sexta-feira, 6 de junho de 2008

Porque gosto do Google

(Para além de me proporcionar este espaço para as minhas divagações, várias caixas de correio electrónico gratuitas com funcionalidades sem rival; para além de ser a melhor empresa no mundo no vasto e intrincado domínio nas relações laborais – tema que me é muito caro, sendo um caso de estudo em toda a parte do mundo; para além das soluções inovadoras de conteúdos, plataformas de comunicação e da democratização da navegação na internet; para além de se dar ao luxo de ser a grande fonte de inveja da Bill Gates, que não consegue, por mais tentativas que faça – vide compra da Yahoo –, rivalizar com a empresa fundada em 1998 por dois estudantes de Stanford, Larry Page e Sergey Brin, sedeada Menlo Park, próximo de San Francisco, na Califórnia;...)

E nas efemérides... assim responde o
motor de busca mais utilizado no mundo inteiro:

Google comemora os 409 anos do nascimento de Velázquez


Diego Rodríguez de Silva y Velázquez (seria, hoje em dia, Velasques, corria-lhe sangue portuense na veias pelo lado do pai) nasceu em Sevilha há 409 anos, 06/Junho/1599).

Epígrafe e abertura. Obsessões e… dedicatórias

(continuação do texto anterior, interrompido por introdução de material susceptível de fazer a capa da Ana + atrevida)

Mas antes já havia passado pela estranha dedicatória, a que depois regressei e li com mais atenção depois de lida a frase de abertura. Exigiu uma curtíssima investigação na Internet2:

«Para a Helen [Bransford]
Que gostaria de ter sido eu a inventar, se tivesse imaginação para tal.
» (pág. 5)

Notas:

  1. Na década de 80 do século passado, McInerney foi incluído no denominado Brat Pack literário artificialmente construído pela imprensa norte-americana, que ademais contava com os escritores Bret Easton Ellis, Tama Janowitz e Mark Lindquist, por corruptela, ou se se preferir como derivação (falhada pela heterogeneidade insolúvel) do famoso Rat Pack de Sinatra & companhia que espalhou o seu charme (muitas vezes etilizado) pelo cinema e pelos palcos dos teatros e casinos americanos durante as décadas de 50 e 60.
  2. The Last of the Savages foi publicado em 1996. Em 1997, Jay, então com 40 anos, divorciou-se da famosa designer de jóias Helen Bransford, a sua terceira mulher, sete anos mais velha. Ao que parece a actriz Julia Roberts desempenhou um papel importante; já para nem falar da história rocambolesca da concepção e gestação dos gémeos do casal, nascidos em 1995, Para quem se interessa por este tipo de assuntos cor-de-rosa, suponho que este artigo/entrevista de 2000 publicado no Guardian, sob o título sugestivo e bem a propósito de um dos romances do meu mui estimado F. Scott Fitzgerald (Belos e Malditos), faz um resumo interessante de toda a história… keywords: miscarriage, IVF, eggs, womb, surrogate mother,…

Referência bibliográfica:
Jay McInerney, O Último dos Savage. Lisboa: Teorema, Abril de 1998, 299 pp.; tradução de Telma Costa; obra original: The Last of the Savages, 1996.

quinta-feira, 5 de junho de 2008

Epígrafe e abertura. Obsessões.

Já muito se discutiu sobre a importância da frase de abertura de obras de ficção. Na maioria das vezes, é-lhe atribuída o poder de um sortilégio paralisante pela forma como agarra o leitor do princípio ao fim do livro. É óbvio que esta imagem do magnetismo literário das frases de abertura é um mero exercício teórico e hiperbólico para se discutir literatura e destreza literária, se não o fosse, o que seria de uma frase tão inócua como «Call me Ishmael.» («Tratem-me por Ismael.») do Moby Dick de Melville – classificada num concurso promovido pela revista American Book Review, que contactou para o efeito um conjunto alargado de escritores e críticos, como a melhor frase de abertura de romances – se não se tivesse em devida conta o corpo e o desenvolvimento da obra? E essa importância, nem tão-pouco sairia reforçada pela frase de encerramento «It was the devious-cruising Rachel, that in her retracing search after her missing children, only found another orphan.» («Era o Raquel, que prosseguia o seu errante cruzeiro e que tinha voltado para trás, na sua referida busca do filho perdido, não tendo achado mais do que outro órfão.») – esta classificada em 25.º lugar, quando uns tempos mais tarde a mesma publicação resolveu elaborar as 100 melhores frases de encerramento de romances.
Todavia, há um facto que não pode ser negado, a teimosa persistência de algumas delas na nossa memória, normalmente tão diligente a abandonar o supérfluo. Quem leu dificilmente se esquecerá da recordação aparentemente indelével de Aureliano Buendía da viagem que fez com o pai para conhecer o gelo enquanto, anos volvidos, enfrentava o pelotão de fuzilamento (García Márquez); das parecenças das famílias felizes e das dissemelhanças entre as infelizes (Tolstoi); da necessidade de casar um homem solteiro que possuísse uma grande fortuna (Austen); do monstruoso acordar de Gregor Samsa após sonhos agitados (Kafka); e por aí em diante.
Na realidade, confesso aqui e agora, é uma das minhas muitas manias relacionadas com o processo de aquisição de um livro: procurar a frase de abertura de uma determinada obra (de ficção, claro) sempre que me desloco a uma livraria e pego num livro que por conselho, alarde publicitário, curiosidade ou intuição, folheio e cheiro antes de o pousar de novo, em definitivo ou até nova oportunidade, ou de o agarrar e com ele me dirigir à caixa que me deixará materialmente mais pobre, juntando-se à miríade de obras que aguardam pelo passar dos meus olhos, dada a minha declarada oneomania predominantemente bibliómana e cinéfila – se tudo correr de acordo com o previsto, esgotá-los-ei na minha já eventualmente decrépita passagem pelos oitenta anos…

Folheava O Último dos Savage um livro do escritor e enólogo Jay McInerney1, fui desde logo agarrado pela epígrafe escolhida, de autoria do último dos duros:

«…ou se é rebelde ou conformista, ou se é um homem de fronteira do Oeste selvagem da vida nocturna americana, ou se é uma casa Quadrada, apanhado nas teias totalitaristas da sociedade americana, condenado ao conformismo sem apelo nem agravo, se se quiser triunfar.»
Norman Mailer (pág. 9)


Depois veio a dilacerante frase de abertura de McInerney:

«A capacidade de ter amigos é a maneira de Deus pedir desculpas pelas famílias que temos.» (pág. 13)


(Descontinuidade voluntária, para não danificar o que ficou para trás. Notas e referências no final. Publicação prevista, 6 de Junho às 0:30 WEST)

Exercício do direito de resposta


Relativo a parte do texto publicado neste blogue «Títulos, badanas e contracapas»:

Por Desidério Murcho:

Caro André

Obrigado pela sua atenção ao livro do Orwell. Como a responsabilidade é minha, no que respeita ao "por que", devo dizê-lo publicamente.

