domingo, 20 de janeiro de 2008

Filmar com scanner (II)


Diversão ingrata, esta, a que se materializa na tarefa de o admirador incondicional da obra literária ter de observar a sua transposição para o grande ecrã. Depois da sua concretização já nada do que até aí se alcançou de satisfação interior, de prazer estético, da doce saudade dos momentos de leitura, se detém nos anteriores lugares da memória, virgem, intocado, despoluído.
Em 2002, a editora Gradiva publicava a versão de Atonement para a nossa língua, obra-prima do portentoso escritor inglês Ian McEwan. Deu-lhe o título de Expiação, designativo que foi transposto para o filme de 2007, dirigido pelo realizador inglês Joe Wright, com estreia mundial em Novembro passado (antestreia no local de origem em Setembro) e já vencedor de numerosos prémios, entre eles o Globo de Ouro para Melhor Filme (Drama), recebeu 14 nomeações para os BAFTA 2008, fazendo-se uma extrapolação vitoriosa para os Óscares da Academia, cujas nomeações serão anunciadas na próxima terça-feira (quarta-feira de madrugada em Portugal).
Amesterdão (Amsterdam, 1998) venceu o Booker Prize, Expiação foi finalista vencido do mesmo prémio em 2001 (conquistado pela obra genial A Verdadeira História de Ned Kelley do escritor australiano Peter Carey), e são ambas, na minha opinião pessoal, embora estruturalmente diferentes, as suas melhores obras – já o referi dúzias vezes e não me cansarei de o repetir outras tantas, sempre que a ocasião se proporcionar, convém vincar a posição dada a constatada volatilidade de leitores assíduos deste blogue.
Porquê Expiação?
«Ao longo destes cinquenta e nove anos [1940-1999], o problema tem sido este: como pode uma escritora expiar os seus crimes se, com o poder absoluto de decidir o final, é em certa medida Deus? […] É uma tarefa impossível, e a questão foi precisamente essa. O que conta é a tentativa.
[…]
Dei-lhes a felicidade, mas não fui prestável ao ponto de permitir que me perdoassem.
»
(Expiação, Ian McEwan. Gradiva, 2.ª ed., 2005, pp. 417-418, trad. Maria do Carmo Figueira).
A realidade, dura, implacável, pode ser mais tenebrosa e sombria que a ficção:
«Se eu a entendi correctamente, você levantou uma suspeita tão medonha que eu mal tenho palavras para a descrever» (palavras dirigidas por Henry Tilney a Catherine Morland sobre as suspeitas macabras que esta levantou sobre o pai do primeiro, General Tilney, a propósito da morte da sua mulher Mrs. Tilney, in Jane Austen, Northanger Abbey, 1817; tradução livre: AMC). Estas são as escassas linhas que faltam à passagem do romance de Austen citada em epígrafe no livro Expiação de Ian McEwan.
Os anais da História da Literatura contam que Northanger Abbey surgiu como uma paródia ao movimento da literatura gótica, que despontava pelas mãos de autores como Ann Radcliffe, designadamente pela sua obra de 1794 The Mysteries of Udolpho (publicada em Portugal como Os Mistérios do Castelo de Udolfo). Austen pretendia desmistificar a literatura da ilusão, da substituição de uma realidade pelo delírio ficcionado – a miscigenação do sagrado e do profano –, que, apesar de tudo, no próprio romance de Austen, acaba por não ser menos violenta – a cupidez e a frivolidade da classe alta inglesa expia o pecado da vil difamação.
Em Expiação a realidade de Briony é mais brutal que o romance engendrado ao longo de toda uma vida: «Não há ninguém, nenhuma entidade, nenhum ser superior a quem ela possa apelar, com quem possa reconciliar-se ou que possa perdoar-lhe.» (pág. 417)
A culpa não morre. O processo de expiação é permanente, sem hipótese alguma de reparação do mal causado por um acto irreflectido perpetrado décadas antes.

Joe Wright, através do argumento de Christopher Hampton, transcreve literalmente para o ecrã o romance de McEwan – já aqui me havia referido à crítica na The New Republic por Christopher Orr, onde este falava do tal “livro filmado”.
Em boa verdade, se exceptuarmos a parte final, em que uma nada convincente Vanessa Redgrave encarna o papel de Briony Tallis aos 77 anos (em Londres, 1999) para, perante as câmaras de um estúdio televisivo – no romance trata-se apenas de um amargo e culpado monólogo interior –, contar a verdade nua e crua sobre as personagens Robbie Tuner (James McAvoy), o rapaz humilde, filho da governanta, que cresceu no seio da aristocrática família Tallis, e a sua irmã Cecilia (Keira Knightley), Wright segue fielmente a obra de McEwan com os constrangimentos imagéticos e de tempo que a adaptação de uma obra literária ao grande ecrã exige – a obra de McEwan, na edição portuguesa da Gradiva, dispões de 418 páginas. Wright cria assim a sua própria armadilha e que se reflecte, por exemplo, na necessária redução da deambulação de Robbie por território francês no início da II Guerra Mundial como soldado ao serviço do exército britânico (corresponde a mais de uma quinta parte do livro), que culmina com a violenta retirada deste último por via marítima nas desoladoras praias de Dunquerque no nordeste da França, junto à fronteira belga, enquanto os homens aguardavam a salvação eram impiedosamente bombardeados pela Luftwaffe e pela divisão Panzer. A espera em Dunquerque vê-se como uma enorme alegoria para a maldade humana materializada na guerra, que, por um lado, reforça a cadeia de acontecimentos provocadas por um acto irreflectido de uma jovem pré-púbere de 13 anos e, por outro, mostra a dureza de uma realidade bélica, comprovada factualmente nas atrocidades cometidas entre Homens no conflito mundial. Por outro lado, Wright reduz a quase nada a última parte (por sua vez subdividida em duas: (1) a narração dos factos ocorridos em 1940 por Briony aos 18 anos como principiante na prática de enfermagem; (2) a revelação da realidade por Briony, sozinha em Londres, no dia em que fez 77 anos).
Com interpretações seguras de McAvoy e de Knightley, e um soberbo desempenho da jovem actriz norte-americana Saoirse Ronan (de apenas 13 anos) na pele de Briony, com uma mais do que razoável banda sonora a cargo de Dario Marianelli (vencedor do Globo de Ouro para Melhor BSO), com um argumento difícil de avaliar dado o perceptível esforço da textualidade e, por último, com uma realização firme no início que, a partir dos acontecimentos narrados em 1940, se vai desmoronando de cliché em cliché – seguindo o movimento aparente da obra, como se a sua elaboração seguisse a sequência dos factos narrados, à medida que o filme se aproxima do fim assalta-nos a sensação de que Wright foi perdendo o fôlego, cedendo, esgotado de energia e de ideias, a um academismo artificioso, vide, entre muitas outras que abundam na parte final, a cena em que Briony de 18 anos se dá a conhecer como aprendiz de enfermeira... é, simplesmente, kitsch –, Expiação não consegue encher as medidas, carece de um toque de génio para se tornar num “grande filme”.
Trata-se de um melodrama, é certo, com todas as inferências menos abonatórias que o género pode trazer, que, aqui sim, não encaixa com o tom da obra de base. E esta dissonância, que à primeira vista poderia consubstanciar-se numa questão meramente formal, é o principal defeito do filme: está longe de captar a verdadeira essência da obra, a crueza realista e sem contemplações líricas da narrativa mcweaniana e dos seus personagens. Trata-se, em suma, sem ser um mau filme, longe disso até – dar-lhe-ia entre 7 a 8 pontos em 10 possíveis –, do cometimento cinematográfico de um pecado capital sobre o brilhantismo de uma obra que, tenho a certeza, perdurará no Olimpo literário por mais alguns séculos.
No entanto, os prémios estão aí, as previsões laudatórias têm-se vindo a confirmar, o que demonstra que para o todo o pecado, mesmo que capital, há pelo menos uma hipótese de redenção...
«Mas agora tenho de dormir.»

sexta-feira, 18 de janeiro de 2008

Meus senhores (…) Ivan Ilitch morreu! [actualizado]

«Aspirou o ar profundamente, não acabou a aspiração, inteiriçou-se e morreu.»
Porém, continuam a matar o pobre do Ivan Ilitch.

«Como isto aconteceu no início do terceiro mês da doença de Ivan Ilitch, impossível é sabê-lo, porque se deu a pouco e pouco, mas sucedeu que, sem ninguém dar conta, a mulher, a filha, o filho, os criados, os amigos, os médicos, e especialmente o próprio Ivan Ilitch, compreenderam que todo o interesse da sua situação para os outros se reduzia a saber quando deixaria enfim o campo livre, quando libertaria os vivos do mal-estar que causava a sua presença e se libertaria ele próprio dos seus sofrimentos.»


