domingo, 17 de fevereiro de 2008

Público – Cahiers du Cinéma

Na passada sexta-feira, esquadrinhei uma boa meia dúzia de estabelecimentos tentando encontrar o jornal Público que iniciava uma colecção de livros, que se estenderá por 25 semanas (até 1 de Agosto deste ano), editados por umas das mais famosas publicações de cinema mundiais: a Cahiers du Cinéma (fundada em 1951 pelo trio Jacques Doniol-Valcroze, André Bazin e Lo Duca).
Trata-se da colecção “Grandes Realizadores” (originalmente, Grands Cinéastes), que o jornal francês Le Monde iniciou a 8 de Setembro passado, havendo terminado ontem com a curta biografia do cineasta russo Serguei Eisenstein e um DVD com o documentário exibido postumamente Que Viva México! e o filme O Couraçado Potemkine.
Por cá, o Público decidiu publicar 25 livros e respectivos DVD, escolhendo outras tantas personalidades da vida cultural nacional, de certa forma ligadas ao cinema, para que cada uma escrevesse uma brevíssima introdução ao cineasta supostamente escolhido. Como os títulos dos filmes diferem da edição francesa, presumo que, após a alocação de um realizador a uma personalidade, tenha havido liberdade de escolha do filme a editar em cada sexta-feira (e supostamente, evitados alguns problemas de direitos de autor que poderiam haver interferido na escolha final).
Relativamente à edição francesa (24 livros e DVD), a portuguesa acrescenta mais uma semana à dita colecção (25 livros e DVD), diferindo na inclusão de alguns nomes: Buster Keaton, Michelangelo Antonioni, Woody Allen e Manoel de Oliveira não fazem parte da edição francesa, assim como Clint Eastwood, Luis Buñuel e Pedro Almodóvar da portuguesa – um mero acaso ou alguma hispanofobia e mais ventos e casamentos?
Uma nota final apenas para a ausência de alguns realizadores, cujos gigantismo e contributo para o engrandecimento da 7.ª Arte me induziram a um estado de estranheza, para não empregar a carregadíssima estupefacção. Falo, por exemplo, e sem procurar ser exaustivo – já sei que vou deitar as mãos à cabeça por alguns esquecimentos imperdoáveis –, de nomes como: Hitchcock, Visconti, John Ford, Hawks, Pasolini, Rohmer, Kazan ou Cassavetes, e muitos outros (cá está a ressalva). Sei, no entanto, que a edição foi limitada a 25 e que a publicação francesa não dispõe de textos biográficos ilimitados; todavia considero que qualquer um dos 8 nomes acima referidos poderia ocupar, por troca imediata, 4 das 25 posições da colecção definitiva (abstenho-me a nomear quais).

Eis a lista completa da colecção do Público “Grandes Realizadores” – Cahiers du Cinéma (todas as sextas-feiras, de 15 de Fevereiro a 1 de Agosto de 2008) e respectivo “padrinho”:

  • 15-02-2008 – Charlie Chaplin, O Imigrante (The Immigrant, 1917), O Campeão (The Champion, 1915); À Beira-Mar (By the Sea, 1915); O Polícia (Police, 1916); O Ringue de Patinagem (The Rink, 1917) – Manoel de Oliveira
  • 22-02-2008 – Steven Spielberg, Relatório Minoritário (Minority Report, 2002) – Mário Augusto
  • 29-02-2008 – Martin Scorsese, Touro Enraivecido (Raging Bull, 1980) – Rodrigo Guedes de Carvalho
  • 07-03-2008 – Sergio Leone, O Bom, o Mau e o Vilão (Il buono, il brutto, il cattivo; 1966) – Baptista-Bastos
  • 14-03-2008 – Federico Fellini, Roma (1972) – Nuno Artur Silva
  • 21-03-2008 – Tim Burton, Eduardo Mãos de Tesoura (Edward Scissorhands, 1990) – Pedro Marta Santos
  • 28-03-2008 – Francis Ford Coppola, Apocalypse Now (redux) (1979) – Jorge Leitão Barros
  • 04-04-2008 – Jean-Luc Godard, Bando à Parte (Bande à part, 1964) – Manuel S. Fonseca
  • 11-04-2008 – Woody Allen, Match Point (2005) – Herman José
  • 18-04-2008 – Ingmar Bergman, A Máscara (Persona, 1966) – Vasco Graça Moura
  • 25-04-2008 – David Lynch, Veludo Azul (Blue Velvet, 1986) – Luís Miguel Oliveira
    02-05-2008 – François Truffaut, A Noiva Estava de Luto (La mariée était en noir, 1968) – Leonor Silveira
  • 09-05-2008 – Akira Kurosawa, Kagemusha – A Sombra do Guerreiro (Kagemusha, 1980) – António-Pedro Vasconcelos
  • 16-05-2008 – Fritz Lang, O Testamento do Dr. Mabuse (Das testament des Dr. Mabuse, 1933) – Mário Jorge Torres
  • 23-05-2008 – Roberto Rosselini, Viagem a Itália (Viaggio in Italia, 1954) – João Mário Grilo
  • 30-05-2008 – Buster Keaton, Pamplinas Maquinista (The General, 1927) – Nuno Markl
  • 06-06-2008 – Andrei Tarkovsky, O Sacrifício (Offret, 1986) – José Matos Cruz
  • 13-06-2008 – Billy Wilder, O Apartamento (The Apartment, 1960) – Beatriz Pacheco Pereira
  • 20-06-2008 – Jean Renoir, A Grande Ilusão (La grande illusion, 1937) – Mário Dorminsky
  • 27-06-2008 – Orson Welles, O Quarto Mandamento (The Magnificent Ambersons, 1942) – Marcelo Rebelo de Sousa
  • 04-07-2008 – Kenji Mizoguchi, O Conto dos Crisântemos Tardios (Zangiku monogatari, 1939) – Paulo Rocha
  • 11-07-2008 – Stanley Kubrick, Horizontes de Glória (Paths of Glory, 1957) – José Pacheco Pereira
  • 18-07-2008 – Serguei Eisenstein, O Couraçado Potemkin (Bronenosets Potyomkin, 1925) – João Botelho
  • 25-07-2008 – Michelangelo Antonioni, O Eclipse (L'Eclisse, 1962) – Clara Ferreira Alves
  • 01-08-2008 – Manoel de Oliveira, Vale Abraão (1993) – João Bénard da Costa

sábado, 16 de fevereiro de 2008

O Fazedor de Gigantes

Paul Thomas Anderson

Paul Thomas Anderson

(nasceu a 26 de Junho de 1970, na definitivamente sugestiva Studio City, Califórnia.)

Silberner Bär - Beste Regie (Berlinale 2008)
[Urso de Prata para a Melhor Realização - Festival de Cinema de Berlim 2008]

Júri internacional: Costa-Gavras (presidente); Uli Hanisch; Diane Kruger; Walter Murch; Alexander Rodnyansky; Shu Qi

Nota: Jonny Greenwood (Radiohead) venceu o Urso de Prata pela Melhor Contribuição Artística, ou seja, pela excelente e angustiante BSO para Haverá Sangue.

O Gigante

James Dean em O Gigante

James Dean, O Gigante

George Stevens' Giant (1956)

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

Gigantes

Daniel Day-Lewis em Haverá Sangue (P.T. Anderson)
Alertado, sugestionado, é certo. Porém, a minha memória, que aqui e ali vai dando sinais de fraqueza, não consegue, por muito que se excite, fazer estremecer uma convicção hoje firmemente formada: o que Daniel Day-Lewis fez com Daniel Plainview em Haverá Sangue (There Will Be Blood, 2007) de Paul Thomas Anderson é exemplarmente inalcançável; é inspiração sem esforço, genialidade inata; é a arte da representação cinematográfica levada ao paroxismo da perfeição.
Faço o tal esforço de memória, elaboro uma listagem rápida, recorro à minha videoteca, dou início a uma pequena pesquisa às bases de dados cinematográficas existentes no ciberespaço, mas não, não encontro par – nos últimos vinte anos, talvez Anthony Hopkins com o seu Hannibal Lecter em O Silêncio dos Inocentes (The Silence of the Lambs, 1991) de Jonathan Demme, embora aqui a própria excentricidade do personagem haja contribuído, ao arrepio da aparência de dificuldade, para a singularidade do desempenho.

P.T. Anderson é, uma vez mais, magistral. Sem grandes malabarismos de realização e truques de pirotecnia típicos de um género em rápida proliferação, um impostor aspirante a cineasta de culto – cabe ao público criar o mito, que se sustenta pelas integridade e coerência artísticas do sujeito venerado –, conta-nos uma parábola negra, bárbara e intemporal, que, contudo, assombra pela sua conformação à realidade contemporânea.
Sem se tornar panfletário (à laia de Clooney, Redford e Penn) ou messiânico (à boa maneira de Iñárritu), Anderson consegue abordar em tom de fábula o actual revigoramento do fundamentalismo religioso, por um lado, e a cupidez e o materialismo desenfreados, por outro, que vão abrindo brechas irreparáveis num dos pilares fundamentais da natureza humana, essa, a sua condição, de um ser eminentemente gregário: a coexistência pacífica e simbiótica entre povos, raças e culturas (a impossibilidade de).
Petróleo… o indisfarçável e ubíquo protagonista. O espectro que paira por sobre as cabeças celeradas dos urdidores da trama internacional.
Anderson partiu de Oil!, romance escrito em 1927 pelo famoso idealista e autor norte-americano Upton Sinclair (1878-1968). Criou personagens próprios, alterou o aparente centro da intriga (conflito entre pai conservador e filho socialista na versão de Sinclair), mas o leitmotiv está lá, inalterado, a máscara de uma história que se recria numa infinitude de cenários, numa multiplicidade de atitudes, gestos e palavras. E o que Anderson tem de mais fabuloso, demonstrado, por exemplo, de forma irrepreensível no maravilhoso Magnólia (Magnolia, 1999), é a sua destreza plástica no uso, em filme, do tom nabokoviano: a paródia, a comédia humana, a ficção como mera representação de uma realidade grotesca e risível.
E o que dizer da cena final?…

Comparar esta obra-prima com a beleza sensaborona e trapalhona de Expiação – eu sei, estou a ser falacioso, mas os prémios máximos do cinema mundial estão aí e não me consta que ambos se digladiem em diferentes categorias – é como beber Vinho do Porto feito na Austrália tendo um Quinta do Noval à mão, já servido em cálice desenhado pelo Siza em bandeja de prata. Wright abastardou a obra de McEwan, Anderson pegou na matéria-prima, seleccionou-a, deu-lhe benefício e criou um produto final com corpo, forma e alma.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

Património

Finalmente, emerge do lodaçal dos livros de auto-ajuda, dos romances históricos, da resma de livros sobre Salazar e D. Carlos, a edição portuguesa do aclamado livro de memórias de Philip Roth sobre as doença e morte de seu pai, Herman Roth.


