meu clube desde a sua fundação (28 de Setembro de 1893 pelo vinicultor e exportador de Vinho do Porto António Nicolau de Almeida): a final da Taça das Taças frente à vecchia signora, o clube de Turim Juventus FC, propriedade de Giovanni Agnelli, principal accionista do império FIAT (Fabbrica Italiana Automobili Torino) que ajudou a fundar.
De um lado a superpoderosa Juventus, do outro os irredutíveis homens de azul e banco – dirigidos interinamente por António Morais, dada a ausência forçada do colossal José Maria Pedroto, na batalha final contra a doença que o iria vitimar em Janeiro de 1985. Esses desconhecidos, de dragão ao peito, acabavam de vergar a outrora colossal equipa escocesa do Aberdeen, treinada por um homem chamado Alex Ferguson, saindo do estádio escocês debaixo dos aplausos em pé dos adeptos adversários, numa demonstração de reconhecimento da superioridade evidenciada por Gomes & Companhia nos dois jogos.

Aos dezasseis dias do mês de Maio, do ano da Graça de mil novecentos e oitenta e quatro, disputou-se no Estádio St. Jacob1, Basileia, a final Taça dos Vencedores das Taças, entre Futebol Clube do Porto (Portugal) e a Juventus Football Club (Itália), arbitrada pelo habilidosíssimo árbitro da extinta República Democrática Alemã (RDA) de seu nome Adolf Prokop.
Alinhamento das equipas2:

  • FC Porto: Zé Beto; João Pinto, Lima Pereira, Eurico e Eduardo Luís; Frasco, Jaime Magalhães, Jaime Pacheco e Sousa; Gomes e Vermelhinho. Jogaram ainda: Costa e Mike Walsh. Treinador: António Morais.
  • Juventus FC: Tacconi; Gentile, Scirea, Brio e Cabrini; Tardelli, Platini, Boninni e Vignola; Boniek e Paolo Rossi. Jogou ainda: Caricola. Treinador: Giovanni Trapattoni.

Resultado: FCP – 1 (Sousa, 29’) / Juventus – 2 (Vignola, 13’; Boniek, 85’)

Do jogo ficou a excelente exibição do meu FCP, manchada por uma arbitragem miseravelmente suspeita (aliás com ecos, à laia de rumor, que se fizeram ouvir pela Europa do futebol sobre a sua nomeação nos dias que antecederam o jogo) – eu, com mais 24 anos em cima, não me recordo de uma arbitragem que se aproximasse deste indecoroso calibre; nem o Bruno Paixão em Campo Maior...
Platini era o n.º 10 da equipa de Turim. A Juve venceu a Taça das Taças com a ajuda de uma arbitragem escandalosa de um senhor do outro lado (o leste, miserável) da cortina de ferro. Durante o jogo, ficaram faltas por marcar dentro e fora da área a favor do meu clube. Boniek (o excelente avançado polaco) aproveitou-se e marca o segundo golo em falta sobre os defesas portistas a cinco minutos do final do jogo. Zé Beto é suspenso pela UEFA durante 1 ano porque no túnel de acesso aos balneários tentou tirar satisfações do árbitro e o fiscal de linha interpondo-se ao conflito verbal acabou por levar um pontapé do irascível e saudoso guarda-redes portista.

Recordo-me, vivamente, de me haver agarrado ao meu irmão e de ter chorado de raiva, enquanto ele, então com 8 anos, perguntava à minha mãe: Mas porquê?

No entanto, acabámos por ficar com a Taça exposta no museu dos troféus conquistados. Numa demonstração inequívoca de amor ao clube, os sócios juntaram-se e arrecadaram o dinheiro necessário para construir uma réplica da dita taça e ofereceram-na ao FCP, como acto simbólico de reposição da justiça que faltou, que apaziguou a revolta que ainda vivia nos corações de todos os adeptos.

Por onde andavas Michel Platini? O homem que hoje se arroga das transparência e lealdade desportivas.
É um futeboleiro. Nunca deixou de o ser. Não se enganem. É por falar francês? Língua que, aos nossos ouvidos terceiro-mundistas, pela fonética lhe empresta um certo ar imperial, superior e afectado.
Platini fala do que desconhece na íntegra. Aparentemente, serve de mero ventríloquo das opiniões de alguém que as fez soprar ao ouvido, desautorizando a instâncias jurídicas e disciplinares do organismo máximo que superintende. Hoje, por exemplo, houve o encerramento definitivo de parte de um dos dois processos (o do Estrela da Amadora)…
E depois, M. Platini?

Notas:

  1. O amnésico-lacunar Valdemar Duarte da TVI, que a propósito de tudo e de nada se referia a qualquer incursão benfiquista, antiga ou recente, por terras austríacas e helvéticas – não se pôde, no entanto, furtar à referência do calcanhar de Madjer e eventos conexos no agora Ernst Happel, outrora apenas Praterstadion, que recebeu a final do Euro 2008 – esqueceu-se, que eu saiba, de mencionar a célebre final de Basileia em 1984. St. Jacob era um dos estádios do Europeu deste ano, tendo recebido inclusivamente um dos quatro jogos da selecção nacional.
  2. A constituição das equipas foi retirada do livro de Rémulo Jónatas e Bernardino Barros, Mui Nobre e Sempre Invicto Clube do Porto (Parede, Prime Books, 1.ª ed., pág. 44).

sexta-feira, 27 de junho de 2008

James, a idade de Cristo

A tradução trai-te muitas vezes, no afã de tudo explicitar, esquecem-se da derivação da raiz do teu nome hebraico, mais tarde latinizado… Irmão de sangue do pai do Apocalipse, “O Preferido”…

Hoje completarias a idade de Cristo33, dizem pregado na cruz para redenção dos pecados do mundo. Tu, como um cordeiro sacrificial, nem tiveste tempo para ultrapassar os primeiros três meses dos teus 27, como os dias de Junho que deixaste passar até irromperes do ventre da mãe no teu trinado irascível.

Ainda pensei no teu mais que tudo James “Iguana” Osterberg. Mas ficam estes, Booth & companhia, com os quais jogaste uma memorável peladinha no descampado das Antas atrás do antigo pavilhão Américo de Sá, antes do concerto.


Canto para mim mesmo para adormecer
Desde o momento mais negro uma canção
Segredos que não posso esconder
Durante a luz do dia
Oscilam do mais elevado ao mais profundo
Extremos de doce e amargo
Esperando que Deus exista
Eu tenho fé, eu rezo

Afogado até à raiz dos cabelos
A minha vida está fora de controlo
Acredito que esta onda susterá o meu peso
Então deixá-la fluir

Senta-te
Senta-te junto a mim
Senta-te
Com simpatia

Agora fiquei aliviado por ouvir
Que andaste por lugares distantes
É difícil prosseguir
Quando se sente a solidão
Agora que voltei a bater no fundo
É pior que antes
Como se jamais tivesse visto esses tesouros
Posso viver com a minha pobreza

Senta-te
Senta-te junto a mim
Senta-te
Simpaticamente

Aqueles que sentem o sopro da tristeza
Sentem-se junto de mim
Aqueles que se julgam tocados pela loucura
Sentem-se junto de mim
Aqueles que se consideram ridículos
Sentem-se junto de mim
Amor, no medo, no ódio, nas lágrimas

Senta-te
Senta-te junto a mim
Senta-te
Simpaticamente

James, “Sit Down”, 1989 (Gold Mother, 1991)
[versão: AMC, 2008]

quinta-feira, 26 de junho de 2008

Atwood sucede a Oz

Margaret Atwood
Margaret Atwood (n. 1939, Otava, Canadá) foi galardoada com o Premio Príncipe de Asturias de las Letras de 2008.

