terça-feira, 11 de dezembro de 2007

Natal para revisionistas: uma oportunidade

Duas sugestões para abandonar de vez Os Protocolos… e talvez aproveitável para espantar em definitivo os fantasmas de uma vida pessoal e familiar miserável que, normalmente, se transmuta em letra de ódio na blogosfera. São cerca de 1400 páginas para a iniciar o trilho da redenção:

  1. Leni – A Vida e Obra de Leni Riefenstahl, de Steven Bach (Leni: The Life and Work of Leni Riefenstahl, 2007), edição Casa das Letras (na imagem), com prefácio de João Lopes.
  2. As Benevolentes, de Jonathan Littell (Les Bienveillantes, 2006), vencedor do Goncourt 2006, edição das Publicações Dom Quixote – sobre o livro, escrevi esta breve nota no defunto Porque.


«Art is moral in that it awakens.»
Thomas Mann, The Magic Mountain (Der Zauberberg, 1924)


A arte é moral naquilo que desperta.», trad. Óscar Mascarenhas. Creio que a mensagem, assim traduzida para a nossa língua, perde parte da sua potência sentenciadora, embora seja evidente a necessária fuga à perífrase, que, em definitivo, destruiria essa nobre capacidade. Deixo o assunto à discussão dos especialistas...)

domingo, 9 de dezembro de 2007

Filmar com... scanner

Christopher Orr, crítico de cinema da The New Republic, escreve sobre a adaptação cinematográfica de um dos melhores romances de sempre – opinião pessoal e dificilmente alterável por mais tempo que a vida me reserve. Atonement de Ian McEwan estreou ontem no grande ecrã nos Estados Unidos, realizado por Joe Wright, com argumento a cargo do luso-britânico Christopher Hampton e com as interpretações da insossa delicodoce Keira Knightley (no papel de Cecilia Tallis), do ainda duvidoso James McAvoy (no papel de Robbie Turner) e com Vanessa Redgrave (interpretando Briony Tallis na sua fase mais angustiante e dilacerante, e isto aplica-se a qualquer leitor com um mínimo de sensibilidade, ou seja, "acima da Stallone").
Orr começa o seu artigo de forma irónica, embora formalmente errada pela contagem de palavras que “1935”, um número, atrapalha: «Atonement opens in 1935, at a stately manor in the English countryside. (Have I just explained in a dozen words why it will be nominated for Best Picture? Perhaps I have.)» (dispenso-me à tradução).
Possivelmente, vem aí uma decepção para os mcewanianos (grupo em que me incluo sem reservas) ou para os avassalados por Expiação.
Sem querer passar por um agoirento de quinta categoria, ou então, um daqueles que esperam por opinião validada para conformar a sua, cedo desconfiei deste produto cinematográfico: Wright e Knightley, Orgulho e Preconceito, pretensão de chegar ao “patamar Ivory” num filme de época baseado numa obra de romancista consagrado, apesar de Hampton. Em suma, muita beijoquice e toque sensual reprimido, com guarda-roupa a puxar à memória o horrível odor a naftalina, de elocução quase shakespeariana, em jardins soalheiros e luxuriantes.
No subtítulo, Orr diz que «a fidelidade canina [do realizador] a um grande livro não faz um grande filme». E mais adiante, no corpo do artigo, explica: «O que falta ao filme é a prosa e a ingenuidade de McEwan, cujo literalismo de Wright não consegue alcançar. Ele transcreve fielmente o romance para o ecrã, mas nunca encontra uma linguagem cinematográfica – não, o martelar da máquina de escrever não conta – que poderia fazer do filme algo mais que uma obra de arte em segunda mão, um livro filmado.» [tradução: AMC]

E voltamos uma vez mais ao tema quente da interpenetração da Literatura e do Cinema – o substantivo empregado é o correcto, dada a bidireccionalidade relacional, apesar de aqui se invocar apenas uma das vertentes –, dos graus de liberdade na adaptação de uma obra consagrada ao grande ecrã, redundando sempre no preso por ter cão

Se assim é, é uma pena. E depois, transformar a culpa íntima e perpétua, profunda e pungente, de Briony, a alma da obra-prima de McEwan, num processo expiatório dentro de um talk show televisivo é no mínimo burlesco, para não dizer profano, especialmente quando se abusa do literalismo adaptativo.

Entretanto, as vacas, esses bichos ruminantes impenitentes, continuarão a pastar celulóide nas colinas de Hollywood.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2007

Um cordeirinho por leão

Robert Redford, Peões em Jogo (Lions for Lambs, 2007)
Robert Redford fala, contesta, reivindica, vocifera… mas não faz, não consegue, não pode e não tem fôlego para realizador, é uma perfeita nulidade. É um desperdício...
Em suma, para quem exibe, e se gaba de, toda a sua fúria leonina, só consegue chegar à inocência seráfica de um cordeirinho desprotegido, inutilizando a arma, habitualmente letal, da arte panfletária, e numa ironia haraquiriana pondo-se a jeito, sem esforço da contraparte, dos lobos (ou falcões) famélicos que critica.
O trio Redford, Streep & Cruise não é necessariamente sinónimo de qualidade, apesar dos auspícios político-hollywoodianos para os Óscares 2008 – cerimónia de entrega a realizar no próximo dia 25 de Fevereiro, no Kodak Theatre.
Sem ritmo, sem génio e verdadeiramente kitsch.

Ah, e que bem me souberam aqueles momentos em que, de forma intermitente, ia passando pelas brasas – o meu agradecimento aos responsáveis pela climatização das salas de cinema UCI (ex-AMC).

quinta-feira, 6 de dezembro de 2007

Brutalidades – II

[Intróito: tal como havia prometido, apesar do imenso atraso devido a uma pequena turbulência emocional, eis a 2.ª e última parte do tema “Brutalidades”, aberto sábado passado com o livro de Cormac McCarthy]