E defendo que você não tem razão. Há um erro fundamental na doutrina de um linguista português que fez escola, mas é pura e simplesmente absurdo considerar que "Porque escrevo" quer dizer o mesmo que "Por que razão escrevo". Isto é absurdo. "Porque escrevo" traduz-se por "Because I write" e "Por que razão escrevo" por "Why I write". Tanto em inglês como em francês ou alemão a diferença entre "porque" e "por que" é clara. Não faz pura e simplesmente sentido usar a norma que alguém em Portugal decidiu usar e que é incoerente. Semanticamente, não há qualquer diferença entre dizer "Por que [razão] escrevo" elidindo a palavra "razão", e por isso mesmo devemos escrever "por que" e não "porque". Enfim, espero que não se ofenda, mas a minha opção é muito consciente. Como referência, veja estes sítios:

http://omolete.blogspot.com/2007/10/por-que-porque.html

http://linguistica.publico.clix.pt/duvida.aspx?id=1317

quarta-feira, 4 de junho de 2008

Mia Couto // A Biblioteca de Babel [pub]

O autor moçambicano Mia Couto estará na Livraria Pára e Lê, em Vila Praia de Âncora, no próximo dia 12 de Junho (quinta-feira) pelas 18 horas, para uma sessão de autógrafos no âmbito do seu novo livro Venenos de Deus, Remédios do Diabo.

Livraria Pára e Lê // Rua 31 de Janeiro 47-A // 4910-455 Vila Praia de Âncora

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Saiu para o mercado mais um livro da colecção A Biblioteca de Babel de literatura fantástica, organizada por Jorge Luis Borges (1899-1986) com editor italiano Franco Maria Ricci (n. 1937) e publicada em Portugal pela Editorial Presença:
Edgar Allan Poe, A Carta Roubada (A Biblioteca de Babel n.º 8)

Do prefácio de Borges:
«As neuroses e a pobreza de Poe foram grandes desgraças, sem dúvida alguma, mas a vida reservou-lhe uma felicidade sem fim: a invenção e a realização de uma obra esplêndida. Poderia acrescentar-se que a desgraça foi o instrumento necessário dessa obra.
Há cerca de setenta anos, sentado no último degrau de uma escada que já não existe, li "The pit and the pendulum"; já me esqueci das vezes que, depois, o li, reli ou pedi que mo lessem; sei que ainda não cheguei à última vez e que voltarei ainda à prisão quadrangular que se vai comprimindo e ao abismo sem fundo.»

[Números anteriores: 1 – Gustav Meyrink, O Cardeal Napellus; 2 – Pedro Antonio de Alarcón, O Amigo da Morte; 3 – Giovanni Papini, O Espelho que foge; 4 – Henry James, Os Amigos dos Amigos; 5 – Arthur Machen, A Pirâmide de Fogo; 6 – Villiers de l'Isle-Adam, O Convidado das Últimas Festas; 7 – G.K. Chesterton, O Olho de Apolo.]

Menino gabado,,,

Corre por todos os blogues a notícia:
A editora Assírio & Alvim já tem blogue. E eu acrescento, já o teve há cerca de um ano, mas foi subitamente interrompido ao fim de alguns dias, talvez por falta de entusiasmo.

Mas, finalmente, D. Rosa, a
Assírio tem blogue e… está na feira

No passado dia 29 de Maio gabava-a
aqui neste blogue, conjuntamente com a Cotovia e a minha editora de eleição, a Relógio D’Água do resistente Francisco Vale.

Mas já diz o ditado (completando):

…menino estragado.

Eu, leitor interessado, complemento a informação que o incensado blogue se esqueceu de fornecer:

  • A Assírio & Alvim também está presente na 78.ª Feira do Livro do Porto no pavilhão A-10 (corredor da entrada, ao fundo do lado direito);
  • Livros do dia: infelizmente não disponho dessa informação de carácter privilegiado(passei por lá hoje em busca do livro de Ezra Pound (& Hilda Doolittle), Fim do Tormento / O Livro de Hilda, que ainda não tenho, mas não só não o vislumbrei como não me souberam responder sobre o seu paradeiro: a) em stock, b) sem stock, c) prestes a chegar, d) exclusivo do Parque Eduardo VII, e) a vaguear pela estratosfera, f)nenhuma das anteriores, g) perguntar no stand de uma das seguintes editoras: Bertrand, Bico de pena, Pergaminho, Temas e Debates (jamais no do Círculo de Leitores, não nos largam...)

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Notícia do dia: entretanto, no próximo número da revista Ler mais 150 arquitectos dão a sua opinião sobre a localização e o layout da próxima Feira do Livro de Lisboa. Entre eles contam-se nomes como o centenário Oscar Niemeyer, o consagrado arquitecto canadiano e santanista Frank Gehry e a famosa Linda Reis (a.k.a. Pomba Gira) que entrou em contacto com Antonio Gaudí, Frank Lloyd Wright, Adolf Loos, Le Corbusier, Alvar Aalto, entre outros. Ao que até agora se conseguiu apurar, ninguém da denominada Escola do Porto foi contactado: Álvaro Siza, Alcino Soutinho, Eduardo Souto Moura, entre outros.

terça-feira, 3 de junho de 2008

Maniqueísmos

Recordo-me bem da minha ida ao cinema para ver África Minha. Arrastado pelo meu pai, suponho que ao defunto Estúdio Foco, que tentava cultivar as minhas preferências cinematográficas, especialmente numa altura em que, de forma impotente, procurava monitorizar os filmes que chegavam encobertos pela capa standard do clube de vídeo a minha casa: John Carpenter, acima de tudo e a suas parecerias com Debra Hill, e depois Wes Craven, Brian De Palma, Sam Raimi, Cronenberg, disfarçados com Ivory, Forman, Lean, Huston, de que gostava, mas em quem preferia poupar os meus parcos recursos.
Ver África Minha foi, por tudo isso, uma experiência traumatizante. Era um filme sobre uma tontinha em paisagens hipoteticamente deslumbrantes – a minha agulha estética estava longe desse pólo da beleza majestática e contemplativa, com fotografia a cargo do britânico, recentemente desaparecido, David Watkin e uma banda sonora original do bondiano John Barry –; sim, uma tontinha armada em independente que se perde de amores por um caçador errante nas colinas de África.