[capa da 1.ª edição americana; vencedor do National Book Critics Circle Award em 1991 na categoria de Biografia; em Portugal será publicado pela Dom Quixote.]

Diamante

Kim Novak
Kim Novak
75 anos


(nasceu Marilyn Pauline Novak, em Chicago, a 13 de Fevereiro de 1933)

[na imagem, na pele de Madeleine Elster, ou melhor de Judy Barton, pela mão do Mestre dos mestres da História do Cinema, Alfred Hitchcock, no melhor filme de sempre Vertigo, 1958]

Apito Encravado

Por falta de tempo, por redundância de argumentação, deixo aqui ficar dois parágrafos de um artigo de MST, sem alegações e demais comentários:

«Entretanto, das célebres “revelações” do “livro” de Carolina Salgado, uma havia que parecia a mais fácil e mais urgente de investigar: a de que fora ela própria, por inspiração de Pinto da Costa, quem organizara e comandara o pelotão de linchamento que agrediu violentamente o vereador de Gondomar, Ricardo Bexiga. Era fácil de investigar porque, inadvertidamente, a testemunha fatal se incriminara a si própria, na ânsia de incriminar Pinto da Costa; e urgente, porque se tratava do mais grave dos crimes arrolados em todo o processo. É verdade que, ao entrar nos detalhes da operação, a história dela começava logo a não bater certa: disse que, por precaução, haviam destruído previamente as câmaras de vigilância do parque de estacionamento onde a agressão teve lugar, mas não teve o cuidado de confirmar se o parque tinha câmaras de vigilância – não tinha. Mas, mesmo que desta mentira circunstancial resultasse a crença na mentira de toda a história, não se compreende como é que o Ministério Público não a acusou por crime de falsas declarações e denúncia caluniosa.
Pelo contrário, o Ministério Público, escudando-se na falta de provas, acaba de determinar o arquivamento do processo. Ou seja: a testemunha-chave do Ministério Público merece credibilidade quando acusa Pinto da Costa, mas já não a merece quando se acusa a si própria. E assim se resolve o problema de poder manter como testemunha-chave alguém que deveria figurar como arguida num outro processo e por crime mais grave.»
Miguel Sousa Tavares, “Apito Encravado”, A Bola, 12/02/2008


Nota: É também isto, Francisco, uma agressão confessada que fica impune.

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008

BAFTA 2008


Eis os prémios da British Academy of Film and Television Arts (BAFTA) de 2008, acabadinhos de entregar na London’s Royal Opera House (na imagem, o grande vencedor da noite):

4 Prémios
La Vie en Rose / La Môme (de Olivier Dahan)

Actriz – Marion Cotillard
Caracterização
Guarda-Roupa
Música (BSO – Anthony Asquith Award) – Christopher Gunning

3 Prémios
Este País Não É para Velhos / No Country for Old Men (de Joel e Ethan Coen)

Actor Secundário – Javier Bardem
Fotografia
Realização (David Lean Award) – Joel e Ethan Coen

2 Prémios
Expiação / Atonement (de Joe Wright)

Filme
Planeamento de Produção

Ultimato / The Bourne Ultimatum (de Paul Greengrass)
Montagem
Som

1 Prémio
A Bússola dourada / The Golden Compass (de Chris Weitz)

Efeitos Especiais

Control (de Anton Corbijn)
Revelação/Estreia (Carl Foreman Award) – Matt Greenhalgh (argumentista)

O Escafandro e a Borboleta / Le scaphandre et le papillon (de Julian Schnabel)
Argumento Adaptado – Ronald Harwood

Haverá Sangue / There Will Be Blood (de Paul Thomas Anderson)
Actor – Daniel Day-Lewis

Juno (de Jason Reitman)
Argumento Original – Diablo Cody

Michael Clayton – Uma Questão de Consciência / Michael Clayton (de Tony Gilroy)
Actriz Secundária – Tilda Swinton

Ratatui / Ratatouille (de Brad Bird)
Filme de Animação

This is England (de Shane Meadows)
Filme Britânico (Alexander Korda Award)

As Vidas dos Outros / Das Leben der Anderen (de Florian Henckel von Donnersmarck)
Filme em Língua Não-Inglesa

domingo, 10 de fevereiro de 2008

DFW

«Se nunca choraste e o queres fazer, tem um filho. Partirá o teu coração por dentro, é isso que te fará, um filho, é a canção pungente que o Papá ouve novamente, como se a própria cantora estivesse ali com ele, a olhar para baixo para o que eles tinham feito, se bem que horas depois o que o Papá não conseguirá perdoar a si mesmo é o desejo tão forte que teve de fumar naquele instante em que envolviam o filho o melhor possível, em gaze e duas toalhas das mãos cruzadas a fazer de fralda».
David Foster Wallace, “Encarnação de uma geração queimada”, Geração Queimada da América (Bico de Pena, 2008, pág. 95; trad. Tânia Ganho).

If you've never wept and want to, have a child. Break your heart inside and something will a child is the twangy song the Daddy hears again as if the lady was almost there with him looking down at what they've done, though hours later what the Daddy won't most forgive is how badly he wanted a cigarette right then as they diapered the child as best they could in gauze and two crossed handtowels».
David Foster Wallace, “Incarnations of Burned Children”, Esquire, November, 2000.]

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008

Severin

Um mal que não se expurga. Letras indelevelmente gravadas no passaporte. Nacionalidade: portuguesa.
Este país faz-me mal, fustiga-me sem piedade. E é nessa implacabilidade sem remorso que martiriza os seus filhos. Uma coisa assim não é pátria. É um mecanismo intrincado de tortura, matreiro sugador de sangue, que nos morde pelo seu fado, soturno, melancólico e atormentado.
Quero sair. Exilar-me. Mas não me deixam. Não posso… não quero!
Vá, fustiga-me com o teu chicote infecto.
Sou Severin, puro, indefeso e sórdido, que agora se mutila com a tua língua.
És Wanda, mátria, corrupta, leonina… castigadora, benevolente, porém iníqua.

Vénus em peles

Cintilantes, cintilantes, cintilantes botas de couro
Rapariguinha fustigada no escuro
Ao teu sinal vem, o teu servo, não o abandones
Bate-lhe, querida mestra, e cura-lhe o coração

Pecados felpudos das fantasias à luz da rua
Procura os trajos que ela irá vestir
Peles de arminho adornam a dominadora
Severin, Severin lá te espera

Estou cansado, estou exausto
Poderia dormir por mil anos
Mil sonhos que me fariam despertar
Diferentes cores feitas de lágrimas

Beija as botas de couro, couro cintilante
Couro cintilante no escuro
Língua de fitas de couro, o cinto que te espera
Bate-lhe, querida mestra, e cura-lhe o coração

Severin, Severin, fala tão delicadamente
Severin, põe-te de joelhos
Saboreia o chicote, amor não dado sem queixume
Saboreia o chicote, agora suplica

Estou cansado, estou exausto
Poderia dormir por mil anos
Mil sonhos que me fariam despertar
Diferentes cores feitas de lágrimas

Cintilantes, cintilantes, cintilantes botas de couro
Rapariguinha fustigada no escuro
Severin, o teu servo vem ao teu sinal, por favor não o abandones
Bate-lhe, querida mestra, e cura-lhe o coração


Venus in Furs, letra de Lou Reed (The Velvet Underground and Nico, 1967) [versão: AMC, 2008]

Agora, a música hipnótica de Reed, Cale, Morrison & Companhia:


Grande puta.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

Miss Congeniality

A Arquivadoria… perdão, a Procuradoria-Geral da República representada pela equipa especial da Super Magistrada MJM, especialmente atenta aos furacões do mundo do futebol, decidiu arquivar o inquérito relativo às agressões perpetradas por desconhecidos contra o vereador da Câmara de Gondomar Ricardo Bexiga em pleno parque da Alfândega em 25 de Janeiro de 2005.

Já agora, que se me permita a formulação de uma ingénua pergunta:
Mas, então, não houve uma emergente escritora – o vórtice aglutinador de todas as simpatias da Procuradoria, do Correio da Manhã (Cofina), da Dom Quixote e da mais fina nata artístico-opinativa lisboeta – que confessou, sem que fosse alegada falta ou vício na formação da vontade, haver ordenado a um conjunto de caridosos capangas uma valente tareia no dito vereador?

Com este arquivamento, passou-se, assim e sem qualquer tipo de decoro ou honradez, um certificado de legitimidade irrevogável à tão lusa impunidade.


Meus caros, este país é uma vergonha!

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

Ler devagar...