Promessas Perigosas de David CronenbergCresci a ver filmes de Cronenberg. É verdade, parece tortuoso ou eventualmente deformatório num processo salutar de construção e aperfeiçoamento da personalidade.
Ainda era adolescente na fase pós-púbere, com as excedentárias, e agora irrecuperáveis, reservas de tempo e uns parcos escudos para as sessões diárias de filmes em reposição no extinto Cinema Terço – quando aqueles me escapavam durante a denominada época comercial –, ou ainda carregando as monstruosas e inestéticas cassetes de VHS que alugava nos outrora cogumélicos clubes de vídeo, e não havia um único filme realizado pelo cineasta canadiano que não passasse pelos meus olhos de jovem cinéfilo – de qualidade ou não, isso pouco importa, na altura idolatrava John Carpenter, imagine-se.
Cronenberg, com a precisão de um relógio suíço – daqueles exorbitantemente caros –, consegue assolar-me através de uma súbita emergência síncrona de sentimentos paradoxais, culminando numa amálgama indescritível de "efeitos de prova" mutuamente exclusivos.
Cronenberg é horror, náusea, fascínio e encanto. Desde o devaneio de um opiómano com baratas falantes inspirado numa estranho romance autobiográfico de Burroughs; passando pela mais horrorosa forma de suicídio que uma mente atormentada pode conceber, bater com a própria cabeça, com a boca aberta, numa tesoura cravada no lavatório, esta última perversidade baseada num thriller de Stephen King; indo ao estranho fascínio por membros estropiados, cicatrizes colossais e corpos retalhados em acidentes de viação de Ballard; até a um útero trifurcado e uns arrepiantes e bizarros instrumentos ginecológicos de invasão. Apesar de tudo e de alguma coisa mais, Cronenberg possui o dom raro da indução da repugnância suprema no espectador ao mesmo tempo que, pela mão invisível da vivacidade da trama e da destreza cénica, o agarra sem redenção à cadeira – embora, para ser franco, tenha de referir que foi com Festim Nu de Cronenberg que inaugurei um dos raríssimos momentos na minha já longa experiência de espectador de cinema: abandonei a sala a meio da projecção do filme por pura náusea.

Promessas Perigosas, chamaram-lhe assim os habitualmente originais nomeadores portugueses, é o seu filme mais recente – Eastern Promises, estreou na passada quinta-feira nas salas de cinema portuguesas.
Neste filme, Cronenberg volta a apostar no realismo do quotidiano de degradação e de violência que enxameia sociedades contemporâneas do mundo ocidental. Se em Uma História de Violência (A History of Violence, 2005) a fábula da mundanidade e da perversão é transversal a um território que se uniformiza, jogando na interpenetração do rural e do urbano ou na diluição das fronteiras entre o local de refúgio e a inescapável montra citadina da fraqueza humana, em Promessas Perigosas Cronenberg muda o eixo para a colossal Londres e para o recrudescimento da rivalidade e da violência entre grupos rivais pertencentes ao submundo das máfias da Europa de Leste, que se digladiam ostensivamente numa guerra sem quartel nas ruas da grande metrópole, e cujos fulgor e expansão assentam na mesmíssima fragilidade ocidental, enredada na defesa cega e intransigente dos direitos, liberdades e garantias dos cidadãos.
Neste filme, o cineasta canadiano, que parece haver recriado o paradigma performativo do bom vilão – cínico, cerebral, insuspeito, um bloco de gelo em ebulição interior e... mestre de artes marciais –, volta a apostar em Viggo Mortensen para protagonista, conduzindo, desta vez, a cândida, terna e lynchiana Naomi Watts para o confronto amoroso, com um lirismo explícito quase inédito nas obras do realizador.
Sobre Mortensen não há muito a dizer, está talhado para aquele papel de inexpressividade facial, mesmo quando, no ponto mais marcante em termos visuais da película, tem de enfrentar em pelote um duo de assassinos nos banhos públicos – peço perdão aos fãs, mas Mortensen lembra-me Chuck Norris no esplendor da sua cabotinagem. Todavia, Cronenberg parece saber tirar partido disso mesmo, espreme-o até ao tutano cedendo até, neste caso, aos devaneios fílmicos do actor.
Finalmente, na segunda linha encontramos duas interpretações seguras e convincentes: a do actor francês Vincent Cassel no papel do histriónico e perturbado Kirill, e a do actor alemão Armin Mueller-Stahl representando de forma magistral o abominável avozinho russo Semyon, pai do primeiro e líder de uma das facções do grupo mafioso russo Vory V Zakone.
Com Promessas Perigosas ainda não se chegou à intensidade dos aplausos, enérgicos e fervorosos, com que a crítica cinematográfica incensou no ano anterior Uma História de Violência. Classificam-no como um filme menor por comparação ao seu irmão mais velho. Pois, só para contrariar, e servindo-me livremente do recurso da comparação, gostei mais deste, sobretudo dos seus inúmeros pormenores visuais de um vermelho vivo, pulsante, que parecem simbolizar a tal debilidade (ou fraqueza, por definição) da natureza humana.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2007

Tomar Partido [em atraso]

Parabéns atrasados ao Jorge Ferreira pelo 4.º aniversário do seu Tomar Partido.

[imperdoável este esquecimento – que nada teve a ver com questões clubísticas, até porque essas seriam razões apelativas à lembrança, vide sábado –, agravado pela proximidade de datas de aniversário entre os dois blogues. Um bom portista, parabeniza. E fiquemo-nos pelos aniversários...]

terça-feira, 4 de dezembro de 2007

Agradeço

Nós, portugueses, somos um povo tão peculiar… ah, e a nossa língua espelha tão bem a nosso temperamento pátrio.
Pois, “obrigado”, palavra que usada como interjeição significa agradecido, grato: gracias, thank you, grazie, merci, danke, dankzij,…
Mas, obrigado cheira a dever, a imposição, a um acto forçado ou até contrariado, quando muito revela indolência do adimplente para terminar a frase.
Agradecemos com resignação, porque tem de ser… que maçada, obrigado!
Neste momento sinto-me recompensado, e daí não resulta necessariamente uma obrigação, tout court, para agradecer, mas uma viva vontade de retribuir as palavras amáveis e despretensiosas de um conjunto de “amigos invisíveis” – não me conhecem, não sabem o que faço, estou longe das fontes de poder, apenas escrevo desde uma cidade lúgubre, deprimida, que se desertifica e depaupera a um ritmo inexorável; não me podem pedir emprego ou notoriedade, uma cunha ou protecção, apenas amizade que neste pequeno grande mundo, a que se convencionou chamar de blogosfera, se traduz por reciprocidade. Basta isso, apenas isso.
Agradeço aos meus queridos amigos as felicitações que me enviaram pela celebração do 1.º ano de existência deste blogue e dos meus 2 anos a divagar na blogosfera:
André, Carlos, Fátima, Henrique, Lutz, Manel e Paulo.

[agradeço ao Technorati pelos seus serviços… responsabilizando-o no caso de me haver esquecido de alguém.]

domingo, 2 de dezembro de 2007

Facto

Domingo. Uma liturgia. Deambulo pela blogosfera sem destino, sentindo que por aqui se abateu a penúria de escrevente, mesmo de um leve resquício de pulsão criativa que pudesse encher de confiança um ego macerado: já não consigo auto-iludir-me.
Uma reminiscência, no entanto, batia ao de leve nesse campo neuronal devastado. 2 de Dezembro de 2006
É verdade, há um ano iniciava-se a minha peregrinação contumaz pela blogosfera, um ano depois da diletante e sublimada estreia moura-e-cunhiana com o
Porque17 de Dezembro de 2005.
Li algures que o cansaço não é a causa mas o efeito da falta de criatividade e de originalidade. Concordo. Sem vestígios, asseguro-vos, de uma pretendida autoflagelação pública: estou cansado, e não sei aonde me levará este cansaço. Sei que, infelizmente, vai atravessando muitos instantes da minha existência.
Mais um ano...

sábado, 1 de dezembro de 2007

What's the most you've ever lost in a coin toss?