Em 2000 fui viver para Madrid, e resolvi completar a minha videoteca, a preços de saldo – por essa altura os DVD’s em Espanha, para além do número incomensuravelmente maior de títulos à disposição do público, custavam cerca de metade do preço praticado em Portugal. Comprei dezenas de títulos, com o único senão de a capa expor os títulos atribuídos pelos espanhóis, na maioria das vezes, grotescos, como por exemplo o maravilhoso filme do Mestre Hitchcock North by Northwest (1959) como Con la muerte en los talones; ou como o filme de 1980 de John Landis The Blues Brothers como Granujas a todo ritmo.
Comprei o África Minha (Out of Africa, 1985) ou o Memorias de África (ver imagem), e com vinte e oito anos – já há muito tinham passado os imberbes catorze de 1986 no Estúdio Foco – aprendi a apreciar a beleza que se me havia escondido nos anos oitenta, corporizada na harmonia imagética, fílmica e musical que Pollack conseguiu transmitir com a sua obra-prima e que, de facto, como diz o Luís Miguel Oliveira encantou meio-mundo – não a sua metade de mundo –, tal como a Academia de Hollywood (que lhe atribuiu 7 Óscares) – talvez, se trate do tal cinema filmado, como refere o Luís Miguel, mas então o que seria de gente como James Ivory, e principalmente de David Lean?
Foi então que saí da minha irredutibilidade, vislumbrei a bruma que se levantava como a neblina húmida de uma manhã fria de Primavera e olhei para o outro lado, de onde o meu pai e o seu meio-mundo saía das ostras a que os havia votado uns anos antes, ao som de John Barry, culminando com o 2.º andamento (Adágio) do Concerto para clarinete em Lá maior (K.622) composto pelo divino Wolfgang Amadeus Mozart a pouco menos de dois meses de ocorrer a maior tragédia de sempre para a Música, a sua morte aos 35 anos, em 5 de Dezembro de 1791:


Wolfgang Amadeus Mozart - Concerto para clarinete em Lá Maior (K.622) - 2. Adagio




(uma amostra a 96 kbps, com o solo de clarinete de Sabine Meyer e a Filarmónica de Berlim, dirigida por Claudio Abbado).

segunda-feira, 2 de junho de 2008

Títulos, badanas e contracapas

Há muito que o mercado editorial português vive momentos agitados, potenciados não só pelo aumento exponencial do número de livros publicados por dia, muitas vezes desfasados da realidade leitora nacional, mas também pela revolução motivada pelas fusões, aquisições e associações de editoras. Nós, do lado de cá, vamos assistindo compassivamente.
Pressente-se no ar, pelo agitar de águas que vai muito além da pedrada no charco, um cheiro pestilento que anuncia a insalubridade. E se o meio editorial nacional até aqui pudesse ser comparado a um atoleiro bafiento que resistia paredes meias ou às portas das piramidais construções de um progresso voraginoso, o tratamento que lhe foi imposto ultrapassou e muito a reciclagem dos resíduos provenientes dessa estagnação.
Dinamitaram o charco, e a sujidade que se acumulou durante anos de inacção espalhou-se por todos os lados, alimentando uma guerra infecta que ninguém pretende, muito menos os consumidores-leitores que há anos esperam por qualidade nesse passatempo tão ancestral como o de matar a sede de conhecimento nos livros.
Todavia, a insalubridade permanece. Neste momento preparamo-nos para recolher os primeiros despojos de uma guerra que teve por pano de fundo a organização das feiras dos livros. Assim, tentando resumir, temos, de um lado, um modelo gasto, espremido, rígido, anquilosado e seriamente ferido de morte, que se traduz na concepção da feira como um imenso espaço dedicado aos saldos de livros – como se fosse necessário esperar por Maio para comprar livros com descontos iguais ou superiores a 20% do p.v.p. –, que se afastou progressivamente da montra das novidades literárias e da ligação estreita entre o leitor e o produtor da obra – aquele que da literatura fez ocupação e passou meses, anos a fio encerrado com o seu interior na criação de uma obra para apreciação de um determinado público, de forma a garantir-lhe o sustento, não só o material, mas acima de tudo o espiritual, do reconhecimento, da aceitação e, porque não, do engrandecimento do seu ego – algum lirismo imaterialista nunca fez mal a ninguém. Do outro lado, apresentou-se o poderio económico, que munido de toda a sua arrogância pretende abanar (aniquilar?) o mercado sem ouvir o próprio mercado. Operações de reestruturação empresarial em cujos critérios não se vislumbra a atenção ao requisito mais importante: a cultura. A avidez pelo mercado, por quotas, pela formação de grupos ufanos pelo seu poderio no meio, parece ter sido o único critério. Não há uma cultura de base que se entenda, nem que se consiga, por maior que seja o esforço de abstracção, subentender; nem tão-pouco se respeitou a cultura das próprias organizações que da noite para o dia, sem ouvir escritores e editores, foram anexadas pelo poderio dos cifrões – anschluss ou blizkrieg?

E depois, admirem-se que no meio de tudo isto apareça um título como o que vem reflectido na imagem ao lado, relativo a um conjunto de ensaios do autor britânico George Orwell (1903-1950). Esta antologia foi publicada pela Antígona e traduzida por Desidério Murcho: Why I Write (1946) foi traduzido para “Por Que Escrevo”. Haja paciência… é o título da obra, que, como é obvio, aparece na capa, agravado pelo destaque de letras negras garrafais em fundo amarelo vivo que não deixam a dúvida da existência de um espaço entre a preposição “Por” e o pronome interrogativo adjunto “Que”, que apesar de adjunto surge sem substantivo (motivo, razão, carga de água, raio, etc.). Quiçá a editora, o revisor e/ou o tradutor pretendeu ser mais papista que o Papa e alargou o acordo ortográfico a um acordo gramatical; em português do Brasil o título estaria gramaticalmente bem formulado.

Depois, temos a LeYa, através da Dom Quixote – ou será o contrário? – acabou de publicar o horroroso projecto de romance de Truman Capote (1924-1984), publicado postumamente, Súplicas Atendidas (Answered Prayers, 1987).
Deixando de lado as questões conexas com a qualidade literária (quase nula ou mesmo abaixo de zero, digo) e as vicissitudes ligadas à sua publicação original, do conjunto das três histórias interligadas de Capote, o livro termina em beleza com o indescritível capítulo, pelo péssimo gosto da prosa nele vertida, de “La Côte Basque”, que revela um Capote mesquinho, ignóbil e decadente, entregue ao álcool e às drogas que, aliás, marcariam o ritmo dos seus últimos anos, o fim da aventura do rapaz irreverente de Nova Orleães que um dia quis ser famoso.
«La Côte Basque fica no lado Leste da rua 55, mesmo em frente ao St. Regis.» (pág. 160). É portanto um bar/restaurante em Nova Iorque, que ficaremos a saber ser de propriedade de um tal Sr. Soulé, local onde se reúne a nata da alta sociedade nova-iorquina numa grotesca parada de estrelas atulhada de fofoquices sobre as vidas sórdidas dos outros.
[O capítulo até começa bem com uma piada de saloon, que dá o verdadeiro cunho ao género do que a seguir, em cerca de quarenta páginas, se descreve:
«Ouvido num bar de cowboys em Roswell, no Novo México… Primeiro cowboy
: Hei, jed. Como estás? Como vai essa vida?
Segundo
cowboy: Bem! Mesmo bem. Sinto-me tão bem que, esta manhã, não tive de bater uma punheta para pôr o coração a funcionar.» (pág. 159)]

Bem, adiante…

Pois, na contracapa da recentíssima edição portuguesa da Dom Quixote podemos ler [destaque meu]:
«Ao acompanhar a carreira de um escritor de origens incertas e gostos eróticos insaciáveis, SUPLICAS ATENDIDAS conduz o leitor de um decadente bar em Tânger a um banquete na costa basca, dos salões literários aos mais caros bordéis […]»
Pelo título, deve tratar-se da costa basca francesa. Mas terá sido em Biarritz? Ou noutro lugar qualquer.
A maior editora portuguesa, agora pertença do império LeYa, dá-se a este tipo de negligência.