Justíssima atribuição do prémio para a eminente autora canadiana. Romancista, ensaísta, contista, poetisa, escritora de livros para crianças, ilustradora, responsável pela criação de obras-primas da literatura de ficção como O Assassino Cego (ed. port. Livros do Brasil, 2001; Blind Assassin, 2000; vencedor do Booker Prize de 2000) e dos excepcionais romances distópicos Órix e Crex. O Último Homem (ed. port. Asa, 2006; Oryx and Crake, 2003; finalista do Booker Prize de 2003) e Crónica de uma Serva (ed. port. Europa-América, 1985; The Handmaid's Tale, 1985; finalista do Booker Prize de 1986); não esquecendo a excelente urdidura (é o termo correcto) em A Odisseia de Penélope (ed. port. Teorema, 2006; The Penelopiad, 2005).
O vencedor anterior nesta categoria foi o escritor israelita Amos Oz – definitivamente, a organização dos ditos prémios de atribuição anual parece ter abandonado o chauvinismo que influenciou, de forma determinante, os primórdios deste prémio.
Vencedores anteriores:
2007 – Amos Oz (Israel)
2006 – Paul Auster (E.U.A.)
2005 – Nélida Piñon (Brasil)
2004 – Claudio Magris (Itália)
2003 – Fatema Mernissi (Marrocos) e Susan Sontag (E.U.A.)
2002 – Arthur Miller (E.U.A.)
2001 – Doris Lessing (Reino Unido)
2000 – Augusto Monterroso (Guatemala)
1999 – Günter Grass (Alemanha)
1998 – Francisco Ayala (Espanha)
1997 – Álvaro Mutis (Colômbia)
1996 – Francisco Umbral (Espanha)
1995 – Carlos Bousoño (Espanha)
1994 – Carlos Fuentes (México)
1993 – Claudio Rodríguez (Espanha)
1992 – Francisco Morales Nieva (Espanha)
1991 – Povo de Porto Rico
1990 – Arturo Uslar Pietri (Venezuela)
1989 – Ricardo Gullón (Espanha)
1988 – Carmen Martín Gaite (Espanha) e José Ángel Valente (Espanha)
1987 – Camilo José Cela (Espanha)
1986 – Rafael Lapesa Melgar (Espanha) e Mario Vargas Llosa (Peru)
1985 – Ángel González (Espanha)
1984 – Pablo García Baena (Espanha)
1983 – Juan Rulfo (México)
1982 – Miguel Delibes Setién (Espanha) e Gonzalo Torrente Ballester (Espanha)
1981 – José Hierro del Real (Espanha)

quarta-feira, 25 de junho de 2008

O Jogo de De Niro

Foi talvez pela cacofonia que resultaria da tradução literal do título da obra de Rawi Hage – por ela recentemente vencedor do IMPAC 2008 – que o editor português optou pelo título Como a Raiva ao Vento. Não me vou alongar pelas necessidade e pertinência da alteração, mas revelar o significado do título em inglês obrigar-me-ia a introduzir no texto, com direito a destaque, uma advertência sobre a possibilidade de, com as curtas palavras que irei escrever, revelar parte do enredo, o sal que tempera em medidas certeiras esta excelente obra. Porém, um tiro menos certeiro (neste caso seria mais afortunado), propositado ou não, do autor, ao desviar de Walken, de autoria ciminiana, o protagonismo do acto para De Niro, a alcunha de George que nos é dada a conhecer no desenvolvimento da obra.
Beirute, Líbano, 1975, eclodiu a Guerra Civil na até então conhecida suíça do médio oriente. A cidade ficou dividia em duas zonas: a oriental dominada pelas milícias cristãs e a ocidental pela facção muçulmana dominada pelos sírios e refugiados palestinianos.
Uma amizade subsiste ao conflito: George e Bassam (o narrador da história), os adolescentes protagonistas do romance, que se definem como rufias no centro de uma zona de guerra:

«A guerra é para os tugues. As motocicletas também são para os tugues e para os adolescentes cabeludos como nós, com armas na barriga e gasóleo roubado no depósito, sem destino certo.» (pp. 14-15)

Ambos vagueavam pelas ruas bombardeadas de Beirute, atulhadas de lixo, por onde perambulavam milhares de cães e gatos abandonados pelos que tiveram a sorte de fugir do país para continuar as suas vidas luxuosas em França. Jovens órfãos feitos adultos à força:

«Andámos sem rumo, como pedintes e ladrões, como árabes lascivos de cabelo encaracolado e camisas abertas com o maço de Marlboro preso nas mangas enroladas, refugos da escola, niilistas implacáveis com armas, mau hálito e calças de ganga compridas, americanas.» (p. 15)

Bassam é manobrador de um guincho no porto da cidade, George toma conta de uma casa de máquinas electrónicas de póquer controlada pela milícia cristã, onde os miseráveis enterravam a sua fortuna, as jóias e terrenos da família, as roupas e o futuro dos próprios filhos. Bassam convence George a abandonar o país, elaborando um esquema de viciação das máquinas. Este é ponto a partir do qual o destino de ambos – até então pretendida e efectivamente comum, como dois irmãos sangue, amigos que se conhecem desde a infância – chega a uma encruzilhada, e aquele bifurca-se, ambos terão de seguir por caminhos diferentes. George fica, tem de ficar, é-lhe solicitada a entrada para a milícia, vogando nas suas mentes a eventual descoberta do esquema fraudulento pelo gerente do estabelecimento, o terrível miliciano Abu Nará, como a causa imediata do alistamento compulsivo e de uma separação progressiva, impiedosa, que se irá revelar como fatal. Chega-se ao tal ponto viragem camusiano, a curta viagem, a percepção, da existência anódina e mecanizada entre os escombros da civilização para a tomada de consciência da solidão e da indiferença, do Homem só com o mundo, crescendo um sentimento de desapego pela vida – aliás, Camus é explicitamente citado na obra através do seu memorável O Estrangeiro (L’Étranger, 1942) e de forma subliminar a trilogia do absurdo de que aquele romance faz parte.