Brutalidades – I

Um livro e um filme (este último, para o capítulo II).

O livro
Cormac McCarthy, esse grandessíssimo autor da sublime escola literária norte-americana contemporânea, novelista que vou aprendendo a admirar, residente no Novo México, nascido em Providence, Rhode Island, em 1933, escreveu um dos melhores romances mascarados de thriller que li nos últimos tempos: Este País Não É para Velhos (No Country for Old Men, 2005).
Com uma economia e uma precisão narrativas, McCarthy constrói uma fábula sobre a perversidade e o apodrecimento humanos provindos de uma decadência, aparentemente irreversível, do outrora admirável Novo Mundo: terra dos bravos e dos homens livres, agora terreno fértil para as elucubrações literárias – alguém disse, e não me lembro quem, que o grau de excelência da Literatura (entendida como profusão de livros e do número de autores coetâneos de altíssima qualidade) representativa de um lugar, de uma região, de um país num dado momento é directamente proporcional ao seu grau de anomia, de desintegração e de desenraizamento sociais.
McCarthy e DeLillo são, neste momento, as vozes literárias que, de forma precisa, testemunham e alertam para essa desolação travestida de um, tão inútil como afanoso, fervor vivencial que invadiu a sociedade americana, cujo destino real – lê-se nas entrelinhas –, quiçá num futuro mais próximo que o conjecturado, poderá ir muito além da ficção, da visão distópica modelada pela obra de arte.
Este País Não É para Velhos é, na sua aparência, uma obra de ficção policial: um frio e calculista assassino, Anton Chigurh, a soldo dos grandes traficantes de droga que operam na fronteira territorial entre os Estados Unidos e o México, e um banal mecânico de província, soldador de peças de automóveis, veterano da guerra do Vietname, Llewelyn Moss, que descobre, enquanto caçava na paisagem desértica da fronteira, uma mala recheada com mais de 2 milhões de dólares, um carregamento de heroína mexicana e um estranho morticínio que apenas deixou um homem moribundo e uns tantos cadáveres espalhados pelo terreno.
Contado assim, o enredo do penúltimo romance de McCarthy não passaria de mais um thriller paraliterário, potencialmente hollywoodiano, pejado de cenas de uma violência gratuita, abordando, com uma reflexão exasperantemente débil e minimalista, a eterna disputa entre o bem e o mal, neste caso transformado no visto e revisto jogo do gato e do rato entre o criminoso e o inocente; em suma, uma história sobre a presciência, a frieza e a sabedoria de um assassino que se empenha numa busca desenfreada para recuperar o dinheiro sujo que foi roubado por um inexperiente e anódino homem da província, com uma vida banal e de escassa inteligência prática.
No entanto, é precisamente aí, nesse jogo de ilusão e de aparência, que reside o desafio que McCarthy lança ao leitor. A lhaneza dos diálogos, o emagrecimento descritivo e a frenética sequência dos factos exigem ao leitor atento, amante das artes literárias, um esforço de desconstrução: ler um subtexto supostamente inexistente, mas que o autor, de forma engenhosa, deixou visível, como o novelo de fio de Teseu que desenrolado o pôde conduzir à saída do labirinto de encontro à sua amada Ariadne.
McCarthy mostra-nos o fio da narrativa através das intervaladas reflexões do velho xerife Ed Tom Bell, ex-combatente da II Guerra Mundial, sobre o envelhecimento e a memória de um passado obscuro que nos persegue – «Ele disse que eu estava a ser demasiado severo comigo mesmo. Disse que era sinal da velhice. Tentar emendar os erros que se cometeram. Se calhar há nisto alguma verdade. Mas não é a verdade toda. Concordei com ele quando disse que não havia muita coisa boa para dizer sobre a velhice e ele disse que tinha descoberto uma e eu perguntei o que era. E ele disse: É que não dura muito.» (pág. 203) –, sobre a inadaptação por um país em que a violência parece tomar conta de vida dos seus filhos, embora, com um mínimo esforço de memória, se possa concluir que toda a sua história foi construída sob o domínio da violência, desde as primeiras investidas territoriais dos primeiros colonos, passando pela Guerra da Secessão, acabando no Vietname (o romance decorre no final da década de 70 do século XX) – «Pensei na minha família e pensei nele, sozinho naquela velha casa, na cadeira de rodas, e dei comigo a pensar que este país tem uma estranha história e bem sanguinolenta, diga-se, chiça.» (pág. 205); «As pessoas dizem que foi o Vietname que pôs este país de rastos. Mas eu nunca acreditei nisso. O país já estava em muito mau estado. O Vietname foi só a cereja em cima do bolo.» (pág. 214).
É nestas reflexões de Ed Tom, verbalizadas num estilo de linguagem coloquial, em que se funda e materializa a mensagem, transformando a aparente acção principal num teatro de sombras do inexorável caminho para o apocalipse de uma sociedade corrupta, perversa e materialista que deprecia o valor absoluto da vida humana, estabelecendo-se um paralelismo bíblico com as profecias de São João Evangelista determinadas no último dos Livros do Novo Testamento.
«Dizem que os olhos são as janelas da alma. Eu cá por mim não sei de que é que os olhos são as janelas e se calhar até prefiro não saber. Mas há uma outra maneira de ver o mundo e outros olhos para o ver e é por esse caminho que nós vamos. Eu próprio o trilhei e conduziu-me a um lugar na minha vida que nunca imaginei chegar a conhecer. Algures por aí anda um profeta da destruição, um profeta genuíno, de carne e osso, e eu não o quero enfrentar.» (pp. 15-16).
Com este romance, Cormac McCarthy traz-nos de novo uma atroadora e descoroçoante alegoria. Uma narrativa com vida própria, autónoma, para além da vontade do próprio escritor, viril, brutal, desoladora e inóspita, sem mesuras e lamentos, expurgada de derivações metafísicas ou de pretensas respostas sobre o declínio da América e da nossa civilização, e a percebida inexorabilidade – o espírito deste tempo – na aproximação das trevas.

Classificação: ***** (Muito Bom)

Referência bibliográfica:
Cormac McCarthy, Este País Não É para Velhos. Lisboa: Relógio D’Água, 1.ª edição, Outubro de 2007, 231 pp. (tradução de Paulo Faria; obra original: No Country for Old Men, 2005).