A Dom Quixote através da sua chancela para os livros de bolso, Booket, em colaboração com António Lobo Antunes, anunciou a edição da colecção “Biblioteca de Autor”, composta por 50 livros (à data não sei se reunirá 50 autores diferentes), ao preço de venda ao público de 7 euros cada, escolhidos pelo autor de Memória de Elefante.
Começou com Daudet e Tolstói (ambas as capas na imagem), e prosseguirá, por enquanto, com Conrad – mais uma edição, há poucas!, porventura com nova tradução, de O Coração das Trevas –, Svevo, Hawthorne com A Letra Encarnada – provavelmente, pelo título, com a tradução de Fernando Pessoa – e Balzac.

As citações acima reproduzidas referem-se à edição da Europa-América de A Morte de Ivan Ilitch, com tradução de Adolfo Casais Monteiro. Esta é a versão em português da obra imortal do escritor russo de que disponho na minha modesta biblioteca. Mas há-as para todos os gostos, mesmo sem contar com as edições brasileiras: ele é com tradução de Pedro Tamen, de António Pescada, de João Maia, do referido Casais Monteiro, de Alfredo e Maria Clarinda Brás – e não sei se a brilhante dupla de tradutores Nina Guerra e Filipe Guerra não terá feito a sua perninha; depois há Ilitch e Iliitch, de Leão, Leon, Leo ou Lev com Tolstoi, Tolstói ou Tolstoy; enfim, não é decerto por falta de soluções que Ivan Ilitch não morre…

Li algures que ALA pretende acabar com o marasmo da classificação de obras literárias como “clássico” – lá está a célebre megalomania, Lobo Antunes armado em Harold Bloom lusitano para fixar o cânone, com uma pitada de Borges para tentar delimitar a Biblioteca... se bem que este último houvesse proferido que ela “existe ab aeterno” e que o Homem é o imperfeito bibliotecário...
Pelos vistos, o marasmo combate-se com o marasmo. A Dom Quixote edita a célebre novela de Tolstói (a 7 euros, com uma brevíssima introdução de ALA) apenas dois meses volvidos da sua reedição pela Relógio D’Água (a 12 euros, com prefácio de Vladimir Nabokov), facto que é agravado pela total disponibilidade para venda da edição de bolso das Publicações Europa-América (a 5,99 euros, embora sem o precioso prefácio de 10 linhas de ALA…)
Assim vai o mercado editorial em Portugal, ainda parco na publicação de uma grande parte das obras da literatura universal de reconhecidíssimo mérito, abundante nas repetições, cujo único mérito, atingido assim de repente, é o de aumentar os lucros das indústrias da celulose, e pródigo nas mesquinhas guerras editoriais de alecrim e manjerona – e se, de facto, não se tratar de uma guerra, então o marasmo deve-se a uma negligência pura e simples, evidenciando o desrespeito pelo leitor e pelo fenómeno literário; maior proveito trariam se vendessem sabonetes…

[Não sei se já repararam, mas hoje mais do que nunca as reticências abundam neste blogue. É da idade e da irritação (contenção extrema para não dizer uma... caralhada.)]

Bom, eis o momento em que reiniciarei a antiga melopeia deste blogue em relação à maior (não confundir com a melhor, como se sói fazer neste país)
editora portuguesa, agora propriedade da LeYa, a princesa do George Lucas:

Para quando a prometida publicação das obras completas de Robert Musil com tradução de João Barrento?

«Nesse instante precisamente Ivan Ilitch caiu, viu a luzinha e descobriu que a sua vida não fora o que deveria ser, mas que o mal ainda podia ser reparado.»


[Adenda às 19:10]: Confirma-se, a versão de A Morte de Ivan Iliitch (sic) da editora Relógio D'Água é de autoria da dupla Nina Guerra e Filipe Guerra.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

Zelosias

Já todos sabem, até pelo seu uso frequente, que os italianos empregam uma espirituosa sentença popular, concebida pela feliz proximidade fonética entre duas palavras do seu léxico, que pretende exprimir, por oposição, as necessárias idoneidade e precisão na arte de tradução literária: “Traduttore, Traditore” (tradutor, traidor).
Não é novidade, e até poderia resultar de uma constatação empírica, que traduzir exige do tradutor argúcia e inteireza de contextuação, assim como zelo e objectividade, sob pena de, à mais simples inexactidão, arruinar o engenho, a razão de ser, a alma que o autor emprestou à obra, em suma, a sua subjectividade.
Nabokov, um fiel suspeitoso das traduções – não foi à toa que traduziu, ele mesmo, algumas das suas obras e acompanhou outras que não pôde traduzir, revendo-as –, dizia que sendo a tradução perfeita impossível a literalidade é preferível à legibilidade ou à tão em voga “tradução artística” que desvirtua o sentido original da obra.
Mas, como em quase tudo na vida, há excessos. Há quem leve o literalismo demasiadamente a sério. E se o exercício de uma determinada função extravasa o domínio das suas competências (mesmo que tacitamente determinadas, vulgo razoabilidade), isso significa que, por estupidez, por inépcia ou pelo puro prazer de um raro autoritarismo supervenientemente alcançado, se cria uma situação potencialmente intolerável para os destinatários desse mesmo exercício – neste caso, o leitor, apodado de forma subliminar de ignaro.
Ora, no caso da tradução de uma obra literária, o zelo extremoso e até paternalista do tradutor, materializado, por exemplo, em infindáveis notas de pé de página de carácter dispensável, não só prejudica de forma irremediável a integridade da obra e o prazer da sua leitura, como também incentiva o consumo de ansiolíticos pelas sobranceria e insolência da afirmação velada da sua superioridade intelectual.
Na biografia de Leni Riefenstahl, escrita por Steven Bach, recentemente publicada pela Casa das Letras, surge na página 10 uma pequena advertência sobre o aspecto formal da obra editada em português para «comodidade de leitura»: eliminaram-se a notas do autor típicas de um trabalho académico, deixando para o fim do livro as «que enriquecem a informação factual do corpo do texto», acrescentando em rodapé as notas do tradutor.
Até este ponto, apesar da discutibilidade do critério – porque não permanecerem ambas em pé de página, identificando-as como “N.A.” se do autor ou como “N.T.” se do tradutor? –, não há motivos para algum reparo de natureza substantiva. No entanto, à medida que se lê a obra e nos vamos familiarizando com a mecânica de leitura das tais notas, atinge-se rapidamente o ponto de saturação pela profusão de notas de tradução irrelevantes e até caricatas, como a tradução dos nomes dos jornais alemães para português. Assim, na página 77, as segunda e terceira notas de rodapé servem apenas para traduzir os nomes dos periódicos «Neueste Nachrichten» por «Últimas Notícias» e «Morgenpost» por «Correio da Manhã», respectivamente; ou, por exemplo, na página 154 «Lokal-Anzeiger» por «O Anunciante Local» – afinal, o grupo Cofina já publicava o seu jornal diário na Alemanha na década de 1920.
Seguindo esta linha de raciocínio, só não entendo por que motivo não se atribuiu a obra ao escritor Estêvão Ribeiro.

Referência bibliográfica:
Steven Bach
, Leni – A Vida e Obra de Leni Riefenstahl. Cruz Quebrada: Casa das Letras, 1.ª edição, Novembro de 2007, 469 pp. (tradução de Óscar Mascarenhas; obra original: Leni – The Life and Work of Leni Riefenstahl, 2007).

terça-feira, 15 de janeiro de 2008

Galanterias

Mesuras e submissão moral, acrescento.

«Quem observa os hábitos de relacionamento mas rejeita a mentira, é como alguém que traja à moda mas não traz camisa sobre o corpo.»
Walter Benjamin, “Artigos de Galantaria”, Rua de Sentido Único (Relógio D’Água, 1992, pág. 69; trad. Isabel de Almeida e Sousa; Einbahnstrasse, 1928).

Prefiro a indigência, a solidão e o cultivo da minha melancolia crónica (ou que caminha a passos largos para essa condição de perenidade), o espírito saturnino na acepção benjaminiana, tão bem caracterizado por Susan Sontag no sei ensaio Sob o Signo de Saturno (Under the Sign of Saturn, 1978), que serve de introdução à obra em epígrafe, ao pungente masoquismo (íntimo e patológico) da cortesia imposta, derrogando, talvez pela minha inocência, materializada numa frontalidade obstinada, o segredo e a dissimulação que, de acordo com Benjamin, se constituem como factores primordiais para a sobrevivência de um ser melancólico.
O isolamento, a ascese, são preferíveis à dura incerteza sobre a prática de um exibicionismo burlesco.