…e saborear cada palavra:

«Mrs Gereth had said she would go with the rest to church, but suddenly it seemed to her that she should not be able to wait even till church-time for relief: breakfast, at Waterbath, was a punctual meal, and she had still nearly an hour on her hands. Knowing the church to be near, she prepared in her room for the little rural walk, and on her way down again, passing through corridors and observing imbecilities of decoration, the æsthetic misery of the big commodious house, she felt a return of the tide of last night’s irritation, a renewal of everything she could secretly suffer from ugliness and stupidity. Why did she consent to such contacts? why did she so rashly expose herself? She had had, heaven knew, her reasons, but the whole experience was to be sharper than she had feared. To get away from it and out into the air, into the presence of sky and trees, flowers and birds, was a necessity of every nerve. The flowers at Waterbath bath would probably go wrong in colour and the nightingales sing out of tune; but she remembered to have heard the place described as possessing those advantages that are usually spoken of as natural. There were advantages enough it clearly didn’t possess. It was hard for her to believe that a woman could look presentable who had been kept awake for hours by the wallpaper in her room; yet none the less, as in her fresh widow’s weeds she rustled across the hall, she was sustained by the consciousness, which always added to the unction of her social Sundays, that she was, as usual, the only person in the house incapable of wearing in her preparation the horrible stamp of the same exceptional smartness that would be conspicuous in a grocer’s wife. She would rather have perished than have looked endimanchée
Henry James, The Spoils of Poynton (1897; ed. Oxford World's Classics, 2000, p. 1)

(E tudo isto a propósito do temperamento e dos gostos pessoais na avaliação de uma obra literária. Tão maneirista, pedante e aristocrata, e no entanto um dos melhores de sempre – o Mestre.)

Apesar do carácter retórico da pergunta, Sérgio, ensaio uma resposta: claro que é.
A nossa (deles, americanos) estimável Michiko é insuportavelmente feminista e misândrica, maniqueísta, cultora do ódio de estimação (que o digam Roth ou Mailer, este último num qualquer tipo de manifestação ectoplásmica), talvez induzida pela soberba do legado para o mundo literário de uma marca própria; porém, sabe de literatura e de como se constrói uma recensão, disseca, por vezes com um excesso de minúcia, as obras analisadas. É irritante e de crítica na maioria das vezes criticável (pleonasmo propositado, não sei por que carga de água...), mas irrepreensível no rigor – não é por acaso que já venceu um Pulitzer pela carreira de recenseadora.
A nossa (e aqui, infelizmente, o possessivo assenta-nos bem) Dóris Graça Dias é a imagem do país. E porque é nele que temos de viver, onde um simples texto de lamentação, ao invés de agir como agente preventivo para um comportamento desprezível, é normalmente visto como uma apologia, então fiquemo-nos pelos adjectivos que, de forma inexorável, a ele se agarram como lapas às rochas: pequenino, mesquinho, invejoso e, sobretudo neste caso, oportunista – o velho hábito luso do massacre, constante e sem piedade, do debilitado –, um imenso viveiro para a ostentação, para o snobismo grosseiro (ver etimologia, sine nobilitate).

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008

Joycianismos

Rui Santos (o enfarpeladoximoro gælusofutebolutocrata) responde à flash interview, citando, no muito seu entaramelado e, por vezes, silente e frenético estilo expositivo – lá está, as gravatas são os olhos da alma… como? –, a melhor caracterização de Finnegans Wake:

«O Ulisses paira acima dos restantes escritos de Joyce, e em comparação com a sua nobre originalidade e rara lucidez de pensamento e estilo, o infeliz Finnegans Wake não é mais do que uma massa insípida e informe de falso folclore, um empadão frio, um ressonar que nunca mais acaba no quarto do lado, o que ainda piora mais as coisas para quem sofre de insónia como eu [e, já agora, eu, atente-se na hora]. Além disso, sempre detestei a literatura regional, cheia de anciãos esquisitos e pronúncias imitadas. A fachada de Finnegans Wake dissimula um prédio de apartamentos muito convencional e sem cor, e só os raros bocadinhos de entoações celestiais o redimem duma insipidez gritante. Sei que vou ser excomungado por este pronunciamento.»
Vladimir Nabokov, Opiniões Fortes, pp. 95-96 (entrevista dada ao Wisconsin Studies of Contemporary Literature em Setembro de 1966, publicada no Vol. III, n.º 2 (1967) da revista).


Pergunta da semana:
«Será que Sepsis e Tiuí, o primeiro um vocábulo patologicamente putrefacto e o segundo uma onomatopeia ornitológica, irão ser úteis ao enriquecimento lexical no futebol português?»
(respostas para o e-mail do programa)

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

Repugnância

Convencionou-se, de forma tácita, que Tim Burton é um bom crachá para alardear uma certa intelectualidade cinematográfica. Não gostar de Burton é não gostar de cinema. Não ver os seus filmes fará, com toda a certeza, acusar uma certa dose de filistinismo no balão da altivez cultural. Em claro paradoxo metafórico, criminoso é aquele que, perante o largo espectro de recursos cinematográficos empregados, potenciados por uma mente imaginosa corporizada numa imensa e cara fábrica de ilusões, não se deixa inebriar por tamanho esforço artístico e tal arrojo estético.
Para ser sincero – e com alguma pena minha, porque é precisamente a dura ausência de alguém que o idolatrava o (um dos) leitmotiv deste blogue –, Tim Burton nunca me convenceu: ele é muito fogo-de-artifício, muita cor e malabarismos de câmara, um desmesurado exibicionismo do grotesco e do macabro, os finais ribombantes, apoteóticos e cataclísmicos, como expressão máxima da sua extravagância imagética. É, em suma, recorrendo à fisiologia e a um pequeno motejo semântico, o paroxismo fílmico da pirotecnia plasmático-fluidal.

O Sweeney Todd de Burton baseia-se num musical da Broadway de 1979 (Sweeney Todd, the Demon Barber of Fleet Street) criado por um dos mais icónicos compositores americanos dessa vertente das artes do palco, Stephen Sondheim.
Na origem do sucesso de Sondheim está a obra criada na primeira metade do século XIX e inicialmente publicada em folhetins num dos pasquins fundados pelo editor britânico Edward Lloyd – os famosos penny dreadful –, que contratou à peça um tal de Thomas Peckett Prest (o putativo pai da obra).

No filme de Burton, todos cantam: Depp, Bonham-Carter (casada com Burton), Rickman e até, imagine-se, o irritante Borat. De facto é um musical, embora atípico, na medida em que se desvia do arquétipo cénico dos grandes e vetustos musicais de Hollywood.
Ao contrário da opinião da maioria da crítica e dos nomeadores profissionais que integram a chusma de sessões de atribuição de prémios que se realiza por esta altura, que exageram na sua eloquência encomiástica, considero perfeitamente mediana a interpretação dos trechos de diálogo e de monólogo cantados. Tentando, de forma falaciosa, comparar o incomparável, basta que apenas nos recordemos do último filme de Christophe Honoré, As Canções de Amor (Les chansons d’amour, 2007), e da excelência interpretativa do jovem elenco.

Porém, é no exibicionismo gore que Burton perde em toda a linha. A crua e gratuita explicitação da violência, assim como a subentendida – como exemplo a mera sugestão de canibalismo via ingestão de empadas de carne, que, a propósito, passou a substituir a de gato com a chegada de Sweeney Todd –, é de presença assídua do princípio ao fim do filme, embora essa gratuitidade siga um processo gradual de intensificação que culmina numa orgia de ossos, miolos, entranhas e sangue. E se, em termos gerais, a plástica contemporânea da violência no cinema não é susceptível de fazer retinir as minhas campainhas da denominada licenciosidade artística, já a inexorável tendência górica ou gótica nas artes visuais deixa-me completamente nauseado. Não lhe vislumbro uma finalidade, mesmo que meramente estética. É gratuita. É pura pornografia. Nada deve à arte. Mesmo que, enquanto se esquarteja, se assista a uma fabulosa representação vocal de uma ária de Mozart ou de um lied de Schubert.
Johhny Depp e Helena Bonham-Carter são dois excelentes actores.
John Holmes e Ilona Staller (aka Cicciolina) eram considerados os melhores no seu ofício, mas não mudaria a minha apreciação sobre a qualidade da obra se Holmes (Sweeney), enquanto sofria uma felação praticada com inigualável destreza por Ciccio (Mrs. Lovett), cantasse para a sua navalha reluzente as palavras de Sondheim «There there, my friend... / Come, let me hold you...» ao som da sua música.

É mau. Muito mau.

quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

Um silogismo...

IX
[Respigado algures]

«…outros morrem; mas eu sou / Outro; por isso não morrerei.»
Por “J. S.”


X
[Ainda por mão alheia, um comentário ao silogismo]

«Pode agradar a um rapaz. Mais tarde, aprendemos que somos esses “outros”.»
Por “C. K.” (e não, não desenha e produz roupa interior masculina.)


XI
[Oportunamente, ir-se-á falar aqui da pertinência das citações acima expostas]


Pista (para conhecedores, assunto desvelado; ocultos amores, verve do letrado):
«Fui a sombra do ampelis despenhando-se / No céu falso da vidraça; / Fui a nódoa de um tufo de cinzas – e / Vivi sempre, fluí, no céu reflectido.»
Por “J. S.”


XII
[o Outro]

Eu não sou eu nem sou o outro,
Sou qualquer coisa de intermédio:
      Pilar da ponte de tédio
      Que vai de mim para o Outro.

