sexta-feira, 14 de dezembro de 2007

O Sol Vermelho dos Nossos Corações

Quando o abrupto Moralista do Regime Pacheco Pereira solta o seu cão raivoso não há ninguém que se vanglorie, por puro temor, de uma supostamente alcançada prerrogativa da imunidade contra a raiva: a próxima diatribe (ou mordedura), fabricada com uma periodicidade quase certa pela sua afinada e mirabolante roleta da maledicência, poderá atingi-lo a si e em cheio.
Normalmente são as audiências e o ufanismo, esta última característica advinda da presumida condição de pai da blogosfera, achando-se no direito de repreender os seus filhos sempre que reputa determinada conduta como uma grave derrogação ao seu código normativo de estrita observância – que não se conhece devido a uma alegada instabilidade emocional ou volatilidade opinativa –, que o fazem salivar por sangue. Insurge-se até com as audiências dos blogues pornográficos, esse obstáculo quase intransponível, popularizado por uma sociedade doente, longe do decoro asséptico da sua doutrina, o grande impedimento para a consecução da sua deificação plena e consequente subjugação, pela força da moral, dos seus súbditos ou prosélitos. Esquece-se, porém, que a única diferença entre si e, por exemplo, esses que ataca reside na manifestação expressa da índole pornográfica dos espaços que gerem: a pornografia tácita – a intelectual – é superiormente sórdida, podre e danosa.

Palavras a mais sobre alguém que, de peito cheio pela soberba, pretende agitar as águas para manter ou expandir a notoriedade.

Oremos:

quinta-feira, 13 de dezembro de 2007

De Palermo a Banguecoque


Na imagem La Via dei Chierici na Città di Oporto, Palermo (Sicília) segundo Pacheco Pereira.
Abstenho-me de enumerar os variadíssimos indicadores susceptíveis de explicar o clima de miséria e de insegurança que martiriza a minha cidade (onde nasci, onde ainda vivo e onde um dia, espero, serei enterrado), fenómeno cuja transversalidade ultrapassa, e muito, o universo do futebol – actividade que, ultimamente, tem servido de escudo ao verdadeiro combate à corrupção e ao crime de colarinho branco em Portugal.

Seguindo a florescente linha da indigência intelectual, poderia afirmar que o poder político e as forças vivas da região da Grande Lisboa, Os Super Papões, permitiram, com um sorriso cúmplice nos lábios, a prática reiterada do abuso sexual de menores e o tráfico de carne branca, transformando Lisboa na capital dos prazeres carnais – já para nem falar das bombas que por aí vão rebentando… ainda chega a Bagdade, antes de se certificar como Banguecoque.

Afinal, de Palermo (per proteggere…) a Banguecoque (come inside, no cover charge…) são apenas trinta minutos de viagem, tempo médio despendido pelo comentador político nacional (a classe) no estudo e na reflexão dos assuntos sobre que discorre – propensão média para o pensamento asinino.

terça-feira, 11 de dezembro de 2007

Natal para revisionistas: uma oportunidade

Duas sugestões para abandonar de vez Os Protocolos… e talvez aproveitável para espantar em definitivo os fantasmas de uma vida pessoal e familiar miserável que, normalmente, se transmuta em letra de ódio na blogosfera. São cerca de 1400 páginas para a iniciar o trilho da redenção:

  1. Leni – A Vida e Obra de Leni Riefenstahl, de Steven Bach (Leni: The Life and Work of Leni Riefenstahl, 2007), edição Casa das Letras (na imagem), com prefácio de João Lopes.
  2. As Benevolentes, de Jonathan Littell (Les Bienveillantes, 2006), vencedor do Goncourt 2006, edição das Publicações Dom Quixote – sobre o livro, escrevi esta breve nota no defunto Porque.


«Art is moral in that it awakens.»
Thomas Mann, The Magic Mountain (Der Zauberberg, 1924)


A arte é moral naquilo que desperta.», trad. Óscar Mascarenhas. Creio que a mensagem, assim traduzida para a nossa língua, perde parte da sua potência sentenciadora, embora seja evidente a necessária fuga à perífrase, que, em definitivo, destruiria essa nobre capacidade. Deixo o assunto à discussão dos especialistas...)

domingo, 9 de dezembro de 2007

Filmar com... scanner

Christopher Orr, crítico de cinema da The New Republic, escreve sobre a adaptação cinematográfica de um dos melhores romances de sempre – opinião pessoal e dificilmente alterável por mais tempo que a vida me reserve. Atonement de Ian McEwan estreou ontem no grande ecrã nos Estados Unidos, realizado por Joe Wright, com argumento a cargo do luso-britânico Christopher Hampton e com as interpretações da insossa delicodoce Keira Knightley (no papel de Cecilia Tallis), do ainda duvidoso James McAvoy (no papel de Robbie Turner) e com Vanessa Redgrave (interpretando Briony Tallis na sua fase mais angustiante e dilacerante, e isto aplica-se a qualquer leitor com um mínimo de sensibilidade, ou seja, "acima da Stallone").
Orr começa o seu artigo de forma irónica, embora formalmente errada pela contagem de palavras que “1935”, um número, atrapalha: «Atonement opens in 1935, at a stately manor in the English countryside. (Have I just explained in a dozen words why it will be nominated for Best Picture? Perhaps I have.)» (dispenso-me à tradução).
Possivelmente, vem aí uma decepção para os mcewanianos (grupo em que me incluo sem reservas) ou para os avassalados por Expiação.
Sem querer passar por um agoirento de quinta categoria, ou então, um daqueles que esperam por opinião validada para conformar a sua, cedo desconfiei deste produto cinematográfico: Wright e Knightley, Orgulho e Preconceito, pretensão de chegar ao “patamar Ivory” num filme de época baseado numa obra de romancista consagrado, apesar de Hampton. Em suma, muita beijoquice e toque sensual reprimido, com guarda-roupa a puxar à memória o horrível odor a naftalina, de elocução quase shakespeariana, em jardins soalheiros e luxuriantes.
No subtítulo, Orr diz que «a fidelidade canina [do realizador] a um grande livro não faz um grande filme». E mais adiante, no corpo do artigo, explica: «O que falta ao filme é a prosa e a ingenuidade de McEwan, cujo literalismo de Wright não consegue alcançar. Ele transcreve fielmente o romance para o ecrã, mas nunca encontra uma linguagem cinematográfica – não, o martelar da máquina de escrever não conta – que poderia fazer do filme algo mais que uma obra de arte em segunda mão, um livro filmado.» [tradução: AMC]

E voltamos uma vez mais ao tema quente da interpenetração da Literatura e do Cinema – o substantivo empregado é o correcto, dada a bidireccionalidade relacional, apesar de aqui se invocar apenas uma das vertentes –, dos graus de liberdade na adaptação de uma obra consagrada ao grande ecrã, redundando sempre no preso por ter cão

Se assim é, é uma pena. E depois, transformar a culpa íntima e perpétua, profunda e pungente, de Briony, a alma da obra-prima de McEwan, num processo expiatório dentro de um talk show televisivo é no mínimo burlesco, para não dizer profano, especialmente quando se abusa do literalismo adaptativo.

Entretanto, as vacas, esses bichos ruminantes impenitentes, continuarão a pastar celulóide nas colinas de Hollywood.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2007

Um cordeirinho por leão

Robert Redford, Peões em Jogo (Lions for Lambs, 2007)
Robert Redford fala, contesta, reivindica, vocifera… mas não faz, não consegue, não pode e não tem fôlego para realizador, é uma perfeita nulidade. É um desperdício...
Em suma, para quem exibe, e se gaba de, toda a sua fúria leonina, só consegue chegar à inocência seráfica de um cordeirinho desprotegido, inutilizando a arma, habitualmente letal, da arte panfletária, e numa ironia haraquiriana pondo-se a jeito, sem esforço da contraparte, dos lobos (ou falcões) famélicos que critica.
O trio Redford, Streep & Cruise não é necessariamente sinónimo de qualidade, apesar dos auspícios político-hollywoodianos para os Óscares 2008 – cerimónia de entrega a realizar no próximo dia 25 de Fevereiro, no Kodak Theatre.
Sem ritmo, sem génio e verdadeiramente kitsch.