Novidades Literárias para 2008

Decorrida a febril quadra natalícia no que ao meio editorial diz respeito, vão surgindo algumas notícias sobre as obras de grandes autores que irão ser publicadas no decurso de 2008.
Dos livros que aqui irei destacar, três pertencem a autores galardoados com o Prémio Nobel da Literatura: Lessing em 2007, Toni Morrison em 1993 e Pamuk em 2006. Martin Amis apresentar-se-á com duas obras, um romance e um ensaio, este último dedicado ao 11 de Setembro e às suas consequências no mundo ocidental. Paul Auster surge, tal como já havia anunciado algures pelas vielas esconsas deste blogue, com o seu 12.º romance. John Banville faz-se publicar de novo com o seu pseudónimo para a literatura policial Benjamin Black – para quando a edição de Christine Falls em Portugal? Regressa Salman Rushdie depois de Shalimar, O Palhaço. Jeffrey Eugenides edita uma colectânea de vinte e seis contos, entretanto publicada no passado dia 8 nos Estados Unidos, que para além de Tchékhov e de Munro (como constam do próprio título da antologia) inclui pequenas narrativas de Nabokov, Joyce e Faulkner e de alguns autores contemporâneos, como por exemplo Miranda July. Segundo o autor norte-americano «não se trata de um livro de amor, mas de um livro de histórias de amor… as histórias de amor dão mau nome ao amor». J. G. Ballard publicará a sua autobiografia e Julian Barnes surge com o seu livro de memórias. Finalmente, depois de um longo hiato de quatro anos, em que se distraiu com a História e a Crítica de Arte, a excepcional Siri Hustvedt (Auster) regressa com um novo romance.
Uma pequena listagem retirada de uma maior publicada no blogue de
Eric Forbes (por ordem alfabética – autor):

Ficção

  • Anne Enright – Taking Pictures (contos)
  • Benjamin Black – The Silver Swan
  • Doris Lessing – Alfred and Emily
  • Hanif Kureishi – Something to Tell You (este é para ti, Manel)
  • Jeffrey Eugenides – My Mistress’s Sparrow Is Dead: Great Love Stories, from Chekhov to Munro (contos)
  • Jhumpa Lahiri – Unaccustomed Earth (contos)
  • Martin Amis – Pregnant Widow
  • Orhan Pamuk – The Museum of Innocence
  • Paul Auster – Man in the Dark
  • Peter Ackroyd – The Casebook of Victor Frankenstein
  • Peter Carey – His Illegal Self
  • Salman Rushdie – The Enchantress of Florence
  • Siri Hustvedt – The Sorrows of an American
  • Toni Morrison – Mercy

Não-ficção

  • J. G. Ballard – Miracles of Life: Shanghai to Shepperton: An Autobiography
  • Julian Barnes – Nothing to be Frightened of
  • Martin Amis – The Second Plane: September 11, 2001-2007

Nota: Alguém sabe por onde anda este homem? Já não publica desde 2005, e está incluído o guião do filme A Condessa Russa de James Ivory (The White Countess, 2005). Respostas elucidativas na caixa de comentários. Grato pela atenção.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2008

Globos de Ouro Express

Globos de Ouro 2008, Beverly Hills, CA

A sessão de ontem (hoje às 2 da madrugada, hora de Lisboa) de anúncio dos Globos de Ouro de 2008, foi, como se esperava e por circunstâncias alheias à vontade da Associação de Imprensa Estrangeira de Hollywood (HFPA), de uma penúria confrangedora.
A apresentação das diversas categorias a concurso e dos respectivos vencedores ficou a cargo de um conjunto de apresentadores de televisão, sendo o último – Melhor Filme-Drama – apresentado pelo presidente em exercício da HPFA, de naturalidade dominicana, Jorge Camara. A sessão, transformada em simples conferência de imprensa, durou apenas 31 minutos.
Eis os vencedores da noite, onde se destacam 4 filmes que arrecadaram dois Globos de Ouro cada, com uma enorme surpresa nas categorias principais ("Filme/Drama" e "Realizador"), atendo-me apenas às categorias de Cinema (na categoria Televisão, Hugh Laurie não ganhou pela 3.ª vez consecutiva o Globo de Ouro para Melhor Actor com Dr. House):

2 Globos de Ouro
O Escafandro e a Borboleta (The Diving Bell and the Butterfly, Julian Schnabel)
- Melhor Filme Estrangeiro
- Melhor Realizador: Julian Schnabel

Este País não é para Velhos (No Country for Old Men, Joel e Ethan Coen)
- Melhor Actor Secundário: Javier Bardem
- Melhor Argumento: Joel e Ethan Coen

Expiação (Atonement, Joe Wright)
- Melhor Filme – Drama
- Melhor Banda Sonora Original: Dario Marianelli

Sweeney Todd: O Terrível Barbeiro de Fleet Street (Sweeney Todd: The Demon Barber of Fleet Street, Tim Burton)
- Melhor Filme – Comédia ou Musical
- Melhor Actor – Comédia ou Musical: Johnny Depp

1 Globo de Ouro
Haverá Sangue (There Will Be Blood, Paul Thomas Anderson)
- Melhor Actor – Drama: Daniel Day-Lewis

I’m not There (Todd Haynes)
- Melhor Actriz Secundária: Cate Blanchett

La Vie en Rose (La Môme, Olivier Dahan)
- Melhor Actriz – Comédia ou Musical: Marion Cotillard

O Lado Selvagem (Into the Wild, Sean Penn)
- Melhor Canção: Eddie Vedder com “Guaranteed”

Longe Dela (Away from Her, Sarah Polley)
- Melhor Actriz – Drama: Julie Christie

Ratatui (Ratatouille, Brad Bird e Jan Pinkava)
- Melhor Filme de Animação

Nota: Não vi O Escafandro e a Borboleta. Para além da escassez de oportunidades de que disponho para me deslocar a uma sala de cinema, a crítica cinematográfica portuguesa massacrou (e o emprego deste verbo soa a eufemismo) o filme de Julian Schnabel, que até ao momento já arrecadou 18 prémios – entre os quais contam-se 8 para “Melhor Filme” (estrangeiro). Ora, aliando-se a falta de tempo ao eminente conselho, está encontrada a justificação para a primeira frase desta nota. Irei ver…

[Na imagem: 8 perninhas anorécticas, 2 a fugir para o oversized e um totó, que seguiu à risca o dress code americano (cujo ponto culminante do mau gosto costuma reflectir-se nas gravatas ostentadas).]

sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

Melancolia



Electrelane – In Berlin
(No Shouts, No Calls; 2007)

É uma pena. Só hoje cheguei à triste notícia enquanto, num momento de ociosidade plena, espreitava o MySpace em busca de novidades. Parece que as quatro meninas de Brighton acabaram de vez, pelos menos fecharam as portas aos espectáculos ao vivo – e que bem que estiveram em Paredes de Coura (via SIC Radical). Um desperdício.
Indefinite Hiatus: Em Novembro passado, uma breve mensagem anunciava uma pausa, sem termo definido, para reflectir sobre o futuro da banda.

Daqui, em jeito de elegia, sai uma pobre e melancólica sextilha:

Mia, obedeço, vociferas,
As tuas mãos soltam os acordes.
Rendido, lasso, solfejo odes
Só, cerro os olhos, à espera.
Dedilhas trastos, estás ausente
Não te demores, eternamente.


À virtuosa, doce e angelical Mia Clarke (leitora de Pessoa e de Walter Benjamin), por AMC.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

You don't ride with the devil...

David Fincher's Zodiac «“Zodiac” is about an investigation and is itself an investigation. As is always the case with Mr. Fincher’s movies, it is also about extreme human behavior and an example of the same. Extremes possess the murderer and those who chase him, men whose desire to solve the killings burns away large swaths of their worlds. “I need to know,” Graysmith (Jake Gyllenhaal) tells his wife, whom he eventually drives away with his compulsive pursuit. That need is ultimately frustrated — the Zodiac killer remains uncaught and officially unnamed — which gives the movie a strange pathos. In the end there is no confession of guilt or triumphantly condemned prisoner, no trial or justice. All that remains is the search, and the filmmaking.»
Manohla Dargis, "Building Suspense Along the Trail of an Invisible Man", The New York Times (6/Jan/2008) [destaques meus]


Último parágrafo do excelente artigo publicado no NY Times, escrito pela habitualmente impiedosa Manohla Dargis, sobre Zodiac de Fincher — na minha modesta opinião de espectador atento, o melhor do ano — no encalço dos filmes passíveis de nomeação para os Óscares de 2008.

Nota: posta de lado a preguiça, encontrei a minha apreciação escrita, feita a quente, sem rede, no dia em que o vi no cinema.

terça-feira, 8 de janeiro de 2008

Êxtase recidivo

Radiohead – Reckoner (In Rainbows, 2007)

(Eu bem tento... mas volto sempre à mesma.)