Mário de Sá-Carneiro, «7» (1914)

quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

Pedrada no charco

Repetem-se na televisão os debates políticos anódinos, garantidores de uma bipolaridade geométrica do espectro ideológico, para discutir a justeza das últimas afirmações sobre o estado da justiça em Portugal. Hoje à noite, na Quadratura do Círculo, iremos assistir, por um lado, a uma descomunal zurzidela em António Marinho Pinto pelos discursos (o da semana passada e o de ontem, na abertura do Ano Judicial) e explicações subsequentes sobre a impunidade e os crimes de colarinho branco em Portugal e, por outro, a um ligeiro, porém doloroso, puxão de orelhas ao Presidente da República pela pertinência do discurso também proferido ontem e no mesmo evento, embora esta última reprimenda se vá revelar de menor intensidade (em relação à zurzidela ao primeiro protagonista) para que se sobreleve a falta de legitimidade e, acima de tudo, de carácter do actual bastonário da Ordem dos Advogados – e isto pode parecer que da minha parte há uma obsessão persecutória sobre o referido programa, mas se, de uma forma incessante, o trago à colação neste espaço, isso apenas se fica a dever ao forte impacto do que aí se professa na opinião pública, que lê com alguma dificuldade a redondez do discurso político proferido nos diversos púlpitos dos órgãos de soberania nacionais.

Marinho Pinto não tem medo. Cavaco, apesar da preconizada cooperação estratégica, não se furta ao magistério de influência que os seus poderes presidenciais permitem.
O sistema de comentário político, fortemente delimitado por um dogmatismo de forma do discurso dos titulares de cargos dos órgãos de soberania, apodá-los-á de populistas e de demagogos, emitindo mensagens subliminares sobre a índole difamatória das suas afirmações, porque fogem ao cânone discursivo das falinhas mansas e da vacuidade generalista.
Ontem, na abertura do Ano Judicial, Marinho Pinto reiterou, e bem, as afirmações que havia produzido sobre a impunidade dos poderosos. Cavaco Silva, depois do excelente discurso de tomada de posse de 9 de Março de 2006, voltou a insistir na clarificação e no saneamento dos sistemas judicial e judiciário portugueses, apelando à transparência e à perceptibilidade pelos cidadãos das reformas na justiça, ao envolvimento dos actores judiciários na concepção dessas reformas e ao rigoroso escrutínio dos seus resultados.
O Presidente da República pôs o dedo na ferida, não se limitando a referir em abstracto e de forma genérica os males que enfermam a dita justiça em Portugal. Um desses males foi especialmente salientado: os expedientes dilatórios.

«A justiça não pode estar à mercê daqueles que recorrem a todos os instrumentos processuais como meio dilatório para impedir ou retardar o trânsito em julgado das decisões judiciais. O Estado de direito não pode ser refém daqueles que dispõem de maiores recursos.»

Cavaco foi além da já alertada e sentida impunidade dos poderosos na prática reiterada da corrupção e de crimes económicos e financeiros no nosso país. Referiu-se, e muito bem – embora o tenha feito de uma forma subentendida, que em nada prejudicou a inteligibilidade da mensagem –, à complacência e/ou à cumplicidade criminosa entre determinadas indivíduos com a tutela da investigação, da acção penal ou com a autoridade de proferir decisões judiciais e jurisprudenciais, envolvendo os respectivos organismos a que se encontram adstritos pelo exercício das suas funções, e um grupo de pessoas que, pela incomensurabilidade de recursos (financeiros e de acesso privilegiado aos meios de justiça por uma longa e espúria teia de relacionamentos, vulgo compadrio ou tráfico de influências) se serve da justiça para aniquilar aqueles que, de forma estrutural, jamais os possuirão ou, no caso de os possuírem, estes são-lhes incomparavelmente inferiores, de uma desproporcionalidade gritante que anula qualquer hipótese de equidade na administração da justiça.

Que, uma vez mais, não se procure transformar a pedra com que se pretende abanar o charco num irrisório e solúvel grão de areia, rápida e inexoravelmente absorvido pela sua podridão.

Os dados foram lançados. E, ao contrário da aparência reflexiva (ou de apelo à reflexão) com que a classe política sói apodar e interpretar estes efectivos gritos de alerta, criando comissões de estudo bem remuneradas que normalmente se extinguem sem resultados práticos, chegou a altura de agitar as águas que, pela tão conveniente inacção, se vão tornando cada vez mais inquinadas, fétidas e opacas, insusceptíveis de purificação num futuro próximo.
Neste momento e de forma urgente, este país necessita de uma acção firme e incisiva, sob pena de já não ter remedeio, transformando-se em definitivo e com indulgência numa oligarquia dificilmente sanável nas próximas décadas, a não ser pela força, pelo sangue, por uma revolução profunda e dolorosa, de todo não desejável, mas cuja conjectura já esteve mais longe das mentes dos denominados portugueses anónimos, o povo – a rocha.

terça-feira, 29 de janeiro de 2008

Screen Actors Guild Awards 2008

À laia de folheto informativo, eis os vencedores (apenas na categoria de Cinema) da 14.ª edição dos prémios do maior sindicato americano de actores, o Screen Actors Guild, onde apenas actores votam nos seus pares (sessão realizada na noite do passado domingo em Los Angeles, madrugada de segunda-feira em Portugal):
  • Melhor conjunto de actores (elenco): Este País Não É para Velhos (No Country for Old Men): Javier Bardem, Woody Harrelson, Tommy Lee Jones, Josh Brolin, Garret Dillahunt, Tess Harper, Kelly Macdonald;
  • Melhor Actor: Daniel Day-Lewis, Haverá Sangue (There Will Be Blood);
  • Melhor Actriz: Julie Christie, Longe Dela (Away from Her);
  • Melhor Actor Secundário: Javier Bardem, Este País Não É para Velhos (No Country for Old Men);
  • Melhor Actriz Secundária: Ruby Dee, Gangster Americano (American Gangster);
  • Melhor conjunto de duplos: Ultimato (Bourne Ultimatum);
  • Prémio de Carreira: Charles Durning.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

Do miasma

[breve interlúdio na sequência de textos ordenados em numeração romana]

Hoje é um dia triste, e não se julgue que a causa, por via imediata, esteve na infeliz circunstância de o meu Porto haver sofrido por terras do Visconde a segunda derrota no campeonato – ganhou em atitude, segundo o filósofo Prof. Jesualdo, e com atitude pagarei a minhas quotas se o espectáculo de falhanços clamorosos, com ou sem Xistra, se repetir.
Como já referi sou um sofredor pelas mágoas do mundo, pela dor que comigo se cruza diariamente nos passeios da vida – cenhos franzidos, corpos mirrados, uma criança sozinha, indiferente, que ignora a pomba que a seu lado voa levando no bico o ramo de oliveira da paz entre os homens –, em suma, pela miséria ou infortúnio de se ser português. Porém, hoje, quando acordei para mais uma jornada, decerto pungente, neste vale de lágrimas, senti na boca o gosto a ferro da ressaca por um par de dias dos mais negros deste ainda imberbe 2008. Pensei em Pacheco Pereira, triste, isolado a um canto escuro e bafiento onde apenas se escutam as gotas de humidade a embater em solo duro e, no entanto, alagadiço e viscoso, carpindo, lamentando a derrota que o seu indisfarçável portismo agudizou – JPP é portista, não sabiam? O seu amor pelo Porto (todas as acepções permitidas) é inesgotável, da sua casa no antigo Carlton (agora Pestana)… ah, é um hotel… adiante.
Enquanto o seu grande amigo, o Querido Líder da Invicta, dá
sinais evidentes de que, em breve, se mudará a contragosto de malas e bagagens para Lisboa (Deus, ou alguém ou algo por Ele, o guarde aí em baixo por muitos anos) a pedido da imprensa e da blogosfera da Capital, atente-se nos seus hossanas diários, Pacheco Pereira anda distraído a brincar ao “São João Baptista” (até porque é o padroeiro da sua tão amada e inesquecível cidade), com a Cofina, Pinhão & Botelho, Carolina e com a elite fozeira Veiga e Aguiar Branco, abrindo os caminhos para a triunfal chegada do senhor, pondo de lado a “Teoria do Milieu” – ambiente miasmático em que tudo se passa – e o seu principal arquitecto JNPC, depois dos homicídios de Rio de Mouro e dos gangues que, a fazer fé nos relatos de residentes com identidade protegida, todos os dias aterrorizam a população, ou das facadas em Guimarães e dos anódinos very lights.
JPP pôs literalmente as barbas de molho, a vice-presidência chegará em breve, entretanto toca a “botar faladura” (como se sói dizer cá por cima) nos inúmeros meios de comunicação que lhe dão voz – ad nauseam.

sábado, 26 de janeiro de 2008

Da (triste) realidade

VII
[O rei vai nu ou a história de alguém que, de hoje em diante, irá percorrer o alcantilado, duro e tortuoso caminho da justiça portuguesa; grotesca e aviltante, kafkiana; promotora da desonra e do assassinato de carácter para os que não lhe conhecem as entranhas, nauseabundas, pútridas e ignominiosamente retorcidas; escorraçados do sistema pelo peristaltismo cúpido do poder.
Imperativo categórico: fiat justitia et pereat mundus.]

«Existe em Portugal uma criminalidade muito importante, do mais nocivo para o Estado e para a sociedade, e que andam por aí impunemente alguns a exibir os benefícios e os lucros dessa criminalidade e não há mecanismos de lhes tocar. Alguns até ostensivamente ocupam cargos relevantes no Estado Português.»
António Marinho e Pinto, bastonário da Ordem dos Advogados (declarações à Antena 1, 25/01/2008) [destaques meus]

VIII
[Da arrogância à ignorância. A sobranceria como afiguração de uma debilidade intelectual e espiritual percebida e insanável. Estreiteza. Apedeutismo. Filistinismo. Mediocridade. As duas faces da mesma moeda.]