Conselho: seria melhor ler a obra antes de escrever os textos que irão constar das badanas e da contracapa. Como o livro (creio eu) não é para ser vendido a um conjunto de abrutalhados que o desfolham – ah, aqui a utilização do dito cujo verbo “desfolhar” teve a merecida utilização – e não o folheiam com olhos de ver, haveria de desperdiçar um pouco mais de tempo a rever a asneirada que se escreve, como numa corrida contra o tempo – eu sei, já dizia o outro, time is money, e é isso mesmo que permite a ocorrência deste tipo de abjecções literárias.
Enfim, à beira do abismo, vamos caminhando em frente...

Referências bibliográficas:

  • Truman Capote, Súplicas Atendidas. Lisboa: Dom Quixote, 1.ª edição, Maio de 2008, 199 pp. (tradução de José Luís Luna; obra original: Answered Prayers, 1987);
  • George Orwell, Por que escrevo e outros ensaios. Lisboa: Antígona, 1.ª edição, Maio de 2008, 154 pp. (tradução de Desidério Murcho; obra original: s/ ref.ª, ensaios dispersos).

sexta-feira, 30 de maio de 2008

Um esclarecimento

A propósito do meu texto anterior, o Nuno Góis do blogue com título sugestivo Nem Paz, Nem Guerra, pôs em evidência duas questões bastante pertinentes referentes à minha intenção de boicotar a compra de livros de determinadas editoras que não se dignaram a estar presentes, de forma individual – para que se entenda, já que muitas se fizeram representar por distribuidoras, com um escassíssimo número de títulos postos à disposição do público –, na 78.ª edição da Feira do Livro do Porto (FLP).
A primeira questão, resulta da impossibilidade de boicotar – ou recusar-se a adquirir – livros de uma determinada editora, quando o que, na realidade, importa é o produto em si, a obra e o seu autor. Ora, as editoras não vendem produtos indiferenciados que podem ser adquiridos com os mesmos requisitos noutras editoras, há os direitos de autor e de publicação. No caso de uma obra de meu interesse ter sido publicada por uma destas editoras, vou ter de, à socapa do meu polícia interior, infringir o boicote auto-imposto – aliás, passada a efervescência é o que irá ocorrer com frequência, tornando-se regra, derrogando assim o boicote.
A segunda, tem que ver com as enormes diferenças de recursos financeiros que podem ser observadas entre as diversas editoras nomeadas na dita lista. Muitas são pequenas editoras, que vivem com dificuldades económicas e financeiras e que lutam pela sobrevivência dia a dia no cruel mercado editorial nacional – há os David e os Golias – com sede e zona principal de actividade fora da região coberta pela FLP. Logo, os custos associados à manutenção de um stand individual, adicionando-se os necessários encargos com os recursos humanos, tornariam esse objectivo quase impraticável. Nesse grupo e olhando para a lista de 20 editores e livreiros por mim enunciada, talvez – o emprego deste advérbio deriva do desconhecimento da verdadeira situação económico-financiera de cada uma, individualmente – deva incluir editoras como: Alêtheia, Antígona, Cavalo de Ferro, Colibri, Fenda, Guerra e Paz, Nova Vega, Sextante e Tinta-da-China. Todavia, há outras de dimensão aparentemente similar que estão presentes na FLP. São critérios...
Porém, o que é mais revoltante em toda esta história de ausências importantes da FLP, advém do desinteresse dos grandes grupos editoriais, alguns com inúmeras lojas abertas ao público na região, sem que fosse dado qualquer tipo de explicação, ou então no caso de o ter sido, a justificação tem por base uma fundamentação tão irritantemente ridícula que se subsume num puro insulto à inteligência dos seus destinatários (grupo em que me incluo) – seria preferível apelidarem-nos de forma directa, sem atavios e circunlóquios, de burros e ignorantes; assim, pelo menos, a honestidade em todo este processo de aparente segregação sairia vencedora.

  • Porque é que a Bertrand (Direct Group – Bertelsmann) não está presente?
  • Porque é que a Guimarães (de Paulo Teixeira Pinto), após a sua reestruturação radical que acicatou a curiosidade dos interessados por assuntos literários, não se dignou a comparecer no Porto, onde reside um dos seus ícones, Agustina Bessa-Luís, que, durante anos, foi a verdadeira salvadora da dita editora à beira do colapso empresarial?
  • Porque é que a LeYa se fez representar por uma distribuidora, depois de tanto alarde mediático com as suas aquisições, eventos culturais e prémios literários milionários?
  • E a Fnac? Que explicações terá para dar aos seus clientes das suas lojas na região?

É este menosprezo que não se entende e que tem de ser justificado, com razões coerentes e plausíveis, a toda uma comunidade, que só na sua área metropolitana (da Póvoa a Espinho, do Porto a Arouca), alberga quase 1,7 milhões de pessoas* (a de Lisboa, por exemplo, tem uma população de quase 2,8 milhões*)

*Fonte: INE, INE/Metrex GAMP, 2008

quinta-feira, 29 de maio de 2008

Lista Negra [actualizado]

Por simples exercício de comparação, que através da preciosa ajuda de uma folha de cálculo e da conhecida técnica “copy & paste” não durou mais de 10 minutos, consegue-se facilmente chegar a uma lista de Editoras e Livreiros que resolveram demarcar-se do conjunto pela ausência da 78.ª edição da Feira do Livro do Porto (FLP), que ainda permenacerá de portas abertas até ao próximo dia 10 de Junho nos calabouços nas instalações do Pavilhão Rosa Mota (sito nos jardins do Palácio de Cristal), mas que, ao invés, não deixaram de marcar a sua presença no mesmo evento realizado no afamado local na Capital do Império – afamado, pelos serviços de primeira necessidade prestados durante o ano inteiro à população. Note-se, que em alguns casos, os faltantes por razões comerciais da FLP, dispõem de uma presença assinalável, com vários stands em Lisboa, como por exemplo a Bertrand Editora, mesmo excluindo os mini-pavilhões das outras chancelas do grupo DirectGroup – Bertelsmann também presentes no evento.
Assim, facilmente se chegou a uma lista de 20 editoras ou livreiros, que aqui serão expostos a título informativo, para fins de boicote na aquisição dos livros por si publicados (vai ser difícil, vide o texto anterior sobre um livro de uma delas) ou na deslocação a esses postos de venda; e, porque não?, para memória futura (já que a idade não perdoa, e um recurso informático deste calibre não é de desprezar). Ei-las, por ordem alfabética:

Alguns comentários:

  1. À lista supra-referida poder-se-ia acrescentar outro conjunto de editoras que aumentaria de forma considerável a cifra de 20 não-presenças na FLP. A exclusão dessas editoras deveu-se, única e exclusivamente, a um critério pessoal de selecção. Excluíram-se, por exemplo, as editoras de livros escolares ou de literatura infantil. Apenas me preocupei com as produtoras de Literatura (conto, novela, romance, ensaio, poesia, teatro, não-ficção em geral).
  2. De modo inverso, isto é, das que marcaram presença no Porto e não em Lisboa, há apenas a destacar a excelente casa portuense Edições Caixotim, que, a propósito, emitiu um comunicado transcrito na íntegra no Blogtailors, onde, para além de uma abordagem pertinaz sobre o estado de degradação actual da FLP, potenciado pelos nossos queridos responsáveis pela Câmara Municipal, dá o devido destaque ao ponto de que se ocupa este texto, muito embora a Caixotim se refira em exclusivo ao grupo LeYa, que ainda “participou” indirectamente com um escasso número de títulos através da desconhecida “Inovação à Leitura”, que segundo me disseram é uma distribuidora de livros de Braga:

    «Entretanto, alargando o âmbito desta análise, ao declarar abertamente, através da comunicação social, o seu desinteresse na participação da Feira do Livro do Porto, justificando-o por uma premissa de ordem comercial, o Grupo LeYa manifestou, para com os leitores do Norte, em geral, e os portuenses, em particular, um total alheamento, senão desprezo, mitigado por uma solução de remedeio encontrada à última hora e que se traduz na presença de uma distribuidora que expõe e comercializa os livros das editoras desse Grupo.» [destaques meus]

  3. Não se entende a estratégia do grupo Bertrand, que se prepara para inaugurar mais uma mega-loja com vários pisos no coração da Boavista. Para nosso grande consolo, apenas relegaram para a provinciana FLP os-mais-chatos-que-testemunhas-de-jeová funcionários/angariadores arrebatados [eufemismo] do Círculo de Leitores. Por outro lado, os responsáveis da editora do grupo alemão nem sequer tentaram a tal "solução de remedeio" através da inclusão dos seus livros através de uma distribuidora.
  4. Não se entende a não-presença da Fnac, pela primeira vez desde que chegou à Invicta. Ter-se-ão amedrontado com o excelente stand do El Corte Inglés, com inúmeros títulos em castelhano? Fará parte de uma estratégia de retirada, e irão fechar as três lojas do Grande Porto (GaiaShopping, NorteShopping e Santa Catarina)?
  5. Quanto à estratégia da Guimarães renovada, cedo me apercebi de um certo elitismo disfarçado que pululava sobre projecto. Com um patrão multimilionário, jovem e reformado, acabado de sair da banca por um processo no mínimo heteróclito, preocupou-se em formar um conselho editorial sonoro para uma determinada estirpe de frequentadores de eventos sociais quase esotéricos, com direito a pose junto de vivendas de assinatura nas revistas cor-de-rosa – estas, veículos privilegiados de práticas exotéricas, ou plásticas [eufemismo] das suas actividades em prole do povo, essa coisa enorme. Espero, com sinceridade, estar redondamente enganado.
  6. Não podia terminar este texto sobre a configuração de uma lista negra de editoras, sem que se fizesse uma referência especial a três outras cujo respeito pelos consumidores, as práticas de negócio, a não discriminação de públicos, em suma, os modos de agir são diametralmente opostos aos dos indexados. Falo, designadamente, da minha tríade de eleição, com a Relógio D’Água à cabeça – Francisco Vale, por favor não ceda, a sua editora é, de longe, a melhor do país –, a Assírio & Alvim e a Cotovia.

[Actualização às 20:02]: tal como referi no ponto 2 dos comentários relativamente às editoras do grupo Leya, há outras editoras que havendo decidindo pela não-presença na FLP enviaram uma parte dos seus títulos através de representantes ou distribuidores (figurará a vermelho à frente de cada editora).

rabiscos [quase] exemplares [pub]

A partir de oito do conjunto de microcontos reunidos em Crimes Exemplares do autor multinacional Max Aub (1903-1972), adaptados graficamente pelo desenhador Pedro Vieira, inaugura-se a exposição sob o título «rabiscos [quase] exemplares» que estará à vista a partir do dia 3 de Junho na Livraria Almedina no Atrium Saldanha.
[/pub]

Nota: só mesmo o Pedro – amigo invisível, blogosférico de longa data – para fazer derrogar a regra imposta do regionalismo na divulgação de eventos culturais neste blogue.

quarta-feira, 28 de maio de 2008

Pobre Antonia

Por estes dias, a recente e louvavelmente criada editora Sextante – que começou por se chamar Sudoeste e modificou o nome para evitar possíveis mal-entendidos com outras editoras existentes, optando por um novo que, de forma estranha, é igual à de outra existente no Brasil – publicou a, até hoje considerada, obra-prima da romancista, ensaísta, crítica literária e ex-professora universitária Antonia Susan Byatt (assina o seus trabalhos como A.S. Byatt), nascida em 1936 em Sheffield em Inglaterra, Possessão (Possession, 1990).
Esta obra permitiu à escritora britânica juntar o seu nome ao restrito conjunto de autores que venceram o mais prestigiado prémio literário a galardoar uma obra de ficção publicada originalmente em língua inglesa (Estados Unidos não incluídos), o célebre Booker Prize. E se acrescentarmos que, até 2007 (inclusive), dos 41 prémios distribuídos desde 1969 (tanto em 1974 como em 1992 houve dois vencedores ex aequo, Middleton e Gordimer, e Ondaatje e Unsworth, respectivamente) apenas 14 foram atribuídos a mulheres, o valor da vitória ganha outros matizes de excelência.
Por estes dias vou terminando a sua leitura, que diga-se, a talho de foice, não é nada fácil. Porém, posso desde logo confirmar de que se trata de um romance minuciosamente trabalhado, de uma excelente obra, com um arcaboiço literário invejável capaz de retirar o fôlego a mentes menos avisadas nas artes literárias. Para além da técnica narrativa recorrentemente analéptica, pejada de saltos históricos entre os séculos XIX e XX (hoje), e do percebido conhecimento aprofundado dos poetas, das suas obras e biografias, dos períodos romântico e vitoriano (Wordsworth, Arnold, Tennyson, S.T. Coleridge, Byron, Keats, etc.), de mitologia grega, do folclore nórdico e celta, e de filosofia, Byatt alterna dentro da mesma obra as formas narrativas do conto, da poesia, da prosa epistolar e diarista, do romance profusamente descritivo dos personagens, ambientes e objectos e dos diversos locais por onde se vai desenrolando a trama, a diálogos bem elaborados, com uma grande dose de humor e de ironia normalmente apontada à vida académica contemporânea, caracterizada por um estado de guerrilha latente, de invejas e de compadrios – só quem por lá anda ou andou consegue rever-se na descrição da envolvente tão bem articulada pela autora inglesa.