Ah, e que bem me souberam aqueles momentos em que, de forma intermitente, ia passando pelas brasas – o meu agradecimento aos responsáveis pela climatização das salas de cinema UCI (ex-AMC).

quinta-feira, 6 de dezembro de 2007

Brutalidades – II

[Intróito: tal como havia prometido, apesar do imenso atraso devido a uma pequena turbulência emocional, eis a 2.ª e última parte do tema “Brutalidades”, aberto sábado passado com o livro de Cormac McCarthy]

Promessas Perigosas de David CronenbergCresci a ver filmes de Cronenberg. É verdade, parece tortuoso ou eventualmente deformatório num processo salutar de construção e aperfeiçoamento da personalidade.
Ainda era adolescente na fase pós-púbere, com as excedentárias, e agora irrecuperáveis, reservas de tempo e uns parcos escudos para as sessões diárias de filmes em reposição no extinto Cinema Terço – quando aqueles me escapavam durante a denominada época comercial –, ou ainda carregando as monstruosas e inestéticas cassetes de VHS que alugava nos outrora cogumélicos clubes de vídeo, e não havia um único filme realizado pelo cineasta canadiano que não passasse pelos meus olhos de jovem cinéfilo – de qualidade ou não, isso pouco importa, na altura idolatrava John Carpenter, imagine-se.
Cronenberg, com a precisão de um relógio suíço – daqueles exorbitantemente caros –, consegue assolar-me através de uma súbita emergência síncrona de sentimentos paradoxais, culminando numa amálgama indescritível de "efeitos de prova" mutuamente exclusivos.
Cronenberg é horror, náusea, fascínio e encanto. Desde o devaneio de um opiómano com baratas falantes inspirado numa estranho romance autobiográfico de Burroughs; passando pela mais horrorosa forma de suicídio que uma mente atormentada pode conceber, bater com a própria cabeça, com a boca aberta, numa tesoura cravada no lavatório, esta última perversidade baseada num thriller de Stephen King; indo ao estranho fascínio por membros estropiados, cicatrizes colossais e corpos retalhados em acidentes de viação de Ballard; até a um útero trifurcado e uns arrepiantes e bizarros instrumentos ginecológicos de invasão. Apesar de tudo e de alguma coisa mais, Cronenberg possui o dom raro da indução da repugnância suprema no espectador ao mesmo tempo que, pela mão invisível da vivacidade da trama e da destreza cénica, o agarra sem redenção à cadeira – embora, para ser franco, tenha de referir que foi com Festim Nu de Cronenberg que inaugurei um dos raríssimos momentos na minha já longa experiência de espectador de cinema: abandonei a sala a meio da projecção do filme por pura náusea.

Promessas Perigosas, chamaram-lhe assim os habitualmente originais nomeadores portugueses, é o seu filme mais recente – Eastern Promises, estreou na passada quinta-feira nas salas de cinema portuguesas.
Neste filme, Cronenberg volta a apostar no realismo do quotidiano de degradação e de violência que enxameia sociedades contemporâneas do mundo ocidental. Se em Uma História de Violência (A History of Violence, 2005) a fábula da mundanidade e da perversão é transversal a um território que se uniformiza, jogando na interpenetração do rural e do urbano ou na diluição das fronteiras entre o local de refúgio e a inescapável montra citadina da fraqueza humana, em Promessas Perigosas Cronenberg muda o eixo para a colossal Londres e para o recrudescimento da rivalidade e da violência entre grupos rivais pertencentes ao submundo das máfias da Europa de Leste, que se digladiam ostensivamente numa guerra sem quartel nas ruas da grande metrópole, e cujos fulgor e expansão assentam na mesmíssima fragilidade ocidental, enredada na defesa cega e intransigente dos direitos, liberdades e garantias dos cidadãos.
Neste filme, o cineasta canadiano, que parece haver recriado o paradigma performativo do bom vilão – cínico, cerebral, insuspeito, um bloco de gelo em ebulição interior e... mestre de artes marciais –, volta a apostar em Viggo Mortensen para protagonista, conduzindo, desta vez, a cândida, terna e lynchiana Naomi Watts para o confronto amoroso, com um lirismo explícito quase inédito nas obras do realizador.
Sobre Mortensen não há muito a dizer, está talhado para aquele papel de inexpressividade facial, mesmo quando, no ponto mais marcante em termos visuais da película, tem de enfrentar em pelote um duo de assassinos nos banhos públicos – peço perdão aos fãs, mas Mortensen lembra-me Chuck Norris no esplendor da sua cabotinagem. Todavia, Cronenberg parece saber tirar partido disso mesmo, espreme-o até ao tutano cedendo até, neste caso, aos devaneios fílmicos do actor.
Finalmente, na segunda linha encontramos duas interpretações seguras e convincentes: a do actor francês Vincent Cassel no papel do histriónico e perturbado Kirill, e a do actor alemão Armin Mueller-Stahl representando de forma magistral o abominável avozinho russo Semyon, pai do primeiro e líder de uma das facções do grupo mafioso russo Vory V Zakone.
Com Promessas Perigosas ainda não se chegou à intensidade dos aplausos, enérgicos e fervorosos, com que a crítica cinematográfica incensou no ano anterior Uma História de Violência. Classificam-no como um filme menor por comparação ao seu irmão mais velho. Pois, só para contrariar, e servindo-me livremente do recurso da comparação, gostei mais deste, sobretudo dos seus inúmeros pormenores visuais de um vermelho vivo, pulsante, que parecem simbolizar a tal debilidade (ou fraqueza, por definição) da natureza humana.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2007

Tomar Partido [em atraso]

Parabéns atrasados ao Jorge Ferreira pelo 4.º aniversário do seu Tomar Partido.

[imperdoável este esquecimento – que nada teve a ver com questões clubísticas, até porque essas seriam razões apelativas à lembrança, vide sábado –, agravado pela proximidade de datas de aniversário entre os dois blogues. Um bom portista, parabeniza. E fiquemo-nos pelos aniversários...]

terça-feira, 4 de dezembro de 2007

Agradeço

Nós, portugueses, somos um povo tão peculiar… ah, e a nossa língua espelha tão bem a nosso temperamento pátrio.
Pois, “obrigado”, palavra que usada como interjeição significa agradecido, grato: gracias, thank you, grazie, merci, danke, dankzij,…
Mas, obrigado cheira a dever, a imposição, a um acto forçado ou até contrariado, quando muito revela indolência do adimplente para terminar a frase.
Agradecemos com resignação, porque tem de ser… que maçada, obrigado!
Neste momento sinto-me recompensado, e daí não resulta necessariamente uma obrigação, tout court, para agradecer, mas uma viva vontade de retribuir as palavras amáveis e despretensiosas de um conjunto de “amigos invisíveis” – não me conhecem, não sabem o que faço, estou longe das fontes de poder, apenas escrevo desde uma cidade lúgubre, deprimida, que se desertifica e depaupera a um ritmo inexorável; não me podem pedir emprego ou notoriedade, uma cunha ou protecção, apenas amizade que neste pequeno grande mundo, a que se convencionou chamar de blogosfera, se traduz por reciprocidade. Basta isso, apenas isso.
Agradeço aos meus queridos amigos as felicitações que me enviaram pela celebração do 1.º ano de existência deste blogue e dos meus 2 anos a divagar na blogosfera:
André, Carlos, Fátima, Henrique, Lutz, Manel e Paulo.

[agradeço ao Technorati pelos seus serviços… responsabilizando-o no caso de me haver esquecido de alguém.]

domingo, 2 de dezembro de 2007

Facto

Domingo. Uma liturgia. Deambulo pela blogosfera sem destino, sentindo que por aqui se abateu a penúria de escrevente, mesmo de um leve resquício de pulsão criativa que pudesse encher de confiança um ego macerado: já não consigo auto-iludir-me.
Uma reminiscência, no entanto, batia ao de leve nesse campo neuronal devastado. 2 de Dezembro de 2006
É verdade, há um ano iniciava-se a minha peregrinação contumaz pela blogosfera, um ano depois da diletante e sublimada estreia moura-e-cunhiana com o
Porque17 de Dezembro de 2005.
Li algures que o cansaço não é a causa mas o efeito da falta de criatividade e de originalidade. Concordo. Sem vestígios, asseguro-vos, de uma pretendida autoflagelação pública: estou cansado, e não sei aonde me levará este cansaço. Sei que, infelizmente, vai atravessando muitos instantes da minha existência.
Mais um ano...

sábado, 1 de dezembro de 2007

What's the most you've ever lost in a coin toss?

Brutalidades – I

Um livro e um filme (este último, para o capítulo II).