«Aprendemos mais do que ensinamos, e os arrogantes vão continuar a sofrer de achaques, a contorcer-se, a espumar de raiva, a empalidecer, a esticar o nariz até tocar no tecto, como focas, a modular a voz até se assemelhar a um trombone, uma longa nota, estridente e cava, que não tem maneira de acabar. Deixemos a purulência arrogante refastelar-se na sua própria bílis.»
Sérgio Lavos, “
Os Outros”, Auto-Retrato

[Lema de vida: jamais serei arrogante, mas ignoro ser ignorante. Ainda agrilhoado na caverna, assistindo ao teatro de sombras onde se projectam os detentores da verdade suprema.]

quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

Da reflexão (após enfado)

IV
[Rudimentos de maiêutica socrática. Seguido de metaficção]


– No fim de tudo isto, aconteça o que acontecer – disse ela, – eu não quero perder-te como amigo.
Ele olhou-a nos olhos e replicou:
– Eu prometo que jamais serei teu amigo, não importa o que aconteça, nunca mais.
A voz dela esmoreceu: – Se fodermos, amanhã irei sentir-me uma merda.
– Por mim está tudo bem – disse ele, tirando-lhe a camisola.
– Eu amo-te – disse ela. – Nunca te quis magoar de propósito.
Ele abanou a cabeça e disse: – Quero lá saber.
Diálogo entre Jack Whitman (Jason Schwartzman) e a sua ex-namorada (Natalie Portman). Argumento de Wes Anderson, Hotel Chevalier, curta-metragem inserida em The Darjeeling Limited (2007), transformado em conto neste último. [versão: AMC]


V
[Uma despedida, como um belo epitáfio (nota: incluir nos desejos finais)]


«Obrigado por teres abusado de mim.»

Jack Whitman (Jason Schwartzman) agradece a prestimosa companhia de Rita (Amara Karan) durante a viagem no Darjeeling Limited, no argumento de Wes Anderson, Roman Coppola (filho de Francis, irmão de Sofia) e Jason Schwartzman. [versão: AMC]

VI
[O espectro que paira sobre a obra… e se perguntar não ofende…]




O meu amigo de infância Ray Davies, com as imagens de Philippe Garrel de uma sequência do fabuloso (e de apreciação maniqueísta) Os Amantes Regulares (Les amants réguliers, 2005).
This Time Tomorrow… talvez não por aqui.

Nota: Obrigado LMO, pelo conselho.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

Do enfado

I
[epitáfio apócrifo]
«Deixa-me em paz, diz a triste Morte» (falsa legenda num túmulo vazio).
Vladimir Nabokov, Opiniões Fortes (Strong Opinions, 1973)

II
[ou como terminar, rematando a ainda tão actual reflexão "Da Certeza"]
«Tendo visto com que lucidez e coerência lógica certos loucos justificam, a si próprios e aos outros, as suas ideias delirantes, perdi para sempre a segura certeza da lucidez da minha lucidez.»
Bernardo Soares, Livro do Desassosego

III
[rogo]
«Antepassado meu, antigo artífice, ampara-me e ajuda-me agora e sempre.»
James Joyce, Retrato do Artista quando Jovem (A Portrait of the Artist as a Young Man, 1916)

Siri

(Abril de 2008)

terça-feira, 22 de janeiro de 2008

Óscares 2008 – nomeações


Foram anunciadas as nomeações para os Óscares 2008, cuja cerimónia de entrega decorrerá no Kodak Theatre, Hollywood, no próximo dia 24 de Fevereiro (1 hora e 30 minutos da madrugada do dia 25, hora de Portugal Continental).
Para não fugir à regra, a Academia reservou algumas surpresas para este dia, como a única nomeação para o filme mais recente de David Cronenberg (Promessas Perigosas, na categoria para “Melhor Actor”, Viggo Mortensen) ou as duas apenas para O Lado Selvagem de Sean Penn (Actor Secundário: Hal Holbrook; Montagem).
Ao invés, ficaram no capítulo “penalizações mais que aguardadas” as modestas duas nomeações tanto para Gangster Americano de Ridley Scott (Actriz Secundária: Ruby Dee; Direcção Artística), como para Elizabeth – A Idade do Ouro de Shekhar Kapur, embora neste caso tenha havido uma nomeação maior, a de Cate Blanchett na categoria de “Melhor Actriz” (a outra nomeação foi para o guarda-roupa), juntando assim a sua nomeação para “Melhor Actriz Secundária” com I’m Not There.
Excluídos da competição ficaram The Great Debaters, o segundo filme realizado por Denzel Washington e Sedução, Conspiração, o controverso e mais recente filme do realizador taiwanês Ang Lee.
Entretanto, tal como temia, sem no entanto o haver referido (daí a citação, com direito a ilustração, no texto anterior), o filme La Sconosciuta de Giuseppe Tornatore não foi nomeado para a categoria de “Melhor Filme Estrangeiro”, ficando igualmente de fora a película brasileira pré-seleccionada (ver texto).

Finalmente, eis uma lista, de elaboração própria, com os 12 filmes mais nomeados para os Oscars 2008®, seguida da lista dos nomeados para “Melhor Filme Estrangeiro” e “Melhor Filme de Animação”:
[Em destaque (a bold) e com o sinal “+” as nomeações pertencentes ao denominado Top 5, ou seja, aquelas que dizem respeito às cinco categorias consideradas como as mais importantes na atribuição do galardão. A saber, melhores filme, realização, argumento (original e adaptado), actor principal e actriz principal.]

Este País Não É para Velhos / No Country for Old Men (8 nomeações, 3+)
Actor Secundário – Javier Bardem
Argumento Adaptado – Joel e Ethan Coen
Efeitos Sonoros
Filme
Fotografia
Montagem
Realização – Joel e Ethan Coen
Som

Haverá Sangue / There Will Be Blood (8 nomeações, 4+)
Actor – Daniel Day-Lewis
Argumento Adaptado – Paul Thomas Anderson

Efeitos Sonoros
Filme
Fotografia
Montagem
Realização – Paul Thomas Anderson
Som

Expiação / Atonement (7 nomeações, 2+)
Actriz Secundária – Saoirse Ronan
Argumento Adaptado – Christopher Hampton
Direcção Artística
Filme
Fotografia
Guarda-Roupa
Música (BSO) – Dario Marianelli

Michael Clayton – Uma Questão de Consciência / Michael Clayton (7 nomeações, 4+)
Actor – George Clooney
Actor Secundário – Tom Wilkinson
Actriz Secundária – Tilda Swinton
Argumento Original – Tony Gilroy
Filme

Música (BSO) – James Newton Howard
Realização – Tony Gilroy

Ratatui / Ratatouille (5 nomeações, 2+)
Argumento Original – Brad Bird
Efeitos Sonoros
Filme (Animação)
Música (BSO) – Michael Giacchino
Som

O Escafandro e a Borboleta / Le scaphandre et le papillon (4 nomeações, 2+)
Argumento Adaptado – Ronald Harwood
Fotografia
Montagem
Realização – Julian Schnabel

Juno / Juno (4 nomeações, 4+)
Actriz – Ellen Page
Argumento Original – Diablo Cody
Filme
Realização – Jason Reitman


La Vie en Rose / La Môme (3 nomeações, 1+)
Actriz – Marion Cotillard
Caracterização
Guarda-Roupa

Sweeney Todd: O Terrível Barbeiro de Fleet Street / Sweeney Todd: The Demon Barber of Fleet Street (3 nomeações, 1+)
Actor – Johnny Depp
Direcção Artística
Guarda-Roupa

Transformers / Transformers (3 nomeações, 0+)
Efeitos Especiais
Efeitos Sonoros
Som

Ultimato / The Bourne Ultimatum (3 nomeações, 0+)
Efeitos Sonoros
Montagem
Som

Uma História de Encantar / Enchanted (3 nomeações, 0+)
Música (3 Canções originais)


Melhor Filme Estrangeiro

  • Beaufort, de Joseph Cedar (Israel);
  • 12, de Nikita Mikhalkov, (Rússia);
  • Os Falsificadores, de Stefan Ruzowitzky (Áustria: Die Fälscher; título EUA: The Counterfeiters);
  • Katyn, de Andrzej Wajda (Polónia);
  • Mongol, de Sergei Bodrov (Cazaquistão).

Melhor Filme de Animação

  • Dia de Surf, de Ash Brannon e Chris Buck (Surf’s Up)
  • Persepolis, de Vincent Paronnaud e Marjane Satrapi
  • Ratatui, Brad Bird e Jan Pinkava (Ratatouille)

Filmes Estrangeiros

Enquanto Expiação de Joe Wright (Atonement, 2007) se prefigura como o mais forte dos putativos candidatos a arrecadar as estatuetas douradas da Academia das Artes e das Ciências Cinematográficas de Hollywood, com sessão de entrega marcada para o próximo dia 24 de Fevereiro às 17:30 PST (madrugada de 25 de Fevereiro, 1:30, hora de Portugal Continental), uma das principais curiosidades, cuja expectativa se adensou na passada terça-feira, dia 15, está na escolha do Melhor Filme Estrangeiro.

Hoje mesmo em Hollywood todas as dúvidas serão desfeitas. Juntamente com as outras categorias, serão anunciados os 5 filmes finalistas para o melhor dos não-anglófonos. De uma lista inicial de 63 candidatos, representando outros tantos países, foi escolhida, há precisamente uma semana, uma lista de semifinalistas, composta por 9 filmes, dos quais 5 são europeus.
Portugal, relegado uma vez mais para a lista do olvido da Meca do cinema mundial, concorreu, através de candidatura e selecção prévia do ICA, com Belle Toujours de Manoel de Oliveira.
Um propósito, à laia de autojustificação, para desfazer o forte sentimento de inutilidade deste texto no momento em que o escrevia: dar o devido destaque – suponho que já o havia feito neste blogue há pelo menos um ano, a propósito da sua estreia, numa das minhas típicas irritações com os critérios comerciais na selecção dos filmes para exibição nas salas de cinema portuguesas – ao meu mui apreciado realizador italiano Giuseppe Tornatore que com A Desconhecida (título, por enquanto, não oficial) se estreou nos domínios do thriller psicológico e que, segundo dizem, revela toda a mestria do criador do fabuloso Cinema Paraíso (Nuovo cinema Paradiso, 1988) e do genial, enternecedor e comovente, embora ignorado pelas massas, Estão todos bem (Stanno tutti bene, 1990).
Destaque também para a pré-nomeação do russo Nikita Mikhalkov e para o veterano realizador polaco Andrzej Wajda, não esquecendo que a língua portuguesa irá ser, uma vez mais, representada por um filme brasileiro.