O Melhor de 2007: Literatura


Tardou, por manifesta falta de tempo, mas não faltou. Na tentativa de ser um nada congruente com a linha editorial desta chafarica digital pseudocultural, não poderia deixar de me referir aos livros que me acompanharam durante 2007 e sobre os quais fui falando em dezenas de textos, encerrando, assim e em definitivo, os habituais balanços do ano velho.
A lista que se segue não é de todo uma novidade. Desde o início do ano, fui publicando aqui neste blogue a minha visão particular sobre as obras que iam sendo publicados no mercado editorial nacional, e isto, convém notar, sem que houvesse a pretensão de atingir o inaudito rigor quase científico de uma recensão, ou ainda, que o processo se tornasse um emulador daquilo que o mercado vem estabelecendo como cânone da crítica literária, não cedendo nas suas características da rigidez e de um dogmatismo anacrónico, que afugenta quem faz da Literatura o principal instrumento para os seus momentos de lazer.
Ao longo do ano, como sempre fui referindo até ao limiar da exaustão, apenas assumi o papel do bibliófilo inveterado que procurou transmitir a quem o quisesse ler – e nunca é de mais assinalar e enfatizar esta última parte – simples notas de leitura: as emanações feéricas de um bom livro, as irritações provocadas por outros, as frustrações, os arrebatamentos, as perplexidades, as imprecisões e/ou os momentos de genialidade que contribuíram, de forma decisiva, para a assunção de determinada vontade de qualificar a obra que se acabou de ler. Nada mais. Aliás, não sigo critérios editoriais, nem sou vítima de imposições de leitura; o único critério que aqui se segue materializa-se (também literalmente) em tentar manter alguma (ir)racionalidade económico-financeira perante as minhas necessidades e os meus recursos monetários disponíveis no momento – sim, paguei por todos os livros que aqui foram apreciados – e, por outro lado, só leio o que me apetece, o que em certa medida serve de fundamento ao baixo número de livros de classificação inferior a “3 estrelas”: 5 ao todo, 3 dos quais foram revelados a despeito do princípio que adoptei de não divulgação das mediocridades literárias.
Em jeito de balanço quantitativo do ano, foram lidos e avaliados 50 livros editados em 2007, predominantemente de ficção, havendo-se revelado a avaliação de 48 e, entre esses, um conjunto de 34 foi objecto de textos individuais de análise oportunamente publicados. Quanto à sua divisão pelas 6 grandes categorias qualitativas (ou 5+1) – de mau (1 estrela) a Obra-prima (6 estrelas) –, foram classificados, para além das 2 obras não referidas, 1 livro como “Mau”, 2 como “Medíocre”, 11 com o designativo “A ler”, 13 como “Bom”, 18 como “Muito Bom” e, finalmente, 3 como “Obra-prima”.
No que diz respeito às editoras que os publicaram, sem qualquer tipo de critério apriorístico de selecção como atrás expliquei, sobressaíram os livros da editora independente Relógio D’Água (8 obras), das Publicações Dom Quixote (6), seguidas pelas editoras Civilização e Casa das Letras (4 obras cada), representando as 4 cerca de 44% do total de obras de 2007 aqui avaliadas – de realçar que em termos qualitativos, desprezando as editoras com apenas 1 título nesta lista final, a Texto Editores (com 2 títulos, ambos de Saul Bellow) e a Relógio D’Água tiveram os níveis de avaliação mais altos, 5 e 4,9 pontos, respectivamente.

Lista Final
Dos 21 livros que atingiram a classificação máxima (5 estrelas), houve três que se destacaram pela qualidade excepcional, daí haver-se adoptado o critério de desdobramento do nível máximo em dois patamares de avaliação, correspondendo o mais elevado à tal distinção pela excepcionalidade, apondo-se o natural epíteto de “obra-prima” (6 estrelas).
Assim, de acordo com o meu critério estético-literário, um conjunto de três obras publicadas (2 novidades e 1 reedição) destacou-se das restantes 18. As três figurarão por ordem de preferência nos três primeiros lugares da lista composta pelos dez melhores livros editados em 2007 – esta será a primeira vez em que irei fazer uma distinção classificativa individual dos 10 primeiros livros, atendendo, estritamente, ao grau de exaltação literária provocado (em anos anteriores classificava-os apenas por grandes grupos, sem distinções internas em cada grupo):

  1. Colm Tóibín, O Mestre, Dom Quixote (The Master, 2004);
  2. Jonathan Littell, As Benevolentes, Dom Quixote (Les Bienveillantes, 2006);
  3. Lev Tolstói, A Sonata de Kreutzer, Relógio D'Água (Крейцерова соната, translit. Kreutzerova sonata, 1889, reedição);
  4. Cormac McCarthy, Este País Não É para Velhos, Relógio D'Água (No Country for Old Men, 2005);
  5. Ian McEwan, Na Praia de Chesil, Gradiva (On Chesil Beach, 2007);
  6. John Updike, Corre, Coelho, Civilização (Rabbit, Run; 1960; reedição);
  7. Cormac McCarthy, A Estrada, Relógio D'Água (The Road, 2006);
  8. Ivan Turguéniev, Pais e Filhos, Relógio D'Água (Отцы и Дети, translit. Otzy i Deti, 1862, reedição);
  9. Gonçalo M. Tavares, Aprender a Rezar na Era da Técnica, Caminho (2007);
  10. W.G. Sebald, Vertigens. Impressões, Teorema (Schwindel. Gefühle, 1990).

Restantes 11 livros com classificação máxima (por ordem alfabética do autor):

  • André Gide, Os Subterrâneos do Vaticano, Âmbar (Les Caves du Vatican, 1914);
  • Gustave Flaubert, Salammbô, Relógio D'Água (Salammbô, 1862, reedição);
  • Halldór Laxness, Gente Independente, Cavalo de Ferro (Sjálfstætt fólk, 1933-35);
  • Hisham Matar, Em Terra de Homens, Civilização (In the Country of Men, 2006);
  • Honoré de Balzac, O Último Adeus, Europa-América/DN (Adieu, 1830, reedição);
  • Iris Murdoch, Um Homem Acidental, Relógio D'Água (An Accidental Man, 1971);
  • John Cheever, Falconer, Sextante (Falconer, 1977);
  • Paul Auster, Viagens no Scriptorium, Asa (Travels in the Scriptorium, 2007);
  • Philip Roth, Todo-o-Mundo, Dom Quixote (Everyman, 2006);
  • Saul Bellow, Aproveita o Dia, Texto Editores (Seize the Day, 1956, reedição);
  • Saul Bellow, O Planeta do Sr. Sammler, Texto Editores (Mr. Sammler’s Planet, 1970).

Nota: ligações para as “notas de prova” na coluna do lado direito deste blogue.

domingo, 6 de janeiro de 2008

A Comédia do Poder


Esclarecimento
Não tive a oportunidade de assistir em directo na televisão à mensagem presidencial de Ano Novo, nem tão-pouco à primeira emissão do ano do debate televisivo semanal Quadratura do Círculo que, sei agora, reflectiu sobre a pertinência da tal mensagem enviada aos portugueses por Cavaco Silva no exercício das suas funções.
Dei-me conta, todavia, dos ecos noticiosos repercutidos pela mensagem – que pude ler na íntegra no sítio da Presidência da República –, li, atónito, a notícia de primeira página da edição do Jornal de Negócios de ontem sobre o assunto e ouvi hoje o
podcast do referido programa da SIC Notícias, que foi para o ar na passada quarta-feira à noite, dia 2 de Janeiro.