Sob um fundo de destruição, barbaridade e de terror, Hage constrói uma narrativa equilibrada, muitas vezes cómica e irónica que funciona como válvula de escape à tensão provocada por uma prosa necessariamente cruel e brutal na descrição das atrocidades perpetradas, das práticas de tortura e de um povo à beira da ruína – leia-se como exemplo da insanidade geral provocada pelo conflito, o grotesco massacre dos cães vadios despoletado por uma mordidela de um chihuahua a um outrora famoso advogado que a guerra desempregou, o Sr. Samir:

«Estão a matar os cães! As palavras dos cristãos corriam de varanda em varanda. Dois jipes que transportavam sete milicianos cercaram os cães. O massacre dos cães! A chacina dos cães. Uma cadela, galga afegã, foi executada por traição, enquanto a sua adorada dona se encontrava, em Paris, com as suas quatro patas numa cama de lençóis de seda, dando apoio ao seu amante secreto, Pierre, um pintor francês, nas suas diligências artísticas. Um cocker spaniel foi perseguido por um atacante gordo, enquanto a sua mamã comprava filet mignon nos Campos Elísios para um serão com vinho e debuxada. Um pastor alemão foi chacinado como uma ovelha numa história de lobos, enquanto os seus pais adoptivos bebiam cerveja, sentados a uma mesa comprida num bar europeu, repleto de homens a cantar canções bávaras. O chihuahua conseguiu escapar duas vezes devido ao seu diminuto tamanho, mas foi finalmente fuzilado à queima-roupa, debaixo de um carro, enquanto a sua mãe discutia, em Veneza, a origem da seda num salão chique onde se tomavam espressos. O líder de três patas, um órfão, morreu sozinho, no cimo de uma montanha de lixo, apoiado numa peça metálica, numas latas de hummus vazias e uma caixa de detergente belga.» (pp. 65-66)


Roma, Beirute e Paris. Três cidades que compõem as três partes em que se subdivide o romance. Beirute entre dois palcos onde se escreveram as páginas mais negras da História universal, em nome da religião, da raça ou da simples demarcação de fronteiras. O Corso montado no seu cavalo branco, o nazismo, o império de Roma, os cruzados…
Como a Raiva ao Vento não é uma obra de espionagem, um relato de guerra ou um romance histórico, é sobretudo uma narrativa sobre a inocência prematuramente perdida, que não foge ao lirismo do amor fraterno, da dor pungente da traição; é um ensaio sobre a perda, a solidão e o desamparo, sobre o egoísmo imanente a uma civilização que se degrada em torno do poder; e é, sobretudo, um relato vívido sobre o desencanto dessa descoberta, embora o autor, com toda a sua sagacidade e a sua destreza literária, deixe um sinal de esperança na réstia de inocência que permanece cá dentro, apesar das atrocidades, materializada na narrativa através dos fabulosos pueris e burlescos devaneios de Bassam.

Como a Raiva ao Vento é um romance poderoso, de leitura compulsiva e, certamente, daqueles cuja experiência de leitura perdurará por muito tempo na memória de quem faz da Literatura o seu principal objecto de distracção. É o primeiro romance de Rawi Hage (n. 1964)...

Classificação: ***** (Muito Bom)

Referência bibliográfica:
Rawi Hage
, Como a Raiva ao Vento. Porto: Civilização, Junho de 2008, 284 pp. (tradução de Teresa Fernandes Swiatkiewicz; obra original: De Niro’s Game, 2006).

sábado, 21 de junho de 2008

Ainda sobre o IMPAC 2008

A magnífica editora portuense Civilização acabou de publicar a versão portuguesa do romance vencedor do IMPAC de 2008, prémio que foi anunciado no passado dia 12 de Junho em Dublin na Irlanda.
Assim, o único romance do fotógrafo e escritor canadiano-libanês de 44 anos, Rawi Hage, originalmente intitulado como De Niro’s Game, surge em português sob o título Como a Raiva ao Vento, traduzido por Teresa Fernandes Swiatkiewicz.
Para ler, em breve.


sexta-feira, 20 de junho de 2008

Montand / Prévert / Kosma – Um Tributo

Escrita em 1945 por Jacques Prévert (1900-1977), com música do compositor húngaro Joseph Kosma (1905-1969) e interpretação do inesquecível Yves Montand (1921-1991) em 1981 no Olympia de Paris, «Les feuilles mortes» é o meu contributo singelo, melancólico e crocodílico-lacrimejante para retratar a fatal ruptura amorosa entre o povo português e um tal de sargentão – e de horas e horas a fio de reportagens sobre a selecção; as vidas, os vícios, os gostos (sempre duvidosos), lingerie, higiene pessoal e as pequenas perversões de treinadores, jogadores, cozinheiros, roupeiros e até dos seus animais de estimação; os directos das buzinadelas e das inanidades saídas da boca de um povo que, anestesiado, fez um manguito à crise. Pobre Eng.º... acabou-se futebolocaína...

Bom, regressando ao instrumento da minha pequena homenagem. Em 1947, Johnny Mercer (1909-1976) levou a música para os Estados Unidos e transformou-a num dos velhos standards americanos, “Autumn Leaves”, cantado por Nat King Cole (1919-1965) para o filme homónimo de 1956 de Robert Aldrich, com Joan Crawford (1906-1977) no principal papel, e imortalizado em 1957 por A Voz, Francis Albert Sinatra (1915-1998), com arranjo orquestral de Gordon Jenkins – esta versão permanecerá na coluna do lado direito deste blogue durante uns dias (os que me apetecer).

Trata-se, assim, de uma bi-homenagem bilingue na dilacerante partida do nosso Bismarck ou Garibaldi (como preferirem) para terras de Sua Majestade.

Eis, como prometi, Yves Montand no Olympia em 1981:

Oh ! je voudrais tant que tu te souviennes
Des jours heureux où nous étions amis.
En ce temps-là la vie était plus belle,
Et le soleil plus brûlant qu'aujourd'hui.
Les feuilles mortes se ramassent à la pelle.
Tu vois, je n'ai pas oublié...
Les feuilles mortes se ramassent à la pelle,
Les souvenirs et les regrets aussi
Et le vent du nord les emporte
Dans la nuit froide de l'oubli.
Tu vois, je n'ai pas oublié
La chanson que tu me chantais.

C'est une chanson qui nous ressemble.
Toi, tu m'aimais et je t'aimais
Et nous vivions tous deux ensemble,
Toi qui m'aimais, moi qui t'aimais.
Mais la vie sépare ceux qui s'aiment,
Tout doucement, sans faire de bruit
Et la mer efface sur le sable
Les pas des amants désunis.

Les feuilles mortes se ramassent à la pelle,
Les souvenirs et les regrets aussi
Mais mon amour silencieux et fidèle
Sourit toujours et remercie la vie.
Je t'aimais tant, tu étais si jolie.
Comment veux-tu que je t'oublie ?
En ce temps-là, la vie était plus belle
Et le soleil plus brûlant qu'aujourd'hui.
Tu étais ma plus douce amie
Mais je n'ai que faire des regrets
Et la chanson que tu chantais,
Toujours, toujours je l'entendrai !

quinta-feira, 19 de junho de 2008

Fincher – Take 7



No próximo Natal, estreia mundial da 7.ª longa-metragem do realizador norte-americano David Fincher (n. 1962).
Filme baseado num conto de F. Scott Fitzgerald (1896-1940):

O estanho caso de Benjamin Button

I

Tão distante no tempo como 1860 o mais correcto era nascer-se em casa. Actualmente, dizem-me, os eminentes deuses da medicina decretaram que o primeiro choro dos nascituros deverá ser articulado num ambiente anestésico de um hospital, de preferência num que esteja na moda. Assim, o jovem casal Roger Button encontrava-se cinquenta anos à frente da moda quando decidiram, num dia de Verão de 1860, que o seu primeiro bebé deveria nascer num hospital. Porém, nunca saberemos se este anacronismo teve alguma influência nesta história admirável que vos irei contar.