O livro
Cormac McCarthy, esse grandessíssimo autor da sublime escola literária norte-americana contemporânea, novelista que vou aprendendo a admirar, residente no Novo México, nascido em Providence, Rhode Island, em 1933, escreveu um dos melhores romances mascarados de thriller que li nos últimos tempos: Este País Não É para Velhos (No Country for Old Men, 2005).
Com uma economia e uma precisão narrativas, McCarthy constrói uma fábula sobre a perversidade e o apodrecimento humanos provindos de uma decadência, aparentemente irreversível, do outrora admirável Novo Mundo: terra dos bravos e dos homens livres, agora terreno fértil para as elucubrações literárias – alguém disse, e não me lembro quem, que o grau de excelência da Literatura (entendida como profusão de livros e do número de autores coetâneos de altíssima qualidade) representativa de um lugar, de uma região, de um país num dado momento é directamente proporcional ao seu grau de anomia, de desintegração e de desenraizamento sociais.
McCarthy e DeLillo são, neste momento, as vozes literárias que, de forma precisa, testemunham e alertam para essa desolação travestida de um, tão inútil como afanoso, fervor vivencial que invadiu a sociedade americana, cujo destino real – lê-se nas entrelinhas –, quiçá num futuro mais próximo que o conjecturado, poderá ir muito além da ficção, da visão distópica modelada pela obra de arte.
Este País Não É para Velhos é, na sua aparência, uma obra de ficção policial: um frio e calculista assassino, Anton Chigurh, a soldo dos grandes traficantes de droga que operam na fronteira territorial entre os Estados Unidos e o México, e um banal mecânico de província, soldador de peças de automóveis, veterano da guerra do Vietname, Llewelyn Moss, que descobre, enquanto caçava na paisagem desértica da fronteira, uma mala recheada com mais de 2 milhões de dólares, um carregamento de heroína mexicana e um estranho morticínio que apenas deixou um homem moribundo e uns tantos cadáveres espalhados pelo terreno.
Contado assim, o enredo do penúltimo romance de McCarthy não passaria de mais um thriller paraliterário, potencialmente hollywoodiano, pejado de cenas de uma violência gratuita, abordando, com uma reflexão exasperantemente débil e minimalista, a eterna disputa entre o bem e o mal, neste caso transformado no visto e revisto jogo do gato e do rato entre o criminoso e o inocente; em suma, uma história sobre a presciência, a frieza e a sabedoria de um assassino que se empenha numa busca desenfreada para recuperar o dinheiro sujo que foi roubado por um inexperiente e anódino homem da província, com uma vida banal e de escassa inteligência prática.
No entanto, é precisamente aí, nesse jogo de ilusão e de aparência, que reside o desafio que McCarthy lança ao leitor. A lhaneza dos diálogos, o emagrecimento descritivo e a frenética sequência dos factos exigem ao leitor atento, amante das artes literárias, um esforço de desconstrução: ler um subtexto supostamente inexistente, mas que o autor, de forma engenhosa, deixou visível, como o novelo de fio de Teseu que desenrolado o pôde conduzir à saída do labirinto de encontro à sua amada Ariadne.
McCarthy mostra-nos o fio da narrativa através das intervaladas reflexões do velho xerife Ed Tom Bell, ex-combatente da II Guerra Mundial, sobre o envelhecimento e a memória de um passado obscuro que nos persegue – «Ele disse que eu estava a ser demasiado severo comigo mesmo. Disse que era sinal da velhice. Tentar emendar os erros que se cometeram. Se calhar há nisto alguma verdade. Mas não é a verdade toda. Concordei com ele quando disse que não havia muita coisa boa para dizer sobre a velhice e ele disse que tinha descoberto uma e eu perguntei o que era. E ele disse: É que não dura muito.» (pág. 203) –, sobre a inadaptação por um país em que a violência parece tomar conta de vida dos seus filhos, embora, com um mínimo esforço de memória, se possa concluir que toda a sua história foi construída sob o domínio da violência, desde as primeiras investidas territoriais dos primeiros colonos, passando pela Guerra da Secessão, acabando no Vietname (o romance decorre no final da década de 70 do século XX) – «Pensei na minha família e pensei nele, sozinho naquela velha casa, na cadeira de rodas, e dei comigo a pensar que este país tem uma estranha história e bem sanguinolenta, diga-se, chiça.» (pág. 205); «As pessoas dizem que foi o Vietname que pôs este país de rastos. Mas eu nunca acreditei nisso. O país já estava em muito mau estado. O Vietname foi só a cereja em cima do bolo.» (pág. 214).
É nestas reflexões de Ed Tom, verbalizadas num estilo de linguagem coloquial, em que se funda e materializa a mensagem, transformando a aparente acção principal num teatro de sombras do inexorável caminho para o apocalipse de uma sociedade corrupta, perversa e materialista que deprecia o valor absoluto da vida humana, estabelecendo-se um paralelismo bíblico com as profecias de São João Evangelista determinadas no último dos Livros do Novo Testamento.
«Dizem que os olhos são as janelas da alma. Eu cá por mim não sei de que é que os olhos são as janelas e se calhar até prefiro não saber. Mas há uma outra maneira de ver o mundo e outros olhos para o ver e é por esse caminho que nós vamos. Eu próprio o trilhei e conduziu-me a um lugar na minha vida que nunca imaginei chegar a conhecer. Algures por aí anda um profeta da destruição, um profeta genuíno, de carne e osso, e eu não o quero enfrentar.» (pp. 15-16).
Com este romance, Cormac McCarthy traz-nos de novo uma atroadora e descoroçoante alegoria. Uma narrativa com vida própria, autónoma, para além da vontade do próprio escritor, viril, brutal, desoladora e inóspita, sem mesuras e lamentos, expurgada de derivações metafísicas ou de pretensas respostas sobre o declínio da América e da nossa civilização, e a percebida inexorabilidade – o espírito deste tempo – na aproximação das trevas.

Classificação: ***** (Muito Bom)

Referência bibliográfica:
Cormac McCarthy, Este País Não É para Velhos. Lisboa: Relógio D’Água, 1.ª edição, Outubro de 2007, 231 pp. (tradução de Paulo Faria; obra original: No Country for Old Men, 2005).


Nota: Os fabulosos irmãos Coen (Joel e Ethan) – responsáveis por alguns dos filmes do meu Olimpo íntimo e intransmissível: Fargo (1996) ou O Grande Lebowski (The Great Lebowski, 1998) – produziram, realizaram, montaram e escreveram o argumento do filme homónimo – estreou na semana passada nas salas de cinema norte-americanas –, com interpretações de Tommy Lee Jones, Javier Bardem, Woody Harrelson, entre outros. Tanto a crítica, como a esmagadora maioria dos espectadores, têm demonstrado, empregando algumas hipérboles encomiásticas, a sua admiração irrestrita pelo último filme desta dupla.

Por aqui vou esperando, dando por mim a desejar que a história, na versão fílmica dos irmãos Coen, haja logrado captar a verdadeira essência do romance de McCarthy. Todavia, enfatizando a ressalva, a um filme dessincronizado com a obra literária que lhe deu origem não pode, nem deve, seguir-se uma imediata sentença de repúdio ou de rotulagem de inabilidade na adaptação do romance de base. São artes diferentes que merecem um tratamento diferenciado. Normalmente, a natureza descritiva de um livro é incompatível com o imediatismo imagético de uma obra cinematográfica. De outro modo, correríamos o risco de cair na célebre imagem satírica de Hitchcock das duas cabras que pastavam bobines de celulóide talvez nas colinas de Hollywood, em que a primeira pergunta à segunda se esta está a gostar da refeição; ao que a segunda responde: “Nada mal!... Mas, gostei mais de comer o livro…»

sexta-feira, 30 de novembro de 2007

Olhe que não…

«A ACP [Associação Comercial do Porto], em lugar de preocupar-se com Pedras Rubras, mete o bedelho onde não é chamada. É bem certo que a vertigem da capital tolda os notáveis da Invicta.» Eduardo Pitta, "Os Estudos", Da Literatura.

Olhe que não, Eduardo. Aqui não se aplica a qualidade de exclusividade de discursista lisboeta. Até poderia alvitrar como razão principal o não audível (por quem de direito) “disso já nós todos estamos fartos” – nós, os da denominada província, ou os pertencentes à 2.ª classe lusa, ou, reduzindo um pouco mais a dimensão, os tais do Norte.
A principal questão reside no simples, e não despiciendo, facto de os montantes envolvidos nessa trapalhada nacional, de contornos obscuros, se situarem na escala dos milhares de milhões de euros, que sairão directamente dos cofres do Estado – apesar do engodo das parcerias público-privadas; essas, digo, já ocorreram (agora, uma ironia eufémica) antes do anúncio público da localização do aeroporto na Ota… –, entidade suficientemente abstracta e demasiadamente distante que é financiada com os nossos impostos e não apenas com as contribuições dos residentes da região de Lisboa e Vale do Tejo.
E depois, desde quando os interesses das gentes da Invicta, ou de outras regiões menos favorecidas do nosso pequeno, porém díspar, rectângulo, deixaram de ser de interesse nacional?

Um poema, um livro, um filme

THAT is no country for old men. The young
In one another's arms, birds in the trees
– Those dying generations – at their song,
The salmon-falls, the mackerel-crowded seas,
Fish, flesh, or fowl, commend all summer long
Whatever is begotten, born, and dies.
Caught in that sensual music all neglect
Monuments of unageing intellect.

An aged man is but a paltry thing,
A tattered coat upon a stick, unless
Soul clap its hands and sing, and louder sing
For every tatter in its mortal dress,
Nor is there singing school but studying
Monuments of its own magnificence;
And therefore I have sailed the seas and come
To the holy city of Byzantium.

O sages standing in God's holy fire
As in the gold mosaic of a wall,
Come from the holy fire, perne in a gyre,
And be the singing-masters of my soul.
Consume my heart away; sick with desire
And fastened to a dying animal
It knows not what it is; and gather me
Into the artifice of eternity.

Once out of nature I shall never take
My bodily form from any natural thing,
But such a form as Grecian goldsmiths make
Of hammered gold and gold enamelling
To keep a drowsy Emperor awake;
Or set upon a golden bough to sing
To lords and ladies of Byzantium
Of what is past, or passing, or to come.