Nota: Os fabulosos irmãos Coen (Joel e Ethan) – responsáveis por alguns dos filmes do meu Olimpo íntimo e intransmissível: Fargo (1996) ou O Grande Lebowski (The Great Lebowski, 1998) – produziram, realizaram, montaram e escreveram o argumento do filme homónimo – estreou na semana passada nas salas de cinema norte-americanas –, com interpretações de Tommy Lee Jones, Javier Bardem, Woody Harrelson, entre outros. Tanto a crítica, como a esmagadora maioria dos espectadores, têm demonstrado, empregando algumas hipérboles encomiásticas, a sua admiração irrestrita pelo último filme desta dupla.

Por aqui vou esperando, dando por mim a desejar que a história, na versão fílmica dos irmãos Coen, haja logrado captar a verdadeira essência do romance de McCarthy. Todavia, enfatizando a ressalva, a um filme dessincronizado com a obra literária que lhe deu origem não pode, nem deve, seguir-se uma imediata sentença de repúdio ou de rotulagem de inabilidade na adaptação do romance de base. São artes diferentes que merecem um tratamento diferenciado. Normalmente, a natureza descritiva de um livro é incompatível com o imediatismo imagético de uma obra cinematográfica. De outro modo, correríamos o risco de cair na célebre imagem satírica de Hitchcock das duas cabras que pastavam bobines de celulóide talvez nas colinas de Hollywood, em que a primeira pergunta à segunda se esta está a gostar da refeição; ao que a segunda responde: “Nada mal!... Mas, gostei mais de comer o livro…»

sexta-feira, 30 de novembro de 2007

Olhe que não…

«A ACP [Associação Comercial do Porto], em lugar de preocupar-se com Pedras Rubras, mete o bedelho onde não é chamada. É bem certo que a vertigem da capital tolda os notáveis da Invicta.» Eduardo Pitta, "Os Estudos", Da Literatura.

Olhe que não, Eduardo. Aqui não se aplica a qualidade de exclusividade de discursista lisboeta. Até poderia alvitrar como razão principal o não audível (por quem de direito) “disso já nós todos estamos fartos” – nós, os da denominada província, ou os pertencentes à 2.ª classe lusa, ou, reduzindo um pouco mais a dimensão, os tais do Norte.
A principal questão reside no simples, e não despiciendo, facto de os montantes envolvidos nessa trapalhada nacional, de contornos obscuros, se situarem na escala dos milhares de milhões de euros, que sairão directamente dos cofres do Estado – apesar do engodo das parcerias público-privadas; essas, digo, já ocorreram (agora, uma ironia eufémica) antes do anúncio público da localização do aeroporto na Ota… –, entidade suficientemente abstracta e demasiadamente distante que é financiada com os nossos impostos e não apenas com as contribuições dos residentes da região de Lisboa e Vale do Tejo.
E depois, desde quando os interesses das gentes da Invicta, ou de outras regiões menos favorecidas do nosso pequeno, porém díspar, rectângulo, deixaram de ser de interesse nacional?

Um poema, um livro, um filme

THAT is no country for old men. The young
In one another's arms, birds in the trees
– Those dying generations – at their song,
The salmon-falls, the mackerel-crowded seas,
Fish, flesh, or fowl, commend all summer long
Whatever is begotten, born, and dies.
Caught in that sensual music all neglect
Monuments of unageing intellect.

An aged man is but a paltry thing,
A tattered coat upon a stick, unless
Soul clap its hands and sing, and louder sing
For every tatter in its mortal dress,
Nor is there singing school but studying
Monuments of its own magnificence;
And therefore I have sailed the seas and come
To the holy city of Byzantium.

O sages standing in God's holy fire
As in the gold mosaic of a wall,
Come from the holy fire, perne in a gyre,
And be the singing-masters of my soul.
Consume my heart away; sick with desire
And fastened to a dying animal
It knows not what it is; and gather me
Into the artifice of eternity.

Once out of nature I shall never take
My bodily form from any natural thing,
But such a form as Grecian goldsmiths make
Of hammered gold and gold enamelling
To keep a drowsy Emperor awake;
Or set upon a golden bough to sing
To lords and ladies of Byzantium
Of what is past, or passing, or to come.


William Butler Yeats, Sailing to Byzantium (1928)
Nota: seguir tags.

sábado, 24 de novembro de 2007

IAN [republicação]

Joy Division - Love Will Tear us Apart (single, Fac. 23)Na noite de 17 para 18 de Maio de 1980, Ian Kevin Curtis (n. 1956) punha termo à sua curta vida, enforcando-se na cozinha de sua casa. Com ele terminou a carreira de uma das melhores bandas musicais de sempre, os Joy Division, justamente na véspera de iniciarem a promissora tournée pelos Estados Unidos, onde já reverberavam os sons angustiantes da guitarra de Bernard Sumner, do baixo de Peter Hook e da bateria de Stephen Morris, conjuntamente com a voz cavernosa e profundamente encantatória de Ian Curtis. Para a história ficam o filme de 1977, Stroszek, do realizador alemão Werner Herzog, a que Ian assistiu na noite de 17 de Maio – relatando a história conturbada de um alcoólico e ex-condenado alemão que emigra para os Estados Unidos e que mais tarde acaba por se suicidar – e o fantástico álbum, também de 1977, de Iggy Pop, produzido por David Bowie, The Idiot – álbum que inclui as fabulosas músicas “Nightclubbing”, “Dum Dum Boys” e a icónica “China Girl” –, que corria ainda no gira-discos quando no dia 18 de manhã Deborah, a sua mulher, após haver acordado sobressaltada em casa dos pais com as primeiras estrofes de canção The End dos Doors, se deslocou a sua casa e encontrou Ian enforcado na cozinha. Em cima da mesa, junto a um amontoado de fotografias do seu casamento e de um retrato emoldurado de Natalie, a sua filha, estava uma carta, redigida em letras maiúsculas – tal como escrevia as letras das suas canções –, confessando a sua angústia pelo afastamento... (cf. Deborah Curtis, Carícias Distantes).
Em Março de 1980, os Joy Division gravam para a Factory o seu maior sucesso de sempre, a premonitória canção “Love Will Tear us Apart”. A capa do single, Fac 23 e que incluía no lado B o tema não menos excepcional “These Days”, foi idealizada por Curtis. Nela surgem apenas inscritos o título da música e o número de série do disco na editora; segundo Deborah, Ian relatou-lhe o processo de composição: são letras gravadas numa folha de metal, introduzida posteriormente em ácido e finalmente exposta à influência dos elementos. Ian queria que o metal se assemelhasse a uma pedra… Mais tarde, Deborah gravou as cinco palavras na pedra tumular que alberga as cinzas do marido.
Da letra ficam os reflexos da epilepsia que se vinha agravando com o ritmo apertado das gravações e dos concertos, e o afastamento de Ian das suas mulher e filha, catalisado por um romance mantido com a jovem admiradora belga Annick Honoré.