Bom, mas o que me levou à elaboração deste já longo texto irónico-interrogativo, nada teve que ver com a obra em si mesma, mas com a coincidência estranha da forma como a edição desta obra foi noticiada pela imprensa da especialidade1.
aqui havia referido o texto publicado a propósito de Possessão no último número da renovada revista Ler que, pelos laconismo e brevidade, apenas, na minha maneira de ver, teve como resultado um dispêndio despropositado de espaço e de caracteres: «Empreendimento no mínimo volumoso, acaba de sair Possessão […]»
Desta feita, a honras cabem ao JL, que na sua última edição (n.º 982, de 21 de Maio) refere o seguinte na página 29: «Há mistérios insondáveis na tradução portuguesa. Possessão – Uma História de Amor de A. S. Byatt é um deles. Escrito em 1990 [será?], foi distinguido com o Man Booker Prize [o grupo Man, plc só começou a patrocinar o Booker Prize desde 2003] no mesmo ano. Mas só agora foi traduzido do inglês.»
Mistério insondável? Porquê? Tratar-se-á de uma ironia, em tom de ferroada, ao editor português, que em boa hora se lembrou de colmatar esta lacuna no mercado livreiro de língua portuguesa? Ou será um puxão de orelhas a todo o meio editorial nacional pela falta de sensibilidade na escolha das obras estrangeiras a editar no nosso país?
Ora, em quase 40 anos de Booker Prize (1969-2007), foram premiadas cerca de 41 obras de ficção, das quais 26 foram editadas em português europeu e 15 não mereceram essa atenção – destas 15 há quatro obras posteriores a Possessão de A.S. Byatt: é o caso das obras vencedoras em 1991, 1992, 1994 e 1995, respectivamente, The Famished Road de Ben Okri; Sacred Hunger de Barry Unsworth; How Late It Was, How Late de James Kelman; e The Ghost Road de Pat Barker. Curiosamente, esta última foi nomeada, em conjunto com mais 5 obras de outros tantos escritores vencedores do Booker, para a eleição aberta ao público em geral para o prémio “The Best of the Booker Prize” a propósito da comemoração dos seus 40 anos de existência. Neste caso e naqueles termos, estamos perante um mistério ainda mais insondável, sabendo que a escritora inglesa (n. 1943) conta já com duas das suas onze obras de ficção editadas em português, nenhuma das quais pertence ao grupo das suas três (incluíndo The Ghost Road) que foram contempladas com prémios literários.

Mas o verdadeiro problema do mercado editorial português, se nos abstivermos do critério do potencial êxito comercial, normalmente associado a obras de qualidade duvidosa, está nos autores que jamais viram as suas respectivas obras penetrarem no mercado luso, embora sejam internacionalmente reconhecidos por diversos méritos estritamente relacionados com a questão literária; ou naqueles de reconhecidíssimo mérito cuja obra completa editada na nossa língua está muito longe de ser alcançada.
Há cerca de um mês elaborei uma listagem, que ficou no segredo dos meus ficheiros pessoais, que incluía 50 obras fundamentais de 10 autores norte-americanos2 que jamais viram a luz do dia (ou o negro tipográfico) na língua de Camões (embora algumas tenham sido editadas em português do Brasil). Após a realização daquele empreendimento e por mera coincidência, uma semana bastou para a lista passar da sua configuração de 10/50 para 10/49, uma vez que a editora portuense Civilização acabara de lançar no mercado uma das obras referenciadas na dita lista, Regressa, Coelho (Rabbit Redux, 1971) de John Updike. E até sei que, pelas mãos da editora acossada pela publicação da obra de Byatt, a cifra passará, em breve, para 10/48, já que se prevê a edição da obra-prima de um dos mestres da literatura contemporânea: Underworld (1997) de Don DeLillo. Será, da mesma forma, um empreendimento volumoso e/ou um mistério insondável?
A ver vamos.


Notas:

  1. Antes de Possessão, já se encontravam editados em Portugal um romance e um conto de A.S. Byatt: A Fábula do Biógrafo (ed. port. Temas e Debates, 2003; The Biographer’s Tale, 2000) e, curiosamente, um conto de fadas extraído do romance Possessão (ed. port. Sextante, pp. 67-77), chamado O caixão de vidro (ed. port. Tempus, 1997; The Glass Coffin incluído na colectânea de contos da autora The Djinn In The Nightingale's Eye, 1994).
  2. Autores referenciados na lista pessoal: John Barth (1930), Donald Barthelme (1931-1989), Saul Bellow (1915-2005), Don DeLillo (1936), Vladimir Nabokov (1899-1977), Thomas Pynchon (1937), Philip Roth (1933), Norman Rush (1933), John Updike (1932) e David Foster Wallace (1962).

terça-feira, 27 de maio de 2008

Eu fiz um filme sobre África...

«I had a farm in Africa at the foot of the Ngong Hills.»

Sydney Pollack

Sydney Pollack
(1 de Julho de 1934 – 26 de Maio de 2008)


Não, não preciso falar de O Nosso Amor de Ontem (The Way We Were, 1973), do soberbamente dirigido Tootsie (1982), de Os cavalos também se abatem (They Shoot Horses, Don't They?, 1969), de Os Três Dias de Condor (Three Days of the Condor, 1975) ou do excelente remake do melodrama de 1954 do gigante Billy Wilder, Sabrina (1995) com Julia Ormond e Harrison Ford (com a espinhosa tarefa de personificar papéis outrora atribuídos por Wilder a gigantes como Humphrey Bogart, Audrey Hepburn ou William Holden), basta-me-ia um, um filme apenas para o deixar para sempre no meu mui privado Olimpo cinematográfico (forte apelo do meu lado lamechas): África Minha (Out of Africa, 1985) – adaptação de três obras autobiográficas de escritora dinamarquesa Karen Blixen (então sob o pseudónimo de Isak Dinesen), com as soberbas interpretações de Meryl Streep, Robert Redford e de Klaus Maria Brandauer, vencedor de 7 Óscares da Academia, 3 Globos de Ouro e de 3 BAFTA.


Para além das suas aparições, quase sempre secundárias, como actor, ele dirigiu os melhores: Paul Newman, Robert Redford, de Dustin Hoffman a Harrison Ford, de Jane Fonda, Meryl Streep a Nicole Kidman, de Burt Lancaster ou Robert Mitchum a Al Pacino ou Sean Penn.


Deixo-vos com uma das cenas mais memoráveis da História do cinema, para além da fotografia, divinizada pela excepcional banda sonora de John Barry (volume de som bem alto, por favor):



«Denys will like that. I must remember to tell him.»

segunda-feira, 26 de maio de 2008

Eu queria encontrar aqui ainda a terra [pub]

Estreia da nova peça do Projéc~, desta vez numa produção do TMG para a Câmara Municipal da Guarda e o Centro de Estudos Ibéricos. O quinto trabalho da estrutura de produção teatral do TMG intitula-se Eu queria encontrar aqui ainda a terra, e tem por base os textos de manuel a. domingos e António Godinho sobre os universos de Vergílio Ferreira e Eduardo Lourenço.

A peça, para maiores de 12 anos e com encenação, dramaturgia, cenografia e figurinos de Luciano Amarelo, estreia a 28 de Maio no TMG, ficando em cena no Pequeno Auditório até dia 30 deste mês, com sessões às 21.30 horas.