Eu apenas irei narrar-vos o ocorrido e deixar-vos-ei julgá-lo por vós mesmos.

Os Roger Buttons dispunham de uma posição invejável, tanto em termos sociais como financeiros, na pré-bélica Baltimore. Eles eram parentes da família Esta e da família Aquela, que, como todos os sulistas sabiam, permitia-lhes pertencer à enorme aristocracia que cobria largamente a Confederação. Esta era a sua primeira experiência com esse costume encantador de ter bebés – o Sr. Button estava naturalmente nervoso. Ele ansiava por um rapaz para que este mais tarde pudesse ser enviado para a Universidade de Yale no Connecticut, onde ele próprio fora durante quatro anos conhecido pela alcunha mais ou menos óbvia de “Cuff*.”

Na manhã de Setembro consagrada ao grande evento, ele acordou nervoso às seis horas, vestiu-se, envergando uma irrepreensível indumentária e embrenhou-se apressadamente pelas ruas de Baltimore que o conduziam ao hospital, na ânsia de avaliar se a escuridão da noite haveria acolhido no seu seio uma vida nova.

Quando chegou a aproximadamente cem metros do Hospital Privado do Maryland para Senhoras e Cavalheiros, ele viu o Dr. Keene, o médico da família, a descer a escadaria da frente, esfregando as suas mãos num movimento típico de ablução – como se todos os médicos tivessem de cumprir este ritual por princípios éticos da sua profissão.

O Sr. Roger Button, o presidente da Roger Button & Cia., todo o tipo de ferragens, desatou a correr em direcção ao Dr. Keene com muito menos dignidade do que a que seria de esperar de um cavalheiro do sul pertencente àquele período pitoresco. «Doutor Keene!» chamou. «Ó Doutor Keene!»

O médico ouviu-o, voltou-se e ficou à espera, tinha posto uma expressão estranha na sua antipática e medicinal cara à medida que Button se ia aproximando.

«O que se passou?» perguntou Button enquanto se acercava do médico numa corrida de perder o fôlego. «Como foi? Como está ela? Um rapaz? Ou…? O que é…»

«Ganhe juízo!» disse de forma veemente o médico, aparentando encontrar-se irritado.

«Já nasceu o bebé?” suplicou Button.

O Dr. Keene franziu o cenho. «Porquê, sim, suponho que sim – dadas as circunstâncias». Fitando, de novo, Button de uma forma estranha.

«A minha mulher está bem?»

«Sim.»

«É menino ou menina?»

«Olhe lá!» gritou Dr. Keene num culminar de perfeita irritação, «eu sugiro-lhe que vá e veja por si próprio. É chocante!» Disse-o, cuspindo a última palavra em quase uma só sílaba e virou-lhe as costas murmurando: «Você imagina o que um caso destes irá fazer à minha reputação profissional? Outro deste género arruinar-me-ia – arruinaria qualquer pessoa.»

«Mas o que se passa?” perguntou Button aterrorizado. «Trigémeos?»

«Não, não são trigémeos!» respondeu o médico de forma cortante. «Sabe o que mais? Pode ir vê-lo pelos seus próprios olhos. E trate de encontrar outro médico. Eu trouxe-o a este mundo, meu rapaz, e fui médico da sua família durante quarenta anos, mas terminei a minha colaboração consigo! Eu nunca mais o quero ver a si ou a algum dos seus parentes! Adeus!»

Voltou-se bruscamente e sem mais uma palavra trepou para o seu cabriolé que o esperava no empedrado, afastando-se daquele local de uma forma brusca.

Button ficou especado no passeio, atónito e a tremer dos pés à cabeça. Que horrível desgraça poderia haver ocorrido? De repente perdeu toda a vontade de entrar no Hospital Privado do Maryland para Senhoras e Cavalheiros – foi então com a maior das dificuldades que, momentos depois, ele se obrigou a subir as escadas exteriores e a entrar pela porta principal.

Na opaca obscuridade da recepção entreviu uma enfermeira sentada atrás de uma secretária. Engolindo a sua vergonha, Button aproximou-se dela.

«Bom dia» proferiu ela, olhando-o de uma forma agradável.

«Bom dia. E-Eu sou o Sr. Button.»

Ao ouvir isto um esgar de absoluto terror abateu-se sobre a face da rapariga. Ela levantou-se e parecia prestes a iniciar um voo pela recepção, aparentando uma extrema dificuldade para se conseguir controlar.

«Quero ver o meu filho» disse Button.

A enfermeira deu um pequeno grito. «Lá em cima. Está lá em cima. Vá… para cima!...»

Ela mostrou a direcção a seguir e Button, ensopado em suores frios, voltou-se de forma vacilante e começou a subir as escadas que davam acesso ao segundo piso. No andar de cima dirigiu-se a outra enfermeira que se aproximou dele, com um bacia na mão. «Eu sou o Sr. Button,» tentou ele articular. «Eu quero ver o meu…»

A bacia caiu no chão com um estrondo e rolou em direcção às escadas. Iniciou uma descida metódica, batendo ruidosamente em cada degrau, como se partilhasse do terror geral que este cavalheiro provocara.

«Eu quero ver o meu filho!» Button quase vociferou. Encontrava-se à beira do colapso.

Com o último estrondo, a bacia alcançou o primeiro piso. A enfermeira recuperou o seu controlo e atirou a Button um vigoroso olhar de desprezo.

«Tudo bem, Sr. Button» concordou ela numa voz sussurrante. «Muito bem!... Mas se você… soubesse… em que estado isto nos pôs a todos esta manhã! É perfeitamente chocante! Depois disto… o hospital jamais voltará a recuperar um mínimo da sua anterior reputação.»

«Despache-se!» gritou ele numa voz rouca. «Não suporto esta coisa!»

«Venha então por aqui, Sr. Button.»

Ele arrastou-se atrás dela. No fundo de um longo corredor chegaram a um quarto de onde emanava uma variedade de choros – de facto, um quarto em que, por conversas posteriores, passaria a ser conhecido como o “quarto do pranto”. Eles entraram.

«Bem,» arquejou Button, «qual é o meu?»

«Ali!» disse a enfermeira.

Os olhos de Button seguiram o dedo indicador da enfermeira e isto foi o que ele viu: embrulhado num enorme cobertor branco, e parcialmente constrangido num dos berços, ali se sentava um velho aparentando ter uma idade à volta dos setenta anos. O seu cabelo ralo era quase branco e do seu queixo caía uma longa barba cor de fumo, que abanava absurdamente para a frente e para trás, movida pela brisa que vinha da janela. Ele olhou para Button com uns olhos baços e esmorecidos onde se escondia uma pergunta confusa.

«Estarei louco?» atroou Button, enquanto o seu terror se ia transformando em raiva. «Será isto tudo uma terrível partida de hospital?»