Eis os pré-nomeados:

  • ÁustriaDie Fälscher, de Stefan Ruzowitzky, 2007 (Título EUA: The Counterfeiters);
  • BrasilO Ano em que Meus Pais Saíram de Férias, de Cao Hamburger, 2006 (Título EUA: The Year My Parents Went on Vacation);
  • CanadáL’Âge des ténèbres, de Denys Arcand, 2007 (Título EUA: Days of Darkness);
  • CazaquistãoMongol, de Sergei Bodrov, 2007;
  • IsraelBeaufort, de Joseph Cedar, 2007;
  • ItáliaLa Sconosciuta, de Giuseppe Tornatore, 2006 (Título EUA: The Unknown Woman);
  • PolóniaKatyn, de Andrzej Wajda, 2007;
  • Rússia12, de Nikita Mikhalkov, 2007;
  • SérviaKlopka, de Srdjan Golubovic, 2007 (Título EUA: The Trap).

Nota: a sessão de apresentação dos nomeados (serão eliminados 4 filmes deste conjunto) realizar-se-á hoje às 5:30 PST (13:30, hora de Portugal Continental) em Beverly Hills.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

Massa Assobiativa

Já foi o Costa (José Alberto), ou o Semedo, ou o Sérgio Conceição, agora é o Quaresma. Todos, jogadores de futebol de primeira água que passaram pelo meu clube e cujas carreiras contribuíram de forma indelével, ao longos dos últimos anos, para o engrandecimento do seu nome, mas que nunca caíram no goto de um conjunto de adeptos que, nada entendendo de futebol, escolhe em cada época desportiva um bode expiatório, a equipar de azul e branco, para descarregar porventura as suas frustrações diárias que uma mentalidade e uma vidinha medíocres não deixam ultrapassar.
Sou sócio desde 1976 (ainda nem sequer havia completado 4 anos) e era muito novo quando comecei a acompanhar o meu pai ao futebol. Lembro-me do extinto “tribunal” (no falecido Estádio das Antas, situava-se na Superior Sul junto à Bancada da Maratona, este último e a Arquibancada eram os locais onde assistíamos aos jogos) e das invectivas contra os nossos jogadores.
Os anos foram passando e o “tribunal” disseminou-se por outros locais do estádio – fenómeno que ocorreu ainda no velhinho estádio quando, no advento do futebol como negócio sujeito às regras empresariais, surgiram os lugares marcados com bilhete de época. Por todo o lado espalhou-se o vírus da assobiadela crónica de pendor masoquista. Curiosamente, esses que assobiam os jogadores da equipa de que se dizem sócios e adeptos não pertencem nem aos proscritos Super Dragões, nem ao Colectivo 95, como não pertenciam à extinta claque dos Dragões Azuis. Esses, fazem parte da Massa Assobiativa – expressão usada pelo meu pai, quando armado de Mao Tsé-Tung das Antas, tentava educar, repreendendo, essas alimárias ditas portistas, atitude que lhe valeu alguns insultos –, o extinto “tribunal”, e são, na verdade, uma imagem fiel do povinho português que desdenha do êxito, não do alcançado pelos outros, os rivais – isso seria inveja –, mas do sucesso que, com esforço, aqueles que esses dizem admirar lograram alcançar – a isto chama-se mediocridade.
Esses involuntários paladinos da mediocridade são os tais que assobiam as claques quando estas entoam os famosos cânticos de ode às mães dos adeptos do SLB, mas que, ao invés, não se inibem de, na altura de soltar as suas frustrações quotidianas, amesquinhar aqueles que lhes dão as poucas alegrias que podem (ou poderão) desfrutar nas suas vidas miseráveis.
Insultar o Quaresma, é insultar o melhor jogador português a actuar dentro de portas, o activo mais valioso de uma sociedade anónima desportiva que tudo deveria fazer para o proteger e, acima de tudo, um dos poucos que de azul e branco vestido nos sacia a sede de magia tão rara no panorama futebolístico nacional.
Mas, o que dizer daqueles que o fazem contra o vento e que, para além de tudo, se pavoneiam em público, orgulhosos e húmidos, pela sua infeliz incontinência?

*Eu sei, fui muito polido…

domingo, 20 de janeiro de 2008

Filmar com scanner (II)


Diversão ingrata, esta, a que se materializa na tarefa de o admirador incondicional da obra literária ter de observar a sua transposição para o grande ecrã. Depois da sua concretização já nada do que até aí se alcançou de satisfação interior, de prazer estético, da doce saudade dos momentos de leitura, se detém nos anteriores lugares da memória, virgem, intocado, despoluído.
Em 2002, a editora Gradiva publicava a versão de Atonement para a nossa língua, obra-prima do portentoso escritor inglês Ian McEwan. Deu-lhe o título de Expiação, designativo que foi transposto para o filme de 2007, dirigido pelo realizador inglês Joe Wright, com estreia mundial em Novembro passado (antestreia no local de origem em Setembro) e já vencedor de numerosos prémios, entre eles o Globo de Ouro para Melhor Filme (Drama), recebeu 14 nomeações para os BAFTA 2008, fazendo-se uma extrapolação vitoriosa para os Óscares da Academia, cujas nomeações serão anunciadas na próxima terça-feira (quarta-feira de madrugada em Portugal).
Amesterdão (Amsterdam, 1998) venceu o Booker Prize, Expiação foi finalista vencido do mesmo prémio em 2001 (conquistado pela obra genial A Verdadeira História de Ned Kelley do escritor australiano Peter Carey), e são ambas, na minha opinião pessoal, embora estruturalmente diferentes, as suas melhores obras – já o referi dúzias vezes e não me cansarei de o repetir outras tantas, sempre que a ocasião se proporcionar, convém vincar a posição dada a constatada volatilidade de leitores assíduos deste blogue.
Porquê Expiação?
«Ao longo destes cinquenta e nove anos [1940-1999], o problema tem sido este: como pode uma escritora expiar os seus crimes se, com o poder absoluto de decidir o final, é em certa medida Deus? […] É uma tarefa impossível, e a questão foi precisamente essa. O que conta é a tentativa.
[…]
Dei-lhes a felicidade, mas não fui prestável ao ponto de permitir que me perdoassem.
»
(Expiação, Ian McEwan. Gradiva, 2.ª ed., 2005, pp. 417-418, trad. Maria do Carmo Figueira).
A realidade, dura, implacável, pode ser mais tenebrosa e sombria que a ficção:
«Se eu a entendi correctamente, você levantou uma suspeita tão medonha que eu mal tenho palavras para a descrever» (palavras dirigidas por Henry Tilney a Catherine Morland sobre as suspeitas macabras que esta levantou sobre o pai do primeiro, General Tilney, a propósito da morte da sua mulher Mrs. Tilney, in Jane Austen, Northanger Abbey, 1817; tradução livre: AMC). Estas são as escassas linhas que faltam à passagem do romance de Austen citada em epígrafe no livro Expiação de Ian McEwan.
Os anais da História da Literatura contam que Northanger Abbey surgiu como uma paródia ao movimento da literatura gótica, que despontava pelas mãos de autores como Ann Radcliffe, designadamente pela sua obra de 1794 The Mysteries of Udolpho (publicada em Portugal como Os Mistérios do Castelo de Udolfo). Austen pretendia desmistificar a literatura da ilusão, da substituição de uma realidade pelo delírio ficcionado – a miscigenação do sagrado e do profano –, que, apesar de tudo, no próprio romance de Austen, acaba por não ser menos violenta – a cupidez e a frivolidade da classe alta inglesa expia o pecado da vil difamação.
Em Expiação a realidade de Briony é mais brutal que o romance engendrado ao longo de toda uma vida: «Não há ninguém, nenhuma entidade, nenhum ser superior a quem ela possa apelar, com quem possa reconciliar-se ou que possa perdoar-lhe.» (pág. 417)
A culpa não morre. O processo de expiação é permanente, sem hipótese alguma de reparação do mal causado por um acto irreflectido perpetrado décadas antes.