Nota: texto originalmente publicado neste blogue no passado dia 4 de Junho, cuja republicação se deve à minha segunda experiência contemplativa da obra de Corbijn no período de uma semana.

sexta-feira, 23 de novembro de 2007

Revisto

Existence, well what does it matter?
I exist on the best terms I can
The past is now part of my future
The present is well out of hand.

Mais lágrimas… exorcizados os fantasmas, opinião aperfeiçoada.
Fui ao
sítio do costume, entrei na minha conta de há quase dez anos... o 9 anterior transformou-se em 10.

Memórias de um cínico

Conta-se, no extenso anedotário da Literatura universal, que uma vez Saul Bellow terá dito a Gore Vidal que, um dia, gostaria de o apresentar ao seu filho para este poder ver in persona a verdadeira personificação do cinismo. Este dito, ou chiste literário, viu a luz do dia pela pena de Fred Kaplan, biógrafo de Gore Vidal – escreveu e publicou em 1999 o enciclopédico Gore Vidal: a Biography e editou, no mesmo ano, o inusitado livro de excertos de romances e de ensaios pertencentes à extensa bibliografia do autor americano, The essential Gore Vidal. Jornalista, colunista da Slate, Kaplan escreveu obras biográficas sobre eminências literárias como Charles Dickens ou Henry James, entre outros.
«Só li umas passagens da biografia – as suficientes para me dar conta da exactidão do título da crítica ao seu livro [a biografia escrita por Kaplan] publicada no The Times Literary Supplement: “Mal Interpretando Gore Vidal.”» (pág. 118). Vidal havia contratado Fred Kaplan para completar a sua biografia, previamente iniciada por Walter Clemons, que morreu subitamente em 1994, com 64 anos, de complicações provocadas pela diabetes. A pequena nota de censura atrás referida ficou a dever-se a uma referência da biógrafa de Paul Bowles sobre os supostos encontros gay, encenados por Jane Bowles e coreografados por um grupo de notáveis (Vidal e Capote incluídos), na afamada casa do casal em Tânger, mencionando como fonte o próprio Fred Kaplan. Vidal desmentiu. Ora, este pequeno episódio resume parte daquilo que Gore Vidal representa para opinião pública e publicada, por si só uma fonte inesgotável de ditos e mexericos no agitado universo cultural norte-americano.
Eis Navegação Ponto por Ponto, a segunda obra autobiográfica de Gore Vidal que inclui as suas memórias de 1964 a 2006, ano em que a obra foi originalmente publicada.
Em 1995, Vidal publica Palimpsest: A Memoir, o seu primeiro livro de memórias, que retrata os primeiros trinta e nove anos da sua vida (1925-1964) – infelizmente, à boa maneira portuguesa, esta obra ainda não foi editada no nosso país; teimosamente, e apesar das dolorosíssimas lições, constrói-se sempre a casa a partir do telhado... Que fazer? (já dizia o outro, bem caro a este que se auto-retrata.)
Eugene Luther Gore Vidal, ficcionista, ensaísta, dramaturgo, argumentista para cinema e televisão, político intermitente e analista político, em suma, figura pública, nasceu na academia de West Point, a 3 de Outubro de 1925, onde o pai exercia as funções de instrutor de voo. Neto, pelo lado materno, de Thomas P. Gore, o ilustre senador do Oklahoma – Estado que o próprio ajudou a fundar – pelo partido democrata norte-americano; filho de um conhecido empresário da aviação comercial, Eugene Vidal – fundou a companhia precursora da gigantesca TWA – e foi membro da equipa governamental de Franklin D. Roosevelt; parente por uma curiosa afinidade com Jackie Kennedy (co-enteada, no seu segundo casamento, a mãe de Vidal desposou Hugh Auchincloss, que, após a separação, viria a casar com a mãe de Jackie); aparentado com Jimmy Carter e primo afastado do incansável Al Gore. Conhecido pela sua frontalidade e pela crítica acerba daquilo a que chama de Império Americano e dos seus tiques imperialistas, que, segundo o próprio, progressivamente se vai afastando do republicanismo preconizado pelos Pais Fundadores, designadamente da visão política de Thomas Jefferson, Vidal é assumidamente um homem de esquerda, um reformista-progressista, pacifista – militou contra a guerra do Vietname e, de forma mais apaixonada, contra a guerra do Iraque, atitude reforçada pelo epíteto de “preemptive war” – guerra de preempção – e não “preventiva”, como alguns lhe chamaram, os seus ideólogos, os neocons, assim como os perpetradores subsumidos à tríade Bush-Cheney-Rumsfeld.

Apesar de a obra dispor de um subtítulo que apela às “Memórias 1964-2006”, Vidal parte dos anos da depressão, passando por FDR, antes e durante a II Guerra Mundial, de Truman, Eisenhower a JFK e Bobby Kennedy, estabelecendo um evidente contraponto com os primeiros anos do terceiro milénio da Era Cristã caracterizados, segundo ele, pela violenta estocada final na República, assim como, na sua esfera íntima, pela morte de pessoas que lhe são (ou em tempos foram) próximas: começando em 2003 com a morte de Howard Austen – o seu companheiro de 53 anos –, de Susan Sontag em Dezembro de 2004 – correligionária política –, de Johnny Carson em Janeiro e Saul Bellow em Abril de 2005, culminando com a morte de Barbara Zimmerman Epstein, em Junho de 2006, a sua editora de toda a vida.
Com as obras de James Purdy em cima da sua secretária e um volume de ensaios de Montaigne «está por perto, o derradeiro critério para quem está a tentar lembrar-se de si mesmo e dos outros» (pág. 45), Vidal parte para escrita e inicia uma curta digressão sobre a sua vida que, treze anos após haver escrito Palimpsest (1992, pub. 1995), período em que se veria confrontado com as tais perdas irreparáveis no seu círculo afectivo mais restrito e conviveu com a economia de guerra americana “bushista” pós-11 de Setembro, revelou, uma vez mais, um estoicismo que os outros lhe reconhecem:
«Às vezes, pareço-me com Montaigne quando ele observa: “Adoptei a prática de ter sempre a morte não apenas na minha mente, mas também nos lábios”.»