Perplexidades
José Pacheco Pereira classificou o alerta/reflexão do Presidente da República sobre se os «rendimentos auferidos por altos dirigentes de empresas não serão, muitas vezes, injustificados e desproporcionados, face aos salários médios dos seus trabalhadores» como fait divers e uma manobra populista.
António Lobo Xavier apelou inclusivamente ao recurso da evidência estatística para desmistificar essa inverdade presidencial de natureza e objectivos marcadamente demagógicos, ignorando, todavia, porque à boa maneira do político luso falou de cor, os próprios dados tratados pela mesma ciência tão assertiva e enfaticamente evocada que, por mero azar, depois de uma simples análise descritiva, foram publicados no dia seguinte pela generalidade da imprensa nacional e que demonstraram de uma forma categórica o gigantesco desfasamento entre o rendimento médio de dirigentes e trabalhadores – informação apurada pela empresa norte-americana
Mercer Human Resource Consulting; em Portugal a média de rendimentos da classe de dirigentes é cerca de 32 vezes superior ao rendimento médio dos trabalhadores (15 em Espanha, 14 no Reino Unido e 10 na Alemanha, por exemplo).
Jorge Coelho, reconhecidamente um homem inteligente e um político astuto, bem informado sobre os meandros do poder, entendedor da retórica da ilusão e dos preceitos da teoria da falácia, disse que o problema não está nos altos rendimentos dos dirigentes das empresas portuguesas mas nos baixos rendimentos dos trabalhadores em geral.
Ora, a realidade que a tríade comentadora não pode nem deve encobrir, até por conhecimento de causa, angariado nos lugares de responsabilidade públicos e privados que ocupam ou ocuparam, e sem que com isso se caia na apologia do radicalismo cego da meritocracia, normalmente esquecediça das condições de partida, é a do processo viciado de cariz endogâmico, em circuito fechado, de nomeações de figuras políticas para altos cargos directivos nos domínios empresariais público e privado. Nomeia-se pela influência subterrânea criada pelo exercício anterior da função pública, prática corrente, reiterada, tacitamente aceite e potenciada por um Estado controlador e superpoderoso, anquilosado e ainda inadaptado ao exercício dos seus poderes dentro dos limites naturais definidos por uma sociedade democrática moderna e avançada, onde deveriam imperar, para a sua própria sobrevivência, o espírito da livre iniciativa e o princípio da igualdade de oportunidades para todos os cidadãos sem excepção.
Em Portugal todos invocam a Constituição, todos falam sobre o cumprimento ou sobre a derrogação dos direitos, liberdades e garantias previstos pela Lei fundamental, existe até um tribunal que zela pelo seu cumprimento, cujos membros são designados pelo poder político, pelos grupos de interesse legalmente constituídos, vulgo partidos; porém ainda ninguém reparou ou quis notar que a vozearia invocativa oculta o seu verdadeiro estado de efectividade, o daguerreótipo da situação real do país: ferida de morte por incumprimento implícito, cúmplice e tolerante – a tão típica impunidade dos poderosos.
Não errarei por muito se disser que Portugal nunca foi um país verdadeiramente democrático, apesar de apresentar alguns sintomas ou indícios de democracia, consubstanciados meramente na eleição dos órgãos de poder nacional, regional e local. Aliás, o apodo de “democrático” ao nosso Estado, salvaguardadas as devidas distâncias demonstradas pela História, faz-me lembrar o segundo D na sigla DDR (ou o D da ex-RDA em língua portuguesa), um país democrático não praticante. Vivemos numa pura oligarquia que a ciência política não nega. Prevalecem os nepotismos, os favoritismos de cor e de filiação partidária e a luta pelo poder subterrâneo entre os homens do avental e os rapazes do cilício – diga-se, em abono da verdade, que Cavaco Silva, segundo confidência de uma voz assaz entendida no assunto, foi o primeiro Presidente da República eleito que jamais pertenceu quer a uma quer a outra organização de compadrios malsãos.
Cavaco Silva entendeu por bem trazer à colação a disparidade remuneratória entre dirigentes e dirigidos, talvez instigado pelos mais recentes escândalos ocorridos no centro nevrálgico de comando do Millennium BCP. O trio de comentadores da Quadratura do Círculo, em especial Pacheco Pereira e Lobo Xavier, escarneceram e vituperaram o Presidente da República por este se haver referido a um assunto menor e que, segundo dizem, está deslocado da realidade do país. Pois bem, neste caso, não entrando em linha de conta com o desrespeito desabrido ao mais alto soberano da nação e nos termos em que foi feito, releva a reacção desmesurada e desproporcional face a um assunto que resulta de uma mera constatação empírica e que em nada desmerece o estatuto do político por haver sido proferido por Cavaco Silva. Além disso, ninguém espera que um bom Presidente, interventivo e perspicaz, se auto-inflija de um degredo opinativo, posicionando-se no alto de uma torre de marfim, ignorando as reais preocupações da população que, de acordo com os poderes constitucionais, superintende. É bonito falar-se da livre iniciativa e da liberalização do mercado e que um mercado livre tende a corrigir os seus erros. No entanto, numa oligarquia típica de um país terceiro-mundista como o nosso, o verdadeiro mercado não existe porque nele apenas intervém um grupo restrito de senhores e protegidos. Nem tão-pouco se pode falar em activismo accionista, ou na célebre e ilustrativa Teoria da Agência formulada por Jensen e Meckeling, ou numa monitorização da gestão eficaz. Os próprios reguladores institucionais não intervêm ou quando o fazem movem-se apenas por reacção. Os accionistas de referência são poucos, de fraca qualidade e espalham-se por ambos os lados da barricada – o principal e o agente – em diversas empresas. Os pequenos investidores participam de forma marginal no mercado e actuam como meros especuladores, onde a maximização dos lucros é uma um conceito difuso. A generalidade da classe dirigente das empresas portugueses para além de não agir de forma directa na criação de valor para os seus accionistas, esquece-se por completo dos demais interessados, de onde emergem os próprios trabalhadores, para além dos clientes ou fornecedores, ou mesmo do Estado. Não há uma efectiva política de recompensas, ou um sistema de incentivos, aos trabalhadores que se relacione de forma directa com a produtividade total (não apenas a laboral).
No meio de tudo isto, o mais surpreendente, talvez para os mais desprevenidos, foi a exagerada e agreste reacção de repúdio dos comentadores supracitados. Talvez o Presidente da República haja logrado atingir um ponto sensível a tão desinteressados analistas de quase tudo o que mexe politicamente na lusa pátria.
E será que JPP, ALX e JC:

  • Acaso não conhecem empresas cujos próprios titulares dos órgãos administrativos e de supervisão interna aumentam os seus próprios salários e benefícios em dinheiro ou em espécie de forma considerável apesar da prevista e iminente ruína económica e financeira, despedindo trabalhadores à discrição, com salários em atraso e indemnizações por pagar?

  • Será que os comentadores da Quadratura do Círculo desconhecem que os bancos agora investigados têm deixado de forma impiedosa particulares, empresas e respectivos trabalhadores à beira da miséria, para fazerem valer os seus direitos de crédito?

Não acredito. Aliás, estou convicto de que, na posição de observadores privilegiados dentro de um sistema oligárquico, não desconhecem situações como essas. E, no entanto, criticam ferozmente a diligência presidencial, que em nada extravasou o limite das suas competências funcionais e orgânicas, de um firme e sonoro alerta ao país, às instituições policiais e judiciais, às entidades reguladoras.

E se realmente necessitam de uma imagem para atestar do grau de impunidade reinante na república oligárquica portuguesa, basta que nos recordemos da imagem recente (final de Dezembro de 2007), carregada de um forte simbolismo do status quo luso, quando a propósito de uma reunião de dirigentes do BCP uma longa fila de automóveis de cor escura com motorista, de marcas Jaguar, Mercedes, BMW e Audi, estava plantado na zona pedonal da Rua Augusta em Lisboa. O que aconteceria se na mesma situação estivesse envolvido o tal Zé de Durão Barroso? Dispenso-me a mais palavras. A impunidade, a vassalagem e a bajulação
do poder estão à vista de todos. Pobre cidadãos, a quem pretendem furar dos dois olhos o único que permanece são.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2008

3.º Aniversário

Parabéns ao Eduardo Pitta e ao João Paulo Sousa pelo 3.º aniversário do blogue Da Literatura que se tornou, por mérito próprio, uma das grandes referências da blogosfera lusa.

Nota: peço as minhas desculpas, em especial ao Eduardo, pela impontualidade da felicitação, mas motivos de força maior levaram-me a uma ausência temporária da blogosfera.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2008

Novo Ano

Jean Antoine Watteau, L’indifférent
(1717)
Óleo sobre tela. Museu do Louvre, Paris

Ô naître ardent et triste,
mais, à la vie assiste,
tendre et bien habillé,

à la multiple surprise
qui ne vous engage point,
et, bien mis, à la bien mise
sourire de très loin.
Rainer Maria Rilke, "L’indifférent"
(Tendres impôts à la France, 1923-1924)

domingo, 30 de dezembro de 2007

O Melhor de 2007: Cinema


Apesar da dor de cabeça de efeitos alusivamente cataclísmicos que me afecta no momento – verdade confessada, à laia de pedido de misericórdia pelo minimalismo explicativo que acompanha este texto –, consegui finalmente elaborar a prometida lista dos meus 10 filmes preferidos estreados durante o ano de 2007 em Portugal.
Sem mais delongas, ei-los por ordem de preferência (sobre alguns já foram proferidas algumas palavras neste blogue durante o ano):

  1. Zodiac, David Fincher;

  2. Promessas Perigosas, David Cronenberg (Eastern Promises);

  3. Control, Anton Corbijn;

  4. Cartas de Iwo Jima, Clint Eastwood (Letters from Iwo Jima, 2006);

  5. As Canções de Amor, Christophe Honoré (Les Chansons d’Amour);

  6. Livro Negro, Paul Verhoeven (Zwartboek, 2006);

  7. Mysterious Skin, Gregg Araki (2004);

  8. Bug, William Friedkin (2006);

  9. Pecados Íntimos, Todd Field (Little Children, 2006);

  10. Half Nelson – Encurralados, Ryan Fleck (Half Nelson, 2006).

Menções honrosas

  • Alpha Dog, Nick Cassavetes (2006) – um filme violento sobre a degenerescência da actual geração adolescente americana, à boa maneira de um Larry Clark com menos exibicionismo fálico, com excelentes interpretações: Timberlake é uma agradável surpresa;
  • Next – Sem Alternativa, Lee Tamahori (Next) – um filme arquetípico da máquina de sonhos chamada Hollywood: imaginativo, entretenimento na sua acepção mais pura;
  • Paranóia, D.J. Caruso (Disturbia) – surpreendente, um bom thriller, com algumas reminiscências hitchcockianas, e depois, o que dizer de Sarah Roemer?...
  • Super Baldas, Greg Mottola (Superbad) – uma das melhores comédias de adolescentes dos últimos anos, sem grande orçamento, sem grandes truques de realização e com um argumento genial.