«Isto, para nós, não se parece nada com uma partida» retorquiu a enfermeira de forma severa. «E nada sei sobre se está doido ou não – mas este é de certeza o seu filho.»

Os suores frios redobraram na testa de Button. Ele fechou os olhos e depois, abrindo-os, olhou de novo. Não havia engano nenhum – ele estava a olhar para um homem com três vintenas e meia de anos de idade – um… bebé… com três vintenas e meia… um bebé cujos pés estavam pendurados do lado de fora do berço em que repousava.

Por uns momentos, o velho olhou placidamente para um e para outro e, de repente, falou numa voz estilhaçada e envelhecida. «Você é o meu pai?» perguntou.

Button e a enfermeira agitaram-se de uma forma violenta.

«Porque se o for» prosseguiu o velho queixando-se enfaticamente, «eu pretendo que me retire deste lugar – ou, pelo menos, que os obrigue a darem-me um berço mais confortável.»

«Em nome de Deus, de onde veio? Quem é o senhor?» clamou Button freneticamente.

«Não lhe posso dizer… de forma exacta… quem sou eu» replicou o chorão impertinente, «porque apenas nasci há umas horas – mas o meu último nome é certamente Button.»

«O senhor está a mentir! O senhor é um impostor!»

O velho virou-se, pacientemente, para a enfermeira. «Que maneira engraçada de dar as boas-vindas a um recém-nascido» queixou-se numa voz fraca. «Diga-lhe que ele está enganado, porque não o diz?»

«Está enganado, Sr. Buttton,» disse a enfermeira de forma severa. «Este é o seu filho e terá de se esforçar o melhor que puder. É que nós iremos pedir-lhe que o leve para casa consigo o mais cedo possível, algures durante este dia.»

«Casa?» repetiu incredulamente Button.

«Sim, nós não o podemos ter aqui. Não podemos mesmo, o senhor sabe?»

«Fico muito contente por isso,» queixou-se o velho. «Este não é um bom local para manter um miúdo de gostos sóbrios. Com toda esta gritaria e choradeira, eu não pude dormir absolutamente nada. Pedi alguma coisa para comer» – aqui a sua voz subiu para um tom estridente de protesto – «e eles trouxeram-me um biberão de leite!»

Button afundou-se numa cadeira que estava próxima do seu filho e tapou a cara com as mãos. «Meu Deus!» murmurou num êxtase de horror. «O que irão as pessoas dizer? O que terei de fazer?»

«Tem de o levar para casa» insistiu a enfermeira – «imediatamente!»

Aos olhos do homem torturado formou-se com uma terrível clareza uma imagem grotesca – o retrato dele próprio caminhando pelas ruas apinhadas da cidade com esta horrenda aparição a seu lado a acossá-lo.

«Não posso. Não posso» murmurou.

Pessoas parariam para lhe falar e o que é que ele iria dizer? Teria de apresentar isto – este septuagenário: «Este é o meu filho, nascido bem cedo nesta madrugada.» A seguir o velho enrolar-se-ia no seu cobertor e eles caminhariam a passo pesado, passando pelas lojas apinhadas, pelo mercado de escravos – por um instante obscuro Button desejou que o seu filho fosse negro – passando pelas casas luxuosas da zona residencial, pelo lar de idosos…

«Ande lá! Mexa-se sozinho» ordenou a enfermeira.

«Vê isto» anunciou de súbito o velho, «se você julga que eu vou para casa neste cobertor, está inteiramente enganada.»

«Os bebés têm sempre cobertores.»

Com um estalido malicioso o velho exibiu uns cueiros pequenos e brancos. «Veja!» tremia-lhe a voz. «Isto… foi aquilo que eles me arranjaram.»

«Os bebés usam sempre isso» disse a enfermeira de forma afectada.

«Bem» disse o velho, «este bebé dentro de dois minutos não vai é usar nada. Este cobertor pica-me. Eles podiam, pelo menos, ter-me dado um lençol.»

«Deixe-o estar! Mantenha-se coberto!» disse apressadamente Button. E voltando-se para a enfermeira perguntou-lhe: «Que poderei fazer?»

«Vá à cidade e compre algumas roupas para o seu filho.»

A voz do filho de Button perseguiu-o até lá baixo à recepção: «E uma bengala, pai. Eu quero ter uma bengala.»

Ao sair, Button bateu violentamente com a porta exterior…

[…]

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1.º capítulo do conto “The Curious Case of Benjamin Button” (1922), de F. Scott Fitzgerald, integrado no mesmo ano na colectânea de contos Tales of the Jazz Age [tradução livre: AMC, 2008]

Nota: *a alcunha aposta a Button de «Cuff» pelos seus colegas da famosa Universidade de Yale (Estado do Connecticut, situado no Norte, na denominada Nova Inglaterra) deriva, certamente, do significado do seu apelido, “Button” significa “botão” e “cuff” significa punho de camisa, de onde “cufflinks” são os tradicionais botões de punho usados pelas classes altas. Mas esta alcunha também poderá ser entendida, à luz da época histórica em que decorre a acção do conto – na vizinhança da Guerra da Secessão ou da Guerra Civil Americana, que teria o seu início menos de um ano depois, em Abril de 1861, apenas terminando em Abril 1865 – e considerando o protagonista como um “sulista” – aliás, como resulta do próprio texto – filho do Estado do Maryland – embora, em rigor, este Estado não fosse considerado um dos secessionistas, a esmagadora maioria da população juntou-se ao exército dos confederados. Assim, a expressão “cuff”, com o seu vasto campo semântico, poderia designar as grilhetas com que os proprietários sulistas amarravam os seus escravos.

segunda-feira, 16 de junho de 2008

“Não tenho pensado noutra coisa nestes últimos dias”

Palavras proferidas por Sócrates no passado dia 12 de Junho perante a Assembleia da República (ver vídeo).
Coisa: Referendo na República da Irlanda sobre a ratificação do Tratado de Lisboa (a.k.a. porreiro-pá treaty)
Um país a ferro e fogo. Cidades barricadas por camionistas. Prateleiras de hipermercados exauridas de bens de primeira necessidade. Agricultores angustiados e endividados até à raiz dos cabelos. Frota pesqueira parada. Nível de desemprego alto e estável. Desaparecimento progressivo da classe média, talvez agarrada à promessa futura do estrelato em programas de antropologia cultural do National Geographic. País que diverge. Estado da União Europeia com maiores desigualdades sociais. Corrupção institucionalizada e endémica, que se alastra vorazmente a toda a sociedade, a todos os sectores da actividade económica, perante um sistema de justiça quase complacente, pela demora, pela confecção da lei por medida, com a grande criminalidade de colarinho branco…
São palavras gastas. Perderam, pelo uso, todo o seu significado angustiante. Para quê repeti-las?