Seguindo o método da navegação ponto por ponto – que o autor explica numa nota introdutória haver aprendido enquanto primeiro imediato numa embarcação de guerra nas Ilhas Aleutas, isto é, seguir curso com pontos de referência marcados no mapa em viagens anteriores, sem qualquer hipótese de usar a bússola e sem dispor de radar –, Vidal conta-nos as suas relações com a política e os políticos, com os seus notáveis e instáveis companheiros Tennessee Williams e Paul Bowles – que lhe viriam a provocar alguns amargos de boca, pela revelação, através das suas cartas a outros e biografias, de algumas deslealdades –, com os realizadores Federico Fellini e o neófito (ainda argumentista) Francis Ford Coppola, com o casal Paul Newman e Joanne Woodward, com Greta Garbo, como espectador de uma curiosa altercação entre Graham Greene e Anthony Burgess, não deixando de expressar as suas peculiares convicções políticas, como atesta o que se segue:
  • Rudolf Nureyev: «Odiava quando a imprensa o descrevia como um refugiado do comunismo. […] Nunca o ouvi denunciar o sistema soviético.», e citando o próprio bailarino, «Vim-me embora apenas para poder dançar mais. As grandes companhias de dança lá estão congeladas. Foi por isso que parti.» (pág. 224).
  • Aldo Moro, o PC italiano e as Brigadas Vermelhas: «O partido comunista italiano, tão frequentemente vilipendiado pela nossa imprensa [a americana], nunca constituiu certamente um grande perigo para ninguém e os grupos dissidentes radicais como as Brigadas Vermelhas dificilmente poderiam ser considerados comunistas» (pp. 225-226), antes refere o rapto e o assassinato do ex-primeiro-ministro Aldo Moro pelo grupo terrorista, e o conselho de todos para «sair de Itália que estava a cair no caos» (pág. 225), mas Vidal não sentiu medo, já que conhecia os políticos de Washington e a sua teoria do propalado «recrudescimento do comunismo em todo o mundo», afirmando que os europeus estão «fartos dos nossos gritos a prevenir a vinda dos lobos quando, na realidade, somos nós, os americanos, que cada vez mais somos identificados com o lobo que ataca a casa dos três porquinhos.»
  • Cuba e Fidel Castro: «[…] em 1959, sob a direcção geral do então vice-presidente Richard M. Nixon, que tinha muitas ligações interessantes com criminosos cubanos (sim, o seu misterioso amigo Bebe Rebozo estava ligado não apenas a gangsters, mas também ao ditador cubano Fulgencio Baptista, que foi derrubado por Fidel Castro para descontentamento dos criminosos, contrariedade essa que se transformou em raiva quando Fidel fechou, embora por pouco tempo, os casinos de Havana dirigidos pela máfia.» (pág. 264)
  • Charles Lindbergh: Gore desmente as supostas ligações de Lindbergh ao regime Nazi – acusação atribuída a Roosevelt como meio para aniquilação política do insigne aviador. Conta que este foi enviado à Alemanha por FDR para se certificar do poderio aéreo da Luftwaffe, havendo, na ocasião, recebido a famosa Cruz de Guerra de Hermann Göring, atribuída apenas como herói universal da aviação. Vidal acrescenta: «Apesar da aversão que tinha por ele [Lindbergh], FDR dava ouvidos aos bons conselhos e, assim, graças aos relatórios de Lindbergh, foi o nosso poderio aéreo que, no fim, nos fez ganhar a guerra.» (pág. 173).
Numa escrita escorreita, sem artifícios, atenta e mordaz, é na descrição dos seus anos na companhia Howard Austen – embora, Vidal nunca houvesse escondido a sua orientação sexual, que, por exemplo, lhe valeu um guerra surda que ainda hoje se mantém com o The New York Times, aquando da publicação do seu segundo romance A Cidade e o Pilar (1946), cuja forte carga homoerótica levou a um boicote tácito e ostensivo do exercício da crítica nas páginas do referido periódico nova-iorquino às obras que posteriormente viria a publicar –, vivendo durante os 53 anos numa literal união fraterna em diferentes localidades do globo: Edgewater – situada nas margens do rio Hudson no Estado de Nova Iorque –, em Roma, em Banguecoque, salientando as inúmeras festas no famoso Oriental, e em Hollywood Hills , assim como dos anos que decorreram a partir do momento em que Howard soube padecer de cancro pulmonar e da rápida evolução da doença, até à sua morte em 2003, que Vidal desfaz a figura de crítico atento, austero e impiedoso, para exibir o seu lado sentimental:
«Tenho saudades quando leio onde estava, em 1992, a minha sala de trabalho em Ravello [passa a citar Palimpsest]: “Um cubo branco de tecto arqueado e uma janela à minha esquerda com vista para o golfo de Salerno em direcção a Paestum; neste momento, um mar cinzento metálico criou uma neblina branca que obscurece o sol eternamente hostil.” Ao citar estas linhas, volto ao tempo em que Howard ainda está vivo e o nosso mundo intacto.» (pp. 45-46)

Irónico, divertido, com os habituais laivos de sarcasmo e de verrina, pontuado por passagens ternas e suaves, Navegação Ponto por Ponto lê-se com dedicação e entusiasmo, apesar de, por vezes, o autor cair num excessivo name dropping – embora, seja uma situação típica e frequente neste género de obra literária – confundido essencialmente o leitor não-americano, para quem, com elevado grau de probabilidade, alguns nomes nada dizem. Ademais, como o próprio título da obra parece indicar, verifica-se alguma sinuosidade discursiva, que pelo menos é consistente ao longo de toda a narrativa, prejudicando, contudo, uma razoável noção de linearidade temporal da história, perdendo-se, por vezes, o fio condutor, obrigando a uma releitura de alguns parágrafos.

Um comentário final para a edição portuguesa, sob chancela da editora Casa das Letras. Em primeiro lugar, não se entende o critério editorial que presidiu à supressão do índice remissivo, que consta da obra original e que neste tipo de obras funciona como um mapa essencial para uma simples releitura. Depois, a tradução é paupérrima, para além de alguns e recorrentes lapsos gramaticais que tornam penosa a sua leitura, contém erros factuais graves, que são imperdoáveis para qualquer pessoa que se interessa por esta coisa chamada literatura, como por exemplo a gritante troca de género da escritora – bartlebiana – de Por Favor Não matem a Cotovia, Harper Lee: «Numa biografia recente, observei, divertido, que uma das numerosas mentiras que Truman Capote tinha contado ao seu amigo de infância, Harper Lee, foi que, aos dez anos, tinha pilotado um avião.» (pág. 22). Finalmente, algumas referências a obras de outros autores aparecem com a tradução literal do título, situação que seria obviada através de um nada custoso e elementar trabalho de pesquisa. Como exemplo, na página 123, a obra-prima de Paul Bowles, The Sheltering Sky, surge como «O Céu Protector», quando está editada em Portugal sob o nome «O Céu que nos protege» – título que, em abono da verdade, foi corrigido pelo tradutor (ou pela revisora) mais à frente na obra.