Joe Wright, através do argumento de Christopher Hampton, transcreve literalmente para o ecrã o romance de McEwan – já aqui me havia referido à crítica na The New Republic por Christopher Orr, onde este falava do tal “livro filmado”.
Em boa verdade, se exceptuarmos a parte final, em que uma nada convincente Vanessa Redgrave encarna o papel de Briony Tallis aos 77 anos (em Londres, 1999) para, perante as câmaras de um estúdio televisivo – no romance trata-se apenas de um amargo e culpado monólogo interior –, contar a verdade nua e crua sobre as personagens Robbie Tuner (James McAvoy), o rapaz humilde, filho da governanta, que cresceu no seio da aristocrática família Tallis, e a sua irmã Cecilia (Keira Knightley), Wright segue fielmente a obra de McEwan com os constrangimentos imagéticos e de tempo que a adaptação de uma obra literária ao grande ecrã exige – a obra de McEwan, na edição portuguesa da Gradiva, dispões de 418 páginas. Wright cria assim a sua própria armadilha e que se reflecte, por exemplo, na necessária redução da deambulação de Robbie por território francês no início da II Guerra Mundial como soldado ao serviço do exército britânico (corresponde a mais de uma quinta parte do livro), que culmina com a violenta retirada deste último por via marítima nas desoladoras praias de Dunquerque no nordeste da França, junto à fronteira belga, enquanto os homens aguardavam a salvação eram impiedosamente bombardeados pela Luftwaffe e pela divisão Panzer. A espera em Dunquerque vê-se como uma enorme alegoria para a maldade humana materializada na guerra, que, por um lado, reforça a cadeia de acontecimentos provocadas por um acto irreflectido de uma jovem pré-púbere de 13 anos e, por outro, mostra a dureza de uma realidade bélica, comprovada factualmente nas atrocidades cometidas entre Homens no conflito mundial. Por outro lado, Wright reduz a quase nada a última parte (por sua vez subdividida em duas: (1) a narração dos factos ocorridos em 1940 por Briony aos 18 anos como principiante na prática de enfermagem; (2) a revelação da realidade por Briony, sozinha em Londres, no dia em que fez 77 anos).
Com interpretações seguras de McAvoy e de Knightley, e um soberbo desempenho da jovem actriz norte-americana Saoirse Ronan (de apenas 13 anos) na pele de Briony, com uma mais do que razoável banda sonora a cargo de Dario Marianelli (vencedor do Globo de Ouro para Melhor BSO), com um argumento difícil de avaliar dado o perceptível esforço da textualidade e, por último, com uma realização firme no início que, a partir dos acontecimentos narrados em 1940, se vai desmoronando de cliché em cliché – seguindo o movimento aparente da obra, como se a sua elaboração seguisse a sequência dos factos narrados, à medida que o filme se aproxima do fim assalta-nos a sensação de que Wright foi perdendo o fôlego, cedendo, esgotado de energia e de ideias, a um academismo artificioso, vide, entre muitas outras que abundam na parte final, a cena em que Briony de 18 anos se dá a conhecer como aprendiz de enfermeira... é, simplesmente, kitsch –, Expiação não consegue encher as medidas, carece de um toque de génio para se tornar num “grande filme”.
Trata-se de um melodrama, é certo, com todas as inferências menos abonatórias que o género pode trazer, que, aqui sim, não encaixa com o tom da obra de base. E esta dissonância, que à primeira vista poderia consubstanciar-se numa questão meramente formal, é o principal defeito do filme: está longe de captar a verdadeira essência da obra, a crueza realista e sem contemplações líricas da narrativa mcweaniana e dos seus personagens. Trata-se, em suma, sem ser um mau filme, longe disso até – dar-lhe-ia entre 7 a 8 pontos em 10 possíveis –, do cometimento cinematográfico de um pecado capital sobre o brilhantismo de uma obra que, tenho a certeza, perdurará no Olimpo literário por mais alguns séculos.
No entanto, os prémios estão aí, as previsões laudatórias têm-se vindo a confirmar, o que demonstra que para o todo o pecado, mesmo que capital, há pelo menos uma hipótese de redenção...
«Mas agora tenho de dormir.»

sexta-feira, 18 de janeiro de 2008

Meus senhores (…) Ivan Ilitch morreu! [actualizado]

«Aspirou o ar profundamente, não acabou a aspiração, inteiriçou-se e morreu.»
Porém, continuam a matar o pobre do Ivan Ilitch.

«Como isto aconteceu no início do terceiro mês da doença de Ivan Ilitch, impossível é sabê-lo, porque se deu a pouco e pouco, mas sucedeu que, sem ninguém dar conta, a mulher, a filha, o filho, os criados, os amigos, os médicos, e especialmente o próprio Ivan Ilitch, compreenderam que todo o interesse da sua situação para os outros se reduzia a saber quando deixaria enfim o campo livre, quando libertaria os vivos do mal-estar que causava a sua presença e se libertaria ele próprio dos seus sofrimentos.»


A Dom Quixote através da sua chancela para os livros de bolso, Booket, em colaboração com António Lobo Antunes, anunciou a edição da colecção “Biblioteca de Autor”, composta por 50 livros (à data não sei se reunirá 50 autores diferentes), ao preço de venda ao público de 7 euros cada, escolhidos pelo autor de Memória de Elefante.
Começou com Daudet e Tolstói (ambas as capas na imagem), e prosseguirá, por enquanto, com Conrad – mais uma edição, há poucas!, porventura com nova tradução, de O Coração das Trevas –, Svevo, Hawthorne com A Letra Encarnada – provavelmente, pelo título, com a tradução de Fernando Pessoa – e Balzac.

As citações acima reproduzidas referem-se à edição da Europa-América de A Morte de Ivan Ilitch, com tradução de Adolfo Casais Monteiro. Esta é a versão em português da obra imortal do escritor russo de que disponho na minha modesta biblioteca. Mas há-as para todos os gostos, mesmo sem contar com as edições brasileiras: ele é com tradução de Pedro Tamen, de António Pescada, de João Maia, do referido Casais Monteiro, de Alfredo e Maria Clarinda Brás – e não sei se a brilhante dupla de tradutores Nina Guerra e Filipe Guerra não terá feito a sua perninha; depois há Ilitch e Iliitch, de Leão, Leon, Leo ou Lev com Tolstoi, Tolstói ou Tolstoy; enfim, não é decerto por falta de soluções que Ivan Ilitch não morre…

Li algures que ALA pretende acabar com o marasmo da classificação de obras literárias como “clássico” – lá está a célebre megalomania, Lobo Antunes armado em Harold Bloom lusitano para fixar o cânone, com uma pitada de Borges para tentar delimitar a Biblioteca... se bem que este último houvesse proferido que ela “existe ab aeterno” e que o Homem é o imperfeito bibliotecário...
Pelos vistos, o marasmo combate-se com o marasmo. A Dom Quixote edita a célebre novela de Tolstói (a 7 euros, com uma brevíssima introdução de ALA) apenas dois meses volvidos da sua reedição pela Relógio D’Água (a 12 euros, com prefácio de Vladimir Nabokov), facto que é agravado pela total disponibilidade para venda da edição de bolso das Publicações Europa-América (a 5,99 euros, embora sem o precioso prefácio de 10 linhas de ALA…)
Assim vai o mercado editorial em Portugal, ainda parco na publicação de uma grande parte das obras da literatura universal de reconhecidíssimo mérito, abundante nas repetições, cujo único mérito, atingido assim de repente, é o de aumentar os lucros das indústrias da celulose, e pródigo nas mesquinhas guerras editoriais de alecrim e manjerona – e se, de facto, não se tratar de uma guerra, então o marasmo deve-se a uma negligência pura e simples, evidenciando o desrespeito pelo leitor e pelo fenómeno literário; maior proveito trariam se vendessem sabonetes…

[Não sei se já repararam, mas hoje mais do que nunca as reticências abundam neste blogue. É da idade e da irritação (contenção extrema para não dizer uma... caralhada.)]

Bom, eis o momento em que reiniciarei a antiga melopeia deste blogue em relação à maior (não confundir com a melhor, como se sói fazer neste país)
editora portuguesa, agora propriedade da LeYa, a princesa do George Lucas:

Para quando a prometida publicação das obras completas de Robert Musil com tradução de João Barrento?

«Nesse instante precisamente Ivan Ilitch caiu, viu a luzinha e descobriu que a sua vida não fora o que deveria ser, mas que o mal ainda podia ser reparado.»


[Adenda às 19:10]: Confirma-se, a versão de A Morte de Ivan Iliitch (sic) da editora Relógio D'Água é de autoria da dupla Nina Guerra e Filipe Guerra.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

Zelosias

Já todos sabem, até pelo seu uso frequente, que os italianos empregam uma espirituosa sentença popular, concebida pela feliz proximidade fonética entre duas palavras do seu léxico, que pretende exprimir, por oposição, as necessárias idoneidade e precisão na arte de tradução literária: “Traduttore, Traditore” (tradutor, traidor).
Não é novidade, e até poderia resultar de uma constatação empírica, que traduzir exige do tradutor argúcia e inteireza de contextuação, assim como zelo e objectividade, sob pena de, à mais simples inexactidão, arruinar o engenho, a razão de ser, a alma que o autor emprestou à obra, em suma, a sua subjectividade.
Nabokov, um fiel suspeitoso das traduções – não foi à toa que traduziu, ele mesmo, algumas das suas obras e acompanhou outras que não pôde traduzir, revendo-as –, dizia que sendo a tradução perfeita impossível a literalidade é preferível à legibilidade ou à tão em voga “tradução artística” que desvirtua o sentido original da obra.
Mas, como em quase tudo na vida, há excessos. Há quem leve o literalismo demasiadamente a sério. E se o exercício de uma determinada função extravasa o domínio das suas competências (mesmo que tacitamente determinadas, vulgo razoabilidade), isso significa que, por estupidez, por inépcia ou pelo puro prazer de um raro autoritarismo supervenientemente alcançado, se cria uma situação potencialmente intolerável para os destinatários desse mesmo exercício – neste caso, o leitor, apodado de forma subliminar de ignaro.
Ora, no caso da tradução de uma obra literária, o zelo extremoso e até paternalista do tradutor, materializado, por exemplo, em infindáveis notas de pé de página de carácter dispensável, não só prejudica de forma irremediável a integridade da obra e o prazer da sua leitura, como também incentiva o consumo de ansiolíticos pelas sobranceria e insolência da afirmação velada da sua superioridade intelectual.
Na biografia de Leni Riefenstahl, escrita por Steven Bach, recentemente publicada pela Casa das Letras, surge na página 10 uma pequena advertência sobre o aspecto formal da obra editada em português para «comodidade de leitura»: eliminaram-se a notas do autor típicas de um trabalho académico, deixando para o fim do livro as «que enriquecem a informação factual do corpo do texto», acrescentando em rodapé as notas do tradutor.
Até este ponto, apesar da discutibilidade do critério – porque não permanecerem ambas em pé de página, identificando-as como “N.A.” se do autor ou como “N.T.” se do tradutor? –, não há motivos para algum reparo de natureza substantiva. No entanto, à medida que se lê a obra e nos vamos familiarizando com a mecânica de leitura das tais notas, atinge-se rapidamente o ponto de saturação pela profusão de notas de tradução irrelevantes e até caricatas, como a tradução dos nomes dos jornais alemães para português. Assim, na página 77, as segunda e terceira notas de rodapé servem apenas para traduzir os nomes dos periódicos «Neueste Nachrichten» por «Últimas Notícias» e «Morgenpost» por «Correio da Manhã», respectivamente; ou, por exemplo, na página 154 «Lokal-Anzeiger» por «O Anunciante Local» – afinal, o grupo Cofina já publicava o seu jornal diário na Alemanha na década de 1920.
Seguindo esta linha de raciocínio, só não entendo por que motivo não se atribuiu a obra ao escritor Estêvão Ribeiro.