Há umas semanas, o Pedro Correia pediu a um conjunto de bloggers para que cada um escrevesse um texto sobre qualquer tema ou assunto à escolha para mais tarde o poder publicar no seu blogue
Corta-Fitas. Fui, imerecidamente, contemplado pelo pedido. Escrevi-o, num dia em que a fúria da minha triste e opressiva condição lusa me saía pelos poros. O Pedro publicou-o no dia 8 de Junho, e eu, correndo o risco de abusar da sua confiança, republico-o, sem lhe dar cavaco ou (aviso: as palavras que se seguem deveriam surgir no texto unidas por hífen, mas por razões estéticas e de formatação, optou-se por se lhe dar o devido descanso, substituindo-o por umas agradáveis aspas) “homem do dia da raça que se abstém de alertar os governantes e de falar sobre um país que de dia para dia vai imergindo num viscoso atoleiro sem qualquer hipótese de salvamento”.
Eis o texto:
Alheamento do Inferno

Já não ouvem e nem se fazem ouvir. Dezasseis criaturas aprisionadas a um discurso de um só líder. Magnânimo mas irritadiço, democrata impiedoso, munido da sua aura mágica de mestre de indução do êxtase político; ele garante-lhes a sublime perfeição do rumo por que vão enveredando. Seguem às cegas – já não precisam de ver –, sem bússola ou outros instrumentos de navegação. A tecnologia provém da inesgotável fonte da sua sabedoria. Estamos no bom caminho, ele diz-lhes para dizerem, porque ele também diz e anuncia, cria e inaugura, promete e já não se preocupa com a sua realização – já não necessitam de resultados palpáveis, basta a promessa de cumprimento de um conjunto de promessas e uma poderosa máquina de perpetuação da sensação do dever cumprido. Alguém lhe disse que uma boa mente, permeável, alimentada de sonhos e de quimeras é o sustento necessário e suficiente do corpo, porque a alma de cada corpo, sugada e mortificada, partiu há muito, envergonhada. Espectáculo indecente, grotesco, de mortos-vivos vencidos pela acédia.
Empreender, crescendo na imponderabilidade.
À volta do timoneiro e dos seus dezasseis seguidores, foi-se formando uma leve, translúcida e hermética película, que medida após medida, diapositivo após diapositivo – ou slide como por lá chamam os criadores de tecnologia –, soltou amarras rumo ao firmamento. Ambiente ionizado, (ele prometeu-lhes) onde moram os grandes decisores, imersos no éter do serviço desempenhado com notável orgulho em favor da humanidade. Vivem do insípido néctar sagrado que nasce a jorros por cada nova ideia: já não necessitam do palato. Julgam-se gordos no revérbero da sua eminência. Todavia, elegantes fiando-se na teoria da imagem virtual reflectida pela concavidade das paredes espelhadas do seu habitat em forma de bolha. Lá em cima, vogando no espaço, já não sentem o cheiro da miséria que se vai decompondo em mais miséria. (Enchem-se de esperança – talvez se transforme em húmus, terra fértil, como um seguro para quando um dia para cá voltarem). E, embora não confiando na desprezível fé divina do Homem – foram orgulhosamente descontaminados por um processo de escrupulosa descrença –, sabem… haverá Aquele (quem?) que pela Sua força (qual?) os poderá fazer cair como anjos em desgraça. Sem juízes ou promotores de justiça, sem espiões ou corpo policial, sem banqueiros, autarcas, cobradores ou criados burocratas.
Pura distracção. Estiveram sempre nas cercanias da famigerada porta.
Ignorantes…
E então, sem ouvir, ver, palpar, saborear ou cheirar… não, não sentem, e as emoções por lá rareiam, mas recordam-se daqueles nove versos que terminam com uma sentença aterradora (Lasciate ogne speranza, voi ch’intrate):

Por mim vai-se à cidade que é dolente,
  por mim se vai até à eterna dor,
  por mim se vai entre a perdida gente.
Moveu justiça o meu supremo autor:
  divina potestade fez-me e tais
  a suma sapiência, o primo amor.
Antes de mim não houve cousas mais
  do que as eternas e eu eterna duro.
  Deixai toda a esperança, vós que entrais.

Porreiro, pá!*

Referência: Dante Alighieri, A Divina Comédia (I Inferno: Canto III: v. 1-9). Venda Nova: Bertrand, 5.ª edição, Dezembro de 2000, pág. 47; tradução de Vasco Graça Moura; obra original: (La Divina) Commedia, 1307-1321.

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*[acrescentado]: Agora há que encontrar meios de ostracizar o “tigre europeu”, colocando-o à margem dos restantes 26 – os apavorados ratificadores parlamentares. Gordon Brown já espuma de júbilo voraginoso pela punição a dar a esses infames católicos.
Como é que se diz “porreiro, pá” em gaélico?

domingo, 15 de junho de 2008

Padre António Vieira: 400 anos depois [pub]

(carregar na imagem para a ampliar)

De Niro’s Game

«Dez mil bombas caíram e eu esperava por George.
Dez mil bombas caíram em Beirute, essa cidade atafulhada de gente, e eu estava estendido num sofá azul coberto por lençóis brancos para o proteger da poeira e dos pés sujos.
Chegou a altura de partir, pensava eu. O rádio da minha mãe estava ligado. Esteve sempre ligado desde o início da guerra, um rádio com pilhas Rayovac que duravam dez mil anos. O rádio da minha mãe estava coberto por uma protecção barata de plástico verde com buracos, manchada de restos dos seus dedos de cozinheira e de pó que penetrara nos seus botões, cravado nos bordos. Nada jamais conseguira pôr fim àquelas canções melancólicas de Fairuz que dele saíam.
Eu não estava a escapar da guerra; eu fugia de Fairuz, a famigerada cantora.
O Verão e o calor haviam chegado; a terra ardia debaixo de um sol abrasador que cozia o nosso apartamento e o seu telhado. Mesmo abaixo da nossa janela branca, gatos cristãos caminhavam ao acaso nas ruas estreitas, nunca se persignando ou ajoelhando perante padres vestidos de negro. Carros estacionados em ambos os lados da rua, carros que galgavam os passeios, obstruíam a passagem aos peões, exaustos e sufocados, cujos pés, cansados, e caras, longas, amaldiçoavam e culpavam a América a cada passo dado e a cada estremecimento das suas vidas miseráveis.
O calor descia, as bombas caíam e rufiões transpunham as longas filas para o pão, roubavam a comida da semana, intimidavam o padeiro e acariciavam a sua filha. Os rufiões nunca esperavam em filas.
O George buzinou.
Os fumos negros e agonizantes da sua mota alcançaram a minha janela e o seu barulho estridente entrou pelo meu quarto. Desci as escadas e amaldiçoei Fairuz à saída: aquela cantora lamurienta que faz da minha vida um inferno.
A minha mãe desceu do telhado com dois baldes nas suas mãos; ela estava a roubar água do reservatório do vizinho.
Não há água, disse-me ela. Ela só chega duas horas por dia.
Ela disse qualquer coisa acerca de comida, como é hábito, mas eu acenei e corri pelas escadas abaixo.
Instalei-me na mota do George, sentei-me atrás dele e guiámos pelas principais ruas onde as bombas caíram, onde uma vez diplomatas sauditas se enredaram com prostitutas francesas, onde os antigos gregos dançaram, os romanos invadiram, os persas afiaram as suas espadas, os mamelucos roubaram o alimento aos aldeãos, os cruzados comeram carne humana e os turcos escravizaram a minha avó.
A guerra é para rufiões. As motos também são para rufiões e para adolescentes de cabelo comprido como nós, com armas sob as nossas barrigas, gasolina roubada nos nossos depósitos e sem algum lugar especial para onde ir. Parámos junto à marginal da cidade, no acesso a uma ponte, e o George disse-me, eu tenho um
mashkal (problema).»