Classificação: **** (Bom)
Referência bibliográfica:
Gore Vidal, Navegação Ponto por Ponto. Cruz Quebrada: Casa das Letras, 1.ª edição, Novembro de 2007, 271 pp. (tradução de José Luís Luna; obra original: Point to Point Navigation, 2006).

quinta-feira, 22 de novembro de 2007

Divulgação

Eu queria encontrar aqui ainda a terra

Em Novembro estreia a nova peça do Projéc~, desta vez numa produção do
TMG para a Câmara Municipal da Guarda e o Centro de Estudos Ibéricos. O quinto trabalho da estrutura de produção teatral do TMG intitula-se Eu queria encontrar aqui ainda a terra, e tem por base o texto de António Godinho e manuel a. domingos sobre os universos de Vergílio Ferreira e Eduardo Lourenço.
A peça, para maiores de 12 anos e com encenação, dramaturgia, cenografia e figurinos de Luciano Amarelo, estreia a 28 de Novembro no TMG, ficando em cena no Pequeno Auditório até dia 30 de Novembro.


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Revista Nada

A Nada edita o 10.º volume da sua colecção.
O Preço mantém-se nos 9 euros e continua à venda nas livrarias habituais (ou através do mail@nada.com.pt).
A NADA já se encontra à venda e em várias livrarias de São Paulo.
O próximo volume sairá em Março de 2008.

Para mais informações consultar o
sítio da revista.


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terça-feira, 20 de novembro de 2007

Coisas que mudaram uma vida

Ou que acabaram com ela. Ou melhor, que o acompanharam na morte naquela fatídica madrugada de 18 de Maio de 1980.


A manhã, Deborah e a epifania do desespero:

«O som seguinte que ouvi foi “This is the end, beautiful friend. This is the end, my only friend, the end. I’ll never look into your eyes again.” Surpreendida por ouvir o “The End” dos Doors, tentei levantar-me da cama. Mesmo a dormir sabia que era uma canção pouco provável para estar a rodar numa manhã de domingo na Radio One. Mas não era rádio – era tudo um sonho.» (Deborah Curtis, Carícias Distantes, pág. 184)




Irei ver Control pela segunda vez, agora que o frémito curtisiano amainou…
Para já, planos e fotografia admiráveis; movimentos de câmara assombrosos (e.g. o percurso de Ian de casa ao trabalho – o Centro de Emprego de Macclesfield – envergando o blusão com a inscrição “HATE” nas costas); Sam Riley um prodígio; um final simbolicamente poderoso e envolvente.

Da primeira vez, fui o último a abandonar a sala de cinema… a sala parecia-me distorcida… baixei a cabeça, a porra da vergonha que por vezes enxameia a mente retrógrada de um macho latino.

«“The movie will begin in five moments”, the mindless voice announced. […] Silver stream, silvery scream. Oooooh, impossible concentration.»

segunda-feira, 19 de novembro de 2007

DeLillo, Gore Vidal, entre outros

Aproxima-se o Natal e as editoras nacionais lançam em barda as suas apostas mais seguras, retidas, durante pelo menos uma temporada, entre a tradução e a impressão – basta não ignorar a ficha técnica e reparar no ano de aquisição dos direitos de publicação.
Por aqui, numa altura em que se redobram os afazeres académicos, não há tempo para tanto livro, nem se vislumbra a iminência de um milagre da multiplicação das duas dúzias de horas que compõem o dia para satisfazer esta sofreguidão bibliómana.
Destaco dois livros, de dois autores norte-americanos, Don DeLillo (n. 1936, completa amanhã 71 anos) e Gore Vidal (n. 1925), um romance e um livro de memórias, respectivamente:



E depois há mais. Tempo e dinheiro – e já agora, que a saúde o permita, graças a quem tiver o poder para me a dar (ou tirar). Precisava de me reformar e já agora que o seu efeito, o pilim, fosse equivalente à jubilação dourada e merecida por três anos, árduos e penosos, a exercer funções no Banco de Portugal…

  • Christopher HitchensDeus não é grande (Dom Quixote) – já o comecei a ler em inglês, terminá-lo-ei na nossa língua.
  • Cormac McCarthyEste país não é para velhos (Relógio D’Água)
  • Don DelilloO Homem em Queda (Sextante) – o meu Nobel…
  • Gonçalo M. Tavares Aprender a rezar na Era da Técnica (Caminho) – quarto livro de O Reino (livros negros); Os três primeiros, por ordem cronológica de publicação: Um Homem: Klaus Klump, A Máquina de Joseph Walser e Jerusalém. Aguardo a sua leitura com alguma ansiedade, especialmente pela qualidade e pelo arrojo literários revelados com os dois últimos.
  • Gore Vidal Navegação ponto por ponto (Casa das Letras) – em fase de leitura
  • Haruki MurakamiDança, Dança, Dança (Casa das Letras) – obra que surgiu no seguimento de Em busca do carneiro selvagem; a avaliar por este último, não promete...
  • José Luís PeixotoCal (Bertrand) – acabei de o ler: desencanto e frustração, para quem, como eu, espera muito deste homem
  • Sandor MáraiA Mulher Certa (Dom Quixote)
  • Zadie SmithUma questão de beleza (Dom Quixote) – confirmar a destreza demonstrada em Dentes Brancos e a exultante crítica literária com este, o terceiro romance da autora (On Beauty, 2005).

domingo, 18 de novembro de 2007

Cadeias em Girassol*

Uma benigna epidemia – e perdoem-me a antonímia – tem varrido a blogosfera lusa nos últimos tempos: as correntes ou cadeias sobre os mais diversos assuntos.

Corrente I
O José Pimentel Teixeira iniciou
esta curiosa corrente, cujas posteriores derivações metabloguistas lhe trouxeram o aviltante saneamento de um conhecido top of the pops nacional. Citado o pai da corrente, o Francisco Valente desafiou-me para postar os vinte blogues que mais gente trazem ao meu blogue. Ora, dada a profusão de instrumentos de medição peniana na blogosfera, a tarefa de arrolamento não se revelou nada difícil. Assim, por ordem alfabética e recorrendo aos tais meios do metabloguismo, aqui estão os blogues que, carregados do mais alto valor da reciprocidade – um dos por que vale mesmo a pena blogar –, encaminham o maior número de visitantes para esta página, de estabilidade precária e de qualidade duvidosa – não houve alguém que disse que a humildade era o pior dos orgulhos? – de expiação e catarse:
O Acossado, Água Lisa, Auto-Retrato, Comboio Azul, Corta-Fitas, Da Literatura, Eduardo Barrento, Hoje Há Conquilhas…, Insónia, Irmaolucia, Last Breath, Meia-Noite Todo o Dia, Mundo Pessoa, O Nascer do Sol, Portugal dos Pequeninos, Quase em Português, O Regabofe, Textualino (ex-Casa do Sono dos Sonhos), Tubo de Ensaio, Vida Breve.