William Butler Yeats, Sailing to Byzantium (1928)
Nota: seguir tags.

sábado, 24 de novembro de 2007

IAN [republicação]

Joy Division - Love Will Tear us Apart (single, Fac. 23)Na noite de 17 para 18 de Maio de 1980, Ian Kevin Curtis (n. 1956) punha termo à sua curta vida, enforcando-se na cozinha de sua casa. Com ele terminou a carreira de uma das melhores bandas musicais de sempre, os Joy Division, justamente na véspera de iniciarem a promissora tournée pelos Estados Unidos, onde já reverberavam os sons angustiantes da guitarra de Bernard Sumner, do baixo de Peter Hook e da bateria de Stephen Morris, conjuntamente com a voz cavernosa e profundamente encantatória de Ian Curtis. Para a história ficam o filme de 1977, Stroszek, do realizador alemão Werner Herzog, a que Ian assistiu na noite de 17 de Maio – relatando a história conturbada de um alcoólico e ex-condenado alemão que emigra para os Estados Unidos e que mais tarde acaba por se suicidar – e o fantástico álbum, também de 1977, de Iggy Pop, produzido por David Bowie, The Idiot – álbum que inclui as fabulosas músicas “Nightclubbing”, “Dum Dum Boys” e a icónica “China Girl” –, que corria ainda no gira-discos quando no dia 18 de manhã Deborah, a sua mulher, após haver acordado sobressaltada em casa dos pais com as primeiras estrofes de canção The End dos Doors, se deslocou a sua casa e encontrou Ian enforcado na cozinha. Em cima da mesa, junto a um amontoado de fotografias do seu casamento e de um retrato emoldurado de Natalie, a sua filha, estava uma carta, redigida em letras maiúsculas – tal como escrevia as letras das suas canções –, confessando a sua angústia pelo afastamento... (cf. Deborah Curtis, Carícias Distantes).
Em Março de 1980, os Joy Division gravam para a Factory o seu maior sucesso de sempre, a premonitória canção “Love Will Tear us Apart”. A capa do single, Fac 23 e que incluía no lado B o tema não menos excepcional “These Days”, foi idealizada por Curtis. Nela surgem apenas inscritos o título da música e o número de série do disco na editora; segundo Deborah, Ian relatou-lhe o processo de composição: são letras gravadas numa folha de metal, introduzida posteriormente em ácido e finalmente exposta à influência dos elementos. Ian queria que o metal se assemelhasse a uma pedra… Mais tarde, Deborah gravou as cinco palavras na pedra tumular que alberga as cinzas do marido.
Da letra ficam os reflexos da epilepsia que se vinha agravando com o ritmo apertado das gravações e dos concertos, e o afastamento de Ian das suas mulher e filha, catalisado por um romance mantido com a jovem admiradora belga Annick Honoré.

Nota: texto originalmente publicado neste blogue no passado dia 4 de Junho, cuja republicação se deve à minha segunda experiência contemplativa da obra de Corbijn no período de uma semana.

sexta-feira, 23 de novembro de 2007

Revisto

Existence, well what does it matter?
I exist on the best terms I can
The past is now part of my future
The present is well out of hand.

Mais lágrimas… exorcizados os fantasmas, opinião aperfeiçoada.
Fui ao
sítio do costume, entrei na minha conta de há quase dez anos... o 9 anterior transformou-se em 10.

Memórias de um cínico

Conta-se, no extenso anedotário da Literatura universal, que uma vez Saul Bellow terá dito a Gore Vidal que, um dia, gostaria de o apresentar ao seu filho para este poder ver in persona a verdadeira personificação do cinismo. Este dito, ou chiste literário, viu a luz do dia pela pena de Fred Kaplan, biógrafo de Gore Vidal – escreveu e publicou em 1999 o enciclopédico Gore Vidal: a Biography e editou, no mesmo ano, o inusitado livro de excertos de romances e de ensaios pertencentes à extensa bibliografia do autor americano, The essential Gore Vidal. Jornalista, colunista da Slate, Kaplan escreveu obras biográficas sobre eminências literárias como Charles Dickens ou Henry James, entre outros.
«Só li umas passagens da biografia – as suficientes para me dar conta da exactidão do título da crítica ao seu livro [a biografia escrita por Kaplan] publicada no The Times Literary Supplement: “Mal Interpretando Gore Vidal.”» (pág. 118). Vidal havia contratado Fred Kaplan para completar a sua biografia, previamente iniciada por Walter Clemons, que morreu subitamente em 1994, com 64 anos, de complicações provocadas pela diabetes. A pequena nota de censura atrás referida ficou a dever-se a uma referência da biógrafa de Paul Bowles sobre os supostos encontros gay, encenados por Jane Bowles e coreografados por um grupo de notáveis (Vidal e Capote incluídos), na afamada casa do casal em Tânger, mencionando como fonte o próprio Fred Kaplan. Vidal desmentiu. Ora, este pequeno episódio resume parte daquilo que Gore Vidal representa para opinião pública e publicada, por si só uma fonte inesgotável de ditos e mexericos no agitado universo cultural norte-americano.
Eis Navegação Ponto por Ponto, a segunda obra autobiográfica de Gore Vidal que inclui as suas memórias de 1964 a 2006, ano em que a obra foi originalmente publicada.
Em 1995, Vidal publica Palimpsest: A Memoir, o seu primeiro livro de memórias, que retrata os primeiros trinta e nove anos da sua vida (1925-1964) – infelizmente, à boa maneira portuguesa, esta obra ainda não foi editada no nosso país; teimosamente, e apesar das dolorosíssimas lições, constrói-se sempre a casa a partir do telhado... Que fazer? (já dizia o outro, bem caro a este que se auto-retrata.)
Eugene Luther Gore Vidal, ficcionista, ensaísta, dramaturgo, argumentista para cinema e televisão, político intermitente e analista político, em suma, figura pública, nasceu na academia de West Point, a 3 de Outubro de 1925, onde o pai exercia as funções de instrutor de voo. Neto, pelo lado materno, de Thomas P. Gore, o ilustre senador do Oklahoma – Estado que o próprio ajudou a fundar – pelo partido democrata norte-americano; filho de um conhecido empresário da aviação comercial, Eugene Vidal – fundou a companhia precursora da gigantesca TWA – e foi membro da equipa governamental de Franklin D. Roosevelt; parente por uma curiosa afinidade com Jackie Kennedy (co-enteada, no seu segundo casamento, a mãe de Vidal desposou Hugh Auchincloss, que, após a separação, viria a casar com a mãe de Jackie); aparentado com Jimmy Carter e primo afastado do incansável Al Gore. Conhecido pela sua frontalidade e pela crítica acerba daquilo a que chama de Império Americano e dos seus tiques imperialistas, que, segundo o próprio, progressivamente se vai afastando do republicanismo preconizado pelos Pais Fundadores, designadamente da visão política de Thomas Jefferson, Vidal é assumidamente um homem de esquerda, um reformista-progressista, pacifista – militou contra a guerra do Vietname e, de forma mais apaixonada, contra a guerra do Iraque, atitude reforçada pelo epíteto de “preemptive war” – guerra de preempção – e não “preventiva”, como alguns lhe chamaram, os seus ideólogos, os neocons, assim como os perpetradores subsumidos à tríade Bush-Cheney-Rumsfeld.

Apesar de a obra dispor de um subtítulo que apela às “Memórias 1964-2006”, Vidal parte dos anos da depressão, passando por FDR, antes e durante a II Guerra Mundial, de Truman, Eisenhower a JFK e Bobby Kennedy, estabelecendo um evidente contraponto com os primeiros anos do terceiro milénio da Era Cristã caracterizados, segundo ele, pela violenta estocada final na República, assim como, na sua esfera íntima, pela morte de pessoas que lhe são (ou em tempos foram) próximas: começando em 2003 com a morte de Howard Austen – o seu companheiro de 53 anos –, de Susan Sontag em Dezembro de 2004 – correligionária política –, de Johnny Carson em Janeiro e Saul Bellow em Abril de 2005, culminando com a morte de Barbara Zimmerman Epstein, em Junho de 2006, a sua editora de toda a vida.
Com as obras de James Purdy em cima da sua secretária e um volume de ensaios de Montaigne «está por perto, o derradeiro critério para quem está a tentar lembrar-se de si mesmo e dos outros» (pág. 45), Vidal parte para escrita e inicia uma curta digressão sobre a sua vida que, treze anos após haver escrito Palimpsest (1992, pub. 1995), período em que se veria confrontado com as tais perdas irreparáveis no seu círculo afectivo mais restrito e conviveu com a economia de guerra americana “bushista” pós-11 de Setembro, revelou, uma vez mais, um estoicismo que os outros lhe reconhecem:
«Às vezes, pareço-me com Montaigne quando ele observa: “Adoptei a prática de ter sempre a morte não apenas na minha mente, mas também nos lábios”.»