Fiascos (por vezes com o mérito de incitar a pura náusea)

  • Ao Anoitecer, Lajos Koltai (Evening) – definitivamente, Michael Cunningham parece teimar em prosseguir o caminho da auto-imolação em favor do melodrama de plástico ou da literatura light: muita choradeira e choque emocional sem a fibra e a consistência de um bom argumento de suporte, adaptado neste caso de um romance menor de uma escritora que vai definhando, Susan Minot, um filme de quinta categoria a puxar à novela venezuelana – sem dúvida, entre os que vi, o pior filme do ano;
  • Assalto e Intromissão, Anthony Minghella (Breaking and Entering, 2006) – exige um Minghella de novo concentrado apenas na arte que o celebrizou, a realização;
  • O Bom Alemão, Steven Soderbergh (The Good German, 2006) – um terrível pastiche de Curtiz (Casablanca, 1942), de Welles e do filme negro americano; a cena final nem ao diabo lembraria na tentativa de profanação de uma obra-prima do Cinema, mas dizem que é cinema experimental...
  • A Estranha em Mim, Neil Jordan (The Brave One) – não terá sido realizado por um impostor que se fez passar pelo admirável realizador irlandês?
  • Peões em Jogo, Robert Redford (Lions for Lambs) – irritantemente panfletário;
  • Rescue Dawn – Espírito Indomável, de Werner Herzog (Rescue Dawn, 2006) – más interpretações, um filme aos solavancos, elíptico, uma sucessão de planos sem raccord, uma autêntica manta de retalhos em filme.

Neutro (ou simplesmente inócuo)

  • Lady Chatterley, Pascale Ferran (2006) – quando vi este filme rememorei um certo passado em que parecia anunciar-se o inexorável declínio do cinema europeu. Planos perfeitos, filme de actores, a espaços introspectivo, porém arrítmico e entediante.

Não vistos (susceptíveis de influenciar as escolhas finais)

  • O Bom Pastor, Robert DeNiro (The Good Shepherd, 2006);
  • Censurado, Brian De Palma (Redacted);
  • Gangster Americano, Ridley Scott (American Gangster);
  • A Morte do Sr. Lazarescu, Cristi Puiu (Moartea domnului Lazarescu, 2005);
  • Paranoid Park, Gus Van Sant;
  • As Vidas dos Outros, Florian Henckel von Donnersmarck (Das Leben der Anderen, 2006).

Nota: Livros, amanhã (se me deixarem).

sábado, 29 de dezembro de 2007

Soundtrack

Há quem diga, de forma deselegante – normalmente, o orgulhoso da piada própria –, que se trata do estudo escatológico de tão odorífera e fisiológica ventosidade humana por recurso à função auditiva.

[As minhas desculpas pela veia boçal que teimo em esconder, mas que se manifesta com especial acuidade quando as férias natalícias me roubam tempo ao ter de cuidar da minha desinquieta e hiperactiva prole.]

Retomando…
O Luís – uma das duas
agradáveis surpresas blogueiras da segunda metade de 2007 – desafiou-me a postar as minhas cinco bandas sonoras de filmes preferidas.
O desafio é complicado para qualquer cinéfilo. Desde logo, há uma dificuldade de natureza adjectiva: BS Original ou respigada? Ainda dificultado por aquelas que poderemos facilmente situar em ambos os campos.
Depois, existe o eterno dilema da separabilidade da banda sonora do filme, isto é, ouvi-la enquanto produto dissociável da obra cinematográfica, despejada da sua natureza plástica e simbólica. Por muito boa que seja a música, será que existe uma perfeita simbiose com a acção filmada e materializada na película? Dava pano para mangas...
Bom, deixando-me de filosofias de vão de escada – e que bom é poder empregar esta horrível expressão sem falar de aborto –, resolvi, em consequência do supra-referido, criar duas listas com as minhas bandas sonoras preferidas, de acordo com a presença ou não do qualificativo “original”.

Banda Sonora Original (por ordem alfabética)

  • África Minha (Out of Africa, 1985), John Barry – realizado por Sydney Pollack;
  • Drácula (Dracula, 1992), Wojciech Kilar – realizado por Francis Ford Coppola;
  • O Padrinho (Godfather, 1972), Nino Rota – realizado por Francis Ford Coppola;
  • Paris, Texas, (1984), Ry Cooder – realizado por Wim Wenders;
  • As Virgens Suicidas (The Virgin Suicides, 1999), Air – realizado por Sofia Coppola.

Banda Sonora (por ordem alfabética)

  • Amadeus (1984) – realizado por Milos Forman;
  • Lost Highway – Estrada Perdida (Lost Highway, 1997) – realizado por David Lynch;
  • Pulp Fiction (1995) – realizado por Quentin Tarantino;
  • Trainspotting (1996) – realizado por Danny Boyle;
  • O Último Contrato (Grosse Pointe Blank, 1997) – realizado por George Armitage.

Duas listas entre tantas que poderia fazer de imediato, e muitas outras cujos filmes decerto me lembrarei mais tarde, lamuriando-me seguramente pela não inclusão.

E com isto tudo, vou atrasando as listas prometidas (está difícil, sobretudo, escolher 10 do conjunto de 20 livros editados em 2007 com a classificação máxima; nos filmes as combinações possíveis para a lista final são, ainda assim, menores).

Ah, e já me esquecia (à hora de publicação). Desafio o
Francisco Valente, o Luís M. Jorge, o Luís Miguel Oliveira, o Pedro Correia e o Sérgio Lavos a postarem as suas preferências.

sexta-feira, 28 de dezembro de 2007

O Melhor de 2007: Música


De acordo com o prometido, deixo aqui ficar a lista dos melhores álbuns de música produzidos em 2007, seguindo-se apenas o critério do gosto pessoal, susceptível e possivelmente afastado de qualquer cânone musical doutrinado por qualquer musicógrafo, musicólogo ou simples melómano assoberbado.
Sem mais comentários, eis a lista dos melhores álbuns de 2007 por ordem de preferência:

  1. Radiohead – In Rainbows
  2. The National – Boxer
  3. Electrelane – No Shouts, No Calls
  4. Arctic Monkeys – Favourite Worst Nightmare
  5. LCD Soundsystem – Sound of Silver
  6. Air – Pocket Symphony
  7. Blonde Redhead – 23
  8. Arcade Fire – Neon Bible
  9. Nine Inch Nails – Year Zero
  10. Black Francis – Bluefinger

Desilusões:

  • Desilusão precoce: InterpolOur Love to Admire;

  • Desilusão por exaustão: Smashing PumpkinsZeitgeist;

  • Pseudodesilusão (porque nunca houve ilusão prévia): The White StripesIcky Thumps;

  • Desilusão “Só para contrariar”: Bloc PartyA Weekend in the City;

  • Falsa desilusão (por pura aversão à coquetterie ostentadora, passe a redundância, na blogosfera lusa): Rufus Wainwright – Release the Stars;

  • Auto-ilusão ou “chama acesa” (descontextualizado): em 2008, figurará finalmente música portuguesa no meu Top 10 (aviso: no campo relativo ao ano tenho vindo a seguir o método “fill in blanks”).

Notas: em breve, Livros e Filmes (Top 10).


quinta-feira, 27 de dezembro de 2007


O Fernando Dinis disponibiliza, uma vez mais de forma gratuita, a sua arte na blogosfera. Trata-se do seu álbum Piano Works (para mais informações seguir esta ligação).

Parabéns, Fernando.

segunda-feira, 24 de dezembro de 2007

Feliz Natal

Frank Sinatra e Bing Crosby (Natal de 1957) cantam as lendárias "The Christmas Song" (Tormé/Wells) e "White Christmas" (Irving Berlin, 1954):

Chestnuts roasting on an open fire
Jack Frost nipping at your nose
Yuletide carols being sung by a choir
And folks dressed up like eskimos

Everybody knows some turkey and some mistletoe
Help to make the season bright
Tiny tots with their eyes all aglow
Will find it hard to sleep tonight

They know that Santa's on his way
He's loaded lots of toys
And goodies on his sleigh
And every mother's child is gonna spy
To see if reindeer really know how to fly

And so, I'm offering this simple phrase
To kids from one to ninety-two
Although it's been said
Many times, many ways
Merry Christmas to... You!

("The Christmas Song"; Letra & Música: Mel Tormé & Bob Wells, 1944; imortalizada por Nat King Cole.)

Uma pista...


Fincher /// Tóibín /// Yorke

domingo, 23 de dezembro de 2007

Peste Bubónica

Anton Chigurh por Javier Bardem
– How well do you know Chigurh?
– Well enough.
– That's not an answer.
– What do you want to know?
– I'd just like to know your opinion of him. In general. Just how dangerous is he?
– Compared to what? The bubonic plague? He's bad enough that you called me. He's a psychopathic killer but so what? There's plenty of them around.
– He killed three men in a motel in Del Rio yesterday. And two others at that colossal goatfuck out in the desert.
– Okay. We can stop that.
– You seem pretty sure of yourself. You've led something of a charmed life haven't you Mr. Wells?
– In all honesty I can't say that charm has had a whole lot to do with it.