Excerto do 1.º capítulo de De Niro's Game, o primeiro romance do autor canadiano-libanês Rawi Hage: nascido 1964 em Beirute, no Líbano, enfrentou os primeiros anos da guerra civil libanesa, iniciada em 1975; emigrou em 1982 para os Estados Unidos, onde dá os primeiros passos na sua carreira de fotógrafo; em 1991 instala-se definitivamente no Canadá, licenciando-se em "artes visuais" dando seguimento à sua veia artística na fotografia, contando já com inúmeras exposições no seu currículo. Hage acabou de arrecadar os 100.000 euros do
IMPAC 2008, como já aqui havia dado conta.
[Tradução livre: AMC, 2008]

sexta-feira, 13 de junho de 2008

IMPAC 2008

Rawi HageO autor canadiano-libanês Rawi Hage (n. 1964) foi o vencedor da edição deste ano do galardão milionário International IMPAC Dublin Literary Award e logo com o seu romance de estreia De Niro’s Game, a história cruel, sem atavios, do destino de dois amigos de infância, tendo o Líbano como pano de fundo e o realismo da brutalidade quotidiana da guerra civil que os separa, e como marco narrativo a famosa frase do brilhante Albert Camus (1913-1960):
«Só há um problema filosófico verdadeiramente série: é o suicídio. Julgar se a vida merece ou não ser vivida é responder a uma questão fundamental da filosofia.» Albert Camus, O Mito de Sísifo.
O júri do prémio escolheu Hage, entre as obras – este ano representativas de uma verdadeira babilónia de culturas – de oito autores diferentes, entre os quais, para além do próprio vencedor, se encontravam os nomes fortes de autores como o do espanhol Javier Cercas, com o romance A Velocidade da Luz (ed. port. Asa, 2006; La velocidad de la luz, 2005); ou do irlandês Patrick McCabe ou ainda do franco-russo Andreï Makine.

Este ano, um conjunto de 162 bibliotecas, pertencentes a cerca de 122 cidades de 45 países participaram na escolha inicial dos 137 romances a concurso, entre os quais 8 foram seleccionados para a final por um júri nomeado para o efeito. Portugal, como tem sido habitual em anos anteriores, participou com as sugestões da Biblioteca Municipal Central de Lisboa (nomeou três obras de três autores: José Eduardo Agualusa, Monica Ali e Paul Auster) e a Biblioteca Pública Municipal do Porto (nomeou apenas uma obra, de autoria da escritora chilena Isabel Allende).

Curioso, será verificar que o grande vencedor do IMPAC 2008 apenas foi nomeado por uma única biblioteca para a lista inicial, a sua conterrânea Winnipeg Public Library no Canadá – o mesmo já havia ocorrido com o vencedor de 2007, o norueguês Per Petterson, apenas nomeado por duas bibliotecas (entre as 169 participantes) e ambas norueguesas.

Eis os anteriores vencedores do prémio mais generoso do mundo a premiar uma obra de ficção:
2007 – Per PettersonOut Stealing Horses
2006 – Colm TóibínO Mestre (Dom Quixote, 2007)
2005 – Edward P. JonesThe Known World
2004 – Tahar Ben JellounUma Ofuscante Ausência de Luz (Asa, 2003)
2003 – Orhan PamukO Meu Nome é Vermelho (Presença, 2007)
2002 – Michel HouellebecqPartículas Elementares (Temas e Debates, 1999)
2001 – Alistair MacLeodNo Great Mischief
2000 – Nicola Barker À Flor da Pele (Gradiva, 2000)
1999 – Andrew MillerA Dor Industriosa (Teorema, 1999)
1998 – Herta MüllerA Terra das Ameixas Verdes (Difel, 1999)
1997 – Javier MaríasCoração Tão Branco (Relógio D’Água, 1994)
1996 – David MaloufRemembering Babylon

quarta-feira, 11 de junho de 2008

Marías, Feira do Livro, Literatura e Truculência

Terminou a 78.ª edição da Feira do Livro do Porto (FLP). Ao que se vai ouvindo e lendo, este foi mesmo o último ano em que o Pavilhão Rosa Mota recebeu o evento organizado pela APEL, finalmente, digo eu, dados o desconforto e a vetustez do layout. O Rosa Mota entrará num longo processo de obras de restauro e o nosso inefável Presidente da Câmara há muito que havia manifestado a sua vontade de trazer a feira para o coração da cidade (cuidado com os mal-entendidos): para a agora despida e matizada a Porto antracite Avenida dos Aliados – a ver vamos, se as incómodas e frequentes chuvas que em finais de Maio soem brindar a Invicta não irão estragar um evento que requer conforto e tempo seco para ter algum êxito.

Como o Francisco já escreveu, na sua bem descrita visão romântica da feira do livro, o sal do evento – visão de alguma forma repisada pelo Eduardo, quando este se referia ao espavento da tal empresa-colosso (à medida lusa) do meio editorial que, de forma heteróclita apenas dispunha das novidades e dos últimos livros publicados – manifesta-se no vasculhamento dos restos de colecção, dos fundos editoriais, há muito afastados, por razões economicistas, dos escaparates das principais livrarias, com preços de saldo, por vezes com capas já amarelecidas pelo tempo e pela resistência da letra impressa à fúria impiedosa dos elementos, que um mau armazenamento ousou debilitar.

[Curiosamente, há um odor típico que me ficou gravado na memória, endurecido pelos incontáveis anos de visita à FLP em espaço fechado: o único e inexpugnável cheiro a bafio que emana dos livros expostos no stand da editora Livros do Brasil, alguns com lombadas esfareladas, transmitindo a sensação de comovente fragilidade e de ruína iminente assim que manuseados; e sempre os mesmos autores: Irving Wallace, Daphne du Maurier, Norman Mailer, Thomas Mann (há anos sem os esgotadíssimos A Montanha Mágica e Os Buddenbrook), Pearl S. Buck, John Steinbeck (agora em fase de renovação), etc.]

Este ano, desloquei-me por diversas vezes à FLP à procura dos tais fundos editoriais que o recente movimento de fusões e aquisições de editoras permitiu que se fossem adensando nas caves das distribuidoras fortemente representadas no local.
A sede de arrancar aquele livro que durante um ano fica em lista de espera numa livraria, para depois ser anunciado como “fora de stock” – e este é um dos pontos a melhorar na relação entre editores, livreiros e leitores, ou seja, no tempo infindo que se espera por um livro raro que eventualmente reside numa qualquer cave de livros espalhada pelo país –, assim como a impossibilidade de visitar determinado stand dado o aglomerado de gente que se postava sem qualquer tipo de delicadeza a olhar para os títulos sem os folhear, como se esperassem por uma mensagem vinda do seu interior materializada no colorido do seu frontispício, fizeram que me deslocasse umas 7 ou 8 vezes ao dito recinto de exposição.