Referência bibliográfica:
Steven Bach
, Leni – A Vida e Obra de Leni Riefenstahl. Cruz Quebrada: Casa das Letras, 1.ª edição, Novembro de 2007, 469 pp. (tradução de Óscar Mascarenhas; obra original: Leni – The Life and Work of Leni Riefenstahl, 2007).

terça-feira, 15 de janeiro de 2008

Galanterias

Mesuras e submissão moral, acrescento.

«Quem observa os hábitos de relacionamento mas rejeita a mentira, é como alguém que traja à moda mas não traz camisa sobre o corpo.»
Walter Benjamin, “Artigos de Galantaria”, Rua de Sentido Único (Relógio D’Água, 1992, pág. 69; trad. Isabel de Almeida e Sousa; Einbahnstrasse, 1928).

Prefiro a indigência, a solidão e o cultivo da minha melancolia crónica (ou que caminha a passos largos para essa condição de perenidade), o espírito saturnino na acepção benjaminiana, tão bem caracterizado por Susan Sontag no sei ensaio Sob o Signo de Saturno (Under the Sign of Saturn, 1978), que serve de introdução à obra em epígrafe, ao pungente masoquismo (íntimo e patológico) da cortesia imposta, derrogando, talvez pela minha inocência, materializada numa frontalidade obstinada, o segredo e a dissimulação que, de acordo com Benjamin, se constituem como factores primordiais para a sobrevivência de um ser melancólico.
O isolamento, a ascese, são preferíveis à dura incerteza sobre a prática de um exibicionismo burlesco.

Novidades Literárias para 2008

Decorrida a febril quadra natalícia no que ao meio editorial diz respeito, vão surgindo algumas notícias sobre as obras de grandes autores que irão ser publicadas no decurso de 2008.
Dos livros que aqui irei destacar, três pertencem a autores galardoados com o Prémio Nobel da Literatura: Lessing em 2007, Toni Morrison em 1993 e Pamuk em 2006. Martin Amis apresentar-se-á com duas obras, um romance e um ensaio, este último dedicado ao 11 de Setembro e às suas consequências no mundo ocidental. Paul Auster surge, tal como já havia anunciado algures pelas vielas esconsas deste blogue, com o seu 12.º romance. John Banville faz-se publicar de novo com o seu pseudónimo para a literatura policial Benjamin Black – para quando a edição de Christine Falls em Portugal? Regressa Salman Rushdie depois de Shalimar, O Palhaço. Jeffrey Eugenides edita uma colectânea de vinte e seis contos, entretanto publicada no passado dia 8 nos Estados Unidos, que para além de Tchékhov e de Munro (como constam do próprio título da antologia) inclui pequenas narrativas de Nabokov, Joyce e Faulkner e de alguns autores contemporâneos, como por exemplo Miranda July. Segundo o autor norte-americano «não se trata de um livro de amor, mas de um livro de histórias de amor… as histórias de amor dão mau nome ao amor». J. G. Ballard publicará a sua autobiografia e Julian Barnes surge com o seu livro de memórias. Finalmente, depois de um longo hiato de quatro anos, em que se distraiu com a História e a Crítica de Arte, a excepcional Siri Hustvedt (Auster) regressa com um novo romance.
Uma pequena listagem retirada de uma maior publicada no blogue de
Eric Forbes (por ordem alfabética – autor):

Ficção

  • Anne Enright – Taking Pictures (contos)
  • Benjamin Black – The Silver Swan
  • Doris Lessing – Alfred and Emily
  • Hanif Kureishi – Something to Tell You (este é para ti, Manel)
  • Jeffrey Eugenides – My Mistress’s Sparrow Is Dead: Great Love Stories, from Chekhov to Munro (contos)
  • Jhumpa Lahiri – Unaccustomed Earth (contos)
  • Martin Amis – Pregnant Widow
  • Orhan Pamuk – The Museum of Innocence
  • Paul Auster – Man in the Dark
  • Peter Ackroyd – The Casebook of Victor Frankenstein
  • Peter Carey – His Illegal Self
  • Salman Rushdie – The Enchantress of Florence
  • Siri Hustvedt – The Sorrows of an American
  • Toni Morrison – Mercy

Não-ficção

  • J. G. Ballard – Miracles of Life: Shanghai to Shepperton: An Autobiography
  • Julian Barnes – Nothing to be Frightened of
  • Martin Amis – The Second Plane: September 11, 2001-2007

Nota: Alguém sabe por onde anda este homem? Já não publica desde 2005, e está incluído o guião do filme A Condessa Russa de James Ivory (The White Countess, 2005). Respostas elucidativas na caixa de comentários. Grato pela atenção.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2008

Globos de Ouro Express

Globos de Ouro 2008, Beverly Hills, CA

A sessão de ontem (hoje às 2 da madrugada, hora de Lisboa) de anúncio dos Globos de Ouro de 2008, foi, como se esperava e por circunstâncias alheias à vontade da Associação de Imprensa Estrangeira de Hollywood (HFPA), de uma penúria confrangedora.
A apresentação das diversas categorias a concurso e dos respectivos vencedores ficou a cargo de um conjunto de apresentadores de televisão, sendo o último – Melhor Filme-Drama – apresentado pelo presidente em exercício da HPFA, de naturalidade dominicana, Jorge Camara. A sessão, transformada em simples conferência de imprensa, durou apenas 31 minutos.
Eis os vencedores da noite, onde se destacam 4 filmes que arrecadaram dois Globos de Ouro cada, com uma enorme surpresa nas categorias principais ("Filme/Drama" e "Realizador"), atendo-me apenas às categorias de Cinema (na categoria Televisão, Hugh Laurie não ganhou pela 3.ª vez consecutiva o Globo de Ouro para Melhor Actor com Dr. House):

2 Globos de Ouro
O Escafandro e a Borboleta (The Diving Bell and the Butterfly, Julian Schnabel)
- Melhor Filme Estrangeiro
- Melhor Realizador: Julian Schnabel

Este País não é para Velhos (No Country for Old Men, Joel e Ethan Coen)
- Melhor Actor Secundário: Javier Bardem
- Melhor Argumento: Joel e Ethan Coen

Expiação (Atonement, Joe Wright)
- Melhor Filme – Drama
- Melhor Banda Sonora Original: Dario Marianelli

Sweeney Todd: O Terrível Barbeiro de Fleet Street (Sweeney Todd: The Demon Barber of Fleet Street, Tim Burton)
- Melhor Filme – Comédia ou Musical
- Melhor Actor – Comédia ou Musical: Johnny Depp

1 Globo de Ouro
Haverá Sangue (There Will Be Blood, Paul Thomas Anderson)
- Melhor Actor – Drama: Daniel Day-Lewis

I’m not There (Todd Haynes)
- Melhor Actriz Secundária: Cate Blanchett

La Vie en Rose (La Môme, Olivier Dahan)
- Melhor Actriz – Comédia ou Musical: Marion Cotillard

O Lado Selvagem (Into the Wild, Sean Penn)
- Melhor Canção: Eddie Vedder com “Guaranteed”

Longe Dela (Away from Her, Sarah Polley)
- Melhor Actriz – Drama: Julie Christie

Ratatui (Ratatouille, Brad Bird e Jan Pinkava)
- Melhor Filme de Animação

Nota: Não vi O Escafandro e a Borboleta. Para além da escassez de oportunidades de que disponho para me deslocar a uma sala de cinema, a crítica cinematográfica portuguesa massacrou (e o emprego deste verbo soa a eufemismo) o filme de Julian Schnabel, que até ao momento já arrecadou 18 prémios – entre os quais contam-se 8 para “Melhor Filme” (estrangeiro). Ora, aliando-se a falta de tempo ao eminente conselho, está encontrada a justificação para a primeira frase desta nota. Irei ver…

[Na imagem: 8 perninhas anorécticas, 2 a fugir para o oversized e um totó, que seguiu à risca o dress code americano (cujo ponto culminante do mau gosto costuma reflectir-se nas gravatas ostentadas).]

sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

Melancolia



Electrelane – In Berlin
(No Shouts, No Calls; 2007)

É uma pena. Só hoje cheguei à triste notícia enquanto, num momento de ociosidade plena, espreitava o MySpace em busca de novidades. Parece que as quatro meninas de Brighton acabaram de vez, pelos menos fecharam as portas aos espectáculos ao vivo – e que bem que estiveram em Paredes de Coura (via SIC Radical). Um desperdício.
Indefinite Hiatus: Em Novembro passado, uma breve mensagem anunciava uma pausa, sem termo definido, para reflectir sobre o futuro da banda.

Daqui, em jeito de elegia, sai uma pobre e melancólica sextilha:

Mia, obedeço, vociferas,
As tuas mãos soltam os acordes.
Rendido, lasso, solfejo odes
Só, cerro os olhos, à espera.
Dedilhas trastos, estás ausente
Não te demores, eternamente.


À virtuosa, doce e angelical Mia Clarke (leitora de Pessoa e de Walter Benjamin), por AMC.