2007 Best Film of the Year – The National Board of Review (em 5/Dez/2007).


E, a talho de foice*, o Top 10 da NBR (os 10 que se seguem, por ordem alfabética do título em português, caso exista):
  • O Assassínio de Jesse James pelo Cobarde Robert Ford (The Assassination of Jesse James by the Coward Robert Ford, realizado por Andrew Dominik);
  • The Bucket List (realizado por Rob Reiner);
  • Expiação (Atonement, realizado por Joe Wright);
  • Juno (Juno, realizado por Jason Reitman);
  • The Kite Runner (realizado por Marc Forster);
  • O Lado Selvagem (Into The Wild, realizado por Sean Penn);
  • Lars and the Real Girl (realizado por Craig Gillespie);
  • Michael Clayton - Uma Questão de Consciência (Michael Clayton, realizado por Tony Gilroy);
  • Sweeney Todd: O Terrível Barbeiro de Fleet Street (Sweeney Todd, realizado por Tim Burton);
  • Ultimato (The Bourne Ultimatum, realizado por Paul Greengrass).

*expressão postada a título terapêutico e profiláctico.

sábado, 22 de dezembro de 2007

Quem tem medo de Lobo Antunes?

Com muita pena minha, os últimos romances de António Lobo Antunes deixaram de ser os meus livros. E o último, O meu nome é Legião, afigurou-se-me como um verdadeiro suplício para a leitura, tal como anterior Ontem não te vi em Babilónia.
No entanto, fica a mente brilhante, porém torturada, do homem que escreveu o portentoso Os Cus de Judas, numa das melhores entrevistas dadas por António Lobo Antunes nos últimos tempos, conduzida de forma superior por Mário Crespo (não obstante o "fica-se grato perante alguém que nos salvou a vida?").
Eis o, apesar de tudo e com a firme convicção daquilo que vou referir, melhor escritor português vivo:


sexta-feira, 21 de dezembro de 2007

O que aí vem: Música

Parte imprescindível, em lugar de destaque, da lista dos meus 10 álbuns musicais favoritos de 2007…




You didn’t know where to go
Walking around in this flag-waving town
I saw you waiting for a train
And you disappeared
Your face pressed up to the window
You went so far away
And I want to come there too
I want to be with you

(…)

L'ambiente*


Ontem, para execração dos ecologistas e até ao arrepio da minha própria consciência ambiental, fui de carro à estação de metro da Trinità, Palermo, logo Porto. Ora, se no plano teórico esse acto se nos afigura como um evidente e chocante absurdo; na prática, surge quase como uma inevitabilidade dada a distância considerável que separa a minha casa da estação de metro mais próxima. E, acreditem, a decisão pelo automóvel como solução final para a minha deslocação ao centro da cidade não foi nada fácil, uma vez que, perante todas as hipóteses (metro, autocarro, táxi, carro, helicóptero ou fechar-me em casa), as probabilidades, hoje medonhamente altas, de vir a ser vítima do crime da moda, o carjacking, criaram em mim a semente da dúvida, apenas superada (extirpando-a das entranhas) pelo recurso lynchiano da meditação transcendental. Cheguei à conclusão: mas isso só se passa no Rio de Janeiro… perdão, Lisboa!
Bom, deixando-me de tergiversações e de divagações inanes, desloquei-me à Stazione della Trinità porque aí decorria, por organização da empresa Metro de Palermo… perdão, do Porto, a Festa do Livro: uma tenda montada junto à estação de metro que alberga centenas de títulos com descontos que, na maioria dos casos, ultrapassa e muito a metade do preço normal de venda.
Para meu grande choque, confirmei de forma inequívoca a tese do
ambiente miasmático em que tudo se passa, o tal milieu palérmico. Encontrava-me a meio da pesquisa bibliográfica no interior da tenda alva, situada nas traseiras da Câmara do Porto (a irredutível, sendo o último bastião portuense que pugna pela tolerância, liberdade de expressão e espírito de iniciativa) quando sou despertado por um grito a puxar ao uivo perpetrado por uma senhora que apanhou em flagrante delito um ladrão de livros que, prontamente, se esgueirou da tenda com o produto roubado aconchegado no seu pullover (em palerminês). A funcionária, aturdida não tanto pelo roubo, como pelo grito burlesco da senhora (que talvez seja membro efectivo de uma milícia urbana ou de uma organização paramilitar de donas de casa comprometidas com o miasma camorrista), não conseguiu apanhar o meliante, até porque se encontrava sozinha, disse. Mas o choque final estava ainda para vir, à pergunta da funcionária qual o livro que o patifório havia subtraído da tenda de natal, a freguesa miliciana disse: «Foi este. O do Pinto da Costa.»
A funcionária respondeu: «Oh, pronto, se foi o do Pinto da Costa, menos mal…» [risos de orgulho tripeiro da restante freguesia, em que me incluía, embora esquecendo ou descurando o atentado à propriedade intelectual pelos royalties que JNPC deixou de receber]**.

Estamos no tal meio onde vigoram a impunidade e a harmoniosa coabitação com o crime, para além, é claro, do terror dos Super Dragões, do FC Porto e do JNPC, e o medo de corporações como o PS, os Juízes, os procuradores, os inspectores da Polícia Judiciária, todos do Porto, e isto no país dos “furacões”, das passerelles, da pedofilia, do carjacking, dos carros armadilhados, dos neonazis do PNR que militam nas claques lisboetas… e até já há
jornais de tendência cazaquistanesa.

Notas:
* Título em italiano, língua oficial de Palermo.
** O caso relatado na Festa do Livro na Trindade é verídico. Ocorreu ontem, pelas 15 horas. Eu fui testemunha ocular dos eventos subsequentes à subtracção livresca.

O da Boa Memória

Arena AufSchalke - Gelsenkirchen (Alemanha)
Schalke 04 - FC Porto

quinta-feira, 20 de dezembro de 2007

Para breve


[Aviso: Exercício de produção de expectativas, com fins digna e impudicamente propagandistas, para engrandecimento do número médio de leitores deste blogue – eu, um auto-iludido que há dois anos gravita pela blogosfera, sei que as minhas preferências vos interessam. Previsão do impacto: aumento do número médio de visitantes por dia de 8 ½ (cifra felliniana) para 11 ¾ (permitisse a vida, uma boa hora para despertar). Nota técnica: as médias são representadas em fracção em consequência da índole americanófila deste espaço.]

Divulgarei as obrigatórias listas de fim de ano, que irão exibir, de forma ostensiva, as preferências deste blogue (essa entidade abstracta que me vem dominando de forma impiedosa) em três áreas da manifestação artística: Cinema, Música e Literatura. No entanto, a lista dos melhores livros de 2007, cujo grau de imprevisibilidade foi progredindo para a inexistência (atente-se na coluna do lado direito), apenas será revelada no fim deste ano ou no início do próximo, como efeito imediato do processo de leitura em curso.

Haja tempo e paciência.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2007

At Last the Secret is Out

At last the secret is out, as it always must come in the end,
The delicious story is ripe to tell to the intimate friend;
Over the tea-cups and in the square the tongue has its desire;
Still waters run deep, my dear, there's never smoke without fire.

Behind the corpse in the reservoir, behind the ghost on the links,
Behind the lady who dances and the man who madly drinks,
Under the look of fatigue, the attack of migraine and the sigh
There is always another story, there is more than meets the eye.

For the clear voice suddenly singing, high up in the convent wall,
The scent of the elder bushes, the sporting prints in the hall,
The croquet matches in summer, the handshake, the cough, the kiss,
There is always a wicked secret, a private reason for this.
W. H. Auden, "VIII: At last the secret is out", Twelve Songs (1936)

[Talvez uma profecia, ou então uma desejo ardente, se haja finalmente materializado. A 8.ª canção de Auden é a última de No Promises de Carla... Todavia, há uma perceptível divergência que não se aplica a uma possível inversão do género – esse, por ambas as vozes, é o mesmo –, apenas agora, depois do fogo desvelado, muito fumo negro, opaco e sufocante será impiedosamente levantado.]

terça-feira, 18 de dezembro de 2007

On not winning the Nobel Prize

Doris LessingPor motivos de saúde Doris Lessing não compareceu à sessão solene de entrega dos Prémios Nobel de 2007, realizada em Estocolmo na passada segunda-feira, dia 10 de Dezembro. No entanto, a escritora britânica, nascida em 1919 na antiga Pérsia, enviou a prelecção (ou oração de sapiência) Nobel, parte integrante e indispensável do ritual dos galardões desde a sua fundação em 1901.
A prelecção de Lessing intitula-se “On not winning the Nobel Prize”, disponibilizada a 7 de Dezembro.
Sou franco, nunca li um livro de Doris Lessing, apesar de, a priori, lhe conhecer alguns dos seus traços biográficos mais marcantes – facto que, essencialmente, ficou a dever-se ao seu rutilante activismo literário –, conhecimento que aprofundei após a entrega do galardão no passado dia 11 de Outubro.
Li o texto, e lembrei-me da prelecção de Auster proferida a 23 de Outubro do ano passado na sessão de atribuição do Prémio Príncipe das Astúrias para as Letras de 2006, quando refere «Que sentido tem a arte, em particular a arte de contar histórias, no tal mundo real? Nenhum que me ocorra agora – pelo menos num sentido prático da coisa. Um livro nunca encheu o estômago de uma criança faminta.» (texto na íntegra,
traduzido por mim e publicado neste blogue em jeito de comemoração no dia em que Paul Benjamin Auster completou 60 anos).
Lessing pega no mesmo tema, introduz-lhe o sabor das histórias que povoaram o seu imaginário em terras africanas*, e, no seu final, narra a fabulosa história ficcionada de uma rapariga negra que, no meio da miséria provocada por um longo período de seca em África, enquanto aguarda numa fila de espera, ao pó e com os seus dois filhos pendurados nas suas vestes, para que um indiano lhe encha de água a vasilha que transporta, lê extasiada um fragmento de Anna Karénina de Tolstói... E de onde veio esse fragmento? Um simples pedaço de uma obra-prima da literatura universal poderá mudar uma vida?