Seguindo o método da navegação ponto por ponto – que o autor explica numa nota introdutória haver aprendido enquanto primeiro imediato numa embarcação de guerra nas Ilhas Aleutas, isto é, seguir curso com pontos de referência marcados no mapa em viagens anteriores, sem qualquer hipótese de usar a bússola e sem dispor de radar –, Vidal conta-nos as suas relações com a política e os políticos, com os seus notáveis e instáveis companheiros Tennessee Williams e Paul Bowles – que lhe viriam a provocar alguns amargos de boca, pela revelação, através das suas cartas a outros e biografias, de algumas deslealdades –, com os realizadores Federico Fellini e o neófito (ainda argumentista) Francis Ford Coppola, com o casal Paul Newman e Joanne Woodward, com Greta Garbo, como espectador de uma curiosa altercação entre Graham Greene e Anthony Burgess, não deixando de expressar as suas peculiares convicções políticas, como atesta o que se segue:
  • Rudolf Nureyev: «Odiava quando a imprensa o descrevia como um refugiado do comunismo. […] Nunca o ouvi denunciar o sistema soviético.», e citando o próprio bailarino, «Vim-me embora apenas para poder dançar mais. As grandes companhias de dança lá estão congeladas. Foi por isso que parti.» (pág. 224).
  • Aldo Moro, o PC italiano e as Brigadas Vermelhas: «O partido comunista italiano, tão frequentemente vilipendiado pela nossa imprensa [a americana], nunca constituiu certamente um grande perigo para ninguém e os grupos dissidentes radicais como as Brigadas Vermelhas dificilmente poderiam ser considerados comunistas» (pp. 225-226), antes refere o rapto e o assassinato do ex-primeiro-ministro Aldo Moro pelo grupo terrorista, e o conselho de todos para «sair de Itália que estava a cair no caos» (pág. 225), mas Vidal não sentiu medo, já que conhecia os políticos de Washington e a sua teoria do propalado «recrudescimento do comunismo em todo o mundo», afirmando que os europeus estão «fartos dos nossos gritos a prevenir a vinda dos lobos quando, na realidade, somos nós, os americanos, que cada vez mais somos identificados com o lobo que ataca a casa dos três porquinhos.»
  • Cuba e Fidel Castro: «[…] em 1959, sob a direcção geral do então vice-presidente Richard M. Nixon, que tinha muitas ligações interessantes com criminosos cubanos (sim, o seu misterioso amigo Bebe Rebozo estava ligado não apenas a gangsters, mas também ao ditador cubano Fulgencio Baptista, que foi derrubado por Fidel Castro para descontentamento dos criminosos, contrariedade essa que se transformou em raiva quando Fidel fechou, embora por pouco tempo, os casinos de Havana dirigidos pela máfia.» (pág. 264)
  • Charles Lindbergh: Gore desmente as supostas ligações de Lindbergh ao regime Nazi – acusação atribuída a Roosevelt como meio para aniquilação política do insigne aviador. Conta que este foi enviado à Alemanha por FDR para se certificar do poderio aéreo da Luftwaffe, havendo, na ocasião, recebido a famosa Cruz de Guerra de Hermann Göring, atribuída apenas como herói universal da aviação. Vidal acrescenta: «Apesar da aversão que tinha por ele [Lindbergh], FDR dava ouvidos aos bons conselhos e, assim, graças aos relatórios de Lindbergh, foi o nosso poderio aéreo que, no fim, nos fez ganhar a guerra.» (pág. 173).
Numa escrita escorreita, sem artifícios, atenta e mordaz, é na descrição dos seus anos na companhia Howard Austen – embora, Vidal nunca houvesse escondido a sua orientação sexual, que, por exemplo, lhe valeu um guerra surda que ainda hoje se mantém com o The New York Times, aquando da publicação do seu segundo romance A Cidade e o Pilar (1946), cuja forte carga homoerótica levou a um boicote tácito e ostensivo do exercício da crítica nas páginas do referido periódico nova-iorquino às obras que posteriormente viria a publicar –, vivendo durante os 53 anos numa literal união fraterna em diferentes localidades do globo: Edgewater – situada nas margens do rio Hudson no Estado de Nova Iorque –, em Roma, em Banguecoque, salientando as inúmeras festas no famoso Oriental, e em Hollywood Hills , assim como dos anos que decorreram a partir do momento em que Howard soube padecer de cancro pulmonar e da rápida evolução da doença, até à sua morte em 2003, que Vidal desfaz a figura de crítico atento, austero e impiedoso, para exibir o seu lado sentimental:
«Tenho saudades quando leio onde estava, em 1992, a minha sala de trabalho em Ravello [passa a citar Palimpsest]: “Um cubo branco de tecto arqueado e uma janela à minha esquerda com vista para o golfo de Salerno em direcção a Paestum; neste momento, um mar cinzento metálico criou uma neblina branca que obscurece o sol eternamente hostil.” Ao citar estas linhas, volto ao tempo em que Howard ainda está vivo e o nosso mundo intacto.» (pp. 45-46)

Irónico, divertido, com os habituais laivos de sarcasmo e de verrina, pontuado por passagens ternas e suaves, Navegação Ponto por Ponto lê-se com dedicação e entusiasmo, apesar de, por vezes, o autor cair num excessivo name dropping – embora, seja uma situação típica e frequente neste género de obra literária – confundido essencialmente o leitor não-americano, para quem, com elevado grau de probabilidade, alguns nomes nada dizem. Ademais, como o próprio título da obra parece indicar, verifica-se alguma sinuosidade discursiva, que pelo menos é consistente ao longo de toda a narrativa, prejudicando, contudo, uma razoável noção de linearidade temporal da história, perdendo-se, por vezes, o fio condutor, obrigando a uma releitura de alguns parágrafos.

Um comentário final para a edição portuguesa, sob chancela da editora Casa das Letras. Em primeiro lugar, não se entende o critério editorial que presidiu à supressão do índice remissivo, que consta da obra original e que neste tipo de obras funciona como um mapa essencial para uma simples releitura. Depois, a tradução é paupérrima, para além de alguns e recorrentes lapsos gramaticais que tornam penosa a sua leitura, contém erros factuais graves, que são imperdoáveis para qualquer pessoa que se interessa por esta coisa chamada literatura, como por exemplo a gritante troca de género da escritora – bartlebiana – de Por Favor Não matem a Cotovia, Harper Lee: «Numa biografia recente, observei, divertido, que uma das numerosas mentiras que Truman Capote tinha contado ao seu amigo de infância, Harper Lee, foi que, aos dez anos, tinha pilotado um avião.» (pág. 22). Finalmente, algumas referências a obras de outros autores aparecem com a tradução literal do título, situação que seria obviada através de um nada custoso e elementar trabalho de pesquisa. Como exemplo, na página 123, a obra-prima de Paul Bowles, The Sheltering Sky, surge como «O Céu Protector», quando está editada em Portugal sob o nome «O Céu que nos protege» – título que, em abono da verdade, foi corrigido pelo tradutor (ou pela revisora) mais à frente na obra.

Classificação: **** (Bom)
Referência bibliográfica:
Gore Vidal, Navegação Ponto por Ponto. Cruz Quebrada: Casa das Letras, 1.ª edição, Novembro de 2007, 271 pp. (tradução de José Luís Luna; obra original: Point to Point Navigation, 2006).

quinta-feira, 22 de novembro de 2007

Divulgação

Eu queria encontrar aqui ainda a terra

Em Novembro estreia a nova peça do Projéc~, desta vez numa produção do
TMG para a Câmara Municipal da Guarda e o Centro de Estudos Ibéricos. O quinto trabalho da estrutura de produção teatral do TMG intitula-se Eu queria encontrar aqui ainda a terra, e tem por base o texto de António Godinho e manuel a. domingos sobre os universos de Vergílio Ferreira e Eduardo Lourenço.
A peça, para maiores de 12 anos e com encenação, dramaturgia, cenografia e figurinos de Luciano Amarelo, estreia a 28 de Novembro no TMG, ficando em cena no Pequeno Auditório até dia 30 de Novembro.


(carregar na imagem para ampliar)



Revista Nada

A Nada edita o 10.º volume da sua colecção.
O Preço mantém-se nos 9 euros e continua à venda nas livrarias habituais (ou através do mail@nada.com.pt).
A NADA já se encontra à venda e em várias livrarias de São Paulo.
O próximo volume sairá em Março de 2008.

Para mais informações consultar o
sítio da revista.


(carregar na imagem para ampliar)

terça-feira, 20 de novembro de 2007

Coisas que mudaram uma vida

Ou que acabaram com ela. Ou melhor, que o acompanharam na morte naquela fatídica madrugada de 18 de Maio de 1980.