Javier MaríasUm dos títulos que adquiri, já no final dos dias e por apenas 5 euros, no pavilhão da Relógio D’Água, foi a colectânea de ensaios Literatura e Fantasma do escritor madrileno Javier Marías (n. 1951) – livro editado originalmente em 1993 sob o título Literatura y fantasma pela editora espanhola Siruela, e publicada entre nós em Novembro de 1998, com tradução do próprio Francisco Vale, sem a enorme ampliação sofrida pela obra em 2001, quando a editora espanhola Alfaguara lhe acrescentou mais 37 textos, aos 35 publicados em 1993 (que na versão portuguesa inclui ainda mais seis sobre “Mulheres Fugitivas”, incluídos na antologia Vidas Escritas de 1992).
Conheço pouco da obra de ficção do autor madrileno. Todavia, conheço o suficiente dos seus escritos dispersos, por vezes reunidos em livros, e as suas crónicas no El País e, sobretudo, o seu portentoso romance, galardoado em 1997 com milionário prémio IMPAC, Coração Tão Branco (Corazón tan blanco, 1992) – até hoje o único escritor espanhol a receber o prémio, desde a sua fundação em 1996 (correndo estas linhas o sério o risco de ficarem de súbito desactualizadas se, amanhã, Javier Cercas for o contemplado com o IMPAC de 2008).
Àquele romance pertence uma das mais inesquecíveis frases de abertura de uma obra de ficção (elas não me largam, já sabem):

«Não quis saber, mas soube, que uma das meninas, quando já não era menina e não havia muito tempo que tinha regressado da sua viagem de lua-de-mel, entrou na casa de banho, pôs-se em frente do espelho, abriu a blusa, tirou o soutien e procurou o coração com a ponta da pistola do seu próprio pai, que estava na sala de jantar com parte da família e três convidados.»
Javier Marías, Coração tão Branco, pág. 11.
(Lisboa: Relógio D’Água, 1994, 295 pp.; tradução de Cristina Rodriguez e Artur Guerra; obra original: Corazón tan blanco, 1992).


Cheguei a casa e ia folheando o livro que acabara de comprar, e detive-me num texto curto, ocupa pouco mais de uma página, que Marías escreveu para o El País de 19 de Outubro de 1991: “Contra a truculência”. E, de repente, recordei-me do que eu próprio havia escrito no meu anterior blogue – com o título sugestivo “Repugnância” – sobre o mais recente filme de Tim Burton, o realizador norte-americano incensado pelos intelectuais da crítica cinematográfica.
Marías discorre sobre a descrição da violência e do horror na literatura, estendendo-a também ao cinema

«O mal é que à quinta ou vigésima, se a descrição continua a ser mediana ou demasiado explícita, a tensão perde-se e o efeito desvanece-se, mesmo que o aspecto mais selvagem das coisas haja aumentado. […] Nabokov dizia que “na arte mais elevada e na ciência pura o pormenor é tudo”, e não se referia precisamente à morosidade descritiva, mas ao clarão visual, analógico, verbal ou de memória provocados no leitor por um sinal vermelho, um vislumbre, um instante.» (pág. 112)

Marías relembra Psico (Psycho, 1960) do mestre Hitchcock e a eterna cena da banheira, o pânico do entrevisto, do não explícito, para no campo da literatura referir logo a seguir:

«A frase que maior horror me causou em literatura não está em Lovecraft, mas em Flaubert: no final de Madame Bovary, com ela já morta e no caixão, enquanto várias personagens lhe cingem uma coroa, Flaubert diz: “Foi necessário erguer-lhe um pouco a cabeça, e então uma onda de líquidos negros saiu, como um vómito, da sua boca.”» (pág. 113)

Depois refere Faulkner, que em Santuário (Sanctuary, 1931) usou a expressão deste mesmo horror para descrever uma situação nauseante:

«Cheira a negro, pensou Benbow; cheira àquela substância negra que saiu da boca de Madame Bovary e caiu sobre o seu véu nupcial.» (pág. 113)

E acrescenta: «Duvido que alguém, mesmo o próprio Faulkner, conseguisse com uma frase menos sóbria a façanha de fazer sentir um tão hediondo cheiro.»

Sim, é verdade. Na minha juventude fui um admirador de Carpenter e de alguns dos seus colegas e discípulos desse subgénero fílmico. Mas quem via Carpenter sabia ao que ia, da mesma forma que hoje, quem lê, perde tempo e gasta dinheiro com Palahniuk já deveria saber ao que vai. A mim chegou-me vez e meia... É puro lixo sensacionalista.

Referência bibliográfica:
Javier Marías
, Literatura e Fantasma. Lisboa: Relógio D’Água, Novembro de 1998, 295 pp.; tradução de Francisco Vale; obra original: Literatura y fantasma, 1993.

sábado, 7 de junho de 2008

Volodya, de novo

Vladimir NabokovEnquanto Dmitri filho único de Vladimir Nabokov (1899-1977) anda, em letras de imprensa, a distrair meio mundo literário com a fábula dos manuscritos encerrados no cofre-forte de um banco suíço que só pode ser aberto pela combinação de chaves detidas por duas pessoas – qual trama browniana. Vão, estranhamente, surgindo uns dispersos do ilustre pai, escritos originalmente em russo e posteriormente traduzidos pelo filho – ou seja, manuscritos provavelmente com data anterior ao início da década de 40 do século passado, altura a partir da qual Nabokov, já nos Estados Unidos, passou a escrever exclusivamente em inglês.
Desta feita, surgiu do nada, no número desta semana da revista norte-americana The New Yorker (de 9 a 16 de Junho de 2008) um conto inédito do eminente escritor russo-americano intitulado “Natasha”.
Enquanto nada sai sobre o alegado romance inacabado The Original of Laura, depois de Lolita (1955) e de O Encantador (Volshebnik, 1939; publicado postumamente em 1985 por Dmitri sob o título The Enchanter, como uma versão, em forma de novela, mais punitiva de Lolita; a mácula da pederastia contribui para o desfecho trágico do perpetrador, dando-se a redenção da ninfeta sem nome), surge-nos agora “Natasha” provavelmente escrito em 1925.
Alguém me consegue explicar, para além de uma provável cupidez, o que anda Dmitri a fazer com o espólio de seu pai? Seguramente, a par de Borges, o melhor escritor dos 2.º e 3.º quartéis do século XX, e um dos melhores escritores de todos os tempos?

Eis as primeiras palavras do conto:

«On the stairs Natasha ran into her neighbor from across the hall, Baron Wolfe. He was somewhat laboriously ascending the bare wooden steps, caressing the bannister with his hand and whistling softly through his teeth.
“Where are you off to in such a hurry, Natasha?”
“To the drugstore to get a prescription filled. The doctor was just here. Father is better.”
“Ah, that’s good news.”
She flitted past in her rustling raincoat, hatless.
Leaning over the bannister, Wolfe glanced back at her. For an instant he caught sight from overhead of the sleek, girlish part in her hair. Still whistling, he climbed to the top floor, threw his rain-soaked briefcase on the bed, then thoroughly and satisfyingly washed and dried his hands.
[…]»

(versão completa aqui)