Komakino

Ian CurtisExcelente texto do Pedro Mexia sobre o “para além da melancolia” que caracterizou a (curta) vida da Ian Curtis (1956-1980).
Ian jamais foi um melancólico, a sua índole era mais complexa, e dificilmente explicável pelas suas origens, por haver sido um produto da classe média suburbana da Manchester. Embora desde cedo houvesse demonstrado a sua necessidade de libertação das amarras de uma vida rotineira reverberada pelos seus pais e amigos, para uma vida independente onde pudesse dar vida às suas pulsões: confusas, entrecruzadas. Libertadas em letras maiúsculas, sempre em maiúsculas, no seu caderno preto.
O
Pedro Mexia refere-se aos sete pecados capitais, retirados das palavras de Jon Savage apensas à reedição do primeiro álbum dos Joy Division: Uknown Pleasures, 1979. Culpa, medo, raiva, claustrofobia, repulsa, ódio de si mesmo e fatalismo. Todos eles vêm reflectidos nas letras que Ian nos deixou, a que eu juntaria um oitavo, impotência, que de alguma forma apura e explicita os restantes sete, ou talvez, rivalize com a dilacerantemente percebida auto-estima nula.
O impulso corajoso da emancipação prematura, foi-se aniquilado com a necessária obediência a um ritual para pôr uma máquina a funcionar, que se foi montando à volta dele à porta de uma sala de espectáculos fechada que acabara de receber o Camaleão*.
Ian era o fulcro, a mola impulsionadora, o vórtice aglutinador do único caminho para o sucesso, e ele sentia-o como um fardo que pesava toneladas, que o arremetia para as trevas de um poço húmido e profundo.
Dando um pequeno salto histórico. Despoletou a sua epilepsia. A vizinhança da digressão para os Estados Unidos foi o catalisador de um cadinho efervescente de circunstâncias interiores rumo à catástrofe. A impotência perante um futuro antecipado como esmagador debaixo das luzes da ribalta, a conciliação entre a vida provinciana com Deborah e Natalie (n. 1979) e o arrojo de Annik, entre o prazer de compor e de escrever, e a entendida função de pedra angular de uma entourage que, sem ele, se desfaria como um castelo de cartas – como, aliás, se veio a provar: Hook, Morris e Sumner, mas também Gretton e Wilson, e por fim a própria Annik. Os Joy Division esfumaram-se numa nuvem de cinzas – tão bem fotografada por Corbijn no teledisco de Atmosphere (1988) como em Control (2007), e com o seu fim terminou para sempre um sub-estilo que não era pré-, pós-, ex-, proto-: pop, rock, punk, gótico, new wave, electrónico, garage, e por aí fora.
Depois da digressão continental nos primeiros meses de Janeiro de 1980, veio o ritmo inexorável do estúdio. Concluiu-se o segundo e último álbum do efémero grupo: Closer. O mais arcano, inexpugnável e transcendentalmente inacessível a não iniciados pela, talvez única, corrente esotérica que nasceu de geração espontânea e cujo grão-mestre morreu no momento em que aquela se erigiu no vento de Macclesfield e se difindiu pelo mundo através das ondas etéreas de uma sonoridade irrepetível.
Entre Closer e outros dispersos surgiu “Komakino”**, talvez levando à letra após uma tradução do alemão “Cinema Coma”, que foi distribuído e de forma gratuita pelas discotecas inglesas para quem o quisesse possuir em cerca de 35 mil cópias em flexi-disc (lembram-se dos singles promocionais que se dobravam como papel), sem capa. Foi em Junho de 1980, a voz cavernosa, gravada nesses milhares circulos de plástico flexível, de Ian Kevin Curtis já se havia calado na madrugada de 18 de Maio de 1980
(no seu gira-discos tinha acabado de rodar The Idiot da Iguana*).
Este é o instante em que emergem os mistérios
Uma estranheza tão difícil de entender
Um momento tão comovente que atinge em cheio o teu coração
A visão que nunca se concretizou
A atracção que lá dentro se sustém como um fardo pesado
Algo que jamais esquecerei

O padrão está definido, a reacção vai iniciar-se
Completa mas tão cedo rejeitada
Antecipando a agonia de cada lágrima
Evoca a vida que conhecêramos
A sombra que se manteve na beira da estrada
Faz-me sempre lembrar de ti

Como poderei encontrar a maneira correcta para controlar
Todos os conflitos interiores, todos os problemas expostos
À medida que surgem as perguntas e as respostas não encaixam
Na minha forma de vida
Na minha forma de vida


Ian Curtis, Komakino, Março de 1980 [versão de AMC, 2008]

Notas:
*Curiosas as presenças do Camaleão (aka David Bowie) e da Iguana (aka Iggy Pop) nos principio e fim de carreira dos JD, respectivamente. Talvez tenha sido uma das razões subconscientes que me fizeram (e me fazem) idolatrar o filme de 1998 do realizador norte-americano Todd Haynes, Velvet Goldmine. Em boa verdade a minha paixão pelos três autores musicais não conhece uma origem distinta; essa perdeu-se pelas brumas difusas das minhas reminiscências pré-adolescentes.

**Na barra direita deste blogue, até me fartar.

sábado, 24 de maio de 2008

Reciprocidade

Dispersos

Quando entrei neste mundo – há quase dois anos e meio –, o
Insónia foi dos primeiros blogues (ou weblogs, como prefere o Henrique) que me abriu as portas à curiosidade.
Vinha referenciado neste curto espaço da literatura. E por lá me fui quedando, desfrutando das manifestações do carácter do seu criador: rebelde, descomprometido, com talento, sem mesuras de confraria literária... honesto e íntegro, acima de tudo. Parabéns, meu caro Henrique.

Obrigado
Sérgio. O “Nunca Mais”, ao contrário da certeza que ostenta, é para mim uma transitoriedade. Sou consistente na minha inconsistência. Irrito-me, amuo, choro, exulto, alegro-me, esboço um sorriso, sou acometido de uma raiva incontrolável…
O meu diletantismo é a reverberação perfeita do meu comportamento errático na blogosfera. Logo, “nunca” é um quase “sempre”. Palavras que, no meu idiolecto, se tocam no radicalismo da sua semântica. Um abraço.

sexta-feira, 23 de maio de 2008

Manas Deal, de volta.


The Breeders - Mountain Battles (4AD)

Elas cantam em alemão, em espanhol e... estão mais serenas e amansadas. Só me aborrece o desperdício pela teimosia da não conjugação de esforços com aquele Gordo embirrento e irascível. E com Santiago e Lovering, claro!

Destaques prematuros (1.ª audição):

We're gonna rise // It's the Love // German Studies

Em degustação...

quarta-feira, 21 de maio de 2008

Feira do Livro do Porto [actualizado]

UEP


[Uma vontade indómita de boicotar, enquanto leitor: os grupos LeYa e Bertrand – sendo este último associado da APEL –, os editores da UEP e até a editora recentemente adquirida pelo jovem reformado Paulo Teixeira Pinto, a casa da colossal Agustina (autora do Porto, nascida em Vila-Meã em 1922), a Guimarães Editores. Não têm qualquer tipo de representação na 78.ª edição da FLP.]