A manhã, Deborah e a epifania do desespero:

«O som seguinte que ouvi foi “This is the end, beautiful friend. This is the end, my only friend, the end. I’ll never look into your eyes again.” Surpreendida por ouvir o “The End” dos Doors, tentei levantar-me da cama. Mesmo a dormir sabia que era uma canção pouco provável para estar a rodar numa manhã de domingo na Radio One. Mas não era rádio – era tudo um sonho.» (Deborah Curtis, Carícias Distantes, pág. 184)




Irei ver Control pela segunda vez, agora que o frémito curtisiano amainou…
Para já, planos e fotografia admiráveis; movimentos de câmara assombrosos (e.g. o percurso de Ian de casa ao trabalho – o Centro de Emprego de Macclesfield – envergando o blusão com a inscrição “HATE” nas costas); Sam Riley um prodígio; um final simbolicamente poderoso e envolvente.

Da primeira vez, fui o último a abandonar a sala de cinema… a sala parecia-me distorcida… baixei a cabeça, a porra da vergonha que por vezes enxameia a mente retrógrada de um macho latino.

«“The movie will begin in five moments”, the mindless voice announced. […] Silver stream, silvery scream. Oooooh, impossible concentration.»

segunda-feira, 19 de novembro de 2007

DeLillo, Gore Vidal, entre outros

Aproxima-se o Natal e as editoras nacionais lançam em barda as suas apostas mais seguras, retidas, durante pelo menos uma temporada, entre a tradução e a impressão – basta não ignorar a ficha técnica e reparar no ano de aquisição dos direitos de publicação.
Por aqui, numa altura em que se redobram os afazeres académicos, não há tempo para tanto livro, nem se vislumbra a iminência de um milagre da multiplicação das duas dúzias de horas que compõem o dia para satisfazer esta sofreguidão bibliómana.
Destaco dois livros, de dois autores norte-americanos, Don DeLillo (n. 1936, completa amanhã 71 anos) e Gore Vidal (n. 1925), um romance e um livro de memórias, respectivamente:



E depois há mais. Tempo e dinheiro – e já agora, que a saúde o permita, graças a quem tiver o poder para me a dar (ou tirar). Precisava de me reformar e já agora que o seu efeito, o pilim, fosse equivalente à jubilação dourada e merecida por três anos, árduos e penosos, a exercer funções no Banco de Portugal…

  • Christopher HitchensDeus não é grande (Dom Quixote) – já o comecei a ler em inglês, terminá-lo-ei na nossa língua.
  • Cormac McCarthyEste país não é para velhos (Relógio D’Água)
  • Don DelilloO Homem em Queda (Sextante) – o meu Nobel…
  • Gonçalo M. Tavares Aprender a rezar na Era da Técnica (Caminho) – quarto livro de O Reino (livros negros); Os três primeiros, por ordem cronológica de publicação: Um Homem: Klaus Klump, A Máquina de Joseph Walser e Jerusalém. Aguardo a sua leitura com alguma ansiedade, especialmente pela qualidade e pelo arrojo literários revelados com os dois últimos.
  • Gore Vidal Navegação ponto por ponto (Casa das Letras) – em fase de leitura
  • Haruki MurakamiDança, Dança, Dança (Casa das Letras) – obra que surgiu no seguimento de Em busca do carneiro selvagem; a avaliar por este último, não promete...
  • José Luís PeixotoCal (Bertrand) – acabei de o ler: desencanto e frustração, para quem, como eu, espera muito deste homem
  • Sandor MáraiA Mulher Certa (Dom Quixote)
  • Zadie SmithUma questão de beleza (Dom Quixote) – confirmar a destreza demonstrada em Dentes Brancos e a exultante crítica literária com este, o terceiro romance da autora (On Beauty, 2005).

domingo, 18 de novembro de 2007

Cadeias em Girassol*

Uma benigna epidemia – e perdoem-me a antonímia – tem varrido a blogosfera lusa nos últimos tempos: as correntes ou cadeias sobre os mais diversos assuntos.

Corrente I
O José Pimentel Teixeira iniciou
esta curiosa corrente, cujas posteriores derivações metabloguistas lhe trouxeram o aviltante saneamento de um conhecido top of the pops nacional. Citado o pai da corrente, o Francisco Valente desafiou-me para postar os vinte blogues que mais gente trazem ao meu blogue. Ora, dada a profusão de instrumentos de medição peniana na blogosfera, a tarefa de arrolamento não se revelou nada difícil. Assim, por ordem alfabética e recorrendo aos tais meios do metabloguismo, aqui estão os blogues que, carregados do mais alto valor da reciprocidade – um dos por que vale mesmo a pena blogar –, encaminham o maior número de visitantes para esta página, de estabilidade precária e de qualidade duvidosa – não houve alguém que disse que a humildade era o pior dos orgulhos? – de expiação e catarse:
O Acossado, Água Lisa, Auto-Retrato, Comboio Azul, Corta-Fitas, Da Literatura, Eduardo Barrento, Hoje Há Conquilhas…, Insónia, Irmaolucia, Last Breath, Meia-Noite Todo o Dia, Mundo Pessoa, O Nascer do Sol, Portugal dos Pequeninos, Quase em Português, O Regabofe, Textualino (ex-Casa do Sono dos Sonhos), Tubo de Ensaio, Vida Breve.

Segundo as regras, todos os nomeados terão de trabalhar na sua lista de angariadores de visitantes.

Corrente II
O Lourenço
encadeou-me. Incluiu-me numa das correntes mais difíceis que tive de enfrentar ou de “não quebrar”: solicitou-me que aqui postasse os cinco filmes da minha vida.
Felizmente, há, pelo menos, um conjunto de meia centena de filmes que poderia, sem menosprezo para os restantes quarenta e cinco relegados para outras posições, integrar a referida lista. Ora, se assumirmos essa totalidade como certa e dado que apenas cinco integrarão o quadro final, um simples recurso ao cálculo combinatório anunciaria a possibilidade de aqui postar 2.118.760 listas diferentes entre si.
Como resultado dessa enormidade numérica, decidi escolher – tal como uma vez fiz com os dez livros da minha vida – os primeiros filmes que me surgiram ao pensamento, sem que me atribuísse qualquer hipótese de remição – poema automático*.
Ei-la (por ordem alfabética do título em português):

  • O Crepúsculo dos Deuses, realizado por Billy Wilder (Sunset Boulevard, 1950);
  • Os Despojos do Dia, realizado por James Ivory (The Remains of the Day, 1993) – baseado no romance homónimo de Kazuo Ishiguro (1989);
  • Magnólia, realizado por Paul Thomas Anderson (Magnolia, 1999);
  • Morte em Veneza, realizado por Luchino Visconti (Death in Venice, 1971) – baseado no romance Der Tod in Venedig (1912) de Thomas Mann;
  • A mulher que viveu duas vezes, realizado por Alfred Hitchcock (Vertigo, 1958) – baseado no romance policial D’entre les morts (1954) escrito pela dupla Pierre Boileau e Thomas Narcejac.

Com um sorriso chocarreiro nos lábios – como é um sorriso chocarreiro? A que sabem as nuvens? – acorrento:

  • Eduardo Pitta (por saber que, para além de ser um amante das artes cinematográficas, ultimamente, tem andado extremamente divertido com as correntes na blogosfera);
  • Francisco Valente (por vingança, mas principalmente por saber que o Fransciso é um dos excelsos cinéfilos da blogosfera, e para descobrir que outros filmes acompanharão o 8 ½ );
  • João Gaspar (o meu co-joydivisioniano, gesto imbuído da devida curiosidade sobre a inclusão ou não do filme do recente filme Corbijn);
  • manuel a. domingos (um querido amigo invisível e, depois, já se tornou um hábito o Manel ser vítima do meu zelo lincativo nisto das correntes);
  • Pedro Correia (pela leitura dos teus textos já adivinho, mas não te escapas ao desafio, é só para confirmar).

Continuai e acorrentai, irmãos.

Nota: *título de um poema de André Breton (Tournesol, escrito em 1923): «La voyageuse qui traverse les Halles à la tombée de l'été / …»

sexta-feira, 16 de novembro de 2007

Lowry

Malcolm Lowry
Por razões que a recente linha editorial deste blogue não desmente, comprei a edição de hoje do jornal Público. O frontispício da Ípsilon evoca o atormentado Ian pela cara de Sam Riley no filme Control do holandês Anton Corbijn – já lá vão os tempos em que a centerfold ditava a compra…
Para além da tentativa de dissecação do génio musical e poético, e da curta experiência de vida de Ian Curtis, a Ípsilon, numa lógica congruente – sofredores deste mundo, uni-vos... no nosso suplemento cultural de 16 de Novembro de 2007 –, dedica grande parte do seu espaço ao escritor inglês Malcolm Lowry (1909-1957), a propósito da comemoração dos 50 anos da sua morte por desventura e dos 60 anos da publicação da sua obra máxima Debaixo do Vulcão – agora reeditado pela
Relógio D’Água, infortunadamente optando apenas pela revisão da tradução de 1961 de Virgínia Motta para a editora Livros do Brasil.
Para o leitor e meio que visita diariamente este blogue, não é de todo surpreendente a minha evocação de Lowry. Debaixo do Vulcão trata-se, de facto, de um dos livros da minha vida – incluído numa
listagem que, à laia de exercício metaliterário, aqui publiquei há quase um ano –, e Geoffrey Firmin um dos personagens mais marcantes e fascinantes da história da literatura mundial – a ele, o Cônsul britânico em Quauhnahuac, se devem algumas das minhas rememorações literárias e associações simbólicas.
Sobre este anti-herói
escrevi o que se segue – a propósito de outro criado pela pena de Iris Murdoch, o fabuloso e acidental, Austin Gibson Grey:


«A obra literária de ficção cria personagens mais ou menos ilustres, mais ou menos encantadores sob o ponto de vista do leitor/receptor, e na maioria das vezes avaliamo-la na sua globalidade, pelo todo que o mestre quis construir ao introduzir determinadas idiossincrasias. Trata-se de um simples jogo de estereótipos que conseguimos identificar nas relações que, como Homo Socialis, estabelecemos no dia-a-dia. Muitas vezes os personagens criados não perduram além da obra, noutras, porém, eles afirmam-se, ultrapassam a circunscrição dos caracteres impressos em papel e parecem ter vida própria fora dele, na nossa cabeça, nas nossas fantasias de leitores que veneram a literatura como forma de entretenimento e de íntimo preenchimento das imposições estéticas.
«Para apenas dar um exemplo do que acabei de professar – e suponho que o mesmo deverá ter ocorrido com a maioria das pessoas que leu a obra –, eis o cônsul britânico no México Geoffrey Firmin na obra-prima de Malcolm Lowry,
Debaixo do Vulcão. Por muitos anos que distem da última vez em que lemos esse tratado involuntário do existencialismo literário, as atribulações do Cônsul no dia de finados de 1938 permanecem-nos na memória, mais pela amargurada existência que se foi construindo numa série de equívocos que o conduzem à sua aniquilação através do prazer inebriante do álcool que tudo faz esquecer, do que por qualquer predestinação advinda de uma vontade exterior inaudita e que resulta de um colectivo relacional, que ao invés parece girar em torno do seu supremo individualismo, materializado no seu desprendimento pelo mundo, pelo dever, pelo amor da sua Yvonne e pela afeição do seu irmão Hugh – o Mescal e a Tequila são o refúgio, a essência...» [autocitação: "amo-me!"].


Em adjacência ao artigo principal, que ainda não li, surgem as opiniões de dois dos meus bloggers de visita virtual diária e de frequente intercâmbio de ideias via caixa de comentários ou e-mail: o Henrique Fialho e o nosso recém-convertido à hortofruticultura Rogério Casanova.

quinta-feira, 15 de novembro de 2007

Mais Perto (Curtis, Dia D)

Estreia hoje:


O amor voltará a destruir-nos

Quando a rotina castiga de forma severa,
E já são curtas as ambições,
E um forte ressentimento prospera,
Sem que irrompam as emoções.
E vamos mudando os nossos caminhos,
Percorrendo estradas diferentes.

Então o amor, o amor voltará a destruir-nos.

Por que está o quarto tão frio?
Viraste-te na cama para o outro lado.
Falhei o momento correcto?
Esgotou-se o nosso respeito.
Porém ainda resiste esta atracção
Que guardámos nas nossas vidas.

Mas o amor, o amor voltará a destruir-nos.

Choras durante o sono,
Expões todos os meus fracassos.
Na minha boca forma-se um gosto,
Sempre que o desespero aperta.
Apenas isto, algo tão bom
Que já não pode funcionar.

Enquanto o amor, o amor voltará a destruir-nos.

Versão II*: AMC, Nov/2007. Love Will Tear Us Apart, Joy Division (1980).

*versão corrigida. Menos preocupada com as rimas e mais brutal. A destruição da relação, ao invés do eufemista "afastamento", ou "distanciamento" – que adveio de Touching from a Distance.

Boa sessão!

quarta-feira, 14 de novembro de 2007

Mais Perto (Curtis, 1d)

«Era pequeno e estava embrulhado de cabeça aos pés em andrajos sujos, enfaixado como um bebé recém-nascido. Estava suspenso do poste do telefone e abanava ao sabor da brisa antes de descer docemente. Como uma folha de Outono, aterrou suavemente no regato e a sua forma aerodinâmica deslizou rapidamente na superfície da água, desaparecendo na distância. Espremi todo o meu corpo para gritar, mas à medida que caminhava a única coisa que ouvia eram os meus soluços abafados.
A minha filha pequenina aninhou-se mais a mim e tentou consolar-me: “Não chores, mãezinha. Não chores.”
A minha mãe abriu a porta e mesmo na escuridão conseguiu ver qual de nós estava a chorar.»

Deborah Curtis, Carícias Distantes, pág. 17, (Lisboa: Assírio & Alvim, Março de 1996, 197 pp.; tradução de Ana Cristina Ferrão; obra original: Touching from a Distance, 1995).


Aqui fica o vídeo de Atmosphere – curiosamente realizado por Anton Corbijn em 1988 – canção de Ian Curtis (Joy Division), gravada em 1979 e editada postumamente em Setembro de 1980.



Atmosfera

Caminha em silêncio
Não fujas em silêncio
Vê o perigo
Sempre perigo
Conversa sem fim
Voltar a construir a vida
Não fujas

Caminha em silêncio
Não abdiques em silêncio
Tua confusão
Minha ilusão
Usada como uma máscara de autoflagelação
Confronta e a seguir morre
Não fujas

Pessoas como tu pensam que é fácil
Ansiando por ver
Andando no ar
Caçando nas margens dos rios
Percorrendo as ruas
Todas as esquinas cedo abandonadas
Alcançadas com o devido cuidado
Não fujas em silêncio
Não fujas.

Versão: AMC, Nov/2007. Atmosphere, Joy Division (1980).



terça-feira, 13 de novembro de 2007

Mais Perto (Curtis, 2d)

Jogo de Sombras

No centro da cidade onde todas as estradas se cruzam, estive à tua espera
Nas profundezas do oceano onde todas as expectativas se afogaram, estive à tua procura
Atravessei o silêncio sem movimento, para te esperar
Num quarto com uma janela ao canto, encontrei a verdade

No jogo de sombras, representando a tua própria morte, sem nada saber
Enquanto os assassinos se reuniam em quatro filas dançando no chão
E perante o aço frio, o odor dos seus corpos, fiz uma tentativa para comunicar
Mas apenas conseguia olhar perplexo enquanto a multidão partia

Eu fiz tudo, tudo o que sempre quis
Deixei que te usassem para os seus próprios fins
No centro da cidade à noite, estou à tua espera.

Versão: AMC, Nov/2007. Shadowplay, Joy Division (Unknown Pleasures, 1979)

Meia-Literatura


Não há nada mais frustrante para o utilizador das artes literárias que um livro que não consegue ser Literatura. E há livros que não o logram, por maior que seja o esforço ou a vontade do autor, por maior que seja a sua disponibilidade física e mental, por mais que aquele se sinta como receptor divino do eflúvio da criatividade literária. E se, de forma irrestrita, um livro é literatura, isso apenas resulta do seu signo linguístico: um conjunto complexo de símbolos que formam vocábulos inteligíveis ao leitor que, propositada ou incidentalmente, o abriu. Logo, como exemplo e por abrangência do conceito, chamamos literatura a uma simples e despretensiosa bula de um medicamento. Assim é designada para distinguir um todo estruturado de natureza informativa – princípio activo farmacológico, excipientes, contra-indicações, efeitos secundários, interacções e posologia – do remédio que o acompanha. No entanto, esse conjunto informativo não cura, ou pelo menos não alivia a dor, ou não cala um desejo que, exteriorizado, mais não é que a manifestação da loucura (irreverência, diferenciação) intrínseca do ser aos olhos do mundo. Normalmente, a sua exaustividade informativa imposta pela lei do consumo, incluindo os efeitos indesejados da sua utilização que poderão ocorrer com 0,001% de probabibilidade, sugere um ansiolítico para o hipocondríaco que nela revê os sintomas do seu desvario.
Não seremos todos hipocondríacos neste mundo enfermiço?
Não julgaremos nós possuir alguns ou todos os sintomas da infelicidade humana?
Elencados os sintomas – megalomania, competitividade, aborrecimento e agitação, fadiga, inveja, sentimento de culpa, mania da perseguição ou medo daquilo que os outros possam pensar dos nossos comportamentos e atitudes, como definiu Bertrand Russell –, não haverá pelo menos um de que asseveramos padecer ou que julgáramos haver padecido num passado recente?
Em suma, não necessitaremos nós de literatura como de pão para a boca?
Ouvimos, lemos, compomos ou escrevemos para atenuar a pulsão que se solta do nosso íntimo desconhecido. E o sonho é uma forma de libertação dos resquícios dessa energia repelida. Sem esse escape implodimos, deixando apenas a carapaça como mostruário de um ser que já não o é, inanimado, cataléptico, sem vontade própria… vazio. Depois destruímos o que e quem nos rodeia. É o instinto de sobrevivência de quem se afoga ou de quem se afogou e deixa sobre os outros a culpa da hipótese marginal da salvação.
Por tudo isto, a virtude de um escritor está na capacidade de nos fazer sonhar. Nas pistas que deixa no subtexto sem a pretensão divina de assumir o papel de descodificador universal para que os outros cheguem a uma solução final. Há, por isso, uma imensidão de construções mentais, de interpretações, que têm por limite um conjunto de leitores cujo número natural se estende ao infinito.