Ler
aqui (em inglês) a excepcional e comovente prelecção de Lessing. A ela, à autora, prometo que irei voltar sob a forma da narrativa longa (vencida a barreira...)

Nota: *Lessing, no decurso do texto, aconselha os jovens escritores a não desistir perante a voracidade mediática do mercado literário nos tempos que correm, e diz:

«E nós, os velhos, apetece-nos sussurrar nesses ouvidos inocentes. “Ainda manténs o teu espaço? O teu solo, o teu lugar único e essencial onde as tuas próprias vozes te poderão falar, a ti sozinho, onde poderás sonhar. Oh, agarra-te a isso, não o deixes escapar.”» Doris Lessing, On not winning the Nobel Prize. Stockholm: Nobel Lecture, December 7, 2007. [tradução livre: AMC]

segunda-feira, 17 de dezembro de 2007

Tolerância. Coexistência.


Enquanto Tarik agradecia a Alá, na baliza oposta Helton erguia os braços para o Céu.
O Meio também se faz de tolerância...

domingo, 16 de dezembro de 2007

147, The Rocket

Igualou a marca de Stephen Hendry, 8 tacadas máximas (147 pontos).
«Touch of greatness!», they say.

[via A Causa Foi Modificada]

sábado, 15 de dezembro de 2007

Globos de Ouro 2008


A antecâmara, segundo dizem (argumentum ad nauseam).

Melhor Filme – Drama:

  • Expiação (Atonement), realizado por Joe Wright, nomeado para a categoria de Melhor Realizador – [estreia em Portugal: 17/Janeiro/2008]
  • Gangster Americano (American Gangster), realizado por Ridley Scott, nomeado para a categoria de Melhor Realizador – [em cartaz]
  • Michael Clayton - Uma Questão de Consciência (Michael Clayton), realizado por Tony Gilroy – [estreia em Portugal: 17/Janeiro/2008]
  • No Country For Old Men, realizado por Joel e Ethan Coen, nomeados para a categoria de Melhor Realizador – [sem data de estreia]
  • Promessas Perigosas (Eastern Promises), realizado por David Cronenberg – [em cartaz]
  • The Great Debaters, realizado por Denzel Washington – [sem data de estreia]
  • There Will Be Blood, realizado por Paul Thomas Anderson – [sem data de estreia]

Sessão de entrega (65.ª edição – 2008): 13 de Janeiro, Beverly Hilton Hotel (14 de Janeiro, 1 da manhã, hora de Lisboa).

Restantes categorias: consultar a página da Hollywood Foreign Press Association.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2007

Tiro de partida: Maratona

Provavelmente, o livro na imagem será o último dos editados em 2007 que irá ser objecto de apreciação aqui neste blogue. São 895 páginas quase desprovidas de parágrafos, carregadas de caracteres que formam palavras esparsamente visíveis a olho nu.
Inicia-se a maratona literária cujos primeiros vestígios da linha de meta serão talvez divisados nas cercanias da consoada, tudo dependerá da minha condição física e espiritual ao quilómetro trinta
Até lá, com alguma hipótese de cumprimento, e sem que disso se faça uma promessa política – leia-se mentira –, divulgarei as minhas notas de prova sobre o confuso e atarantado Homem em Queda de DeLillo e do empolgante Aprender a rezar na Era de Técnica, escrito pelo talentoso e incansável, nas imediações de Borges – é a minha opinião –, Gonçalo M. Tavares. Na realidade, o último livro da tetralogia "O Reino" é uma obra a roçar a perfeição, pela profundidade da reflexão, pela genialidade do simbolismo e, sobretudo, pelas suas originalidade e criatividade; porventura, face ao actual panorama das letras lusas, tratar-se-á de um romance inigualável nos tempos mais próximos – infelizmente, Agustina não é eterna...



«(…) as únicas coisas indispensáveis à vida humana são o ar, o comer, o beber e a excreção, e a busca da verdade. O resto é facultativo.»
Jonathan Littell, As Benevolentes (Dom Quixote, 1.ª ed., pág. 13; trad. Miguel Serras Pereira).

O Sol Vermelho dos Nossos Corações

Quando o abrupto Moralista do Regime Pacheco Pereira solta o seu cão raivoso não há ninguém que se vanglorie, por puro temor, de uma supostamente alcançada prerrogativa da imunidade contra a raiva: a próxima diatribe (ou mordedura), fabricada com uma periodicidade quase certa pela sua afinada e mirabolante roleta da maledicência, poderá atingi-lo a si e em cheio.
Normalmente são as audiências e o ufanismo, esta última característica advinda da presumida condição de pai da blogosfera, achando-se no direito de repreender os seus filhos sempre que reputa determinada conduta como uma grave derrogação ao seu código normativo de estrita observância – que não se conhece devido a uma alegada instabilidade emocional ou volatilidade opinativa –, que o fazem salivar por sangue. Insurge-se até com as audiências dos blogues pornográficos, esse obstáculo quase intransponível, popularizado por uma sociedade doente, longe do decoro asséptico da sua doutrina, o grande impedimento para a consecução da sua deificação plena e consequente subjugação, pela força da moral, dos seus súbditos ou prosélitos. Esquece-se, porém, que a única diferença entre si e, por exemplo, esses que ataca reside na manifestação expressa da índole pornográfica dos espaços que gerem: a pornografia tácita – a intelectual – é superiormente sórdida, podre e danosa.

Palavras a mais sobre alguém que, de peito cheio pela soberba, pretende agitar as águas para manter ou expandir a notoriedade.

Oremos:

quinta-feira, 13 de dezembro de 2007

De Palermo a Banguecoque


Na imagem La Via dei Chierici na Città di Oporto, Palermo (Sicília) segundo Pacheco Pereira.
Abstenho-me de enumerar os variadíssimos indicadores susceptíveis de explicar o clima de miséria e de insegurança que martiriza a minha cidade (onde nasci, onde ainda vivo e onde um dia, espero, serei enterrado), fenómeno cuja transversalidade ultrapassa, e muito, o universo do futebol – actividade que, ultimamente, tem servido de escudo ao verdadeiro combate à corrupção e ao crime de colarinho branco em Portugal.

Seguindo a florescente linha da indigência intelectual, poderia afirmar que o poder político e as forças vivas da região da Grande Lisboa, Os Super Papões, permitiram, com um sorriso cúmplice nos lábios, a prática reiterada do abuso sexual de menores e o tráfico de carne branca, transformando Lisboa na capital dos prazeres carnais – já para nem falar das bombas que por aí vão rebentando… ainda chega a Bagdade, antes de se certificar como Banguecoque.

Afinal, de Palermo (per proteggere…) a Banguecoque (come inside, no cover charge…) são apenas trinta minutos de viagem, tempo médio despendido pelo comentador político nacional (a classe) no estudo e na reflexão dos assuntos sobre que discorre – propensão média para o pensamento asinino.

terça-feira, 11 de dezembro de 2007

Natal para revisionistas: uma oportunidade

Duas sugestões para abandonar de vez Os Protocolos… e talvez aproveitável para espantar em definitivo os fantasmas de uma vida pessoal e familiar miserável que, normalmente, se transmuta em letra de ódio na blogosfera. São cerca de 1400 páginas para a iniciar o trilho da redenção:

  1. Leni – A Vida e Obra de Leni Riefenstahl, de Steven Bach (Leni: The Life and Work of Leni Riefenstahl, 2007), edição Casa das Letras (na imagem), com prefácio de João Lopes.
  2. As Benevolentes, de Jonathan Littell (Les Bienveillantes, 2006), vencedor do Goncourt 2006, edição das Publicações Dom Quixote – sobre o livro, escrevi esta breve nota no defunto Porque.


«Art is moral in that it awakens.»
Thomas Mann, The Magic Mountain (Der Zauberberg, 1924)


A arte é moral naquilo que desperta.», trad. Óscar Mascarenhas. Creio que a mensagem, assim traduzida para a nossa língua, perde parte da sua potência sentenciadora, embora seja evidente a necessária fuga à perífrase, que, em definitivo, destruiria essa nobre capacidade. Deixo o assunto à discussão dos especialistas...)