Saúde-se a Gradiva e a Europa-América pelas suas posturas livres e independentes, pela coragem demonstrada perante o apelo do poderio económico de tendência eminentemente oligarca, em prol dos livros e da Literatura – já pareço o Carvalho da Silva a discursar.

Notas:
  1. Ver aqui a lista possível dos editores e livreiros com expositores na Feira do Livro do Porto, que se inicia hoje, 21 de Maio, às 15:30 no Pavilhão Rosa Mota.

  2. António Lobo Antunes irá estar presente no próximo dia 24, pelas 19:30, no Café Literário para uma sessão de autógrafos, ao arrepio da atitude inqualificável dos responsáveis da editora que publica os seus livros. Oxalá José Luís Peixoto e Gonçalo M. Tavares se conseguissem demarcar, de igual modo, das suas editoras, Bertrand e Caminho (LeYa), respectivamente.

Elo, Entrelinhas & Alucinações [pub]

No próximo dia 23 de Maio, sexta-feira às 21:30, na Livraria Gato Vadio, no Porto, será apresentando o livro Elo, Entrelinhas & Alucinações, do autor mineiro Daniel Ricardo Barbosa.

A apresentação estará a cargo dos responsáveis pela edição transatlântica, Vítor Vicente (
Editora Canto Escuro) e Cristiane Pasquini (Editora O Clássico), e Jorge Velhote.

Livraria Gato Vadio
Rua do rosário, 281
Porto

terça-feira, 20 de maio de 2008

Entre leituras

Talvez o tenha assumido de uma forma implícita, quando no final do mês passado decidi dar a estocada final no blogue que vinha mantendo havia mais de um ano e meio; mas a irregularidade de actualização que me impus com a criação deste libertou-me de uma tarefa que, apesar de estar longe de um imposição exógena emanada de uma autoridade palpável ou de uma endógena, desdobrável e infame entidade subconsciente, que comandasse a minha vida fora dos momentos de lazer – ou na oportunidade de obtenção desses mesmos momentos –, me consumia uma parte considerável do recurso tempo.
Falo, é claro, das notas de prova dos livros publicados durante o ano corrente que iam passando pelos meus olhos, e com isso, acreditem, sem o pretensiosismo de dirigir a leitura dos poucos que me liam – e há, felizmente, instrumentos metabloguísticos que permitem aferir dessa regularidade leitora –, mas mais como uma necessidade de libertar as minhas pulsões literárias através das leituras que ia fazendo: o critério “ano de edição” apenas restringia a incomensurável área sobre que poderia estabelecer as minhas divagações – nunca recensões ou pequenas exegeses de carácter quase científico, a minha formação é outra, bastante diversa da literatura, strictu sensu, e, acima de tudo, as minhas notas poderiam ser entendidas como usurpação do trabalho alheio, aliás bem remunerado, apesar do incondicional amor decretado, quase que excluindo o vil metal da razão de ser da actividade exercida.
Aqui – entenda-se todo espaço físico que, com o meu único objectivo de válvula de escape, ocupo ou ocupei na blogosfera – apenas procurei emitir as minhas notas de leitura: simples opiniões, acopladas de um qualificativo (quantitativo ou numérico-estelar, coadjuvado por uma escala discreta qualitativa: do mau à obra-prima). Curiosamente, valeram-me alguns deslincamentos, a forma mais ignóbil de tratamento do outro na blogosfera, porque mesquinha, pela calada e sem qualquer justificação ou intenção de, pelo menos, prestar uma curta explicação, pública ou privada.
Em suma, toda a verborreia acima materializada, para dizer que com o “Nunca Mais”, acabou a secção classificativa dos livros editados durante o ano, em permanente actualização. Falarei apenas sobre aqueles que me apetecer, obedecendo, única e exclusivamente, e uma vez mais, ao ano de edição, que no presente é o de 2008. No final do ano – se ainda por cá gravitar – divulgarei a lista de preferências.

Dada a extensão do texto anterior, insignificante e estéril, já não me sobra muito espaço – aqui definido paradoxalmente pelo tempo disponível para a escrita – para falar de oito livros editados em 2008 que me acompanharam nos meses de Abril e Maio (por ordem de leitura, sempre entremeados com livros editados em anos anteriores – trata-se de uma regra basilar que imponho à actualização das novidade editoriais):

  • John Updike, Regressa, Coelho (Civilização; Rabbit Redux, 1971);
  • W.G. Sebald, Campo Santo (Teorema; Campo Santo, 2003);
  • Mircea Eliade, Uma Segunda Juventude (Bico de Pena; Le temps d’un centenaire, 1981);
  • Enrique Vila-Matas, Exploradores do Abismo (Teorema; Exploradores del abismo, 2007);
  • Adolfo Caminha, Bom Crioulo (Palimpsesto; 1895);
  • Robert Musil, O homem sem qualidades, Vol’s I e II (Dom Quixote; Der Mann ohne Eigenschaften, 1930-1942);
  • Eduardo Halfon, O anjo literário (Cavalo de Ferro; El ángel literario, 2004);
  • Albert Sánchez Piñol, Pandora no Congo (Teorema; Pandora al Congo, 2005).

O último da lista foi terminado ontem (hoje), às 2:30 da madrugada, e depois de à meia-noite ter ficado estabelecido que apenas o terminaria hoje. Albert Sánchez Piñol escreveu, uma vez mais – depois do soberbo A Pele Fria (ed. port. Teorema, 2006; La pell freda, 2002) – um livro (o seu segundo) excepcional. Este antropólogo barcelonês de 43 anos é um caso de sucesso e de eminência literárias em Espanha – qualificativos que ultimamente costumam ser mutuamente exclusivos. A sua prosa, mesmo para quem – como eu – não é especial adepto de livros de aventuras, é enleante, segura, audaz e arrebatadora (ler as curtas linhas que escrevi no extinto Porque sobre um dos melhores romances, senão mesmo o melhor, editados em Portugal no ano de 2006, A Pele Fria).

Mas sobre Pandora no Congo, O homem sem qualidades, Uma segunda juventude, O Anjo literário e talvez Os Exploradores do Abismo, tentarei falar em conjunto ou em separado nos próximos textos deste blogue.

Tempo e pachorra.

Por agora, enquanto leio Hölderlin e Michaux, ando a esquadrinhar Possessão, obra-prima da autora inglesa A.S. Byatt (n. 1936) – felizmente, sem haver sofrido a possível contaminação do filme de 2002 de Neil LaBute, com Gwyneth Paltrow e Aaron Eckhart –, editado pela primeira vez entre nós pela ainda púbere, porém já de uma qualidade superior ao lixo dos conglomerados, editora Sextante, que mereceu estas linhas lacónicas na última edição da revista Ler: «Empreendimento no mínimo volumoso, acaba de sair Possessão. Uma História de Amor, Booker Prize de 1990 (edição Sextante) – com tradução de António Pescada.» (pág. 15)