Segundo as regras, todos os nomeados terão de trabalhar na sua lista de angariadores de visitantes.

Corrente II
O Lourenço
encadeou-me. Incluiu-me numa das correntes mais difíceis que tive de enfrentar ou de “não quebrar”: solicitou-me que aqui postasse os cinco filmes da minha vida.
Felizmente, há, pelo menos, um conjunto de meia centena de filmes que poderia, sem menosprezo para os restantes quarenta e cinco relegados para outras posições, integrar a referida lista. Ora, se assumirmos essa totalidade como certa e dado que apenas cinco integrarão o quadro final, um simples recurso ao cálculo combinatório anunciaria a possibilidade de aqui postar 2.118.760 listas diferentes entre si.
Como resultado dessa enormidade numérica, decidi escolher – tal como uma vez fiz com os dez livros da minha vida – os primeiros filmes que me surgiram ao pensamento, sem que me atribuísse qualquer hipótese de remição – poema automático*.
Ei-la (por ordem alfabética do título em português):

  • O Crepúsculo dos Deuses, realizado por Billy Wilder (Sunset Boulevard, 1950);
  • Os Despojos do Dia, realizado por James Ivory (The Remains of the Day, 1993) – baseado no romance homónimo de Kazuo Ishiguro (1989);
  • Magnólia, realizado por Paul Thomas Anderson (Magnolia, 1999);
  • Morte em Veneza, realizado por Luchino Visconti (Death in Venice, 1971) – baseado no romance Der Tod in Venedig (1912) de Thomas Mann;
  • A mulher que viveu duas vezes, realizado por Alfred Hitchcock (Vertigo, 1958) – baseado no romance policial D’entre les morts (1954) escrito pela dupla Pierre Boileau e Thomas Narcejac.

Com um sorriso chocarreiro nos lábios – como é um sorriso chocarreiro? A que sabem as nuvens? – acorrento:

  • Eduardo Pitta (por saber que, para além de ser um amante das artes cinematográficas, ultimamente, tem andado extremamente divertido com as correntes na blogosfera);
  • Francisco Valente (por vingança, mas principalmente por saber que o Fransciso é um dos excelsos cinéfilos da blogosfera, e para descobrir que outros filmes acompanharão o 8 ½ );
  • João Gaspar (o meu co-joydivisioniano, gesto imbuído da devida curiosidade sobre a inclusão ou não do filme do recente filme Corbijn);
  • manuel a. domingos (um querido amigo invisível e, depois, já se tornou um hábito o Manel ser vítima do meu zelo lincativo nisto das correntes);
  • Pedro Correia (pela leitura dos teus textos já adivinho, mas não te escapas ao desafio, é só para confirmar).

Continuai e acorrentai, irmãos.

Nota: *título de um poema de André Breton (Tournesol, escrito em 1923): «La voyageuse qui traverse les Halles à la tombée de l'été / …»

sexta-feira, 16 de novembro de 2007

Lowry

Malcolm Lowry
Por razões que a recente linha editorial deste blogue não desmente, comprei a edição de hoje do jornal Público. O frontispício da Ípsilon evoca o atormentado Ian pela cara de Sam Riley no filme Control do holandês Anton Corbijn – já lá vão os tempos em que a centerfold ditava a compra…
Para além da tentativa de dissecação do génio musical e poético, e da curta experiência de vida de Ian Curtis, a Ípsilon, numa lógica congruente – sofredores deste mundo, uni-vos... no nosso suplemento cultural de 16 de Novembro de 2007 –, dedica grande parte do seu espaço ao escritor inglês Malcolm Lowry (1909-1957), a propósito da comemoração dos 50 anos da sua morte por desventura e dos 60 anos da publicação da sua obra máxima Debaixo do Vulcão – agora reeditado pela
Relógio D’Água, infortunadamente optando apenas pela revisão da tradução de 1961 de Virgínia Motta para a editora Livros do Brasil.
Para o leitor e meio que visita diariamente este blogue, não é de todo surpreendente a minha evocação de Lowry. Debaixo do Vulcão trata-se, de facto, de um dos livros da minha vida – incluído numa
listagem que, à laia de exercício metaliterário, aqui publiquei há quase um ano –, e Geoffrey Firmin um dos personagens mais marcantes e fascinantes da história da literatura mundial – a ele, o Cônsul britânico em Quauhnahuac, se devem algumas das minhas rememorações literárias e associações simbólicas.
Sobre este anti-herói
escrevi o que se segue – a propósito de outro criado pela pena de Iris Murdoch, o fabuloso e acidental, Austin Gibson Grey:


«A obra literária de ficção cria personagens mais ou menos ilustres, mais ou menos encantadores sob o ponto de vista do leitor/receptor, e na maioria das vezes avaliamo-la na sua globalidade, pelo todo que o mestre quis construir ao introduzir determinadas idiossincrasias. Trata-se de um simples jogo de estereótipos que conseguimos identificar nas relações que, como Homo Socialis, estabelecemos no dia-a-dia. Muitas vezes os personagens criados não perduram além da obra, noutras, porém, eles afirmam-se, ultrapassam a circunscrição dos caracteres impressos em papel e parecem ter vida própria fora dele, na nossa cabeça, nas nossas fantasias de leitores que veneram a literatura como forma de entretenimento e de íntimo preenchimento das imposições estéticas.
«Para apenas dar um exemplo do que acabei de professar – e suponho que o mesmo deverá ter ocorrido com a maioria das pessoas que leu a obra –, eis o cônsul britânico no México Geoffrey Firmin na obra-prima de Malcolm Lowry,
Debaixo do Vulcão. Por muitos anos que distem da última vez em que lemos esse tratado involuntário do existencialismo literário, as atribulações do Cônsul no dia de finados de 1938 permanecem-nos na memória, mais pela amargurada existência que se foi construindo numa série de equívocos que o conduzem à sua aniquilação através do prazer inebriante do álcool que tudo faz esquecer, do que por qualquer predestinação advinda de uma vontade exterior inaudita e que resulta de um colectivo relacional, que ao invés parece girar em torno do seu supremo individualismo, materializado no seu desprendimento pelo mundo, pelo dever, pelo amor da sua Yvonne e pela afeição do seu irmão Hugh – o Mescal e a Tequila são o refúgio, a essência...» [autocitação: "amo-me!"].


Em adjacência ao artigo principal, que ainda não li, surgem as opiniões de dois dos meus bloggers de visita virtual diária e de frequente intercâmbio de ideias via caixa de comentários ou e-mail: o Henrique Fialho e o nosso recém-convertido à hortofruticultura Rogério Casanova.