No incensado Meio-irmão, do escritor norueguês Lars Saabye Christensen (n. 1953), há meia-literatura em livro e meio. As seiscentas e vinte e duas páginas por que se estende o romance tornam-se, a dada altura, num verdadeiro enfado, dada a tendência explicativa e profusamente descritiva do autor. A idiossincrasia de cada personagem é minuciosamente delineada, longe do esboço, apresenta-nos o produto final traçado a régua e a esquadro. Não há margem para a extrapolação, é todo um guia escrupuloso para o utilizador. O autor narcisicamente transformou-se em leitor-protector e dá-nos a chave. Engorda as páginas, quase sem parágrafos, para erigir o volume. O que nos leva a crer que falta destreza literária. Há uma percebida inabilidade no poder de síntese e na eliminação do supérfluo, da tal gordura, de uma adiposidade desnecessária – não hibernamos! –, ou então, resulta de um factor assaz recorrente que tem por origem a desmesura do ego do autor, a ilusória mensuração da destreza à página, o peso físico do livro como símbolo do domínio da arte literária.
Se Meio-irmão se houvesse quedado pelo último quinto do livro – a parte que, pela minha leitura mui pessoal, realmente interessa – acrescentado apenas de algumas linhas descritivas da envolvência histórica e circunstancial e da idiossincrasia dos personagens, não teria qualquer tipo de pudor em afirmar tratar-se de uma obra literária de excepção. Mas como essa expurgação é de todo impossível, a não ser que se arranquem as folhas até à página 496 (inclusive) – e sei lá se o meu leitor, como dizia o MEC, não é maluco para isso –, acrescentando-se a irrelevância dos epíteto “de leitura fácil” ou “de linguagem clara” – na realidade, são para mim factores secundários na avaliação de uma obra –, Meio-irmão não merece passar pelo processo de beatificação que muitos lhe têm garantido, especialmente a crítica literária, hiperbolicamente laudatória. Lê-se bem e depressa, mas esses jamais serão factores excludentes da banalidade, da superfluidade e da visão da literatura como uma fábrica de enchidos em pleno coração do planalto mirandês.

Referência bibliográfica:
Lars Saabye Christensen
, Meio-irmão. Lisboa: Cavalo de Ferro, 1.ª edição, Junho de 2007, 622 pp. (tradução de Sissel Bjørnstad Cardona; obra original: Halvbroren, 2001).


Aviso: esta não é uma nota de prova ao estilo das que anteriormente aqui se publicaram. Figurará, no entanto, na coluna da direita com a respectiva classificação.

segunda-feira, 12 de novembro de 2007

Mais Perto (Curtis, 3d)

Anton Corbijn's Control (Sam Riley - Ian Curtis)


Um simples instrumento

Um legado de tal forma afastado
Um dia destes serão melhorados
Os direitos eternos que deixámos para trás
Nós éramos os melhores
Dois seres semelhantes, igualmente libertos
Eu sempre contei contigo

Lutámos pelo bem, mantivemo-nos lado a lado
A nossa amizade nunca morreu
Por caminhos estranhos, os altos e os baixos
A nossa quimera alcançou o céu
Imortalistas com perspectivas por provar
Eu confiei em ti

Uma casa algures em solo estrangeiro
Onde acorrem os velhos amantes
É esta a tua meta, são estes os teus desejos finais?
Onde comem os cães e os abutres
Ainda acredito, disponho-me a partir
Eu confio em ti

Em ti,
Confio em ti.

Versão: AMC, Nov/2007. A Means to an End, Joy Division (Closer, 1980)

sábado, 10 de novembro de 2007

Galeria dos Sem Nobel

Norman Mailer morreu. De insuficiência renal, dizem, no Hospital Mount Sinai em Nova Iorque.
A ironia da sua morte: a Academia Sueca juntou-o a Tolstói, Joyce, Proust, Musil, Borges, Nabokov, Walser, etc.

Norman Mailer


Norman Mailer

(Nova Jérsia, 31 de Janeiro de 1923 – Nova Iorque, 10 de Novembro de 2007).

Nota: é, segundo dizem, a lei da vida, Manel.

Do Círculo Polar

Arctic Monkeys. Estou com o Lourenço quando referiu, a propósito de recibo da Fnac esquecido na secretária que, com alguma nostalgia, abandonará em breve, num texto intimista como só ele sabe escrever, que Favourite Worst Nightmare é um “grande grande grande disco”.
Depois deste álbum, e para alguém que logo após Whatever People Say I Am, Thats What I’m Not (2006) – álbum de estreia dos rapazes de Sheffield –, ainda permaneceu com algumas dúvidas sobre a consistência de repertório e a destreza musical futuras, e tudo isto apesar de o haver considerado como um dos melhores 10 discos do ano passado, os Arctic Monkeys podem-se despedir do público, ou então imitar Otis Redding ou os Lynyrd Skynyrd – lagarto, lagarto! –, porque deixam, com toda a certeza, o seu nome bem gravado no restrito e sublime firmamento da música alternativa britânica.

Atentem na qualidade da letra e da música da canção que se segue (e tudo isto para alguém como eu que, do fundo do ser, abomina toda e qualquer melíflua “balada” rockalhenta – só o facto de haver escrito a palavra já me deixa arrepiado):


(versão acústica, ao vivo na estação de rádio The Edge)


In a foreign place, the saving grace was the feeling,
That it was a heart that he was stealing,
Oh he was ready to impress and the fierce excitement,
The eyes are bright he couldnt wait to get away,
I bet the juliet was just the icing on the cake,
Make no mistake no,

And even if somehow we could have shown you the place you wanted,

Well I'm sure you could have made it that bit better on your own,
And I bet she told a million people that she'd stay in touch,
Well all the little promises they dont mean much,
When theres memories to be made,
And I hope you're holding hands by new years eve,
They made it far too easy to believe,
That true romance cant be acheived these days,

And even if somebody could have shown you the place you wanted,
Well I sure you could have made it that bit better on your own,
You are the only ones who know.

Arctic Monkeys, “Only One Who Knows” (Favourite Worst Nightmare, 2007).

sexta-feira, 9 de novembro de 2007

Pitch&Putt Literário – Taça da Irlanda

Um trio irlandês. James Joyce (1882-1941), Samuel Beckett (1906-1989) e William Butler Yeats (1865-1939).
Joyce, frenético, intratável e grosseiramente palavroso, e Beckett, contemplativo, devaneante, suspenso no éter, esperam por Yeats para uma partida de Pitch&Putt.
Beckett espera, tranquilo, por… Godot. Segura na mão uma bola de golfe que metódica e parcimoniosamente muda de bolso, como as pedras de Molloy.
Estamos em Zurique, em 19 de Janeiro de 1922 (Beckett está aparentemente envelhecido para os seus quase 15 anos):



Pitch 'n' Putt with Beckett 'n' Joyce (2001, Bórd Scannán na hÉireann), realizado por Donald Clarke

Yes,… I’ll… play.

quinta-feira, 8 de novembro de 2007

Reedição

No início do mês de Outubro deste ano, abria uma interessante discussão de teor psicossociológico, entre mim e o “Julinho da Adelaide” Yesterday Man, sobre o pensamento de Durkheim desenvolvido no seu estudo pioneiro sobre o suicídio, publicado no final do século XIX.
O mote era Werther de Goethe e a famigerada teoria dos suicídios em série, cuja génese esteve na angústia passional despertada pelo personagem da célebre novela.
Trouxe Werther e Durkheim à colação para falar sobre o argumento heteróclito, proposto por alguns críticos literários por esse mundo fora, da Literatura como arma de destruição em massa, potencialmente genocida (extensão semântica), insistentemente concretizado durante os anos de 2006 e 2007 em algumas recensões sobre o último romance metaficcional de Paul Auster, Viagens no Scriptorium – Auster, esse celerado, de caneta em punho…
A
Editorial Presença acaba de anunciar a reedição – ou como referem os seus colaboradores, o relançamento – da obra O Suicídio: Estudo Sociológico do proclamado pai da Sociologia moderna Émile Durkheim (1858-1917).
Ora, imbuído de uma auto-ilusão megalómana – daqui fala o meu, dele?, alter-ego –, não será de desprezar a forte oportunidade de vir a exigir da editora em causa uma percentagem dos proventos auferidos com a reedição da referida obra científica, aconselhando, desde o cimo da torre de marfim em que me encontro confortavelmente instalado, o
“Julinho” a proceder da mesma forma. A repercussão no mundo da lusofonia do nosso modesto debate assim o reivindica.
Agora, reeditem as ralaçõezinhas do jovem, langoroso e enfastiante, Werther…
Já dizia a outra, a potencial Nobel da Literatura das estações de serviço e afins, não há coincidências.